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quinta-feira, 25 de abril de 2019

José (2019)

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José de João Monteiro (Portugal) é uma curta-metragem que revela uma história, assinada pelo próprio realizador, centrada num qualquer subúrbio onde as revelações pessoais e de um passado perturbado se assumem como determinantes para um futuro porvir.
José (José Cordeiro) celebra o seu décimo-oitavo aniversário. O seu irmão mais velho (Nuno Nolasco) oferece-lhe um fio. Num momento de reflexão sobre o passado, compreensão do futuro e considerações futuras tidas pelo próprio espectador, José revela a história de uma família à procura de si própria.
De imediato a curta-metragem de João Monteiro transporta o espectador para um espaço incerto. Incerto não pela sua condição geográfica que (compreendemos) ser precária e onde as carências são uma certeza, mas sim pela forma como a relação entre os dois irmãos se manifesta. Ainda que próximos, o espectador sente que "José" e o seu irmão são o fruto de algo que, no passado, correu mal. Para lá da morte - que se assume como o ponto de partida principal - ou mesmo de qualquer carência económica que os leva à sua realidade social - "José" a trabalhar na recolha do lixo e o irmão como alguém que aparenta ter encontros casuais com homens mais velhos -, existe uma mágoa presente em ambos que embora os torne indiferentes à realidade alheia, agindo e interagindo com tudo o demais por mera sobrevivência, os transforma em seres emocionalmente próximos compreendendo que tendo muito que os separa - nos caminhos percorridos - estão unidos por um passado comum... perdido mas que lhes confere essa inquebrável ligação familiar e afectiva.
Tudo à volta destes dois irmãos parece degradado. Do seu ambiente natural (pensa o espectador) que se assume sob a forma de uma casa abandonada que se revela como a sua casa (passada ou presente?!), às formas escolhidas para ganharem a sua vida. Nada parecer ter corrido como aquelas oportunidades que eventualmente esperavam ao ponto dos silêncios serem a maior e melhor forma de comunicação que conseguiram encontrar. A própria identidade de "José" é, em boa parte desta curta-metragem, protegida pela câmara impossibilitando o espectador que compreender quem está do outro lado e só já decorrido algum tempo se compreende de facto quem é aquele jovem que agora cumpre o seu décimo-oitavo aniversário ao mesmo tempo que recebemos essa sua aparente apatia para com o mundo que o rodeia. Entre o vive e o sobrevive, desperta a curiosidade no espectador sobre a realidade do seu passado que, não sendo importante para a compreensão do seu "agora", não deixa de ser o factor principal que os levou ao referido momento.
Sem outros elos que não o familiar que os unam, este aniversário marca, de certa forma, a independência de "José" de qualquer responsabilidade familiar a que poderia - até então - estar vinculado. Serão então esses laços afectivos de fraternidade que os continuarão a obrigar a cruzar caminho ou, por sua vez, a compreensão de uma difícil realidade passada que o fará assumir os sacrifícios que o seu irmão mais velho terá efectuado para o manter o mais são e afastado possível de um rumo mais marginal que o próprio escolheu? Será esta realidade fraterna e a compreensão de que mais nada têm no mundo que não eles próprios, o elemento mais importante de um amor e amizade que os salvará desse esperado descarrilar?
Ainda que seja um enigmático José Cordeiro o homónimo protagonista desta história, acaba por ser a presença mais emocional de Nuno Nolasco aquela que cativa a atenção do espectador mais não fosse pelo seu relato semi-aberto de um passado que reconhece ter sido transformador. Nesta perspectiva, e com o recurso a uma direcção de fotografia de André Amaral que emerge o espectador numa constante sensação de fria apatia onde algo mais está para lá das suas parcas palavras conferindo a toda esta obra uma ambiência distante e pouco neutra, José é - poderá ser - um coming of age pouco tradicional onde a inocência não se perdeu neste exacto momento em que chega a tal "maior idade", mas onde, por sua vez, se pode finalmente confessar que esta se manteve no seu subconsciente como uma realidade ida que eternamente se busca sem nunca se conseguir alcançar.
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8 / 10
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quarta-feira, 4 de julho de 2018

The Jester (2016)

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The Jester de Colin Krawchuk (EUA) revela aquilo que pode ser o pior pesadelo de Halloween. Esta curta-metragem apresenta um homem (o próprio realizador Colin Krawchuk) que acaba de sair do turno da noite. De caminho para casa encontra um Bobo - The Jester - (Michael Scheffield) que o aborda com os seus truques de magia... Será doce... será partida?!
Nada como um bom conto de Halloween para conseguir retratar uma história de terror no seu mais puro ambiente. Aqui os dois actores em conjunto com Andre Eleam e Grant Palmer recorrer a uma tradicional figura da corte - o Bobo - normalmente associado à boa disposição e ligeireza de ambiente para desvirtualizar a sua alma transformando-o no mais perigoso dos vilões. Halloween... a noite em que todos os espíritos saem à rua disfarçados misturando-se, dessa forma, com os mortais que os celebram. Quem será quem? A pergunta impõe-se quando, pelo meio de ruas desertas e de estranhos que surgem ao virar de cada esquina, surge uma enigmática figura... aparentemente perdido mas confiante, cheio de certezas quanto à sua missão da noite e que apenas poderá repetir um ano depois. Seja à caça da próxima vítima ou com o mero intuito de atormentar as almas desprotegidas e inocentes, o nosso "Jester" é aqui um perigoso predador revestido com o rosto de um igualmente perturbador psicopata que, no entanto, primeiro conquista com a graça das suas graças.
A vítima é, por sua vez, o inesperado transeunte aqui refém de uma boa vontade que decide praticar ignorando o que a noite esconde. Com espíritos à solta e preso num jogo do gato e do rato do qual será incapaz de escapar, o pacato homem - encarnado pelo próprio realizador - primeiro cede aos misteriosos e enigmáticos encantos de uma figura que desconhece, depois tentando-lhe fugir e, finalmente, compreendendo que é um mero peão de uma história que não consegue compreender... caindo na armadilha e dela sendo uma mera peça de um espectáculo de magia macabro efectuado por alguém que se assume como um especialista nesta "caça" de Halloween.
Tão enigmática quanto o seu protagonista, esta curta-metragem que deixa todas as linhas condutoras em aberto não explicando nem origens nem destinos das suas personagens - se bem que neste último caso faz perceber que o mesmo pode não ser tão divertido como o tradicional Halloween dos doces e guloseimas -, mantendo sempre um ambiente que oscila entre o sinistro e o terror (pelo menos psicológico), conferindo ao seu criador (realizador, argumentista, protagonista e também produtor) Colin Krawchuk a possibilidade de levar esta história mais além e apresentar novas e igualmente perturbadoras incursões na noite deste "Jester" que faz muito pouco rir mas sim amedrontar as suas vítimas que primeiro cativou pela empatia que a sua bizarra personagem pode fazer transparecer mas que cedo se revela como um enigma mortal, despoletando assim todo uma potencial "saga" criminosa onde o real e o sobrenatural se cruzam.
Pode demorar um ano para a próxima caçada mas... "the Jester will be back".
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7 / 10
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sábado, 9 de junho de 2018

Jurassic World: Fallen Kingdom (2018)

