quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Puto (2014)

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Puto de Bernardo de Carvalho e Fabiana Tavares é uma curta-metragem de ficção portuguesa presente na Competição Escolas da primeira edição do Festival Internacional de Cinema de Economia e Gestão do ISEG, que hoje termina em Lisboa.
Morcego (José Pimentão) fugiu da sua pequena aldeia para tentar uma vida melhor na cidade onde agora vive as dificuldades de uma vida que não é fácil. Prostitui-se para sobreviver miseravelmente e conseguir assim ver mais um dia.
Mas depois de uma má experiência que o obriga a voltar a fugir de regresso à sua aldeia, Morcego terá de perceber que o problema não está onde se encontra mas em si que não consegue encontrar o verdadeiro lugar onde pertença.
Com um argumento também da autoria da dupla de realizadores, Puto leva o espectador a uma inesperado viagem ao submundo da prostituição e daqueles que a ela recorrem como forma de sobreviver sem, no entanto, levantar a questão sobre o passado de "Morcego", personagem habilmente interpretada por José Pimentão, não permitindo assim saber muito do seu passado para lá dos sonhos de ser alguém que achava impossível conseguir na pequena aldeia onde vivia. Tendo este desejo de fuga inerente à sua história e ao seu percurso, "Morcego" acaba por, com a passagem do tempo, tornar-se num daqueles "sem terra" que foge do seu espaço natural por não se considerar grande demais para o mesmo mas, ao mesmo tempo, nunca consegue encontrar o seu verdadeiro espaço num local que não é claramente o seu.
Encontrando-se num limbo entre o passado e o presente não tendo, no entanto, qualquer perspectiva de futuro, "Morcego" é um anónimo numa cidade grande demais que não consegue controlar, apenas remetendo-se para o já referido submundo que lhe confere o rendimento indispensável para chegar ao dia seguinte. Sem um trabalho cujo rendimento seja fixo ou tão pouco que lhe garanta a possibilidade de manter uma casa e uma vida digna, "Morcego" é apenas isso... uma alcunha na noite escura que, na prática, ninguém conhece.
José Pimentão consegue atingir o propósito da sua personagem na medida em que por um lado apresenta-nos um indivíduo que deseja o seu anonimato. Dele pouco ou nada sabemos para lá de que é um jovem prostituto que se sujeita noite após noite a alguns encontros sexuais ocasionais com outros homens que pagam por momentos de prazer com um ideal de juventude que já não possuem. Por outro, Pimentão também faz o espectador entender que os seus sonhos - também eles anónimos - são maiores e mais esperançosos sendo, no entanto, difíceis de concretizar e como tal impronunciáveis.
Sem amigos que se destaquem, "Morcego" vive num espaço aparentemente abandonado na companhia de "Mentolitos" (Pedro Gomes) outro que, como ele, parece limitar-se a passar pela vida tendo deixado os seus sonhos de lado. "Morcego" vive de encontros e momentos ocasionais com aqueles com quem se cruza. Vive de e para a noite. Vive desse anonimato que esconde aquilo que em tempos pensou e desejou. Esconde-se de tudo e de todos. Sem projectos - ele próprio não parece já recordar daquilo que fugiu - e sem um local para onde se possa dirigir e considerar como um "lar", "Morcego" foge... Mas foge principalmente dele. Foge sem rumo até um dia já não ter lugar para onde fugir.
Com uma interessante direcção de fotografia de Jorge Pereira que capta o já referido silêncio e anonimato de uma noite interminável, Puto destaca-se ainda pela direcção de arte que confere a todo o espaço uma imagem de abandono e degradação e pela sua mensagem de sobrevivência à qual se sujeita todo aquele que quer ver a cor do dia seguinte mas que para lá chegar sabe que tem de passar por momentos que irá um dia querer esquecer.
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8 / 10
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European Film Awards 2015 - as curtas-metragens nomeadas

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A Academia Europeia de Cinema divulgou hoje as quinze curtas-metragens nomeadas aos seus prémios anuais a entregar numa cerimónia que se irá realizar no dia 12 de Dezembro em Berlim, na Alemanha.
As curtas-metragens nomeadas foram seleccionadas por um júri independente nos quinze festivais participantes, sendo elas:
  • Çevirmen, de Emre Kayis (Reino Unido/Turquia) - Sarajevo
  • El Corredor, de José Luis Montesinos (Espanha) - Valladolid
  • Dissonance, de Till Nowak (Alemanha) - Berlim
  • E.T.E.R.N.I.T., de Giovanni Aloi (França) - Veneza
  • Field Study, de Eva Weber (Reino Unido) - Cork
  • Fils du Loup, de Lola Quivoron (França) - Locarno
  • Kung Fury, de David Sandberg (Suécia) - Vila do Conde
  • Kuuntele, de Hamy Ramezan e Rungano Nyoni (Dinamarca/Finlândia) - Tampere
  • Nase Telo, de Dane Komljen (Sérvia/Bósnia-Herzegovina) - Roterdão
  • Over, de Jörn Threlfall (Reino Unido) - Bristol
  • Piknik, de Jure Pavlovic (Croácia) - Drama
  • Smile, and the World Will Smile Back, de Yoav Gross, Ehab Tarabieh e a família Al-Haddad (Israel/Palestina) - Clermont-Ferrand
  • Symbolic Threats, de Mischa Leinkauf, Lutz Henke e Matthias Wermke (Alemanha) - Grimstad
  • This Place We Call Our Home, de Thora Lorentzen e Sybilla Tuxen (Dinamarca) - Cracóvia
  • Washingtonia, de Konstantina Kotzamani (Grécia) - Ghent
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terça-feira, 29 de setembro de 2015

Água (2015)

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Água de Manuel Carneiro é um documentário português em formato de curta-metragem que está presente na respectiva secção competitiva da primeira edição do Festival Internacional de Cinema de Economia e Gestão do ISEG.
Neste documentário o espectador acompanha um conjunto de imagens em movimento onde a água é a personagem principal e é, por momentos, acompanhada por um conjunto de citações e pensamentos que ao longo dos tempos vários escritores e pensadores verbalizaram sobre a mesma.
Contínua e sem parar, a água é fonte de vida, de rendimento, de actividade e, como um ciclo, é universal perpetuando-se incansavelmente dando forma e cor aos espaços por onde passa.
Geradora de um reflexo e, tal como a natureza humana, é aqui destacado que ganha a sua forma dependendo do recipiente por onde passa sendo assim adaptável e moldável.
Ajuda no trabalho, no moldar de matéria-prima, alicerça-se e ultrapassa obstáculos moldando o local por onde circula, está presente no nascimento e na vida - de tudo - mas também na morte e na destruição. A vida, tal como a morte, não se concebem sem a sua presença e o seu importante e valioso contributo.
De forma abstracta mas sempre presente através da imagem e dos sons - tal como uma tempestade na qual é um importante elemento - a água não sendo personagem é um elemento - O elemento - mais importante de toda a vida, de tudo o que existe e de tudo o que se forma que aqui é celebrada como uma homenagem onde se destaca toda a sua importância e "actividade". Por ela se vive e por ela se morre. Por ela tudo se cria e por ele se fazem guerras.
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6 / 10
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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Catherine E. Coulson

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1943 - 2015
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Premio Sur - Academia Argentina de Cinema 2015: os nomeados

