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terça-feira, 2 de julho de 2019

Ice Sharks (2016)

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Tubarões do Gelo de Emile Edwin Smith (EUA) recupera - não necessariamente da melhor forma - o já tão visto cinema (ou filme feito para televisão) onde um predador natural na mais improvável das localizações elimina um por um todos aqueles que lhe fazem frente.
Um grupo de cientistas encontra-se na Antártida para pesquisas sobre a preservação do espaço quando, inadvertidamente, um cardume de tubarões com objectivos bem delineados e um voraz apetite por todo o sangue quente que percorre as inóspitas paragens. Conseguirá este grupo de pouco preparados humanos sobreviver a uma inesperada ameaça?
O realizador, e também argumentista, Emile Edwin Smith tenta dar uma nova cor ao género onde os humanos são perseguidos por um suposto predador pouco preparado para encontrar inteligência superior à sua... no entanto, é quando todo o ambiente natural parece jogar a favor do "bicho" Homem separando-o por elementos naturais desse dito predador que, afinal, os mesmos facilitam o encontro forçado entre ambos dando primazia àquele que "navega" com mais facilidade pelas águas que são disponibilizadas. Por outras palavras, quando tudo parece estar a jogar a favor do Homem... eis que o Animal ganha o seu próprio - e natural - espaço...
A recuperação desta obra, ou deste género de cinema, não é novidade alguma. Já todo o espectador mais desatento viu pelo menos uma das obras do género em questão e, quer sejam transportados por tornados, por tempestades de areia ou até mesmo por transportes públicos (!!!), a realidade é que nenhuma destas auto-denominadas obras cinematográficas conseguiu alguma vez conter o mesmo suspense ou ímpeto dramático consegui por Spielberg já na ida década de '70 com o seu clássico Jaws. Aqui não... nada do que vemos nos prepara para o pasmo que nos espera quando observamos aquilo que se tenta criar com esta "peça".
Se o cenário poderia por si só constituir-se como um interessante veículo para uma obra de terror moderno onde a Natureza joga, de facto, contra o Homem enquanto tal, deixando-o nos limites da sua consciência e de frente para com os seus medos avivados pelo perigo, pela solidão e pela ideia da sua existência (ou falta dela), Ice Sharks parece - e consegue - levar o espectador a um (in)esperado limite da sua paciência presenteando-o com todo um conjunto de momentos sem sentido (o tal nonsense...), que rapidamente o levam a simpatizar com a equipa adversária e desejar que todos aqueles humanos pouco preparados... se deixe levar pela sua ignorância e caia nas garras dos mais antigos e preparados predadores naturais... sim... equipa tubarão terá de vencer.
A acção, ou aquilo que de mais perto se parece como tal, chega logo nos primeiros instantes onde todos ficamos a conhecer qual o perigo que espreita por debaixo dos "nossos" pés... é, no entanto,nesse mesmo momento que todos também compreendemos onde isto nos poderá levar... se é que a algum lado. Os banhos de sangue, ou aquilo que deles é filmado para esse tal dramatismo, são do mais elementar programa informático que pouco deixa à imaginação... todos nós percebemos como foi feito, não causando portanto qualquer tipo de efeito espectáculo mas sim um cada vez maior descrédito naquilo que nos foi oferecido enquanto filme levando a que tudo o que ocorra ao nosso redor se apresente como os já conhecidos lugares comuns que não dinamizar mas sim minam uma história que já de si se apresenta com todas as fragilidades que o mau cinema de género tem proporcionado ao longo dos últimos anos.
É quando convencidos que nada de novo poderá sair de Ice Sharks que, finalmente, damos conta das histórias pouco pessoais que as personagens desta fábula - de facto só falta alguém lembrar-se de colocar os animais a falar - defendem dando apenas espaço à tradicional história de amor rapidamente revelada pelas constantes insinuações entre duas personagens, o drama familiar que cedo termina pelo esquartejamento daqueles que possuem laços sanguíneos (bem ao gosto do tubarão) deixando o que de positivo esta obra pode trazer a cargo das interpretações... Não poderia isto ser mais errado. Não só não são credíveis - antes fossem dentro da sua desgraça - como cedo se parodiam não pela comédia mas sim pela qualidade do absurdo (sim... qualidade...) ao revelarem tão convictamente que os seus desempenhos são forçosamente maus mas que, no fundo... não é por opção mas sim por falta de capacidade da sua direcção... do argumento que lhes foi proporcionado e sobretudo pelas técnicas - se é que algumas - aplicadas para conferir veracidade a uma personagem sob ameaça e perdida no espaço em questão. Mas tudo piora... e rapidamente.
Os momentos e cenários "naturais" oscilam entre o possível e o absurdo (ganhando este último por larga distância) e a todos colocando - actores e espectadores - numa consciencialização colectiva de que aquilo que estamos a ver tem de acabar... e depressa. Primeiro porque poderá tornar-se ainda pior e depois porque, na realidade, num momento em que as espécies naturais desaparecem graças ao aquecimento global... porque não torcer por este predador que, na realidade, até "despacha" aqueles que violam o seu território colocando-os assim em perigo de extinção?! E se este extermínio - deste Homem - surgir rápido... tanto melhor!
Pouco há a retirar de Ice Sharks para lá do óbvio... O espectador ri um pouco pelo absurdo, esquece-se rapidamente daquilo que viu não danificando muita da sua massa cinzenta e, no final, se algum dia pensar que pode fazer uma obra cinematográfica... saberá perfeitamente onde não vir retirar inspiração sob o risco de trazer um qualquer tubarão à vida... da forma mais inesperada e absurda possível. Quanto ao final... se tudo o resto foi o que foi... imagine o espectador aquilo que poderá "reter" deste filme que parece querer suicidar-se sem grande esforço... tal como tudo aquilo que foi aqui apresentado...
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1 / 10
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sábado, 24 de novembro de 2018

Inversão (2018)

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Inversão de Miguel Ângelo Antunes (Portugal) também presente na competição oficial da XXIVª edição do Caminhos do Cinema Português que hoje se iniciou no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, é possivelmente aquela que, entre as exibidas, menos se enquadra na dinâmica do terror sobrenatural mas sim num mais real e urbano.
Rodrigo (Afonso Lagarto) apressa-se para o seu carro. A sua mulher está prestes a ter o seu filho. Ao fazer as primeiras manobras, antes de se pôr a caminho atropela Joana (Sara Barros Leitão) no estacionamento. Assistimos aos primeiros instantes de toda uma nova vida.
Com argumento da autoria do realizador e de Rui Botelho Rodrigues, Inversão é um breve conto sobre os momentos transformadores na vida das suas personagens onde por um lado encontramos um homem prestes a ser pai que, no entanto, comete um inesperado crime fruto da distracção e do nervosismo. Do outro, encontramos uma jovem mulher que inadvertidamente se vê envolvida no referido acidente enquanto vítima... A reacção, ou falta dela, perante a tragédia define-(n)os e nenhum poderá voltar a ser o que antes fora.
Numa reacção directa ao acidente, a personagem interpretada por Sara Barros Leitão - uma das actrizes mais activas em cinema da sua geração -, é a tradicional vítima perdida na escuridão de uma manhã deserta que apenas procura o conforto junto da família que não encontra por perto. Oscilante entre a perda e a recuperação dos seus sentidos, ambos dialogam e expõem momentos das suas vidas presentes. Ele - Lagarto -, um prevaricador inesperado, reflectidamente ou não, apenas pensa na forma como poderá sair daquela situação sem que surjam consequências directas. Então, no mais inesperado local, determinam-se futuros, consequências, responsabilidades e moralidades que mais tarde no seu futuro, serão determinantes para a sua condição enquanto homem.
O nascimento (de um filho) e a morte (da filha de alguém) são aqui retratados como a tal etapa que os diferencia. Ele, prestes a ser pai, é o único responsável pela perda da filha de alguém e é a sua consequente indiferença para com o crime que o lança num rumo entre a vida e a morte. Ela, por outro lado, vítima de um acidente que poderá (ou não... nunca saberemos) ter sido propositado, permanece estendida num chão, anónima para com o mundo e isenta de um auxílio que não chegará e solitária em relação a qualquer conforto que poderia esperar e desejar.
Numa sequência sem um aparente fim, assistimos às últimas palavras trocadas entre dois estranhos que presencial os primeiros e últimos momentos um do outro incapaz (ele) de se sensibilizar com um momento agonizante alheio.
Assim, de forma intensa e até mesmo comovente, observamos um princípio e um fim. Um fim anónimo, ignorado, desesperado mas sobretudo sofrido pela percepção do mesmo e que atinge uma das personagens que ali permanece... sem saber quando será de facto socorrida do seu anonimato. Do silêncio ao anonimato urbano sem esquecer o isolamento e os silêncios que ambos acarretam, Inversão é a realização de que há momentos que nunca mais poderão voltar atrás.
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7 / 10
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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Insanium (2018)