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Mundo Jurássico: Reino Caído de Juan Antonio Bayona (EUA/Espanha) é o quinto título da saga Jurassic Park iniciada em 1993 por Steven Spielberg (aqui em funções de produtor executivo), e que regressa ao mundo dos dinossauros três anos depois da última aventura.
Quando o vulcão adormecido da ilha em que os dinossauros se encontram volta à actividade, Claire (Bryce Dallas Howard) e Owen (Chris Pratt) são contactados para resgatar algumas das espécies e enviá-las para uma ilha onde poderão sobreviver, num ambiente sem jaulas, de uma segunda extinção. Mas, por detrás de todas estas boas intenções, poderão estar escondidos objectivos que lancem o mundo num perigo iminente?
Depois do título inicial (1993), a saga Jurassic Park manteve - injusto seria dizer o contrário - todo o seu dinamismo e magia ao conferir ao espectador o poder de imaginar um mundo onde os dinossauros vivessem realmente. No entanto, para lá desse mesmo título que lançou a saga, é também justo dizer que os títulos que lhe seguiram - The Lost World: Jurassic Park (1997) e Jurassic Park III (2001) - mantiveram-se um pouco alheios ao factor surpresa que a obra de Steven Spielberg conseguiu criar. Foi então que a obra Jurassic World (2015), de Colin Trevorrow ressuscitou o género e lançou todo um conjunto de fãs numa alucinação colectiva por poder imaginar que um dos mais sucessos da década de '90 estava finalmente por estrear quatorze anos depois da sua última entrega. Se esta última conseguiu ser uma interessante incursão no género recuperando muita dessa energia, dessa mística ou até mesmo desse universo, a expectativa para com Jurassic World: Fallen Kingdom não poderia ser maior. Assim, três anos depois encontramo-nos novamente na Ilha Nublar, agora um paraíso desertificado pelos (constantes) erros do passado com a agravante de ser ameaçado pela erupção de um vulcão que poderá causar um novo extermínio. Tudo certo até aqui?! Mais ou menos...
Jurassic World: Fallen Kingdom funciona muito no seu primeiro momento como um revitalizar da noção de salvar as espécies ameaçadas - de novo - e do seu potencial contributo para a aprendizagem das gerações futuras sobre um passado extinto e recuperado... no fundo, uma segunda oportunidade para todos - espécies animais e Humanidade -, de conviver (cada um no seu espaço próprio e livre de jaulas.... quase política esta afirmação) e co-existir podendo, dessa forma, garantir um local de habitação para todos. Daqui, e do reino de todas as boas vontades que parecem esconder algo mais, o argumento de Colin Trevorrow e Derek Connolly parte para a viagem "à ilha", onde encontramos todo um mundo selvagem no qual precisam de encontrar as poucas espécies que se propõem a salvar e levar para o tal "santuário". Com alguns momentos de boa acção e no qual o espectador fica a conhecer a realidade por detrás das "boas intenções", Jurassic World: Fallen Kingdom confere aquele que é possivelmente o segmento mais intenso de toda esta história com a violenta erupção do vulcão e a corrida pela sobrevivência das espécies que, no entanto, encontram o seu fim, e a real compreensão de que se o Homem não é bom para si próprio... como poderá sê-lo para as espécies diferentes? - novamente... a eterna mensagem política que brota a todo o instante.
Daqui, rumo ao último momento desta história - depois de um muito breve na Ilha Nublar onde, esperava o espectador pelos inúmeros trailers que visionou -, Jurassic World: Fallen Kingdom centra-se numa aventura na cidade (digamos assim), onde os dinossauros encontram na gótica mansão Lockwood - personagem interpretada por James Cromwell - o refúgio último antes de embarcarem para uma viagem por caminhos inesperados... ou assim pensa o espectador. Sem revelar grandes detalhes sobre o final algo (in)esperado, esta quinta entrega ao universo Jurassic Park consegue sim criar uma nova dinâmica ao fazer viajar a dinâmica de selva ou ambiente florestal para um espaço mais urbano, habitacional e profundamente medieval onde ao contrário do tradicional em que o Homem invade o espaço natural do dinossauro, é este que ocupa o dito "mundo dos homens", transformando-o (não tão) lentamente à sua medida e demonstrando que agora sim... chegaram para dominar... mesmo que esse domínio chegue pela possibilidade do imprevisto.
Juan Atonio Bayona consegue, uma vez mais, trazer ao grande ecrã uma história de aventura e acção que faz jus àquilo que se propõe. Na realidade nenhum espectador sai mal impressionado com esta obra independentemente de poder gostar de um ambiente mais natural, selvagem e onde a camuflagem dos gigantescos dinossauros possa sair a ganhar em relação a um espaço que - bem ou mal - não joga a seu favor... afinal, como se poderá esconder um dinossauro dentro de uma mansão?! No entanto, e mesmo com estas (im)possibilidades, Jurassic World: Fallen Kingdom é um filme dinâmico e fiel ao género, carregado de muita adrenalina e alguma tensão mas que poderia ter sido muito maior se mais centrado na ilha Nublar - nunca ficaremos fartos dela - e, após alguma tensão aí criada, levar toda a história para uma aventura palaciana que sim... tem tanto de original como de inovador funcionando mesmo como veículo para aquele que é (agora) esperado como o novo título da obra... um novo mundo... onde os dinossauros povoam as terras e o Homem mais não é do que um fugitivo naquele reino que outrora dominara.
Assim, Jurassic World: Fallen Kingdom é um daqueles títulos intermédios, que abre a perspectiva para o espectador sobre a potencialidade de todo um novo conjunto de obras que se lhe vão seguir não deixando esta da sua abordagem ecológica e ambiental - afinal, o mundo ou parte dele estão de facto a ruir e dar os seus sinais à Humanidade -, sobre as alterações aos hábitos comportamentais e de estilo de vida necessários para uma pacífica convivência num mundo em constante transformação... e nem sempre pelos melhores motivos e finalmente... que esse bicho Homem é tão ou mais perigoso do que um dinossauro... caso estes existissem. Já dizia Ripley no saudoso Aliens (1986), de James Cameron... "ao menos eles não se lixam por uma percentagem maior"...
Chris Pratt e Bryce Dallas Howard perdem em Jurassic World: Fallen Kingdom um pouco daquela magia que pareciam irradiar em Jurassic World. Ainda que o espectador sinta que existe algum "clima" entre as suas personagens, foi o idealismo de ambos que os separou entre as duas entregas deixando cada um com o seu ideal de vida feliz... se para um é viver isolado no meio do campo, para o outro é a ideia de salvar o mundo que o move e deixa feliz em todas as suas conquistas. No entanto, aquilo que poderiam ter sido um para o outro e, de certa forma, para a dinâmica das suas personagens nesta obra soa mais a forçado do que aquilo que emanavam três anos antes.
No final, e para lá de uma intensa visita a Nublar e de um breve encontro entre os dois reis dos animais - leão e T-Rex -, Jurassic World: Fallen Kingdom é fiel ao que se propõe... uma história cujo objectivo principal é o óbvio entretenimento do seu público alvo e claro, a igualmente óbvia "obra de passagem" - quase como um ritual - que anuncia que as próximas entregas (venham lá elas quando vierem) serão centradas no mundo como o conhecemos ou, pelo menos, naquilo que ainda não foi alterado pelo passo gigante e destruidor de animais com força bruta e completamente descontrolados num mundo que... não é o seu. Ou será que ainda é?
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"Ian Malcolm: These creatures were here before us. And if we're not careful... they're going to be here after. Life cannot be contained. Life breaks free. Life... finds a way."
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7 / 10
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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Já Passou (2016)

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Já Passou de Sebastião Salgado e Pedro Patrocínio é uma curta-metragem portuguesa em competição oficial nesta vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português que termina no próximo Domingo, dia 3, em Coimbra.
Num tempo incerto, um homem (Gustavo Sumpta) perdido no meio das montanhas. O isolamento parece ditar a sua existência. Uma crianças doente em sua casa. O seu único sustento parece advir daquelas poucas ovelhas que mantêm junto à casa mas, uma tempestade parece ameaçar toda a sua existência.
O argumento assinado pelo também realizador Sebastião Salgado parece querer levar o espectador para um tempo ou para uma época distantes das realidades que hoje conhecemos. Não só o isolamento do espaço em que tudo acontece como também as condições em que pai e filho vivem, assemelham-se a um tempo perdido e que hoje só poderemos encontrar nos livros de História sobre os séculos passados. Nada ao seu (e nosso) redor indica temporalmente onde se (nos) encontram e o próprio meio de subsistência desta família de dois membros indica que o passado e o presente podem estar fortemente diluídos numa única realidade. Quem são, como sobrevivem e mesmo como se poderão desembaraçar das mais vulgares actividades torna-se uma questão que povoa a mente do espectador desde os primeiros momentos em que vemos aquele homem - que se registe uma magnífica interpretação de Gustavo Sumpta como um homem marcado pelo tempo e pelo espaço em que vive - a desbravar no rio um nevoeiro que o impede de prosseguir muito para lá do pouco e escasso espaço que, muito condicionadamente, domina.
Mas são as condições climatéricas que, da mesma forma que o condicionam a um espaço, o impelem a prosseguir - mediante a catástrofe - a tentar o (des)conhecido e responder a um pedido de socorro que o próprio faz. São, no entanto, as adversidades do espaço e do meio que o travam e que o tentam insistentemente lançar para o mesmo espaço de onde veio mas, mediante o pedido de auxílio que espera chegar a alguém, considera silenciosamente impossível desistir de chegar um pouco mais além. Assim, e numa história que não só foca o lado selvagem de uma vida que o espectador desconhece ser voluntária ou não, Já Passou é, no final, uma surpreendente história de sobrevivência que espanta o espectador pelo seu inesperado final colocando-o (ao protagonista bem como ao próprio espectador) num invulgar volte face em relação ao espaço temporal em que se encontra assim como sobre as (in)esperadas dificuldades de uma vida que poderá (ou não) ser  tomada em consciência mas que as adversidades colocaram à prova remetendo-(n)os para a última prova  - e desafio -  sobre a verdadeira dimensão da vontade de sobreviver (face ao meio e à catástrofe), não esquecendo que para lá de todo o meio natural existe um mundo que poderá (ou não) ser tão ou mais cruel do que aquele que (in)voluntariamente já se conhece.
À semelhança do que já havia sido aqui registado com a curta-metragem Cinzas e Brasas (2015), de Miguel Mozos, Gustavo Sumpta domina todos os instantes e momentos de Já Passou não só pela sua intensa interpretação mas também pela forma como consegue controlar todo o espaço ao seu redor. Por muito que se tente - e ainda que se consiga - registar momentos de todo um ambiente natural ao seu redor (marcamos o nevoeiro, o rio, as árvores, a sua humilde e quase em ruínas casa e mesmo aquele que poderá ser o seu meio de subsistência), o olhar do espectador não se desvia nem por um momento da sua personagem/interpretação fazendo dela o centro fulcral de toda uma história em que ele é assumidamente o elo de transformação de comportamento - do espectador - face àquilo que os seus movimentos e acções possam (ou não) desvendar desta história.
Brilhante a direcção de fotografia de Pedro Patrocínio que isola o espectador naquela pequena baía e vale e a direcção artística de Nuno Esteves e Francisco Prates que o coloca num tempo e espaço histórico incerto, Já Passou é seguramente um dos filmes surpresa desta edição do Caminhos do Cinema Português e um dos filmes que estará certamente bem representado no palmarés final.
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9 / 10
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O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam (2016)

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O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam de João Cristóvão Leitão é uma curta-metragem portuguesa experimental e uma das que se encontram presentes na selecção oficial da edição deste ano dos Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro.
Partindo do conto homónimo de Jorge Luís Borges, esta curta-metragem é uma história que se desenvolve em três momentos contribuindo, cada um deles, para o desenrolar de uma única história comum às suas duas personagens.
Com a noção de labirinto onde se perdem Minotauro (Miguel Nunes) e Ícaro (Filipa Matta) sempre presente, O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam é assim uma reflexão o momento em que ambos cruzam diferentes níveis de um mesmo espaço podendo, num seu futuro, cruzarem os seus caminhos passando assim a evoluir com um intuito próximo... e potencialmente comum.
O "Minotauro" assume-se como o fruto de um amor ilegítimo e, como tal, um monstro por natureza expondo à realidade - dos demais - os seus defeitos e deformações não como uma condição mas sim como o seu estado de existência normalizado - para si - percorrendo o tal labirinto como um ser diferente. Por sua vez, "Ícaro" é filho da perfeição que paga a sua "dívida" não por um crime seu mas pelo de seu pai que se julgou um deus ofendendo o Olimpo... Pelo crime foi, tal como o "Minotauro" condenado a uma existência errante pelo labirinto onde todos se perdem e ninguém encontra a saída.
Esta existência errante é acompanhada pelo espectador à medida que ambos observam o seu ambiente não natural tentando dele escapar e poder viver para lá das muralhas que a deformação (por um lado) e o orgulho (pelo outro) os condenaram. A imagem, sempre dividida em três segmentos, é como uma divisão temporal - a eterna prisão - que os coloca ao mesmo tempo a viver espaços e locais distintos sem nunca cruzarem os seus caminhos. Se um poderá ser o escape do outro então este... nunca irá chegar. Assim, numa constante observação do espaço no qual o tempo passa de forma diferente do que fora do labirinto, os caminhos não percorridos - e que se assumem como personagens importantes mais invisíveis - espreitam e observam a sua prisão cada vez mais cerrada naquele espaço que tanto tem de idílico como de prisão aberta sem grades ou correntes. Imóveis, face ao tempo bem como face à sua incerteza, tanto "Ícaro" como "Minotauro" são eternos prisioneiros da sua própria inactividade.
Sempre com uma construção que obriga o espectador a aplicar a visão como o seu sentido primordial mas também a audição como um importante elemento da captação de alguns elementos fundamentais, O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam transforma a escolha das suas personagens naquela que o espectador deve tomar. Ou seja, ao observar os dois momentos distintos em que circulam as personagens, o espectador é também obrigado a optar pelo espaço de uma delas seguindo-a e tentando compreender quais as suas opções - se é que algumas - e a potencialidade de um encontro entre ambos num espaço que sendo comum os impede de percorrerem o mesmo caminho.
Mais filosófico do que dramático e assumidamente existencialista, O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam é uma interessante curta experimental que precisa mais do que um visionamento para que as suas escolhas - e das suas personagens - sejam compreendidas e para que todas as palavras proferidas enquanto prisioneiros da mais exuberante prisão sejam retidas e captadas enquanto rendição a um espaço que faz desesperar controladamente até à total perda de sentidos.
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6 / 10
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terça-feira, 31 de outubro de 2017