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Melhor Filme
El Clan, de Pablo Trapero
La Patota, de Santiago Mitre
El Patrón, Radiografía de un Crimen, de Sebastián Schindel
Refugiado, de Diego Lerman
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Melhor Primeira Obra
La Calle de los Pianistas, de Mariano Nante
Ciencias Naturales, de Matías Lucchesi
El Incendio, de Juan Schnitman
La Salada, de Juan Martín Hsu
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Melhor Documentário
327 Cuadernos, de Andrés Di Tella
La Calle de los Pianistas, de Mariana Nante
NEY, Nosostros, Ellos y Yo, de Nicolás Avruj
Zonda, Folklore Argentino, de Carlos Saura
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Melhor Realizador
Pablo Trapero, El Clan
Santiago Mitre, La Patota
Sebastián Schindel, El Patrón, Radiografía de un Crimen
Diego Lerman, Refugiado
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Melhor Actor Protagonista
Guillermo Furriel, El Clan
Joaquín Furriel, El Patrón, Radiografía de un Crimen
Esteban Lamothe, Abzurdah
Peter Lanzani, El Clan
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Melhor Actriz Protagonista
Dolores Fonzi, La Patota
Pilar Gamboa, El Incendio
María Eugenia Suárez, Abzurdah
Julieta Zylberberg, Mi Amiga del Parque
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Melhor Actor Secundário
Fabián Arenillas, Dos Disparos
Rafael Ferro, La Vida Después
Rafael Spregelburg, Abzurdah
Diego Torres, Papeles en el Viento
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Melhor Actriz Secundária
Maricel Alvarez, Mi Amiga del Parque
Gloria Carrá, Abzurdah
Lili Popovich, El Clan
Malena Sánchez, Tuya
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Revelação Masculina
Peter Lanzani, El Clan
Sebastián Molinaro, Refugiado
Lautaro Murray, Choele
Cristian Salguero, La Patota
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Revelação Feminina
Madalena Figó, Mi Amiga del Parque
Guadalupe Manent, Sin Hijos
Laura López Moyano, La Patota
María Eugenia Suárez, Abzurdah
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Melhor Argumento Original
Pablo Trapero, El Clan
Martín Rejtman, Dos Disparos
Inés Bortagaray e Ana Katz, Mi Amiga del Parque
Diego Lerman e María Meira, Refugiado
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Melhor Argumento Adaptado
Daniela Goggi, Alejandro Montiel e Alberto Rojas Apel, Abzurdah
Eduardo Sacheri e Juan Taratuto, Papeles en el Viento
Mariano Llinás e Santiago Mitre, La Patota
Nicolás Batlle, Javier Olivera e Sebastián Schindel, El Patrón, Radiografía de un Crimen
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Melhor Montagem
Andrea Kleinman, NEY, Nosotros, Ellos y Yo
Leandro Aste, Delfina Castagnino e Joana Collier, La Patota
Alejandro Brodersohn, Refugiado
Pablo Barbieri, Vóley
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Melhor Fotografia
Julián Apezteguía, El Clan
Gustavo Biazzi, La Patota
Marcelo Iaccarino, El Patrón, Radiografía de un Crimen
Julián Ledesma, Vóley
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Melhor Música Original
Gustavo Pomeranec, Choele
Diego Monk, Delirium
Federico Jusid, Francisco. El Padre Jorge
Iván Wyszogrod, Papeles en el Viento
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Melhor Direcção Artística
Sebastián Orgambide, El Clan
Graciela Fraguglia e Luis Koldo Valles, Francisco. El Padre Jorge
Augusto Latorraca, El Patrón, Radiografía de un Crimen
Daniel Gimelberg, Sin Hijos
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Melhor Guarda-Roupa
Laura Renau, El Amor y Otras Historias
Julio Suárez, El Clan
Marcela Vilariño, Francisco. El Padre Jorge
Mónica Toschi, Sin Hijos
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Melhor Caracterização
Beata Wojtowicz, Abzurdah
Araceli Farace, El Clan
Alberto Moccia e Carolina Oclander, La Patota
Karina Camporino, El Patrón, Radiografía de un Crimen
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Melhor Som
Vicente D'Elía, El Clan
Jorge Stavrópulos, El Espejo de los Otros
Federico Esquerro, Santiago Fumagalli e Edson Secco, La Patota
José Luis Díaz, Vóley
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O Mal e a Aldeia (2013)

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O Mal e a Aldeia de Diogo Lima e David Serôdio é uma curta-metragem de ficção portuguesa em competição na primeira edição do Festival Internacional de Cinema de Economia e Gestão a decorrer até à próxima quarta-feira no ISEG, em Lisboa.
Pedro (Miguel Nunes) é apaixonado por Rosa (Júlia Belard) mas viver numa pequena aldeia é sinónimo de todos saberem da sua vida... e de algo mais.
A dupla de realizadores juntamente com Andreia Lourenço e Ana Reis escrevem o argumento desta curta-metragem que é, no fundo, uma viagem ao imaginário colectivo sobre a vida nas pequenas e perdidas aldeias do interior português... Todos se conhecem e todos sabem de tudo... Ainda que este tudo não seja, por vezes, o correspondente à verdade mas aquele que reside no íntimo de cada um e que lhes garante um pouco de agitação e energia ao poderem tecer as mais diversas ideias sobre a vida alheia. O rumor e o boato, ou como se diz em bom português... a calhandrice... são assim o serviço noticioso mais antigo do mundo... e as pequenas aldeias a sede desta globalização à referida escala.
Com uma curtíssima mas simpática interpretação de Bruno Rossi e uma fundamental - na prática o motor desta história - Custódia Gallego em mais uma das suas certamente memoráveis interpretações, O Mal e a Aldeia é uma brevíssima curta-metragem que prima pela sua simpática e bem humorada história que num estilo muito próprio consegue ainda inserir "personagens reais" na sua narrativa conferindo-lhe um ar ainda mais "credível" e que termina de forma trágic(ómica).
Interessante ainda como O Mal e a Aldeia - e de acordo com a temática deste festival - consegue em tão curto espaço de tempo inserir diversas actividades económicas e comerciais na sua história lançando uma abordagem sobre a forma como as pequenas localidades do interior sobrevivem e ainda como as mesmas conseguem lançar sobre a sua população uma verdadeira rede de interacções não se centrando apenas num local mas sim em todos os pequenos recantos da aldeia.
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7 / 10
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1º Festival Internacional de Cinema de Economia e Gestão do ISEG


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Tem início hoje a primeira edição do Festival Internacional de Cinema de Economia e Gestão do ISEG e que se prolonga até à próxima quarta-feira dia 30 de Setembro. Este festival que tem como objectivo fomentar e aumentar a produção cinematográfica e diversificar a oferta cultural do ISEG tem três secções em competição sendo elas a de Curtas-Metragens, a de Documentários e a de Filmes Escolares atribuindo em cada uma delas os prémios de Melhor Filme, Fotografia, Argumento e ainda o Prémio do Público.
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domingo, 27 de setembro de 2015

Zinemaldia - Festival Internacional de Cine de Donostia - San Sebastián 2015: os vencedores

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Concha de Oro: Sparrows, de Rúnar Rúnnarsson
Prémio Especial do Júri: Evolution, de Lucile Hadzihalilovic
Concha de Plata - Realizador: Joachim Lafosse, Les Chevaliers Blancs
Concha de Plata - Actor: Ricardo Darín e Javier Cámara, Truman
Concha de Plata - Actriz: Yordanka Ariosa, El Rey de la Habana
Fotografía: Manu Dacosse, Evolution
Argumento: Jean Marie Larrieu e Arnaud Larrieu, 21 Nuits avec Pattie
Prémio Kutxa-Nuevos Directores: Le Nouveau, de Rudi Rosenberg
Prémio do Público: Our Little Sister, de Hirokazu Kore-eda
Prémio Horizontes Latinos: Paulina, de Santiago Mitre
Prémio EZAE de la Juventud: Paulina, de Santiago Mitre
Prémio FIPRESCI: El Apóstata, de Federico Veiroj
Prémio Cine en Construcción: Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé
Prémio 'Otra Mirada', de TVE: Paulina, de Santiago Mitre
Prémio Irízar del Cine Vasco: Amama, de Asier Altuna
Prémio do Público - Filme Europeu: Mountains May Depart, de Jia Zhang-ke
Prémio Feroz Zinemaldia: Truman, de Cesc Gay
Prémio Cooperación Española: La Tierra y la Sombra, de César Augusto Acevedo
Prémio Sebastiane: Freeheld, de Peter Sollett
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African Movie Academy Awards 2015: os vencedores

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Filme: Timbuktu, de Abderrahmane Sissako
Filme em Língua Africana: Timbuktu, de Abderrahmane Sissako
Filme da Diáspora: Supremacy
Filme de Africano a residir no Estrangeiro: Fevers
Filme de Comédia: 30 Days in Atlanta, de Robert Peters
Primeira Obra: Gone Too Far, de Destiny Ekaragha
Documentário: Egypt’s Modern Pharaohs
Documentário na Diáspora: The Black Panthers: Vanguard of the Revolution, de Stanley Nelson
Filme de Animação: The Legacy of Rubies, de Ebele Okoye
Filme Nigeriano: October 1
Curta-Metragem: Twaaga, de Cedric Ido
Curta-Metragem na Diáspora: Sound of Tears, de Dorothy Atabong
Realizador: Abderrahmane Sissako, Timbuktu
Actor Protagonista: Sadiq Daba, October 1
Actriz Protagonista: Lesliana Pereira, Njinga Raínha de Angola
Actor Secundário: Samson Tadesse, Triangle Going to America
Actriz Secundária: Hilda Dokubo, Stigma
Actor/Actriz Revelação: Kemi Lala Akindoju, Dazzling Mirage e Hassan Spike Insingoma, Boda Boda Thieves
Actor Infantil: Layla Walet Mohammed e Mehdi A.G Mohammed, Timbuktu
Argumento: Le Président
Montagem: Nadia Ben Rachid, Timbuktu
Fotografia: Lobraz Khan
Banda-Sonora: Triangle Going to America
Guarda-Roupa: October 1
Design de Produção: iNumber Number
Caracterização: Njinga Raínha de Angola
Som: Lobraz Khan
Efeitos Especiais Visuais: iNumber Number
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sábado, 26 de setembro de 2015

QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer 2015: os vencedores

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Competição de Longas-Metragens
Longa-Metragem: Amor Eterno, de Marçal Forés

Actor: Nahuel Pérez Biscayart, Je Suis à Toi
Actriz: Cheng Pei Pei, Lilting
Prémio do Público: Lilting, de Hong Khaou
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Competição de Documentários
Documentário: Mów mi Marianna, de Karolina Bielawska
Prémio do Público: The Battle of the Sexes, de James Erskine e Zara Hayes
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Competição de Curtas-Metragens
Curta-Metragem: Wannan Kong Duen, de Jirassaya Wongsutin
Prémio do Público: Chá da Meia-Noite, de Sibila Lind
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Competição In My Shorts
Prémio Melhor Curta-Metragem de Escola: Irene, de Pedro Miguel
Menções Especiais do Júri: Juillet Électrique, de Rémi Bigot e Tant Pis Capítulo Um, de Bruna Rodrigues
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Competição Queer Art
Filme: Nova Dubai, de Gustavo Vinagre
Menção Especial: Pauline s'Arrache, de Émilie Brisavoine

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Beira-Mar (2015)

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Beira-Mar de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon é uma longa-metragem brasileira presente na respectiva secção competitiva desta décima-nona edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre até este sábado no Cinema São Jorge.
Martín (Matheus Almada) tem de visitar a família paterna para, na consequência da morte do avô, receber um documento que precisa de entregar ao seu pai. Tomáz (Maurício Barcellos), seu amigo de longa data, acompanha-o como forma de revitalizarem a amizade e passarem algum tempo juntos.
Depois de alguma resistência por parte da família paterna que o recebe com alguma indiferença, Martín passa as horas num convívio com Tomáz e outros amigos celebrando a sua amizade e as memórias que ambos partilham. Mas pelo meio nos espaços mais reservados sente-se um silêncio... O silêncio ruidoso que o mar transporta.
A dupla de realizadores e argumentistas Matzembacher e Reolon celebram com este filme uma sentida homenagem àquele espaço específico onde eles - e muitos de nós - recordam as suas mais ternas e saudosas experiências e momentos. Aquele espaço onde nos transformamos quer pela força da idade e do tempo que passa quer pelos acontecimentos e situações que ali vivemos e que nos mostraram como o mundo é - era - tão diferente daquilo que hoje conhecemos. No fundo, celebram o espaço onde a nossa inocência ficou depositada - e perdida - e ao qual anos passados nos custa regressar não pelo desagrado do mesmo mas sim pela imagem do que fomos antes... aquele "ser" agora irreconhecível.
Beira-Mar é não só um filme sobre esse regresso ao passado mas também uma longa-metragem que perspectiva a dificuldade das relações e interacções familiares ou sobre aquilo - aqui não mencionado - que em tantas situações provoca um afastamento entre as famílias e que com o passar do tempo perde uma própria explicação... um motivo. Aqui o reencontro acontece à custa de uma morte. A morte de um avô... a figura central de uma família que se desfez e que o passar do tempo apenas fez alimentar ressentimentos que o espectador apenas pode associar à incompatibilidade de feitios e comportamentos que aos poucos foram crescendo ao ponto de não só se encontrarem irreparáveis como injustificáveis pela forma como não foram discutidos e resolvidos.
As memórias - aquelas que "Martin" partilha - apontam para essa incompatibilidade do seu pai não só com o próprio filho, mas também para com a demais família que se distancia como segurança para não ser magoada com o seu afastamento. As memórias - no fundo aquilo de que Beira-Mar trata - outrora perfeitas são agora meras lembranças distantes que ninguém ousa mencionar e a criação de elos com alguém que agora chega e que no fundo mal se conhece são, à partida, difíceis de estabelecer. Afinal, "Martin" mais não é para a sua avó, tio e prima a memória de um filho e irmão que partiu sem nada mais dizer, originando assim uma recepção que não só é fria e tensa como distante e (in)diferente.
Por outro lado temos ainda a relação de "Martin" e "Tomáz" que é inicialmente o espelho de dois amigos que se reencontram e tentam reatar laços, recordando o seu passado e a cumplicidade que é notória. A interacção entre os dois jovens - convincentes Almada e Barcellos - tanto se sente de dois amigos como aquela tida entre dois namorados cúmplices e cujos detalhes da sua intimidade são mutuamente conhecidos. Existem segredos, provavelmente aqueles que nenhum ousa contar com medo da incompreensão do outro, mas que se dissipam com a sugestão criada através de pequenos detalhes... os movimentos aquando de um jogo de playstation... o eterno jogo da garrafa que sugere uma proximidade (não) confirmada, ou até mesmo a eventual nudez que surge como mote para um olhar mais ou menos indiscreto confirmando assim um desejo latente.
Por um lado temos um "Martín" perdido entre uma casa física e uma psicológica que o impedem de partir com convicção rumo a uma delas e que, como o próprio confirma, o fazem anos e anos sem fim recordar um momento específico na sua vida como se de um sonho recorrente se tratasse. Por outro a certeza de "Tomáz" numa amizade que pode vir a ser um pouco mais e que se revela como um desejo não tão secreto de ambos.
No final o mar... o azul do mar (tal como o do cabelo de "Tomáz") confirmam que "Martin" tem realmente uma casa.. junto do azul que o conforta, que o seduz e o faz esquecer o que se encontra à sua volta bem como aquele pensamento persistente sobre qual será o seu verdadeiro lugar. O próprio sabe que tem de voltar à sua casa mas não será esta ali junto da avó e tio perto do mar que está sempre presente no seu pensamento?
Beira-Mar deixa mais perguntas em aberto do que aquelas a que dá realmente uma resposta... No fundo, reflecte mais sobre o que não se disse do que sobre aquilo que foi proferido... Irá "Martin" regressar a casa ou ficar pela sua terra natal? Irá ele voltar daquele banho matinal do mar ou desaparecer sem deixar rasto? Ficará a sua relação com "Tomáz" apenas pela amizade que sempre os uniu ou irá desenvolver para algo mais? O que acontecerá se o documento que tinha de levar ao pai nunca chegar na realidade? Existirá uma relação familiar no futuro ou tudo ficará no esquecimento como antes? É esta falta de resposta que acaba por se tornar num dos mais interessantes aspectos deste filme que prima pela sugestão e pelo registo de uma memória sem, no entanto, se confinar à mesma, permitindo assim ao espectador celebrar e obter as suas próprias respostas presas apenas ao seu próprio subconsciente e não a um pré-julgamento feito e que poderá apenas colmatar as respostas de alguns de nós.
A química entre a dupla Almada e Barcellos é, também ela, um dos pontos fortes desta longa-metragem que celebra acima de tudo o poder da confiança apenas inerente a uma forte e cúmplice amizade não esquecendo, no entanto, marcantes personagens secundárias como o ambíguo "Bento" interpretado por Fernando Hart, a intensa avó "Marisa" de Irene Brietzke ou o intenso e não tão rude "Maurício" de Francisco Gick e que deixam o nosso imaginário divagar sobre o seu passado, os seus traumas e questões por responder. No fundo, todos eles parecem ter, com o tempo, perdido algo que apagou um pouco da luz que anteriormente possuíam vivendo no silêncio das suas acções a mágoa que não conseguem esquecer.
Com uma direcção de fotografia de João Gabriel de Queiroz que toca na excelência capturando uma luz, cor e sombras que apenas podemos equiparar aos de um conto tradicional e popular que remetem o espectador para uma dimensão quase etérea, Beira-Mar prima ainda por uma sensível música original de Felipe Puperi e do próprio Matheus Almada confirmando a excelência de um novo cinema brasileiro e confirmando-se como uma dos mais fortes títulos da competição de longas-metragens desta edição do QueerLisboa.
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8 / 10
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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Mów mi Marianna (2015)