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Insanium de Rui Pedro Sousa (Portugal) é uma das doze curtas-metragens candidatas ao Prémio MOTELx de Melhor Curta-Metragem Portuguesa de Terror da décima-segunda edição do festival.
Ao passearem pela floresta, as inocentes conversas dos irmãos Adam (Sonny Chatters) e Eric (Daniel Stewart) são bruscamente interrompidas quando encontram um corpo e as suas vidas a partir desse momento modificam radicalmente.
Dividido em três distintos segmentos (ou volumes), Insanium dá os primeiros passos através da história escrita por Joey Fidler, Vol 01 - Zombie a qual dá o mote de saída a toda a trama. "Eric" tenta provar os seus conhecimentos e a sua destreza face a "Adam", o irmão mais velho aparentemente pouco crente da sua capacidade enquanto exterminador de zombies. Mas, é no seu breve passeio que o inesperado acontece e que o jovem rapaz se vê confrontado com as suas habilidades. Será ele capaz de responder?
Com a provação final consumada - e a qual só será do conhecimento do espectador após visionar esta belíssima trilogia -, Insanium dá corpo ao seu segundo momento através de Vol 02 - Whispers onde já na casa dos jovens, pequenos murmúrios parecem encher uma casa semi-abandonada onde não conhecemos qualquer poder parental até já bem perto do final e onde os dois jovens parecem fazer aquilo que o seu isolamento lhes permite na ausência de pais por perto. É, no entanto, quando a mãe chega, que o espectador fica a conhecer um pouco mais da realidade desta família privada de um pai, e dos tormentos e receios que parecem ecoar não só nas paredes das casas como principalmente nas suas jovens mentes ainda em formação.
Finalmente, é no seu último segmento intitulado Vol 03 - Awoken (estes dois últimos com argumento da autoria do próprio realizador), que o espectador fica finalmente a conhecer a realidade por detrás dos receios e temores destes dois jovens e daquilo que se esconde por detrás das sombras que invadem lentamente a sua casa.
Funcionando com um crescendo em potência de segmento para segmento, estas três curtas-metragens conseguiriam, em boa medida, funcionar como filmes curtos independentes e isolados mostrando cada um deles os seus aspectos mais positivos e contribuindo para o imaginário mais ou menos perturbado de cada um de nós. Numa arte como a cinematográfica que, tal como a literatura, permite deixar voara imaginação para caminhos desconhecidos onde os respectivos universos são construídos lentamente através daquilo que os contos nos fornecem e como a nossa mente os recebe, Insanium - como um todo - transforma-se no culminar de uma história que funciona não só pelo que é revelado como principalmente graças a todos os pequenos detalhes que são ocultados do espectador mas que, já no final, são subentendidos pelo menos de forma a compôr as ausências dos respectivos segmentos.
Assim, Vol 01 - Zombie é o momento em que se conhecem os medos e a dinâmica cúmplice, mas não assumida, de dois irmãos capazes de tudo para a sua própria protecção. Vol 02 - Whispers assume-se como o momento em que o espectador compreende finalmente que algo de errado se esconde na sua residência e finalmente Vol 03 - Awoken como o segmento em que a "besta" por detrás das sombras e dos murmúrios se revela finalmente. Se Vol 01 - Zombie é técnica e apenas inicialmente o momento mais pueril na medida em que tudo parece uma inocente e por vezes incoerente conversa entre duas crianças revelando o seu clímax no exacto momento final, são os Vol 02 e 03 aqueles que realmente constroem toda uma dinâmica de suspense e terror capaz de figurar entre os melhores exemplares do género. Uma casa assombrada... uma família desfeita... dois jovens atormentados não só pelo passado como por um presente violento... uma mãe semi-ausente... um monstro "debaixo da cama" e tudo isto... com os tradicionais pesadelos que as crianças sentem, fruto de uma qualquer sombra mais duvidosa que a noite aparenta querer esconder. Mas, no final, e se tudo fosse mais do que aquilo que aparenta ser? E se tudo tivesse um fundamento mais violento do que aquele que é revelado ao longo dos três segmentos? E se, no final, se descobrisse que o monstro pode viver dentro de cada um de nós pura e simplesmente porque... "é possível". É possível quebrar barreiras, limites, consciências e, finalmente, libertar de todas as amarras que supostamente nos ligam a uma sociedade de valores. Valores esses que se desprezam e que se menosprezam dando corpo a toda uma onda de violência que, no fundo, caracterizam cada um de "nós". Afinal, poderão as sombras realmente esconder algo de tenebroso ou, por sua vez, essas trevas vivem dentro de cada um de nós disfarçando-se com as máscaras que a sociedade nos impõe desde o momento em que nascemos?!
Mas, se é verdade que estes três volumes podem funcionar como pequenos filmes independentes contando, cada um deles, um momento específico na vida destes jovens e que apesar de interligados não têm uma linha temporal exacta, é também real que é nesta harmoniosa junção das três que funciona um filme curto capaz de criar toda uma muito própria atmosfera de suspense e terror que deixa o espectador naquele limbo, suspenso de encontrar soluções ou explicações imediatas para o que observa mas, ao mesmo tempo, construindo a sua empatia com as personagens que parecem rendidas a um qualquer mal que os espreita à noite. É este ambiente que funciona, que se instala e que é construído desde os primeiros instantes mesmo com as inesperadas surpresas que entregam informação sem que, no entanto, revelem o seu final e que primeiro transformam as suas personagens em vítimas, depois uma casa num labirinto assombrado e onde algo - que o espectador desconhece - parece ganhar forma para um final inesperado mas bem construído.
Da direcção de fotografia de Vittorio Sala que tira partido da luz exterior nos primeiros dois segmentos e que entrega o espectador à escuridão no último, passando pela direcção de arte da Carina Gaspar que transforma uma acolhedora casa britânica num espaço confinado que parece encolher à medida que os minutos passam, sem esquecer a mais uma vez brilhante direcção musical de Alexander Arntzen, Insanium comprova o rigor técnico e narrativo do realizador de Limbo (2016) que já então havia criado uma história de género fantástico aqui repetido esquecendo agora os pequenos detalhes que podem conduzir uma história, apresentando os momentos necessários para que o espectador se mantenha interessado na conclusão da dinâmica entre os dois irmãos, deles com a sua família e de todos numa casa notoriamente marcada por um passado (presente) e talvez futuro violento que transformará para sempre as suas vidas. É, no entanto, já bem perto do final que esta tensão é menorizada quando os dois jovens se riem descontroladamente do seu presente quando... um breve e irónico sorriso teria feito tremer mais todos aqueles que assistem a esta história e lançando na incerteza as convicções que, até então, o público tinha firmado.
Não sendo uma história absolutamente inovadora - pois o espectador consegue (no final e apenas no final) relacioná-la com outros filmes nos quais este género facilmente se insere -, Insanium é um filme curto inteligente do ponto de vista da sua narrativa e da sua composição técnica capaz de sobreviver enquanto filme uno ou como três pequenos filmes independentes - à la trilogia - que deixam o espectador com expectativa sobre o capítulo seguinte, mas também convincente do ponto de vista das suas interpretações apenas "fragilizadas" por aquele breve momento final e por toda uma atmosfera ligeira que, no entanto, se afirma pela qualidade com que constrói todo um espaço de terror numa casa onde, afinal, o espectador pouco vê sobre o terror que se "esconde".
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8 / 10
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terça-feira, 24 de julho de 2018

I Walk Alone (2014)

I Walk Alone de Alican Kuzu (Alemanha) é uma curta-metragem com uma clara mensagem social que se torna no foco deste mundo repleto de mortos que caminham - com suficiente genica - para serem mais fortes do que qualquer humano pensante.
Ainda que um género já suficientemente explorado para que o espectador não se deixe enfeitiçar com os (des)encantos de histórias em que o planeta deu, finalmente, o seu último bafo de civilização, humanidade e cultura, existe sempre algo de fascinante neste género de contos que transportam o seu público para o imaginário de um mundo completamente diferente daquele que agora conhecemos. Assim, dito isto, onde reside o interesse de (mais) uma curta-metragem cujos atributos parecem ausentes da dinâmica de uma história onde, na realidade, pouco se vê?
É ao entrar em mais um armazém abandonado - ou ocupado por um morto que está... na realidade... já morto -, que um dos protagonistas se depara com outro sobrevivente deste apocalipse zombie, encontrando nele não só um seu semelhante como, ao mesmo tempo, um potencial opositor que poderá colocar em risco a sua sobrevivência. Mas, no entanto, é também na compreensão que o mundo ao seu redor ruiu e que a vida humana está "ausente" da próxima esquina, que ambos na iminência de mais um ataque, compreendem que será apenas no mútuo auxílio e apoio que poderão sobreviver (quem sabe) mais um dia. Da dinâmica do I Walk Alone para a "We walk together", esta curta-metragem, já datada de quatro anos, acaba por conferir ao espectador uma simpática mensagem (independentemente do seu conteúdo) sobre uma utópica vivência em comum fazendo crer ao espectador que apenas na colaboração se poderá encontrar o progresso e está no argumento escrito por este jovem realizador turco uma importante mensagem que irá ser involuntariamente ignorada por entre todo um universo prolífero de cinema de género mais mediático e mais apelativo no que diz respeito a uma perspectiva mais visual.
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5 / 10
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quinta-feira, 28 de junho de 2018

Indivisible (2017)

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"Dreamers", Sem Direitos e Sem Família de Hilary Linder (EUA/Brasil/Colômbia/México) é um documentário que se centra na dinâmica das gerações de jovens que chegados aos Estados Unidos ilegalmente acompanhados pelos seus pais e demais família estão, neste momento, afastados dos mesmos após a sua deportação para os seus países de origem. Num processo de luta constante para que o seu estatuto seja regularizado no país que hoje já consideram seu como também numa forma de poder fazer regressar os seus familiares agora distantes, este documentário revela toda a acção de um grupo de jovens preso num limbo institucional que os faz sentir apátridas... nem do país que hoje chamam de seu... nem daquele de onde um dia partiram.
Num olhar pertinente e oscilante entre o jogo legal que estes jovens associados numa organização de defesa dos seus direitos encetam e aqueles momentos de drama pessoal em que o espectador conhece as suas realidades desde a chegada a um país com uma língua diferente, os seus sonhos e ilusões de criança, a sua entrada na escola e sucessiva formação académica sem esquecer que a junção de todos estes elementos contribuiu de forma decisiva para que o seu país natal mais não fosse do que uma miragem, Indivisible capta com uma seriedade desarmante todo um drama vivido numa solidão constante onde, mesmo na companhia dos seus semelhantes, se sente que todos eles pertencem a um limbo legal e institucional que os afasta de uma vida vivida em pleno.
Em Indivisible encontramos então estes jovens que sonham com a sua situação legalizada nos Estados Unidos de forma a poderem estudar, trabalhar e não recear uma sempre presente possibilidade de deportação e, por outro lado, a incapacidade e inactividade de quem governa em resolver definitivamente esta situação. Sem que se cumpram os seus sonhos, ambições, desejos e uma reunião familiar definitiva, o espectador assiste também ao seu instável regresso - enquanto "turistas" - a um país que já não consideram seu (seja ele o México, o Brasil ou a Colômbia dos três protagonistas do documentário), e em todas as situações com que se deparam no país de origem o espectador não encontra nos seus rostos ou comportamentos uma qualquer identificação ou compreensão de rituais ou momentos que, na realidade, nunca fizeram parte do seu imaginário ou quotidiano. Perdidos entre origem e destino, entre duas línguas, duas famílias - a sua e a que foram obrigados a "encontrar" para não serem seres totalmente solitários no país que os "acolheu" -, todos estes jovens encontram as suas vidas adiadas e por cumprir num processo legal que se arrasta e (à data de hoje) se encontra cada vez mais complicado e turbulento... novamente por questões legais e políticas.
Dos momentos emocionantes dos seus relatos e da caracterização das suas vidas àqueles em que reencontram as suas mães junto ao muro da vergonha na fronteira com o México ou mesmo no regresso aos seus países, Indivisible prima pela capacidade de transmitir ao espectador aquele sentimento de impotência ao encontrar famílias divididas e desfeitas separadas por uma barreira de ferro impossibilitando a convivência saudável e natural de famílias, incapacitando-as de progredir, evoluir e transformar-se naturalmente e demarcando territórios que (naturalmente) não têm quaisquer separações. Intenso, emotivo, pertinente, actual e até mesmo revoltante ao ponto de indignar o espectador, Indivisible é o documentário que fazia falta para compreender o lado humano que está para lá de qualquer definição política que possa "explicar" esta questão central da actualidade dos Estados Unidos da América.
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8 / 10
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terça-feira, 12 de junho de 2018

