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quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Hanako-San (2014)

Hanako-San de Dan Tabor (EUA) é uma das curtas-metragens exibidas no decurso da décima edição do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta, e uma das que conjuga ficção e animação com uma já clássica lenda urbana japonesa.
Hanako-San é o espírito de uma jovem japonesa falecida durante a Segunda Guerra Mundial que vagueia por casas de banho de colégios à espera de ser invocada. O destino das suas acções corresponde, no entanto, ao âmago daqueles que a invocam...
Com uma duração que pouco excede os quatro minutos de duração, esta curta-metragem divide-se no seu primeiro segmento com toda uma explicação - primeiro redigida e depois pelo poder da imagem - sobre aquilo que é, no fundo, a explicação deste "fenómeno". Se os primeiros segundos se prendem com a explicação per si, o espectador é seguidamente surpreendido com uma invocação que, ao mesmo tempo, apresenta um conjunto de momentos ou sentimentos sentidos por uma jovem rapariga. Da tristeza sentida pelo bullying do qual é vítima à eternidade representada pela morte sem esquecer o desejo do pai que é completada por uma mãe que a culpa do mesmo terminado, logo de seguida com uma redenção através do final mais ou menos esperado, Hanako-San atinge o seu esplendor não por toda esta rápida mas precisa explicação mas sim pelo segmento final em animação - teria sido uma muito maior e clara vencedora se o realizador tivesse apostado no mesmo como um todo - onde se conhece a real dimensão e "obra" deste espírito que aguarda nas sombras.
Quase sempre incapaz de corresponder a uma inovação da forma como o invocador o pretende, ou tão pouco com o destino final que espera de "algo" a quem recorre como a sua última esperança (para uma vida melhor?!), esta curta-metragem entrega um final suficientemente gráfico que poderia ter dela feito uma referência no género do suspense e terror, limitando-se, no entanto, a uma experiência pouco conclusiva no seu segmento ficcionado e em todo um portento nesta brevíssima animação que revela que nem tudo o que se deseja é, afinal, tão libertador como se pensa... ou pelo menos não da forma como seria esperado.
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5 / 10
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Hellevate (2019)

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Hellevate de Dusty Brown (EUA) é uma das curtas-metragens que abriu o primeiro dia de competição da décima edição do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta até ao próximo dia 16 de Novembro.
James (Dusty Brown) entra no elevador. O elevador pára. É precisa assistência técnica para o ajudar a sair.. Mas aqui reina a burocracia. Poderá ele sair daquele elevador?
Desde o primeiro momento que o espectador compreende onde vai parar a premissa principal deste filme... uma longa dor de cabeça para o protagonista que terá de passar provas hérculeas para conseguir sair daquele espaço pouco amistoso. Mas, a grande pergunta que o argumento da autoria do próprio realizador - e protagonista- levanta é... e se assistência ao cliente provar aquilo que realmente é... burocrata?!
Tal como em qualquer serviço de apoio ao cliente que qualquer um de nós conhecerá por experiência própria, Hellevate revela ser aquilo que o próprio título aparenta indicar... o inferno num elevador. De assistente em assistente... de burocracia em burocracia... o cliente deste elevador transforma-se muito rapidamente numa vítima anunciada da incompetência de um serviço que teima em manter os seus funcionários como exemplares no cumprimento de regras mas pouco eficazes na real assistência ao cliente em desespero. É, no entanto, quando se pede a assistência do supervisor que, finalmente, se revela não só a verdadeira dimensão do espaço como, sobretudo, quem poderá de facto prestar a tão desejada assistência... que depois pode não ser assim tão bem-vinda.
Interessante por todo o seu início que revela a burocracia para chegar ao local pretendido e como esta não é afinal exclusiva dos serviços públicos, bem como pela forma como se apresenta o serviço prestado por aquele elevador e até onde pode ele transportar um passageiro mais ou menos consciente do local em que está. No entanto, e à medida que se aproxima do seu final, Hellevate acaba por revelar cedo demais, ainda que a duração desta curta-metragem seja ela própria muito breve, os reais destinos de um tão inesperado elevador transformando-se este no elemento mais frágil de uma história que poderia ter muito mais para oferecer... no factor surpresa, na dinâmica desta viagem e, sobretudo, nos serviços de apoio ao consumidor que se revelam originais, inquietantes e mórbidos quanto baste. No entanto, permanece o aplauso ao seu realizador, argumentista, actor e produtor que carrega esta história - não original na medida em que a sua forma é já relativamente conhecida, mas refrescante pela sua execução -, dando-lhe um cunho pessoal interessante e simpático principalmente no domínio da comédia que se apodera da mesma pelo absurdo da situação.
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6 / 10
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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Häuschen - A Herança (2019)