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Mów mi Marianna de Karolina Bielawska é um documentário em formato de longa-metragem polaco em Competição na sua respectiva categoria na décima-nona edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre no Cinema São Jorge até ao próximo sábado.
Marianna é uma mulher nos seus quarenta que atravessa uma delicada fase na sua vida. Com um processo em tribunal contra os pais que a impedem de mudar de identidade de género, com a sua família distante desde que assumiu a sua verdadeira identidade e com a proximidade da operação que irá, finalmente, fazer dela aquilo que sempre foi... uma mulher.
Mów mi Marianna acompanha assim estes largos instantes na vida desta mulher que luta pela afirmação do seu verdadeiro "eu" mesmo contra todos aqueles que sempre a haviam conhecido como homem e que a impedem de viver uma vida plena e livre assumindo aquilo que sente ser.
Ao contrário daquilo que muitas obras normalmente transmitem da vida passada daquele que retratam, este documentário centra-se quase na sua totalidade no conhecimento de Marianna, uma mulher que abdicou de tudo e de todos para conseguir encontrar a sua última réstia de esperança com uma vida na qual se sentia inserida com a sua verdadeira identidade. Uma vida longe de um sofrimento tido em silêncio que muito lentamente a consumia apenas para respeitar os padrões convencionais e pré-estabelecidos de que quem nasce homem será sempre homem. Abdicando dos pais, da mulher e das filhas e de todos aqueles com quem sempre havia privado, Marianna afasta-se de uma vida com todos os confortos e laços afectivos respeitando o seu ser, sujeitando-se assim a longos conflitos judiciais - dos quais apenas tomamos conhecimento não sendo o espectador alguma vez inserido no mesmo -, ao distanciamento de uma família incapaz de a ter tal como ela é e às demais humilhações públicas que o espectador conhece também através de um seu relato.
Quando tudo parecia encaminhado para que a identidade legal e física de Marianna fosse finalmente reconhecida, ela sofre um grave problema de saúde que a obriga a toda uma nova dinâmica e novo processo cognitivo como se uma vez mais partisse da "estaca zero" rumo a todo um novo caminho de árduas batalhas que teriam de ser suplantadas.
Nunca como uma mártir mas sim com uma extrema vontade de se afirmar enquanto ser digno da sua real identidade, Mów mi Marianna aborda uma etapa da sua vida onde a vemos tudo ter perdido... tudo ter ganho... e novamente perdido. Tudo em pouco mais de setenta minutos que nos brindam com um espírito livre capaz de viver contente com as limitações que lhe são colocadas ao seu redor, com as dolorosas lembranças de um passado vivido em silêncio e uma dor psicológica que estando presente não a condicionaram ao medo. Marianna sente-se - e faz-se sentir - como uma mulher forte, determinada e capaz de ultrapassar "mais um" obstáculo, cujo passado a moldou e fez tremer a sua confiança vendo (esperando) nos outros uma aceitação que só ela conseguirá ter e que agarra estes minutos do documentário em que participa como um legado que deixa para que testemunhemos o seu percurso.
Com um conjunto admirável de emotivos segmentos que fazem o espectador criar uma proximidade para com o seu percurso é, no entanto, o breve - muito breve - relato do "presente" que os seus colegas de trabalho lhe oferecem que se torna naquele que é eventualmente o mais empático de todo o documentário. Empático não pelo bárbaro acto tido mas sim pela forma como muito dignamente Marianna o ultrapassou vendo nele não a tal humilhação desejada mas sim a força necessária para sentir convictamente que a dignidade encontra-se no seu íntimo e não naquilo que os demais esperam que ela seja (ou fosse).
Longe de qualquer lágrima fácil ou tão pouco de qualquer tipo de comiseração, Mów mi Marianna assume-se como um documentário que relata tudo tal como é. Os entraves, as etapas ultrapassadas, as esperanças e os medos mas sobretudo os amores... aqueles que teve... aqueles que tem e sobretudo aquele que sente por si própria ao conseguir finalmente debater-se pela sua identidade.. pelo seu "eu" interior e que lhe era recusado por um papel "legal". Inteligente está também a forma encontrada para nos dar a conhecer o seu passado através de uma encenação teatral que (a) expõe momentos que nunca poderemos ver por não se encontrarem gravados, mas que retratam de forma cândida - pela sua aceitação - mas brutal, todo um conjunto de histórias e momentos que apenas Marianna saberá como os conseguiu ultrapassar.
Após a exibição do documentário, a realizadora esteve presente na sala para falar sobre a sua execução, sobre a primeira interacção com Marianna e o seu desejo de contar a sua história estando, no entanto, como uma peça quase invisível do mesmo. Como uma nota pessoal... ainda bem que Mów mi Marianna não foi feito denotando esta "invisibilidade" mas sim conferindo um rosto a uma alma grande o suficiente para conseguir contar com amena tranquilidade o seu presente, o que espera do seu futuro mas principalmente o seu passado não só através da já referida encenação teatral mas também através dos pequenos segmentos em vídeo que permitem ao espectador entrar naquela que foi a sua outra vida. Numa pequena e muito concisa palavra... Brilhante!
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9 / 10
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Shortcutz Viseu - Sessão #60

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Depois da cerimónia de segundo aniversário que premiou Mulher. Mar., de Filipe Pinto e Pedro Pinto como a Melhor Curta-Metragem do Ano, eis que o Shortcutz Viseu regressa para a Sessão #60 dando assim início ao terceiro ano de exibição daquilo que de melhor se faz no cinema curto português.
Assim, no já habitual segmento das Curtas-Metragens em Competição serão exibidas O Silêncio Entre Duas Canções, de Mónica Lima e ainda The Bad Girl, de Ricardo Machado que estará presente para a apresentação do seu filme.
No segmento Projecto Convidado estará presente DuoStrangloscope - Rafael Schlichting e Cláudia Cárdenas - do Brasil que trazem os filmes Nuclear Emulsion e Time Gap.
Dito isto amanhã a partir das 22 horas o sítio para se estar é o Carmo'81, na Rua do Carmo em Viseu para aquilo que de melhor se faz em cinema curto.
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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Carlos Álvarez-Nóvoa

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1940 - 2015
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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Prémios Fénix de Cinema Ibero-Americano 2015: os nomeados

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Melhor Filme
El Abrazo de la Serpiente, de Buffalo Films, Ciudad Lunar, MC Producciones e Nortesur
Cavalo Dinheiro, de Sociedade Óptica Técnica
El Club, de Fábula
La Isla Mínima, de Antena 3 Films, Atípica Films e Sacromonte Films
Ixcanul, de La Casa de Producción e Tu Vas Voir
As Mil e Uma Noites - Volume 1: O Inquieto, Volume 2: O Desolado e Volume 3: O Encantado, de O Som e a Fúria, Box Productions, Komplizen Film e Shellac Sud
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Melhor Documentário
Allende Mi Abuelo Allende, de Marcia Tambutti Allende
El Botón de Nacár, de Patricio Guzmán
Jia Zhang Ke, de Walter Salles
No Todo es Vigilia, de Hermes Paralluelo
Últimas Conversas, de Eduardo Coutinho
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Melhor Realizador
Ciro Guerra, El Abrazo de la Serpiente
Pedro Costa, Cavalo Dinheiro
Pablo Larraín, El Club
Alberto Rodríguez, La Isla Mínima
Miguel Gomes, As Mil e Uma Noites - Volume 1: O Inquieto, Volume 2: O Desolado e Volume 3: O Encantado
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Melhor Actor
Alfredo Castro, El Club
Roberto Farías, El Club
Javier Gutiérrez, La Isla Mínima
José Sacristán, Magical Girl
Ventura, Cavalo Dinheiro
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Melhor Actriz
Regina Casé, Que Horas Ela Volta?
Geraldine Chaplin, Dólares de Arena
Dolores Fonzi, La Patota
Bárbara Lennie, Magical Girl
Antonia Zegers, El Club
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Melhor Argumento
Pedro Costa, Cavalo Dinheiro
Daniel Villalobos, Guillermo Calderón e Pablo Larraín, El Club
Alberto Rodríguez e Rafael Cobos, La Isla Mínima
Carlos Vermut, Magical Girl
Mariana Ricardo, Miguel Gomes e Telmo Churro, As Mil e Uma Noites - Volume 1: O Inquieto, Volume 2: O Desolado e Volume 3: O Encantado
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Melhor Montagem
Gabriel Ripstein e Santiago Pérez Rocha, 600 Millas
João Dias, Cavalo Dinheiro
Sebastián Sepúlveda, El Club
José M. G. Moyano, La Isla Mínima
Telmo Churro, Miguel Gomes e Pedro Filipe Marques, As Mil e Uma Noites - Volume 1: O Inquieto, Volume 2: O Desolado e Volume 3: O Encantado
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Melhor Fotografia - Ficção
Alain Marcoen, 600 Millas
David Gallego, El Abrazo de la Serpiente
Sergio Armstrong, El Club
Luis Armando Arteaga, Ixcanul
Mateo Guzmán, La Tierra y la Sombra
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Melhor Fotografia - Documentário
Katell Dijan, El Botón de Nacar
Miguel Salazar, Carta a una Sombra
Matías Iaccarino, Cuerpo de Letra
Julián Elizalde, No Todo es Vigilia
Jacques Cheuiche, Últimas Conversas
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Melhor Música
Nascuy Linares, El Abrazo de la Serpiente
Che Cum-be, DJ Negro Dub e Sebastián Wesman, Fávula
Julio de la Rosa, La Isla Mínima
Emmanuel del Real, Ramiro del Real e Renato del Real, Las Oscuras Primaveras
La Foca, La Vida de Alguién
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Melhor Som
Carlos García, El Abrazo de la Serpiente
Ivo Moraga, Mauricio Molina, Miguel Hormazábal, Roberto Zúñiga e Salomé Román, El Club
Daniel de Zayas, Nacho Royo-Villano e Pelayo Gutiérrez, La Isla Mínima
Beatrix Moersch, Eduardo Cáceres Staackmann e Julien Cloquet, Ixcanul
Coque Fernández Lahera, José Luis Fernández, Marc Orts e Sergio Bürmann, El Niño
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Melhor Guarda-Roupa
Jericó Montilla, 3 Bellezas
Catherine Rodríguez, El Abrazo de la Serpiente
Laura García de la Mora, Carmín Tropical
Fernando García, La Isla Mínima
Sofia Lantan, Ixcanul
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Melhor Direcção Artística
Angélica Perea, El Abrazo de la Serpiente
Pepe Domínguez, La Isla Mínima
Pilar Peredo, Ixcanul
Carlos Vermut, Magical Girl
Bruno Duarte e Artur Pinheiro, As Mil e Uma Noites - Volume 1: O Inquieto, Volume 2: O Desolado e Volume 3: O Encantado
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Os vencedores dos Prémios Fénix de Cinema Ibero-Americano serão conhecidos numa cerimónia a realizar no próximo dia 25 de Novembro na Cidade do México, no México.
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Emmy 2015: os vencedores

