sábado, 16 de maio de 2015

Elias Gleizer

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1934 - 2015
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Trekanter af Lykke (2014)

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Trekanter af Lykke de Jannik Dahl Pedersen é uma curta-metragem de ficção dinamarquesa que esteve presente na Competição Internacional da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu de 2 a 9 de Maio últimos na Cantábria, em Espanha.
Hanne (Iben Dorner) e Carsten (Thomas Magnussen) são um casal de classe média alta. Ambos tentam desesperadamente manter o estatuto e as aparências junto da vizinhança que se preocupa sempre em saber o que eles têm ou vão fazer. No entanto, como conseguirão eles manter a ilusão da família perfeita quando estão a viver uma dura crise financeira?
O genial e cru argumento de Mie Skjoldemose não poderia ter chegado numa melhor altura do que aquela que esta Europa atravessa. Aquilo que me seduziu de imediato nesta curta-metragem foi o facto de retratar de forma humorística mas, ao mesmo tempo, honesta e muito humana um problema que tem afectado tantas famílias um pouco por toda a Europa. No entanto, quando escutamos os mais diversos relatos noticiosos sobre "a crise", raramente a associamos a outro local que não a um sul do continente e aos tão badalados resgates financeiros quando aqui, muito frontalmente Jannik Dahl Pedersen filma a crise ao seu extremo mas, numa sociedade teoricamente perfeita como a tão nórdica Dinamarca.
Os sinais dessa crise são evidentes a cada segundo que o espectador avança no seu visionamento partindo desde o imediato e mais óbvio detalhe de nunca se filmar - num ponto de visto externo à casa - outro espaço que não aquele que fica aos olhos da vizinhança... a sala de refeições. Para o mundo "Hanne" e "Carsten" são o casal perfeito. A família perfeita. O trabalho perfeito. E a vida perfeita. Tudo corre bem sem um único detalhe menos positivo que apontar. No entanto, no imediato instante em que somos levados para o interior daquela bela casa num bairro de classe média alta, o espectador começa a notar nos pequenos detalhes que haviam escapado, nomeadamente uma casa que mais não tem do que o suficiente para causar boa impressão a quem "espreita" mas que está despojada de tudo o resto. Desde mobiliário aos quadros que antigamente ocupavam as paredes da casa, electrodomésticos ou até as pratas símbolo da ostentação estão agora desaparecidos.
Mas o que fazer quando os acontecimentos começam a escapar do controle? É essa a questão que "Hanne" tenta ao longo desta curta-metragem responder dando-lhe a melhor solução que as aparências que pretende manter lhe permitem. A casa está prestes a ser penhorada pela financeira. Os bens já são poucos e o marido já não tem trabalho. O filho está a dias de ter de começar a estudar na escola pública e alguns dos vizinhos podem começar a suspeitar. Mas, e quando já nada existir como escapar à evidente bancarrota?! Trekanter af Lykke consegue então de forma engenhosa e muito humor negro responder às alucinações de alguém que prefere primeiro cometer um crime do que responder pelas suas carências e dificuldades. O luxo e a opulência perdidos falam mais alto e o nível de vida tem de ser mantido independentemente do que custar. "Hanne" é uma mulher à beira de uma demência sem limites e nada nem ninguém a poderão demover do seu plano... nem mesmo ou vizinhos intrometidos que se tornam - para ela - obstáculos fáceis de ultrapassar.
A crise e os seus efeitos - neste caso uma perfeita demência - levam aqueles que a atravessam a medidas extremas. A sobrevivência - do espírito e principalmente da imagem - fazem "Hanne" ultrapassar qualquer barreira que, num estado mental equilibrado, seriam impossíveis sequer de conceber. Iben Dorner, numa intensamente genial e hilariante interpretação que faz recordar os mais apurados momentos de qualquer personagem feminina de Almodóvar, conquista o público não só pela forma como parece encontrar resposta para todos os problemas da sua "Hanne", mas também por conseguir transportar uma crise financeira tão Mediterrânica para um frio nórdico mostrando que a esta - crise - ninguém está imune. E se os seus pensamentos não bastassem para nos conquistar, quando os coloca em prática já tem o espectador a venerar todos os seus engenhosos recursos e a admirar uma mente que ultrapassou os seus próprios limites.
Com uma música original de Mathias Bjørnskov que recria uma atmosfera alucinadamente macabra que me transportou para um imaginário de La Comunidad, de Aléx de la Iglésia, Trekanter af Lykke ganha vida e forma num bairro tranquilo e idílico que rapidamente se transforma no palco de uma batalha de sangue onde vale tudo... mesmo ultrapassar os limites da razão humana... literalmente falando.
E para aqueles que têm dúvidas de que os temas sérios ganham uma perspectiva ainda mais dura quando retratados através de um olhar cómico e bastante sarcástico, Trekanter af Lykke comprova facilmente que não existe nada mais duro do que a comédia, principalmente quando através dela se retratam as dores humanas. Simplesmente soberba!
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9 / 10
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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Prémios Novos 2015 - vencedor na categoria de Cinema

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Os Prémios Novos foram novamente entregues em Lisboa no passado dia 6 de Maio tendo distinguido os novos talentos de nacionalidade portuguesa até aos 35 anos de idade, reconhecendo assim o seu protagonismo, actividade e mérito nas diferentes áreas da cultura, ciência e sociedade.
Na categoria de Cinema haviam sido nomeados o actor Graciano Dias, pela sua participação na longa-metragem Os Maias - Cenas da Vida Romântica, de João Botelho, a actriz Victória Guerra, pela sua participação na longa-metragem Casanova Variations, de Michael Sturminger e ainda o realizador João Pedro Plácido pela direcção do filme Volta à Terra tendo este último sido anunciado como o vencedor.
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Volta à Terra é um documentário que leva o espectador a Uz, uma povoação isolada nas montanhas do interior norte de Portugal onde vivem quatro gerações num total de pouco mais de cinquenta pessoas. Um filme "em quatro estações , ao ritmo da vida que retrata: uma existência simples e plena onde o trabalho impera mas que não descura a paixão".
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Hola, Extraño (2014)

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Hola, Extraño de Laura A. Martínez Hinojosa é uma curta-metragem mexicana de ficção presente na secção Internacional da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu até ao passado dia 9 de Maio na Cantábria, em Espanha.
Karla (Vico Escorcia) é uma adolescente de quinze anos que quer estabelecer uma relação com o seu pai com quem nunca foi próxima. Um dia decide fugir e ir à procura de Davo (Ricardo Baranda), o seu jovem e rocker pai que não está preparado para assumir a responsabilidade de uma filha que é pouco mais nova do que ele.
A realizadora e argumentista cria com Hola, Extraño uma história que tem tanto de encantador como, ao mesmo tempo, desolador. Se por um lado esta curta-metragem nos faz deparar com uma história de redescoberta e encanto de uma jovem adolescente que sente estar na hora de conhecer o seu pai, não é menos verdade que aos poucos o encanto dá lugar à desilusão e desespero. Este par poderia ter - eventualmente - tudo para funcionar. A jovem "Karla" é uma rapariga aparentemente bem comportada e cuja vida foi estabelecida com um conjunto de regras que fizeram dela uma jovem com uma vida despreocupada. Mas, ao mesmo tempo, esse conjunto de regras impediram-na de ter por perto um pai que, na prática, poucos mais anos tem do que ela e que leva ainda uma vida despreocupada e de boémia que, tendo por perto, possivelmente iriam prejudicar o seu comportamento.
No entanto, o espectador também se questiona se esta foi a decisão acertada. Todos os factores parecem indicar que esta relação está condenada desde o primeiro instante mas, se pensarmos, assim estará pela falta ou excesso de responsabilidade de "Davo" e "Karla" - respectivamente - ou antes pela lacuna que existe entre os dois que se sentem com um forte laço mas que na prática nunca foi trabalhado, estabelecido ou até fomentado?
Apesar da mínima diferença de idades que tanto os aproxima como separa, "Davo" e "Karla" são fundamentalmente dois jovens com uma química imediata mas cujas circunstâncias da vida tendem a separar. Ambos nutrem a mesma paixão pela música - que certamente seria o elo maior de construção de uma relação entre ambos - mas, ao mesmo tempo, é quando "Jorge" (Virgilio Solorio), companheiro da banda de "Davo" se insinua a "Karla" que tudo parece descontrolar-se sem uma solução à vista. Hola, Extraño parece assim terminar tal como começara... com o incómodo de duas pessoas que são próximas mas que se sentem distantes mas agora, com a diferença da experiência do primeiro contacto e a sensação de um adeus posto a uma relação que parece disfuncional e prejudicá-los pela convivência que possam ter.
"Karla" está numa idade em que a descoberta faz parte da sua realidade mas, no entanto, o que acontece quando essa descoberta implica conhecer um pai que poderia bem ser um amigo das habituais saídas pelas discotecas? Um pai que não só é pouco mais velho do que ela como também, por não ter qualquer contacto ou autoridade, pouco pode fazer para zelar pela sua segurança junto de todo o tipo de predadores que podem cruzar pelo seu caminho... "Karla" e "Davo" poderiam ser os melhores amigos mas também percebemos que esta etapa das suas vidas não lhes facilita este encontro/descoberta.
Melancólica desde o primeiro instante, esta curta-metragem cativa pela sua emotividade bem como pela expressividade de dois magníficos actores - Escorcia e Baranda - que têm uma química imediata inclusive nos momentos em que a tensão entre as suas personagens parece ser crescente. Ambos tentam que a sua relação resulte e olham-se com admiração e curiosidade mas, no final, tal como nos instantes iniciais sentimos a sua distância e aparente desconforto - o que dizer a alguém que nunca fez parte da nossa vida mas que para ela contribuiu? - e já bem perto do fim percebemos que a sua despedida pode ser mais do que uma simples etapa...
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9 / 10
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José Luis Lozano