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Häuschen - A Herança de Paulo A. M. Oliveira e Pedro Martins (Portugal) é uma curta-metragem do género fantástico que nos revela e transporta para um universo semi-fantástico na medida em que todas as aparências... iludem de facto.
Maria (Adriana Moniz) e Miguel (Fernando Pires) chegam a uma casa no meio da floresta. A chuva e estarem perdidos sem solução de momentos leva-os a aceitar a ajuda de um misterioso habitante (José Raposo) que parece querer acolhê-los e poupá-los à tempestade que os espera lá fora. Poderão ser inocentes as suas intenções ou algo mais está à sua espera naquela que será a noite mais longa das suas vidas?
O que mais se destaca no argumento desta curta-metragem de quinze minutos - assinado por Pedro Martins, Pedro Borges e Andreia Albernaz -, é o sentido ambivalente que deixa transparecer desde os instantes iniciais. Sabemos, logo de partida, que aquilo que nos será apresentado é uma história sobrenatural, de suspense, de terror... ou possivelmente um misto de todos os géneros que se inserem numa componente fantástico. No entanto, é muito lentamente que compreendemos que existem elementos nesta história que nos remetem para um passado distante e para uma história possivelmente conhecida de todos os espectadores... o conto de Hansel e Gretel perdidos na floresta e rumo à casa da bruxa com planos muito próprios para os seus destinos.
O jovem casal "Maria" e "Miguel" mais não procuram de uma noite tranquila que os afaste daquele temporal. Se ele parece um jovem preocupado e que vê potenciais enredos cinematográficos à sua volta (não fosse ele um aspirante a realizador), já "Maria" parece evasiva demais para com o ambiente que a rodeia sendo, inclusive, francamente evasiva quando abordada por qualquer um dos homens que lhe faz companhia principalmente com o "Lenhador" por quem aparenta sentir um profundo desdém. E, se os dois jovens parecem viver num misto de distanciamento e curiosidade para com aquele local, as dúvidas dissipam-se (para o espectador), quando um misterioso bolo de chocolate parece querer adornar o que resta de aconchego no espaço que cada vez mais se transforma numa inevitável prisão para ambos. Mas, e se as aparências iludem como inicialmente referi? E se existe mais do que aquilo que os indícios parecem querer fazer notar? E se as vítimas não o são e transferirem o seu "papel" para o previsível agressor?
É quando as identidades de todos se revelam que o espectador compreende a real dimensão destes Hansel e Gretel alternativos que são tão ou mais perigosos que a suposta "bruxa" que os aprisiona e pretende devorar. Tal como todas as histórias que assistem ao seu próprio revivalismo, este Häuschen - A Herança transforma o conto tradicional com o qual - possivelmente - todo o espectador desta curta-metragem "cresceu" dando-lhe um twist de modernidade e de cariz mórbido não esquecendo nenhum dos elementos tradicionais mas, ao mesmo tempo, conferindo-lhes a capacidade de inovar alguns detalhes e inserir este conto nos tempos modernos... Num mundo onde todos nós vivemos centrados nas aparências, questiona-se o espectador o que acontece quando o mesmo é surpreendido por aquilo que poderia - inicialmente - parecer óbvio... O tal óbvio que, por tanto o ser e parecer impossível, é nesse recanto do impensável que faz residir a verdadeira diferença e natureza... aquilo que em tempos salvou Hansel e Gretel pode hoje... ser o engodo para as novas vítimas da dupla tão pouco fraternal e que se revela como verdadeiros predadores capazes de fazer tremer a memória que deles guardamos.
Com um ambiente sombrio e labiríntico fiel ao género onde conseguem ainda primar os momentos de humor, o sentido de perda dos nossos dias onde o telemóvel é essencial para a sobrevivência e orientação dos mais destemidos ou mesmo os momentos "picantes" que se esperam, esta curta-metragem é ainda detentora de uma nova - e de certa forma inesperada - versão do conto dos Grimm... afinal, quem pode esperar que nem todas as vítimas ou vilões o são na realidade, Häuschen - A Herança surpreende pela recriação de pequenos elementos fundamentais e revivalistas, por interpretações compenetradas (Raposo), descontraídas (Moniz) e indispensáveis (Pires), tendo todas elas almas e propósitos muito vincados para dar a cor própria ao seu sentido, e sem nunca esquecer a fidelidade que deve ao estilo em questão fazendo dela um exemplar do terror light recriando, de forma assumidamente moderna, todos os elementos necessários para que o espectador compreenda que nem sempre se está perdido... ou tão pouco a salvo quando uma luz brilha no escuro.
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7 / 10
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sexta-feira, 17 de maio de 2019

Hermandad (2018)

