The Good Fight de Marco Espírito Santo e Miguel Coimbra (Portugal) é um documentário em formato de curta-metragem cuja abordagem ao mundo do boxe chega pela acção de Jorge Pina, ex-pugilista que recolhe jovens de bairros desfavorecidos para os treinar. Ao espectador, ainda que por breves momentos, é revelado o laço de cumplicidade e amizade que se forma e firma ao longo do treino e a acção de um homem que tem, ele próprio, os seus próprios segredos (para o espectador).
É no final deste brevíssimo documentário que são revelados os elementos que, potencialmente, poderiam fazer desta curta uma longa-metragem na qual fosse explorada toda a acção humanista - arrisco dizê-lo - de um homem que poderá ser para a maioria de nós um qualquer desconhecido com o qual nos cruzamos nas ruas.
Jorge Pina não é um homem qualquer que um dia resolveu dar um pouco de si a jovens que se poderiam perder nas ruas de um bairro de uma qualquer cidade. Pina é atleta. Já percorreu a maratona de Paris mas, no entanto, foi em 2004 que ficou invisual. Dos Paralímpicos a uma acção humanista, este documentário revela então não só a sua paixão pelo desporto - mais concretamente o boxe -, como também a sua capacidade de ensinar a sua arte e criar laços de camaradagem nos jovens que ensina e que acompanha.
Com uma importante mensagem a transmitir que, no entanto, se limita a escassos dez minutos, The Good Fight poderá não só ser um paralelismo entre a luta de um atleta que poderia ver na sua limitação o fim de uma paixão mas também (e principalmente) a forma como reagiu à adversidade e a transformou num trunfo que utiliza para ser alguém capaz de criar empatia com essa paixão que sempre sentiu... o boxe. Digno de um registo em longa-metragem onde tantos pequenos detalhes poderiam e deveriam ser explorados (principalmente a história do "eu"), este documentário prima sobretudo pela sua mensagem e pela forma como a dupla de realizadores conseguiu criar uma história factual que, no entanto, surpreende pelo poder desse inesperado final.
Gatita de Mar de Luisma Lostal (Espanha) expõe, para o espectador, uma vontade de interligar as formas femininas de uma banhista com a ondulação da água numa praia revelando, dessa forma, uma ideia de sensualidade e sedução que (se espera) ambas partilham.
Se esta curta-metragem experimental dificilmente se enquadra naquilo que qualquer um de nós pode, à partida, considerar como um objecto cinematográfico em potência, a realidade é que o desenrolar exaustivo desta obra a única noção que rapidamente se apodera do espectador é que estamos perante um exercício sim... mas de exibicionismo versus voyeurismo. Até aqui tudo bem... quantas obras cinematográficas não existem que exploram, por vezes à exaustão, o imaginário de observar o fruto proibido, aquele que dificilmente ou tardiamente se alcança e que, como tal, desenvolve todo um momento de adulação, de adoração e até mesmo de cobiça? No entanto, será isso que aqui encontramos? De resposta breve... vagamente sim.
Gatita de Mar vive com a noção primária de que a mulher (aquela) existe para ser adorada. Que as suas formas existem para ser celebradas mas, mais que isso, não chega apenas um minuto para cobiçar todo a sua forma. Não, pelo contrário, aqui temos de perder diversos minutos com a mesma imagem e uma banda-sonora quase série B para compreender que o objecto de desejo - do realizador - está vivo e onde a água (fonte da vida) poderá ser o elemento exponencial de uma adoração que - compreendida ou não -, parece não ter limites e que as poses desta mulher... esqueceram também que o que é demais... enjoa.
Decadente, ao ponto de o considerar quase miserabilista ou redutor, o intuito deste filme ultrapassa a noção de obra cinematográfica chegando ao limite de o considerar um pequeno exercício de bajulação sentimental/sexual sentida pela figura que se filma e nunca se identifica... será a mulher como um todo... uma mulher em particular... qualquer mulher independentemente de quem ela seja na realidade? Pouco importa... o tempo foi pouco (para o realizador) e muito (para o espectador) para sequer tecer outras considerações sobre o muito (ou absolutamente nada) que esta curta-metragem poderá querer simbolizar...
La Guerra dei Cafoni de Davide Barletti e Lorenzo Conte é uma longa-metragem italiana presente na secção competitiva da décima-primeira edição da Festa do Cinema Italiano a decorrer até ao próximo dia 12 de Abril no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Puglia... uma era incerta. Em Torrematta os adolescentes controlam o território que se encontra dividido em dois grupos. De um lado os filhos dos ricos. Do outro os filhos dos camponeses. Não se misturam e vivem uma guerra constante de ocupação e conquista.
Num ensaio sobre a luta de classes vista sob uma nova perspectiva, os jovens de La Guerra dei Cafoni revelam uma surpreendente história sobre o poder, a opressão, a tirania e uma vontade extrema de liberdade transformando-os num único Verão nos adultos porvir.
Baseado na obra homónima de Carlo D'Amicis, La Guerra dei Cafoni apresenta logo desde os primeiros minutos toda a dinâmica desta história... começamos por observar um pai e filho que numa árdua luta pela sua sobrevivência são condenados à perda e à morte por ambicionarem um pouco mais de água de um poço que se encontra no terreno do "patrão". Esta dinâmica, rapidamente se transpõe para tempos mais recentes (ainda que não identificáveis para lá das poucas evidências que o espectador pode reter graças ao sugestivo guarda-roupa dos actores), onde os dois grupos de jovens mantém todo um jugo que se propaga pelos séculos e no qual a diferenciação de classes se mantém como um requisito para a condição social e comunitária de todos.
Assim, e num espaço ausente de presença significativa de adultos - o único que atravessa de certa forma toda esta história é o dono de um bar de praia ao qual todos recorrem ocasionalmente -, La Guerra dei Cafoni é portanto a luta de ricos em manterem o seu lugar na pirâmide social enquanto que os mais pobres desejam não o ascender nessa mesma pirâmide mas que os outros possam ser, tal como eles, menos privilegiados na mesma. De outra forma, ambos os grupos não têm qualquer objectivo real para como a ascensão ou progressão social dos menos privilegiados e aqueles que já estão no topo tão pouco pretendem ser "invadidos" por um novo conjunto de pessoas não habituados aos seus hábitos. Assim, o combate travado entre uns e outros não tem qualquer objectivo de alteração social mas sim o combate para evidenciar que essa diferença simplesmente existe.
Entre conflitos típicos de jovens pré-adolescentes que se assumem no espaço como controladores de uma qualquer ordem social - a ausência de adultos que tenham estabelecido a ordem é uma constante -, e a sua existência no mesmo como que numa penitência que lhes poderá conferir a entrada nesse tal mundo dos adultos onde poderão conhecer toda uma nova e diferente (ou não) realidade, faz deste La Guerra dei Cafoni um relato sobre as origens e a compreensão dessa diferença assim como sobre a forma como a mesma se estabelece como um qualquer pré-requisito actual de uma vontade de épocas passadas... afinal, quem estabeleceu a realidade desta diferença de classes? Alguém a compreende de facto? Alguém a poderá justificar num mundo em constante transformação? Apenas num espaço e tempo incerto resguardado das influências externas poderá essa tal "diferença" sobreviver... Em La Guerra dei Cafoni observamos que a única distracção de todas estas crianças é a praia... não existem televisões... telemóveis tão pouco (talvez ainda nem tenha chegado a sua era), os rádios não funcionam e a única máquina de pinball é rapidamente requisitada e destruída num inesperado acidente. Estando todos eles perante uma realidade que os ultrapassa para lá da única certeza que tudo está "como sempre foi", como poderão eles compreender que existe mais para lá do seu mundo se esse não faz parte do seu imaginário para lá de algumas luzes no horizonte que nem todos observam?!
Com um conjunto de interpretações dinâmicas onde se destacam os jovens Pasquale Patruno como o jovem "Francisco Marinho" por parte dos "ricos" e Letizia Pia Cartolaro como "Mela" e Donato Paterno como "Scaleno" por parte dos pobres camponeses, La Guerra dei Cafoni destaca-se ainda pela sua subtilmente constante música original da autoria de David Aaron Logan que cria uma perfeita atmosfera estival e juvenil adensada com um drama existencial de classes colocando-se como uma invulgar história de luta pelo poder na qual as suas personagens não pretendem a transformação de classes mas sim a sua eliminação pela vontade em que todos devem coexistir num espaço com recursos e direitos iguais... ainda que cada um no seu próprio espaço.
No final, e num mundo onde o desenvolvimento pessoal se faz de sacrifício e descoberta, são "Francisco Marinho" e "Mela" aqueles que despertam para uma realidade diferente... Ele, por esperar do seu espaço e daqueles que passa a admirar, uma lenta transformação que, depois, o condenam por amor... Ela, por vislumbrar ao longe uma nova realidade que, mesmo sendo incerta, poderá representar todo um novo universo de oportunidades que espera descobrir... quando as suas responsabilidades para com um jovem "Tonino" (Piero Dioniso) terminam pelo repentino amadurecimento do mesmo, a sua vida para a ser virada para si e não para a protecção do irmão mais jovem.
La Guerra dei Cafoni é assim um filme sobre a luta e percepção de classe não como uma condicionante do seu próprio ser mas como um facto adquirido de geração em geração que não se pode questionar, alterar ou negar... Até que o mundo (seu) se revela pequeno demais e o chegar "à outra margem" se impõe como uma necessidade.