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Drama
Série: Game of Thrones
Realizador: David Nutter, Game of Thrones
Actor: Jon Hamm, Mad Men
Actriz: Viola Davis, How to Get Away with Murder
Actor Secundário: Peter Dinklage, Game of Thrones
Actriz Secundária: Uzo Aduba, Orange is the New Black
Actor Convidado: Reg E. Cathey, House of Cards
Actriz Convidada: Margo Martindale, The Americans
Argumento: Game of Thrones
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Comédia
Série: Veep
Realizador: Jill Soloway, Transparent
Actor: Jeffrey Tambor, Transparent
Actriz: Julia Louis-Dreyfus, Veep
Actor Secundário: Tony Hale, Veep
Actriz Secundária: Allison Janney, Mom
Actor Convidado: BradleyWhitford, Transparent
Actriz Convidada: Joan Cusack, Shameless
Argumento: Veep
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Telefilme ou Mini-Série
Telefilme: Bessie
Mini-Série: Olive Kitteridge
Realizador: Lisa Cholodenko, Olive Kitteridge
Actor: Richard Jenkins, Olive Kitteridge
Actriz: Frances McDormand, Olive Kitteridge
Actor Secundário: Bill Murray, Olive Kitteridge
Actriz Secundária: Regina King, American Crime
Argumento: Olive Kitteridge
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domingo, 20 de setembro de 2015

Lilting (2014)

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Lilting de Khaou Hong é uma longa-metragem britânica presente na secção competitiva da décima-nona edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa até ao próximo dia 26 de Setembro.
Junn (Pei-Pei Cheng) é uma mulher Cambodjana-Chinesa a residir na Londres actual. Fiel a um tradicionalismo que não foi abalado pela sua presença na capital britânica, Junn está de luto pela recente morte de Kai (Andrew Leung), o seu único filho.
Quando Richard (Ben Whishaw) chega ao lar em que Junn vive, esta sente um imediato incómodo com a sua presença - antigo companheiro de apartamento de Kai - e a relação entre ambos oscila entre a tensão e o mútuo conhecimento para os quais muito contribui a falta de uma língua comum na qual comunicarem.
O argumento também da autoria do realizador estabelece um conjunto de dilemas e questões muito interessantes e que, a bem da verdade, o colocam como o mais forte filme desta competição de longas-metragens e um dos filmes mais dramaticamente intensos do ano. Em primeiro lugar, Lilting tece uma linha condutora que se prende com a silenciosamente penosa dor de uma mãe que perde o seu filho em condições drásticas. Não se tendo despedido dele como esperava, "Junn" transforma-se numa mulher que devido ao seu conservadorismo, a dor é um sentimento vivido em silêncio que a colhe lentamente e que lhe incute todo uma sensação de perda inexplicável não só por nunca ninguém se preparar para tal dor como também por se encontrar num local diferente das suas origens e no qual não tem ninguém com quem a partilhar. Ela é, essencialmente, uma mulher perdida no tempo - vê o filho partir antes dela - e no espaço - por se sentir como alguém longe do único local onde poderia melhor gerir a sua dor.
É também esta incomunicabilidade, inicialmente linguística, que é apenas colmatada com a presença de "Vann" (Naomi Christie), uma tradutora que serve de intérprete entre "Junn" e "Allan" (Peter Bowles) - um companheiro do lar que se sente atraído por ela - e que finalmente acaba por servir também de elo de ligação entre ela e "Richard". É então a partir deste instante que surge uma relação de repúdio e distanciamento entre "Junn" e "Richard" que será apenas terminada com a compreensão da real dimensão da relação entre este e "Kai". A expressão da memória que ambos têm é agora possível de relatar mutuamente e conseguirem assim compreender até que ponto era "Kai" importante - o mais - na vida de cada um. "Kai" vivia dividido entre um amor materno e um amor físico e romântico que, no entanto, tinha também ele de ser manifestado no silêncio conferido pelas quatro paredes do seu apartamento. Era esta impossibilidade de manifestação pública - não que fosse uma necessidade mas sim um gesto afectivo normal - do mesmo que remeteu a sua relação para um claustro impossibilitando-o de se desenvolver e afirmar. A impossibilidade de comunicar manifesta-se, uma vez mais, através de "Junn" e do potencial romance que despoleta com "Alan" mas que rapidamente termina por se encontrarem em momentos distintos das suas vidas e com todo um fosse cultural pelo meio.
Finalmente o argumento de Lilting tenta - e consegue - ultrapassar as barreiras que identifica - quer sejam de afectividade, de comunicabilidade ou até mesmo de afirmação - conferindo às suas personagens aquilo que no fundo era essencial para a sua auto-pacificação, ou seja, "Richard" precisava de encontrar um lugar seguro junto dos pertences daquele com quem partilhou vários anos da sua vida enquanto que "Junn" precisava encontrar uma redenção com o seu filho e perceber o que fora que ficou por dizer. Impossibilitados de encontrar em "Kai" uma resposta directa às suas questões, ambos encontram na memória que partilham dele a serenidade que precisavam para que o dia seguinte fosse possível de suportar e de ser vivido.
Com um conjunto de notáveis secundários são, no entanto, as duas interpretações protagonistas com os seus antagonismos e dor individual que se destacam e entregam uma força motora a toda uma história que se prende e entrega com base nos afectos - ou sua falta - e fazendo de duas "personalidades" imediatamente opostas possíveis aliados que partilham uma raíz comum. Pei-Pei Cheng tem uma interpretação desarmante enquanto uma mãe que vive o desaparecimento do seu filho num silêncio ruidoso. Chora-o internamente, e sente a sua falta consumindo-se de forma irreparável... tendo tantas questões que lhe gostaria de fazer e pequenos pedidos que lhe fariam recordar a sua cultura e o seu espaço, como poderá ela agora viver uma vida tranquila mantendo-se num limbo entre dois mundos tão distintos ao mesmo tempo que conhece a realidade do seu filho?
Ao mesmo tempo, Ben Whishaw que o espectador já conhecer de intensas interpretações como Perfume: The Story of a Murderer (2007), I'm Not There (2007), Bright Star (2009) ou Cloud Atlas (2012), entrega mais uma intensa interpretação como "Richard", alguém que estando no seu espaço cultural natural encontra-se, também ele, perdido num mundo de incertezas e futuro desconhecido, tentanto confortar uma mulher que perdeu o seu filho... Filho esse que era a sua paixão e não podendo com ela chorar a sua memória ou partilhar as suas recordações, desejos, aspirações e medos.
Com uma notável excelência técnica onde se destaca a composição do espaço que oscila entre o pacífico e misterioso extremo oriente e a cosmopolita Londres, acentuados por uma emotiva música original de Stuart Earl, Lilting é um portento e um dos mais originais e intensos filmes dramáticos deste último ano naquela que é uma das melhores e mais acertadas escolhas de toda a programação do QueerLisboa.
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"Junn: Through plenty of crying, I've learnt to be content that I won't always be happy, secure in my loneliness, hopeful that I will be able to cope. Every year on Christmas Day I get very lonely. An incredible feeling of solitude. On this day, everything has stood still, even the trees have stopped rustling, but I'm still moving, I want to move, but I have nothing to move to, and nowhere to go. The scars beneath my skin suddenly surface and I get scared. Scared of being alone."
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10 / 10
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Jack Larson