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Hermandad de  Carlos Hurtado (Colômbia) é um documentário em formato de curta-metragem que coloca no mesmo espaço duas personagens de formação social, religiosa e económica distintas levando-as não a um confronto mas sim a uma esperada conciliação de dois mundos - que representam - e que se encontram de costas voltadas.
María Dolores é uma freira católica cujo lema principal se centra na velha máxima de que "nenhum homem é uma ilha". Toda a sua vida, ou pelo menos desde que recebeu a "chamada" de Deus é em prol dos demais para quem vive e se dedica de alma e coração de forma a poder confortá-los e ajudá-los no seu crescimento pessoal, humano e espiritual. Por outro lado conhecemos também Daniel "Venus", um drag que se assume pacífico mas egocêntrico. Naquilo que parecem - e são - dois mundos bem distintos, estas duas "personagens" reais encontram-se num anfiteatro onde falam sobre as suas experiências, as suas escolhas, a sua vida e aquilo que, individualmente, cada um pode trazer não só para o seu próprio mundo como especialmente para a comunidade diversa que representam e onde se encontram.
Por entre os desabafos que ambos tecem sobre a comunidade como um todo, tanto Daniel como María Dolores encontram diversos pontos em comum... das dificuldades sócio-económicas à individualização crescente da mesma, ambos compreendem e verbalizam a necessidade de que esta comunidade precisa de apoio, de uma união colectiva que lhes confira - a todos - a compreensão de que não se encontram sós num mundo que parece todos engolir muito lentamente.
Neste que é um encontro para a "mútua compreensão"... afinal, os mundos de ambos podem não ser tão distintos assim... ou pelo menos não para lá daquilo que o primeiro impacto parece conferir-lhes (ou aos seus olhos)... aquilo que ambos cedo assumem é que para lá das diferenças existem todo um conjunto de características comuns - ou pelo menos semelhantes -, que os coloca num inesperado grupo de pertença. Mesmo que os respectivos mundos não se cruzem no seu quotidiano e que os problemas manifestados tanto por Daniel como por María Dolores não sejam idênticos, existe todo um conjunto de particularidades que, na sua essência, se manifestam de igual forma... afinal, quão diferente pode ser a solidão de cada um ou aquela que sentem aqueles com quem se cruzam?!
No final, e ainda que cada um revele diferentes facetas das relações em comunidade, a pergunta que se manifesta cada vez mais na mente do espectador é se estas diferenças são assim tão acentuadas ou se, afinal, não os aproximam mais do que aquilo que poderia inicialmente afastá-los...
Dotado de um certo cunho impessoal característico de duas pessoas de meios distintos que se cruzam e são forçados a conhecer-se pela primeira vez, Hermandad é, no final o início de uma história sobre dois seres de uma mesma comunidade com ansiedades, expectativas, problemas, desilusões e sonhos comuns que, embora não partilhados, não deixam de ser os motores que dão fogo às suas vidas e às esperadas - por eles - missões a desempenham numa comunidade, numa sociedade e num mundo que partilham em comum não deixando, por isso, de manifestar ligeiramente uma (in)esperada sensibilidade que os revela tal como eles são... humanos.
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7 / 10
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quarta-feira, 8 de maio de 2019

Heatstroke (2019)

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Heatstroke de Edgar Morais (Portugal/EUA) é uma das curtas-metragens presentes na Competição Nacional da décima-sexta edição do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema Independente que decorre na capital desde o passado dia 2 de Maio.
O calor. O desejo. A satisfação sexual. A despreocupação. O delírio. Em breves instantes assistimos a uma sucessão de estímulos e estados de espírito que primeiro confundem e depois desarmam o espectador.
Esta que é a primeira incursão do actor Edgar Morais na realização de uma obra cinematográfica não poderia ser mais sugestiva e inolvidável na medida em que o espectador é completamente surpreendido não só pela sua narrativa como principalmente pela forma como a sucessão de imagens induzem para uma constante percepção da história que apenas é revelada já quando tudo está prestes a terminar.
Ao longo de toda esta breve mas original curta-metragem escutamos os lamentos de "Claire" (Leah Pipes) que fala de recordações de um passado aparentemente distante onde, em casa da sua avó durante o Verão, tinha um cão de nome "Zizi". Os seus lamentos, que subitamente se transformam em devaneios algo inconsistentes, são abruptamente interrompidos - na atenção do espectador - pela companhia a seu lado que, sem ser perceptível de imediato, se assume como o tal "elefante na sala" que todos compreendem estar presente mas que ninguém quer ainda explorar. Apenas os sons e a percepção dessa presença assumem um lugar protagonista sem, na realidade, serem revelados.
A história de "Claire" repetida vezes sem conta assume-se primeiramente como um qualquer devaneio pouco lúcido como o resultado de uma insolação - heatstroke - que a mesma sofrera... Mas é quando compreendemos quem a acompanha e a sua potencialmente desenquadrada actividade que todo o título de "heat".. ou "stroke" se assumem como mais "complexos" ou, pelo menos, levarem a uma dispersão de pensamentos assumidos pelo espectador... estarão todos eles lúcidos... carnais... conscientes?!
Neste "filme dentro de um filme" que subitamente surge no ecrã, cada personagem vive a sua própria dinâmica e a sua história dentre da história tornando todos os envolvidos em inesperados protagonistas de um conto que vivem em comum mas do qual nenhum faz verdadeiramente parte... Contracenam individualmente nos seus próprios imaginários, nas suas próprias experiências conferindo, a cada uma delas, a sua veracidade e realidade para lá daquilo que se passa centímetros ao lado e daquilo que o espectador possa, inicialmente, imaginar garantido que o calor em excesso pode, na realidade, transformar todos aqueles que por ele se deixam afectar.
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7 / 10
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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O Homem-Pykante - Diálogos kom Pimenta (2018)