I Am Not a Witch (2017)

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I Am Not a Witch de Rungano Nyoni (Reino Unido/França/Alemanha) é uma das longas-metragens em competição no FEST - New Directors New Films Festival a decorrer em Espinho na próxima semana.
Numa pequena comunidade africana, a jovem Shula de oito anos é acusada de bruxaria após estar no local onde ocorre um acidente. Posteriormente a sua comunidade acusa-a de bruxaria e, como resultado de um muito breve julgamento, é exilada pelo Estado para uma nova comunidade... de mulheres acusadas de bruxaria. Aí, uma fita branca é-lhe atada às costas tornando-se este o imediato controle dos seus movimentos que serão postos ao dispôr de um tutor que a utiliza para identificar os culpados dos mais diversos crimes.
A realizadora e argumentista Rungano Nyoni cria uma interessante e curiosa história longe das artimanhas de uma cidade cosmopolita mas que, ao mesmo tempo, revela todo um conjunto de hábitos e, até arrisco dizer, manhas típicas das mesmas onde a vontade de enriquecer e o lucro fácil fazem parte de um mundo que não é, afinal, tão distante de nós quanto poderíamos imaginar. I Am Not a Witch cedo deixa o espectador intrigado quando este observa um conjunto de turistas a chegar a um qualquer local isolado - ainda pouco perceptível - ao som de uma música clássica que, percebe, estar descontextualizada do universo que se prepara para conhecer. São estes mesmos turistas que pagam um bilhete para uma qualquer atracção turística que inicialmente não se compreende por parecer quase como algo circense num cenário improvável. No entanto, são as pequenas e breves descrições e observações que nos levam a compreender que nos encontramos num espaço onde a atracção turística é um conjunto de mulheres consideradas bruxas que apenas não (os) atacam porque estão presas a uma igualmente misteriosa fita branca.
Daqui, o espectador é transportado para uma qualquer outra comunidade onde da atracção turística passa para a realidade de uma África rural onde o modo de vida é totalmente distante deste mundo de "turismo" anteriormente apresentado. Aqui, são os velhos costumes e tradições já distantes desse turista Europeu ou Norte-Americano e encontramos velhos rituais e superstições que assumem a forma de costume, de lei e de justiça nem sempre imparcial. É aqui que encontramos a jovem "Shula", uma menina de oito anos acusada de bruxaria quando um acidente na aldeia ocorre na sua presença. Rapidamente levada para um tribunal onde é julgada na presença da polícia, da comunidade e do representante do Estado, "Shula" ao não admitir culpabilidade ou assumir inocência é condenada por um crime no qual (aparentemente) não havia estado envolvida. Ao ser ostracizada para a já mencionada comunidade de mulheres bruxas, "Shula" encontra neste conjunto de mulheres aquelas que irão ser as suas avós, mães, irmãs, amigas e confidentes que serão, no fundo, as que a irão inserir nos novos costumes enquanto agentes da justiça. Mas, algo mais está por detrás de todo este ritual de passagem...
Enquanto o espectador observa esta rápida inserção num novo mundo, enquadra-se igualmente a noção de que o mesmo é apenas uma forma mais subtil e matreira de encontrar uma mão-de-obra mais barata quando compreende que estas "mulheres bruxas" mais não são do que uma forma barata que o Estado tem de ter as suas terras lavradas, cultivadas, colhidas quando a produção já está preparada e, finalmente, encontrar um custo baixo quando surge a necessidade de encontrar uma decisão judicial que, pela falta de provas ou de agentes legais de uma justiça que não existe, se torna difícil de julgar de facto.
No entanto, ao mesmo tempo que o espectador assiste a esta pouco inocente similitude entre o dito Ocidente e esta África rural onde tudo aparente ser mais simples quando não o é, repetindo todo o tipo de esquemas que encontramos em qualquer destas cidades do dito primeiro mundo, não é menos real que "Shula" revela uma certa compreensão de que o mundo não será assim tão distante e, como tal, assumidamente global enquanto manifesta alguns comportamentos de que os ditames sobre si poderão não ser tão erróneos como aquilo que o espectador inicialmente havia pensado. Se "Shula" se deixa levar pelos encantos de uma nova comunidade na qual se sente inserida mas com o preço de pagar pelo espaço que lhe é reservado e acede a ser o juíz carrasco de certos casos que o Estado decide julgar, não é menos real que o seu comportamento, ainda que aparentemente ocasional, acaba por definir e decidir de forma acertada quando através de acções ou de palavras e promessas compromete e previne o comportamento daqueles que recorrem aos seus serviços. É com o passar do tempo e de forma muito subtil - talvez como uma verdadeira bruxa que nunca se assume na realidade - que o espectador assiste aos verdadeiros resultados da acção de "Shula", uma menina frágil, inocente e curiosa do que a rodeia a transformar-se em alguém cujas palavras ditam uma lei, pouco credível na opinião dos demais, mas certeira nos resultados práticos daquilo que afirma. E da mesma forma que as suas palavras se tornam reais no julgamento para os demais, cedo também se concretizam nas expectativas daquilo que espera para si... com a formação de chuva ou a audição de um bode que bale ao fundo sem ser, no entanto, visível. Aí o espectador compreende a existência de uma "Shula" como a verdadeira entidade com poder num mundo que o quer usar mas que não está preparado para as suas reais consequências. Um mundo que, no fundo, está tão corrupto como aqueles que no seu seio quer julgar mas que afinal, se julga detentor de uma moral corrompida e podre. "Shula" é assim um rosto inocente de uma justiça não oficial e que, farta de o incorporar, prefere a certo momento deixar dele fazer parte.
Curioso pela sua dinâmica enquanto história que funde por momentos a ficção com a realidade na proximidade que revela entre o choque do tribal com o urbano - principalmente na forma como ambos equacionam a noção de lei -, I Am Not a Witch é um daqueles filmes que cresce para o espectador à medida que o tempo decorre não só pela forma como se assume como uma interessante ironia sobre mundos tão distantes que, afinal, não o são assim como pela dinamização de uma história onde os costumes tribais assumem um lugar cimeiro e revelam (ao espectador) uma forma tão distinta de fazer justiça ou de vencer num mundo onde o dinheiro é também, afinal, o elemento mais importante da sociedade, sem esquecer a ligeira dramatização da história de uma criança e personagem central que ora não é aquilo de que a acusam... ora afinal se revela como alguém com uma presença magnânima capaz de enfrentar o mundo com muito mais certezas do que aquelas que o seu rosto permite transparecer... Ou será o universo que afinal chora pela desgraça de uma criança farta do mundo em que se encontra?!
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7 / 10
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domingo, 3 de junho de 2018

Intromissão (2016)

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Intromissão de Francisco Morais e Miguel Pinto (Portugal) é uma curta-metragem que revela um dia de trabalho aparentemente normal na vida de Simão (Ricardo Pinto de Magalhães) mas que um dia recebe uma misteriosa chamada exigindo-lhe que confesse os seus mais escondidos segredos ou irá pagar as consequências.
Esta história assinada pela dupla de realizadores em colaboração com Mariana Morais é um ensaio sobre as consequências da revelação dos segredos inconfessáveis... Uma história que se prende com a chantagem, com a ameaça e com o desabar de toda uma vida de enganos quando presa nas mãos de um predador anónimo e implacável levando, no entanto, o espectador a ficar dividido entre uma qualquer empatia entre o protagonista e este carrasco. Se o primeiro é um indivíduo com uma vida dupla que oculta tudo àqueles com quem decidiu formar uma família e, como tal, condiciona o seu natural desenvolvimento e confiança que é, ao momento, cega, e um segundo que se assume como um justiceiro mas, ao mesmo tempo, não por um bom sentido na medida em que para obter a responsabilização dos actos de "Simão", exige que este termine com a sua vida familiar ou profissional como uma sentença anunciada sem julgamento prévio.
Assim, e divididos entre um protagonista presente e uma voz que de forma anónima controla os seus destinos, o espectador centra-se nas regras de jogo ditadas por este último e na decisão do primeiro que vê a sua vida a ruir a cada instante que passa. No entanto, se esta dicotomia entre personagens nos leva a criar os referidos polos opostos, é a interpretação de Ricardo Pinto de Magalhães que, no entanto, não deixa o espectador criar grande empatia com a sua personagem. Longe de qualquer sensibilização para com a sua história fruto eventual de uma qualquer pressão social que o levou a "mostrar ao mundo" aquilo que o mundo queria ver, Pinto de Magalhães concentra-se em pequenos exageros e tiques representativos para demonstrar a sua aflição mas pouca expressividade num rosto que parece descontrolado mas pouco emotivo, enervado e pouco sentido e sobretudo quase tão vilão como o próprio que o ameaça. Ao telefone, do outro lado, temos sim alguma expressão... um intenso e constante desdém, uma ameaça velada, sentida e marcada à qual o espectador não fica indiferente... e se esta compõe muito para a tensão dramática que aqui se espera, é Pinto de Magalhães que rapidamente a faz perder necessitando de mais concentração para espelhar esse medo, desespero e sobretudo noção de perda que a sua personagem faz adivinhar.
Com alguma intensidade pela sua mensagem e pela forma como é filmada que lança no pânico um homem que vê toda a sua vida a fugir-lhe das mãos, Intromissão vale pela sua narrativa mas fragiliza por uma interpretação pouco sentida e assumidamente exagerada desde os primeiros instantes em que se impõe como figura... mas pouco pela expressão dos seus sentimentos.
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5 / 10
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terça-feira, 22 de maio de 2018

Inexistencia (2018)

