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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Bombshell (2019)

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Bombshell - O Escândalo de Jay Roach (EUA/Canadá) e protagonizado por Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie é a longa-metragem que aborda o escândalo de assédio sexual dentro do canal Fox News denunciado por algumas das suas profissionais de topo.
Depois de Gretchen Carlson (Kidman) denunciar o chefe da Fox News Roger Aisles (John Lithgow) de assédio sexual, rebenta no estação de televisão todo um movimento que tenta defender o mentor como, por outro lado, o denunciam pelos seus ousados e abusivos comentários e comportamentos ao longo de décadas.
Ainda que visualmente apelativo por um trailer dinâmico e bem construído que induz a um imediato interesse por parte de um espectador mais atento ao seu trio protagonista - Theron, Kidman e Robbie -, este Bombshell bem analisado acaba quase por se transformar um relato noticioso bem ao estilo do ambiente interno que tenta retratar. Num estilo muito próprio em que "personagem/actriz que encarna pessoa real" tenta dar um relato fiel dos acontecimentos e no qual se comunica quase in extremis com o espectador que tenta assistir aos momentos relativamente tensos que se viviam dentro da FOX News, esta longa-metragem de Jay Roach pouco espaço deixa para a dramatização dos acontecimentos limitando-se a uns breves instantes em que o assédio ganha, de facto, uma forma e onde se compreende que todas estavam a "salvo" (profissionalmente falando)... desde que portadoras de grandes mini-saias.
Tudo começa com a aspirante e pouco treinada "Kayla" (Robbie) sedenta do seu lugar ao sol no local onde as grandes vedetas já firmaram o seu lugar. Inexperiência essa que leva a algumas tomadas menos reflectidas de posição, e a nadar do tanque dos tubarões onde tudo se sabe mas que se testemunha num silêncio quase coloquial... "don't ask... don't tell...". Aos poucos, e à medida que vamos conhecendo os dois rostos firmados de um canal de televisão que apenas queria sobreviver à sua própria imagem e dos "deuses criadores" todo poderosos que ditavam as leis, é que compreende o espectador que "Megyn" (Theron) e "Gretchen" (Kidman) se transformaram no resultado daquilo que agora combatem... Por um lado determinadas a não deixar continuar a selvática acção de homens que, donos de um poder até então absoluto, continuassem a ditar as normas pelas quais todos (todAs) as demais poderiam ascender profissionalmente. Agora, rostos proeminentes do canal de televisão no qual construíram toda a sua carreira, ambas têm de decidir se vão continuar a permitir a sobrevivência do abuso ou se, por sua vez, vão finalmente colocar o tal ponto final numa história cujos contornos reais desconhecem...
O restante conteúdo... é já conhecido de todos nós. Quer se centre nos meandros da política, do corporativismo empresarial ou aqui nos veteranos serviços noticiosos o abuso, seja ele de que natureza fôr, existe e instala-se espalhando os seus tentáculos por todos aqueles que ousam alcançar algo mais do que um simples lugar na corrente. Se queres ser alguém... tens de ceder... pelo menos enquanto não tiveres poder. E todo o assédio é, essencialmente, uma manifestação perniciosa desta premissa... quem tem poder usa-o... e nem sempre de forma moralmente correcta. Afinal, não vemos qualquer tipo de toque, de uso de força física ou de um recurso a pressão física... aqui, ou em qualquer outro lugar, o assédio manifesta-se de forma mais requintada... não existe um toque... existe a sugestão de "algo que deve ser feito" como forma de alcançar um "objectivo profissional" que posicione o interessado numa posição de privilégio... a indução... a sugestão... a indicação - todas elas psicológicas no exercício dessa força ou pressão invisíveis - de que não será o trabalho, o mérito ou o profissionalismo que poderão fazer alcançar uma posição melhor mas sim o tamanho reduzido de uma saia ou um pouco mais de carne que se revele que a(s) farão chegar um pouco mais longe no seu percurso profissional. Mais, se este factor se verifica nas jornalistas mais novas, é nas veteranas que verificamos também os comportamentos redutores da mulher provenientes de décadas passadas... a mulher como alguém sem iniciativa, opinião, força de vontade, capacidade ou profissionalismo que apenas está presente, e dessa forma reduzida, a um elemento decorativo que fica "bem" ao lado de homens, esses sim, profissionalmente capazes e conhecedores de uma verdade desconhecida para as mesmas. Do assédio ao preconceito, da manutenção de poder ao (ab)uso de poder, Bombshell prima mais pela abordagem a esse establishment do velho poder masculino do que propriamente pela inovação do seu conteúdo e da real verdade que poderá ter estado por detrás de todas estas histórias aqui tentadas na primeira pessoa.
Mas, não se pense que este relato é apenas contado tendo como principais vilões o conjunto de homens que está por detrás desse poder. É também contado, ainda que parcialmente, pelo conjunto de mulheres que estando por detrás do mesmo se deixam levar pela garantia de que com elas (ou "por" elas) tudo foi alcançado com o esforço de um trabalho que outras - agora denunciantes - não quiseram fazer. O "eu" em oposição ao "elas" que as afasta de uma realidade à qual cederam por pressão e que talvez por vergonha ou conveniência nunca quiseram admitir ou reconhecer. Afinal, como passa a ideia, nada era abuso ou assédio... era apenas um flirt até "simpático" que o presidente da estação gostava de utilizar para "premiar" com atenção os rostos "bonitos" do seu espaço. Num mundo em que se "morre" por menos tempo de antena... há que se deixe "matar" pelos tais quinze minutos de fama.
Interessante pela composição de personagem efectuada por Theron e Kidman (neste último caso sem qualquer confirmação de que todos aqueles momentos se tenham concretizado tal como aqui assistimos), e por uma Margot Robbie que consegue em boa medida prender o espectador primeiro pela sua timidez, depois pela sua ousadia e, finalmente, pelo seu total descrédito fruto da violação psicológica da qual fora alvo (ainda que esta última seja uma personagem ficcionada), Bombshell poderia ter sido muito mais do que o simples "fact film" ao qual se dixou render entregando não só uma maior elaboração e desenvolvimento emocional das suas personagens como sobretudo uma obra que conseguisse tornar-se intemporal e não apenas limitada a um apontamento temporal que "amanhã" possivelmente poucos irão recordar. Theron, Kidman e Robbie são capazes de dar mais... muito mais do que as breves interpretações que aqui conseguem concretizar não deixando, no entanto, o espectador incerto sobre o seu talento, evidente em diversos momentos, da transformação psicológica que o abuso - mesmo que meramente psicológico - pode deixar naqueles que por ele são afectados.
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7 / 10
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sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Budfoot (2019)

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Budfoot de Tim Reis e James Sizemore (EUA) é mais uma das curtas-metragens presentes na décima edição do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta, e a primeira que garante ao espectador uma experiência que se pode afirmar, no mínimo, psicadélica.
Numa sala decorada com as últimas maravilhas do coleccionismo exotérico e do fantástico Jo (Skinner) prepara-se para ver entrar no seu universo o imparável Budfoot, a figura animada de um gorila que tem os seus próprios planos para o destino de Jo.
O argumento de Akom Tidwell prima por, desde o momento inicial, garantir ao espectador que não está perante uma curta-metragem qualquer. De um universo semi-hindu que se cruza com budismo, existencialismo, psico-trópicos e até mesmo receios pessoais, aquilo que o espectador pode observar é, em boa medida, francamente alternativo e original. Dito isto, imagine o espectador um adepto fanático das figuras de acção, de histórias e mundos onde o sobrenatural e o fantástico reinam e que imperam face a uma qualquer realidade (para ele) virtual que está para lá das paredes da sua casa. Com isto, continue o espectador com o seu processo de criação imaginativa para, dentro deste mesmo universo, pensar que o seu principal protagonista mais não é do que alguém que passa o seu tempo - desde há muito tempo -, no consumo de drogas alucinogéneas e que lhe conferem uns instantes mais ou menos prolongados de separação e alienação da realidade tal como pensa conhecer.
Se dentro daquele espaço em que "Jo" vive tudo já parece uma recriação muito pessoal da realidade tal como ela é, o certo é que este homem recebe uma chamada enigmática que acaba por dominar muito do seu tempo. De divindades macabras a conversas mais ou menos inteligentes que parecem não ter fim, tudo ao seu redor parece transformar-se de forma tão maleável como aquela que ele utilizou para criar as figuras que o rodeiam. Qual será a realidade ou, por outras palavras, a percepção que "Jo" tem da realidade... tal como ela, de facto, é?!
É quando "Budfoot" ganha vida, facto ainda mais assustador do que propriamente a falta de percepção de "Jo", que o espectador compreende que nada nesta história irá terminar da melhor forma. A figura animada mais não é do que um ser macabro capaz de tudo para atingir um objectivo - se é que este existe -, inclusive eliminar o seu mentor e criador. As trapaças criadas pelo mesmo para o engano para a rasteira psicológica e sobretudo para o domínio sobre o homem que lhe deu forma vão muito para lá daquelas imaginadas pelo mesmo e se estas parecem surpreender (o espectador) pela forma súbtil e inocentemente macabra com que são planeadas - bisturi à parte -, a realidade é que é já no final que é compreendida toda a dimensão desta história que oscila entre esse mundo sobrenatural e a doença mental deixando o público no seu próprio transe sobre as potencialidades do que é inexplicável!
Com duas personagens carismáticas devendo, uma delas, muito ao poder da sua interpretação vocal que é capaz de criar alguns arrepios ao nível de "Chuckie" em Child's Play - universos do sobrenatural à parte -, é sem margem de dúvidas o elaborado, enigmático mas assumidamente alternativo argumento de Tidwell que, juntamente com uma exemplar fotografia e uma música ambiente da autoria de Christopher Ian Brooker, são capazes de transformar uma banal história de suspense e terror num conto macabro e sobrenatural que, no entanto, não deixa esconder uma certa aproximação à doença mental que o protagonista parece esconder do espectador.
Para o género... uma referência... para o futuro, a possibilidade de uma porta aberta que consiga explorar os destinos do misteriosamente cruel "Budfoot".
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7 / 10
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sexta-feira, 17 de maio de 2019