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O Homem-Pykante - Diálogos kom Pimenta de Edgar Pêra (Portugal) é um dos documentários presentes na competição oficial da XXIVª edição dos Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra no Teatro Académico Gil Vicente.
Edgar Pêra recupera com este documentário alguns dos registos gravados de e com Alberto Pimenta, escritor e ensaísta português que se afirmou ao longo das décadas pela sua escrita considerada insurrecta, subversiva, irreverente e assumidamente crítica do meio político, social e cultural.
Aquilo que se inicia como uma estranha obra que tem como protagonista um homem que interpreta duas distintas personagens - o mendigo e o burguês socialmente em ascensão -, cedo se transforma numa obra onde o próprio escritor não só declama alguns excertos dos seus textos como livremente se (os) expõe de forma assertiva e não menos mordaz. E se inicialmente o espectador estranha aos seus ditos, rapidamente os entranha como uma realidade que no fundo pensa - sobre os tempos que vive -, compreendendo e aceitando aquilo que diz e pensa como a sua (do espectador) própria realidade.
Tudo começa como um ensaio improvisado onde um homem de posses (Pimenta) encontra um mendigo que dorme num banco de jardim (Pimenta de novo). Por entre o seu pasmo e ditos de alguém "superior", cedo reparamos que este não é um mendigo qualquer... com ele tráz os seus próprios pensamentos e um telemóvel - qual mendigo moderno -, que rapidamente atende e para o qual tece os seus mais ou menos iluminados discursos como se de um homem de negócios se tratasse.
Com este momento como o momento de partida que introduz o homem e a sua obra ao espectador, aquilo que escutamos das verdades deste homem e que, na realidade, são muitas das verdades inconfessáveis de tantos de nós, é todo um conjunto de pensamentos sobre a vida, a política, a sociedade, a hipocrisia, a vida e a morte que levam o espectador a reflectir sobre temas banais mas presente no seu quotidiano estabelecendo diferenças não só entre o Homem em si como principalmente sobre a sua (des)evolução ao longo dos tempos... fazendo daquilo que ontem era mentira seja a verdade de hoje ou vice versa.
Pimenta fala dos seus tempos na Alemanha onde trabalhava e onde viveu parte do seu exílio como opositor ao regime de Salazar, da promessa do 25 de Abril e da perseguição que sentiu quando cá vivera no seu pós mas sobretudo sobre a irreverente transformação do povo que se habituou a olhar, como diz, "a casa sempre pelo lado de fora", ignorando todos os pequenos detalhes ou nuances que a transformam naquilo que ela realmente é... uma casa.
As suas verdades, aparentemente banais e circunstâncias, ganham forma e conteúdo quando o espectador pensa que todas elas, sem excepção, têm um fundo de verdade do dia-a-dia na medida em que são pequenos e breves pensamentos que escondem verdades profundas sobre a essência de cada um... afinal, não são estes pequenos e livres estudos de alma que, quando analisados, assustam pela sua realidade e pela rendição que todos nós lhes depositamos?! Assim, a distância estabelecida entre essa verdade "banal" e o pessimismo existencial, leva Pimenta a falar sobre a Humanidade e a sua (ir)racionalidade como uma consequência de quem tudo (e nada) tem esquecendo que os "migrantes de hoje são os escravos de ontem" tal como refere numa das suas mais emblemáticas obras, Discurso sobre o filho da puta (1977).
No entanto são os seus pensamentos sobre a morte e sobre a total independência que "apenas se obtém nas portas, locais de entrada e saída", que ganham maior destaque... é ela que nasce connosco e que vive (ironia do pensamento) sempre como um invisível parceiro e que levam o espectador a compreender (ou pelo menos tentar) melhor a sua mortalidade como principalmente aquela que um homem do mundo, que fala dos outros consciente de que também o representa a si, enfrenta a sua própria mortalidade como uma inevitabilidade que não o preocupando o assusta...
Em tom de humor - nem sempre positivo -, sarcástico e por vezes "negro", Pêra com o seu estilo vanguardista muito próprio, dá uma cor a um poeta e um autor com quem estabelece uma próxima amizade, expondo os seus pensamentos como um reflexo desta portugalidade (e não só), de forma corrosiva, intensa, mordaz, irónica mas ao mesmo tempo dotada de um humor próximo e quase fraterno que nos leva a uma imediata empatia com o homem, com o seu pensamento e também com a sua obra tão cheia de intensas verdades que raramente ousamos admitir.
Potencialmente a grande surpresa desta edição dos Caminhos do Cinema Português, O Homem-Pykante - Diálogos kom Pimenta é certamente não só uma das suas obras mais emblemáticas como seguramente das de Pêra, centrado em filmar Portugal e o mundo com um olhar muito próprio que o espectador não esquecerá e que quando o pensa... lhe reconhece toda a verdade. Bravo Pêra... Bravo Pimenta.
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"Alberto Pimenta: Morrer depois da morte prova que a alma também é mortal."
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7 / 10
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sexta-feira, 27 de abril de 2018

Histórias de Fantasmas (2018)