Inexistencia de Juan Miguel Alonso Hoyos (Espanha) é uma curta-metragem feita ao estilo de cinema mudo. A sua história apresenta Laura, uma modelo que fez um pacto com o Diabo por uma oportunidade de fama e sucesso mas que teve de pagar o preço mais alto... o da sua vida.
Com claras inspirações no conto de Dorian Gray de Oscar Wilde, Inexistencia acaba por reflectir sobre aquilo que o seu próprio título indica... até que ponto existimos de facto e de que poderão a suposta fama e estrelato contribuírem para uma maior compreensão do lugar individual no mundo e na sociedade que nos rodeia. No fundo, o que estará cada um de nós disposto a fazer para que, de forma ilusória mas não perceptível, todo o mundo esteja centrado na nossa presença? Sem que cada um compreenda, essa dinamização do "eu" no mundo e dos "outros" como meros espectadores de uma peça de teatro que cada um de "nós" protagoniza, mais não é do que uma ilusão granjeada por uma entidade misteriosa aqui encarnada pela figura de um "Diabo" bíblico. É esse mesmo "Diabo" que manobra e manipula todas as acções que nos envolvem de forma a cairmos no seu jugo pessoal de captura de almas indefesas, conferindo apenas sonhos e ilusões que na realidade nunca se poderiam concretizar.
Tendo esta premissa em mente, é exactamente na imagem desse sonho que reside a salvação da alma... se a vida mais não é do que um sonho, como poderá esse "Diabo" comandar uma vida que, na realidade, não existe? Entregues ao seu próprio destino, as vítimas - aqui a modelo "Laura" - mais não são do que elementos cativos do seu próprio subconsciente e não de uma figura mística que poderá aproveitar-se dessa inocência. Assim, e como relata a própria linha narrativa desta história... se o "Diabo" não existe (ou pelo menos assim estamos convencidos), fácil e alegremente poderemos entrar na sua morada.
Com clara inspiração na já referida obra de Wilde e, como tal, já de certa forma conhecida do espectador mais atento, esta Inexistencia peca pelo recurso excessivo a uma réplica de cinema mudo que se tenta explicar em demasia com as recorrentes legendas cinematográficas como se o espectador não compreende-se a dinâmica da história sem ter um guia que a acompanhe. Inteligente pela forma como capta - para os dias de hoje - um conto eterno sobre a sede de poder, de uma juventude eterna e de uma ilusão do "eu no centro do universo", esta curta-metragem não consegue, no entanto, sobreviver para lá das óbvias comparações que o espectador tece com as inúmeras versões da mesma nem tão pouco como desnecessariamente tudo tenta explicar com uma legenda que enquadre a cena.
Inexistencia é, dessa forma, uma curta-metragem que poderia centrar-se no "menos é mais" dando crédito ao seu próprio título pois nem tudo necessita de uma prévia explicação, e não tanto nos pequenos detalhes como se esse elemento fosse credibilizar de forma mais positiva todo um trabalho previamente construído.
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sexta-feira, 18 de maio de 2018

Inside the Van with The Bongo Club (2017)

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Inside the Van with The Bongo Club de Alex Esteve (Espanha) é um documentário em formato de curta-metragem que revela a tour da banda musical sueca The Bongo Club pela Andaluzia depois de mais de duzentos concertos pela Europa e a sua luta para encontrarem o seu lugar no universo musical mesmo que, na opinião de muitos, não sejam os melhores do género.
Composta por seis membros, o grupo sueco The Bongo Club é aqui essencialmente descrito pelas palavras do vocalista Jesper e pelo guitarrista Erik como mentores do projecto ao qual dedicam toda a sua vida. Para Jesper aliás, a banda e a música são caracterizados pelo próprio como a sua razão de viver e como o projecto de toda uma vida à qual dedicada não só todo o seu tempo livre como trabalha para que este sonho seja mantido com uma vida longa e para o qual efectua diversos sacrifícios.
O projecto que se iniciara como uma banda de escola, prolongou-se pelos tempos e agora é algo que se expandiu para lá da sua fronteira natal percorrendo, um pouco por todo o continente, pelas salas, bares e associações onde dão a conhecer não só o projecto e a música que criam.
Sempre na companhia de uma velha Volkswagen "pão-de-forma", que acaba por se transformar em mais um dos "membros" do grupo, na qual percorrem quilómetros de estrada por todo o continente, a história de Inside the Van with The Bongo Club acaba por se transformar num tradicional - mas próximo - documentário do género que une o sonho de duas artes que se cruzam... o cinema e a música deixando para o espectador a capacidade e privilégio de decifrar pequenas mensagens e momentos nomeadamente aquelas que se relacionam com a dedicação de um conjunto de pessoas para com o sonho de uma vida e algo que, no fundo, os define enquanto criadores, artistas e pessoas capazes de viver por, e para, aquilo que amam.
Simples e dinâmico, Inside the Van with The Bongo Club é um daqueles brevíssimos documentários que o espectador compreender ter deixado tudo bem explicado e compreensível mas do qual não se importaria de continuar muitas mais horas a apreciar a vivência dessa experiência e desse sonho.
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7 / 10
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domingo, 7 de janeiro de 2018

Insidious: The Last Key (2018)

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Insidious: A Última Chave de Adam Robitel (Canadá/EUA) é o último título da saga iniciada em 2010 por James Wan dando aqui protagonismo a Elise Rainier (Lin Shaye) uma das secundárias da saga.
Elise tem vários pesadelos sobre a sua infância no Novo México e da sua relação com a família numa altura em que os seus dotes de comunicação com o "outro lado" não eram compreendidos por Gerald (Josh Stewart), o seu pai. É neste presente imediato que Elise recebe uma chamada de Ted Garza (Kirk Acevedo) que reside na sua antiga casa e, também ele, revela a existência de uma presença que o intimida. De regresso ao passado que abandonara, Elise tem agora de enfrentar tudo aquilo que deixou para trás... até receber um novo telefonema.
Depois das entregas de 2013 e 2015, fica claro que a saga Insidious está (talvez) para terminar. Não só pela clara referência final que leva o espectador a regressar ao local onde tudo começou como principalmente pela óbvia simbologia que parece pairar no ar neste Insidious: The Last Key... Com esta longa-metragem regressamos à terra natal da protagonista... Five Keys... o próximo capítulo - o quinto - chega com a apresentação das personagens interpretadas por Patrick Wilson e Rose Byrne e, portanto, o ciclo parece estar a encerrar com a chegada ainda não anunciada dessa longa-metragem. Mas, até lá, estamos com a "Elise" de Lin Shaye e a sua viagem à terra que a viu nascer onde poderá finalmente enfrentar os seus próprios demónios.
Insidious: The Last Key fecha um próprio capítulo que o espectador desejava - de certa forma - ter na medida em que apresenta a perspectiva e a história de uma actriz que tem sido constante na história. Lin Shaye dá corpo a uma cada vez mais atormentada "Elise" com imagens de um passado que não foi devidamente encerrado. "Elise" vive atormentada com a certeza de ter liberto um mal que a sua inocência não soube identificar - mais um exuberante registo de Javier Botet cada vez mais ligado ao género em questão -, e sentir uma firme necessidade de encerrar definitivamente uma história que a tem condicionado durante toda a sua vida. É esta dinâmica que invade a mente do espectador e o deixa curioso sobre o que está para lá de uma sempre presente porta vermelha que atormenta os seus pesadelos. Qual o mal que espera no silêncio e espreita pelas sombras? Quem condicionou à sua volta? Quem conseguiu dominar? Quem dele se escapou?
A curiosidade desta história fica, no entanto, com estas perguntas que... respondida uma... respondidas todas, deixando no ar pouco mais por responder. O mal vive, essencialmente, naqueles pequenos lugares sombrios da mente de cada um, desenvolvendo-se como um nocivo fungo para a saúde mental dos mais fragilizados e, dessa forma, ganhando terreno nos seus involuntários hospedeiros que correspondem às suas vontades como meras marionetas. O mal apenas vive porque encontra quem dele tem medo.
Assim, Insidious: The Last Key não é necessariamente uma daquelas longas-metragens intermédias que o espectador necessitava urgentemente ter para poder justificar qualquer fio condutor mais solto das entregas anteriores mas sim uma história que se dedica exclusivamente a uma das suas protagonistas que tendo ajudado tantas vítimas indefesas se esqueceu, durante décadas, de responder às suas próprias necessidades e "fungos" escondidos que nunca fora capaz de resolver. Incerta sobre o seu passado, não só as suas convicções como a força de combater o mal poderiam ter sido comprometidas deixando a uma qualquer fé a capacidade de libertar do mesmo aqueles que a ela recorriam.
Dito isto, Insidious: The Last Key começa a fragilizar-se pela necessidade quase insustentável de justificar as diversas linhas narrativas que as entregas anteriores foram fazendo notar, não deixando margem de manobra para a incerteza, para o acaso ou mesmo para os pequenos detalhes que a própria vida não consegue explicar... porque se seguiu pela esquerda quando tudo indicava ser pela direita? Nunca o saberemos. Mas esta fragilidade não se deve apenas a esta necessidade de tudo explicar mas também pelos pequenos apontamentos cómicos que surgem de alguns dos seus actores nomeadamente dos "sidekicks" de "Elise" que se transformam em meras paródias e aos quais todos nós nos habituámos de ver em inúmeras histórias do género e que, em boa medida, levam à descrença das ditas "ciências ocultas" quando e se elas tiverem alguma veracidade e isto já para não falar no último momento "à la emplastro" que o realizador achou necessário inserir no último instante desta longa-metragem.
No final, o que temos de positivo? Para começar, os instantes iniciais que são, eventualmente, os únicos capazes de manter algum dinamismo de terror/suspense em todo o filme, bem como a reconstituição artística de época deste segmento e, finalmente, a própria presença do actor espanhol como "KeyFace", a encarnação do mal não na Terra... mas nas mentes fragilizadas daqueles que escolhe como as suas vítimas. Ainda que Botet se repita na encarnação de uma personagem que parece ser uma réplica da "Menina de Medeiros" da saga [REC], de Jaume Balagueró e Paco Plaza, não deixa de ser um intenso prazer ver uma personagem do género de terror que consegue, de facto, amedrontar o espectador. Fora isto, encontramos aqui algo que já não tenhamos visto em inúmeras outras obras do género?! Não, nem por isso... o espectador desloca-se a estas histórias pela curiosidade e habituação ao género que o obriga ou impele a esperar sempre algo mais... ainda que essa necessidade não seja sempre correspondida da melhor forma.
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5 / 10
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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