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1960 - 2015
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Desterrados (2014)

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Desterrados de Erick García Corona é uma curta-metragem mexicana de ficção presente na secção internacional da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu na Cantábria, em Espanha entre os passados dias 2 e 9 de Maio.
Andrés (Emiliano Yáñez) regressa a casa aquando do falecimento da mãe. Reunido com Gabriel (Enrique Arrison) e Sofía (Sofía Espinosa), os seus irmãos, apenas o pai parece não querer saber da sua presença naquela casa.
Num ambiente tenso e com segredos do passado e do presente por serem revelados, irá Andrés ficar e finalmente resolvê-los ou irá novamente optar pela fuga do seu próprio passado?
Alexandra Márquez e Erik García Corona assinam uma história que é essencialmente vivida nos silêncios do passado. Os silêncios de uns que não querem saber e os de outros que preferem não falar nos monstruosos traumas que assolam toda a sua dignidade, auto-confiança e até a sua existência, sendo lentamente consumidos pelos mesmos de forma destruidora.
"Andrés", naquela que é uma genial e inspirada interpretação de Emiliano Yáñez, encarna o rosto de um passado vivido e sofrido no silêncio - seu por medo e vergonha mas também naquele tido pelos seus pais que por prática de acto e crime de cumplicidade - tornando-se assim na vítima que resolve um dia enfrentar (tentar) as suas origens e principalmente os seus medos.
Desde o instante em que se cruza com os agentes do seu passado - a sua família - que o espectador vive num misto de alegria e incómodo. Se por um lado percebemos o contentamento dos seus irmãos em reencontrarem-no - apesar das trágicas condições em que o fazem - não é menos verdade que aos olhos do seu pai "Andrés" é aquele que desafiou a sua ordem através da fuga que efectuou de casa à qual possivelmente gerou nunca mais voltar. Ele é um elemento "estranho" dentro daquelas paredes onde nasceu e cresceu. Um estranho que por medo da sua experiência e insegurança a respeito do seu destino, resolveu abandonar o berço e tentar o desconhecido que lhe possibilitaria outras oportunidades (fossem elas o que fossem).
A questão - óbvia a partir de certo momento - gera uma imediata questão... até quando "Andrés" resiste a um ambiente que se mantém tão nocivo quanto no dia em que resolveu partir? E a esta questão responde-se com outra... Poderá a sua presença naquela casa salvar algum dos seus irmãos da garra do maior dos predadores?
A ambiguidade de Desterrados não se prende necessariamente com a resposta a estas questões pois elas são, em certa medida, respondidas com o desfecho desta história, mas sim com os pequenos enigmas que são lançados ao longo da mesma nomeadamente sobre a cumplicidade - também ela silenciosa - de "Sófia" que ora parece incomodada com o crime de que é vítima como de seguida parece não desejar a presença daquele que sabe o seu trauma melhor que ninguém. Ambígua ainda na forma como lança a possibilidade de existência de diversos caminhos e estradas a seguir e que os podem - aos irmãos - levar para fora daquele ambiente mas que, ao mesmo tempo, não conferem a tal penalização do criminoso mas sim a fuga dos jovens sem fecharem este capítulo da sua vida... E sobre esta questão, estarão eles dispostos a perder um pai ou um irmão? Estarão eles dispostos a permanecer no silêncio ou enfrentar uma pseudo-vergonha quando a sua vivência fôr finalmente exposta? Desterrados no exílio forçado ou no seu espaço qual porto seguro ilusório? Afinal, onde são eles realmente o elemento "estranho"?
Magistralmente interpretado e dirigido com a existência de uma estranha alma nestas personagens perdidas no espaço, Desterrados lança um olhar mordaz sobre a culpa do silêncio, sobre a segurança da fuga e do desconhecido e principalmente sobre a forma como estes podem garantir a maior tranquilidade e conforto quando o passado se torna finalmente um acto enterrado.
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9 / 10
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Die Schwulenheiler (2014)

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Die Schwulenheiler de Christian Deker e Oda Lambrecht é um documentário em formato de curta-metragem alemão que esteve presente na secção Social da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu até ao passado dia 9 de Maio na Cantábria, em Espanha.
O documentário de Christian Deker e Oda Lambrecht é uma investigação na primeira pessoa que o realizador efectua a algumas clínicas na Alemanha onde os seus médicos consideram a homossexualidade uma desordem psicológica e, como tal, propõem-se a "curar" a "doença" e torná-los heterossexuais.
Nesta viagem por um mundo clínico e médico, Deker enquanto repórter e homossexual assumido sujeita-se a um conjunto de visitas para descobrir não só em que consistem os ditos "tratamentos" como também como os mesmos são comparticipados por seguradores num ciclo onde o dinheiro e a dignidade do Homem vivem afastados.
A dupla Deker e Lambrecht conseguem com este documentário efectuar uma visita não só a uma surpreendente e inexplicável actualidade como, ao mesmo tempo, abordar um pouco da contextualização histórica da homossexualidade na Alemanha tido como um país progressista e na vanguarda Europeia. Assim, a dupla de realizadores levam o espectador a conhecer um pouco do passado recente do país onde na década de 60 do século passado mais de cinquenta mil homens estavam detidos nas prisões estatais por "práticas e actos homossexuais" tendo muitos chegado a falecer antes das suas penas - na actualidade - serem retratadas e consideradas ilegais permanecendo assim toda a sua vida enquanto perpetradores de um crime que não o foi.
No entanto, se isto é por si suficientemente espantoso - pela negativa - aquilo que mais surpreende em Die Schwulenheiler é a actual situação vivida no país. Deker sujeita-se a um conjunto de "consultas" onde os médicos aí presentes - cristãos fundamentalistas - lhe propõem resolver a sua sexualidade que mais não é do que uma "desordem mental", e cujos tratamentos serão devidamente suportados por várias seguradoras com quem existem acordos. No fundo, aquilo que o próprio Estado suporta é uma concordância silenciosa permitindo que estas seguradoras estabeleçam contratados com curandeiros - na mais selvagem das designações - mesmo contra indicações das organizações médicas nacionais e internacionais que advertem sobre os perigos que estes "tratamentos" podem provocar quer física quer psicologicamente naqueles que a eles possam eventualmente recorrer.
Num registo intenso e pessoal que ultrapassa todas as noções de humanidade a que um indivíduo se possa sujeitar, Christian Deker faz uma sentida e por vezes emotiva viagem onde não só coloca a descoberto médicos nos quais o paciente deveria depositar toda a sua confiança mas que, na prática, funcionam não como elementos fiáveis mas sim como fundamentalistas dispostos a colocar em risco a vida daqueles que tratam em nome de "programas de cura" - financiados - e que praticam graças aos seus preconceitos.
No final de Die Schwulenheiler, o espectador que poderia olhar para as sociedades mais "evoluídas" de uma Europa em transformação questiona-se até que ponto existe evolução numa sociedade que questiona a individualidade de cada um não com a curiosidade de acolher a diferença mas sim através do dedo acusador de alguém que a recusa.
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9 / 10
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Cedo (2014)