Boyfriend (2019)

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Boyfriend de David Moragas e Jacob Perkins (Espanha/EUA) é mais uma das curtas-metragens que irão passar pelo CinEuphoria neste dia internacional de luta contra a homofobia, e que aresenta a história de David e Jacob, um casal de namorados que numa comum manhã em Crown Heights partilham momentos banais da sua relação até à chegada de um inesperado telefonema que tudo tende a transformar.
Este breve documentário ficcionado cujos dois realizadores são também os actores protagonistas da "sua" própria história, centra-se numa banal manhã de uma convivência assumem  onde as triviais actividades de um casal assumem o argumento de um conto que se revela a cada instante. Da relação e das suas cumplicidades a pequenas actividades que ambos partilham, a sua pacata existência é ameaçada com um inesperado telefonema que afasta um do outro. Por detrás de palavras murmuradas compreende - o espectador - o distanciamento que ocupa posição com a tal personagem invisível que todos atormenta. Se "David" se distancia fisicamente ao atender aquele telefonema, é "Jacob" que se ausenta psicologicamente quando sente que o seu espaço (e a) na relação fora ameaçado por um invasor (sem forma) exterior que agora é parte daquela integrante da mesma.
O espectador, enquanto membro observador da relação e da interacção destas duas personagens, compreende e assiste à dinâmica de ambos de forma cúmplice. Primeiro porque observa os momentos íntimos entre "David" e "Jacob" assumindo-os como uma relação próxima, afectiva, apaixonada e até cúmplice onde os pequenos e banais momentos de um qualquer dia se assumem como o tal "cimento" que vai alicerçar esta convivência a dois. Depois porque este romantismo assume, através dos silêncios e da hipotética mentira ou ocultação, uma forma de espiral silenciosa da desagregação da perfeição (que nunca existe) daquilo que havia sido construído e que em vez de discutido entre ambos pondo assim fim a qualquer dúvida, se transforma no tal "elefante na sala" que todos percebem estar presente mas do qual ninguém fala com medo da transformação (ou até perda) que daí poderá advir. Em instantes, e sem que ninguém o compreenda para lá do espectador, obtemos aquilo que irá potencialmente fomentar o fim... da inocência, do idílico ou até mesmo da relação... pelo menos da forma como, até então, a tínhamos conhecido.
Da manhã onde pequenas intimidades ganham forma a um telefonema que deixa a relação num lugar incerto, Boyfriend - como a representação dos elementos do casal - é o símbolo do que é perfeito mas sobretudo daquilo que não o é... do passado e daquilo que deixaram (deixámos) para trás que nos transformou e largou naquele preciso momento em que pela primeira vez se tenta construir algo sério e distante das noites loucas de uma juventude já ida e entre o quente de uma relação sólida à opacidade de uma incerteza que pode chegar, esta curta-metragem assume-se tal como a relação... imperfeita na sua perfeição (ou perfeita na sua imperfeição) mas sólida o suficiente para que o espectador se recorde dela e compreende que independentemente do género assistiu ao retrato normalizado de uma (entre tantas) relações a dois que tenta sobreviver não só graças ao que o levou àquele instante como sobretudo àquilo que ali mantém vivo.
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7 / 10
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quinta-feira, 2 de maio de 2019

O Braço do André (2018)

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O Braço do André de Tomé Pereira (Portugal) é um documentário curto presente na secção Novíssimos da décima-sexta edição do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema Independente a decorrer em Lisboa até ao próximo dia 12 de Maio.
Quando as adversidades batem à porta e André vê adiado o seu sonho de pertencer à equipa Olímpica de ping-pong, o seu propósito e sentido de vida ganham um inesperado novo rumo.
À primeira impressão o documentário curto de Tomé Pereira poderia passar sem que o espectador lhe garantisse a atenção devida. No entanto, é quando - talvez por mero acaso - este se depara com esta pequena obra cinematográfica que se descobre todo um potencial cujos limites parecem, à partida, ainda por explorar. André Maia sempre teve um sonho na vida... o ping pong. Todo o seu tempo, percebemos, é investido nesta modalidade que, de certa forma, o define enquanto a pessoa que é. Mas, o que poderá acontecer quando tudo aquilo pelo qual sempre se lutou escapa por entre as pontas dos dedos questionando todo uma, até então, pacífica existência? A resposta surgirá nesses escassos minutos que separam o início do fim desta curta-metragem e, se por momentos tudo nos parece impossível demais para ser real, não deixa de ser uma constante verdade que situações extremas merecem soluções igualmente "trangressoras".
Longe de qualquer juízo de valor sobre os métodos deste jovem atleta que parece ter ainda tudo para dar - à sua vida e à modalidade desportiva que o fascina -, a realidade é que o espectador encontra-se num local complicado de não deixar tecer uma opinião sobre a sua actividade. Até que ponto esta é a resposta a uma adversidade ou, por sua vez, a manifestação de uma mente perturbada que decide de forma implacável em obter os resultados que tanto busca...
Da luta à loucura, e desta à violação da confiança e lealdade desportiva, aquilo que separa as boas intenções de um potencial atleta da maior mentira da sua vida é tão ínfimo que por vezes - quase sempre - acaba por ser voluntariamente ignorado.
Credível até certo momento e "mockumentarilizado" não sabemos em que medida, O Braço do André é uma pequena escondida pérola que merecia uma maior e mais intensa exploração da vida e "obra" de André Maia... um desportista ao seu próprio dispôr.
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6 / 10
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sábado, 23 de março de 2019

Bee Together (2018)

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Bee Together de Tiago Iúri (Portugal) é uma das curtas-metragens presente no Leiria Film Fest na categoria Filmes de Leiria que num estilo que mescla documentário e ficção apresenta, ao espectador, uma importante temática da actualidade.
Ano 2025. Devido às alterações climáticas o planeta Terra sofreu várias catástrofes naturais. Em Portugal, os incêndios transformaram não só a paisagem como a agricultura e as abelhas são uma última esperança para a Humanidade.
Num cenário em que o futuro não é uma realidade assim tão distante, Bee Together apresenta os seus dois protagonistas... Luís e Maria Emília Ferreira... dois agricultores que vivem da produção de mel e de abelhas encontram o seu sustento familiar ameaçado - até mesmo destruído - quando os incêndios devastaram não só a sua área de produção como principalmente a sua "matéria-prima". O cenário que deveria ser natural é agora uma breve imagem de um passado não só mais verdejante como também possível de cultivo e até de reprodução do mais variado tipo de seres... as abelhas, agora desaparecidas... possibilitariam não só a polenização como a produção de mel garantiria sustento alimentício a tantas outras espécies... Homem incluído. Num mundo dito moderno onde a vegetação e a floresta desapareceram e no qual a terra está cada vez mais árida, a própria respiração do Homem está dificultada como se questionam formas e estilos de vida de outrora afectando, dessa forma, todas as dimensões da vida humana... da lenta morte de um planeta em transformação à vida do Homem que agora terá de encontrar novas formas de sustento num planeta saturado, Bee Together explora de forma seca e numa atmosfera quase de ficção científica a questão que todos nós tendemos a ignorar... e agora, como se sobreviverá?!
Esta curta-metragem termina com um conjunto de pensamentos e factos que qualquer um de nós tende a ignorar... não só os trágicos incêndios de 2017 colocaram em risco a vida humana de forma directa com o devastador poder das chamas, como transformou de forma quase irremediável muito do panorama natural do país eliminando, dessa forma, aquilo que Bee Together pretende retratar... a abelha. Milhares de colmeias foram destruídas - assim nos revela o final da obra de Tiago Iúri - e, dessa forma, todo um conjunto de reacções foram desencadeadas nomeadamente a subsistências de alguns animais que, a longo-prazo, poderão ser extintos já não mencionando a própria paisagem natural que, obrigatoriamente, também surge transformada pela sua inexistência.
Dizia Einstein que a Humanidade, sem a abelha, teria apenas seis meses de vida... o planeta Terra que surge lentamente com novas alterações físicas e geográficas - extinção de água e consequente seca, desflorestação, poluição dos lençóis de água doce, extinção de espécies animais a um ritmo acelerado, para mencionar apenas algumas delas... -, encontra-se num período de transformação da qual o Homem ainda não tem a real dimensão... ou se tem (como alguns destes trabalhos da Região de Leiria tão afectada pelos incêndios demonstram), tende a ignorar como se um problema alheio de tratasse.
O realizador Tiago Iúri, que tão habilmente tem revelado obras de cariz futurista onde a acção se desenrola em universos distantes da realidade que conhecemos, aqui brilha pela importância social de uma obra que entrega ao espectador o futuro mesmo ao virar da esquina. Não nos encontramos num qualquer outro planeta ou numa aventura espacial distante da nossa realidade. Não. Aqui a realidade crua, cruza-se com todos aqueles pequenos grandes espaços naturais que nós ainda recordamos como aqueles onde passámos a nossa infância mas que para as gerações futuras mais não serão - a este ritmo - do que felizes realidades de um passado já ido e de um presente (então) triste e desolado.
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7 / 10
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A Besta (2018)