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Histórias de Fantasmas de Carlos Pereira é uma curta-metragem luso-alemã experimental presente na Competição Nacional da décima-quinta edição do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema Independente a decorrer até ao próximo dia 6 de Maio em Lisboa.
Tudo começa com uma tempestade. Relâmpagos ao longe que iluminam a noite de uma cidade. Alguém na noite que observa imagens do passado e um vulto que sobe umas escadas de um prédio aparentemente abandonado.
O realizador, também autor deste argumento, leva o espectador ao interior de um antigo quartel da Stasi agora vetado ao abandono. As imagens que inicialmente percorrem o imaginário do espectador rapidamente o fazem pensar nas centenas ou milhares de pessoas que fizeram o mesmo percurso e que subiram as mesmas escadarias. O que escondem, no silêncio, aquelas paredes? O que retêm as sombras onde o sol mal toca? Quais os fantasmas - e suas histórias - que ainda fazem ecoar a sua presença naqueles corredores despidos de qualquer presença humana?
Inicialmente incomodativo pela forma como faz dos silêncios e da percepção - do espectador - sobre a sua presente mensagem, Histórias de Fantasmas capta essencialmente a memória de um passado trágico, pouco explorado mas ainda presente na marca arquitectónica, histórica e sobretudo humana de uma cidade em constante transformação. Numa vontade de se inserir num novo mundo - e numa nova Europa -, a questão que permanece por responder reside na vontade de compreender qual o lugar desse mesmo legado histórico, da sua importância e do seu potencial lugar no imaginário e na História comum daquele período e dos que dele fizeram parte. Quase contemplativo e que força à cooperação da mente do espectador enquanto observador participante - pela memória que evoca -, Histórias de Fantasmas é um dos daqueles filmes que recupera o ideal da Memória Histórica no cinema bem como da sua importância para a evolução de uma comunidade (ou sociedade) através da vivência de um passado e de um contributo histórico comuns.
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6 / 10
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terça-feira, 28 de novembro de 2017

Histórias de Alice (2012)


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Histórias de Alice de Oswaldo Caldeira é uma longa-metragem luso-brasileira presente na competição oficial da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português, a decorrer até ao próximo dia 3 de Dezembro, em Coimbra.
Lucas (Leonardo Medeiros) é um cineasta brasileiro que viaja para Portugal e descobrir as raízes da sua mãe Alice (Ana Moreira/Lídia Franco) no norte do país. De Olavo (Filipe Duarte), o seu pai recorda as tardes de passeios e histórias e do avô Joaquim (Vítor Norte) conhece o passado como rico industrial. Aquilo que Lucas desconhece é toda a história de amor e tragédia que uniu os seus pais e os fez sair do país que pouco conhece.
Numa história cujo argumento - também da autoria do realizador - cruza várias décadas e a permanência de uma família nos dois lados do Atlântico, Histórias de Alice evoca momentos, paixões, tragédias e ainda a redenção de um dos seus intervenientes que, sem conhecer o passado, tenta fazer com ele uma qualquer paz que tarda em conhecer. Desde cedo é dado a conhecer ao espectador que o factor predominante esta história está centrado na perda. A perda de uma amizade, de um amor, de uma família, da tranquilidade financeira, política e até mesmo de todo um continente que se prepara para o maior e mais desastroso conflito da sua História. A perda que não sendo celebrada é tida como um acompanhamento para os desenvolvimentos dos momentos de cada um e, mais especificamente, de um "Lucas" desconhecer do seu passado e de uma "Alice" que tem toda uma nova vida por contar... ainda que já não se encontre presente para fazê-lo.
No entanto, várias são as falhas que cedo se anunciam nesta história... não necessariamente os factos históricos mas sim aqueles que cronologicamente colocam a família num dos dois lados do Atlântico. Se inicialmente toda a história de "Alice" e "Olavo" é contada nesse norte português de onde ambos eram originários, cedo se confundem as datas e "Lucas" - que aparenta estar nos seus quarentas é dado como tendo nascido durante o período da Segunda Guerra Mundial... em Portugal (que pela data da obra já o colocariam como alguém nos seus setenta's - e se as suas memórias poderiam ser facilmente esquecidas - e como tal compreendido pelo público - é certo que o mesmo parece ter ainda vários conhecimentos do espaço que, no entanto, apenas se devem a escassas fotografias que nunca chegam a ser vistas.
Mas é quando esta (e outras) falhas cronológicas e de argumento começam a ver a luz do dia, que outros elementos atentam contra a presente fragilidade de uma história que revela as suas várias pontas soltas. Da família que encontra redenção com o nascimento de um herdeiro ao conflito de nunca se esclarecesse no tempo (cronológico) é, no entanto, a aparente proliferação de momentos e personagens que se amontoam numa história sem eira nem beira. Compreende-se a vontade de conhecer - ou voltar a conhecer - o tal Portugal perdido e as origens com as quais poucos elos se mantém mas, no entanto, não será também de questionar os intuitos de personagens e vultos que se amontoam numa realidade aparentemente distorcida? Ou seja... "és" estrangeiro num país do qual pouco recordas... vais dar atenção a todas as pessoas que dizem saber um pouco do teu passado quando antes já disseram que não?! Quais os seus intuitos para lá de algum dinheiro? Para lá de algum aproveitamento pela miséria dos outros? A resposta a estas dúvidas chega com as intenções disfarçadas de "Miguel" (Ivo Canelas), o também luso-brasileiro com ideias de projectos de sucesso na televisão e a sua mescla de ficção versus realidade... ou ficção como complemento dessa mesma realidade...
Numa aventura por um Portugal desconhecido e onde nem os benefícios da beleza da cidade do Porto são aproveitados, Histórias de Alice tornam-se portanto nas aventuras de "Lucas" - um homem desesperado por encontrar contos - mesmo que inventados - sobre a sua família, sobre as suas origens e sobre a sua mãe e que, mesmo dotadas de pouca realidade, possam preencher o vazio que é, no fundo, toda a sua vida. Se a certo momento o espectador entende que este homem quer (re)descobrir o seu passado contribuindo dessa forma para a sua história pessoal, aos poucos compreende-se que aquilo que ele quer não é a realidade mas uma visão romantizada da mesma tal como aquela que diz padecer a sua mãe... afinal, todos os espaços são bonitos, poéticos e dotados de uma mística difícil de compreender... a não ser pelo próprio que sabe (mesmo que em segredo) que nada daquilo que vive é real.
Desta ilusória tentativa de escapar a uma realidade à necessidade de ser a realidade de alguém, "Lucas" apenas se revolta com a aparente usurpação do seu momento por um "Miguel" sedento da sua própria fama, para quem tudo é um palco ou um ecrã de televisão e para os quais está disposto a tudo sacrificar... e ter algum tempo de antena. Das amizades fictícias aos romances inexistentes, "Lucas" é, no final, tão solitário agora como quando chegara a Portugal permitindo, desde então, que todos tenham construído uma história - aquela que poderia ser sua - para ganhar alguns trocos... e ele para ganhar um passado, ainda que não o seu.
Com um fortíssimo elenco entre os quais se destacam Filipe Duarte, Ana Moreira, Ivo Canelas, Vítor Norte, Teresa Madruga, Orlando Costa, Leonardo Medeiros, Marcantónio Del Carlo, Catarina Avelar e ainda Sinde Filipe, Histórias de Alice perde, perde-os (aos actores) e perde-se, pela vontade de tudo contar em noventa minutos esquecendo uma certa veracidade temporal - erro crasso no relato desta história - e o tal romantismo que prometera nos instantes iniciais... aquele do regresso a um país onde nada se tem mas que tudo nos diz e principalmente aquele sentido pela sua mãe que, rapidamente, se transforma num elemento quanto baste excedente de uma história que agora parece nada querer contar deixando apenas para a componente técnica como o guarda-roupa (Susana Abreu e Ticiana Passos) e até mesmo a caracterização (Emmanuelle Fèvre) os elementos mais coerentes desta longa-metragem - bem como pela recuperação da casa d'Os Andrades para um dos momentos deste filme - que promete pelo potencial do argumento e falha na sua concretização ao passar do romantismo e do amor para uma história que afinal o é (de amor) mas onde a fama ou o seu potencial se sobrepõem ao mesmo.
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3 / 10
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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O Homem de Trás-os-Montes (2017)