Gata Cinderela de Ivan Cappiello, Marino Guarnieri, Alessandro Rak e Dario Sansone é uma longa-metragem italiana de animação presente na secção Panorama Especial da décima-primeira edição da Festa do Cinema Italiano a decorrer em Lisboa até ao próximo dia 12 de Abril no Cinema São Jorge.
Nápoles. Um futuro incerto. Num navio no porto da cidade é construído o Polo da Ciência e da Memória e o magnata Vittorio Basile (voz de Mariano Riggillo) tem um casamento marcado com Angelica Carannante (voz de Maria Pia Calzone). No entanto, Angelica tem os seus próprios planos com Salvatore Lo Giusto (voz de Massimiliano Gallo) numa história que cruza a criminalidade e um futuro ao estilo de Blade Runner tendo como pano de fundo uma das mais intensas histórias de amor romântico do cinema de animação.
Com um argumento da autoria dos realizadores em colaboração com Marianna Garofalo, Corrado Morra e Italo Scialdone, Gatta Cenerentola é uma surpreendente - mas com um potencial ainda por explorar - história de animação que mescla vários estilos cinematográficos. Se por um lado temos a Nápoles criminal que se reúne num navio no porto da cidade e onde todos os opositores ao novo mestre do crime são matematicamente eliminados no porão do mesmo num estilo muito próximo daquele que temos em vários filmes de ficção do género saltando imediatamente à memória Gomorra (2009), de Matteo Garrone não deixa de ser real a imediata relação que o espectador estabelece com Blade Runner (1982), de Ridley Scott onde todo um universo futurista se funde com as marcas do passado e onde as memórias ganham forma unindo aqueles que então vivem às suas origens e fundações. Ao mesmo tempo, é indissociável desta história a sua base, ou seja, a directa relação que existe com a história da Cinderella (1950) onde uma jovem princesa - aqui filha do dono de um vasto império económico - se vê refém de uma violenta madrasta e suas filhas sedentas de se apropriar desse mesmo império.
Longe de encontrar aqui uma história de crianças, Gatta Cenerentola é sim um relato violento sobre o mundo do crime - as ligações às máfias são, aliás, uma constante - e os seus tentáculos que tolhe na sua rede todos aqueles que se põem no seu caminho em nome de uma crescente vontade e sede de poder. Sem escrúpulos ou qualquer piedade, estas personagens protagonistas - "Angelica" e "Salvatore" - primam pelos requintes de malvadez com que actuam e pactuam, deixando todo um rasto de vítimas que o espectador apenas levemente (re)conhece num dos seus segmentos, e que fazem do próprio historial da cidade de Nápoles o palco não tão oculto desse ritual misturando passado, presente e este futuro distópico num ciclo que não afasta este imaginário do crime da própria cidade da Campânia.
No entanto, e como em todos os filmes de animação, Gatta Cenerentola não esquece a sua personagem "principal" na silenciosa "Cinderela" que se assume como uma especial vingadora ao estilo de "Beatrice Kiddo" de Kill Bill (2003) depois de todo um percurso semi-ausente como uma esperada vítima fechada numa prisão decadente de metal onde as sombras e as memórias se misturam como que fantasmas que percorrem o presente daqueles que resistem. E como a todas as princesas se apresenta um príncipe ou cavaleiro andante, também aqui o encontramos em "Primo Gemito" (voz de Alessandro Gassman), guardião de "Cinderela" em criança e seu salvador quando se reencontram mais de uma década depois.
Intenso e original é, no entanto, a curta duração de Gatta Cenerentola - pouco mais de noventa minutos - que deixa o espectador com alguma desilusão na medida em que todo este imaginário poderia catapultar mais este argumento - não bastasse, por exemplo, a fundição de todos os géneros anteriormente mencionados -, transformando-o e explorando todas estas dinâmicas... quer a futurista, quer o clássica e mesmo a da criminalidade que, no final, é aquela que se torna mais presente. Uma das fortes apostas do cinema transalpino, Gatta Cenerentola é uma franca e importante aposta do cinema de animação do país premiado este ano não só pela Academia Italiana de Cinema como também foi o grande vencedor do MONSTRA - Festival Internacional de Cinema de Animação de Lisboa e a prova de que o género não é só para crianças.
Gam Man da Song Si de Alan Lo é uma longa-metragem chinesa que junta uma comédia muito simplória e com grande recurso ao absurdo à temática zombie transformando-a numa experiência que tem tanto de exuberante como improvável e não... pela existência de mortos-vivos.
Lung (Michael Ning) e Chi-Yeung (Louis Cheung) são dois jovens adultos como uma vida despreocupada e sem responsabilidades. Numa família disfuncional, criado pela madrasta e com um pai que regressa depois de anos detido, Lung encontra-se num mundo ocupado por mortos-vivos criados a partir de um monstro de animação que o próprio segue.
O argumento de Nick Cheuk, Nero Ng e Chi Hoi Pang faz desta história de zombies um relato desastrado do género que tenta forçosamente quer ter a sua veia de comédia ao mesmo tempo que insere o drama familiar, o universo anime e ainda um humor pouco gracioso, o coming of age e ainda a dinâmica de super-heróis numa única história. Por outras palavras... ao iniciar esta dinâmica de apocalipse em formação, Gam Man da Song Si transforma-se numa história com tantas pontas soltas que o espectador se perde pelo meio ao tentar compreender a qual irá dedicar a sua atenção. Se por um lado esta longa-metragem tenta abordar as dinâmicas deste novo mundo industrializado onde os pequenos comércios tradicionais e as habitações tradicionais de uma população são ameaçadas, não será menos real o espectador compreender que toda esta amálgama de inuendos dispersa a dramatização bem como o universo zombie per si.
Ao mesmo tempo, Gam Man da Song Si recria ainda a dinâmica dos jovens deste novo milénio que se perdem numa indecisão e imprecisão de rumos pelos quais lançam a sua vida, fruto de uma falta de preparação para o futuro ou mesmo incoerência nas prioridades sendo, os próprios, o resultado de uma eterna juventude que os delírios da infância lhes permitem, potencializados ainda pelos lares desfeitos e famílias não convencionais de onde provêm e que, em toda a sua dimensão, os lançam numa incerteza e questão final... quem sou "eu" na realidade?!
Questões filosóficas à parte que, na realidade, por muito que se permitam existir nesta longa-metragem acabam por ser, em toda a medida, um mero detalhe da mesma, Gam Man da Song Si auto-fragiliza-se na medida em que nada parece estar - ou querer - exibir um qualquer tipo de coerência. Imaginemos (sem visualizar) aquilo que nos é apresentado... um apocalipse zombie proveniente de um monstro anime que assume a forma de um galináceo. Galináceo esse que lança bolas de sabão que zombificam as suas vítimas e que, ao mesmo tempo, lança ovos assassinos que "estoiram" - literalmente - as cabeças alheias. Como se isso não bastasse, este galináceo é ainda "encorpado" por um inesperado "habitante" que, já bem perto do final, expõe as fragilidades do próprio "Lung" e toda a sua dinâmica familiar e que o impede de crescer.
Esta dispersão de realidades, de géneros e de temáticas que Gam Man da Song Si pretende retratar poderiam ser interessantes em várias obras independentes que explorariam cada uma delas de forma harmoniosa. No entanto, é esta mesma dispersão que torna confuso - ou até coerente - não só o próprio argumento como o interesse do espectador que se deixa levar por um - se é que... - dos mesmos ignorando todas as demais componentes que aqui apenas servem para retirar a atenção do "bolo" como um todo. Se a esta vertente conseguirmos aliar todos os pequenos elementos que o tornam absurdo - considerando que a temática zombie é, por si só, algo já difícil de assumir para lá da fantasia - como, por exemplo, o corpo continuar a andar e saudar depois de uma cabeça "estoirada" ou o zombie consciente que se suicida - irónico! - depois de um último acto de amor que perpetua a sua dinâmica enquanto "ser humano" então, Gam Man da Song Si é uma obra que deixa o espectador quer indeciso quer inseguro sobre se há-de rir, amar ou detestar esta história.
Diferente, tenho as minhas reservas quanto ao original, mas assumidamente esquizofrénico, Gam Man da Song Si corre aquele risco de se transformar numa obra de culto (pela sua pobre coerência) ou num daqueles filmes que todos amam odiar por elevar ao máximo o absurdo da situação e recorrer a pequenos lugares comuns que dispersam e desvirtualizam o género que reúne um tão grande número de fãs por todo o mundo independentemente da sua cultura ou meio social. Ressalva seja feita, no entanto, aos breves apontamentos de animação ao longo do filme e, muito concretamente, ao segmento final que transformaria toda esta história mais positivamente coerente caso se se tratasse de uma longa-metragem de animação.
Seguramente olvidável, Gam Man da Song Si é uma obra que passa ao sabor do vento e não deixa grandes memórias sobre os seus enredos ou personagens. No reino da incredulidade... nem o mais absurdo chega para lhe conferir alguma coerência.
Geostorm - Ameaça Global de Dean Devlin é uma longa-metragem norte-americana e o mais recente exemplar do filme catástrofe deste ano.
Depois de inúmeras crises ambientais e cataclismos naturais devastarem o planeta Terra, os governos do mundo desenvolvem um sistema de satélites destinado a protegê-lo de uma qualquer intempérie que ameaça a estabilidade das populações. No entanto, quando se começam a registar estranhos fenómenos climatéricos num planeta que se pensa controlado, Jake Lawson (Gerard Butler) o engenheiro que construiu este sistema, fica encarregado de viajar para o espaço e descobrir, na respectiva estação espacial, o que está a provocar uma nova ameaça ao planeta Terra.