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A Besta de Rafael Soares (Portugal) é uma das curtas-metragens presentes na secção Filmes de Leiria da sexta edição do Leiria Film Fest que hoje termina no Teatro Miguel Franco.
Através de um conjunto de imagens desordenadamente perceptíveis, o espectador encontra uma praia. Um espaço potencialmente idílico que subitamente se transforma num depósito de detritos de toda a massa humana que por ele passa.
É através de uma música semi-Hitchcockiana que o espectador se deixa levar por um ambiente sinistro mas, ao mesmo tempo, intrigante pela potencialidade das imagens que nos chegam. Não nos encontramos num qualquer cenário de apocalipse - pelo menos não no seu formato original em que o mundo já se encontra morto pela potencial acção do Homem -, mas sim num que faz adivinhar essa extinção por todas as práticas conscientes de uma (des)Humanidade que lentamente executa um planeta capaz de tolerar muito... mas até certo ponto.
É essa mesma música que torna cada imagem intensa e violenta fazendo do seu público a última testemunha de uma lenta execução àquele que é o elemento principal e primário de toda a existência... a Natureza. Natureza essa aqui representada por um dos mais tradicionais espaços naturais do país... uma praia e o mar. Ambos poluídos com os inúmeros detritos ali deixados ou até mesmo por aqueles que chegam vindas das mais inesperadas paragens. Estas, que deveriam ser as personagens principais de uma qualquer história, assumem um imediato segundo plano quando chega o seu carcereiro... o Homem. Ao seu redor as suas vítimas... os animais naturais deste ecossistema... os detritos por ele criados e deixados... e uma caminhada por entre os mesmos que se assume tão natural como indiferente ao que está ao seu redor.
Num aparentemente desolador espaço sobrevive esse Homem... o protagonista de uma história que assume o seu fim a médio ou longo prazo. Um fim do qual está consciente mas para o qual parece - ou quer parecer - imune, transformando-se num senhor todo poderoso de um reino que não o irá suportar por muito mais tempo.
O realizador cria portanto uma história cuja temática ecológica está por demais evidente. Um conto, infelizmente contemporâneo, sobre o fim de um espaço e o potencial (mais que evidente) fim do Homem. O Homem vilão auto-criado pelo seu desrespeito, pela sua soberba e sobretudo pela sua arrogância face a um espaço que não é apenas seu mas de todos os demais seres que nele habitam. Seres esses que explora tal como aos espaços por onde passa considerando que nenhum representa - ou faz parte - do seu ecossistema e claro, da sua própria vivência. Até que ponto poderá esse Homem estar convencido desta realidade? Enquanto não se preocupar em olhar para o que faz, os detritos que produz pelo seu exacerbado consumismo e sobretudo pela sua arrogância ao não se preocupar com a sua correcta eliminação deixando pelo espaço que atravessa toda um rasto da sua despreocupada destruição.
Inteligente forma de apresentar todo um novo género de terror com o recurso a uma execução tão negra quanto a história que se propõe contar, A Besta é de facto a realização da sua chegada - desse demónio - que não é sobrenatural mas sim bem presente e real da vida contemporânea capaz de seduzir com a posse originada pelo consumismo e depois destruir pela indiferença da insustentabilidade criada.
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7 / 10
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quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Bostofrio, Où le Ciel Rejoint la Terre (2018)

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Bostofrio, Où le Ciel Rejoint la Terre, de Paulo Carneiro (Portugal) é um documentários presentes na selecção oficial da vigésima-quarta edição do Caminho do Cinema Português a decorrer em Coimbra e, possivelmente, um dos filmes mais pessoais presentes em competição.
O que são as origens? Em que medida é que elas influenciam o "eu" e levantam questões sob a pertença e o lugar que esse ser pessoal ocupa no mundo? Partindo destes pressupostos, e de tantas outras questões que o realizador coloca ao longo deste documentário, o espectador acompanha-o numa viagem a Trás-os-Montes onde o mesmo tenta saber que é o avô cuja história nunca conheceu.
Divido em doze distintos mas interligados capítulos, Bostofrio, Où le Ciel Rejoint la Terre inicia com um Prólogo que nos apresenta o espaço em que tudo irá acontecer. Procuram-se as origens... um avô... as explicações para um passado desconhecido que traçou os destinos do seu próprio pai - do realizador - naquele lote de portugueses que são "filhos de pais incógnitos". Filhos de ninguém - como diria a minha própria avó nas mesmas condições apesar de outras particularidades -, e que transformaram cidadãos deste país em proto-fenómenos desconhecedores do seu passado, da sua origem, de uma figura parental e, de certa forma, da confirmação da sua concepção que mais parece, remetida para uma qualquer mensagem divina deixado na Terra algures no tempo.
A viagem de Paulo Carneiro, acidentada por vezes, de descoberta por tantas outras mas sobretudo, e quase sempre, emotiva e fragilizante, é construída graças a um conjunto de entrevistas feitas pelas gentes da terra na primeira pessoa. O realizador, tido por diversos momentos como um invasor, um elemento estranho (até mesmo "estrangeiro") nas terras onde poderá encontrar a sua própria história, deixa-se levar pelos caminhos que, não conhecendo, são também os seus. Conhece as pessoas, cruza-se com alguns rostos mais ou menos familiares e indaga sobre o que poderá ter acontecido décadas antes. Ali espera (?) encontrar não só a história dos seus antepassados mas, possivelmente, aquela qeue poderá contar como também sendo a sua... as origens da sua existência estã, de certa forma, ligada àquele terra que viu o seu pai nascer mas que, no entanto, não o confirmam como o filho... de alguém.
Se algumas das entrevistas começam de forma mais agreste e ríspida, sendo o Capítulo II um excelente exemplo quando a entrevistada não quer a sua presença por perto recorrendo a uma linguagem mais forte e áspera para o afastar do local, lentamente Carneiro aproxima-se daqueles mais dispostos - ainda que de forma algo secreta ou não fossem, todos eles, filhos da terra - a abrir-lhe as portas a propósito do passado e construindo, ele próprio, uma melhor ideia de futuro (o seu). As histórias chegam lentamente, dotadas de alguns silêncios que o espectador nunca compreende se resultam do desconhecimento do entrevistado ou se, por sua vez, da incapacidade de tocas no passado de alguém que conheceram e que podem, de certa forma, estar a quebrar a confiança. Esta componente que alguns exibem de não se quererem intrometer nas histórias das pessoas "da terra", acaba por deixar uma cada vez maior curiosidade por parte do espectador em saber um pouco mais da história desta família e, ao mesmo tempo, também sobre o que poderá reservar o próximo "capítulo".
Aos poucos o espectador compreende que existia uma relação entre o pai e o avô... que se encontravam às escondidas devido ao primeiro ser fruto de uma relação fora do casamento. Um romance proibido... uma paixão da qual ninguém na terra poderia saber... A emoção - ou emotividade - apodera-se do realizador que acaba por ser também ele uma das "personagens" frente à câmara abandonando uma talvez "esperada" posição mais neutral. No entanto, esta não é uma história qualquer... é a sua! Aos poucos chega-lhe mais informação sobre outros elementos da sua família. Pessoas que ou não conhecia ou das quais apenas teria escutado breves relatos mas que, à sua maneira, também contribuíam - ainda que de forma indirecta - para a sua compreensão sobre o seu passado e de que forma tinham estas influenciado o mesmo.
Bostofrio, Où le Ciel Rejoint la Terre marca, ao mesmo tempo - o realizador e o público - pelo registo do espaço... pela forma como o clima influencia os humores e os silêncios... as pessoas, os espaços e as histórias. Um espaço que foi também marcado pelos acontecimentos históricos de outros tempos que fizeram da terra um local esquecido, marcado por alguma miséria e dificuldades onde os espíritos livres - como era aparentemente a sua avó -, tinham dificuldade em sobreviver face ao conservadorismo não só desses tempos como também das suas gentes. Os costumes e os pensamentos - também eles moldados pelos dias que se viviam - levavam a encará-la como alguém fora do seu tempo, talvez até marcada por outras "forças" que ninguém compreendia e das quais queriam distância. A viagem, com algumas descobertas e revelações que apenas podem ser digeridas na primeira pessoa termina com o lugar de repouso para todos. Povoada de silêncios que apenas a mente de cada um pode interpretar, cruza-se o filme com o pensamento de Teixeira de Pascoaes... "Deus e o Demónio são incompatíveis em toda a parte... menos em Portugal" numa clara alusão de que vivemos todos no local onde tudo pode acontecer... mas onde pouco pode ser revelado com a clareza necessária para ser compreendido.
O documentário de Paulo Carneiro é, para lá da sua primeira longa-metragem aquela que o próprio terá como uma das suas mais emblemáticas não só pelo cunho pessoal que lhe entrega - e que refrescante que é quando temos tanto cinema que se esquece de criar uma qualquer ligação com o público em geral -, como também pela forma com que aborda uma temática tão importante e tão, também ela, silenciada como o esmagador número de cidadãos que são, aos olhos do Estado, filhos de ninguém... os filhos de pais incógnitos fazendo dos mesmos desconhecedores das suas origens, impossibilitados de as confirmar e de ter algo "tão simples" como o nome de família que tanto desejam e lhes poderia conferir um sentido de histórias, de História e sobretudo de um passado.
Sentido, emotivo, até mesmo divertido, entusiasmante e motor do despertar de toda uma curiosidade por parte do espectador que se deixa, ao mesmo tempo, deslumbrar pelas paisagens arrebatadoras de um território tão desconhecido como é o de Trás-os-Montes, Bostofrio, Où le Ciel Rejoint la Terre é de longe um dos melhores filmes desta edição do Caminhos do Cinema Português e seguramente um dos melhores documentários portugueses dos últimos anos. Aqui não temos nada incógnito... tudo está devidamente marcado e "assinado" e o espectador compreende a importância desta história para lá de uma obra cinematográfica mas também uma de cunho pessoal que se firma e assume forte pela sua mensagem quase sempre comovente.
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9 / 10
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sábado, 17 de novembro de 2018

Beautiful Boy (2018)