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O Homem de Trás-os-Montes de Miguel Moraes Cabral é uma curta-metragem portuguesa de ficção e o filme de abertura da edição deste ano do Caminhos do Cinema Português que hoje começa em Coimbra.
Apaixonado pela região de Trás-os-Montes, Miguel (Miguel Nunes) procura histórias para poder realizar o seu documentário até que encontra um homem que viaja de burro que segue e filma em todos os seus movimentos.
Num registo que confunde a ficção com a realidade, n'O Homem de Trás-os-Montes o espectador acompanha um grupo de documentaristas que estudam o espaço em busca de uma história entre as histórias. Dos costumes às tradições religiosas tão presentes no espaço, aqui filmam-se as memórias colectivas de uma região que está, de certa forma, isolada num Portugal dito profundo ainda tão distante dos olhares do seu próprio povo. É nesta muito lenta viagem que personagens, e até o próprio espectador, se deixam embrenhar na região, nas seus espaços e nos seus vastos campos que em muito se assemelham àqueles que conhecemos dos velhos western norte-americanos uma natural imersão nas tradições , nos rituais, nas danças e até numa certa relação entre sagrado e profano - numa clara oposição da bendição das casas àquele contraste entre o folclore tradicional que opõe princípio e final desta história -, levando-os a uma inesperada viagem onde se perde a noção do seu propósito inicial mas na qual se ganha uma miragem da descoberta pessoal que ali parecem encetar.
Irradiando uma vontade de revelar ao espectador a história desse Portugal ainda desconhecido, Miguel Moraes Cabral revela com o seu O Homem de Trás-os-Montes uma silenciosamente intensa viagem pelos costumes populares, distantes de uma Lisboa que (em muito) já os perdeu, e deixando perceptível que o país tem em muitas das suas práticas populares um certo condimento mais pagão deixando viver em comum "acordo" os rituais instituídos pela Igreja com aqueles que visou (em tempos) proibir.
Assim, esta viagem dos seus protagonistas - juntam-se a Miguel Nunes, Isac Graça, Sérgio Coragem e Beatriz Brás -, acaba por começar com um elevado propósito cinematográfico no qual se documentam as práticas visíveis da região, terminando com um registo daquelas que estão distantes dos olhares mais atentos para, no fundo, mesclar estas duas perspectivas e revelando para lá daquilo que estas personagens desejam, um lado mais distante do seu ser que se deixa levar por estes costumes fazendo-os perder-se nas noções pré-concebidas do seu "eu".
Entre a viagem profissional, o encontro místico e a descoberta pessoal, O Homem de Trás-os-Montes é, num estilo muito próprio, a revelação do "eu" e do "espaço" que se manifesta quando ambos de cruzam num percurso inesperado.
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7 / 10
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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

How to Talk to Girls at Parties (2017)