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Cedo de Vicente Moreno é uma curta-metragem de ficção brasileira presente na secção Internacional da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu até ao passado dia 9 de Maio na Cantábria, em Espanha.
Num qualquer hospital, um paciente acamado escuta uma reportagem sobre a Eutanásia. Quando o enfermeiro que trata dele se aproxima, o homem verbaliza-lhe algo que fica ocultado do espectador.
Ao mesmo tempo no corredor ao lado, a sua filha é abordada pela direcção do hospital que a questiona quanto aos pagamentos em atraso sobre os cuidados médicos prestados ao seu pai. A crise e a consequente falta de dinheiro fazem-na revelar que terá de ficar sem casa.
Vicente Moreno apresenta uma silenciosamente devastadora curta-metragem onde se colocam várias questões sociais que em pouco mais de treze minutos tem o seu merecido espaço. Por um lado o espectador é imediatamente confrontado com uma reportagem sobre eutanásia... o direito de escolher a "morte amiga", indolor e reconfortante. A ouvi-la está um homem cujas forças parecem abandoná-lo a um ritmo acelerado e que tem uma última vontade. Um último pedido que tece àquele que de mais perto o acompanha.
No fundo todos nós sabemos qual o pedido pois este é inserido em toda aquela atmosfera de fim. De passagem para uma outra dimensão que termine com o sofrimento de um homem que parece já não ter ser. No entanto, o dilema moral é colocado àquele que o escutou e em confissão sentiu o seu pedido. O dilema moral não é para este homem que definha mas sim para o enfermeiro que acompanha todos os momentos bons e menos bons de todos os pacientes com quem se cruza diariamente. É a ele que compete o auxílio necessário para que tudo termine. Se para um é o fim de uma difícil etapa, para o outro é o culminar de todo um conjunto de questões com as quais terá de se debater a partir desse momento.
Mas os dilemas não terminam por aqui. Eles continuam "mesmo ao lado" quando uma filha esgotada pelo desgaste do seu pai se vê, também ela, confrontada não só com a sua extinção mas, ao mesmo tempo, com o terminar dos seus bens e seguranças de uma vida de trabalho e esforço. O dinheiro é escasso e os bens providenciam os bons cuidados do seu pai. Que sistema é este que para tratar de um moribundo condena à miséria económica e social aqueles que os acompanham e que estão assim limitados nos seus recursos?
No final o espectador é então confrontado com aquela questão que ensombra toda esta curta-metragem e que afecta os seus três personagens... Afinal, até que ponto existir é diferente de viver? Para aquele homem preso a uma cama que o vê definhar aos poucos a sua existência já não é viver. Para o enfermeiro que o acompanha, o dilema moral no qual é colocado podem significar que a sua vida deixa de ter uma existência. Finalmente, para a filha que se vê na eventual perda de um pai e dos seus bens para a manutenção do seu conforto pode, também ela, significar que apenas existe sem viver.
O dilema é assim a questão fundamental de todo este argumento que dá vida - ironia da construção frásica - a todo um conjunto de perguntas que o espectador vê (in)voluntariamente colocadas à sua frente em tão pouco tempo como o é os treze minutos quase silenciosos desta curta-metragem, que o perseguem e fazer questionar não só nas suas crenças como naquelas dos que acompanha. Afinal, contrariamente ao que tantas vezes é difundido, a eutanásia não é uma escolha dos que ficam mas sim daqueles que percebem ter chegado o seu momento de partir.
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9 / 10
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Najes (2014)

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Najes de Bahman Ark e Bahram Ark é uma curta-metragem de ficção iraniana presente na Competição Internacional da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu entre os dias 2 e 9 de Maio últimos na Cantábria, em Espanha.
Nasser (Nasser Hashemi) trabalha à noite no seu táxi. Desvia o olhar por momentos e atropela um cão. Decide levá-lo a um veterinário e de seguida para sua casa onde poderá recuperar mas... conseguirá ele manter o "impuro" dentro do seu espaço?
Bahman Ark e Baheam Hajaboullo escrevem este cru argumento sobre os limites - ou falta deles - da compaixão humana. Até que ponto consegue um Homem estar indiferente ao sofrimento alheio mesmo que este não seja do seu semelhante mas sim do seu "mais fiel amigo", numa sociedade que considera o cão como o mais impuro dos animais? Será o animal mais impuro do que o Homem se o abandona à sua sorte?
Enquanto o espectador é deixado a reflectir sobre este dilema - talvez não acentuado para a sociedade dita ocidental - Najes leva-o ainda a uma interessante observação... Se inicialmente somos confrontados com o taxista "Nasser" que atropela o cão e somos por momentos levados a reparar nas suas mãos que o transportam - e que na prática foram as "armas do crime" -, não é menos verdade que momentos depois observamos novamente um par de mãos - as do veterinário - que cuidam do animal em estado crítico transformando-se agora no esperado instrumento da sua salvação. O dilema de que ambas servem como instrumento de morte ou de vida está assim presente neste filme que se centra não tanto no atropelamento em si mas sim nas acções e atitudes daqueles que directa ou indirectamente participam nos acontecimentos posteriores que simbolizam nada mais nada menos do que a hipótese de vida - ou não - de um ser em necessidade.
No entanto, é sobre "Nasser" que recaem todas as atenções, das demais personagens anónimas e das quais nunca observamos os rostos bem como do espectador que o observa e às suas decisões, na medida em que é ele que se encontra sob um risco próximo. Não só por ter dentro de sua casa um animal que todos consideram imundo e proibido mas também por não poder livrar-se dele podendo este acto causar a sua morte. Para os vizinhos este cão é um incómodo e para a sua mulher a fonte de todos os seus problemas uma vez que lhe sujou a casa graças à desonra da sua presença. Assim, questionamo-nos de imediato sobre as diferenças culturais presentes - um "nós" e um "eles" aqui colocado - mas principalmente sobre aquilo que nos aproxima do dilema deste homem... como conseguirá ele colocar em causa e em risco aquilo que é na prática o principal, ou seja, a vida... Uma vida, independentemente da sua forma ou origem.
É no silêncio de uma noite escura - um aplauso à direcção de fotografia de Hamid Mehrafrooz que tudo esconde e pouco revela - que todas as decisões e discussões são celebradas... O que será feito dele se desrespeita a lei mas principalmente quem será ele se abandonar aquele pobre animal a um anunciado trágico destino e fim? Como se sentirá depois com a sua consciência e com os seus actos? É no seio dessa mesma noite escura que ele toma a decisão mais importante da sua vida sendo que também é no seu rumo que vacila e se arrepende.
Forte, intensa e profundamente humana é a interpretação de Nasser Hashemi como um homem respeitador não só na sua profissão como na sua vida mas que ousa desrespeitar os costumes e as ditas leis em favor de algo maior... a preservação de uma vida. Sendo as acções para com o próximo uma parte significativo daquilo que nos define enquanto Humanidade, Nasser Hashemi encarna todos os dilemas do mundo em breves vinte minutos de duração desta curta-metragem optando por deixar com o legado das decisões da sua personagem a essência daquilo que o define bem como a essa Humanidade tantas vezes tida como perdida.
Simples e diferente, esta curta-metragem iraniana esquece barreiras e fronteiras colocando-se no centro de um mundo mais humano onde coloca um "irracional" no centro da história mas um bem "racional" no centro das decisões conferindo assim a Hashemi uma forte e muito dinâmica interpretação e a Najes uma certificação de qualidade pela força humana com que a dupla de realizadores dinamiza a sua mensagem.
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9 / 10
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As He Lay Falling (2014)