A Ilha dos Cães (2017)

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A Ilha dos Cães de Jorge António é uma longa-metragem luso-angolana presente na selecção oficial do Festival Caminhos do Cinema Português, a decorrer em Coimbra.
Sessenta anos separam as duas histórias da Ilha dos Cães. Uma delas decorre na era de domínio colonial português na qual o forte existente na ilha era sede de uma prisão para revolucionários deportados por oposição ao regime. A outra história de corre na actualidade onde Pedro Mbala (Miguel Hurst) chega à ilha encarregado de transformar a prisão num condomínio de luxo na mesma altura em que estranhos assassinatos cometidos por uma matilha de cães parecem ensombrar a ilha.
Jorge António, Virgílio Almeida, Paulo Leite e Carlos Ferreira adaptam a obra Os Senhores do Areal, de Henrique Abranches ao grande ecrã e dão ao seu argumento um componente de mistério e sobrenatural que ensombram esta história destes os instante iniciais onde o espectador é inserido numa plantação colonial onde a população é usada como instrumento de um trabalho escravo às mãos de um impiedoso Américo (Nicolau Breyner). Como todas as histórias, também esta começa com um pretenso romance. Talvez o único momento possível para apaziguar as mentes daqueles que, torturados por um poder opressor, eram condicionados a uma situação onde são desprovidos da sua personalidade, dos seus direitos e até da sua individualidade. É proibido sentir, amar e pensar. Assim era o Portugal colonial da década de '50.
Neste Portugal de então, os desejos de independência e auto-determinação começavam a dar os seus passos mais intensos e o poder central desafiado e questionado sobre o seu verdadeiro poder, detém e tortura todos aqueles que se lhe opõem. É neste contexto que o espectador conhece "Pera d'Aço" (Ângelo Torres) e "Garcia" (Daniel Martinho), dois dos detidos por este brutal regime simplesmente por serem - para os de então - seres inferiores e sem direitos de reclamar o seu destino pelas suas mãos. Mas, e se estes homens escondessem algo mais que lhes confere um poder superior? E se eles são realmente "culpados" dos acontecimentos que envolvem - entre épocas - a já referida matilha de cães que ensombra a população da ilha? E se por detrás de toda esta história de mudança - de regime, de pele, de governo -, se escondesse um conto de tortura, de desumanização e de justiça que apenas aquele grupo de pessoas poderia testemunhar?
Da Angola colonial ao país independente, A Ilha dos Cães centra a sua dinâmica numa história sobrenatural que, no entanto, tem como pano de fundo um país desigual nos seus dois momentos - 1955 e 2015 - tentando, no entanto, manter-se à tona através do respeito pelo passado, pela memória e sobretudo pelas vítimas de um regime brutal e desumanizador que fundamentava o seu poder num ideal de supremacia rácica inexistente. No entanto o Homem com poder independentemente da sua origem irá provar (nestes dois momentos) que apenas a tradição e o respeito pelas suas origens poderão salvá-lo de um qualquer mal que insiste em reclamar a sua terra para si próprio.
Ainda que curiosa a abordagem desta história que cruza não só a História com um toque sobrenatural fazendo justiça através da acção de um conjunto de improváveis justiceiros, A Ilha dos Cães sofre de uma importante fragilidade na sua narrativa... o escasso desenvolvimento das suas personagens que ostentam um óbvio conteúdo por explorar... do esclavagista interpretado por Nicolau Breyner - nesta sua última interpretação cinematográfica - à já referida dupla Ângelo Torres e Daniel Martinho cujas personagens aqui secundárias são essenciais à dinâmica da história servindo-lhe, inclusive, de elos fundamentais entre os dois momentos temporais, o espectador não pode esquecer a não explorada relação entre a personagem interpretada por Ciomara Morais e a de Miguel Hurst que, compreendemos, sofrem de um amor interrompido (potencialmente semelhante à da história inicialmente contada pelos presidiários) pela separação de que ambos foram alvo... ele homem de negócios que Luanda "branqueou" e ela uma filha da terra que não está disponível para abandonar o local que a define enquanto mulher e lhe confere todo o seu passado sem esquecer claro, o brutal carcereiro interpretado por João Cabral cujas pérfidas acções para com os homens que detém definem-no não só como "homem" como também personifica todo um violento regime que estava disposto a tudo para desumanizar e retirar individualidade aos seus.
Torres e Martinho por um lado e Cabral e Breyner por outro são, entre o elenco do primeiro momento em 1955, os actores cujas personagens poderiam ter sido mais exploradas. Aliás, fosse o filme todo feito em redor das dinâmicas criadas entre eles e A Ilha dos Cães seria aquele drama colonial que o cinema português precisaria de ver. A escravatura existiu... a desumanização das populações portuguesas de África também - e com isto não me refiro ao português branco... - e até ao momento, a memória, incapaz de viver consigo própria, ainda não foi capaz de contar este período tal como ele precisa ser registado... bruto, violento e impiedoso. Por outro, também as dinâmicas exercidas entre Hurst e Morais denotam que existe todo um passado e um romance que poderiam - deveriam - ser explorados mas que, infelizmente, ficaram por revelar deixando ao espectador aquilo que a sua própria imaginação deixa desenvolver.
A Ilha dos Cães vive de todo um potencial e dinamismo que poderiam contar várias histórias dentro da história. No entanto - e sem conhecer a obra remetendo-me exclusivamente àquilo que o filme permite ver -, aquilo aqui centralizado foi apenas o lado sobrenatural do conto como forma de expiar e vingar as tormentas do regime ditatorial deixando presente que a vingança pode chegar tarde... mas não se esquece dos seus carrascos... sejam eles quem forem... e em que tempo cronológico se encontrem.
Com uma dinâmica sobrenatural interessante e interpretações esperadas para o género das quais se destacam os já mencionados Torres e Martinho - que, no entanto, são reveladoras de todo um potencial que seria de esperar ver mais desenvolvido - A Ilha dos Cães promete mais do que aquilo que no final revela mas é eficiente na forma como trabalha as suas personagens explorando-as e deixando para o espectador a árdua tarefa de imaginar o seu passado e e as sevícias de que foram vítimas.
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sábado, 18 de novembro de 2017

It Comes at Night (2017)