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Beautiful Boy de Felix van Groeningen (EUA) marcou o segundo dia do LEFFEST - Lisbon & Sintra Film Festival a decorrer no Centro Cultural Olga de Cadaval, em Sintra e nos Cinema Monumental e Cinema Ideal, em Lisboa até ao próximo dia 25 de Novembro.
David Sheff (Steve Carell) e Nic (Timothée Chalamet) são pai e filho cúmplices. Em Beautiful Boy acompanhamos a relação entre os dois que ultrapassa o encanto da descoberta da juventude de Nic pelo próprio bem como o desencanto inexplicável pela sua vida quando se deixa afundar no submundo da dependência e toxicodependência enquanto a restante família sobrevive num limbo dividindo-se entre a sua recuperação e o testemunho da perda da sua inocência.
Tido como um dos mais fortes candidatos à próxima edição dos Oscars entregues pela Academia Norte-Americana de Cinema, Beautiful Boy é seguramente um dos mais chocantes e emocionantes filmes que passa(rá) nesta edição do LEFFEST. Sempre numa perspectiva de passado e presente - belíssima a edição de Nico Leunen - que nunca desampara o espectador independentemente da viagem temporal a que o obriga permitindo, dessa forma, observar a dinâmica entre pai e filho, Beautiful Boy transpira de uma inesperada nostalgia. Tudo tem início quando observamos a personagem interpretada por Steve Carell a querer contar algo sobre o seu filho. É a partir deste pequeno segmento que o espectador compreende que existe algo por contar sobre a dinâmica e relação desta família. Conhecedores ou não do argumento e dos factos que se seguem, o espectador é imediatamente preso a esta história pela compreensão de que uma tragédia se prolonga na mesma. Aos poucos, e sempre num registo temporal que pressupõe a aceitação dos segmentos como registos francos e fragmentados da sua memória, Beautiful Boy oscila entre a dinâmica cúmplice de pai e filho - tendo sempre a demais família como secundários de peso para a mesma - e a deterioração da sua relação fruto da dependência de "Nic" que o leva inicialmente aos pequenos furtos dentro de casa e, posteriormente, a uma toxicodependência que primeiro o afasta da família e de seguida (como o espectador depreende com o tempo) dos próprios sonhos que a sua ida juventude (apesar de jovem) lhe permitiram alguma vez sonhar.
É esta dinâmica entre pai e filho que acompanhamos enquanto uma evolução constante da mesma, sempre cúmplice apesar de um crescente afastamento, que o espectador observa e da qual espera um clímax instantâneo... que nunca chegará. Aqui o que é revelado é a lenta, mas sistemática, destruição dessa relação corrompida pelos silêncios, pelos segredos inconfessáveis e pelas mentiras, pelo sentido sufoco de que um sofrimento sentido no escuro nunca poderá ser compreendido pelos outros e que, a cada momento em que a dependência se torna mais intensa, é um passo em retrocesso para a relação familiar que se sente nunca poder ser recuperada. Assim, e no meio deste precipício que se anuncia, "Nic" distancia-se do pai não pela falta do amor que sabe que este sente por si mas pela consciencialização de que os seus passos em falso são uma desilusão para a imagem de filho que o seu pai criou estando (para si) a "obra" deformada na perspectiva do seu criador.
Nunca chegando a compreender completamente - se é que motivos existem!! - o que terá levado "Nic" a esta dependência, o argumento de Beautiful Boy, escrito por van Groeningen e Luke Davies a partir da obra homónima de David Sheff e Tweak do próprio Nic Sheff, reflecte primeiramente a união e o amor de uma família. É a partir desta base que futuramente se compreende não a queda no abismo mas sim a eventual recuperação de "Nic" bem como a entrega que pai e filho depositam na esperança de que serão sempre os portos seguros um do outro - mesmo com a fragilidade e incerteza que os comportamentos de "Nic" fazem despertar - sem que, no entanto, esta longa-metragem caia nos lugares comuns de julgar qualquer uma das personagens (reais e não ficcionadas) ou tão pouco as sucessivas incursões de jovem "Nic" na esperança de uma recuperação que parece tardar a chegar.
Se a dinâmica entre pai e filho são, fundamentalmente, o essencial desta história, é a segura mas contemplativa mão de Felix van Groeningen que lhe conferem uma esperada ambiência fundada na cumplicidade e na devoção, para com a família, já sentida em obras anteriores como, por exemplo, De Helaasheid der Dingen (2009) ou The Broken Circle Breakdown (2012). Não é suposto o espectador julgar ou tirar qualquer tipo de conclusão precipitada sobre os comportamentos ou dinâmicas familiares aqui retratadas... na prática, ninguém saberá como poderia reagir a uma situação familiar que lentamente se degradasse em frente aos próprios olhos. Por sua vez, aquilo que van Groeningen pretende com a sua abordagem é retratar a total entrega para que um "do grupo" não ceda à tentação ou à decadência estando, para isso, sempre isentos quanto à dedicação que no mesmo é depositada. Mais alternativas ou mais conservadoras, quer sejam de um comportamento mais irascível ou temperamental, todas estas personagens retratadas pelo realizador belga são fruto de uma realidade que pode encontrar-se já ao virar da rua e com a qual qualquer um de nós se poderá retratar - dependências à parte -, e que revelam uma vulnerabilidade latente comum a tantos de nós.
De um Steve Carell que conhecemos das suas inúmeras incursões na comédia e que tem retirado das suas prestações algumas das mais memoráveis nos últimos anos nesse campo, consegue aqui dar corpo a um pai que, não querendo utilizar a expressão sofrido, se deixa também consumir pela dependência do filho mas, ao mesmo tempo, conhecer toda uma faceta do mesmo que desconhecia... não pelos seus comportamentos mas sim pela sua dinâmica psicológica que lentamente se revela pelas pequenas pistas e indicações que são deixadas (talvez não ao acaso) por um filho que silenciosamente gritava por um pedido de ajuda, a um Timothée Chalamet que se revela pelo segundo ano consecutivo - depois de Call Me By Your Name (2017), de Luca Guadagnino - como um dos mais importantes nomes de uma nova geração de actores que aqui entrega mais uma intensa representação de alguém dividido entre a dependência e o sentimento de uma culpa muito expressada por dela não se conseguir libertar, Beautiful Boy poderá até ter como intuito despoletar o tal alerta sobre os perigos da dependência. No entanto, e sempre com uma intensa banda-sonora que sonoriza na perfeição todo um conjunto de momentos e estados de espírito, a esperada mensagem final não será tanto sobre esse alerta mas sim sobre toda uma longa e por vezes exasperante etapa da (nossa) entrega e devoção àquela pessoa que poderá ter tanto de nós e a qual desejamos que recupere de um período negro, frágil e vulnerável que atravessa(rá). Não tanto sobre a resistência à dependência daquele que a atravessa mas sim sobre a resiliência daqueles que a acompanham de lado e sobre o efeito transformador (e revelador) que todo o processo faz conhecer - numa perspectiva auto-avaliatória - compreendendo, dessa forma, que o espírito humano (alguns poderão chamar-lhe amor) tem tanto ou mais por conhecer e resistir do que aquilo que qualquer um de nós poderia admitir numa primeira instância
Beautiful Boy, ainda que com um pano de fundo sobre essas dependências, centra-se portanto - senão mesmo totalmente - na capacidade de resistir a uma adversidade extrema que coloca à prova tanto física como mentalmente o espírito e a alma desse sentimento a que vulgarmente todos chamam de amor.
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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Brothers' Nest (2018)

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Brothers' Nest de Clayton Jacobson (Austrália) é uma das longa-metragens exibidas durante a décima-segunda edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que, na passada semana, decorreu no Cinema São Jorge.
Terry (Shane Jacobson) e Jeff (Clayton Jacobson) rumam à casa da mãe e do padrasto numa tentativa de o assassinarem e, dessa forma, evitar que a mãe altere o testamento em seu favor. No entanto, aquilo com que os dois irmãos não contavam era com os momentos em que iriam passar juntos e com as verdades que viriam a ser descobertas.
O primeiro elemento que se destaca nesta longa-metragem australiana é, desde logo, o ambiente isolado e desértico que o imaginário do país faz imediatamente despertar na mente do espectador. Ainda que o país seja dotado de algumas metrópoles entre as quais Sidney, não será menos verdade que rapidamente qualquer um de nós liga o imaginário do país aos seus vastos desertos que a saga Mad Max (1979), de George Miller popularizou ao longo dos últimos quarenta anos. Nesta medida, Brothers' Nest afasta imediatamente o espectador de qual cenário citadino levando-o a um espaço afastado de qualquer cenário de civilização entregando as duas almas a um espaço confinado às quatro paredes de uma casa onde cresceram e onde todas as suas memórias estão guardadas.
Tendo este cenário em mente, aquilo que Brothers' Nest entrega ao espectador é um conto sobre a sede de poder e de posse que rapidamente soltam os uivos de uma vingança desconhecida onde a avareza e a ganância fazem despertar o pior de cada um deles. É na sua estadia naquela casa que o argumento da autoria de Jaime Browne e Chris Pahlow revela dois homens esquecidos por si próprios, que vivem de mentiras e ilusões que revelam como a única forma de satisfazerem um qualquer ego que precisa ser alimentado e que mimam como forma de revelar o melhor de uma vida que, na realidade, não têm. Assim, e por detrás do óbvio saque que querem fazer a vontade de uma mãe moribunda, tanto "Terry" como "Jeff" apenas se concentram num plano meticulosamente elaborado que, no entanto, mais do que revelar a ausência de provas que os incriminem revela, por sua vez, todas as pequenas nuances, dilemas e aspectos de um carácter ferido não só pela vida como, surpreendentemente... pelo seu próprio ego.
Donos de vidas supostamente aceites pela sociedade mas que revelam todos os podres da mesma que se quer rápida, bem sucedida e proeminente, os dois irmãos são, no entanto, o seu oposto. Com famílias destruídas e separadas, com vidas profissionais à beira da ruína e distantes dos valores familiares que muito consistentemente insistem em defender em nome de uma moral paternal, também ela já distante, aquilo que os dois revelam é uma ausência de consciência inicial que os expõe como capazes de tudo para bem suceder neste seu propósito. No entanto, é à medida que o tempo avança que ambos se revelam num patamar distinto de evolução e onde nada é como tenta aparentar. Se "Jeff" se assume como a força bruta para quem, na realidade, nada importa, nem mesmo os tais valores morais de que o património familiar deve ficar nas mãos da família de sangue, é "Terry" que lentamente se revela mais despreocupado com o que lhe sucede preocupando-se, por sua vez, com todas as pequenas memórias que ressurgem com os pequenos passeios que dá pela casa e pela propriedade. "Terry" sente a alma da casa, das paredes, dos objectos e das pequenas lembranças que, sem serem do conhecimento do espectador, se fazem transparecer pelos seus olhares auto-reflexivos e que o levam a equacionar - novamente sem nunca serem revelados mas que se expressam pela sua postura física e psicológica cada vez mais branda - na validade da acção a que se propôs. Será que tudo aquilo valerá a pena ou, por sua vez, irá manchar as memórias de um passado que, afinal, poderá não ter sido tão mau como aquilo que inicialmente julgara?
À medida que a dinâmica entre os dois irmãos se altera, não só entre ambos mas também em relação ao propósito que ali os levou, percebe-se e compreende-se como inevitável a chegada de novas personagens - nomeadamente a mãe e o padrasto - para provocar o esperado clímax nesta história. No entanto, o que poderá acontecer quando a dinâmica dois irmãos para com as suas figuras parentais rapidamente ganha novos contornos alterando a concepção que tinham dos papéis que cada um representou na sua juventude? Será a mãe tão inocente no seu passado? Será o padrasto alguém tão detestável como o haviam imaginado? Poderá esta relação entre irmãos e de filhos para, no fundo, pais sair imaculada depois de um tão grande voto de desdém?! Saber-se-ão verdades julgadas impossíveis e enterradas pelo passado? Irá alguém finalmente compreender o que sempre representou no seio desta família?
Ainda que toda a dinâmica do argumento de Browne e Pahlow seja suficiente para criar uma história não de um terror sobrenatural mas sim daquele que as mentes de duas crianças - agora adultos - criam ao longo dos anos e pelo qual se deixam atormentar como representativo daquele papão debaixo da cama que, na realidade, nunca os abandonou, a realidade é que esta longa-metragem peca um pouco - ao ponto de perder muito da sua verve -, pela excessiva relação entre os dois irmãos que se deixa arrastar ao longo de praticamente sessenta minutos de duração deixando para os instantes finais toda a trágica resolução que se fazia adivinhar para esta família. Não existe grande dinâmica entre as quatro personagens mas sim blocos separados da mesma... primeiro entre os irmãos, destes para com o espaço que os viu crescer, seguido pela que estabelecem com o seu padrasto e, finalmente, com a sua mãe. Se o momento entre os dois irmãos foi demorado ao ponto do espectador compreender que poderia ser editada, é também certo que os momentos estabelecidos com os seus pais pecam por uma conclusão intensa mas apressada ao ponto de nos deixar pouco impressionados enquanto aquele clímax que, na realidade, esperaríamos.
Nota positiva a um brilhante Shane Jacobson que consegue destacar-se no seio desta história como o apontamento moral - ou aquele em que a dita moral mais se manifesta -, pode-se destacar que muito se revela do passado destas quatro personagens quer pelas palavras que trocam quer pelas dinâmicas que são estabelecidas ao longo do tempo mas, ao mesmo tempo, não existem pequenos detalhes que ficam por explorar como, por exemplo, qual a relação que os irmãos tinham com a sua mãe, os vídeos que vêem e como a sua percepção está, afinal, tão distante da realidade ou mesmo o pequeno lembrete que o papel de parede faz despertar a "Terry" de um "algo" que nunca é revelado? Ainda que nunca devidamente explorados ou revelados para lá do essencial, são estes pequenos elementos que deixam uma certa curiosidade no espectador mais atento e que poderiam ter contribuído para melhor a dinâmica destas personagens com o espaço e com elas próprias fazendo, por sua vez, um maior "corte" em momentos de contemplação que, embora importantes, se prolongam para lá do seu tempo. No final, Brothers' Nest expõe muito da comédia negra ou do terror psicológico que algum cinema australiano tão bem tem entregue nas últimas décadas mas, ao mesmo tempo e considerando todos os seus momentos mais intensos, nunca consegue atingir todo o esplendor que poderia ter alcançado se algumas arestas tivessem sido melhor limadas.
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segunda-feira, 4 de junho de 2018