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How to Talk to Girls at Parties de John Cameron Mitchell é uma longa-metragem de co-produção norte-americana e britânica e a mais recente obra do realizador de Hedwig and the Angry Inch (2001) e Rabbit Hole (2010).
No submundo punk da Londres do final da década de '70, Enn (Alex Sharp) e os amigos tentam encontrar uma festa organizada por Queen Boadicea (Nicole Kidman). Ao chegarem a uma casa onde um grupo de alienigenas se reúne para uma festa de despedida do planeta Terra, Enn conhece Zan (Elle Fanning) por quem sente uma química imediata. No entanto, Enn está longe de imaginar que este grupo de estranhos "estudantes americanos" se prepara para um misterioso rito de passagem...
A expectativa de reencontrar uma colaboração entre Cameron Mitchell e Nicole Kidman era grande. Grande ao ponto de esperar desta obra cujo argumento é assinado pelo próprio realizador e por Philippa Goslett baseado no conto da autoria de Neil Gaiman e com uma abordagem a um período sempre fascinante da História contemporânea britânica se transformasse numa das referências deste ano. No entanto se a temática oscila entre o enigmático e a comédia podendo facultar ao espectador uma experiência cinematográfica diferente... aquilo que no final se regista é que esta comédia o é... mas não pelos melhores motivos.
How to Talk to Girls at Parties dá início à sua odisseia - mesmo que desastrosa - com um pequeno espectáculo digital onde os efeitos especiais reinam. Se o espectador pensa que este poderá vir a ser um dos trunfos desta longa-metragem, cedo compreende que eles mais não são do que uma amostragem dos pequenos clãs extraterrestres que irão brindar o ecrã com a sua presença. Dos seus clãs que mais tarde descobriremos serem representações de qualidade mais ou menos humanas (afinal todos têm um pouco de inteligência, motivação, etc etc etc...), saberemos também que nenhum deles apresenta o coração que falta à sua expedição inter-galáctica. Da satisfação das mais básicas necessidades não humanas à celebração de uma humanização da diferença, How to Talk to Girls at Parties tenta criar a "raça" perfeita ao criar a primeira relação entre espécies em Terra e comprovar que a diferença - dentro ou fora do planeta - deve ser celebrada e não repudiada ou antagonizada.
É então que chegamos ao momento punk... ou pelo menos àquele que aqui seria tentado. Se é certo que a longa-metragem de John Cameron Mitchell tenta explorar um pouco desta temática apresentando nas suas personagens um certo descontentamento pela sociedade actual - da altura - em que a juventude dos '70 se tentava demarcar não só da ordem imposto como moralmente correcta como também dos idos '60 em que o optimismo hippie não resultou enquanto "fundador" de uma nova sociedade, é também certo que How to Talk to Girls at Parties falha na medida em que ridiculariza os objectivos de toda uma geração que aqui são praticamente - senão totalmente - inexistentes. Ainda que exista alguma necessidade de explorar o lado violento (ou desobediente) da juventude - qual delas não o é?! - e que a expressão ou interacção entre as personagens seja essencialmente feita à base de um código de indiferença, ridicularização e até mesmo pelo uso dessa esperada violência, How to Talk to Girls at Parties tudo transforma num conjunto de momentos pré-fabricados onde esse desprezo pelo imposto está presente mas, no entanto, aqueles que lhe desobedecem caem não só nas manhas de um conjunto de sentimentos pacifistas - o amor, a comunhão ou até mesmo a cumplicidade - que são essencialmente esperados pela dita "ordem" que tanto juram repudiar.
Se isto não fosse suficiente para classificar esta longa-metragem como uma obra tão estranha como as suas personagens o são, é a excessiva semelhança a Hedwig and the Angry Inch (2001) que o transforma numa (não) sequela transferida de Berlim para Londres onde apenas escapa a componente de recriação de época. As personagens estão estereotipadas, os valores adulterados e a esperança num mundo melhor... nunca mais chega. Se "Enn" e os seus amigos mais não são do que um conjunto de adolescentes iguais àqueles de uma qualquer outra época, justo será dizer que os pouco icónicos extraterrestres conseguem consumar o nível de absurdo de toda esta história... Dos seus aspectos aos rituais pseudo-canibalísticos que defendem sem esquecer o desdém por uma sociedade que considerem menos evoluída mas que apresenta valores maiores - ainda que não cumpridos - ou o eterno estigma de que os terrestres mais não são do que passíveis receptáculos de um qualquer abuso sexual que satisfaça as necessidades "superiores" de uma raça que também o é, How to Talk to Girls at Parties centra todo um conjunto de elementos que levam o espectador a rir do resultado final... mas não pelos melhores motivos.
Perdida a esperança de que esta longa-metragem seja uma análise, mesmo que cómica, do movimento punk em que se analisa uma época pelos olhos daqueles que apenas a vislumbraram à distância, How to Talk to Girls at Parties transforma essa raça superior "vinda de longe" numa analogia parental para com as personagens terrestres como os inesperados "diferentes" que o poder paternal não consegue compreender. Se a isto juntarmos a explícita vontade de classificar os terrestres como exploradores de um planeta que definha com o passar dos anos então Cameron Mitchell conseguiu ainda filmar uma improvável história ambiental como que um aviso para as gerações futuras... "vocês comem tudo que um dia acabam por comer-se a vocês próprios"...
Como momento positivo destas quase das horas de cinema "alternativo" temos então a já referida reconstituição de época dos bairros e lares operários dos arredores londrinos às grandes mansões desertificadas fruto de uma época de colapso económico passando pelos trajes a maquilhagens característicos de uma geração em revolta sem esquecer, claro está, o excêntrico guarda-roupa quer de terrestres quer dos "extra" ambos futuristas - nem sempre pelos melhores motivos - para uma época em constante transformação.
De uma Elle Fanning nem sempre bem aproveitada - afina, para ser superior anda muito perdida - a um Alex Sharp em modo "o que estou aqui a fazer", são os secundários como Nicole Kidman como "Queen Boadicea" ou AJ Lewis como "Vic" que melhor encarnam não só o espírito de uma época como as personagens mais centradas deste conto e, no fundo, com mais sentido ou conteúdo numa história que se perde e atropela a cada minuto que passa transformando este tão esperado How to Talk to Girls at Parties naquilo que vulgarmente se poderia apelidar de um perfeito desastre. Ainda que se tenha tentado conferir-lhe uma alma (a filme e a personagens), esta perdeu-se tão ou mais depressa do que o sentido da obra nesse tal Universo que ninguém sabe quando ou onde (se é que) termina.
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4 / 10
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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Haters (2016)