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As He Lay Falling de Ian Waugh é uma curta-metragem britânia de ficção que fez parte da secção Internacional da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu até ao passado dia 9 de Maio na Cantábria, em Espanha.
Georgios (Christopher Greco) viajou para a Escócia desde a Grécia. Numa das aldeias mais remotas das Highlands escocesas ele tenta reconstruir uma vida deixando para trás tudo o que o liga às suas origens.
Envolvendo-se fisicamente com Bronte (Simone Lahbib) e provocando as invejas de William (Bill Fellows), Georgios tem de aprender não só a desaparecer - do passado - e encontrar uma forma de se envolver - com o presente.
Num misto de história de fuga e redescoberta de um lugar onde se inserir, Ian Waugh consegue com o seu argumento entrar nas profundezas de um local que parece destinado a esconder aqueles que fogem de um passado que, de alguma forma, os persegue. Assim são apresentadas as Highlands de uma Escócia profunda que tão rude é climatericamente como a nível daqueles que nela viram o seu novo espaço para viver. Rudeza essa que se afirma como apropriada para receber aqueles que fogem de algo e que se sujeitam a uma exploração barata em nome da sua própria sobrevivência satisfazendo as suas necessidades básicas e, ao mesmo tempo, garantindo ao elemento mais elevado da pirâmide a satisfação dos seus caprichos mais animalescos.
Longe de qualquer sentimentalismo que apenas surge num único momento quando "Georgios" arrisca saber um pouco daquilo que deixou para trás - por motivos que nunca nos são revelados - Christopher Greco - o actor - confere-lhe uma rudeza e indiferença ao espaço e àqueles que o rodeiam que só quebram quando sente necessidade de lutar por aquele pouco que lhe resta da sua própria dignidade. Eventualmente fugido de uma crise económica da sua Grécia natal, "Georgios" sente nesse único momento que se transformou... que é outro homem... alguém a quem a vida não sorriu e graças a todas as suas transformações, o melhor será não dar qualquer sinal da sua existência àqueles que ficaram para trás. Como alma errante, a sua única solução é seguir caminho em frente até chegar ao próximo posto onde continuará a lutar pela sua sobrevivência... mais ou menos digna.
Se é um facto que Christopher Greco tem a interpretação dominante em toda a curta-metragem conferindo-lhe a dose exacta de desespero que se pressupõe que o seu "Georgios" deva transmitir, não é menos verdade que As He Lay Falling tem toda uma qualidade técnica que entrega a este filme o ambiente perfeito para o espectador sentir a referida espiral descendente a um inferno bem real, nomeadamente através da sua direcção de fotografia da autoria de Julian Schwanitz que entrega à Escócia todo aquele imaginário de local recôndito onde apenas os mais destemidos - ou desesperados - se encontram, e todo um trabalho de caracterização de Sarah Cairncross que espelham no rosto de Greco o desespero - e por vezes desistência - que o seu "Georgios" deve transparecer.
As He Lay Falling é um filme cru sobre aqueles que se limitam a sobreviver sem esperar nada em retorno... Tal como o seu título indica, sobre aqueles que lentamente como em repouso se limitam a cair sem conseguir parar.
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9 / 10
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Safari (2014)

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Safari de Gerardo Herrero é uma curta-metragem de ficção espanhola presente na secção Nacional da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu na Cantábria, em Espanha entre os dias 2 e 9 de Maio últimos, sendo também uma das curtas-metragens finalistas na sua categoria ao Goya da Academia Espanhola de Cinema.
Um dia aparentemente normal. Um instituto como tantos outros. Tudo se transforma de forma inesperada quando Bobby (Joey Jarossi) entra armado e pronto para matar.
Tragicamente para a nossa realidade, Safari de Gerardo Herrero é uma curta-metragem que pode estar livremente inspirada num dos inúmeros ataques homicidas-suicidas que têm ocorrido nos mais diversos liceus norte-americanos. Quando "Bobby" entra naquele instituto com um conjunto significativo de armamento (na prática bastaria apenas uma para já ser preocupante), o espectador perde-se de imediato com pensamentos e instintos de sobrevivência, ou seja, aquilo que o preocupa é de imediato quem, se é que alguém, vai sobreviver a este massacre.
Num liceu - local onde supostamente todos lutam por passar anónimos mas onde apenas alguns conseguem - "Bobby" atingiu o seu ponto de ruptura por motivos que nos são inicialmente ocultados. Aquilo que o espectador testemunha mais não é do que um acto bárbaro e violento que pode apenas ser o reflexo de uma juventude perturbada por um qualquer distúrbio psicológico. No entanto, o que aconteceria se fosse possível efectuar uma viagem ao passado e se conseguisse saber aquilo que sucedeu antes para transformar aquele jovem num homicida? Quem seria ele antes deste ponto de ruptura? Quais seriam, se alguns, os seus objectivos?
No fundo, aquilo que Safari obriga o espectador a ponderar é sobre o que acontece quando algum destes jovens anónimos... não o é assim tanto aos olhares daqueles que o acompanham e que o transformam num potencial alvo de todas as más intenções! Será esse tal "limite" apenas o fruto de um distúrbio psicológico ou, por sua vez, o resultado de uma perseguição implacável à qual alguém um dia cedeu?!
No mundo mordaz que é o de um liceu onde todos se tentam afirmar perante os seus pares impondo-se muitas vezes através da força e da humilhação, este liceu - como tantos outros - tem uma quantidade igual de vítimas em potência que se tornam os alvos das más intenções alheias... e nem todos resistem de igual forma. "Bobby" é assim o fruto de uma anti-socialização. O alvo "perfeito" de um conjunto de sorridentes e aceitáveis arruaceiros que se afirmam pelo seu poder económico ou social, o tal "status" académico que muitos invejam como tendo nos outros jovens de sucesso, e que estes utilizam como a forma de passarem impunes às ditas humilhações que perpetuam em silêncio. O seu silêncio como resultado da desejada impunidade... o silêncio da vítima como resultado de uma humilhação que os envergonha. E finalmente também o silêncio daqueles que incutem formação académica nos alunos mas que se esquecem de olhar por eles naqueles breves intervalos onde ninguém está realmente a "olhar".
Sem retirar responsabilidade à violência perpetrada por "Bobby", não podemos também deixar de olhar para os seus precedentes e os eventuais acontecimentos que lhe deram início. Quem seria "Bobby" antes deste fatídico dia?
Com um ritmo frenético e uma sentida tensão desde o primeiro instante em que a normalidade já não o parece, Safari destaca-se ainda por uma coordenada direcção de fotografia de Rafael Reparaz que consegue dividir esta curta-metragem no pré e pós-acontecimento captando no primeiro uma luz que irradia um futuro brilhante, e no segundo momento a sua ausência como que símbolo de um futuro perdido.
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9 / 10
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Not Anymore: A Story of Revolution (2013)