Dean Devlin - realizador e argumentista - e Paul Guyot escrevem o argumento deste Geostorm naquele que é o mais recente conto de destruição do planeta claramente inspirado nas histórias catástrofe de Roland Emmerich. A premissa é, como em todos os filmes deste género, assumidamente simples. Pega-se no tema quente do momento - as alterações climáticas e o respectivo aquecimento global -, juntam-se umas quantas catástrofes climatéricas de proporções descomunais (desde granizo gigante a degelo drástico ou até a já tradicional onda gigante), com o propósito final de uma morte em massa numa qualquer parte do mundo onde todos os elementos anteriormente mencionados nunca se registaram. Fórmula preparada para o consumo do espectador? Ainda não...
Se o tradicional filme de destruição planetária evita entrar em domínios perigosos como o são, por exemplo, as conspirações palacianas e os truques políticos - ainda que sejam sempre inocentemente abordadas -, em Geostorm os argumentistas não se esquecem de glorificar e diabolizar o Presidente dos Estados Unidos da América - ah... o sempre presente -, como um potencial perigo planetário - não esquecer - ou um improvável salvador "das pátrias unidas" sob a bandeira do ambientalismo inevitável.
Mas, não é só de intrigas palacianas que dão o mote a Geostorm. Aqui ainda temos tempo para o drama sentimental e familiar preenchido por um lado pela relação entre Jim Sturgess e Abbie Cornish como o par romântico não assumido por questões políticas e de segurança e ainda a relação de Sturgess com Butler, irmãos cuja carreira profissional colocou em dois lados opostos da barricada... um emergente na política e o outro a odiá-la como a causa directa da sua ruína. Todos estes elementos, potencialmente aliciantes no seu todo, provocam com que Geostorm seja uma daquelas longas-metragens do género que sedentas de contarem todo um conjunto de enredos em pouco mais de noventa minutos, se percam num labirinto sem fim de histórias que ou se tornam risíveis ou, por sua vez, sejam atiradas contra o grande ecrã apenas para dispersar a atenção sem nunca revelam uma clara intenção de serem devidamente contadas ou exploradas. No fundo, enquanto filme catástrofe é apenas nessa vertente que Geostorm quer ser relatado... Importa a destruição... já não necessariamente original se pensarmos em 2012 (2009) ou The Day After Tomorrow (2004), e um conjunto de efeitos especiais mais ou menos bem executados - nem sempre com a credibilidade esperada - e essencialmente temos um filme feito... O demais, desde os actores que se perdem em enredos pouco explorados ou mesmo o dinamismo e relevância da sua personagem para a história são secundários... e que o diga uma desaparecida Mare Winningham que aqui se mantém... praticamente invisível.
Da segregação populacional - afinal nem todos contam com a mesma importância ainda que o planeta esteja à beira de provocar a sua extinção - ao lugar comum tido com o improvável salvador dos dois heróis de serviço, Geostorm navega naquele grupo de filmes que, apesar do seu conteúdo apelativo - qual de nós não gosta de ver estes "filmes catástrofe"? -, não consegue ser suficientemente interessante ou inovador dentro do género para o recordarmos como os dois anteriormente mencionados. Geostorm sobrevive apenas por um certo aspecto mórbido que todos nós temos em observar a catástrofe e a sua consequente destruição pelos mais variados locais mais ou menos reconhecíveis do globo mas, mesmo esses, não são suficientemente interessantes para que o espectador os memorize como momentos "daquele filme" que se viu e recorda.
Com um conjunto de nomes sonantes em interpretações perfeitamente banais e regulares - nem Butler, nem Sturgess, nem Cornish ou tão pouco Ed Harris se destacam - Geostorm é aquele filme de Verão (que saiu em Outubro) que qualquer um de nós irá facilmente esquecer. Cumpre (ligeiramente) a sua função enquanto peça de entretenimento na qual o espectador não perde muito tempo a pensar nas suas vertentes ou nuances mas, uma vez saído da sala, torna-se facilmente num imediato fruto do esquecimento.
Mensagens ambientalistas à parte... Geostorm não consegue provocar qualquer tempestade ou consciencialização no espectador mais preocupado com as suas sequências de destruição... por cumprir.
El Guardián Invisible de Fernando González Molina é uma longa-metragem espanhola protagonizado por Marta Etura como a inspectora Amaia Salazar, destacada para investigar a acção de um serial killer no norte de Espanha.
No período de uma semana, Amaia comanda e investiga um caso que assola a região norte de Espanha. Quando um conjunto de jovens adolescentes desaparece e se tornam vítimas de um perigoso assassino, a detective revisita não só a região onde cresceu mas também o passado da sua própria família que parece trazer estranhas e improváveis revelações que poderão ajudar ao seu caso. Poderá estar Amaia mais perto do assassino do que aquilo que pensa?
Marta Etura protagoniza esta história da autoria de Luiso Berdejo com base no romance de Dolores Redondo, conferindo-lhe uma invulgar essência mística na medida em que aproxima uma vertente mais tradicional repleta de pequenas superstições locais bascas à trágica realidade de uma contemporânea. Num mundo que parece ter abandonado todas as crenças populares que fizeram as delícias de tantas e tantas gerações, existirá algum fundamento na crença de que alguns universos ainda povoam misteriosamente a realidade que todos nós experimentamos todos os dias?
Aquela que é uma história que aproxima uma pacata localidade do País Basco espanhol dos trágicos destinos de uma qualquer grande cidade europeia onde o crime ocupa, também ele, a sua parcela de espaço físico, El Guardián Invisible circunda-se de uma aura típica de um conto sobrenatural ou de uma qualquer obra especializada no género em questão. A chuvosa e húmida região espanhola cedo se transforma num cenário típico de qualquer conto de fadas amaldiçoado por uma presença sobrenatural - ou pelo menos assim se pretende que o espectador pense -, ignorando por breves instantes que nos encontramos numa realidade interior - geograficamente falando - mas, ao mesmo tempo, bem presente e constante deste século XXI que habitamos. Das sombrias montanhas e bosques perdidos cuja atmosfera é saudavelmente recriada por uma intensa e pertinente direcção de fotografia às mãos de Flavio Martínez Labiano, às sombras que parecem querer marcar presença até nos intensos e igualmente sombrios interiores de casas que escondem os seus próprios segredos, El Guardián Invisible apenas leva o espectador para a contemporaneidade em que se encontra realmente pela contextualização temporal que insiste em marcar presença.
Se esta história começa pela abordagem ao assassinato como mote para tudo o que o espectador irá assistir e, de certa forma, tentar desvendar é, no entanto, também a vida de "Amaia" que acaba por ganhar uma centralidade inesperada quando o seu próprio passado é transportado para esta realidade como uma importante prova - ou pelo menos indução - daquilo que a investigadora ali foi tentar descobrir. O seu passado como parte fundamental da mulher em que hoje se transformou e dos traumas dos quais não se consegue libertar, levam-na não só a questionar-se enquanto fiel membro de uma família que marcou a sua tragédia pessoal como também à sua própria profissão que a coloca a pisar terreno frágil como se de um limbo se tratasse.
Da violência doméstica à tortura física e psicológica e desta ao assassinato e à descoberta de perigosas psicopatias que se alimentam de silêncios inquebráveis que perpetuam a agonia em prol de um bom nome de família - afinal, nem todos os pecados podem ser confessados e expiados com uma simples confissão e perdão divino -, El Guardián Invisible questiona-se (nos) sobre os esquecidos traumas do passado que são silenciados em nome de uma salvaguarda pessoal mas que, ao mesmo tempo, corrompem um normal desenvolvimento psicológico ou mesmo uma confiança mais alargada naqueles que - nesse tal presente - decidem e escolhem fazer parte da vida de um indivíduo - neste caso "Amaia" - como seu par sentimental ou profissional. Ainda que "Amaia" seja uma mulher confiante e forte, cedo é dado a perceber ao espectador que é uma mulher que vibra por uma justiça que (percebemos) lhe ter sido negada e é nesta dinâmica de conseguir para os demais aquilo que em tempos lhe foi vedado que o espectador compreende que a sua história tem mais por revelar do que apenas um simples afastamento da sua família ou mesmo justificativa da sua incapacidade de se comprometer com a sua nova realidade sentimental.
Enquanto "Amaia" se descobre - e ao eventual assassino -, o espectador deixa-se levar pela sua história em detrimento do que poderá estar a acontecer naquele território ensombrado por velhos mitos e lendas, por um misto de ocultismo contemporâneo que persiste nas vidas dos mais antigos como uma parte da sua cultura - e tradição -, ignorando que, na realidade, o próprio está naquele território para, juntamente com ma detective, compreender o que realmente acontece numa terra aparentemente pacata mas que vive na sombra de um perigoso e demente assassino... Quando tudo parece encaminhado para que as suspeitas surjam sob a forma do próprio passado de "Amaia", eis que se revela uma alma desprovida da dita que finalmente se assume como o verdadeiro criminoso por quem ela tanto procura. Diz-se que os psicopatas são exímios em ocultarem as suas psicoses... em El Guardián Invisible compreendemos finalmente que essa é uma realidade confirmando ainda que González Molina conseguiu entregar uma estranha e improvável alma tanto à detective como ao assassino em iguais proporções... afinal qual deles não aparenta um passado suficientemente turbulento para algures no seu percurso se ter desviado para a prática de um mal constante? Qual o factor que realmente os distanciou? No fundo, porque não foi também "Amaia" uma perigosa psicopata dado todo o seu passado de violência e rejeição? Terá sido ela protegido pelo tal guardião invisível que povoa os bosques bascos?!