Jigsaw (2017)

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Jigsaw: O Legado de Saw de Michael Spierig e Peter Spierig é uma longa-metragem norte-americana e a mais recente entrega da saga Saw, de James Wan iniciada em 2004 e cujo título precedente fora Saw 3D: The Final Chapter (2010), de Kevin Greutert.
Dez anos depois da morte de John "Jigsaw" Kramer (Tobin Bell), vários são os corpos que começam a aparecer pela cidade com a marca do assassino e, à medida que a investigação se acentua, todas as pistas parecem indicar que Jigsaw ainda está vivo.
Pete Goldfinger e Josh Stolberg escrevem o argumento deste Jigsaw recuperando, sete anos depois, alguma da tensão sentida com as histórias do famoso assassino cinematográfico com desfechos normalmente surpreendentes e inesperados. Aqui, tudo começa como uma perseguição policial de um vulgar criminoso que, para o espectador, será o "gatilho" da o início de mais uma história repleta de reviravoltas e presunção de uma culpabilidade anunciada que, no entanto, pode nem sempre estar direccionada para o verdadeiro responsável de mais uma (esta) onda de bizarros assassinatos.
Invariavelmente semelhante aos títulos anteriores, com a devida excepção ao título original que começou toda esta saga e que se revelou uma obra referência no género pela sua originalidade e surpresa, este Jigsaw apresenta a fórmula já conhecida onde o labirinto de terror apresentado ao espectador é enriquecido com um conjunto de momentos já conhecidos do espectador onde o agressor é transformado numa improvável vítima às mãos de "Jigsaw" mas, ao mesmo tempo, reside nos seus actos a compreensão de uma culpa não assumida. "Jigsaw" está de volta e mais impiedoso que nunca.
No entanto, este argumento deixa no espectador que segue esta saga, uma dúvida constante. Se "Jigsaw" morreu dez anos antes, quem poderá estar por detrás destes assassinatos? Um fã?!... Terá ele realmente falecido?!... Estará novamente a autoridade por detrás deste revivalismo da sua obra?!... Numa rota pela penitência das suas "vítimas", Jigsaw cruza memórias passadas da saga, um ritual de bárbara tortura e, no fundo, firma este capítulo como a transição entre as obras passadas e todo um futuro incerto para o assassino "Jigsaw" ou a sua personificação por entre os seus (percebemos) inúmeros discípulos.
Assim, incerto que permanece o espectador até ao último instante onde confirma as suas certezas ou esclarece as suas dúvidas, Jigsaw é, no fundo, aquele capítulo intermédio que apresenta as personagens futuras. Uma história que não fazendo transparecer grande novidade para o espectador consegue, no entanto, cativá-lo pela essência mórbida que cruza todas estas histórias e manter-se como uma entrega fiel ao género - ainda que algo repetitiva -, potencialmente mais elaborada nos cenários recriados mas essencialmente uma repetição de uma fórmula que precisa urgentemente renovar-se para que não se mantenha num registo "mais do mesmo" ao final de tantos anos (por muito que a mesma venda junto do público...).
Alheio a qualquer registo que o marque pela diferença cumprindo, no entanto, os requisitos mínimos para se assumir como um fiel da saga... sendo um filme com algum suspense e surpresa mas, ainda assim... pouco mais vai para lá do seu imediato resultado pós visionamento na sala de cinema. Jigsaw - ou um informal Saw VIII - continua a referida temática da punição pela ausência de compreensão e responsabilização da culpa ou, mais concretamente, a punição daqueles que sabem ter cometido um crime que provocou a desgraça de outros... e continuam a viver como isentos de uma responsabilidade moral que os vincula ao crime.
"Jigsaw" não perdoa... mas Jigsaw precisa rapidamente de se inovar.
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6 / 10
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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Jigging (2016)

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Jigging de Ramón de Los Santos é uma curta-metragem portuguesa de ficção nomeada aos prémios anuais do Shortcutz Viseu.
Zé (José Carlos Garcia) prepara-se para a pesca numa lagoa. Aí encontra um vendedor (Tiago Viegas) que, numa roulotte, lhe aluga um pequeno barco. É o estranho comportamento deste vendedor que suscita uma mórbida curiosidade em Zé que começa a suspeitar das suas intenções e temer pela sua segurança... Está dado início a um jovem psicológico de gato e do rato...
É com base nesta premissa que a curta-metragem de Ramón de Los Santos ganha forma, transformando aquele que seria um perfeito dia de Verão numa sinistra viagem pelo comportamento humano estabelecido através da improvável relação entre dois estranhos. Inicialmente, o espectador sente um certo - o seu - desconforto psicológico pela forma como todo aquele cenário natural se apresenta e onde o calor do dia se faz sentir como que um terceiro elemento presente mas não visível. Esta segunda personagem toma conta do destino próximo de "Zé", um homem aparentemente pacato que apenas pretende passar algumas horas tranquilo dentro do seu barco na esperança de poder pescar algo, conferindo-lhe de imediato uma sensação incomodativa como que todos os seus movimentos estivessem confinados às vontades da temperatura abrasadora. No entanto, tudo estaria para mudar muito rapidamente...
É quando se apresenta a então terceira personagem (segunda fisicamente) na pessoa de um sinistro vendedor - interpretado por Tiago Viegas - que o espectador se deixa intrigar pela presença deste homem que, sem palavras e com um sorriso macabro, comanda pela sua presença, os comportamentos cada vez mais condicionados de "Zé" para quem tudo tem um estranho significado e intenção. São poucas as pistas que possam fazer adivinhar as intenções deste enigmático vendedor mas, no entanto, para o espectador mais atento as pistas são lançadas logo naquela solitária roulotte onde dezenas de fotografias se perfilam mais ou menos de forma anónima. Confessado anonimamente um jogo de gato e do rato que é personificado pelos comportamentos e interacções entre os dois homens, o espectador apenas pode adivinhar que neste improvável purgatório o barqueiro espera por mais do que apenas transportar alguém para uma qualquer outra margem da lagoa... ou será que esta "margem" se manifesta em terra?!
A perpetuação de um comportamento e de um dever que apenas se clarificam para o espectador já bem perto dos instantes finais - com a agradável surpresa de um Vítor Norte numa participação especial - fazem de Jigging aquela história que condena as suas personagens a um martírio não opcional e a uma condição cujos propósitos são, de certa forma, desconhecidos para o espectador que irá tirar as suas ilações à medida que as (suas) pistas se forem revelando. Num purgatório a céu aberto que deixam o espectador na incerteza de se encontrar neste ou num qualquer outro universo paralelo, a força maior de Jigging reside não tanto no fim último mas sim nas pistas, nas interacções e principalmente naquela personagem invisível como é o "calor" que desde o primeiro segundo tudo transforma em intolerável, incomodativo e assumidamente martirizante.
O terror, contrariamente ao que tantas vezes se defende, não chega pela materialização de monstros improváveis mas sim - tantas vezes - pela densa confirmação de que os elementos naturais podem (e conseguem) transformar-se em verdadeiros demónios capazes de retirar a força e a vitalidade do Homem assumindo-se como pequenos elementos que o incomodam e finalmente por forças transformadoras que o colhem.
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6 / 10
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domingo, 14 de maio de 2017

Jacinta (2017)