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Not Anymore: A Story of Revolution de Matthew Vandyke é uma curta-metragem documental de origem norte-americana, síria e turca que esteve presente na secção Social da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu até ao passado dia 9 de Maio na Cantábria, em Espanha.
Esta curta-metragem documental entrega ao espectador uma diferente abordagem da revolução síria, ou seja, separando-se dos relatos oficiais da mesma, Not Anymore: A Story of Revolution permite-nos entrar no conflito através do olhar de Omar "Mowya" Attab - um rebelde sírio - e de Nour - uma jornalista - que, no terreno lutam pela liberdade do seu povo e nos acompanham pelos destroços de guerra criados por um regime opressor e maníaco.
Dotado de um registo documental que não se esquece o lado humano daqueles que lhe dão vida, esta curta-metragem reúne um conjunto de testemunhos e perspectivas que permitem que o espectador não só observe o grau de transformação geográfica do país que aos poucos definha pelas constantes guerras localizadas, pelos cercos organizados e também pelas retaliações governamentais que são frequentemente levados a cabo como forma de repressão pelas cidades que apoiam os rebeldes, aqui estamos ainda perante uma transformação pessoal de alguns dos intervenientes que na primeira pessoa falam do que foram e daquilo em que "agora" se transformaram. De pessoas simples e comuns com profissões ou ocupações banais, muitos destes rebeldes estão agora preparados para uma vivência completamente diferente daquela que em tempos pensaram ter.
No entanto, repletos de esperança nos olhos, tanto Mowya como Nour desabafam sobre o futuro - ou aquilo que dele esperam - sobre a forma como têm projectos para o mesmo - seu e do país - e principalmente com o desencanto como o dito Mundo Ocidental ignora (in)voluntariamente o conflito e as vítimas que ele deixa para trás ao ponto filmar um gato que cruza uma rua pois, segundo Mowya, "como na América os animais têm mais importância do que as pessoas na Síria, talvez assim por lá fiquem mais atentos se se filmar um gato".
De registo na primeira pessoa a um importante relato de um conflito que não sendo silencioso é preocupação menor deste ocidente, Not Anymore: A Story of Revolution é um grande testemunho sobre a resistência, sobre a (sobre)vivência e principalmente sobre um futuro que se espera como livre para todos. No entanto, uma questão subsiste... como pode a liberdade alguma vez existir se estes momentos de desespero de tantos continuam a ser esquecidos?
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9 / 10
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quinta-feira, 14 de maio de 2015

B. B. King

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1925 - 2015
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Los Huesos del Frío (2014)

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Los Huesos del Frío de Enrique Leal é uma curta-metragem espanhola de ficção presente na secção competitiva Nacional da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu na Cantábria, em Espanha entre os passados dias 2 e 9 de Maio e que assume como um dos mais intensos e dramáticos filmes curtos do último ano.
Domi (Marta Larralde) faz uma longa viagem para trazer o seu irmão Ángel (Manuel Gimeno) para casa. Uma viagem durante os tempos de insegurança da Guerra Civil Espanhola por entre a fome e a brutalidade dos eventos que irão para sempre marcá-la.
Para lá de ser um imaginário próximo da realidade portuguesa não só pela vizinhança que estes acontecimentos têm com o nosso país como tendo - muitos deles - encontrado por cá desfechos nem sempre felizes, aquilo pelo qual o argumento e direcção de Enrique Leal mais surpreendem é por esta não ser apenas uma história de ficção mas sim uma história real baseada em acontecimentos da própria família do realizador ou, mais concretamente, quando sabemos que "Domi" mais não é do que a sua avó e "Ángel" o seu tio-avô.
De imediato o espectador é integrado nesta viagem por uma Espanha rural brutalmente marcada pela guerra civil não só pelo clima de medo que é imediatamente captado pelas câmaras - um contexto social e político - como também pelas extremamente pessoais e emotivas cartas trocadas pelos dois irmãos e que escutamos em voz-off. É nesta viagem de camioneta onde perfeitos desconhecidos acabam por trocar experiências silenciosas e momentos com o seu olhar ferido onde percebemos que cada história é uma fuga, uma dor e uma sobrevivência repletas de perdas pessoais independentemente dos seus contornos.
No meio destes silêncios que a tragédia se abate sobre estes viajantes que os força a sobreviverem - uma vez mais - mas agora em conjunto. Um silêncio que esconde a real dimensão da experiência pessoal de "Domi" e que revela que a sua viagem não é de ida mas de um regresso amargurado onde as esperanças já não são ínfimas mas sim a confirmação da sua impossibilidade estando de um lado a repulsa pelo momento e do outro a emotividade do sentimento de perda e da dor como sua consequência directa.
Enquanto esta viagem decorre e o espectador aguarda com ansiedade o reencontro entre os dois irmãos, escuta e percebe também a forma como as mensagens implícitas nas cartas que ambos trocaram são cada vez mais não de uma espera pelo dia de amanhã mas sim de uma conformação com um fim inevitável. São a confirmação de que se recordam os bons tempos e a cumplicidade entre os dois mas, ao mesmo tempo, a percepção de que esses instantes não se voltarão a repetir tornando esta viagem - cuja conclusão é ainda desconhecida para o espectador - um momento cada vez mais angustiantes e de claustro pela saturação e desconforto que são transmitidos daquele espaço mínimo que vários partilham. E é quando a desgraça de instala não só no interior daquela camioneta como também no seu exterior com a aproximação dos rebeldes que o espectador percebe finalmente quando a trágica conclusão da viagem de "Domi".
Sem revelar este final - porque é obrigatório o visionamento desta curta-metragem - adianto apenas que termina também ela com um relato triste sobre o fim de Domi já em idade avançada às "garras" de outra tragédia como é o Alzheimer... mas ao mesmo tempo com um sinal de que a memória perdura para lá dos elementos que a confinam e que o último pensamento desta mulher movida pela coragem foi o nome do irmão que reencontrou de uma forma que nenhum de nós esperava enquanto escutava às cartas que ambos trocavam.
Com uma marcante e inspirada interpretação de Marta Larralde que encarna inicialmente o rosto de uma esperança por voltar a ter junto a si um dos seus para finalmente revelar uma expressão que vagueia num desespero de perda, Los Huesos del Frío exala excelência nas suas componentes técnicas desde a direcção de fotografia, ao guarda-roupa e banda-sonora que a colocam como uma das mais marcantes curtas-metragens do ano e uma assumida forte concorrente à nomeação ao Goya na sua respectiva categoria.
Intensa pela reconstituição histórica que Enrique Leal fez, Los Huesos del Frío transforma-se ainda num importante documento sobre um dos mais trágicos acontecimentos da Ibéria e, ao mesmo tempo, um marco na efectividade da Memória Histórica graças à disponibilidade de entregar ao grande público um testemunho íntimo e pessoal da sua própria família. Numa única palavra... excelência!
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10 / 10
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Garand (2014)