Com uma intensa e aguerrida interpretação de Marta Etura, que oscila entre o forte mas vulnerável e sobretudo determinada em resolver não só o seu passado como principalmente confirmar-se como uma profissional dentro da sua área de investigação, El Guardián Invisible confirma-se como um policial semi-sobrenatural onde toda a sua atmosfera contribui para a potencialização de um ambiente místico e etéreo reforçado pela já referida direcção de fotografia mas sobretudo por toda uma ambiência geográfica que as portas dos Pirinéus lhe conferem. Se então lhe juntarmos uma ligeira mas pertinente vivida presença de toda uma mitologia popular que mantêm o espectador numa constante suspensão sobre a eventualidade de uma participação sobrenatural que o tradicionalismo e os contos populares assumem, então esta longa-metragem prende-nos não só pela realidade citadina de um assassino em série mas também pela compreensão de que nem tudo o que nos foi contado pelos nossos antepassados é necessariamente "fantasia popular".
Glüeckskind de Samuel Auer é um documentário em formato de curta-metragem presente na secção competitiva do Leiria Film Fest que ontem terminou na cidade beirã e que nos dá a conhecer o trabalho do artista Kolja Kugler em Berlim que através do lixo deixado para trás pelos habitantes da cidade constrói esculturas de tamanho real e, muitas das quais, dotadas de movimento.
Naquilo que poderia ser apelidado como um simples documentário ambientalista graças à forma como Kugler aproveita os detritos dos demais para construir as suas obras é também facilmente apelidado de uma obra artística na medida em que retrata todo um processo criativo de um homem que (se) expõe ao mundo através da sua arte. Com reminiscências muito próximas a Chappie, de Neill Blomkamp - é preciso ver este documentário para perceber a comparação - Glüeckskind é uma breve mas pertinente obra que valida os ideais de ambientalismo, de arte e principalmente da marca de um homem pelo espaço e pelo planeta.
Interessante, pertinente e curioso Glüeckskind merecia ir além da sua breve duração enquanto curta-metragem para conhecermos melhor o homem e a arte (que produz), o seu destino e principalmente as suas motivações num mundo artístico onde - por vezes - parece que a criatividade foi abandonada e se respondem apenas a padrões estilísticos já produzidos e vistos.
A Rapariga no Comboio de Tate Taylor é uma longa-metragem norte-americana e a mais recente obra do realizador de The Help (2011).
Rachel (Emily Blunt) é uma mulher que todos os dias estabelece a mesma rotina. A caminho do seu trabalho em Nova York, Rachel passa pela casa onde vivera com o seu marido e que este agora partilha com a sua nova mulher e filho. Neste percurso, Rachel observa a casa ao lado onde idealiza a vida perfeita de Megan (Haley Bennett) e Scott (Luke Evans) que, mais tarde, confirma mais não ser do que a sua imaginação.
Quando Rachel acorda de um pesado sonho e sem recordar o dia anterior, as turvas memórias confundem-se com uma realidade distorcida colocando-a no centro de todo um conjunto de assustadoras revelações.
O argumento de Erin Cressida Wilson baseado no romance homónimo de Paula Hawkins recupera o género do típco thriller psicológico matrimonial no qual um casal é aparentemente desfeito pela espiral de decadência mental pelo qual um dos cônjuges se deixa levar. No entanto, aquilo que é lentamente desvendado pelos três segmentos de The Girl on the Train - Rachel, Megan e Anna - é uma história que está para lá do que alguns conhecimentos revelam sobre o carácter de uma "Rachel" aparentemente instável.
Emily Blunt dá corpo a esta "Rachel", uma mulher amargurada pela impossibilidade de ser mãe. Quando o desejo extremo dá lugar a um desgosto igualmente forte, a relação do "eu" e dos outros - neste caso para com "Tom" (Justin Theroux) - entra num conflito imediato de violência de degradação provocados pelo elevado consumo de alcoól (dela) e a eventos que não só não consegue controlar como são afectados pela perda de memória que a fazem ignorar o seu comportamento. "Rachel" vive na sombra da mulher que pode ter sido - o espectador nunca o descobre - e, ao mesmo tempo, refém de memórias que não são suas. Quando os pequenos detalhes se confundem com a deturpação de uma realidade que desconhece e quando destes depende a justificação não só da sua inocência como também da reposição de uma verdade perdida, "Rachel" socorre-se de uma imaginação fértil e prolífera na narração de factos que, na prática, desconhece. No fundo, o que aconteceria se por detrás de um comportamento violento e erróneo se esconde-se uma verdade que ninguém ousa questionar?
Tendo em mente o comportamento de "Rachel" que nos é dado a conhecer pelos relatos de "Tom" e, de seguida, pela sugestão que as imagens nos provocam, The Girl on the Train assume em dois distintos segmentos, as realidades das outras duas mulheres da vida de "Tom". A primeira é a sua babysitter - "Megan" - e a realidade que envolve o seu estranho desaparecimento no qual "Rachel" é imediatamente envolvida graças à sua imaginação propícia à narração de acontecimentos que poderão - ou não - ter acontecido. A segunda - "Anna" - é a nova mulher de "Tom" com quem este se casara depois de deixar uma "Rachel" violenta e mentalmente instável. Estando e actuando estas duas mulher como meros "apêndices" da história de "Rachel" - uma por ser a actual esposa do seu ex-marido e a outra por ser aquela por quem desenvolve uma estranha e quase mórbida obsessão -, o espectador vê-se envolvido num conto onde os factos nem sempre são o que parecem e os pequenos detalham adquirem uma importância crucial na descoberta daquilo que os olhos por vezes não querem observar... por vezes ver e olhar são dois distintos sentidos e em The Girl on the Train estes são questionados como determinantes para aquilo que realmente observamos ou aquilo que a sugestão nos leva a crer sobre o comportamento alheio.
Com elementos que oscilam entre Gaslight (1944), de George Cukor - que valeu a Ingrid Bergman o seu primeiro Oscar - e de Gone Girl (2014) ,de David Fincher - que deu a Rosamund Pike a sua primeira nomeação ao referido troféu - The Girl on the Train tem sido apontado como a grande confirmação de Emily Blunt para o mesmo e a esperada surpresa para esta temporada de prémios que se aproxima. No entanto, e contrariamente aos dois desempenhos anteriormente referido, Blunt consegue ser a personagem principal de um filme que se perde pelos relatos das histórias paralelas conferindo-lhes - a essas - o protagonismo que se esperaria para a actriz britânica. Num eterno crescendo que parece não ter fim à vista, Emily Blunt é, desde o primeiro instante, o rosto de uma mulher atormentada por um passado recente que a consumiu... Incapaz de ver concretizada a sua maternidade, abandonada pelo marido e com um registo de distúrbios provocados pela sua dependência de alcoól, Blunt confere à sua "Rachel" a instabilidade emocional necessária para que o espectador cria-se uma empatia com a mesma... Por sua vez, e contrariamente àquilo que se sente pela já mencionadas Bergman e Pike nas obras em que participaram, Blunt não consegue criar o esperado domínio e controlo sobre o filme que interpreta, deixando o espectador especular e criar uma empatia mais intensa com as personagens secundárias mesmo que, de um ponto de vista social, essas sejam assumidamente destrutivas - uma ex-amante que se torna esposa, e uma jovem mulher que desde a adolescência controlou e manipulou os homens que quis ter fruto de um desgosto também ele transformador - ficando a sua "Rachel" "sentada à espera" do seu momento de revelação já bem perto de um final onde o espectador se entregou aos secundários - não esquecer um Luke Evans pouco explorado e um Edgar Ramírez quase figurante - e através deles perceber quem ela realmente é.
Porque as histórias se interligam - nem sempre com o melhor elo - e porque nem sempre o "olhar" é o mesmo que o "ver", The Girl on the Train cria uma interessante atmosfera sobre esta premissa bem como sobre os preconceitos que criamos a respeito daqueles que exibem comportamentos borderline, ignorando o seu passado, os seus motivos e essencialmente a sua perspectiva dos mesmos acontecimentos que presenciamos. No entanto, deixando de lado uma boa parte do suspense, da intensidade dramática e, por vezes, subtilmente revelando aquilo que se espera dos reais rostos das personagens que nos são apresentadas, The Girl on the Train está aquém do intenso drama/thriller que fora anunciado e ainda mais longe de se tornar "naquele" filme que irá marcar o devido lugar de Emily Blunt (não que ele esteja em causa) destacando, por outro lado, uma pouco empática Haley Bennett que com a sua frieza de (se) encarar o mundo revela aquilo que é, de facto, uma pessoa a quem o dito "mundo exterior" já não conseguirá afectar. Haley Bennett que - a ser promovido este filme para os prémios que se avizinham - será certamente uma interessante e segura aposta para os mesmos validando a própria premissa já aqui referida... Ver - uma semi-apagada Blunt (quase um sacrilégio dizer isto!) pois nem sempre um pouco de caracterização, ou sua ausência, resultam para criar a esperada intensidade dramática - ou olhar - Haley Bennett - para aquele que é sim... o mais forte e intuitivo desempenho de The Girl on the Train...