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Haters de Sergio Sánchez Cano é uma curta-metragem espanhola de ficção cuja brevíssima história reflecte sobre o ódio, sobre a sua expansão e sua gratuitidade quando um casal tenta conversar e Ele olha para Ela e disserta sobre o que odeia no mundo... tudo ao seu redor.
Sánchez Cano explora nesta brevíssima curta-metragem não só a insatisfação de um homem para o mundo que o rodeia como também a disseminação deste ódio irracional como voluntária opção de uma abordagem construtiva onde o mesmo tenta resolver aquilo que no mundo - ou pelo menos no seu imediato - mais o afecta ou preocupa. No final, e talvez como expoente máximo desta voluntária capacidade de ver o mal sem o tentar alterar, Haters reflecte sobretudo sobre a possibilidade de, no meio de um ambiente marcado pela negatividade, existir alguém que equacione a existência de um "bem"... de um amor que tenta disseminar e sobretudo sobre a sua hipótese de sobrevivência num ambiente que é, em toda a sua dimensão, adverso à sua propagação.
Do ódio ao romance (ainda que ignorado), Haters é assim a possibilidade da convivência nem sempre harmónica entre dois opostos e, no final, sobre a forma como um deles pode influenciar directamente o outro ocultando-o e mantendo a preponderância de um sentimento existente e marcante sobre o outro. Qual deles será mais forte?... É a pergunta que permanece na mente do espectador...
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3 / 10
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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Headspace (2017)

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Headspace de Jake Graf é uma curta-metragem britânica centrada na temática transexual pretendendo ilustrar momentos pontuais mas transformadores na vida de um conjunto de pessoas revelando - ao espectador - as dificuldades diárias dos mesmos.
Contado na primeira pessoa, Headspace centra-se em cinco pessoas transexuais. Aquilo que para qualquer pessoa são situações normais, as quais qualquer um atravessa, para este grupo de pessoas as trivialidades ganham contornos mais agressivos e auto-prejurativos quando se vêem frente a um passado que insiste em bater-lhes à porta.
Momentos como uma ida a um wc público, tratar de uma consulta no médico ou até responder a um questionário onde um nome não corresponde à voz que escuta do outro lado do telefone ganham, para todos eles, contornos mais relevantes no seu desenvolvimento psicológico e emocional do que aqueles que para todos os demais seriam imediatamente ignorados. Em Headspace o espectador compreende que para lá de uma questão física que pode ser resolvida com uma operação, existe toda uma situação psicológica - do "eu" - e social - do "outro" - que insiste em prevalecer em sociedade levantando todo um conjunto de questões que noutras circunstâncias não existiria.
Para lá de uma reflexão sobre a parte emocional e psicológica que insiste em permanecer na mente de todos aqueles que compreenderam que o corpo que têm não representa a questão afectiva e emocional que sentem - feita pelo próprio -, Headspace reflecte ainda sobre a questão social - de toda uma comunidade - que se mantém indiferente a estas questões estabelecendo os padrões ditos tradicionais como os aceitáveis nessa sociedade que é, hoje, muito variada. De um wc público apenas feito para dois géneros, de uma voz mais "masculina" que responde quando chamado a um nome feminino, a uma consulta ginecológica para alguém que é um homem, Headspace revela situações que acabam por se inserir num domínio de violação psicológica revelando que não basta uma aparência exterior para a sociedade para se estabelecer um "papel" social... existem todo um conjunto de pequenas grandes nuances que persistem nessa mesma sociedade que acabam não só por transgredir a individualidade de cada um - as quais todos os demais nem sequer nelas pensam -, esquecendo que essa transformação não está apenas presente naqueles que têm coragem para assumir o seu verdadeiro "eu" mas também em todos os demais ainda presos a paradigmas e noções sociais tradicionais que o tempo provou não serem únicas ou verdadeiras.
Com uma importante abordagem social, Headspace revela através dos já referidos relatos na primeira pessoa, um conjunto de histórias violentamente dramáticas terminando, no entanto, com uma pequena mas determinante luz no fundo do túnel.
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7 / 10
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