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Garand de Rodrigo Atiénzar é uma curta-mentragem espanhola de ficção presente na secção Nacional da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu na Cantábria, em Espanha até ao passado dia 9 de Maio.
Sem saber qual o seu fim, Fernando é convidado pelo patrão Antonio para um fim-de-semana de caça. A acompanhá-lo vão Helena e Marcos - mulher e filho - que se mantêm afastados deste propósito.
Quando um veado é inesperadamente abatido por Antonio, o jovem Marcos decide elaborar um plano de vingança com a ajuda de um dos trabalhadores de Antonio que decide assim dar-lhe uma dura e valiosa lição.
Para lá de uma não tão simples história de vingança, o argumento de Garand - da autoria do realizador - prima pela capacidade de estabelecer diversos outros caminhos prestes a serem explorados ou pelo menos mencionados no decorrer de toda a acção. Se inicialmente acompanhamos os propósitos desta família que tenta que o pai não perca o trabalho caindo nas boas graças do chefe, não é menos verdade que aos poucos assistimos a uma história que entra por um rumo onde se tenta demonstrar o poder - o verdadeiro poder - quem o exerce e a forma como o impõe aos demais. Longe de ser um líder ou denotar características de liderança, aquele homem revelasse enquanto um déspota que por saber ter tantos indivíduos sob a sua alçada ou usa - e deles abusa - para os seus propósitos independentemente das suas crenças pessoais. Nenhum deles conta verdadeiramente enquanto indivíduo mas sim como um veículo para o seu próprio exercício de poder podendo, inclusive, sofrer diversos tipos de humilhação se isso fôr vantajoso - ou desejado - pelo chefe.
Numa casa onde tantos funcionários existem cada um deles com os seus propósitos e funções, é de admirar que todo o ambiente se denote tenso e sem vida, escuro e quase fantasmagórico - brilhante a direcção de fotografia de Daniel Saavedra - que distribui por todo aquele espaço repleto de actividade uma inexistência de vida apenas semelhante a um espaço abandonado. Todos se tornam praticamente invisíveis apenas surgindo quando a sua presença é estritamente necessária. Todos, sem aparente excepção, repudiam aquele homem para quem trabalham apenas estando na sua companhia porque tal como todos os demais necessitam do seu sustento, sendo que nenhum tem por ele qualquer tipo de empatia.
É no entanto Marcos (Marcos Ruiz) que se destaca pela actividade justiceira. Não ignorando que o seu próprio pai é um dependente daquele homem, o jovem questiona-se se o seu próprio sustento e sobrevivência têm de depender da extinção dos demais... E quando a morte mais não é do que um fim para adornar uma parede... Não terá chegado a altura de fazer justiça pelas próprias mãos?
Pelo meio de uma história que se inicia como um retrato dos dias de hoje onde vale tudo para explorar e tudo se faz para sobreviver, o que acontece quando alguém decide contornar as regras e apresentar-se como alguém que se impõe, faz de Garand uma curta-metragem que rapidamente se deixa levar pelos contornos do cinema fantástico que sem grandes adornos ou efeitos se transforma num exemplar do cinema gótico e do macabro conseguido graças à já referida direcção de fotografia e a um sentido desejo de vingança que rapidamente transforma toda aquela casa senhorial num espaço labiríntico e claustrofóbico que num instante parece enclausurar todos no mesmo pequeno espaço.
É então que quando o espectador pensa que a caça terminou no bosque que circunda a casa que finalmente percebe que afinal esta está prestes a começar dentro daquelas quatro paredes e que a justiça e a consequente vingança ganham forma pelos comportamentos da mais inesperada das personagens - "Marcos" - e de todos aqueles que trabalham para "Antonio" que o desprezam com a mesma intensidade que este dava ordens ignorando aos seus olhos todo o mal que o transforma.
Dominação e vingança, abuso de poder e libertação face à opressão, Garand reflecte sobre a existência humana, sobre a sua condição e sobre o exercício de liberdade - ou sua privação - de uma sociedade dita moderna e onde seria de esperar que a consciencialização do homem o libertasse de amarras de outros tempos mas que, no entanto, estão aqui alegoricamente reflectidas sobre o espírito de um desporto mórbido, sem propósitos e que apenas confirma essa mesma dominação do Homem sobre o Homem onde o primeiro diz "eu possuo-te e faço de ti o que quero" e onde se espera que a resposta seja inexistente.
Sem esquecer a magnífica música original de Jorge Mira que faz de Garand um filme que oscila entre a comédia negra e o drama de vingança - muito negro -, o último destaque vai para a soberba interpretação de Mariano Venancio como "Antonio", um homem educado com a ideia de que ele é o centro do universo e que todos têm como obrigação reconhecer o seu poder e estatuto que oscila entre o desconfortavelmente simpático e o mórbido não esquecendo uma leve mas não breve descida à loucura que lhe condiciona todo o raciocínio transformando-o no tipo de vilão ideal, não diferenciado entre os demais que circulam todos os dias à nossa volta e que, como tal, se torna num perigo anónimo prestes a atacar a qualquer momento.
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9 / 10
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El Amor me Queda Grande (2014)

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El Amor me Queda Grande de Javier Giner é uma curta-metragem espanhola de ficção presente na secção Nacional da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que terminou no passado dia 9 de Maio na Cantábria, em Espanha.
Samuel (Izan Corchero) tem dez anos e está perdidamente apaixonado por Lucía (Lucía Caraballo). Lucía, agora com doze anos, tem um plano para se livrar do único obstáculo que a separa dos seus desejos de se tornar uma escritora, crítica de cinema e claro... rica.
Usando todo o seu charme e sedução, Lucía vai tentar convencer Samuel a ajudá-la no seu grande plano e, naquele banco de jardim, fazem-se promessas de amor eterno, cumplicidade e união apenas possíveis quando existe uma grande paixão.
Num mundo cinematográfico que facilmente se divide em comédia e drama, Javier Giner entrega-nos uma elaborada e assumidamente vincada comédia negra que tece a sua homenagem não só ao cinema negro de Hollywood como também se sente uma clara referência às comédias Almodovarianas dos anos 80 não deixando, ao mesmo tempo, de assumir um cunho muito pessoal do realizador e argumentista tornando-se esta curta-metragem a sua obra de referência.
Giner cria duas personagens perfeitas. Por um lado temos o jovem inocente - "Samuel" - que perdido de amores por uma rapariga é capaz de olhá-la como se mais ninguém existisse e equacionar até entrar nos seus planos maquiavélicos sem questionar o quão perigosos são. Por outro temos "Lucía", a perfeita vilã moderna que num misto de Bette Davis e Anne Baxter - brilhante caracterização de Paula Culebras, Teresa González e Elvira Guijarro - encarna o mal com rosto sedutor e inocente capaz de seduzir o mais desatento. A jovem Lucía Caraballo consegue não só conter elementos de comédia na sua interpretação como, ao mesmo tempo, denotar um fatalismo manipulador como se o seu plano fosse a sua última hipótese de poder vir a ser alguém - tantas preocupações para tão jovem idade - e seduzir o jovem "Samuel" através do ciúme que a sua paixão desperta. Sem esquecer que estamos perante uma história de crianças - no sentido destas serem os seus protagonistas - Giner cria um argumento que leva o espectador para a mais negra das histórias onde, na prática, se planeia um assassinato para prosseguir com uma vida mais "feliz" e "desimpedida".
A intensidade de Lucía Caraballo é desarmante. Por vezes questionamo-nos enquanto espectadores sobre a capacidade de um actor/criança entregar à sua personagem a carga dramática esperada para que a mesma seja credível. Caraballo comprova que não só é já uma actriz de força como não me espanta que nos próximos anos seja uma referência do cinema espanhol. A sua "Lucía" é uma femme fatale, aliás, uma enfant-fatale. "Lucía" sabe o que quer, como o quer e principalmente como o conseguir. Não se importa como, ou quem, o irá fazer... O importante é que o façam e que no processo percebam que a estão a agradar. Os seus propósitos são claros e os seus métodos e fins objectivos... Tudo é, para ela, feito com um fim maior que é, na prática, a sua felicidade e enquanto jovem que é, apenas a sua mãe parece ser o tal grande obstáculo que a privam da sua concretização. Caraballo entrega-se à sua personagem e transforma-a numa criança perigosamente manipuladora - depois disto quem disser que as crianças são todas inocentes... mente - e a sua segurança representativa fazem-na uma força a ter em conta. Não encontramos defeitos na sua interpretação... nem tão pouco a notamos vacilar enquanto manipula. Tudo está naturalmente estudado e sabemos que de uma ou outra forma ela é (será) uma vencedora. A sua "Lucía" é uma vencedora. Quer execute o seu plano ou não sai sempre a ganhar... por um lado pode livrar-se da sua mãe e por outro sabe que tem a seus pés qualquer um dos seus admiradores dispostos a tudo por ela. Apaixonadamente e sem muito esforço - mas muita convicção - o futuro (seja ele qual fôr) está nas suas mãos e por saber que é capaz de manipular "Lucía" fá-lo por satisfação, por prazer como se de um passatempo se tratasse.
"Às crianças que são adultos e aos adultos que são crianças"... É assim que Javier Giner caracteriza El Amor me Queda Grande conseguindo, desta forma, construir uma obra maior em formato de cinema curto e revelando ao mesmo tempo todo o seu potencial enquanto cineasta, enquanto director de actores e contador de histórias. No fundo dirige aqui um filme que é capaz de agradar aos mais novos pela presença de actores da sua idade - aproximando-os da sua cinematografia - e conseguindo que os mais velhos se relembrem das velhas histórias que fizeram a História do cinema. Giner assume-se como uma aposta mais que segura para a contínua excelência do novo cinema espanhol que não esquece as suas origens e que é através delas que se reinventa e constrói todo um potencial por explorar.
Ainda dois apontamentos positivos sendo o primeiro para a música original de Mariano Marín que leva o espectador a sentir a ambiência de um cinema clássico por vezes esquecido onde cada nota representa um sentimento ou expressão próprios, e ainda a magnífica direcção de fotografia de Joaquín Manchado que transforma um pequeno jardim madrileno num espaço onde as suas personagens podem num momento irradiar luz como rapidamente se transformarem em elementos negros quase sem expressão como se num labirinto cada vez mais apertado se encontrassem.
No final o espectador tem apenas um pensamento... Como se poderia imaginar que por detrás de uma história onde manifestações humanas como a manipulação, a chantagem, o ciúme e a intriga tivessem por detrás apenas um único sentimento... o amor?!
Intenso e provocador, El Amor me Queda Grande confere não só aos seus actores Caraballo e Corchero como principalmente a Javier Giner seu realizador e argumentista a obra de referência que a partir de aqui terão de superar. Sim... esta curta-metragem é assim tão boa!
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9 / 10
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Todo un Futuro Juntos (2014)