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Jacinta de Jorge Paixão da Costa é uma longa-metragem portuguesa já estreada em televisão enquanto mini-série de dois episódios que relata os acontecimentos que envolveram os três pastorinhos Jacinta (Matilde Serrão), Lúcia (Renata Belo) e Francisco (Henrique Mello) aquando das aparições de Fátima em 1917.
No Portugal rural da segunda década do século XX, três crianças afirmam ter visto a Nossa Senhora no campo vendo-se automaticamente envolvidas em suspeitas não só pela população local como também por parte das autoridades receosas de uma sublevação num país afectado pela miséria e pela Primeira Guerra Mundial.
Manuel Arouca e Raquel Palermo pegam nas origens do fenómeno do culto à Nossa Senhora, em Fátima, para escreverem o argumento deste Jacinta - longa-metragem e mini-série - baseado na vida de uma dos três pastorinhos. "Jacinta" - aqui interpretada pela jovem Matilde Serrão -, que não sobreviveria muito anos à primeira aparição era, tal como toda a população da qual vivia perto, uma criança de campo, afectada pela miséria extrema que o interior do país sentia durante toda a Primeira República, com as perdas humanas da Primeira Guerra Mundial mas, sobretudo, por uma invulgar rebeldia face aos costumes a que todos eram condenados nesta sociedade onde a Igreja persistia a manter uma quase persecutória ordem.
No entanto, e ainda que os destinos das três crianças sejam aqui os mais explorados - em especial os de "Jacinta" uma vez que foi uma das duas crianças que faleceu quase de imediato, aquilo que esta longa-metragem mais insiste em fazer notar é a instabilidade social e política dos tempos pré-ditadura de Salazar. Portugal vivia para lá de uma crise de confiança explorada por uma Igreja Católica - a única organização que se mantinha de pedra e cal ao longo dos tempos - que se mantinha fiel aos seus princípios de outros tempos, por uma total e completa crise social não só alastrada pela presença do país numa guerra internacional em que se tinha envolvido não só pela segurança das suas colónias ultramarinas como também pela vontade de um reconhecimento internacional que tardava em chegar desde a queda da Monarquia, como também pela instabilidade política interna que se fazia sentir pelos sucessivos governos nacionais que não resistiam a um país ainda social e economicamente pauperizado pelas mesmas. Tendo estes factores em mente, pergunta-se o espectador como poderiam três crianças desafiar um regime que certamente ou quereria aproveitar-se das suas histórias ou afastá-los dos olhares da população desacreditando as mesmas... Num momento histórico em que qualquer rumor soa a desafio de autoridade, os três jovens que mantinham a sua história sobre um fenómenos religioso numa sociedade que insistia em distanciar-se da Igreja, foram imediatamente vistos como potenciais inimigos de um Estado que se tentava afirmar.
No final de Jacinta é esta contextualização histórica que domina os momentos mas interessantes e potencialmente carismáticos de uma longa-metragem que se perde pela falta de credibilidade da sucessão de imagens mantendo-se quase sempre como um ensaio já conhecido de uma história que não foi - até à data - explorada com rigor e empenho mantendo-se sempre pela vertente mais religiosa do conto e pouco pela condição social em que o país se encontrava. No fundo, esta história acaba por se tornar como numa inesperada viagem à Lua... contam-nos que já lá estiveram uma vez... mas desde então nunca ninguém ousou lá regressar como qualidade. Se a dinamização artística de Jacinta até consegue convencer o espectador pela sua notória qualidade, é também real que para lá do guarda-roupa, direcção artística e mesmo caracterização, Jacinta torna-se num daqueles registos cinematográficos - que de cinema pouco tem - que todos acabamos por adorar odiar... Não permitindo uma devida exploração das suas personagens - pouco conhecemos dos referidos três pastorinhos ou mesmo das suas famílias para lá de que todos eram "gente do campo" -, Jacinta perde-se numa tentativa de viagem espiritual que, também ela, desmotiva pela pouca complexidade que lhe é atribuída... Se por um lado o espectador até demonstra curiosidade e uma certa expectativa nas revelações que uma jovem criança pode contar sobre o seu "encontro" com uma entidade divina, não deixa também de ser verdade que o mesmo se questiona sobre a compreensão que uma tão jovem criança poderia atribuir ao referido encontro e até que ponto o saberia traduzir face ao momento social e político que o país sentia.
Ainda que Jacinta tenha no seu elenco um conjunto de notáveis actores entre os quais se destacam Dalila Carmo, Rita Salema, Pedro Lamares, Paula Lobo Antunes, Graciano Dias, Almeno Gonçalves ou FIlipe Vargas, os mesmo mantêm-se aqui como meros "acessórios" numa história em que uma simpática mas pouco preparada Matilde Serrão tenta dominar e criar empatia com um público que cedo se cansa de tentar interpretar os misteriosos desígnios desta história ou, pelo menos, aqueles que o realizador lhe tenta incutir. Se as aparições existem... porque motivo nunca são melhores exploradas - acredite-se nelas ou não! - ou, se a tentativa é explorar a situação social do país, porque não se lhe conferir mais ímpeto dramático... ou ainda, se a vontade é explorar a vida e a acção dos três jovens, porque motivo não se centra a história mais no seu contributo (não voluntário) e, de entre eles, porque motivo se concentra toda uma longa-metragem no comportamento apenas de uma (ainda que a única que supostamente escutou a mensagem de Nossa Senhora!)?
Assim, se Jacinta se torna exemplar na concepção artística do espaço e do tempo - quão atrasado era de facto Portugal fora da grande cidade de Lisboa - mantendo uma qualidade técnica evidente, é também certo que esta longa-metragem (ou mini-série) se mantém francamente distante daquilo que se poderia considerar uma marcante longa-metragem e ainda mais do esperado filme de época que se propõe ser.
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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Jesse Stone: Night Passage (2006)

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Jesse Stone: Destino Paraíso de Robert Harmon é um telefilme norte-americano e um dos vários títulos aos quais Tom Selleck dá corpo à personagem homónima.
Depois de se deslocar para a pacata cidade de Paradise, Stone (Selleck) depara com um primeiro caso de violência doméstica que o opõe a Joe Genest (Stephen Baldwin). À medida que os dramáticos acontecimentos na cidade se desenrolam evidenciando uma promiscuidade do poder local em negócios da mafia, Stone terá de se afirmar como o novo rosto da lei, numa nova vida e ainda lidar com o desaparecimento do seu mais fiel amigo.
Num mundo em que é sempre agradável observar o regresso de velhas lendas do cinema dos anos 80 ao ecrã, Jesse Stone: Night Passage - o primeiro título que vi desta saga "Jesse Stone" - prometia ser o tal (tele)filme simpático que fazia aumentar a vontade de consumir todos os demais títulos de uma só vez. Se pensarmos que o tão esperado Selleck iria contracenar com Viola Davis - hoje um dos rostos mais firmes de Hollywood -, aquilo que se poderia esperar é que os pouco mais de oitenta minutos de duração desta peça se desdobrassem em muitos mais. No entanto, a triste realidade revelou algo bem diferente do esperado.
Jesse Stone: Night Passage começa com a promessa de uma história que onde se mesclam as esperanças de um conto de redenção como também de um sentido relato sobre os nvoos caminhos de um homem que esteve (está?) perdido numa aparente espiral de auto-destruição para muito rapidamente se transformar numa daquelas histórias mal construídas e mal interpretadas onde todos os planos e caminhos abertos para o transformar num "filme" se revelam, afinal, como uma dose pouco sustentada de lugares comuns e frases feitas que devidamente coladas - com muito pouca cola - se transformam num projecto de longa-metragem frágil, notoriamente com muitos "buracos" e pouco convincente.
Tom Selleck, longe do brilho mediático que os anos 80 lhe trouxeram, é aqui um "Jesse Stone" desgastado numa improvável mas aparentemente certeira comparação entre homem e actor, que revelam ao espectador alguém que transmite uma preocupação em se manter mais "à tona" do que propriamente em construir uma personagem com a qual o espectador crie uma empatia. Percebemos a sua tentativa em criar uma figura amargurada por um passado agora interrompido e que se vê obrigado a construir uma nova vida mas, ao mesmo tempo, não conseguimos com ele criar aquela identificação necessária para o seguirmos com credibilidade. Ao seu lado giram um conjunto de actores mais ou menos conhecidos como Stephen Baldwin naquele que é mais um registo (des)inspirado do "actor", um Saul Rubinek que dá corpo a um político/banqueiro corrupto (qual a probabilidade?!) e uma Viola Davis que simplesmente... não deveria estar aqui.
A dinâmica entre personagens - e actores - é do mais básico e elementar possível ao ponto de poder afirmar que qualquer um poderia ter feito isto... mesmo aqueles que sem qualquer tipo de experiência pudessem sentir a pressão de "protagonizar um filme", fruto de um argumento pouco inspirado, com enormes falhas narrativas que "colam" todo um conjunto de segmentos desproporcionais entre si e claro, uma pobre edição que interrompe todos os referidos segmentos como se eles fossem uma conclusão de uma história que esteve a ser contada... noutras paragens.
Com a clara compreensão que o espectador está aqui perante uma história relativamente banal e que serve de ligação entre um passado e todos os títulos futuros que viriam a ser filmados, Jesse Stone: Night Passage consegue apenas desenvolver uma personagem com a qual poderia ter sido filmada toda a história e - eventualmente - com maiores propósitos dramáticos do que aqueles aqui conseguidos... o cão "Boomer". Nenhum de nós quer realmente saber da vítima de violência doméstica, do polícia que se afastou porque sabia de toda a corrupção ou tão pouco do político pouco inspirado e com problemas matrimoniais... Todos eles são perfeitamente irrelevantes e até desnecessários. Aqui a única história que poderia ser contada e que, na prática, o espectador perde tempo a observar e comentar o "como será depois?" é com "Boomer"... o fiel amigo de "Jesse Stone" que se aproxima do seu momento final. Ele sim... a verdadeira vítima desta pobre e mal contada história.
No final o que resta de Jesse Stone: Night Passage? Nada. Não existe aqui nenhum elemento que prenda o espectador a esta história tão sem sabor ou convicção. Nada das suas personagens consegue ser dinâmico ou até bem construído - não esquecer as próprias matadoras de serviço de uma cidade pequena que, nem elas, conseguem dar cor ao pecado e ao fruto proibido perdendo-se as próprias em momentos banais e já tentados noutros obras igualmente mal conseguidas -, nem mesmo as supostas vítimas que cedo se "revoltam" contra aquele que foi o único numa cidade onde todos se conhecem, a preocupar-se com elas... remetendo toda esta história para um daqueles filmes de fim-de-semana que todos vemos mas temos vergonha de confessar e esperar que Viola Davis nunca mais se meta num "trabalho" destes que... em nada irá contribuir para todo o seu enorme potencial.
Vê-lo... sorrir no final... e mantê-lo à distância... só assim podermos viver bem connosco e com esta experiência medonha que é Jesse Stone: Night Passage.
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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Jackie (2016)