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1928 - 2015
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Spunk (2015)

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Spunk de António da Silva é um documentário em formato de curta-metragem português presente na secção Hard Nights de homenagem ao realizador português da décima-nona edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa até ao próximo dia 26 de Setembro.
Este documentário sobre as novas tecnologias e as novas formas de interacção e sedução sexual encontra-se subdividido naquilo a que poderemos chamar de dois distintos segmentos. O primeiro sobre as tecnologias propriamente ditas e a forma como evoluíram... Sobre a utilização da informática como forma de se poderem proporcionar encontros e contactos sexuais e que, com o tempo, evoluiu para o exibicionismo e uma certa provocação online desde os primódios da internet aos actuais chat's e sites de conversação com câmara ou o mais recente modelo de telemóvel que tornam o distante próximo.
O segundo segmento de Spunk prende-se com o acto propriamente dito. Com o exibicionismo e as fantasias criadas de um lado da câmara com a perfeita consciência que do outro lado a libido, a excitação e o prazer estão a ser provocados e estimulados. É neste segundo momento que existe um acto sem existir um contacto físico real, onde o prazer devém do voyeurismo, da provocação e da excitação de um momento que de um lado é correspondido pela imagem (real) que se obtém do outro.
No fundo, se de um lado existe um gosto pelo espectáculo, pelo exibicionismo e, muitas vezes, também pelo próprio dinheiro considerando que muitos se mostram a troco de um crédito - uma nova forma de peep hole - não é menos verdade que do outro lado existe uma gosto pela excitação, provocação e imaginação que são gerados por este jogo a duas mãos (piada de duplo sentido de lado).
Se para uns é clara a excitação física de momento, outros há que falam numa viagem que se inicia nos prazeres da carne como forma de atingir o espírito mas todos, sem qualquer excepção, denotam um evidente prazer na dinâmica de observar e ser observado, de ver e ser visto e de fantasiar como forma de chegar ao outro eventualmente entre pessoas que em situações reais e próximas se distanciariam pelo preconceito para com um rosto, um corpo ou algumas formas mas que ali atingem um nível de cumplicidade inesperado e improvável.
Implícito a este novo tipo de sexualidade está a capacidade de quem se exibe ter aquilo que o outro que observa procura, sabendo-o usar e potencializando assim a sensação de prazer e clímax desejado independentemente do tipo de espectáculo ou fetiche que cada um tem ou imagina ter e, uma vez atingido, esta nova forma de sexualidade faz os seus intervenientes dissiparem-se de forma anónima no espaço que naquele momento ocuparam. Rostos visíveis mas desconhecidos no meio do mundo cibernético que facilitam o contacto entre todos que na realidade nunca se conhecem... essencialmente mais não são do que puras e momentâneas fantasias que se concretizam.
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7 / 10
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European Film Awards 2015 - os nomeados ao European Discovery Award

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A Academia Europeia de Cinema divulgou hoje durante o Festival Internacional de Cinema de Oldenburg, na Alemanha, os nomeados ao European Discovery - Prix FIPRESCI que será entregue no próximo dia 12 de Dezembro em Berlim, na Alemanha, durante a cerimónia anual dos European Film Awards.
Os European Discovery - Prix FIPRESCI são entregues a uma jovem promessa do cinema europeu que dirige a sua primeira obra em formato de longa-metragem, tendo os cinco finalistas nomeados sido escolhidos por um comité onde figuravam o membro da Academia Europeia de Cinema Dagmar Jocobsen (Alemanha), Mihai Chirilov do Festival de Cinema de Cluj (Roménia), Lynda Myles da Pandora Productions (Reino Unido), Gerwin Tamsma do Festival Internacional de Cinema de Roterdão (Holanda) e ainda Krzysztof Kwiatkowski (Polónia), Marco Spagnoli (Itália) e Neil Young (Reino Unido), os representantes FIPRESCI - a Federação Internacional de Críticos de Cinema, sendo eles:
  • Ich Seh Ich Seh, de Veronika Franz e Severin Fiala (Áustria)
  • Limbo, de Anna Sofie Hartmann (Alemanha/Dinamarca)
  • Mustang, de Deniz Gamze Ergüven (França/Alemanha/Turquia)
  • Slow West, de John Maclean (Reino Unido/Nova Zelândia)
  • Im Sommer Wohnt er Unten, de Tom Sommerlatte (Alemanha/França)

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Limanakia (2014)

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Limanakia de António da Silva é uma curta-metragem portuguesa presente na secção Hard Nights - António da Silva da décima-nona edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Esta curta-metragem transporta o espectador para Limanakia, uma área a sul de Atenas, na Grécia que é uma zona rochosa junto ao mar frequentada por muitos homossexuais locais e turistas que ali tomam banhos de sol, mar e ocasionais encontros sexuais.
Desde o primeiro instante que o realizador português transporta o espectador para um traço já seu habitual - o voyeurismo - mas aqui para lá de documentar os rituais de sedução e prazer aos quais já nos habituou, constrói um filme que mescla a ficção ao transformar aquele local num espaço francamente surrealista onde os corpos são filmados como se de antigas estátuas e figuras mitológicas se tratassem remetendo o público para o imaginário dos antigos contos clássicos da História.
Assim, se por um lado temos um registo das práticas e dos encontros daqueles que frequentam o local cujos propósitos variam entre o disfrutar do clima ao disfrutar dos ocasionais encontros sexuais que ali se proporcionam, não é menos verdade que é em torno destes que é (in)voluntariamente construída uma história mitológica, sexual, romântica que se sobrepõe através de um conjunto de imagens editadas que transmitem ao espectador uma continuidade narrativa ainda que, muitos destes momentos se percebam mais distantes uns dos outros do que aquilo que o lado ficcionado tende a querer mostrar.
Sem expôr qualquer rosto - tal como muitas das estátuas da Antiguidade Clássica que apenas exibem o corpo como o (um) ideal de beleza - Limanakia exibe sem qualquer pudor o físico masculino sob as mais diferentes formas, curvas e tamanhos remetendo o espectador para um claro culto do corpo, do sexo, do prazer e do voyeurismo - deles e nosso - apenas abafados pelo som mais ou menos intenso da água do mar que acompanha ritmicamente os momentos de prazer que estes homens procuram e têm.
Assertivo tal como as demais obras de António da Silva já aqui comentadas, Limanakia diverge das mesmas ao afastar-se um pouco do lado documental já evidenciado, entrando claramente num domínio mais ou menos ficcionado, e que deixa o seu público a questionar-se sobre como será uma sua obra que exiba mais propositadamente esta nova característica.
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7 / 10
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Doggers (2015)