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Todo un Futuro Juntos de Pablo Remón é uma curta-metragem de ficção espanhola presente na secção Nacional da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu até ao passado dia 9 de Maio na Cantábria, em Espanha.
Dois homens num bar conversam sobre o seu trabalho na banca e como venderam acções numa quando indeterminada. Um deles - Carlos Fontaneda (Luís Bermejo) - queixa-se ao outro Juan Luis Cobo (Juan Villagrán) que está a ser incomodado à porta da sua casa por um grupo de manifestantes. Mas ao contrário dos dissabores esperados, esta manifestação trouxe-lhe uma surpreendente revelação.
Ao iniciar Todo un Futuro Juntos, Pablo Remón tem o cuidado de alertar o espectador que a curta-metragem se inspira numa conversa que o próprio escutou num bar. Adaptado livremente para que a ficção tivesse realmente o seu impacto, Remón recria aqui uma história onde a actualidade e o amor encontra uma inesperada e improvável dinâmica.
Numa Europa do Sul onde os despejos e a crise económica se têm feito sentir ao longo dos últimos anos criando uma série clivagem de classes para além de uma ruptura visível na sociedade, Todo un Futuro Juntos preenche a perspectiva que faltava para esta presente realidade... a do "outro" lado... A perspectiva daqueles que se encontram na cadeira do poder onde as decisões são tomadas de forma anónima e impessoal. "Juan Luis", o mais novo, queixa-se de forma impessoal e pouco empática de como são eles o centro de toda uma polémica que lhes é, de certa forma, imposta - também eles afectados porque tomam decisões que lhes são transmitidas vinda do topo e não de "livre" vontade - sendo o "sistema" (esse papão sem rosto) o verdadeiro responsável por tudo o que se passa à sua volta chegando até a pensar ser absurdo criminalizar os banqueiros. No entanto, "Fontaneda", o homem mais velho e director geral do banco, fala-lhe sobre como está a ser assediado à porta da sua residência por um conjunto de manifestantes onde destaca a presença de uma jovem e bonita mulher que olha para ele de forma insistentemente enigmática e por quem se sente atraído. Distante da natural antipatia que qualquer um de nós associa a um empregado bancário - há que dizê-lo - Luis Bermejo incute à sua personagem alguma humanidade tão invulgarmente associada a esta profissão nos tempos que correm revelando que para lá de bancário é um homem que vive, que pensa e principalmente que sente e que tem agora no rosto da tal jovem a personificação do mal imposto que tem de praticar.
Se por um lado Villagrán encarna o mal da sociedade e a indiferença que alguns tendem a denotar face aos reais problemas da mesma, Bermejo entrega um olhar dinâmico e reflexivo sobre esses mesmos problemas aos quais atribui um rosto e que na impossibilidade de os resolver revela passar noites de desassossego, de tormentos, de pesadelos com catástrofes e de morte (a social). No fundo, Bermejo é o início de uma consciencialização social... ou pelo menos assim o espectador o deseja. O amor tudo conquista - pensamos - até o coração mais duro... mas a realidade como todos nós bem a conhecemos está longe de ser tão lírica sendo, no entanto, este o ponto principal desta curta-metragem... fazer crer, esperar ou até mesmo desejar que exista um coração por detrás de uma tão grande desumanização.
Num plano sequência que nos aproxima dos actores como se por um lado o espectador esteja realmente naquele bar a escutar tudo o que eles dizem e por outro conferindo-lhes uma margem de manobra igualmente asfixiante da qual se sabe não poderem fugir, Todo un Futuro Juntos - nomeada ao Goya de Melhor Curta-Metragem de Ficção - vive num misto de ficção e realidade onde por um lado assistimos à dura realidade que povoam as nossas ruas e por outro somos presenteados com uma improvável história de amor que pode mudar o mundo - assim o desejamos - ao transformar a vida de um homem cheio de certezas e agora abalado pela incerteza do dia seguinte. Afinal, pensa o espectador, ainda existe alguma vida por detrás do fato e da gravata... ainda que improvável ou difícil de encontrar... ela existe algures.
"Donos" de duas interpretações ricas em conflituosidade de sentimentos, Villagrán e Bermejo inicial a sua prestação enquanto dois semelhantes e aos poucos revelam-se opostos. De um lado temos a indiferença para toda a realidade alheia e por outro temos a humanização de um homem que possivelmente viveu toda a sua vida sem pensar ou questionar que as suas decisões estavam de facto a afectar as vidas dos demais. Num mundo em que reinam números, prazos, verbas e valores que espaço poderia existir para o sentimento e para a paixão? Curioso o momento em que o "Homem" percebe que está realmente vivo e ainda mais o momento em que percebe que sente... E mais curioso ainda a perspectiva que Pablo Remón nos oferece ao possibilitar que o espectador conheça sobre o que realmente falam todos aqueles "homens engravatados" que trabalham num banco... Será a sua vida apenas gráficos, números e contas?! Ou para lá disso eles têm problemas reais como todos os demais?!
Com uma genial direcção de fotografia a preto e branco por parte de Christophe Farnarier, Todo un Futuro Juntos mescla a ideia de eventual documentário pelo relato inicial que nos dá conta que tem uma inspiração "real" convertendo-se, no entanto, numa deliciosa ficção que nos permite ver "o outro lado"... o tal dos números, impessoal e desprovido de sentimentos que, curiosamente, consegue também ele ver o "lado de cá". Inicialmente como uma sensação estranha, uma impressão ou até mesmo uma comichão desconhecida mas que aos poucos o conquista pela curiosidade, pelo olhar, pelos gestos e pelas motivações... Afinal o amor manifesta-se sempre de formas estranhas... e o "Fontaneda" de Luis Bermejo - numa genial interpretação - descobriu-o agora.
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9 / 10
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Rubita (2014)