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Jackie de Pablo Larraín é uma longa-metragem em co-produção norte-americana, chilena e francesa centrado na figura de Jackie Kennedy.
Nos dias que se seguiram ao assassinato do Presidente John Kennedy, Jackie (Natalie Portman) é uma mulher que se debate com o desgosto e o luto. Nestes dias intensos em que se sente perdida, Jackie relembra em tom de entrevista controlada com um jornalista (Billy Crudup), a forma como teve de consolar os seus filhos, reencontrar o seu próprio rumo e sobretudo debater-se com o papel e o legado do seu marido e Presidente na História contemporânea dos Estados Unidos.
Um dos três grandes títulos apresentados pelo realizador chileno - juntamente com El Club e Neruda - Jackie é um breve mas determinante olhar sobre uma personagem mítica e que gera um intenso fascínio não só na sua época como décadas depois onde mantém o estatuto de uma das Primeiras Damas norte-americanas com maior impacto na sociedade. No fundo, Jackie Kennedy é, ainda hoje, como que uma referência própria a seguir... aquela Primeira Dama que deixou nome - e estatuto - ao "trabalho" que exerce a mulher dos Presidente dos Estados Unidos.
Uma impulsionadora do legado histórico não só da Casa Branca como do património cultural até então tantas vezes desprezado pela mesma, "Jackie" é aqui revista não só como a mulher do Presidente mas também alguém com o profundo desejo de recuperar a história dentro da História do edifício que habitava conferindo-lhe, e aos seus pertences, a dignidade perdida ao longo das décadas. Centrada agora nas suas memórias e tentando desesperadamente encontrar o seu lugar num mundo que agora vive sem marido e sem a Presidência do país, "Jackie" é então uma mulher amargurada e revoltada com o sentimento de perda, de inadaptação e afastada de uma realidade que outrora conhecera e que agora já não é parte do seu mundo.
Com breves descrições que enquadram o passado desta mulher que chegou à Casa Branca como a terceira mais nova de sempre, o argumento de Noah Oppenheim centra-se então nos momentos imediatos ao assassinato do Presidente e num misto de perda e revolta sentido pela sua mulher que lida não só com a saída daquela que era a sua casa como também na sua luta para dar à memória de "John" o funeral de Estado que ele merecia e, finalmente, num "agora" temporal onde depois do mesmo funeral, "Jackie" se sente perdida na sua fé, nas crenças e numa tentativa desesperada de se encontrar num mundo onde agora tem de se afirmar enquanto indivíduo e não como mulher de um Presidente.
Natalie Portman destaca-se de imediato neste filme - não esquecendo a óbvia mão de Larraín enquanto criador facilmente detectável se nos recordarmos de obras com as quais estabelece semelhanças nomeadamente Tony Manero (2008), No (2012) ou até mesmo do já referido El Club (2015) -, com a sua primeira grande interpretação pós Black Swan (2010) - afinal é graças a ela que queremos vê-lo de imediato - como uma mulher inicialmente vulnerável como a vemos nos segmentos em que apresenta a Casa Branca ao grande público e posteriormente com uma força, ainda que contida, mas desarmante pela (sua) afirmação como uma mulher farta de normas pré-estabelecidas que lhe foram impostas graças ao seu "trabalho" anterior. Se "Jackie" é (era) uma mulher perdida no pequeno mundo da política norte-americana onde apenas servia como referência e modelo a seguir para as mulheres, agora era ela própria uma força a ter em conta pelo seu papel determinante no reconhecimento da História, do espaço, nos acontecimentos dramáticos que marcaram a década de 60 mas que, ainda assim, se encontrava perdida num (seu) mundo ainda pouco preparado para a ver como algo mais que não a referida Primeira Dama.
E se a referida e identificável mão de Larraín criam toda uma atmosfera biográfica dramatizada que levam o espectador a uma viagem próxima da observação presente quer ausente através do olhar/pensamento da Primeira Dama, é também a primazia de uma direcção de fotografia de Stéphane Fontaine que nos transportam para esta dinâmica que se encontra, de certa forma, perdida levando-(n)os a uma viagem próxima de um espaço etéreo que (n)os aproxima da sua dor, da sua perda e principalmente da atmosfera sentimental que "Jackie" sentia enquanto mulher não anónima enquanto figura mas sendo-o enquanto indivíduo que se procura enquanto tal, ambiente este que é apimentado com a subtilmente magistral orquestração de Mica Levi - um potencial Oscar de Jackie afinal todos nos recordamos de Under the Skin (2013) - que confere esta exacta dicotomia da perda de posição versus indivíduo.
No final, e mantendo todas as dúvidas e incertezas possíveis, o espectador continuará a questionar-se sobre quem seria afinal Jacqueline "Jackie" Kennedy... Mulher de um Presidente? Alguém realmente convicta das suas responsabilidades sociais para com a preservação da História? Simplesmente uma mulher que teve de se ocupar de um "cargo" não remunerado para justificar a sua presença na Casa Branca ou, por sua vez - e recorrendo ao lugar comum -, a grande mulher por detrás de um igualmente grande homem?! Nesse mesmo final subsiste para lá dessas normais dúvidas uma aparente certeza... a de uma mulher perdida entre fama, imagem, deveres e obrigações sociais que, no entanto, luta interiormente por encontrar o seu próprio "eu"... Aquele "alguém" que a definia muito para lá das obrigações enquanto mulher da figura mais importante do Estado e que, como tal, acaba por se diluir no seu papel livre de responsabilidades e interesses próprios... Poderá (poderia) esta mulher encontrar o seu próprio espaço pessoal - teremos enquanto espectadores, de esquecer tudo o que poderíamos eventualmente conhecer a seu respeito e limitarmos o nosso conhecimento ao apresentado em Jackie -, libertando-se dessa forma de todo o aparato a que estava anteriormente associada ou continuará a ser um vulto perdido no meio de um turbilhão social?
Com uma mais que provável nomeação de Natalie Portman aos Oscars - e certamente não será a única - Jackie ficará na memória pela curiosidade que o espectador pode manter sobre esta figura mediática e mediatizada da segunda metade do século passado, pela brilhante interpretação de Portman e pela excelência na composição técnica não sendo, no entanto, aquele filme memorável para a posteridade... ao contrário de Jacqueline Kennedy... Onassis.
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domingo, 20 de novembro de 2016

Já Vais? (2016)

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Já Vais? de Júlio Hey é uma curta-metragem portuguesa presente na Selecção Oficial - Em Competição na XXIIª edição do Caminhos do Cinema Português que decorre em Coimbra até ao próximo dia 26 de Novembro.
Neste filme curto, com argumento de Daniel Hey, Ele (João Belmar) despede-se de Lisboa. Brasileiro rumo a outras paragens vai, a caminho do aeroporto, observando a cidade que "corre" do outro lado do vidro do táxi. De repente escuta a voz de uma mulher e recorda um diálogo.
Numa alegoria que deixa o espectador incerto sobre se a voz feminina (Joana Santos) do outro lado é a de um amor passado ou, por sua vez, um diálogo romântico mental que estabelece(u) com a cidade de Lisboa, Já Vais? serve como um interessante cartão postal publicitário de uma cidade que fica no coração daqueles que por ela se cruzam.
Ao ritmo de uma homenagem e de uma despedida, este filme curto seria uma interessante proposta enquanto trabalho promocional da cidade mas, no entanto, deixa o espectador incerto sobre as suas intenções enquanto aposta dramatizada e ficcionada com algo mais a contar do que a respectiva - e já referida - celebração da cidade.
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3 / 10
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sexta-feira, 29 de abril de 2016

James White (2015)

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James White de Josh Mond é uma longa-metragem norte-americana e um dos filmes "sensação" da última temporada de prémios nos Estados Unidos que retrata quatro breves meses na vida de James (Christopher Abbott), um homem prestes a entrar nos seus trinta's.
Tudo começa em Novembro quando James se depara com a morte do seu pai. Num velório que tem tudo menos de convencional, James tenta consolar Gail (Cynthia Nixon), a sua mãe que - também ela - se depara com um momento difícil ao lidar com um cancro em estado avançado enquanto tenta encontrar o rumo para a sua própria vida.
Josh Mond - também argumentista de James White - constrói uma intensa e dramática longa-metragem que se centra quase exclusivamente na história desta personagem interpretada por Christopher Abbott. "White" é - foi? - um homem com grandes sonhos, expectativas e desejos mas que viveu os últimos anos da sua vida a cuidar de uma mãe doente vivendo no sofá da casa dela e satisfazendo todas as suas necessidades para o seu conforto. No processo, "James White" esqueceu-se dele próprio. Sem trabalho, sem casa e sem qualquer tipo de expectativas, ele representa não só o típico "young adult" que não conseguiu encontrar um rumo nos anos posteriores à universidade - o reflexo perfeito de toda uma geração nos seus trinta's - e que parece ter o futuro adiado a cada dia que passa, diminuindo as expectativas e assistindo a todos os seus sonhos a desaparecerem.
Dividido entre uma intensa vontade de encontrar a sua liberdade auto-retirada por dedicação a uma mãe cujo estado de saúde se degrada de dia para dia, "White" afoga as suas mágoas em excessos de violência, em alcoól e num constante sono que parece reflexo de uma depressão não assumida. Há excepção de "Nick" (Scott Mescudi) com quem partilha muitas das suas aventuras, o espectador não lhe conhece grandes amizades mas sim alguns conhecimentos e locais banais onde se encontram. A única certeza - para ele e para o espectador - é que "James White" tem a clara consciência que a sua vida parou e que os objectivos, sonhos e desejos que tinha para a sua vida estão rapidamente a tornar-se numa memória de um futuro que parece já não ver.
Ao mesmo tempo "White" tem uma outra grande preocupação. Se a sua vida parou, mais não foi pelo amor e dedicação que depositou no acompanhamento de uma mãe que começa gradualmente a abandonar o mundo físico. Se o seu estado de saúde se vai degradando à medida que o tempo passa é também verdade que a demência se mescla com momentos de sanidade e pensamentos que poderão - a seu tempo - fazer um sentido que ele agora não vislumbra. É esta relação com "Gail" (Nixon) que ganha um especial foco na segunda metade desta longa-metragem onde mãe e filho não só se aproximam como também começam lentamente a criar um ritual de despedida e de noção que todo um novo processo irá ser iniciado para "White". Perdido na noção de que o seu futuro foi abandonado, quem será ele uma vez que se encontre sózinho no mundo sem ninguém com quem se preocupar para além dele próprio? Dito de outra forma, o que irá ele pensar quando se olhar ao espelho e perguntar "quem sou eu?"?
Num misto de reflexão sobre o "eu" em conflito com os "meus" sonhos - adiados ou perdidos - e o filme de família onde impera a dedicação filial, James White consegue colocar o espectador numa dinâmica de observador que, como uma terceira personagem, acompanha os destinos da relação entre mãe que ambiciona partir sabendo que tudo foi "entregue" da melhor forma, e um filho que luta com uma dinâmica entre a perda (dos seus progenitores) e a continuidade (sua) face a um momento difícil e de reflexão sobre o que virá a seguir. No fundo, como não perder o rumo quando a perda se instala e cria todo um conjunto de dúvidas adicionais àquelas que já tem para consigo próprio.
Se o argumento de Josh Mond é um dos pontos fortes desta longa-metragem, é também válido dizer que o mesmo ganha duas grandes e intensas almas que o conduzem a bom porto. Cynthia Nixon - a quem faltava um merecido protagonismo desde aquele obtido com Sex and the City - encontra aqui o seu momento de glória com "Gail", uma mulher à beira do fim que vive involuntariamente dividida entre a demência e o esquecimento sabendo que, ao mesmo tempo, precisa deixar tudo em ordem antes de partir. Esta consciência é, para ela, omnipresente ao compreender que "reteve" o seu filho de forma a poder acompanhá-la tendo colocado toda a sua vida numa pausa indeterminada. Agora que se prepara para partir, que conselho dar a "James" para que ele perceba que tem - e deve - continuar? Mais... como fazê-lo de forma lúcida e consciente de que se usam as melhores palavras?
Finalmente é Christipher Abbott e a sua intensa interpretação enquanto "James White" que fazem o espectador render-se aos seus dotes de representação. Abbott saído de Martha Marcy May Marlene (2011) e de A Most Violent Year (2014) encontra aqui o protagonismo como este jovem adulto perdido num mundo que evoluiu e avançou tendo-o deixado para trás. Abbott tem uma interpretação digna de Oscar - apesar deste se ter "esquecido" dele - e a oscilação entre uma contenção sentimental e uma explosão de sentimentos e violência tornam a sua personagem não só credível como alvo de uma instantânea empatia pois, em muitos dos seus traços, identificamos um pouco de nós naquele percurso de uma estrada perdida sem grandes planos ou ambições frutos - por vezes - de um auto-descrédito naquilo que outrora fora ambicionado.
Inteligente, perspicaz e dono de uma estranha sensibilidade - nem sempre a lágrima é a melhor forma de conquistar o público e Josh Mond parece sabê-lo muito bem -, James White é um intenso, sentido e sofrido drama que não fará o espectador chorar mas sim reflectir convictamente sobre a sua vida, o seu percurso, aqueles que perde e qual a memória que deles - e de nós - permanece depois de percorrido um caminho sofrido.
Considerando que - tal como "White" diz - a "vida está à espera", só resta uma palavra para caracterizar esta obra-prima dos nossos dias... belíssimo.
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"James White: I am not going to drink. And I am not going to smoke. I'm going to write and I'm going to meditate and I'm going to eat healthy and I'm going to swim and I'm going to work out and I'm going to write about all those feelings that are welled up inside me and when I get back I will get a place and a job but I need to go away. And when I come back I will be ready for life."
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9 / 10
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Je Suis Sousa Mendes (2015)