The Birch (2016)

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The Birch de Ben Franklin e Anthony Melton (Reino Unido) é uma curta-metragem que revela a história de Shaun (Aaron Thomas Ward), um adolescente atormentado pela ira de Kris (Charlie Venables), um violento colega que tudo faz para o perseguir e maltratar. Mas, no momento em que a sua avó se prepara para partir para outro mundo, deixa-o com um estranho voto de protecção sobre alguém que irá preservar a sua segurança...
Cliff Wallace juntamente com a dupla de realizadores criou este argumento tendo como por base um tradicional conto de terror onde uma alma atormentada em vida encontra, num ser de outra dimensão, um inesperado aliado que o vingue dos seus carrascos. Fugido que está de um agressor que o tem vitimizado, e encontrando-se num momento de fragilidade em que se prepara para perder aquela que tem cuidado de si como um filho, "Shaun" estabelece essa tal improvável relação com uma entidade que tem tanto de assombroso como de natural, deixando o espectador num limbo sobre a empatia (ou falta dela) que se pretende criar com tão bizarra e sobrenatural personagem.
Assim, num misto de mitologia pagã onde a Natureza surge como uma personagem/entidade com poderes ultra-sobrenaturais - e não o será na realidade? - e conto urbano onde a jovem personagem principal (ainda adolescente) é a vítima de um dos seus pares sedento da sua constante humilhação, The Birch afirma-se como um daqueles filmes curtos - excessivamente curtos acrescento - que daria toda uma intensa história de terror sobrenatural capaz de explorar não só a influência desta entidade "natural" (ou demónio subterrâneo?!) assim como toda a sua influência na mente e nos comportamentos do jovem "Shaun" agora desprotegido e sózinho face às amarguras e tristezas de uma vida que nem sempre lhe sorri.
Dotado de uma direcção de fotografia de Jonny Franklin que capta muito da atmosfera do tradicional filme de terror bem como de toda uma cor e bruma mística de um ambiente natural, The Birch prima pela qualidade da sua execução assim como por todo um potencial que poderia ir muito mais além e surpreender pelo terror da dependência entre humano e sobrenatural assim como das suas (in)esperadas consequências.
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domingo, 6 de maio de 2018

Bloggers (2017)

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Bloggers de Ángel Manuel Chivite e Alber Estévez (Espanha) é uma longa-metragem que narra a história de Helena Durovic (Hortensia Chivite), comandante de uma tripulação vinda de missão de regresso ao planeta Terra depois da exploração de minérios em Mercúrio.
O ano é 2078. O planeta Terra está entregue a um conjunto de empresas energéticas mas em falência de minérios que as sustentem. A única possibilidade de sobrevivência da sociedade que conhecemos surge através da exploração de minérios que, no entanto, provoca graves deformações físicas naqueles que nela participam e que são transportados para o planeta à força. A grande questão que se coloca para uma resistência ameaçada prende-se com a continuidade desta exploração para recolha de provas ou expôr estas companhias e impedir o extermínio dos que restam da Humanidade...
A longa-metragem da dupla Chivite e Estévez centra todo o género de ficção científica muito ao estilo daquilo que em tempos o espectador já havia visto com Alien (1979), de Ridley Scott na medida em que toda a dinâmica da história se encontra a bordo de uma nave espacial, num futuro datado mas incerto onde a tripulação da mesma se vê ameaçada não por uma perigosa força alienigena mas sim pelos perigos que os esperam no seu regresso a um Planeta Terra refém das forças empresariais que dominam os destinos da população. Por entre os sobreviventes, sente-se o perigo. Um perigo que começa por ser psicológico na medida em que todos vivem amedrontados com os efeitos de uma nave tecnicamente não responsiva mas que, ao mesmo tempo, parecem viver amedrontados com alguns dos seus companheiros de viagem dos quais começam lentamente a duvidar. Entre um acérrimo instinto de sobrevivência, traições palacianas de um mundo que parecem já conhecer e dilemas existenciais que comprometem não só a sua integridade como a sobrevivência dos seus semelhantes na Terra, esta tripulação começa a sentir os efeitos de uma demência típica de alguém que se encontra preso e condicionado independentemente da escolha que tome.
Tecnicamente elaborada e fiel ao espírito de um filme que se propõe recriar o ambiente numa nave espacial - em todos os instantes que o espectador dedica a sua atenção à decoração tem presente no seu imaginário a já referida obra de Scott ou mesmo THX 1971 (1971), de George Lucas -, é esta atmosfera envolvente num elegante cenário sóbrio e frio que melhor se destaca em toda esta longa-metragem e que, de certa forma, também concentra toda a atenção do espectador. Ainda que eventualmente sofra dos males do pouco investimento num cinema que se compreende como independente, Bloggers consegue cativar por essa atmosfera e só depois pela sua narrativa enquanto história que mescla o pânico de clausura fruto desta viagem pelo espaço, a intriga palaciana que se vive nesta Terra de 2078 e, finalmente, pela história de luta de uma resistência que a tudo se dispõe como forma de desmistificar a ocultação de verdades que possam - talvez - salvar a Humanidade de uma extinção completa às mãos dos eternos agiotas económicas que se impõe (erradamente) como salvadores de um qualquer estilo de vida que, aparentemente, não se consegue manter.
Se esta dinâmica de cenário versus argumento já mostra as suas potencialidades que, no entanto, tendem a não ser exploradas na sua totalidade ficando-se por um lume brando incapaz de destacar Bloggers para lá da homenagem às obras já mencionadas, as interpretações acabam por sofrer da mesma fragilidade há excepção de Fidel Cornago como "Samuel", o inexperiente mas competente técnico que sofre desses mesmos males de isolamento e solidão numa missão especial que parece não ter fim e que condiciona o seu próprio juízo e sanidade mental destacando-se ainda de forma assumidamente positiva a direcção de fotografia que não só ilumina com os seus tons frios o referido distanciamento, solidão e perda de esperança que se pretendem nesta longa-metragem.
Cativante, inteligente e muito bem estruturado apesar de quaisquer limitações que uma obra de cinema independente acaba por sofrer, Bloggers deixa o espectador com a noção de que se encontra perante uma longa-metragem pensada e bem planeada capaz de fazer denotar uma narrativa coesa apesar das suas fragilidades e consciente de uma mensagem social que tenta fazer chegar ao seu público sobre um mundo que morre lentamente... mas que a bem desse poder económico de rosto oculto, está preparado para não se deixar morrer sózinho.
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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Bruno (2017)