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Rubita de Jota Linares é uma curta-metragem espanhola de ficção presente na secção Nacional da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu até ao passado dia 9 de Maio na Cantábria, em Espanha.
Norma (Maggie Civantos) imita Marilyn Monroe. Com uma peruca loira e um sinal característico perto da boca, coloca-se frente à câmara de Penéope (Marta Hazas) para uma tentativa de recriar a última sessão de fotos da diva norte-americana.
No entanto, há medida que o tempo passa as expectativas diminuem e o ambiente entre as duas mulheres torna-se tenso e intimidante ao ponto de se converter num jogo algo perverso de assédio e ameaça.
Paco Anaya e Jota Linares assinam um argumento que cruza o melhor do bom cinema dramático onde o conflituoso passado de duas personagens intervém para um confronto de personalidades do qual ninguém pode sair a ganhar. Livre de artifícios obrigando assim o espectador a concentrar-se única e exclusivamente nas interpretações de duas magníficas actrizes, Rubita leva-nos a uma interessante viagem onde por um lado o desejo e a perda se misturam e por outro a esperança e a vontade de viver dão lugar a dois imediatos opostos.
Se por um lado Civantos capta a essência de uma mulher doce e desesperadamente à procura de quem a ame, deixando-a portanto susceptível e disponível para o amor de um homem com quem se cruza, por outro lado Hazas interpreta uma mulher amargurada e eventualmente no limite que ama desesperadamente... o mesmo homem - "Román" (Ignacio Mateos).
O diálogo entre estas duas mulheres revela as suas essências; da mulher solitária e insegura que encontra finalmente o amor de Civantos, ao desespero de mulher atraiçoada e infeliz dentro da sua vida anteriormente completa a que Hazas dá corpo, ambas revelam uma alma perdida, susceptível de ser influenciada e acima de tudo o mais desesperadas. Desesperadas pelo amor... o que têm e o que perderam. Desesperadas por não conseguirem encontrar a plenitude ou por no percurso das suas vidas o terem perdido. Desesperadas por saberem que estão perante a "outra", independentemente de qual a sua própria perspectiva e principalmente desesperadas por compreenderem que uma delas - senão as duas - irão sair perdedoras de um duelo pelo qual não optaram.
O diálogo é, aliás, a essência de Rubita. Diálogo esse que sob uma magistral direcção de Jota Linares dá não só alma às referidas personagens como também um corpo aos seus medos, incertezas, receios e inseguranças que levam o espectador a esquecer tudo o que o rodeia. Concentramo-nos nas interpretações destas duas magníficas actrizes e sabemos que independentemente de acontecer - ou não - algo, assistimos às suas transformações... ao tal "ponto de viragem" que irá definir os seus destinos e que, ao mesmo tempo, as define enquanto seres. A câmara de "Penélope" funciona - aliás - como o perfeito confessionário que escuta, também ele desesperadamente, os desabafos de uma mulher que se deixou arrebatar pela imagem de um amor que poderá ou não ter. No entanto, esse confessionário é, ao mesmo tempo, um dedo acusador das suas acções, das suas incertezas e principalmente de uma presença que é tida - por "Penélope" - como invasora de um espaço que não era o seu. Se uma "Norma" demonstra insegurança, incerteza, algum negativismo e até uma certa jovialidade ou até mesmo inocência, "Penélope" afirma-se como a mulher amargurada, desapontada, traída e disposta a tudo para recuperar a dignidade que sente ter perdida. De alguma forma ambas são um seu próprio complemento de uma única mulher naquilo que poderíamos imaginar como o antes e depois de uma Marilyn Monroe que as suas próprias características físicas deixam adivinhar.
É esta a genialidade de Linares, ou seja, a capacidade de transformar todo um filme curto num história de actores, de interpretações, de personagens, de passados, de presentes e de uma ausência de futuros comuns ou individuais. Uma história dirigida ao âmago das emoções, das experiências e das sensações que apela a que o espectador entenda aquelas vivências, os seus sentidos e principalmente as suas frustrações, ambições e desejos... o sempre eterno desejo de amar e ser amado.
Rubita exala um ambiente etéreo como se nos encontrassemos num outro espaço distante e desconhecido, transformado pela magnífica direcção de fotografia de Manolo Pavón. Percebemos que aquele local muito se aproxima de um purgatório onde ambas (se) expõem e aos seus pensamentos. Tateiam a presença da outra de forma a conhecê-la, a perceber quem ela é e, de certa forma, a conseguirem também dar-se a conhecer tendo sendo a presença de uma genial direcção de actores de Jota Linares que se afirma como o terceiro - não presente - elemento desta brilhantemente dirigida curta-metragem.
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La Primera Piedra (2015)

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La Primera Piedra de Ángel Alegría e Daniel Ramírez é uma curta-metragem espanhola de ficção presente na secção Nacional da sexta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu na Cantábria, em Espanha até ao passado dia 9 de Maio.
Um rapaz (Adrián Viador) pretende enterrar a sua mãe que fora outrora a prostituta da cidade. Após a recusa de lhe fazerem um caixão para a mãe e sequer de a terem enterrada no cemitério da cidade, este rapaz tem de enfrentar a violência dos locais que não pretendem ter pecadores no seu espaço.
O argumento de Ángel Alegría, Daniel Ramírez e Eva Redondo livremente inspirado na obra As I Lay Dying, de William Faulkner entrega ao espectador num magnífico revivalismo do estilo western, uma história de honra e vingança, de calúnia e infâmia mas com uma profunda e sentida noção de justiça.
Tudo começa com a contida - mas evolutiva - interpretação de Adrián Viador que se apresenta como um jovem apagado numa sociedade controlada por pessoas bem mais poderosas e que encontram na sua frágil presença um escape para ridicularizar a mulher que tantos "utilizaram" para os seus prazeres escondidos - e que fora a sua mãe. Sociedade essa que ignora e repudia a existência de um jovem e principalmente a sua vontade de dar um descanso eterno à sua mãe apenas pela sua "profissão" de vida. Ignorados em vida e desprezados em morte, este jovem tem agora a tarefa inglória de dignificar o nome da mulher que o trouxe ao mundo. Mas quanto todos parecem jogar contra as suas vontades, ele apenas se poderá impôr pela força e pela consequente violência.
O seu percurso pela cidade é tudo menos pacífico, recusando-lhe desde o caixão - que o próprio terá de construir - até ser violentamente recebido com agressões físicas e tiroteio à boa e velha maneira do wild west.
Viador, contido desde o primeiro instante tal como um jovem ferido não só no seu orgulho como numa existência que nem sempre fora reconhecida - possivelmente para a sua própria protecção - tem no entanto uma força que o espectador não ignora. Uma raiva contida e uma sede por justiça frente àqueles que na vida da sua mãe terão, eles próprios, recorrido aos seus serviços e que agora na sua morte invocam imoralidade indesejada para o cemitério local... O mesmo espaço onde se diz que todos são iguais perante os olhos do Deus que temem - se é que esse lugar não é "por todo o lado".
Raiva essa que sendo inicialmente contida, cedo tem de se revelar e mostrar presente para defesa da memória da mãe mas também pela sua própria segurança pessoal que está a todo o momento ameaçada por aqueles que o querem fora da cidade. Apenas a justiça e dois improváveis aliados no Xerife (José María Blanco) e numa jovem prostituta (Eva Redondo) com quem estabelece uma relação próxima, podem salvar as nobres intenções deste jovem junto de todo um ambiente agressivo.
Se a história de honra e infâmia dá a La Primera Piedra o conteúdo suficiente para tornar esta curta-metragem num respeitado filme de género, não é menos verdade que toda a sua excelência chegam com os apurados detalhes técnicos que nos remetem para os bons western dos anos 50 e 60 ou até para um mais próximo como o é Unforgiven, de Clint Eastwood (1992). Desde a sua extraordinária recriação do espaço geográfico ou do seu guarda-roupa às mãos de Sílvia Maya, La Primeira Pedra apresenta ainda uma notável música original de Matt Elliott que insere imediatamente o espectador no ambiente perfeito. Sentimos o pó, o calor, o passado e até os nobres sentimentos que levam as suas personagens a lutar pela sua honra.
Filmado no Desierto de Tabernas, em Almería no sul de Espanha, num perfeito revivalismo do western spaghetti de Sergio Leone, La Primera Piedra prima ainda pela apurada direcção de fotografia de Pau Monràs que nos revela todo o ambiente agreste de um sul violento e onde a piedade não reservam lugar aos mais sensíveis.
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9 / 10
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Shortcutz Xpress Viseu - Sessão #53

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O Shortcutz Xpress Viseu está de volta, e desta vez uma semana mais cedo, para uma Sessão Especial - a #53 - dedicada ao Dia Internacional dos Museus.
Sem secção competitiva mas com uma noite recheada de bom cinema em formato curto, o SXV abre as portas para o segmento de Curtas-Metragens Convidadas onde serão exibidas as curtas O Quadro, de Luís Sérgio e Hélder Faria e The Short Tale of Sleepy Mary, de Patrícia Fernandes, Alexandre Marques e Sara Alves que estarão presentes na sessão para apresentarem o seu filme.
Como Projecto Convidado o SXV recebe Mulher Esqueleto, de Graça Gomes / CCV / Alunas do Internato de Sta. Teresinha, um filme curto musicado ao vivo sob coordenação de Ana Bento. Finalmente no segmento Shortcutz Around the World, o SXV exibe La Petite Fille, de Guillermo Alcalá distribuído pela MailukiFilms.
Assim para mais uma sessão de excelente cinema em formato curto a noite de sexta-feira pede a presença de todos no Museu Grão Vasco, em Viseu, a partir das 22 horas.
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