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Je Suis Sousa Mendes de Cloves Mendes e Nuno Sá Pessoa é uma curta-metragem documental luso-brasileira que transmite uma breve ideia sobre a vida e obra do cônsul Aristides de Sousa Mendes, diplomata português em Bordeaux, França, durante a Segunda Guerra Mundial e que salvou mais de trinta mil pessoas do conflito Europeu emitindo-lhes vistos de entrada em Portugal contra as ordens do governo de Salazar.
Através de um conjunto de imagens dos macabros dias dos campos de concentração alemães durante o conflito, este documentário insere o espectador sobre aqueles dias enquanto é, ao mesmo tempo, narrada a obra e o legado do cônsul português bem como as consequências de ter desobedecido às ordens que lhe haviam sido incutidas.
Com um elevado sentido de responsabilidade humana, a obra de Sousa Mendes é aqui uma vez mais relembrada através desta curta-metragem que ainda estabelece uma interessante ligação da sua obra com a agora internacionalmente conhecida expressão "Je Suis..." (aqui Sousa Mendes) como que criando uma imediata identificação com a mesma deixando perceptível que o seu legado não desapareceu.
Porque os registos da sua obra nunca são demais e para que a memória perdure no tempo, pergunto-me - enquanto espectador - para quando a grande obra de ficção baseada nestes factos tão infelizmente reais?!
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6 / 10
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sábado, 2 de janeiro de 2016

Joy (2015)

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Joy de David O. Russell é uma longa-metragem norte-americana nomeada a dois Globos de Ouro - Filme e Actriz em Comédia - a atribuir no próximo dia 10 de Janeiro e que marca a terceira colaboração de Jennifer Lawrence e de Bradley Cooper com o realizador.
Joy Mangano (Jennifer Lawrence) tem dois filhos. Tony (Édgar Ramirez), o seu ex-marido, vive na sua cave. Na mesma casa vive a sua mãe Terry (Virginia Madsen), o pai Rudy (Robert De Niro) e a avó Mimi (Diane Ladd). Joy era uma criança com sonhos, esperanças e a quem a criatividade tinha abençoado com milhares de ideias e projectos. Mas Joy cresceu e aquele sonho de criança esbateu com a realidade de uma vida dura e de conflitos familiares.
Mas Joy continua com a firme convicção que a sua vida está reservada para algo melhor, e a profecia que a sua avó havia dito sobre ela poder vir a ser a matriarca de uma grande família começa lentamente a ganhar forma... mesmo através de todos os desvios e precalços que lhe são colocados pelo caminho.
À semelhança do que já havia apresentado com Silver Linings Playbook (2012) ou com American Hustle (2013), Joy demonstra uma vez mais a intrínseca vontade de David O. Russell em contar histórias que se sintam próximas de valores como a família que é uma constante nas suas histórias, a honra reflectida através de uma sentida afirmação dos valores próprios das suas personagens - aqui baseados numa história verídica e não ficcionados -, a lealdade entre todos aqueles que tentam ser "alguém" na vida, e também uma extrema necessidade de sentir ou filmar o amor quer pelas suas raízes e origens ou até mesmo na forma como este se pode encontrar no mais improvável dos locais.
No entanto, Joy vai um pouco mais longe ao também inserir nesta história as suas antíteses, através da traição e do engano, da vontade (in)consciente em fazer crer que alguns sonhos e expectativas podem ser grandes demais para algumas pessoas limitando-as a pequenos espaços e pequenas ideias, assim como demonstra que para alcançar o "tal" sonho que se idealizou é preciso perder um pouco daquele "eu" que em tempos foi inocente e pensou que tudo seria possível desde que para tal se trabalhasse o suficiente sem antecipar que do outro lado está alguém capaz de nos atraiçoar. A inveja é, em boa medida, a maior e mais eficaz forma de traição, irreconhecível quando praticada por aqueles que estão dentro das nossas portas.
Joy - que numa trágica alegoria poderia significar a própria alegria que a palavra traduz - é, no fundo, uma igualmente trágica constatação de que a mesma - alegria - se perde lentamente à medida que o tempo - o nosso - passa. Joy leva o espectador a questionar-se, por diversos momentos, sobre aqueles pequenos sonhos de infância onde tudo parecia possível e no qual nenhum obstáculo seria impossível de ultrapassar. O mundo não tinha limites e as vontades eram certezas que eventualmente se iriam confirmar, e afastando os recorrentes momentos em que tudo pode parecer ter uma solução, rapidamente se percebe que para lá chegar há que conhecer aquele "outro lado" que cada um de nós tem adormecido e falar uma linguagem tão ou mais dura do que aquela utilizada quando a boa fé de cada um de nós está ainda em evidência. Independentemente daquilo que se foi, do quão bons foram os colégios, as oportunidades do passado ou até mesmo a educação que se (man)teve, Joy é assim uma reflexão não sobre essas mas sobre todos aqueles momentos que precipitaram uma descida ao lugar desconhecido da "não concretização". Quem somos nós quando abraçarmos o facto de que crescemos e nos tornámos diferentes daquilo que idealizámos quando éramos crianças? E mais importante ainda... quem seremos nós depois de compreendermos tudo aquilo que é e será diferente a partir desse momento?
Que a vida é feita de perda e de desilusões já todos nós - a certa altura - o percebemos mas, no entanto, a pergunta que Joy subtilmente lança é sobre o que cada um de nós está disposto a fazer depois de sabermos que não temos toda a nossa vida pela frente mas sim uma parte dela... e que precisa ser finalmente aproveitada... e vivida.
Com a habitual - e por vezes frustrante - forma que David O. Russell tem em contar histórias que rapidamente levam o espectador do "agora" para o resultado final, e que em boa medida quebram muita da dinâmica e do dramatismo esperados para uma história deste género ao remover muito do "entretanto", o realizador consegue, no entanto, voltar uma vez mais a retirar o melhor do grupo de actores dos quais se rodeia criando uma imediata empatia com a sua actriz musa - há que afirmá-lo - Jennifer Lawrence. Esta empatia é imediatamente criada quando assistimos a toda uma luta interior que desafia o espectador a perceber, e identificar-se, com os seus dramas e problemas. Quem é que nunca teve um sonho não concretizado, uma conta que não sabe como conseguir pagar ou um momento - aquele momento - em que tudo parece condenado ao insucesso? Lawrence interpreta e vive - aliás - esse momento entregando-lhe uma invulgar humanidade como quem diz "sim, estive lá e sei o que isso é!".
O realizador volta também a repetir com Robert De Niro em Silver Linings Playbook e com Bradley Cooper neste último e ainda em American Hustle sendo a surpresa, no entanto, o trio feminino a quem dá um merecido lugar de destaque, ou seja, Virginia Madsen, Isabella Rossellini e Diane Ladd. Com interpretações fortes - cada uma à sua medida - Madsen é a mãe que se esqueceu de viver tendo um dia "acordado" do seu coma televisivo que a condenou a uma vida solitária sendo, por sua vez, Ladd a alma silenciosa que acompanhou toda uma rota de auto-flagelação de uma família que definhava em vez de viver. É, no entanto, Rossellini que com a sua secundária mas potente interpretação, que mais surpreende o espectador ao encarnar a nova "namorada" de "Rudy" (De Niro), e que muito ao estilo da mafia despoleta todo o enredo de uma nova - potencial - vida de "Joy".
Joy é assim, na sua essência, uma história que por um lado pretende focar e centrar-se sobre os sonhos perdidos de uma criança que cresceu e que se fez mulher - numa visão mais romântica - e que por outro lado demonstra o lado negro desses mesmos sonhos, ou seja, aquele momento em que todos tentam colocá-los em prática mas no qual percebem que existe todo um mundo pronto e preparado para destruir mais ou menos lentamente todas as puras e inocentes ambições que (tentam) ganham vida.
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"Joy: Never speak, on my behalf, about my business, again."
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7 / 10
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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Jeruzalem (2015)