Grandma de Paul Weitz é uma longa-metragem norte-americana que passou na secção Panorama desta vigésima edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre no Cinema são Jorge, até ao próximo dia 24 de Setembro.
Depois de terminar o seu mais recente relacionamento, Elle (Lily Tomlin) recebe a visita de Sage (Julia Garner) a sua neta adolescente, que lhe revela precisar urgentemente de dinheiro.
A inesperada união destas duas mulheres leva-as a revisitar o passado de Elle enquanto, ao mesmo tempo, ambas estabelecem uma forte e cúmplice ligação fazendo-a abraçar um passado, até então, não lembrado.
A mais recente longa-metragem de Paul Weitz - na qual exerceu funções de produtor, realizador e argumentista - é o grande regresso em força de uma sempre espera Lily Tomlin (figura central de todo o filme), no papel de uma mulher de feitio algo complicado que se encontra num momento de viragem na sua vida. Viúva após a morte da sua companheira de toda uma vida, "Elle" (Tomlin) separa-se da sua mais recente relação com uma mulher mais nova que, segundo ela, não iria garantir-lhe mais do que uns breves momentos de prazer. Neste momento de viragem onde não mantém relações afectivas, de amizade ou mesmo familiares com uma filha que se mantém distante, "Elle" recebe uma jovem neta naquele que é - também ele - um momento da sua vida. Com poucas perspectivas de uma velhice mais descansada, "Elle" decide então encarregar-se da neta que acompanha e protege enquanto revisita todo o seu passado como esperança de poder saldar algumas dívidas... monetárias e sentimentais.
Dividido em seis breves capítulos, o argumento de Paul Weitz inicia a sua narrativa com a concretização de um final - 1."endings" - onde "Elle" encerra a mais recente etapa da sua vida que, por medo da entrega, da cumplicidade ou de voltar a perder o que mais estima, a levam a considerar que a (sua) solidão será mais reconfortante do que a imagem de um futuro incerto. A abrir com uma expressão reveladora de toda a dinâmica de Grandma, "Time passes. That's for sure", o espectador delicia-se com o comportamento irascível de uma mulher que se afirma pelo sua faceta dura e rude que oculta todos os sentimentos sentidos e ignorando a dor que acumula como uma penitência.
Com uma viagem pelo passado em busca do dinheiro perdido e esperado - 2."ink", 3."apes" e 4."The ogre" - são o tal caminho que será necessário percorrer pelos velhos amigos e espaços conhecidos que a poderão salvar de uma situação angustiante e necessariamente transformadora. De todos estes segmentos, e eventualmente de todo o filme, é "The Ogre" aquele que contém a maior carga dramática e emotiva, aquando da visita de "Elle" a "Karl" o seu ex-marido do qual fugiu durante uma noite quando compreendeu a sua verdadeira sexualidade. De uma recepção inicialmente amistosa ao remexer de um passado sofrido que o espectador compreende esconder mais do que um simples sorriso de um inesperado encontro, este segmento termina com o rancor de uma vida interrompida - literalmente - e com a mágoa que tornou duas pessoas aparentemente alegres em amargos e relativamente destruídos num íntimo desconhecido dos demais.
Do ressentimento de uma vida passada àquele tido para com uma filha ausente - 5."kids" -, Grandma revela a relação agreste de "Elle" com "Judy" (Marcia Gay Harden). Mãe e filha distantes pelo viver libertino de uma e o excesso de responsabilidade da outra, encontram agora a aproximação que lhes era necessitada graças a um evento da neta que recorre a uma avó que sente distante mas como o seu único recurso face a uma mãe austera. A morte separa... a morte une... é com base nesta premissa que se pode caracterizar a relação das duas mulheres... de mãe e de filha... e destas para com uma neta que, não sendo descurada é, no entanto, sentimentalmente negligenciada vivendo uma vida que é relativamente livre nos actos mas austera nas consequências encontrando, agora, na presença de uma avó que é assumidamente um poço de alguma sabedoria, irascível mas acolhedora, que as três mulheres acabam por encontrar todo o apoio - por confirmar - que necessitavam.
Finalmente o último segmento - 6."dragonflies" - de Grandma é como que uma reflexão da vida - passada e presente - onde "Elle" percebe finalmente que tem o seu lugar no mundo - e no mundo de alguém - estando, no entanto, solitária num percurso que fora, até então, percorrido a duas mãos e que agora terá de abraçar enquanto um caminho sim... mas o seu... livre e descomprometido, solitário mas com a certeza de que alguém a poderá e estará a esperar no seu final.
Eventualmente o filme mais quente e mais emotivo - à data - desta edição do QueerLisboa, Grandma é um triunfo não só para o realizador que aparentava não ter um filme do mesmo calibre desde o ido About a Boy (2003), mas também para Lily Tomlin que aqui encontra uma personagem à altura da sua qualidade interpretativa, entregando à sua "Elle" uma alma maior, uma personalidade única e um sentimento de um desespero controlado como manifestação face a um mundo que se transformou desde os tempos da sua juventude mais libertina - que nunca chegou a perder - e agora a encontra numa nova experiência mas, no entanto, com um olhar mais fechado e conservador que não faz jus à sua enorme vontade de viver nem tão pouco à sua (des)esperança sentida no(s) - e para com - demais.
Emotivo, divertido, sentido, reflexivo e com uma alma intensamente grande como a de Lily Tomlin, Grandma é aquele pequeno - em duração - grande filme que contém tudo aquilo que o espectador necessita para sair de uma sala de cinema com a percepção de que no final de um caminho tudo parece - estranhamente - terminar tal como devia garantindo a confirmação de uma vida bem vivida... independentemente dos seus percalços.
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"Elle Reid:
You need to be able to say 'screw you' sometimes."
The Gift de Carl Rinsch é uma curta-metragem britânica de ficção do mesmo realizador de 47 Ronin (2013) cuja acção se centra numa Rússia futurista onde um misterioso presente tem de ser entregue com a máxima urgência.
O inevitável acontece quando um homem descobre o verdadeiro conteúdo do presente que tenta entregar e deseja, para lá de todas as suas possibilidades, mantê-lo no seu poder. Numa corrida contra o tempo e num mundo aparentemente autoritário e policiado por todos os cantos, como poderá a ganância resistir numa luta constante pelo poder?
Das luxuosas estações de metro ao esplendor da Praça Vermelha em Moscovo tendo o Kremlin como pano de fundo, The Gift deslumbra pelo seu imponente aspecto visual que nos leva ainda a elegantes interiores de apartamentos palácio que cativa o espectador sedente de todos os pequenos detalhes que lhe são apresentados. (In)consciente desta realidade, o realizador e argumentista Carl Rinsch apresenta um filme curto que é, essencialmente, uma revisitação à premissa da Caixa de Pandora. Incutido de um elevado sentido de responsabilidade em fazer chegar aquele magnífico presente ao seu real - supomos - dono, um homem percorre os mais sumptuosos locais de uma Moscovo futurista onde o controlo parece espreitar por todos os lados. No entanto, revela-se a grande questão... quando todos se deixam fascinar pelo conteúdo daquela caixa... irá ela conferir riquezas inimagináveis ou, por sua vez, trazer a destruição e morte àqueles que a ousam abrir?
As sucessivas mortes e as perseguições alucinantes por uma Moscovo onde todos parecem ser suspeitos, e que fazem a nova (ou velha?!) versão da Caixa de Pandora seguir de mão em mão seduzindo e induzindo todos aqueles que a vislumbram a cometer o crime de a desejarem, revelam ao espectador que o pecado da cobiça se mantém vivo e desperto deixando pelo caminho - com as mortes mais ou menos aparatosas - as vítimas que em vida acharam poder ter mais do que aquilo que lhes competia.
Num mundo que é assumidamente o futuro dos nossos dias, aquilo que se mantém intacto independentemente da época em questão é a cobiça do Homem. O inalterado desejo de que existe algo mais - sempre mais - que se deseja e quer, leva o Homem ao impensável, à ganância, ao desdém, à inveja e ao facto de em breves segundos poder cometer toda uma diferente paleta de crimes ou pecados mortais pois está no direito - apenas o seu - de exigir e querer sempre aquilo que não lhe está destinado.
Com admiráveis sequências de acção e inspirados momentos em que as belezas não naturais de Moscovo são captadas como o perfeito enquadramento de uma história futurista, The Gift é uma mordaz reflexão sobre o mundo dos homens que, independentemente da sua idade ou estrato social, desesperam pela próxima Caixa de Pandora prestes a libertar toda a sua destruição.
Caça Fantasmas de Paul Feig é a mais recente incursão no campo dos remakes de grandes clássicos de décadas passadas - Ghostbusters (1984), de Ivan Reitman - e uma das comédias mais aguardadas deste ano cinematográfico que agora vai a meio.
Erin Gilbert (Kristen Wiig) e Abby Yates (Melissa McCarthy) eram as duas maiores entusiastas estudiosas da actividade paranormal até que a primeira decidiu levar uma vida "mais séria".
No entanto, é quando Manhattan é ameaçada por uma invasão de seres paranormais que, unidas à engenheira nuclear Jillian Holtzmann (Kate McKinnon) e à funcionário do metro Patty Tolan (Leslie Jones) que irão tentar salvar a cidade e, com ela, toda a Humanidade.