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Bruno de Alberto Macasoli (Espanha) é uma das curtas-metragens presentes na secção Cantábria da nona edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos a decorrer até amanhã na região espanhola.
Ele toma um café como todos os dias. À distância observa-a. Ela olha para ele... e num instante revela-lhe um pedido. Poderá ele responder ou irá esquecer algo que lhe poderá mudar a vida?
Com argumento da autoria do próprio realizador, Bruno é uma curta-metragem que reflecte sobre os pequenos encontros da vida que podem ser determinantes para uma das partes. O que acontece quando alguém nos pede ajuda? Esta é a grande questão colocada em Bruno que, no entanto, tem a mais esperada das respostas considerando o mundo individualista em que hoje vivemos. O que fazer? Absolutamente nada.
Num mundo privado de empatia ou sentido para com o próximo, Bruno espelha um encontro casual num café entre um homem e uma mulher. Esta, momentaneamente livre, dirige-se-lhe e revela que se encontra em cativeiro às mãos do homem que a acompanha naquele espaço. Quando "Bruno" tem todas as oportunidades para denunciar o acontecimento, o seu sentido do "eu" prefere, no entanto, ignorar tudo o que lhe acontecera mantendo-se indiferente e crente de que foi alvo de uma partida de mau gosto. No entanto, é esta mesma indiferença que gera um inevitável consequência quando, tempos depois, descobre que tudo era de facto real e que os acontecimentos tiveram um trágico desfeito.
Para lá de um rapto ou de uma situação de cativeiro forçado, Bruno é portanto o espelho não daquele que foi detido mas sim dos demais conhecedores involuntários dos acontecimentos e que, de uma ou outra forma, ignoraram um pedido de ajuda vivendo a partir esse momento com a culpa do sobrevivente e com o pensamento de que tudo poderia ter sido diferente... caso tivessem resolvido intervir. Dessa forma, esta curta-metragem de Macasoli é intrigante não pela forma como o espectador se depara com uma situação de cativeiro pois, na realidade, não tem qualquer contacto com a vítima para lá de umas breves palavras que esta troca com o protagonista mas sim pela forma como observa o sentimento de um jovem homem que pode fazer a diferença mas que optou pela indiferença esquecendo os pequenos sinais de alerta que lhe foram enviados e o pedido de ajuda que poderia ter salvo a vida de uma vítima.
Dramática pela sua mensagem sobre a culpa, Bruno é uma curta-metragem intrigante filmada numa atmosfera negra e com um elevado sentimento de perda que deixa, no entanto, uma importante questão em aberto... até que ponto sobrevive aqueles que sobrevivem à tragédia?
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sexta-feira, 27 de abril de 2018

A Barriga de Mariana (2018)

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A Barriga de Mariana de Frederico Mesquita é uma curta-metragem portuguesa de ficção presente na Competição Oficial dá décima-quinta edição do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema Independente a decorrer na capital até ao próximo dia 6 de Maio.
Mariana (Mariana Pinheiro) está com o namorado (José Condessa) na casa de campo dos pais onde todos passam férias. No Verão que define a sua passagem da adolescência à idade adulta, Mariana descobre que está grávida. Será este o momento que define a sua relação com todos os demais?
Com um argumento também da autoria do realizador, A Barriga de Mariana recupera o Portugal interior do último ano já marcado pelas cicatrizes de um fogo que transformou toda a sua geografia. Da mesma forma que o país real se transformou, também "Mariana" está prestes a ter a sua prova de fogo ao descobrir a inesperada gravidez que terá de revelar a alguém do seu grupo estival. Filha de pais conservadores e com um namorado que se sente - mais do que ela - como um eterno jovem ainda a precisar de gozar a vida, a jovem "Mariana" encontra-se naquele inesperado limbo que coloca todos os jovens com as supostas decisões "por tomar" nas mãos. No entanto, enquanto essas decisões são, para uns, a escolha de que curso ou universidade a optar, para ela é a maternidade que que lhe bate à porta. Receosa da atitude dos pais e temerosa por um namorado que parece não estar preparado (ou querer!) a criança porvir, "Mariana" poderá ter de se transformar na inevitável adulta que, inexperiente, se prepara para ter uma vida igualmente inesperada nas suas próprias mãos.
Numa época de transformações inevitáveis - para "Mariana" e para o país como pano de fundo -, A Barriga de Mariana é portanto o retrato de uma jovem presa a noções pré-concebidas que fazem parte de uma educação mais conservadora que colidem com a irreverência natural de uma jovem que ainda não descobriu sequer o que é viver por si e que se prepara para uma maternidade onde será, forçadamente, responsável por outra vida que se avizinha. Colocando as duas noções em claro confronto emocional e psicológico, a curta-metragem de Frederico Mesquita não esquece de enquadrar a história com o Portugal de 2017 onde também predominou uma incerteza sobre o passado e o presente e as necessárias transformações que se adivinhavam para o país.
Sem nunca revelar o dia de amanhã de "Mariana", A Barriga de Mariana deixa o espectador na tal incerteza sobre aquilo que irá decidir a jovem - manter ou interromper a gravidez -, deixando claro que o seu confronto emocional é provavelmente aquilo que mais irá marcar a sua mais ou menos precipitada decisão. Ainda que sem grandes revelações sobre a história que, de forma geral, se assemelha a tantas outras do género, a curta-metragem de Mesquita revela, no entanto, uma certa sensibilidade na forma como expõe as incertezas de uma jovem que compreende estar a preparar-se para a perda... da criança porvir, de um namorado não preparado para assumir as suas responsabilidades ou ainda o apoio dos pais que não esperam uma surpresa que poderá pôr em causa os valores que pensam ter incutido na sua jovem e adolescente filha.
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7 / 10
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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Beeba Boys (2015)

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O Gangue dos Beeba Boys de Deepa Mehta (Canadá) é uma longa-metragem livremente baseado na história do grupo criminoso Indo-Canadiano que tentou dominar as ruas da cidade de Vancouver. Entre crime, lealdade, violência e um breve conto de amor, Beeba Boys - os Bons Rapazes - relata a liderança de Jeet Johar (Randeep Hooda) sob um grupo de jovens indo-canadianos que se tentavam afirmar numa cidade aparentemente pacífica onde, no entanto, a cultura e a origem ainda eram descriminadas. Quando as portas não estão abertas a todas as cores - aqui usadas pelos protagonistas -, é a exuberância e a violência que se acabam por afirmar numa sociedade ainda pouco tolerante.
Depois da trilogia Fire (1996), Earth (1998) e Water (2005) sobre a condição da mulher numa sociedade indiana tantas vezes associada a uma alegria efusiva mesmo quando as condições sociais não são as melhores ou mais dignas, eis que Deepa Mehta chega com este relato onde a(s) figura(s) centrais e protagonistas são um grupo de jovens indianos que, noutra comunidade que não a sua, decidem impôr-se pela força e pela violência dominando não só as ruas com criando uma ilusória noção de respeito que apenas é amenizada pela excentricidade da cor das suas vestes. Estão criados os elementos principais para que o espectador que já conhece um pouco da sua obra se deixe levar pela curiosidade e permanece atento àquilo que este Beeba Boys tem para oferecer. No entanto, temos muita parra... e muito pouca uva.
Contrariamente às obras anteriormente mencionadas, aqui Deepa Mehta não consegue criar empatia entre as personagens e o espectador através das suas histórias sempre ligadas a toda uma questão social com as quais se podem compreender um conjunto de dramas comunitários ou até mesmo culturais mas que, ao mesmo tempo, faz com que Beeba Boys seja, para o espectador, uma experiência onde apenas se obtém alguns momentos de diversão - não necessariamente aquilo que esta obra procuraria - na medida em que a dinâmica entre personagens seja feito a um ritmo de "conversa entre amigos" mas que naquela tida para com a história em si se resuma apenas a um conjunto de lugares comuns já conhecidos de tantas outras obras do género. Diferenças? Muito poucas. Temos os rituais criminais, as vinganças, o trato da mulher como um adereço bonito para impressionar e se exibir na comunidade, a ideia de que se leva uma vida família exemplar onde a mesma é o supra-sumo de todos os valores e, finalmente, uma pretensa intimidação dos adversários que se querem controlar, minimizar e eliminar da concorrência.
Retirados estes lugares comuns... o que retém o espectador desta história? Pouco... muito pouco. É um facto que temos todo um espectáculo visual através de um elaborado guarda-roupa estridente como manda a lei de todo o filme com um pano de fundo centrado na cultura indiana - e que enriquece qualquer obra do género que se preze -, e um conjunto de momentos onde a adrenalina corre com mais intensidade sem esquecer a já referida irmandade entre criminosos que, na realidade, muitos fazem parte do mesmo grupo desde que se lembram...
No entanto, são esses já referidos lugares comuns que parecem ser os mais presentes. Aliados aos já aqui referidos, o espectador encontra ainda todos aqueles momentos já "vividos" em cinema onde um infiltrado tenta chegar ao líder do grupo, onde a sua influência é crescente mas... afinal... acaba por se descobrir que pertence ao gangue rival naquele momento em que já existe empatia a mais para com o mesmo... a família e a "boazona" de serviço que acabam por ser as vítimas de todas as tramas que mais cedo ou mais tarde acabam por ruir e cobrar as suas dívidas. O braço da lei que chega tarde demais para se conseguir impôr como aquele que realmente decide, dando lugar a um ideal de justiça de dentro para dentro onde apenas o próprio grupo impõe as suas ordens e regras.
Assim, e para lá do assumido espectáculo visual, temos aqui uma tradicional história de crime que apenas se torna mais ligeiro pela jovialidade das personagens e pela exuberância que assumem como ponto de marca desde o primeiro instante. Tudo o demais, por mais inovador que se queira transformar, o espectador reconhece (em todas as suas dimensões) como algo já conhecido, visto e revisto em tantas outras obras cinematográficas.
Exuberante, e com uma ou duas interpretações de destaque como as de Waris Ahluwalia - nomeada como Secundário nos Canadian Screen Awards -, Ali Momen ou mesmo a de Randeep Hooda que acaba por ser o "padrinho" de serviço e aquele em torno do qual tudo gira e acontece e por isso destacando-se entre o grupo, Beeba Boys acaba por ser uma daquelas obras que se esquecem com a passagem do tempo não se marcando como uma original naquilo que pretende retratar nem tão pouco na obra da realizadora indiana que já fez mais... e muito melhor.
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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Brújula (2017)