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Jeruzalem de Doron Paz e Yoav Paz é uma  longa-metragem israelita de terror que centra toda a sua premissa numa frase do Talmud - livro sagrado hebraico -, ou seja, "existem três portas para o Inferno, uma no deserto, uma no oceano e uma em Israel".
Sarah (Danielle Jadelyn) e Rachel (Yael Globglas) são duas jovens norte-americanas que durante uma viagem a Israel encontram Kevin (Yon Tumarkin) que as desafia a conhecer Jerusalém em vez de Tel-Aviv, o seu destino.
Com a viagem para uma nova cidade, é num misto de descoberta e incertezas que os três jovens entram na cidade no mesmo momento em que sobre ela se abate uma estranha e invulgar catástrofe de proporções bíblicas que ameaça não só estes jovens como também a cidade e eventualmente toda a Humanidade.
Filmado essencialmente sob uma perspectiva do "eu" em que o espectador é colocado como o principal interveniente da história através de um olhar na primeira pessoa que testemunha todos os acontecimentos da mesma. Desde o primeiro instante em que é fornecido à protagonista "Sarah" - que pouco presenciamos durante esta longa-metragem - até aos instantes finais, o espectador assiste a todos os acontecimentos como se encarnasse o seu corpo. Assistimos àquilo que faz, que vê e por onde caminha e a história aproxima-se do espectador e, apesar de percebermos quem é a protagonista, vai diluindo, portanto, a presença de Danielle Jadelyn enquanto tal.
Num misto de modernidade explícito através daquilo que as novas tecnologias podem fornecer e facultar registando ou um escape ou uma informação mais perniciosa aliando as velhas tradições e julgamentos populares do passado, Jeruzalem cruza o misticismo religioso com a descrença dos tempos modernos expondo numa cidade como Jerusalém ambas as dimensões ao mesmo tempo que celebra uma multiculturalidade óbvia da cidade. Num espaço já dividido com velhas divisões étnicas internas, somos levados por uma viagem que se expõe pelas suas diferenças culturais - de bairro para bairro mudam os aspectos das ruas e das pessoas que neles habitam - deixando claro que estamos prestes a assistir a algo que as colocará em segundo plano. É a chegada de uma catástrofe bíblica que cerca a cidade deixando por sua conta e risco todos aqueles que nela ficam enclausurados que esbate as diferenças entre os seus cidadãos classificando fortemente todos como iguais perante uma eventual morte às mãos do desconhecido.
Entre relações a respeito do Síndrome de Jerusalém e desequilíbrios religiosos, Jeruzalem denota ainda um excerto de found footage logo no seu início e que insere, de certa forma, a referida questão biblíca na narrativa, bem como uma forte influência de World War Z, de Marc Forster (2013) não só através do seu óbvio logo como também pelo segmento em que - neste referido filme - o espectador é levado a uma visita relâmpago à capital israelita que se encontra em quarentena ou mesmo nas entidades demoníacas - spoiler - que nesta longa-metragem ganham vida.
Interessante pela perspectiva de terror bíblico que apresenta, os irmãos Paz recriam uma simpática - que contradição - história de suspense que apesar das suas inspirações óbvias em World War Z ou até, numa perspectiva agorafóbica, ou [REC] (2007), mantém o suspense desejado e uma tensão crescente, assim como uma destacada qualidade na direcção de caracterização reconhecida pela Academia Israelita de Cinema estando o seu grande momento de tensão, no entanto, dividido em dois importantes segmentos; o primeiro no hospital psiquiátrico de Jerusalém - transformado exteriormente em algo muito semelhante a um edifício abandonado - e nas famosas grutas de Salomão onde todos os grandes problemas são finalmente revelados.
Jeruzalem sendo um filme de terror bem executado e que respeita uma já longa tradição de cinema de terror israelita peca, no entanto, por um abrupto e algo expectável final que não retirando o clímax onde ele é, de certa forma, esperado, o atenua para aquele eterno pensamento que assola a cabeça do espectador quando pensa que "já viu isto" mantendo, ainda assim, uma capacidade notável de manter o interesse do mesmo por toda a sua duração e, não sendo uma obra-prima, mantém-se fiel ao espírito do género.
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6 / 10
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sábado, 5 de dezembro de 2015

Jasper (2015)

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Jasper de Dean Anderson é uma curta-metragem britânica e um dos mais emocionantes filmes curtos dos últimos tempos.
Jasper (Kevin Golding) é um homem a quem a vida não sorriu. Desesperado por manter uma relação com as suas filhas Tiana (Brianna Wilson) e Lisa (Scherrikar Bell), Jasper comete um acto irreflectido que lhe irá trazer duras consequências.
Dean Anderson cria um argumento que é um triste e emotivo retrato de uma sociedade moderna na qual milhares de indivíduos se debatem com as amarguras de uma vida difícil fruto de um desemprego, de uma separação e de uma crise constante que os leva a uma existência no limite.
"Jasper" é um homem atormentado. Sem uma relação constante diária com a sua família - "Tiana" e "Lisa" - ele tenta que os breves momentos que com elas passa possam ser a tal referência que ambas precisam para nele encontrarem a figura paternal que tanto lhes falta. No entanto, o que acontece quando por um acto desesperado - e desesperante - as crianças ganham toda uma nova perspectiva e abordagem à imagem que têm do seu pai? A degradação da figura paternal como o elo de segurança e conforto tido pelos filhos, e que aqui "Jasper" está incapaz de garantir estando, dessa forma, comprometido é no fundo, a essência de toda esta curta-metragem que diaboliza - correctamente - através da sua interpretação, os malefícios e amarguras de uma sociedade que devora lentamente aqueles que não conseguem "acompanhar o passo".
Desta forma, num mundo em constante mutação - evolução seria aqui uma palavra incorrecta - como consegue o indivíduo manter a sua dignidade, os seus pertences, a sua família e a sua imagem integras quando tudo em seu redor parece ruir ciclicamente, nunca cedendo uma única oportunidade àqueles que estão mais vulneráveis? Assim, e sendo a imagem parental (neste caso) aquela que é imediatamente afectada, "Jasper" - e aqui também o espectador - questiona(m)-se sobre as impossibilidades da vida, o seu papel na sociedade e, no fundo, qual o legado (educacional e de valores humanos) que a sua existência deixa para aqueles que o testemunham?
Com uma interpretação dinâmica e comovente de Kevin Golding como um "Jasper" no limite que (se) assiste a definhar não só aos seus olhos como também aos olhos das suas filhas que o deveriam ter como a referência maior - o momento dos doces é do mais duro e cru deixando o espectador com o tal "nó" na garganta -, Jasper é uma curta-metragem triste, melancólica e sem esperança sobre as expectativas que morreram algures no caminho tomado pelo protagonista. Expectativas essas que as sonhou, que as esperou e desejou e que graças a momentos nunca explicados - não seriam necessários - viu toda a sua existência enveredar por uma estrada alternativa que nunca imaginou percorrer.
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8 / 10
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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Jogo de Damas (2015)


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Jogo de Damas de Patrícia Sequeira é uma longa-metragem portuguesa exibida fora de competição nesta edição do LEFFEST - Lisbon & Estoril Film Festival que decorre até ao próximo dia 15 de Novembro em várias salas de cinema de Lisboa, Estoril e Cascais.
Depois da morte de Marta, as suas cinco melhores amigas - Maria (Ana Nave), Dalila (Ana Padrão), Ema (Fátima Belo), Ana (Maria João Luís) e Mónica (Rita Blanco) - reúnem-se na casa de campo que esta queria transformar para turismo rural.
Numa noite que servirá de reencontro e de aproximação, as memórias da sua amizade presente e passada irão determinar se poderá existir um futuro para a mesma. Conseguirá esta amizade sobreviver à morte?
Num ambiente que se pretende - e consegue - ser claramente intimista, o argumento de Jogo de Damas da autoria de Filipa Leal capta a essência de uma reunião de amigas que após um trágico acontecimento que a todas marca decidem restabelecer esses velhos laços de amizade então relativamente abalados. Cada uma com os seus segredos, desgostos, silêncios e mágoas tentam muito polidamente focar-se única e exclusivamente na perda de "Marta" mas, na realidade, são aquelas horas em conjunto e os silêncios que duravam até então que irão definir aquilo que será a sua "nova" cumplicidade.
Tendo cada uma delas algo a esconder e, ao mesmo tempo, algo que apontar às demais, Jogo de Damas centra-se assim na dinâmica que estas mulheres pretendem agora ter entre si sem esquecer com isso todo um passado comum que as trouxe, após largos anos, ao momento em que se encontram. A pergunta que lentamente se instala é apenas uma... até que ponto se conhecem realmente estas mulheres?
Os silêncios como consequência dos dramas vividos esconderam, em certa medida, aquilo que este grupo de amigos conhecia realmente a respeito das demais. Casamentos falhados, traições, doença e até a sua própria sexualidade foram, com o passar dos anos, assuntos tão íntimos que geraram vergonhas internas impedindo-as não de partilhar o seu "momento" mas sim de os esconder por vergonha de um "falhanço" anunciado que as demais pudessem menosprezar. Se para "Maria" a sua vida se tornou tão complicada que não pode atender ou responder ao desespero das amigas, para "Dalila" e "Ema" são os amores proibidos ou não correspondidos e que "Ana" não sente (ou sentiu) e que "Mónica" esconde por o ter, de certa forma, perdido. Se é a morte de uma "Marta" - que o espectador nunca chega realmente a conhecer para além de ser cunhada de "Mónica" - que as aproxima fisicamente, são no entanto aqueles momentos que partilham madrugada fora que as aproximam de facto através das suas cumplicidades não perdidas confirmando que a sua amizade continua, tal como antes, intacta.
É nos intervalos da morte que se pode experimentar viver... Esta poderia ser a premissa deste filme onde a referida morte é uma presença sentida, não só pelo funeral do qual chegam como também pela - agora - sentida consciencialização de que ela irá, invariavelmente, chegar e colher as suas vidas. É de ordem aleatória e desconhecida que se fará sentir mas não deixa, no entanto, de ser uma certeza. Estas mulheres são assim as sobreviventes que ainda têm a tal "oportunidade" lançada pela morte. Aquelas que podem experimentar e ousar sentir, viver, rir e ter. São aquelas que estão no não tão longo intervalo cedido pela morte mas que, curiosamente o ignoraram, limitando-se por um conjunto de medos, incertezas, vergonhas e inibições de simplesmente sentir... o amor, a aventura e até certo momento, medo de experimentar a própria vida.
Longe de ser um filme "para mulheres" como alguns o poderão querer passar ou até mesmo de outras experiências - pobres - como o Sei Lá de Joaquim Leitão, Jogo de Damas ocupa o seu espaço com cinco fortes interpretações femininas - e que se diga que o quinteto Belo, Blanco, Luís, Nave e Padrão é do melhor que o nosso burgo pode ter - que encarnam uma notória cumplicidade e entrega fazendo o espectador acreditar que se encontra perante um grupo de amigas de longa data... Desde a mágoa do amor perdido de Padrão â louca transgressão de Maria João Luís, sem esquecer a dedicação de Blanco, o sucesso de Nave ou o desgosto de Belo, estas cinco mulheres encarnam o rosto da cumplicidade não escondendo as suas mágoas... Capazes de perdoar mas feridas... E que cada ruga - ainda bem que não usaram caracterização para as esconder - representa um conjunto de histórias, momentos, tristezas e alegrias de um passado comum onde celebraram todos esses pequenos espaços que as trouxeram àquilo que hoje são. Da falta de amor à recusa do mesmo, da fama ao anonimato, da consciência de grupo à individualidade, Jogo de Damas apresenta todos estes pequenos conceitos e muitos mais deixando ainda ao espectador a capacidade - e liberdade - de se identificar com vários pequenos elementos de cada uma delas.
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7 / 10
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terça-feira, 17 de março de 2015