A antecipação com que qualquer entusiasta desta saga dos anos 80 - Ghostbusters II (1989) - foi notória pelas diversas redes sociais onde todos comentaram a vinda de um novo título neste Verão. Estariam de volta os eternos "Venkman" (Bill Murray), "Winston" (Ernie Hudson), "Ray" (Dan Aykroyd) - com a sentida falta de "Egon" (Harold Ramis) - e "Dana Barrett" (Sigourney Weaver), o eterno amor do primeiro? Seria um voltar a ver a equipa reunida a combater as estranhas e misteriosas forças do sobrenatural que ameaçavam a segurança de toda a espécie humana? Seria a sua passagem de testemunho após anos de ausência que o peso da idade não perdoou? Não... nada disso. Ghostbusters, de Paul Feig veio apenas - e digo isto com alguma condescendência e mágoa - revitalizar o sucesso da década de 80 com alguns elementos que são (agora) politicamente correctos numa sociedade que se quer igualitária (felizmente no que ao real diz respeito).
Seria hipócrita para qualquer um de nós fãs daquilo que assistimos e que foi, em suma, uma "escola" de diversão e bom humor, não admitir agora que queríamos voltar a ver todas aquelas personagens que fizeram parte da nossa infância. Há excepção de todas as demais interpretações, foi com estas personagens que estes actores conquistaram muito do estatuto que obtiveram junto do público dos idos anos 80 e todos nós esperávamos, mesmo que brevemente quase como uma passagem de testemunho, eles regressassem e nos presenteassem com a sua verve. No entanto, este Ghostbusters do século XXI prima por recuperar alguns momentos e segmentos dos títulos anteriores - espíritos presos em quadros, casas e espaços assombrados, um fantasma já nosso conhecido, um Mayor mais preocupado com a sua imagem do que com a sua cidade, o metro assombrado e os fantasmas electrocutados (...) - transformando-os para aquilo que se espera como uma público mais abrangente. No entanto, a realidade é que este Ghostbusters não é mais abrangente do que os originais o foram.
Com alguns apontamentos divertidos que se prendem essencialmente com as personagens secundárias de Leslie Jones e Kate McKinnon como as "caça" mais atrevidas e insinuantes e, como tal, com maior peso cómico e dinâmico nos seus breves apontamentos, e ainda um Chris Hemsworth como o assistente como pouca assistência para dar e que é aqui reduzido à imagem de um "loiro burro" altamente visto como o potencial objecto sexual de "Erin", este Ghostbusters prima pouco por uma originalidade que o faça destacar dos anteriores títulos e nem mesmo o segmento da luta bem versus mal na Times Square de 2016 nos faz esquecer as muito próximas semelhanças que este título tem com, por exemplo, o de 1989, e nem mesmo a recuperação de Bill Murray, Sigourney Weaver, Ernie Hudson e Annie Potts - estrelas dos anteriores filmes - para cameos com novas personagens salva esta longa-metragem de um distanciamento real dos mesmos... Afinal, se eles participam que fosse com as personagens que imortalizaram e não com parentes pobres que não os dignificam e que mais não servem do que dizer "estivemos lá".
Ghostbusters, de Paul Feig tem os seus momentos, consegue capturar algum humor e deixar uma certa nostalgia não correspondida com aquilo que, certamente, todos nós recordamos. No entanto, considerando as expectativas elevadas que o público em geral tinha, as pouco inspiradas interpretações de Wiig e McCarthy - apesar de sabermos e reconhecermos o seu potencial cómico - e o fraco distanciamento do que já havia sido feito deixando apenas uma breve e ligeira "reformulação" de momentos para este supostamente "novo" título faz com que o espectador abandone a sala de cinema com uma sensação mista... nem é algo novo que fizesse recordar os bons velhos tempos nem tão pouco consegue recuperar o humor corrosivo que se fez no início da década de 80.
Diverte? Diverte um pouco... Ficamos satisfeitos com aquilo que nos é oferecido? Não muito. Continuamos a sonhar com o humor corrosivo de "Venkman", com o charme de "Dana", com a simples inteligência de "Ray" e com os pés bem assentes na terra de "Winston"? Sem dúvida... No final apenas nos resta uma simples mas eternizada questão.... "Who are gonna call?! Ghostbusters..." - 80's style.
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"Patty Tolan:
Ah hell naw, the Devil is a liar! Get out of my friend, ghost! The power of Patty compels you!"
O Guardador de Rodrigo Areias é uma curta-metragem portuguesa de ficção que nos conta a história de Constantino (Valdemar Santos), um homem pacato que guarda um rebanho de ovelhas durante o dia e durante a noite serve de segurança num museu. Metido com os seus próprios pensamentos, Constantino é abordado por Aurora (Carmo Teixeira) que tanta, após alguma contemplação, saber um pouco mais daquele homem.
Sem um lugar certo ao qual chamar de "lar" - ou pelo menos de "casa" - "Constantino" é o espelho de uma certa camada populacional que parece não ter origens. Sem família, posses ou espaço que lhes sejam (re)conhecidos, vive toda uma existência isolado do mundo nos seus próprios pensamentos como se de um fantasma se tratasse. Ninguém o vê... ninguém sabe que ele existe... E as suas próprias funções mais não são do que aquelas tidas na solidão dos seus actos quando ninguém está por perto.
Tem todo o tempo do mundo para pensar... Acto este que é, aliás, aquele que predomina todo O Guardador e que está não só implícito n'O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeira (heterónimo de Fernando Pessoa), livro que lhe é emprestado por "Aurora", como na tarefa principal das ocupações que executa. O pensamento - fruto do silêncio - acabam por ser os "hobbies" de um homem que pouco ou nada parece ter e apenas estes são o testemunho não verbal da sua passagem pela Terra.
"O prazer do trabalho aperfeiçoa a obra" - frase impressa na parede por cima do local onde "Constantino" faz a sua refeição, poderia ser no fundo o resumo da sua existência. Ele trabalho, pois a sua subsistência tem de provir de alguma parte mas, ao mesmo tempo, executa as suas tarefas com rigor e uma qualidade que lhe são reconhecidos por "Aurora" que decide - provavelmente também pelo fruto da sua própria solidão - "conhecer" um pouco mais daquele homem que todos os dias encontra à sua frente sem sequer saber quem ele é. A obra - que poderá também ser ele próprio - aperfeiçoa-se lentamente, primeiro pela troca de conhecimentos e depois por uma mudança de visual que (ele) pensa poder ser atractivo para aquela com quem troca as primeiras palavras em muito tempo. Só o tempo - desconhecido para o espectador - poderá revelar os segredos e os momentos que lhe estão reservados para lá - ou não - da sua própria solidão.
Com uma intensa interpretação de um sempre empático Valdemar Santos, Rodrigo Areias cria uma obra que apenas "falha" pela incerteza do futuro de um "Constantino", homem num mundo que parece desconhecer a sua presença mas que confirma que tem muito mais para dar do que aquilo que o seu silêncio revela.
Gasolina de João Teixeira é uma curta-metragem portuguesa de ficção e uma das participante na última edição do Prémio MOTELx de Melhor Curta-Metragem Portuguesa de Terror.
Um homem (Marco Trindade) percorre um caminho deserto em busca de auxílio. Um outro homem (Ruben Garcia) persegue-o sem motivo aparente. Ao chegar a uma casa habitada por um homem mais velho (Carlos Santos), o fugitivo ensanguentado explica-lhe a situação e pede-lhe ajuda.
O argumento de António Nascimento e João Teixeira é, para lá de uma banal história de terror, uma sobre a dimensão e qualidade humana nos momentos de crise e de tensão. Considerando que temos aqui uma situação de perigo e de vida ou morte - a de Joana Ribeiro - de alguém que sucumbe lentamente a um ferimento após uma agressão, então o espectador perde-se nos meandros de uma relação que ultrapassa o auxílio entrando em campo uma bizarra transacção comercial.
O que aconteceria quando, numa situação de perigo, aquele que pode prestar auxílio cobra pelos seus "serviços"? Quando um telefone se torna inexistente perante o perigo... ou um litro de gasolina tem de ser paga a peso de ouro... e mesmo o próprio auxílio médico tem um preço?
"Quando há sangue nas ruas... compra propriedades", frase vulgarmente atribuída ao Barão de Rothschild pode aqui ser facilmente atribuída na medida em que é quando um indivíduo se encontra numa situação de carência ou necessidade que se conhecem as verdadeiras dimensões e carácter daqueles que os rodeiam.
Numa parábola que o espectador pode retirar de Gasolina - intencional ou não - consideremos o jovem fugitivo como um Portugal em crise... e um idoso abastado como uma Alemanha que impõe regras. Quem precisa é forçado a pagar elevados preços pelos bens que lhe poderão conferir segurança e conforto... ou então ceder às amarguras de uma vida e de um perigo eminente. Tendo isto em mente, Gasolina tem uma última grande questão... até que ponto se torna maleável a consciência humana perante uma situação de emergência tido por outrem?
É no momento em que esta questão assola a mente do espectador que finalmente se assiste ao reverso da medalha e, inesperadamente, o agressor se transforma numa "vítima" provando um pouco do remédio que tinha aplicado e... num receptáculo de uma nova... e assustadora proposta.
Engenhoso pelo seu argumento e equilibrado pelo ambiente em que ocorre toda a trama, Gasolina não será tanto um filme de terror visual mas sim de um terror psicológico que se aproveita da mente, do receio e das necessidades dos indivíduos colocando-os no centro de um dilema no - e pelo - qual terá de encontrar o "lado" onde se sente mais presente.