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Ele Vem à Noite de Trey Edward Shults é uma longa-metragem norte-americana cujo argumento da autoria do próprio realizador remete o espectador para um tempo incerto onde a desolação, o medo e a existência de uma praga desconhecida remetem Paul (Joel Edgerton) e a sua família para o seio de uma floresta onde sobrevivem isolados do mundo exterior graças a uma ordem e um ritual ao qual se auto-impuseram para se refugiaram de um perigo que espreita para lá do desconhecido.
No entanto, é quando chega Will (Christopher Abbott) e a sua família que todos são colocados à prova, deixando-se consumir por esse desconhecido e pelo medo irracional que o mesmo impõe no seio de todos, fazendo-os temer não só o que se encontra para lá das suas novas fronteiras como principalmente aquilo com que se deparam dentro da sua própria casa.
It Comes at Night não poderia ter chegado em melhor altura. Num momento histórico e político em que se suspeita de tudo e de todos e que se criam medos e resistências para lá do imaginável sobre o que se esconde para lá do nosso próprio campo de visão, a longa-metragem de Trey Edward Shults chega primeiro como uma fria análise sobre os comportamentos humanos neste século XXI como também uma feita àquilo que esconde a irracionalidade daqueles que são (foram) os homens ditos de bem.
À excepção de todo um clima tenso e de suspeito que afecta todos as personagens de It Comes at Night de uma forma geral, são os pequenos e muito breves momentos em que a vida parece finalmente começar a "correr bem" dentro da catástrofe que o espectador pode analisar de forma mais fiel aquilo que são, no fundo, os comportamentos e o fundamental da personalidade dos membros destas duas famílias. Se a suspeita mina a inicial relação entre os dois homens - Edgerton e Abbott -, é a sua convivência que os transforma em improváveis aliados nestes (agora) tempos de crise onde a união faz, literalmente, a força. De potenciais inimigos a uma dupla que une duas famílias, a suspeita chega quando os comportamentos de alguns fazem ameaçar o bem-estar de todos e, por consequência, o estado de saúde que pode ser facilmente ameaçado por esse "vírus" que ameaçou - e talvez até tenha eliminado - a Humanidade. Deste vírus pouco sabemos. Aliás, o único elemento que nos chega do mesmo são os breves "rumores" de que falam sobre o seu aparecimento e, ainda que nada seja revelado dos seus efeitos, aquilo do qual o espectador tem conhecimento é, no fundo, os breves efeitos físicos que algumas destas personagens denotam no decorrer do seu relato. Sabemos que se propaga pelo ar e apenas de noite - eis a sugestão do título - mas claramente não a todos os humanos... e pouco sabemos da vida animal aparentemente não afectada pelo mesmo. Sabemos que existe alguma vida (talvez) inteligente nos poucos humanos que parecem resistir mas não onde se encontram ou em que condições para lá da óbvia militarização dos mesmos. No entanto, é no seio deste pequeno grupo de seis membros que residem os elementos importantes de It Comes at Night.
O perigo exterior está, obviamente, já mencionado; o vírus. No entanto, e voltando um pouco atrás no relato, é a suspeita que surge entre as famílias que reside o mais importante. Em condições ditas normais e nas quais a sociedade funciona com os mecanismos de segurança e protecção assegurados, a suspeita de uma infecção, de uma doença, de um contágio ou até mesmo de uma pandemia colocaria todos sobre-aviso e com atenção para os pequenos sinais de alarme. Aqui, onde tudo aparenta ter falido e onde a sociedade - então como a conheceram - já não existe, são as pequenas suspeitas dentro do grupo que marcam o tom e o passo dos destinos de todos. Permitir que um estranho - por muito próximo que com ele agora se esteja - continue a residir no espaço que é "meu" ou, por sua vez, eliminar este invasor de quem, na prática, nada se conhece? Esta decisão, agora fulcral, poderá manter o espaço livre de qualquer elemento potencialmente perigoso que, pela força ou pelo uso dos recursos (para os quais também contribuiu) tente dominar e controlar e, dessa forma, manter a sua superioridade, é aquela que irá num instante dominar a mente de todos... e num mundo (agora) dominado pelo medo, quem tem mais poder controla não só os recursos como todos aqueles que circulam ao seu redor. E It Comes at Night é sobre isto mesmo... a irracionalidade, a percepção do poder como forma de sobrevivência e o encontrar nos demais o tal "outro" que pode pôr a causa a existência do meu "eu".
No meio desta análise sobre a irracionalidade e sobre a suspeita existe ainda a simbologia presente mais ou menos explícita de It Comes at Night começando pelo mais óbvio e que é, no fundo, um dos principais elementos da "segurança" de todos... a porta vermelha. Depois de ver It Comes at Night, o espectador começa involuntariamente a pensar no que observara nomeadamente sobre o referido mundo exterior... Nunca são confirmados detalhes do que está para lá das árvores ou da floresta, nem mesmo quando "Paul" e "Will" são confrontados com alguns desconhecidos que os tentam eliminar... Aliás, o único destes sobreviventes é instantaneamente eliminado por "Paul" impedindo-os de obter respostas sobre o mundo tal como o conheceram, levantando - de imediato - uma questão pertinente sobre a existência ou não do mesmo ou, por sua vez, será que nos encontramos nalguma "real" realidade e não num subterfúgio onde mentes perdidas passaram a residir como se de um novo purgatório se tratasse.
Ainda que esta ideia de purgatório parece conflituosa - para o espectador - e até mesmo improvável dada, por exemplo, a necessidade de encontrar alimentos para subsistir ou mesmo água, a realidade é que a existência da já referida porta como garantia de uma segurança face ao desconhecido perde-se quando, arbitrariamente e sem aparente conhecimento de nenhum dos resistentes, "Stanley", o cão de "Paul" é brutalmente ferido por... ninguém... regressando à casa depois de um misterioso desaparecimento ao encontrar "algo" nesse tal horizonte desconhecido para lá das árvores da floresta. Rapidamente, e sem grandes demoras, aquilo que assola a mente do espectador é, por um lado, estar perante um cenário macabro onde já nada existe além da porvir tomada de consciência de alguém que já não é, ou seja, almas que ficaram retidas nesse purgatório à espera de compreenderem a sua extinção ou, num cenário mais negro e catastrófico esta extinção confirmou-se e aquilo que existe é o nada - daí nunca ser vislumbrado pelos intervenientes - deixando apenas a estas personagens a capacidade de reproduzirem pelas suas expressões a incredulidade e a desconfiança face a tudo o que vêem "à sua frente". Se o "nada" consegue ganhar forma... então é esse mesmo "nada" que por eles é observado.. quão assustador será?!
Mas, no final, e sem visões mais ou menos românticas (ou esperadas) desse fim não anunciado, aquilo que permanece com mais firmeza na mente do espectador é a irracionalidade dos homens normais. A irracionalidade que se apodera do mesmo quando em tempo de crise... tempos de incertezas, de faltas de segurança, dos medos face a um (im)provável desconhecido, face ao "outro" e até mesmo a propósito dos "meus" que, no risco de serem afectados por esse mal desconhecido, se transformam também eles em alvos do meu medo e, como tal, elementos que precisam ser eliminados em nome da minha segurança que é, pela falta de recursos e da minha própria desumanização, cada vez menos.
Em It Comes at Night residem ainda três pilares fundamentais... Edgerton como o pai de família que tenta sobreviver com a mesma mantendo tudo o que é exterior à sua casa trancado... Trancado metaforicamente uma vez que é o próprio que se isola dentro de uma casa deixando todo o demais mundo - ou o que dele existe - fora de portas. Forte, letrado e no antigo mundo talvez um homem incapaz de manter um trabalho mais físico, é ele que agora domina o meio tomando nas suas mãos o trabalho mais árduo mesmo que este implique livrar-se daqueles que entretanto ficam doentes. Por outro encontramos o "Travis" de Kelvin Harrison Jr. - filho de "Paul" - cujas ânsias de um jovem de dezassete anos ganham cada vez mais forma não só pela perda dos seus, como do mundo que deveria estar a descobrir assim como pela "invasão" de um novo grupo de  pessoas que despertam (em certa medida) os seus próprios anseios sexuais e sentimentais agora cada vez mais difíceis de serem respondidos. Finalmente encontram Christopher Abbott e o seu "Will" que, de certa forma, acaba por ser uma personagem em muito semelhante ao "Paul" de Edgerton na medida em que é um pai de família para a qual tudo faz - incluindo mentir - para a proteger e manter e que tenta encontrar na aliança com os poucos demais que ainda subsistem a sua própria sobrevivência mantendo, no entanto, sempre a confiada desconfiança como método de auto-sobrevivência. Três pilares, três mundos, três pontos-de-vista e três existências que, em tempos normais, poderiam ser complementares mas que, neste novo mundo, apenas se assumem como marcos de uma desconfiança generalizada na qual o "outro" (mesmo que conhecido) é todo um mundo de potenciais ameaças às quais "eu" não posso - nem quero - ceder porque o medo que "sinto" e que se apoderou de "mim" e da minha existência comanda e condiciona todo o "meu" pensamento.
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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

It (2017)

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It de Andy Muschietti é uma longa-metragem norte-americana, a mais recente adaptação de uma obra de Stephen King e o remake da mini-série de dois episódios com o mesmo nome de 1990, realizada por Tommy Lee Wallace.
Um ano depois do desaparecimento do irmão, Bill (Jaeden Lieberher) e um grupo de crianças inadaptadas e perseguidas pelos malfeitores mais velhos da cidade, vêem-se ameaçados pelo bizarro e maléfico demónio sob a forma de um palhaço Pennywise (Bill Skarsgard).
Atormentados por vidas não tão perfeitas, pela pré-adolescência e por um demónio que os persegue através dos seus mais vividos pesadelos, estas crianças têm de conseguir sobreviver às suas vidas para finalmente as poderem defender do seu próprio fim.
Adaptado de uma obra de Stephen King por Cary Fukunaga, Chase Palmer e Gary Dauberman tendo ainda como ponto de referência a já referida obra do início da década de 90, este It de Muschietti é - era - um dos filmes mais aguardados do ano primeiro por aqueles que experimentaram o terror do "Pennywise" de Tim Curry e finalmente por toda uma nova geração de fãs de terror desejosos de ver a mais recente adaptação da obra do mestre - leia-se King - que foi exponenciado por um trailer extremamente interessante partilhado por todas as redes sociais o que fez antecipar "o tal" filme de terror que tantos de nós esperávamos há anos.
Aquilo que It nos revela já era conhecido - pelo menos, e repito, para aqueles que vibraram com a mini-série da década de 90 -, começando pelas vidas atormentados de um conjunto de jovens no final dos idos anos 80 - acção deslocada da década de 60 na obra original -, onde numa localidade perdida do meio do mundo que se transforma, um inúmero conjunto de crianças desaparece sem que ninguém lhes consiga encontrar o rasto. De "Bill" (Lieberher), a "Beverly" (Sophia Lillis) cujo pai se insinua a uma jovem à beira da puberdade que se masculiniza para deixar de ser vista como uma presa, passando por "Ben" (Jeremy Ray Taylor) o miúdo novo e com algum peso a mais perseguido pelos mais velhos, sem esquecer "Mike" (Chosen Jacobs) atormentado com a morte dos pais, "Eddie" (Jack Dylan Grazer) cuja mãe havia transformado num hipocondríaco ou "Stanley" (Wyatt Oleff) e o seu medo a palhaços ou mesmo "Richie" (Finn Wolfhard) com o seu medo do escuro, todos eles encontram-se naquele momento das suas vidas em que o racional se confunde com o irracional e, típico de um momento de transformação, ressurgem todos os medos de, aquando crianças, os limitavam na sua vontade de explorar e de viver.
Desta forma "Pennywise" é, para lá do demónio que o espectador reconhece, a junção de todos os medos que condicionam a vontade humana de avançar, de arriscar, de conhecer e de essencialmente viver numa plena liberdade e felicidade. "Pennywise" explora e joga com os medos de cada um enquanto crianças que são... seja o medo do escuro, da perda, do abuso, da falta de segurança, da violência ou até mesmo da morte, todos eles são condicionados por medos (ir)racionais que os fazem permanecer nessa idade infantil onde estão e são mais vulneráveis. No fundo, "Pennywise" acaba por ser o tal monstro (ou demónio) que explora essa vulnerabilidade aproveitando-se, de seguida, do isolamento a que cada um se remete onde pode, então, atacar e sair vencedor.
Os jovens, cada um à sua maneira, encontram-se naquela idade onde tudo o que fazem ou dizem os condiciona na sua pertença a um grupo - ou clã - e, como tal, vulneráveis ao sentimento desse isolamento. Gostar de uma banda "proibida" pelos parceiros, de uma rapariga (ou rapaz) que não é aprovado pelo mesmo ou de quem alguém já gosta, a vontade de uma independência e desafio à autoridade parental que surge com o despertar da adolescência ou até nutrir sentimentos que sentem não poderem ser confessados a todos condiciona nos seus movimentos mantendo como único alternativa permanecer perto daqueles que como eles, de uma ou outra forma, partilham essa mesma identidade marginal e transformadora... tão complicada é essa adolescência!!!
Com um espírito muito ao estilo dos idos anos 80, It recorre àquilo que de melhor nos trazem as tecnologias dos anos '10 deste século XXI. Para todos os que viram a mini-série de Tommy Lee Wallace, recordam que não tínhamos ali grandes elementos construídos através do que o avanço tecnológico permite levando a que o espectador se perca - ou pelo menos disperse - por tudo aquilo que de forma aleatória compõe o cenário desta longa-metragem, sendo assim obrigado a concentrar-se nos pequenos detalhes e num não tão simpático "Pennywise" de Tim Curry que aparecia de surpresa para tentar levar a sua próxima vítima. Aqui o espectador tende a dispersar pela criação de efeitos especiais que tornam todo o espaço e ambiente mais negro e num "Pennywise" brilhantemente caracterizado ao qual Bill Skarsgard dá vida e muita alma, mas cuja energia se concentram num assumidamente maléfico sorriso e num quase histerismo com que resolve atacar/surpreender as suas vítimas. Se o "Pennywise" de Skarsgard vence pelo referido sorriso que amedronta sem que ele se movimente... era aquele composto por Tim Curry o que realmente meteu medo a toda uma geração nascida nos anos 80. Skarsgard - que repito tem uma brilhante composição - amedronta pelo sorriso do mal... Curry amedrontava porque o seu palhaço nem sempre bem caracterizado, com as suas referidas falhas e um sorriso inicialmente convidativo dava lugar a um monstro que o espectador reconhecia ser capaz de recear. Se um é o sorriso do mal... o outro é o sorriso de um mal escondido, oportunista, meticuloso e até mesmo estratega que primeiro alicia e só depois é capaz de se revelar... eis o verdadeiro mal!
Dos traumas de uma adolescência que se avizinha no meio local onde todos aparentam pertencer a um planeta distante - afinal, em It não encontramos um único adulto que aparente ser normal ou pelo menos que não tenha preocupantes desvios psicológicos -, esta longa-metragem assume-se sim como uma interessante e estimulante reconstrução de época (cronológica e estival) e numa união - ainda que extremamente rápida - destes jovens que procuram não só um grupo de amigos como também aqueles com quem se possam identificar e escapar das pressões sociais externas que sentem serem cada vez mais uma constante... afinal, enquanto crianças ninguém espera nada deles... mas há medida que se tornam jovens adultos as responsabilidades começam a surgir quase que como uma obrigação que os persegue. Poderá "Pennywise" ser esse aproximar da idade adulta onde tudo perde o seu encanto e magia? Da direcção de fotografia de Chung-hoon Chung que capta a luz daqueles que deveriam ser os dias despreocupados de um conjunto de jovens ao lado negro (da força?!) onde todos os pesadelos ganham vida à caracterização e direcção artística que contribui de forma decisiva para a atmosfera negra que se pretende sentir, It destaca-se pela inevitável prestação de Skarsgard enquanto o demónio "Pennywise" - que percebemos ser uma constante ao longo da História bastando para isso procurar os detalhes - e pela premissa de que a história não fica assim... afinal nenhum mal morre de forma eterna... nenhum amor se deixa por cumprir... todos eles chegam à idade adulta e claro... todos terão de se reencontrar... mais não fosse pela óbvia pista lançada no final de It.
Dinâmico, com alguns momentos capazes de provocar os seus sustos e negro quanto baste, It não consegue superar a obra original de 1990 que cultivou e explorou o medo de cada um e fez o espectador pensar naqueles tempos de criança onde todo o mundo à sua volta apresentava perigos que foram (ou não) ultrapassados. Aqui, resta a expectativa da sequela... e a forma como este conseguirá (ou não) manter-se fresco junto do espectador que esperava um devido desfecho para "Pennywise" que não dure mais de um ano. Assim... It é competente... mas deixa a vontade de poder ter mais.
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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Índice Médio de Felicidade (2017)