Jafar (2011)

Jafar de Nancy Spetsioti é uma curta-metragem grega de ficção que em breves minutos e graças ao argumento de Katerina Koutsomyti nos fazem pensar nos limites - ou falta deles - da xenofobia e do racismo.
Um tom de pele, uma nacionalidade e talvez uma língua diferente... O que acontece quando estes "elementos" que alguns repudiam se transformam nas características de sobrevivência para outro? O que acontece quando o "eu" e o "outro" colidem por motivos que mais não são do que preconceitos estabelecidos e que podem tão facilmente ser derrubados?
Breve e extremamente eficiente pela sua mensagem, Jafar é uma curta-metragem que consegue fazer qualquer um de nós pensar no que realmente nos separa - se é que algo - do "outro".
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7 / 10
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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Jantar de Mafiosos (2015)

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Jantar de Mafiosos de Zé Luís Rebel é uma curta-metragem portuguesa de ficção que com alguma comédia tenta relatar um curioso jantar de amigos mafiosos.
Conhecendo as características de um filme cuja base é uma potencial comunidade italiana - e isto não é qualquer tipo de preconceito - onde a mais evidente é a grande confusão e barulho de longas e ricas conversas, aquilo que mais espanta pela positiva nesta curta-metragem é o facto de toda ela ser filmada em silêncio. Estes nossos "mafiosos" comunicam sim pela sua interacção e através da linguagem gestual portuguesa.
Para lá do óbvio que se espera de um filme do género, Jantar de Mafiosos denota essa originalidade, deixando assim o espectador mais atento à expressividade e comunicabilidade não oral entre os actores como, ao mesmo tempo, denota a sua maior cumplicidade e empatia mesmo que as personagens pudessem ser - à partida - mais intragáveis ou detestáveis. Aqui não é o caso.
Tudo dirigido de forma amena e até com alguns apontamentos cómicos que dão alguma ligeireza à história e também uma tentativa de a tornar mais "próxima" que acaba, em última análise, por ser o mesmo conjunto de elementos que distanciam a temática do espectador que no final não se interliga com as personagens ao ponto de criar empatia com as mesmas. No fundo aquilo que se esperava era um maior desenvolvimento das características de cada um de forma a que os mesmos conseguissem denotar as suas características e também as suas origens, ou seja, evidenciar a personanilidade de cada personagem que, dada a temática tão "italianizada" seria o ponto forte deste filme para lá daquilo que de mais violento ou mais cómico pudesse decorrer depois.
Assim, e ainda que a intenção e ideia tenham sido originais ao transformar uma história potencial ruidosa num silêncio profundo onde são os detalhes que merecem toda a atenção, Jantar de Mafiosos mantém mais o estatuto de ensaio ou filme entre amigos do qual se poderia ter descolado e entregue toda uma história inovadora. Ainda assim o devido destaque e apontamento positivo pela apresentação de um cinema diferente e de inclusão que tantas vezes falta quer nas salas e nas televisões que, felizmente, a internet e devidas redes sociais possibilitam na aproximação ao grande público.
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4 / 10
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domingo, 1 de fevereiro de 2015

Jupiter Ascending (2015)

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Ascenção de Júpiter de Andy Wachowski e Lana Wachowski é uma longa-metragem norte-americana de acção e ficção científica futurista - muito na linha das últimas obras dos Wachowski - que nos conta a história de Jupiter Jones (Mila Kunis), nascida no meio do Atlântico rumo aos Estados Unidos depois do seu pai ter sido selvaticamente assassinado na sua Rússia natal.
Com um trabalho nas limpezas de casas abastadas e com a clara noção de que merece mais na sua mísera existência, Jupiter descobre que é, afinal, herdeira do próprio planeta Terra quando Caine Wise (Channing Tatum) um caçador de cabeças vindo de outro planeta não só a protege como se apaixona por ela.
No seio de uma intriga inter-galáctica onde todos disputam o planeta mais rico do Universo, estará este em risco de sucumbir à mesma ou conseguira Jupiter reclamar o seu devido trono?
Naquela que é a mais recente obra cinematográfico que faz um claro piscar de olhos às questões ecológicas, que podemos presenciar na abordagem à abelha como um - ou o - animal importante para a reciclagem ambiental ou numa Terra em perigo por aqueles que nela habitam já terem esgotado todos os recursos produzidos na mesma os Wachowski - que além de realizarem também escreveram este argumento - desenvolvem toda uma história que transporta o espectador para os limites inimaginados do Universo onde a existência é tão ou mais antiga do que no planeta azul.
No entanto, se por aqui a co-existência mais ou menos pacífica esgota lentamente os recursos e aqueles que por cá vivem, não deixa de ser um facto registado que nessas outras dimensões a existência sustém-se meramente graças ao esvaziamento social e de bens - ou por outras palavras os seus habitantes - em favor de uma sociedade dominante que usa e abusa daqueles planetas por onde passa. Sociedade eventualmente mais evoluída - é um facto - mas também é uma realidade que esta evolução se deve meramente à custa daqueles que, mais fracos, não lhes conseguem resistir.
Se quisermos ser então mais realistas, existe realmente uma sociedade mais evoluída que (sobre)vive graças àquilo que produz ou, por sua vez, esgota os recursos daqueles que os produzem e, tal como na Terra, usam-nos até à sua total exaustão? Existem assim tantas diferenças entre estas duas sociedades distantes no tempo e no espaço ou, afinal, não é esta um mero reflexo daquilo com que todos nós vivemos no planeta Terra e que tentamos - mais ou menos bem sucedidos - modificar?
Preocupados com uma questão temporal - já presente em Matrix (1999) e em Cloud Atlas (2012) - onde os acontecimentos e o próprio tempo interagem numa linha, sendo modificados e alterados com consequências e eventos também eles transformadores, Jupiter Ascending distancia-se francamente das duas longas-metragens há pouco mencionadas não pela sua qualidade e capacidade de interligar continua e temporalmente as diversas e potenciais histórias aqui medianamente factualizadas. Se o espectador percebe a qualidade dos elementos técnicos desta longa-metragem nomeadamente no que diz respeito aos seus efeitos especiais - um ponto positivo para os Wachowski que em todas as suas obras primam pela excelência neste campo - não deixa de ser uma realidade que a vontade de criar um enredo rico e com várias pontas por onde navegar deixam com que exista uma perceptível dispersão de momentos, locais, espaços e personagens que nunca chegam a ser desenvolvidos naquilo que é um potencial existente. Facto que o comprova é a tensa dinâmica entre os três irmãos "Abrasax" que para lá de uma vontade em conquistar território nunca chegam a ter os seus passados desenvolvidos e vivem quase exclusivamente graças a um mediatismo óbvio entregue a Eddie Redmayne e ao seu "Balem Abrasax".
É esta mesma dispersão que, na prática, evita o desenvolvimento daquele que poderia ser o momento mais interessante desta história - já presente em algumas longas-metragens mas aqui pouco desenvolvido - e que já referi, ou seja, a questão ambiental. Explicado à sua maneira muito própria e equiparando recursos para as diferentes realidades "inter-planetárias", se aqui os alimentos são uma necessidade para a perpetuação da espécie, não deixa de ser real que para aqueles que chegam de "fora" somos nós, os próprios humanos, que servimos de "receita" para a sua própria sobrevivência sendo que enquanto uns destroem planeta a planeta para receberem o seu elixir da eternidade... nós por cá concentramo-nos a destruir o nosso planeta muito lentamente até à exaustão, aqui tão desejada por essa raça alienígena.
Intrigante pela já referida perspectiva ambiental, Jupiter Ascending falha pela dispersão de momentos e personagens que tenta desesperadamente enquadrar e dar vida sem serem especialmente necessários bem como pela forma como falha na química entre Tatum e Kunis, mantendo-se, dessa forma, no patamar que o coloca como um simpático filme de entretenimento - relativamente olvidável - sem que seja, no entanto, um bom filme do género.
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5 / 10
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