Ghiocel de Mara Ungureanu é uma curta-metragem portuguesa de animação nomeada ao Sophia Estudante da Academia Portuguesa de Cinema que serão atribuídos no próximo dia 13 de Maio.
Uma jovem mulher recorda o passado enquanto lê A la Recherche du Temps Perdu, de Proust. Enquanto olha para uma flor seca dentro do mesmo, recorda os momentos em que brincava com a mãe no campo. Momentos que não se repetirão pelo avançar do idade de uma mãe que agora se prepara para visitar.
Seguramente uma das mais fortes curtas-metragens a competir para o Sophia na já referida categoria, Ghiocel - nome de uma flor semelhante àquilo que vulgarmente apelidamos de "campaínhas" - dinamiza toda a atenção do espectador para o poder do passado e a sua influência nos dias de hoje e naquilo que cada um - individualmente - é graças a essas mesmas experiências ganhas.
Mara Ungureanu vai mais longe ao questionar se uma vez tidas essas experiências às quais apenas anos depois conferimos importância e fundamentais no nosso próprio desenvolvimento, recordamos ainda aqueles que para elas contribuíram e em nós depositaram todo o seu amor e dedicação. Numa viagem que se pretende ao passado, Ghiocel deixa implícito que por vezes esse "valor" nem sempre é reconhecido até que, por vezes, já seja tarde demais.
Elaborada através de uma delicada e bem delineada animação que faz o espectador recordar tempos idos em que a mesma cruzava os ecrãs nacionais, Ghiocel é uma história fundamentalmente sensível e melancólica que leva uma espectador a uma auto-reflexão sobre o seu "eu" e aqueles que o ajudaram a formá-lo.
A Glória de Fazer Cinema em Portugal de Manuel Mozos é um documentário em formato de curta-metragem português - nomeado ao Sophia da Academia Portuguesa de Cinema na categoria de Ficção - cuja base parte da descoberta de uma carta de 18 de Setembro de 1929 na qual José Régio escreve a Alberto Serpa onde manifesta o seu desejo de fundar uma produtora de cinema.
Depois de noventa anos onde o desfecho deste desejo nunca chegou a ser conhecido eis que são descobertas algumas bobines na posse do coleccionador Albano António Marques que podem trazer pistas para o que sucedera depois.
Com argumento de Eduardo Brito, A Glória de Fazer Cinema em Portugal é um documentário que se sub-divide em cinco distintos segmentos tendo, cada um deles, pistas que tentam estabelecer uma linha de condução e responder às questões levantadas sobre a eventual resposta àquela carta.
Da I - Abertura em que são descobertos os famosos quatro minutos que parecem confirmar a veracidade do movimento que pretendia desenvolver o cinema em Portugal passando por II - A Carta em que a já referida foi escrita revelando os seus planos e apresenta o grupo dos Ultra de fomento de cinema, A Glória de Fazer Cinema em Portugal passa ainda por III - Monsieur Caillaud que fora guarda do Museu Grévin, museu que recebera a gravação de diversos filmes franceses da época e combatente na frente de Reims, fez fortuna na roleta tendo visitado Portugal em 1928 onde gravou diversos festivais aéreos e que foi um dos potenciais envolvidos neste movimento. Finalmente este documentário passa ainda por IV - O Encontro onde se pensa que os tais famosos quatro minutos de película foram filmados e finalmente V - Epílogo onde são apresentados a Manoel de Oliveira.
Com um interessante trabalho de investigação que brinca o cinema português com toda uma nova perspectiva sobre o próprio, A Glória de Fazer Cinema em Portugal é, no entanto, um documentário que se centra mais na hipótese e na sugestão do que propriamente em factos comprovados. Se a teoria e a potencial ligação de factos parece ser cronologicamente coordenada e estabelecida, são mais as perguntas que se levantam do que propriamente as respostas que confirmam os factos.
Com uma passada muito própria e sem ser suficientemente claro para se constituir como um elemento fundamental - não esquecer que se baseia apenas em hipóteses - da história da História do cinema português, A Glória de Fazer Cinema em Portugal está longe de ser uma ficção mas aproxima-se de um documentário em construção, não preenchendo ou satisfazendo os requisitos mínimos para ficar na memória mas lança as bases para o que pode vir a ser.
Galope de Raquel Felgueiras é uma curta-metragem portuguesa de animação que num único e breve minuto tenta relatar a evolução da História através da imagem de um cavalo. Ao mesmo tempo, Galope estabelece ainda, uma tímida relação desta imagem com a evolução do cinema e como o cavalo esteve presente no mesmo desde o primeiro instante.
Da Idade da Pedra e respectivas gravações rupestres passando pelos torneios medievais sem esquecer as histórias cinematográficas do far west ou as primeiras competições em recinto, Galope estabelece portanto uma relação entre o imaginário do animal com o do cinema marcando presença pelas diversas referências que estabelece neste breve minuto de duração.
No entanto é este exacto elemento o maior defeito desta curta-metragem que tendo um conjunto de momentos animados interessantes e que poderiam ser individualmente explorados estão aqui expostos sem uma sequência lógica entre si para além daquilo que se pode antever como um ensaio ou uma experimentação animada do mesmo. Interessante pela potencialidade da abordagem, Galope resume-se a um breve conjunto de imagens que, na prática, não funcionam enquanto um "filme" propriamente dito.
O Gosto dos Outros de Agnès Jaoui é uma longa-metragem francesa e a vencedora do César da Academia Francesa de Cinema de Melhor Filme do Ano.
Três homens e três mulheres. Castella (Jean-Pierre Bacri) é um industrial algo rude enquanto Bruno (Alain Chabat) e Franck (Gérard Lanvin) são os seus dois guarda-costas agora que pretende estabelecer um negócio com uma empresa iraniana. Clara (Anne Alvaro) é actriz e professora de inglês, Béatrice (Brigitte Catillon) é a mulher de Castella e uma decoradora de interiores algo frustrada, e Manie (Agnès Jaoui) é uma barmaid que vende haxixe.
Num ritmo de encontros e desencontros onde as possibilidades de uma vida diferente se equacionam momentaneamente, poderão estas vidas encontrar o amor nos seus opostos?
Este vencedor do César de Actor e Actriz Secundários e Argumento bem como nomeado ao Oscar de Filme Estrangeiro pretende ser uma comédia com leves toques dramáticos sobre as relações humanas e as suas impossibilidades. O que move os indivíduos a aproximarem-se quando tudo parece poder afastá-las e, numa mais pensada análise, o que realmente leva duas pessoas a encontrarem um ponto comum de entendimento que as leve a trilhar uma vida em comum?
Num ritmo de silêncios e alguns comportamentos adversos, todos eles - homens - procuram algo que elas - mulheres - parecem não estar disponíveis para entregar. A impossibilidade de serem feitas cedências a algumas expectativas deles leva ao seu afastamento progressivo e a alguma necessidade de uma liberdade que parece, até então, perdida. "Castella" é um homem algo rude e que se percebe ter subido a pulso contra as expectativas de quem o rodeava e casado com "Béatrice", uma mulher vinda de um meio diferente do seu mas que nunca fez nada na vida por estar num casamento que a sustenta. Pela necessidade é um eventual trabalhador desde jovem e a sua educação - instintiva e académica - ficaram para um segundo plano. "Castella" encontra em "Clara" uma existência boémia, uma vida sem grandes regras e presente num meio cultural que lhe "faltou" e, como tal, a oportunidade de poder voltar a sentir. No então "Clara" apresenta-se como uma mulher amarga, cheia de si própria e para quem as investidas de um "Castella" encantado mais lhe parecem como desprestigiantes para o seu ser.
No lado oposto desta pirâmide socialmente privilegiado encontramos "Manie", "Bruno" e "Franck". Os dois primeiros cruzam-se num bar onde é confessado que já partilharam a mesma cama. "Bruno" não se recorda vivendo os problemas de uma relação não correspondida. É através dele que "Franck" conhece "Manie" e que com ela estabelece uma relação sexual que aos poucos parece desenvolver para algo mais, percebendo-se que os problemas de um começam a afectar o outro. Mas, no final, a grande questão para todos eles coloca-se... Poderá existir uma vida em comum quando aparentemente apenas uma das partes luta para que tal aconteça? Conseguirão estes homens resistir a um conjunto de mulheres que estão por demais centradas em si próprias e incapazes de criar uma qualquer empatia sentimental com quem já demonstrou ter aberto o seu coração?
Agnès Jaoui - realizadora e intérprete - estabele com Le Goût des Autres uma interessante reflexão sobre as relações; não sobre ela propriamente dita mas sim sobre os mitos de que são os elementos masculinos de uma relação os primeiros a tentar sair ou depositar pouca relação e empenho na mesma demonstrando que num mundo de igualdade de género esta tentativa de "fuga" pode encontrar-se expressa em ambos os sexos. Ao mesmo tempo, Jaoui tece ainda uma interessante reflexão sobre a dependência afectiva masculina que parece subsistir apenas no seio de uma relação sentimental a dois encontrando-se - for dela - perdido sem um rumo aparentemente definido como se de uma criança à procura de um apoio maternal. Mais, Jaoui demonstra também a incapacidade de alguns indivíduos em expressarem os seus sentimentos graças a uma indisponibilidade sentimental ou também por um desdém sócio-económico e até mesmo cultural que os distancia dos demais criando aparentes incompatibilidades ou mesmo aversão como aqui nos é demonstrado na potencial relação - ou falta dela - entre "Castella" e "Clara".