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Brújula de Roberto Pérez Toledo é uma curta-metragem espanhola de ficção que leva o espectador até um parque onde dois escuteiros (Sergio San Millán e Jaime Riba) se preparam para falar sobre algo que os incomoda desde a noite anterior.
Poderá um sentimento verdadeiro ser ocultado e viver no silêncio?
Também com argumento do próprio realizador e dirigida no âmbito do World Pride deste ano, Brújula é uma história sobre sentimentos reprimidos e um amor até então não confessado que, no entanto, quando sentido com grande convicção será impossível de silenciar. Quando uma bússola que irá indicar um caminho pretendido parece não funcionar, o amor entre estes dois jovens é, também ele, ainda algo incerto, instável e também com vontade de se confirmar. Ainda que seja desejado e sentido com algum embaraço, o "norte" parece cada vez mais difícil de alcançar e apenas a calma, a paciência e a preponderância parecem resolver aquilo que não está desconcertado.
Recorrendo a algum humor e incerteza, Pérez Toledo cria mais uma das suas curtas-metragens cujo mote principal são as relações humanas - ou a falta delas -, deixando em aberto que o principal a dois é a sua capacidade de amar - em conjunto - e não aquilo que está tradicionalmente estabelecido como uma "norma" que deverá ser seguido. Porque o amor não escolha idades, género ou até mesmo uma altura dita "certa", Brújula é assim uma confirmação de que tal como uma bússola, o amor indicará o caminho certo... ainda que para o resto do mundo possa não o aparentar ser.
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6 / 10
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sábado, 16 de setembro de 2017

Beach Rats (2017)

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Beach Rats de Eliza Hittman é uma longa-metragem norte-americana presente na Competição Oficial da vigésima-primeira edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa até ao próximo dia 23 de Setembro.
Frankie (Harris Dickinson)  é um adolescente à deriva que tenta descobrir a sua identidade sexual ao mesmo tempo que vive um drama familiar devido à débil condição de saúde do seu pai. Numa rotina que gira em torno das saídas com os seus amigos de Brooklyn, uma potencial nova namorada e os encontros com homens mais velhos que marca online, Frankie tenta desesperadamente encontrar um lugar... que pode não chegar.
Também com um argumento da autoria de Eliza Hittman, Beach Rats foi o vencedor do prémio de realização da última edição do Festival de Sundance, girando em torno da história de um jovem que tenta desesperadamente encontrar o seu verdadeiro "eu" conseguindo, dessa forma, sobreviver àquela idade de uma incerteza que é não só enquanto o indivíduo que é mas também a propósito da sua sexualidade e necessidades afectivas. A existência de "Frankie" resume-se a uma aparente despreocupação enquanto passeia por Brooklyn com os amigos - todos potenciais marginais - e consome qualquer tipo de droga que consegue roubada dos medicamentos do pai. A pressão dos pares e uma irmã para quem a expressão da sua vida sentimental e, de certa forma, sexual parece ser tão simples, fazem de "Frankie" um jovem adulto cuja existência se limita à omissão, à mentira, à repressão e, essencialmente, a uma involuntária regressão de personalidade que lentamente o confinam a uma auto-violência emocional.
No entanto, "Frankie" encontra uma escapatória para este seu drama quando começa a seduzir homens mais velhos - aqueles que, segundo ele, não conhecem ninguém do seu círculo de amigos - e com quem pode livremente expressar a sua sexualidade. Mas, aquilo que aparentava ser o escape perfeito para a sua sexualidade cedo se transforma numa prisão na medida em que tem de continuar a esconder-se do mundo e viver uma fachada... enquanto a luz do sol brilha. Os encontros são sempre anónimos, em locais desertificados e inicialmente a troca de alguma droga que consome como que utilizando uma desculpa para poder manifestar os seus desejos e expressar os tais sentimentos que o "mundo" desconhece. No entanto, e à medida que o cerco social - mãe, namorada e amigos - aperta, impossibilitando-o de continuar a viver esta existência dupla, "Frankie" terá de perceber que para lá das condicionantes que o rodeiam, aquilo que o define não é a imagem que os outros têm de si mas aquela que ele é capaz de suportar cada vez que olha para o espelho.
Da pressão de pares exercida por aqueles com quem convive mais tempo mas que não passa de uma amizade por conveniência - drogas e mulheres que se tentam encontrar diariamente - à pressão efectuada (de certa forma...) pela imagem que lhe foi incutida de normalidade - homem encontra mulher - "Frankie" desespera silenciosamente como que de uma luta pela sua própria sobrevivência se tratasse. Conseguirá ele alguma vez fazer co-existir estes dois traços da sua personalidade e sexualidade ou, por sua vez, terá ele de (se) assumir ao mundo quem realmente é? Os breves instantes em que ele observa a sua irmã mais jovem nos primeiros actos de uma paixoneta e sente que tudo é tão fácil para ela enquanto que o próprio percebe que tem primeiro de respeitar a imagem social que dele foi criada e só na sombra poder ser livre e quem realmente é, transformam-no em alguém que se auto-mutila psicologicamente apenas para manter aquilo que as aparências (pensa) pedem.
Harris Dickinson - o jovem "Frankie" - dá corpo a toda esta dualidade (e duplicidade) de momentos, sentimentos, expressões e manifestações de uma juventude que tem não só de sobreviver enquanto indivíduo mas também perante os seus pares sociais e grupos primários exaltando com a sua personagem uma intensidade dramática e individual dignas de registo para quem tem (ainda!) um tão jovem percurso enquanto intérprete deixando adivinhar aquilo que de bom ainda o espera. Aqui, o espectador vibra não só com o seu drama silenciado de jovem incapaz de fazer seguir a sua vida em total liberdade, como também pela incapacidade que sente - ou reprime?! - ao perceber que tudo é (para os demais) bem mais simples, menos questionado e igualmente pouco esperado. Tudo é "normal" para os demais... porque não poderá ser para ele? Ainda que pouco explorado em Beach Rats, existe todo um drama familiar que ficou por abordar sendo que, no entanto, percebemos aquando do início da sua breve relação com "Simone" (Madeline Weinstein) que dele se espera que a relação seja tão parecido com aquela que os seus pais tiveram... A pressão, ainda que pouco dinamizada neste guião, sente-se e Dickinson consegue recriá-la por breves mas intensos apontamentos que o seu olhar deixa escapar durante os mesmos.
Finalmente, e também como um apontamento breve de Beach Rats, Hittman deixa passar a ideia de que é nesta era global e informatizada onde tudo está ao alcance de um simples click num computador, que as relações humanas se tornam mais complexas, menos vividas e sentidas e assumidamente mais impessoais. As pessoas encontram-se pelo único instante de prazer imediato que sabem que esse encontro irá proporcionar, e muito pouco preocupadas com aquilo que a longo prazo dali podem retirar - que será nada graças ao seu imediatismo -, desumanizando o contacto, tornando-o semi-animalesco e impessoal... mas sobretudo anónimo... os nomes tornam-se secundários e o indivíduo irrelevante... hoje um... amanhã outro. Num mundo onde tudo se pode ter e conhecer... permanece a questão sobre se realmente se tem e conhecer algo ou alguém?!
Numa atmosfera muito século XXI e na intensidade de um qualquer Verão que parece ser o marco de um fim e de um (talvez não) tão novo início, Beach Rats tem ainda uma magnífica direcção de fotografia de Hélène Louvart que parece desumanizar os intérpretes e os espaços conferindo-lhes uma dinâmica de um constante anonimato nem sempre involuntário e uma música de Nicholas Leone que - essa sim - consegue criar a tal atmosfera destes anos dois mil que, por instantes, parece que o espectador desconhece.
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sábado, 12 de agosto de 2017

El Bar (2017)