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Índice Médio de Felicidade de Joaquim Leitão é a mais recente longa-metragem do realizador de Duma Vez por Todas (1987), Adão e Eva (1995), Tentação (1997), Inferno (1999), 20,13 (2006), Até Amanhã, Camaradas (2013) e Quarta Divisão (2013).
Daniel (Marco D'Almeida) é mais uma das inúmeras vítimas anónimas da crise que transformou a vida de toda a sua família muito rapidamente. Quando tudo começa a desmoronar, Daniel tem de dar um rumo à sua vida. Mas e se esse rumo fosse transformar a vida de outros que, tal como ele, se encontram em momentos de auto-transformação?
Baseada na obra homónima da autoria de David Machado que também escreve o argumento em colaboração com Tiago R. Santos, este Índice Médio de Felicidade divide-se em dois momentos muito concretos e difíceis de ignorar. O primeiro prende-se com a evidente mensagem que visa revelar ao espectador não só a transformação de todas as personagens como resultado directo de um conjunto de acontecimentos que de forma mais ou menos voluntária a todos afectou e, finalmente como sua previsível consequência, o rumo que cada uma destas personagens tomou quando deparados com a presente adversidade que os condicionava a uma de duas opções... ou enfrentar a adversidade e desistir... ou tomá-la como a tal rampa de lançamento para uma nova oportunidade que se fazia esperar.
O "Daniel" de Marco D'Almeida é inicialmente revelado ao espectador como um homem que esteve durante anos acomodado a uma vida confortável e, de certa forma, previsível. No entanto, e ainda que o espectador não sinta a tal "lavagem cerebral" sobre as oportunidades que chegam com o desemprego - argumento tantas vezes tentado nos idos tempos da crise onde quase parecia culpado aquele que não conseguia ter um trabalho -, não deixa de ser uma realidade que este mesmo pensamento parece querer habitar nas entrelinhas de uma história que avança pelo seu próprio passo. "Daniel" é um tipo que ainda no princípio dos seus quarentas, aparenta já algum desgaste emocional não só fruto da situação em que agora se encontra mas também pela perda - algures no tempo - da tal magia e do sonho que o faziam mover enquanto "ser" com a tal esperança. Casado, pai de dois filhos e com uma vida que parecia encaminhada, cedo perde os seus dois principais amigos... um "Almodovar" para as malhas da lei - e que nunca chegamos a conhecer -, e finalmente "Xavier" (Dinarte de Freitas) para uma depressão agorafóbica que o fizeram recolher ao interior das suas quatro paredes. Distantes e afastados de uma realidade comum, "Daniel" encontrou na sua vida pessoas e familiar o mínimo sustento para a alma que o levam a escrever as suas confissões, desabafar para ele próprio sobre os seus tormentos mas principalmente sobre os seus planos... afinal, só planeando um potencial futuro poderá ele dizer que está a viver de facto o seu presente... Mas, estará?!
Com tudo para se transformar num caminho amargo, desesperado e até mesmo desolado, "Daniel" na companhia de "Xavier" decidem então dar voz ao seu antigo sonho... um site que se propõe estabelecer elos de ligação com aqueles que precisam de ajuda facultando-lhes os mecanismos de concretização de sonhos ou de necessidades. Enquanto espectador e como pessoa que (assumo) mantenho ainda alguma esperança nesta Humanidade, é aqui que entre o meu descrédito para com este Índice Médio de Felicidade. Se por um lado ao assistir a esta longa-metragem até permanece em mim - e não só espero - a vã esperança de que de facto existam pessoas que se disponibilizem a ajudar o próximo numa viagem ao outro lado do mundo (ou pelo menos até Andorra e Barcelona), não deixa de permanecer naquele nosso lado "negro" da consciência o tal eterno pensamento... como pode esta pessoa que nada tem, que tudo perdeu e que procura um segundo rumo para a sua vida disponibilizar-se sem qualquer tipo de meios - financeiros pelo menos - embarcar numa viagem que... obviamente terá os seus gastos... colocando toda a sua vida em segundo plano. Como se isto não bastasse, existe a tal premissa do "desemprego como oportunidade" que permanece num constante e cada vez mais incomodativo ruído de fundo... Existirá assim tanto tempo, disponibilidade e até mesmo vontade para resolver os problemas alheios quando nem os próprios se conseguem satisfazer?
Se o grau de satisfação (da tal felicidade) resulta de forma proporcional como o inverso da insatisfação - logo infelicidade -, a viagem que então marca uma boa parte de Índice Médio de Felicidade é aquela feita por um conjunto de pessoas que estão à beira de um qualquer limite... "Mateus" (Tomás Andrade) o filho mais novo é o resultado de uma sociedade de consumo habituada a tudo fácil e rapidamente, "Vasco" (João Sá Nogueira) o fruto de uma juventude vivida à pressa. "Flor" (Ana Marta Contente) aparenta uma eufórica alegria como que alguém que já passou por um esgotamento, o próprio "Daniel" alguém que insiste em colocar a sua vida em segundo plano, "Alípio" (António Cordeiro) alguém que já passou por tudo e finalmente "Xavier" como o resultado directo de alguém que acordou cedo de um sonho que percebe não poder ser vivido... afinal, a sociedade tornou-se consumista e auto-centrada em demasia para que alguém se possa - ou queira - preocupar com as necessidades alheia que apenas podem ser satisfeitas se existir dinheiro que as sustente.
E aqui chega a grande questão... se existe uma certa mensagem de solidariedade em Índice Médio de Felicidade, esta chega sustentada com o tal "crise/desemprego como oportunidade", e se se tenta encontrar um consolo nas pequenas coisas da vida como, por exemplo, o retorno a um convívio mais saudável que dá lugar inclusive ao auto-conhecimento, a realidade é que tudo nesta longa-metragem parece encaminhar-se para um excessivo hype de optimismo que parece tentar consciencializar para a realidade tentada de que de facto todos os finais proporcionam um novo começo... quando na realidade, sabemos todos nós, a crise trouxe mais finais do que propriamente oportunidades de uma vida melhor. É este vislumbre de uma moralização da crise, das suas vítimas e até de uma sociedade que se percebe indiferente demais para (se) poder sobreviver que acaba por transformar o que poderia ser uma história diferente - na medida em que mostra a separação e perda de quem tudo teve - sobre a crise, bem como de todos aqueles que mais ou menos distantes acabam também por sucumbir às próprias redes desta sociedade... de certa forma perdida... onde tudo e todos se definem por um ideal de status medido - tal como a felicidade - por um emprego, uma casa, um carro e uma peça de roupa.
Das interpretações - feitas à medida - destacam-se um excêntrico Dinarte de Freitas que acaba por ter os discursos e diálogos mais lúcidos perdidos, no entanto, dentro da sua própria depressão e desistência do tal "sonho" e a interessante química que, de uma forma geral, todo o elenco consegue criar na sua viagem. Agradável a participação de uma sempre intensa Lia Gama que, no entanto, poderia e deveria ter um pouco mais de presença no ecrã - um bónus para todos os espectadores - deixando, no entanto, este Índice Médio de Felicidade por aqui nos elementos mais positivos. No final... permanecem as intenções de uma história que se assume, desde cedo, como um suposto guia para uma vida feliz... ou não estivesse o título já utilizado... um Guia para um Final Feliz.
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terça-feira, 1 de agosto de 2017

In a Heartbeat (2017)