Longe de ser um filme memorável e até um "improvável" receptáculo do título de "melhor do ano", Le Goût des Autres consegue ter algumas interessantes interpretações que pela sua proximidade ou distância do real cativam o espectador pela sua exuberância e caracterização de tantos de "nós" e por serem, de forma geral, inadaptados num mundo dito sentimental que, para o bem ou para o mal, ainda não os encontrou. Assim, e no seio de um conjunto de incompatibilidades e mundos opostos, Le Goût des Autres versa sobre as falhas nas e das relações, aquelas que nunca se iniciam e aquelas que - um dia - encontram o seu final quer seja através de um distanciamento, aversão ou a compreensão de que os caminhos que antes eram partilhados encontraram, algures pelo seu percorrer, novos desvios que teriam de ser experimentados.
Deus Não Está Morto de Harold Cronk (EUA) é a mais que esperada mas sim óbvia longa-metragem vinda do outro lado do Atlântico onde as eternas questões religiosas sobre a existência ou não de um "Deus" são colocadas na ordem do dia.
Josh (shane Harper) é um jovem estudante universitária que inicia a sua carreira académica nas aulas de filosofia do Prof. Radisson (Kevin Sorbo). Para lá de qualquer matéria académica, Raddison exige que todos os seus alunos assinem uma única declaração onde afirmem que "Deus Está Morto". Num momento em que não só o seu futuro académico como profissional são colocados em causa, toda a vida exterior de Josh é abalada quando tudo ao seu redor parece querer pressioná-lo a admitir aquilo que as suas convicções religiosas não lho permitem.
Hunter Dennis, Chuck Konzelman e Cary Solomon assim o argumento de God's Not Dead centrando a dinâmica da história no conflito moral no qual "Josh" é involuntariamente colocado mas, no entanto, não esquecendo todo um conjunto de tramas secundárias que, para o espectador, parecem funcionar como fundamentos para a sua forçada crença de que Deus... realmente existe. Desde um missionário que é sistematicamente impedido de sair da cidade, passando pelos convicções religiosas fundamentalistas do pai de Ayisha sem esquecer o cínico empresário Mark que age de forma cruel e indiferente a uma mãe mentalmente incapaz e para uma namorada que enfrenta a maior provação da sua vida, toda esta longa-metragem se centra numa tentativa de consciencialização - para não dizer evangelização - do espectador para uma forçada crença de que a intervenção divina é uma constante diária na existência do espectador que consciente ou não dos pequenos actos de bondade dessa mesma entidade, existe no planeta para honrar a dádiva da vida... por muito difíceis que sejam os dias, estes são para ser vividos no seu pleno e em constantes "graças" com um "Deus Cristão" - represente lá isso o que representar do outro lado do Atlântico -, benévolo, caridoso e omnipresente que, no entanto, não só não representa a condição humana no seu todo como é, para estes argumentistas e realizador, uma clara e muito tendenciosa obra de propaganda religiosa que em diversos momentos toca muito perto o fanatismo.
Esqueçamos, por momentos, a discussão académica e o combate de crenças aqui exercido entre aluno e professor - mesmo que isso nos remeta para o essencial de toda esta longa-metragem - mas, na realidade é o que está por detrás de toda a demais dinâmica desta longa-metragem que, na realidade, acaba por preocupar o espectador mais atento. Aquilo que encontramos em God's Not Dead não é necessariamente a discussão sobre a existência ou não de um "Deus" que tudo comanda mas sim a franca e sentida necessidade dos criadores desta longa-metragem de revelar o seu ponto de vista sobre a existência inequívoca de uma entidade que pode, por qualquer outra pessoa, ser negada. Não interessa o que todos os demais pensam... interessa sim que esta existência não pode ser contrariada.
Na sua essência, God's Not Dead é um manifesto da mais elementar e primária propaganda religiosa... inequívoca é sim a clara utilização do meio cinematográfico - com toda a sua óbvia máquina enquanto indústria - para propagandear um ponto de vista subjectivo, não factual e excessivamente emocional com o recurso a figuras desse "meio" norte-americano "cristão", claramente distante daquilo que é de facto a Cristandade mas que, no referido país, movimenta toda uma máquina ultra-conservadora e muito pouco tolerante ao mesmo tempo que lança toda uma rede de apoio a figuras que ali propagam os ditos "ideais" de "Deus". Muitas aspas... mas extremamente necessárias para dissecar esta "obra cinematográfica".
Em tempos fora utilizado o cinema para propagandear ideais de liberdade, por exemplo, os momentos captados pela obra de Frank Capra durante a Segunda Guerra Mundial... já que a máquina nazi tinha utilizado o mesmo método para espalhar a sua "ordem", também o dito Ocidente a utilizou para captar a essência de uma liberdade centrada no respeito pelas liberdades individuais. Aqui, God's Not Dead utiliza o cinema como forma de disseminar uma certa "ordem" religiosa que se afirma tolerante mas que mais não é do que uma forma de castração ideológica - de parte a parte - colocando, no entanto, os valores ditos "correctos" do lado daqueles que abraçam "Deus" - afinal, todos são felizes no final quando o aceitam -, deixando o rumo da perdição para os demais que não o aceitam como a única e verdadeira "ordem moral".
A não tão ligeira forma como God's Not Dead (não) se assume como um primária obra de propaganda terá de ser aceite pelo espectador... se estes criadores não a assumirem como tal permanecerá quem a observar com o seu critério de avaliação. No entanto, todos os elementos que aqui parecem criar uma certa moralidade e respeito "for the Lord", assumem-se como uma elite iluminada, presente nos momentos de adoração e tementes a um conservadorismo pseudo-religioso como se "Deus" fosse amor... mas apenas para aqueles que o respeitam pois, para todas as demais vis personagens, nesse jogo da vida, que nada temem, em nada crêem e que estão sujeitos a um pós-vida de tormentas, apenas está reservado um cantinho nesse "Inferno" que desconhecem... Temer ao Senhor... SEMPRE!
Intelectualmente pobre, cinematograficamente elementar e nula enquanto uma obra capaz de contar uma história pela qual o espectador - não fanático - se apaixone ou deixe levar, God's Not Dead é apenas o reflexo ultra-conservador de alguém que quer evangelizar não pela dita "palavra do Senhor" mas sim por um mecanismo que pode, a curto prazo, granjear uma satisfação económica que eficazmente pode ser trazida pelo cinema. Cinema propriamente dito... não o encontramos por aqui! Nem sob a forma de argumento, nem pela imparcialidade nem tão pouco pelas interpretações que quer pelo fanatismo quer pelo cheque aqui vieram parar.
Glendower Drive de Max Moore é uma curta-metragem norte-americana de ficção presente na competição do Leiria Film Fest.
Matt (Trey Floden) e Jimmy (Trent Floden) são dois irmãos que passam os dias na companhia de uma avó (Margaret Wuertz) mais preocupada com o próximo cartão de bingo do que com eles. Aborrecidos e sedentos de aventuras que não alcançam enquanto esperam por ela, Matt e Jimmy cruzam as fronteiras do seu bairro que lhes irão trazer perigos inesperados.
Com um argumento que também é da autoria do realizador Max Moore, Glendower Drive é para além de um filme sobre os inocentes anos da infância, uma história sobre a perda dessa mesma inocência e nas potenciais consequências que dela advêm.
É claro para o espectador que o meio onde estas duas crianças vivem parece ser um local algo esquecido pelo passar do tempo. Aliás, a única companhia - para além da mútua - que lhes é reconhecida é a de uma avó cuja paciência, tempo e disponibilidade já passaram há muito de prazo e que agora apenas se concentra com a sua única diversão juntamente com outras pessoas da sua idade.
Aqui o tempo não tem definição ou limite. O espectador acompanha estas duas crianças naquela que parece uma tarde de Verão mantendo-se - no entanto - a indefinição do mesmo. Exceptuando a própria tragédia que tão pouco se avizinha e apenas confirmando a sua presença como um facto consumado, Glendower Drive prima por manter o espectador numa espécie de tempo suspenso que, por momentos, deixa a incerteza sobre estamos perante duas crianças física ou, por sua vez, duas almas que também elas incertas sobre a sua materialização se deixaram permanecer num espaço que tinham como familiar. A sua presença é apenas importante para o espectador que não lhes conhece interacção com outras personagens, nem tão pouco com outras crianças como elas. Estaremos a assistir a um momento do passado preso no tempo ou a um presente apenas tido como tal para todos os demais que não vemos?!
A única certeza parece residir na confirmação da morte quer através do que presenciamos quer através do sangue que se afirma como um elemento e, como consequência, este como o símbolo de uma inocência que passa a ser uma memória perdida. Como suspeita o espectador mantém a ideia de que poderá estar a assistir apenas a uma criança e à sua memória daquele que tinha como mais perto e que é agora o único "senhor" do seu destino ainda por escrever na totalidade.
Terno pela demonstração da cumplicidade entre dois jovens irmãos e comovente pela potencial revelação - ou dedução - dos seus destinos individuais ou colectivos. Será um a extensão do outro ou apenas a extensão da memória de um... no outro?
Com uma belíssima direcção de fotografia de Travis Newton que mantém o espectador na incerteza espaço-temporal e pela sua comovente música original da autoria de James Moore, Glendower Drive é, seguramente, um dos mais fortes e intensos filmes que poderiam passar por este festival.