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El Bar de Álex de la Iglesia é uma longa-metragem espanhola e a mais recente obra do realizador de El Día de la Bestia (1995), La Comunidad (2000), Balada Triste de Trompeta (2010) e Las Brujas de Zugarramurdi (2013).
No centro de Madrid. O reboliço de uma cidade que não pára contrasta com a relativa calmaria que se faz sentir no bar de Amparo (Terele Pávez) onde algumas pessoas do bairro se reúnem. As conversas de ocasião são interrompidas quando após a saída de um cliente este é abatido a tiro à porta do bar. A cena repete-se uma segunda vez e todos compreendem que não podem sair. Existirá escapatória para este conjunto de pessoas que agora lutam pela sua sobrevivência... também dentro do bar?!
Álex de la Iglesia regressa à sua já longa parceria com Jorge Guerricaechevarría - enquanto argumentista - iniciada com Acción Mutante (1993), criando mais uma história que celebra, uma vez mais, a evolução dos medos humanos quando colocados em situações de pressão ou crise extrema. Assim o verificámos com a descida à Terra de um Diabo então celebrado - El Día de la Bestia -, com o anúncio de uma pequena grande fortuna por todos cobiçada - La Comunidad - ou até com o medo do extermínio por parte de um conjunto de bruxas sedentas de sangue e vingança - Las Brujas de Zugarramurdi - e que aqui ganha forma com a potencial chegada de um vírus que pode infectar toda uma população desprotegida. Aquilo que começa por ser um relato de uma qualquer sociedade moderna, indiferenciada e cínica face à existência individual alheia - mendigos que são forçados a sair do espaço em que se encontram sem que os seus problemas sejam resolvidos, conversas intermináveis ao telemóvel em detrimento das relações humanas que se degradam ou uma simples ida às compras sem que sequer se olhe na cara de quem nos atende ou mesmo um qualquer indivíduo doente que chega sem que ninguém se preocupe com o seu bem-estar (ou falta dele) -, termina como uma exploração dos medos primários de cada um de nós que face a um potencial "fim" revela o mais selvagem e irracional dos comportamentos que têm - eles sim - como único intuito uma sobrevivência e perpetuação que poderá não chegar. É neste preciso momento de percepção da crise que tudo começa a ruir. A pouca simpatia existente dá lugar ao distanciamento e a já inexistente amabilidade desaparece para fazer valer a lei do mais forte. Aqueles que estão na base da pirâmide social surgem como os primeiros que devem ser eliminados... não por uma qualquer debilidade que aparentem ter mas sim porque são considerados com os que têm menos a perder... nada ambicionam... nada desejam... porque não serem os primeiros a desaparecer?!
Mas, se El Bar dá corpo a essa indiferença do Homem face ao seu semelhante nos ditos tempos de crise extrema, é interessante observar como a dupla de la Iglesia e Guerricaechavarría celebra a facilidade com que no mundo das tecnologias, das redes sociais e da premissa de que o "longe" está hoje cada vez mais "perto", se torna realmente distante e de difícil acesso a comunicação entre os Homens... não será esta outra forma de desumanização mas mais... socialmente aceite?! E na sua continuidade... não será esta manipulação da divulgação dos acontecimentos que tão facilmente podem ser distorcidos ou vedados do conhecimento de um grande público a nova forma de uma qualquer censura que a todos reúne no mesmo espaço com os mesmos factos e com a mesma ausência de curiosidade pelos ditos? Até que ponto questiona, qualquer um de nós, a "notícia" que nos chega evitando (in)conscientemente o seu contraditório ou o apuramento de todas as suas vertentes e implicações?
No rescaldo de toda esta história, o espectador apenas memoriza uma não tão simples questão... quando realmente pedimos auxílio... será que existe alguém que nos escuta?! Um telemóvel não atendido, alguém que percorre desamparado as ruas ou mesmo um esclarecido pedido de apoio que nunca irá chegar... Serão (seremos) todos danos colaterais que alguém prefere nunca contabilizar?
A dar corpo às (sempre) ricas personagens que compõem as suas obras cinematográficas, El Bar conta uma vez mais com a colaboração de Terele Pávez (nesta que seria a última colaboração com o realizador), como "Amparo", a sempre humana dona do bar em que se vêem obrigados a ficar refugiados mas que cedo revela os seus mais negros instintos de sobrevivência, Secun de la Rosa como "Satur", o seu fiel, Jaime Ordoñez como "Israel", a vítima da mais recente crise económica agora mendigo nas ruas de Madrid e ainda Mario Casas como "Nacho" o hipster que todos confundem com um potencial terrorista quando tudo começa a dar para o torto. A juntar-se-lhes encontramos ainda Blanca Suárez como "Elena", a menina "bem" que rapidamente tem de sujar as mãos se quer sobreviver, Carmen Machi que com a sua "Trini" revela o rosto de tantas pessoas que se mantêm anónimas como a única forma de sobrevivência face a um desespero diário e ainda Joaquin Climent como "Andrés" e Alejandro Awada como "Sergio", os dois rostos de uma força repressora que rapidamente se vê privada do seu poder ilusório. Todos encarnam personagens que inicialmente são meros adornos da vida de uma cidade. Todos compõem aqueles com quem diariamente qualquer um de nós se cruza na rua e a quem pouca - se é que alguma - importância lhes é conferida. Mas ali, naquele espaço cada vez mais minúsculo e onde todos começam a desesperar pela ideia de um auxílio que não irá chegar e de uma suspeita crescente sobre as intenções daqueles com quem ali partilham uma vivência forçada, revelam os medos mais impossíveis e irracionais que lentamente ganham forma como realidades e certezas das quais todos querem fugir ou, até mesmo, eliminar. Se o mal - ou o medo - chega daquilo que presenciaram vindo da rua... rapidamente todos começam a temer aqueles que ali se encontram... privados do conhecimento sobre o que se passa "lá fora" e com receio que seja um deles o verdadeiro motivo ou receptáculo do medo. O grupo divide-se e o poder é exibido como aqueles que detêm a força... ou o poder de pressionar para depois separar... mas, como tudo na vida, é em crise que se percebe que esse poder mais não é do que uma ilusão e é, quando as vidas não contabilizadas - e logo desconhecidas - se tornam irrelevantes, que as ironias se sucedem e o poder se revela tal como é... uma mera e efémera ilusão.
No entanto a luta pelo poder vai mais longe, e ainda mais selvagem, quando aqueles que foram momentaneamente considerados como mais fracos começam, também entre eles, a disputar o poder por uma sobrevivência que parece cada vez menos provável ou mesmo, quando essa sobrevivência parece resultar do seu domínio - enquanto indivíduos - sobre aqueles com quem partilharam a base da pirâmide... no entanto, mesmo nesta, existe a hipótese (e os meios) para a escalonar.
Irreverente como sempre e cómico quanto baste para revelar o mais profundo espaço da alma humana, El Bar proporciona não só os elementos fundamentais para que o espectador se sinta abstraído durante  pouco mais de hora e meia mas, ao mesmo tempo, confere-lhe a capacidade de (se) analisar em tempo de crise... de perceber os seus limites (se é que alguns) e demonstrar que por mais humano, preocupado com a realidade do mundo e com o planeta... existe aquele, por vezes não tão breve, momento em que tudo pode ruir e ser liberto uma animal feroz e perigoso que consegue, em sociedade, esconder.
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"Elena: El miedo cambia las personas...
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Nacho: El miedo muestra como realmente somos."
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8 / 10
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domingo, 23 de julho de 2017

Blood Surf (2000)

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Surf Sangrento de James D. R. Hickox é uma longa-metragem norte-americana e, assumido desde já, um dos piores e mais divertidos filmes que vi nos últimos tempos.
Um grupo de amigos tem um único objectivo... atrair tubarões para o local onde vão fazer surf e serem filmados para um documentário que, esperam, seja a fonte dos seus rendimentos futuros.
Mas, quando os seus planos de fortuna são interrompidos por um crocodilo gigante que os irá perseguir de forma a transformá-los no seu último petisco, as suas hipóteses de sobrevivência transformam-se radicalmente. Conseguirá algum deles sobreviver a tão grande ameaça?
Sejam tubarões, piranhas, crocodilos, abelhas, anacondas ou aranhas... há algo de atractivo num filme deste género que faz com que o mais reticente dos espectadores se transforme num imediato destemido. Quem de entre nós consegue com franca justiça dizer que este tipo de filmes não se transforma num imediato "guilty pleasure" que... dê por onde der... tem de ser visto?!
Blood Surf ou Krocodylus - é tão bom que o nomearam duas vezes -, é o mais flagrante exemplo daquilo que não se deve fazer... por onde começar com o tão grande número de pobres exemplos do que "não fazer" quando se faz um filme - quase dava um título por si só! - ou, pelo menos, como não ridicularizá-lo. Blood Surf começa com a evidente apresentação das suas personagens, assumindo o par protagonista como aquele conjunto de surfistas que... por muito bons que sejam no mar, assumem-se de imediato como dois tipos que pelo processo de surfar devem ter perdido o cérebro numa qualquer onda mais arriscada. Se é um facto que um deles consegue ainda puxar pela pouca massa cinzenta que assume ter, o outro é um tipo pelo qual qualquer um de nós dá pouco e, a partir de um determinado momento, até se espera que ele seja eliminado pelo predador de serviço de forma a acabar com a penitência pela qual se passa. Não é que seja mau ou um qualquer vilão... mas a sua presença de "grunho" consegue ser poluição visual difícil de esquecer.
Se as interpretações protagonistas são más o suficiente, o que dizer quando começam a transformar-se em lugares comuns onde a verbalização de alarvidades ganha a forma humana, e o seu destino apenas aparenta ser a morte certa que, por esta altura, não só é desejada como recomendada? De intragáveis broncos a interessantes petiscos para os tubarões que pretendem enganar ou para o crocodilo que os tem na mira - e com ele seguem as nossas preces -, Blood Surf ridiculariza-se sem fim quando as referidas personagens começam a ser cada vez mais tipificadas pelos actores que lhes dão corpo - porque alma... honestamente não existe! -, transformando-se no típico grupo de Americanos que vai "à terrinha" para enganar os que julga serem parolos, quando o antigo mestre do mar agora alcoólatra de serviço se assume como o salvador da pátria que afinal... não é, ou mesmo quando o risco de vida aparente - e certo - parece nem sequer importar a alguém que sabe que vai morrer... mas ainda assim pensa que vai com dinheiro atrás! E tudo isto que tenta impedir que o espectador reconheça que os nativos são transformados em parolos que vêem na presença norte-americana o último e mais recente aparelho reprodutor da espécie humana.
Depois de toda uma devastação intelectual - que no fundo... não é muita -, o espectador acaba não só por desejar que esta "gente" toda desapareça do mapa e junta-se ao lado predador na esperança de que este dê cabo de todos os humanos que povoam o espaço. Em nome da justiça... nenhum deles merece realmente sobreviver. E isto tudo torna-se pior, quando o crocodilo se torna uma "realidade"... Não só os efeitos especiais são péssimos como facilmente se percebe que estamos perante um aparelho mecanizado de fraca qualidade - não percebo sequer como é que alguém gastou um dólar a produzir isto -, como os actores tentam dar um ar profissional à coisa assumindo que o que estão a ver é, de facto, assustador.
Blood Surf é risível no mínimo... trágico na pior das hipóteses se começarmos a pensar na quantidade de dinheiro que foi utilizado para fazer "isto", e o espectador acaba por assistir a um filme que não o é... Para lá de previsível em todas as suas possíveis e eventuais dimensões, esta longa-metragem que não é digna de ser apelidada de tal consegue que o espectador abra a boca pasmado pela falta de noção com que tudo foi feito ou, talvez, fazer rir (como referi mais cedo) pela improbabilidade de que isto tenha sido tentado como de facto acabou por ser feito. É certo que existem muitos maus filmes mas, na realidade, nestes escassos noventa minutos parece que todas os piores defeitos de um pretenso filme foram reunidas e elevadas à sua máxima potência resultando... nisto.
De péssimo a trágico, de ofensivo a vulgar... existe toda uma quantidade de adjectivos que podem ser utilizados para caracterizar Blood Surf... nenhum deles será assumidamente positivo e todos, sem excepção, são redutores para algo que não tem qualquer salvação possível deixando apenas uma questão no ar... existiu mesmo quem tenha contribuído financeiramente para que "isto" visse a luz do dia?!
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