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In a Heartbeat de Esteban Bravo e Beth David é uma curta-metragem de animação norte-americana que em breves minutos cruza os destinos de dois jovens rapazes. Um deles Sherwin, tímido e perdido de amores por Jonathan, um rapaz confiante que segue para todo o lado sem ser visto. É, no entanto, quando o coração de Sherwin manifesta uma vontade maior do que o próprio que ele terá de seguir o seu próprio coração ou ver os seus sentimentos expostos perante Jonathan... e toda a escola.
Curta-metragem revelação do ano pela forma como expõe a mais inocente forma de amar com honestidade e nobreza numa temática que ainda insiste em ser tabu, In a Heartbeat conquista o espectador por conseguir fazer sorrir e emocionar ao mesmo tempo que o deixa na esperança de que este amor - tido como inconfessável - possa vencer.
Aqui encontramos dois adolescentes, na tal altura da formação individual - e como indivíduo -, da expressão dos primeiros sentimentos amorosos e onde tudo pode - ou tende - a poder correr mal. Enquanto um passa pelos jardins da escola descontraído e sem pensar que é o alvo da manifestação amorosa de alguém, o outro - "Sherwin" - "sofre" ao observá-lo sem nunca conseguir expressar os seus pensamentos, sentimentos ou emoções... até que o seu coração - cheio de amor - decide por iniciativa própria fazer chegar a "Jonathan", tudo aquilo que o seu portador sente. Em breves instantes que fazem nascer todo o tipo de manifestações pelo espectador, a personagem dominante desta curta-metragem de animação é o improvável "coração" que com os rasgos de toda a esperança do mundo e de quem começou naquele preciso momento a sentir, decide expressar e lutar pelo tal amor "proibido" ou, até então, inconfessável. Numa corrida contra o tempo e frente aos olhares de todos... a confirmação deste amor poderá estar por breves instantes.
Sóbria, honesta e longe de qualquer preconceito, In a Heartbeat voa e em quatro breves minutos conseguimos observar uma das mais nobres e sentidas manifestações de amor na adolescência que o cinema - e seguramente o cinema de animação - consegue transmitir criando ainda uma das mais carismáticos personagens do género. Seguramente é não só uma das histórias de animação do ano... que surge sob o formato de cinema curto tantas vezes ignorado independente da sua qualidade aqui tão bem manifestada expressando, ao mesmo tempo, a sua independência criativa com cariz social capaz de chegar tanto aos mais novos como aos adultos tantas vezes cépticos de que o cinema de animação pode ultrapassar fronteiras... geográficas, físicas e principalmente psicológicas.
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sexta-feira, 5 de maio de 2017

Inside Lumberjacks (2014)

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Inside Lumberjacks de Marco Barbosa é um documentário português em formato de curta-metragem que retrata na primeira pessoa, e de forma intimista, a dinâmica de uma equipa portuguesa de futebol americano, os Paredes Lumberjacks em preparativos para o jogo de apuramento para a final do Norte.
Dividido em dois segmentos específicos, Inside Lumberjacks inicia a sua dinâmica com o momento Dias de Treino onde o espectador conhece os conselhos dados pelo treinador da equipa sobre o rigor, a disciplina, a táctica e a estratégia como meios para alcançar uma vitória sem esquecer, pelo processo, todo um ritual de fé, integridade da equipa e irmandade que são estabelecidos. O segundo segmento deste documentário intitulado Dia de Jogo dedica-se à disputa pelo título - não ganho pela equipa cujo documentário pretende retratar - mas sobretudo ao conjunto de esforço e trabalho que os levou até aquele instante. Mas, é sobretudo sobre a disciplina dos jogadores (não tida em campo) que este momento mais reflecte estabelecendo uma próxima relação entre o respeito (pela impulsividade para com os outros) e liderança que ali se trabalham e que pode ser uma preparação para um futuro fora de campo, em sociedade, também em grupo (a comunidade) e em futuras tarefas ou obrigações que esperam cada um destes jogadores.
Interessante pela forma como o realizador se estabelece desde o primeiro instante como uma parte integrante e observadora dos Paredes Lumberjacks - ainda que só durante o período de produção desta obra cinematográfica - este documentário regista ainda a dinâmica recriada a propósito do espírito de equipa (sempre presente) e sobre a forma como se constrói todo um ritual que tem como fim último a vitória. Mais, Inside Lumberjacks permanece na mente do espectador principalmente pela forma como depois de todo um árduo trabalho desportivo - mesmo tendo o resultado final sido diferente do expectável - consegue fazer persistir essa mesma consciencialização de "equipa" e sobretudo como se faz da ideia de liderança (de grupo) num valor fundamental para uma vivência em sociedade que ultrapassa toda a dinâmica ali existente em campo com vista a um mundo "lá fora" onde também será preciso vencer.
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quarta-feira, 12 de abril de 2017

Indivisibili (2016)

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Indivisibili de Edoardo De Angelis é uma longa-metragem italiana presente na décima edição da Festa do Cinema Italiano a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa e uma múltipla vencedora da última edição dos David di Donatello - seis troféus incluindo Melhor Actriz Secundária e Melhor Argumento Original - atribuídos anualmente pela Academia Italiana de Cinema.
Viola (Marianna Fontana) e Daisy (Angela Fontana) são duas irmãs gémeas siamesas que cantam em casamentos e demais festas locais contribuindo, desta forma, para o único rendimento de toda a família. Mas no dia em que um médico diz que as pode operar tornando-as independentes uma da outra, as suas vidas transformam-se dando lugar a uma potencial história de descoberta e individualidade.
O realizador Edoardo De Angelis, aqui também em funções de argumentista juntamente com Nicola Guaglianone e Barbara Petronio, dá corpo a uma história que vai muito para lá de um desejo de indepedência e afirmação ou, pelo menos, mescla-as de forma a que todas sejam elementos fundamentais para o desenvolvimento das suas personagens, das suas ambições, aspirações e desejos. Desde o primeiro instante que o espectador assume o contexto geográfico desta longa-metragem como aquele de um local empobrecido e marcado pelas diferentes dificuldades económicas que atravessam a sua população. Por outras palavras, aqui sobrevive quem tem esperteza, alguns meios ou recursos que pode pôr em prática distanciando-se das misérias que esperam "lá fora". Assistimos a praias desertas longe de grandes destinos turísticos mas onde dão à costa homens e mulheres vindos de África e que ali sobrevivem à custa de negócios não tão legais. De prédios abandonados que são residência desses migrantes à aparente prostituição que parece abundar a todas as esquinas, o espectador observa o contraste com as grandes festas das famílias mais ricas mas que, ao que se percebe, são uma ínfima parte de todo aquele espaço.
É neste contexto que nos são apresentadas as duas irmãs gémeas "Viola" e "Daisy". A sua voz e condição física são o atractivo para os demais que lhes confere - e família - a subsistência necessária e, como tal, aquilo que seria de uma imediata transformação passa a factor que prevalece para que este suposto nível de vida se mantenha, ou seja, se a deficiência física é um bónus para a entrada de dinheiro... será que o mesmo deve ser alterado?! De "atracção" a um problema cuja vontade de alterar aumenta a cada instante que passa, as duas gémeas ponderam sobre a possibilidade de uma vida separada. Como poder existir sem a presença da outra, de beber, fumar, namorar, fazer amor sem que tenham uma companhia que, para aquele instante, não é desejada... Mas, ao mesmo tempo, esta vontade - ou necessidade?! - de mudança começa a intrometer-se nos desejos e vontades de um pai (e de toda uma família na verdade) que vêem uma potencial fonte de rendimento e da sua própria subsistência a desaparecer. Num meio onde impera a miséria e a degradação, como poderá esta família lidar com a súbita (ou talvez não) vontade de mudança das filhas que, até então, têm servido como atracção "turística", fonte de rendimento e até mesmo ícones de uma (nova) religião que delas faz mártires?
É então que entra a segunda vertente desta história. Uma história de duas jovens mulheres que partilharam a vida... toda a sua vida... lado a lado sem qualquer noção a propósito de privacidade. Desconhecem o que é ter amizades e, menos ainda, amizades a título individual visto que para onde uma vai... a outra segue. Nunca fizeram uma refeição sem ser na mútua presença, nunca tiveram um comportamento de higiene onde a outra não esteja ou tão pouco uma cama onde possam dormir separadas. Tudo nas suas vidas é feito na constante presença da outra. Será que numa idade onde aparecem as primeiras paixões, os primeiros desejos - os instantes iniciais de Indivisibili revelam muito - e as primeiras necessidades de um afecto que não parental ou fraternal despertam nelas (pelo menos numa), não poderá revelar que algo precisa de ser resolvido a propósito da sua condição física?
Se as duas irmãs são idênticas fisicamente, os seus comportamentos denotam uma notória diferença. Se o espectador presencia uma "Viola" controlada, submissa aos desejos da família e até reticente quanto à separação de uma irmã a quem se habituou ter "por perto", já "Daisy" exala rebeldia, vontade própria, uma necessidade de se afirmar ao mundo, à família e principalmente a ela própria que contrasta em absoluto com a passividade de uma "Viola" que apenas quer estar "bem". Mas, no entanto, num mundo onde o normal é uma vida marginal da sociedade onde reina o dinheiro e os favores, poderá o amor (ou a sua ideia) e a sua individualidade reinar e ter alguma última palavra?! Poderá a vontade de comer um gelado, viajar, dançar, fazer amor ou beber sem ter medo que afecte a outra ter algum voto final? E no fundo, a grande e última questão será... poderão elas continuar a crescer - enquanto indivíduos a solo - se a outra não estiver por perto? Quem são "Viola" e "Daisy" afinal? Poderão elas descobri-lo num mundo onde a sua condição física tem determinado a subsistência económica de tantos?
De toda uma conjuntura sócio-económica que pode ser facilmente detectada por inúmeros pequenos detalhes e que compõem, de certa forma, uma importante parte deste argumento a toda uma reflexão não menos importante sobre a individualidade e o indivíduo enquanto uno, Indivisibili prima por ser uma história francamente original e que permite ao espectador questionar-se sobre o "eu" interior e aquilo que faz dele a pessoa que é... como o seu meio contribuiu para essa formação e, em última análise, em que medida seria diferente se qualquer um desses pequenos detalhes fosse alterado ou, na realidade, nunca tivesse existido enquanto tal.
Indivisibili poderia portanto ser uma história sobre o meio... sobre uma qualquer actualidade que ali parece passear-se pelas fronteiras de um território não conhecido (a tal terra de ninguém talvez...)... sobre a individualidade... sobre aqueles que vivem nas margens.... sobre os que tentam sobreviver... sobre os que se acomodam a uma situação fazendo dela o bode expiatório da sua existência. Indivisibili poderia ser simplesmente uma história sobre como e quando crescer... sobre aquele preciso momento em que cada um de nós decide finalmente tomar uma medida pelas suas próprias mãos - medida essa que "Daisy" comprova ser o acto último de um desespero então compreendido - controlando assim a sua vida e existência... No então Edoardo De Angelis decidiu (e bem) que Indivisibili seria sim um pouco disto tudo.
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