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Doggers de António da Silva é um documentário em formato de curta-metragem português presente na secção Hard Nights - António da Silva dedicada ao trabalho do realizador no âmbito da décima-nona edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Num parque de estacionamento público junto ao Estádio do Jamor, uma câmara oculta captura as mais diversas interacções sexuais entre homens. Com carros estacionados ou a circular muito lentamente, a sedução e o "engate" acontece de forma espontânea independentemente da idade, físico, estrato social ou marital. De forma natural e algo "animal", põem em prática alguns dos desejos e fantasias que a rotina diária habitual os inibe de realizar.
Seguindo a tradição de documentários provocadores e profundamente voyeuristas - do realizador enquanto quem cria e do espectador que assiste - como o que já havia feito com Bankers (2012) ou Cariocas (2014), António da Silva estreia Doggers seguindo a premissa do termo britânico dogging - encontros ocasionais em parques de estacionamento para observar outras pessoas em acto sexual num comportamento semelhante àquele tido pelos cães - e entregando este documentário que de forma explícita nos apresenta as práticas ali registadas.
Todos filmados de forma anónima mas deixando a percepção de que alguns não se importam e percebem estar a ser filmados, Doggers apenas faz ecoar os sons exteriores ao espaço - carros que circulam na estrada principal - servindo assim da camuflagem perfeita para as longas horas de sexo que aquele parque esconde.
Longe de qualquer conceito moral sobre a sexualidade e a sua prática que ficam literalmente "à porta", estes homens apenas satisfazem a sua libido de forma anónima... Sem se conhecerem e apenas dando resposta ao desejo latente, o espectador percebe que as suas origens, idade, estrato social e inclusive marital - não esquecer que várias são as alianças de casamento que por ali circulam - são diversas. Aquele parque e aquele espaço situam-se assim no domínio de uma liberdade escondida e que não corresponde necessariamente às noções de "moral" - por muito subjectivas que sejam - que se apregoam noutros locais.
Outro é o som que acompanha o espectador e que faz - por diversas ocasiões - sorrir... A rádio está sempre ligada ora com música ora com política e publicidade. Fala-se nos filmes e literatura erótica que alguns políticos lêem enquanto assistimos a explícitos actos sexuais em plena luz do dia... Condenam-se uns, condenam-se os outros... Mas resta a pergunta na mente de quem observa... Condenar quem e porquê? Qual a noção de moralidade que cada um tem e o porquê de se preocupar com os actos alheios? Mas o humor não pára por aqui quando escutamos publicidade a produtos dentífricos enquanto observamos... sexo oral.
Muito para lá de uma rápida condenação dos actos alheios, aquilo que Doggers deixa mais marcado no espectador é a já referida "necessidade" de condenar os mesmos, ou seja, se a dita sociedade impõe um padrão de sexualidade "normal" ou "normalizado" perante todos como praticar aquela para qual cada um sente como sendo a sua manifestação de prazer que não seja fazê-lo de forma anónima, oculta para os olhares comuns e onde todos se evidenciam como um entre muitos longe de qualquer condenação pública?
Eventualmente não será um documentário fácil para todos ou tão pouco aconselhável pois muitos irão considerar pornografia gratuita sem qualquer subtexto mas, ainda assim, não deixa de ser uma obra provocatória - mais uma - de António da Silva que tenta quebrar mitos de "perfeição" e "moralidade" quando ela, na prática, nunca existiu.

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7 / 10
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sábado, 19 de setembro de 2015

A Escondidas (2014)

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A Escondidas de Mikel Rueda é uma longa-metragem espanhola presente na secção competitiva de longas-metragens da décima-nona edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa até ao próximo dia 26 de Setembro.
Ibrahim (Adil Koukouh) é um jovem marroquino de quatorze anos que se encontra num centro de refugiados numa qualquer cidade espanhola. Um dia cruza-se com Rafa (Germán Alcarazu), um jovem espanhol da mesma idade e que tal como Ibrahim, pratica pólo aquático.
Entre os dois desenvolve-se uma química imediata que os faz quererem aproximar-se mas, para não saírem daquele que é considerado o seu "círculo normal", é às escondidas que a sua amizade e primeiro amor se desenvolve.
A segunda longa-metragem do realizador espanhol que é também autor do seu argumento, cruza um conjunto de elementos que a fazem transformar-se não só numa história sensível de auto-descoberta como também uma que aborda de forma franca e séria assuntos que estão tão na ordem do dia nesta Europa como a crise de refugiados bem como aqueles que aos poucos deixam de ser temas tabu como a homossexualidade adolescente e que de forma cândida demonstram que o poder da amizade ultrapassa todas as fronteiras - e barreiras - que a comunidade tenta por vezes manter vivas.
A Escondidas tem uma interessante abordagem sobre as diferenças que podem inicialmente colocar-nos num grupo e que, ao mesmo tempo, nos excluem dos demais que será o mesmo que dizer, uma vez tendo garantido a entrada num todos os restantes são obrigatoriamente diferentes e indesejados criando por um lado um sentimento de pertença e inclusão mas por outro um de exclusão e indiferença deixando os intervenientes - neste caso "Ibrahim" e "Rafa" - divididos entre dois mundos que podem ser pequenas partes do seu próprio "eu". Como resultado último, é esta dualidade que os coloca como agentes solitários naquele que poderia ser o seu "meio" vivendo assim uma sensação de auto-exclusão no mesmo.
Se por um lado o espectador é então inserido nesta dinâmica - ou falta dela - de grupos, não é menos verdade que assiste com a mesma distância a uma crescente e inicial atracção entre os dois jovens sendo inicialmente uma amizade que rapidamente se torna perceptível ser a origem de algo mais. O primeiro beijo, retirado após consequências mais extremas, revela que existe e se criou entre "Ibrahim" e "Rafa" um elo mais forte do que aquele que esperavam. A descoberta do "outro" e da própria sexualidade ganham então um novo rumo quando surge "Marta" uma jovem adolescente que revela uma paixoneta por "Rafa" e que é "aprovada" pelos amigos desconhecedores daquilo que realmente faz vibrar o seu jovem coração.
É então neste misto de dilemas que o espectador assiste não só a uma história de auto-descoberta - sentimental e nunca sexual - mas que também é sobre o poder da amizade, sobre os elos infinitos que esta consegue estabelecer e principalmente sobre a pureza da mesma quando sentida sem perguntas, sem favores e sem contrapartidas. Mas, é também uma história sobre o intenso drama dos refugiados que chegam à Europa vindos de condições quase sempre desconhecidas e que apenas agora têm sido dadas a conhecer à população. Histórias essas que os próprios tentam esquecer - "Ibrahim" nunca revela em que condições chegou ao nosso continente sendo para ele um assunto tabu - mas que percebemos serem extremas e penosas e que não termina aquando da sua chegada à Europa. É aqui que todo o drama ganha novos contornos estando aqueles que requerem asilo constantemente à espera que este seja negado e que tenham pela frente toda uma viagem de regresso às suas origens onde eventualmente a morte os espera.
Pelo caminho - ou viagem - o que reter? Guarda-se uma esperança, a ideia da oportunidade, um espaço possivelmente mais seguro e tranquilo... Mas principalmente a hipótese de um amor - ainda puro e que nada cobra - e sobretudo as amizades daqueles que se arriscam e à sua própria segurança para manter tranquilos aqueles a quem (se) dedica(m) de coração. Pelo caminho fica também a esperança de que toda esta história seja observada com alguma distância por alguém próximo que possa ver nela uma história de transformação... de uma nova perspectiva... aqui representada por "Guille" (Joseba Ugalde), o eterno amigo de "Rafa" que assiste a toda uma sua transformação num silêncio comprometedor mas que também a ele o definem como um amigo verdadeiro.
O futuro - desconhecido - apenas se define pelas experiências que toda esta era na vida destes jovens lhe transmitiu... o valor e o poder da amizade... a entrega a um amor puro... a confiança que se pode ter no "outro" e principalmente a quebra de barreiras socialmente - ou culturalmente - impostas que, na prática, nada definiam a não ser a própria exclusão.
Com sentidas e tocantes interpretações de Alcarazu e Koukouh que denotam uma química quase imediata, A Escondidas transforma-se rapidamente num filme sensível e focado nas emoções humanas - de amizade, sentimentais e até mesmo para com aqueles que são perfeitos estranhos - e na capacidade de nos aproximarmos do "outro" vendo nele uma extensão de alguém que poderia ser "eu".
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8 / 10
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European Film Awards 2015 - Documentários pré-seleccionados

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A Academia Europeia de Cinema divulgou hoje a lista dos quinze documentários pré-seleccionados para os seus prémios anuais a atribuir numa cerimónia a realizar no próximo dia 12 de Dezembro em Berlim, na Alemanha, sendo eles:
  • Above and Below, de Nicolas Steiner (Suíça/Alemanha)
  • All Things Ablaze, de Oleksandr Techynskyi, Aleksey Solodunov e Dmitry Stoykov (Ucrânia)
  • Amy, de Asif Kapadia (Reino Unido)
  • Boxing for Freedom, de Juan Antonio Moreno e Silvia Venegas (Espanha)
  • La Buena Vida, de Jens Schanze (Alemanha/Suíça)
  • Dancing with Maria, de Ivan Gergolet (Itália/Argentina/Eslovénia)
  • Democrats, de Camilla Nielsson (Dinamarca)
  • Drifter, de Gábor Hörcher (Hungria/Alemanha)
  • Electroboy, de Marcel Gisler (Suíça)
  • Grozny Blues, de Nicola Bellucci (Suíça)
  • The Look of Silence, de Joshua Oppenheimer (Dinamarca/Noruega/Indonésia)
  • No Land's Song, de Ayat Najafi (Alemanha/França)
  • Sa Meget Godt I Vente, de Phie Ambo (Dinamarca)
  • A Syrian Love Story, de Sean McAllister (Reino Unido)
  • Toto Si Surorile Lui, de Alexander Nanau (Roménia/Hungria)
Os cinco nomeados serão anunciados no início do mês de Novembro durante o Festival de Cinema Europeu de Sevilha, em Espanha.
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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Marcin Wrona

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1973 - 2015
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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Miguel Gomes representa Portugal nos Goya

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A Academia Portuguesa de Cinema seleccionou o filme As Mil e Uma Noites - Volume 2: O Desolado, de Miguel Gomes para representar Portugal na categoria de Melhor Filme Ibero-Americano na próxima edição dos Goya, prémios atribuídos anualmente pela Academia Espanhola de Cinema.
O filme de Miguel Gomes, escolhido na passada semana para representar Portugal aos Óscares e também uma das 52 obras europeias pré-seleccionadas aos European Film Awards da Academia Europeia de Cinema (seleccionada toda a trilogia), é o segundo volume de uma trilogia composta ainda por Volume 1: O Inquieto e Volume 3: O Encantado que tem por base o conto persa As Mil e Uma Noites onde Xerazade entretém o Rei com histórias místicas e de aventura de forma a atrasar a sua morte. Em As Mil e Uma Noites, Miguel Gomes retrata histórias de um país - Portugal - socialmente desesperado onde predomina o descontentamento.
As Mil e Uma Noites - Volume 2: O Desolado estreia comercialmente em Portugal a 24 de Setembro próximo, depois de ter a sua estreia mundial em Cannes onde venceu a Palm Dog e conta com a interpretação de Joana de Verona, Gonçalo Waddington, Teresa Madruga, Crista Alfaiate, Luísa Cruz, Margarida Carpinteiro, Pedro Inês, João Pedro Bénard, Adriano Luz, Carla Maciel, Xico Xapas e Isabel Muñoz Cardoso.
Os Goya serão entregues em Madrid em Fevereiro de 2016, aquando na sua trigésima edição.
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Ricki and the Flash (2015)

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Ricki e os Flash de Jonathan Demme é uma longa-metragem norte-americana e o mais recente trabalho de Meryl Streep a encontrar a sua estreia no nosso país.
Ricki (Streep) é uma guitarrista já nos seus sessenta anos que toca ao vivo em bares não são necessariamente reputados. Em tempos desistira de tudo o que tinha - casamento, filhos, casa... - para poder seguir o seu sonho de se tornar uma lenda do rock mas agora dedica-se apenas a tocar e cantar os êxitos de outros artistas e tentar sobreviver.
Quando recebe um telefonema de Pete (Kevin Kline), o seu ex-marido, que lhe fala do eventual divórcio da sua filha Julie (Mamie Gummer), Ricki decide embarcar numa viagem que a leva ao passado que deixou por resolver.
Uma união cinematográfica entre Meryl Streep, Jonathan Demme e Diablo Cody é imediatamente um filme que merece a atenção e destaque de qualquer cinéfilo mais atento não só pela óbvia junção de talentos confirmados mas também porque basta ter Streep ao comando de um filme num desempenho que se assume de imediato como irreverente. No entanto, Ricki and the Flash revela-se um filme morno que não atinge aquela grandiosidade como se fazia adivinhar quando o mesmo fora anunciado.
"Ricki" (Streep) é uma mulher algo distante de tudo o que a rodeia e o espectador percebe o seu óbvio afastamento não só da família que deixou para seguir o seu sonho mas também da ligação afectiva que criou com "Greg" (Rick Springfield), o seu parceiro profissional e sentimental desta sua nova faceta. Com trabalho enquanto rocker num bar que sendo íntimo pela evidente forma como os "habituais" se conhecem, não deixa de ser um espaço quanto baste decadente onde todos os ditos "falhados" da sociedade se encontram, "Ricki" (sobre)vive com um trabalho como caixa num supermercado onde recebe ordens e instruções de um chefe que tem idade de ser seu filho e lhe explica como deve interagir. A sua vida - sobrevivência incluída - estão longe de ser aquilo que eventualmente sonhou ou de ter o glamour e o brilho que esperava. "Ricki" é mais uma desiludida perdida numa multidão... Vive anónima com a excepção daqueles que, como ela, se conformam com o pequeno e irrelevante lugar que percebem ocupar no mundo.
Independentemente desta situação e de não ter vingado no mundo tal como desejava - afinal apenas toca e canta músicas de artistas consagrados e nada que seja de sua autoria -, "Ricki" não deixa de lutar pelas suas pequenas conquistadas ignorando aquilo que deixou para trás - e que aos poucos é revelado ao espectador - incluindo a sua família que a considera uma marginal ao seu próprio espaço e cuja interacção denota que o passado foi - era - complicado demais para se viver em comunhão. Com três filhos que não querem saber dela e com um marido que apenas a vê como recurso por falta de opções exibindo todos eles um distanciamento e indiferença evidentes, "Ricki" é, na prática, alguém que não lhes faz qualquer tipo de falta até perceberem que precisam de um confronto com ela para finalmente a - e se - perdoarem podendo assim avançar tranquilamente para o tal dia seguinte.
Mas "Ricki" extrapola algumas verdades... Seria diferente se fosse um homem a sair de casa e lutar pelo seu sonho abandonando os filhos tal como a acusam a ela? Seria ela mais feliz se ignorasse os seus mais íntimos desejos pensando nos outros e nunca (se) completando aquilo que deseja? Existiria uma família diferente se ele tivesse ficado ou, por sua vez, seria apenas ela que seria diferente mantendo todos os demais os mesmos comportamentos, escolhas e opções?
Tendo como única "família" os tais "habituais" que frequentam o bar onde toca, "Ricki" percebe com esta sua viagem ao passado que pode afinal ter o melhor de dois mundos... aquele que a completa profissionalmente e o lado familiar composto não só pela sua nova família como aquela que o sendo parecia até então estar perdida... Os caminhos acabam por denotar um estranho e inesperado cruzamento mas é nele que se encontra o melhor - e real - de todas as escolhas e afirmações... Não sendo o desejado acaba por ser o único possível e que é, no fundo, perfeito à sua maneira.
Ricki and the Flash marca o reencontro de Meryl Streep e de Kevin Kline desde Sophie's Choice (1982), uma vez mais como o par romântico não confirmado que num misto de desejo e auto-destruição encontram no afastamento a única solução para os seus próprios problemas. No entanto, ao contrário do clássico dos anos 80 e considerando as óbvias diferenças narrativas, Ricki and the Flash não consegue ter todo aquele peso dramático ou tão pouco assumir-se como uma comédia dramática capaz de criar no espectador a empatia desejada para pensarmos que aquelas personagens poderiam ser alguns de nós em determinado momento. Mesmo a relação cinematográfica entre Streep e Mami Gummer - mãe e filha no ecrã e fora dele - está longe de ser a mais determinada que seria de esperar (mesmo com as evidentes tensões no ecrã) deixando todo o filme num certo clima que nunca aquece.
Com um óbvio - mais um - desempenho que certamente a irá levar aos Globos de Ouro e que consegue ser a força motora de todo um filme que sem ela não estaria na agenda de ninguém, Streep não tem aqui o "fogo" com que normalmente agarra as suas personagens. É certo que a sua "Ricki" é uma mulher apagada pelos desgostos, desilusões e incumprimentos que a vida lhe proporcionou mas, ao mesmo tempo, falamos de Meryl Streep e dela, mesmo quando não é uma personagem prendada pela vida apenas esperamos o melhor dos melhores e aqui apenas se ficar com uma interpretação simpática... mas regular (sorry Meryl... although I will always love you).
No final aquilo pelo qual o argumento de Diablo Cody se consegue destacar acaba por ser um pequeno e talvez ignorado elemento para a maioria... Foi a música que afastou "Ricki" da sua família mas, ao mesmo tempo e inesperadamente, acaba por ser a mesma que os reaproxima. Quando se pensa que os sonhos podem terminar com a realização pessoal por serem idealistas demais... eis que o destino e o tempo confirmam que apenas seguindo o que se deseja e sendo fiel aos próprios desejos se consegue ser integro, uno e admirado pelos demais... cada um à sua maneira.
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"Ricki: Sometime you are going to find a grey hair... and it's not in your head."
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7 / 10
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