Nós na Rua de Luís Margalhau é um documentário português que teve recentemente a sua estreia comercial em sala e que nos transmite um mundo que é tantas vezes ignorado... o dos artistas de rua da Baixa de Lisboa.
Este documentário abre com a imediata percepção das ruas turísticas de Lisboa onde todos os mundos se cruzam... desde os turistas aos sem-abrigo, dos trabalhadores aos desempregados, padres, novos ou não tão novos, todos cruzam as ruas de forma mais ou menos anónima. E se isto não bastava para compreendermos a universalidade de uma cidade como Lisboa, é quando conhecemos os entrevistados que esta se confirma. Eles chegam de todas as partes... de outras localidades de Portugal, do Brasil, de Espanha e até da Suíça, são inicialmente conotados com a ideia de que são mais um conjunto de sem-abrigo que com um instrumento musical na mão encontram em Lisboa o seu próximo "pousio". Mas aos poucos percebemos que não é bem assim...
Nós na Rua leva-nos a conhecer alguns destes músicos de rua - alguns dos quais com formação superior na área - como Christian Grosselfinger com formação em música clássica e que deixou o Brasil rumo a Viena e da capital austríaca rumo a Lisboa onde toca violoncelo na Rua Augusta, ou Bernat Rebés Ruiz que deixou Barcelona e percorreu o norte de Espanha até chegar à capital onde no Chiado toca violino.
Conhecemos ainda Tony Banza, conhecido músico também no Chiado, que abandonou o seu Alentejo natal e que se encontra em Lisboa desde meados dos anos 80 onde toca e canta fados - alguns de sua autoria - ou ainda Ananda que abandonou a Suíça onde era professor rumo a Lisboa onde toca Didgeridoo. Conhecemos ainda entre os inúmeros artistas de rumo, Joel Oliveira, bailarino de samba que também na Rua Augusta revela ter o seu dia conquistado quando cativa a atenção das crianças que por lá passam com os seus pais, e ainda é voluntário na Missão Sorriso.
Todos eles com um ponto em comum ao revelarem que preferem tocar para um público na rua onde o improviso pode ser uma constante mas que, ao mesmo tempo, se libertam das condicionantes de uma sala de espectáculo onde nem todos lá conseguem chegar, muitas vezes derivado dos preços praticados na bilheteira mas todos, sem excepção, revelam que a sua sensação de liberdade é na rua sentida ao seu máximo. A arte como um serviço social capaz de transmitir (pelo músico) e receber (pelo público que passa) energia.
Mas nem tudo é dourado como poderia fazer antever esta sensação de liberdade e os perigos - ou pelo menos alguns precalços - podem também surgir nomeadamente com a imprevisibilidade climatérica - que Grosselfinger diz não ser muito sentida em Lisboa ao contrário de Viena onde começou - ou alguns atritos entre os diversos artistas de rua quando sentem o seu espaço ocupado, como revelado por Bernat, ou mesmo aquele que é mais provável e talvez um dos elementos mais importantes deste documentário quando revelados os valores das licenças que precisam possuir para poderem ser artistas de rua. Se o estilo de vida é assumidamente mais modesto, estes músicos questionam-se (e nos) sobre os valores praticados pela autarquia para lhes passar a licença. Valores que não só são extremamente elevados são também cobrados a um ritmo quase impossível de sustentar e, como tal, que leva os mesmos a viver numa clandestinidade que só joga contra vivendo num constante fugir das autoridades ou sujeitar-se às suas sentenças.
Interessante pela perspectiva e desmistificação da ideia pré-concebida de "artista de rua" como um mendigo que resolve "dar espectáculo", Nós na Rua lança - ainda que de forma tímida - o tal olhar sobre a multiculturalidade de Lisboa bem como sobre a crise e a necessidade que a uns obriga e a outros tira a vergonha de se lançarem sobre uma nova forma de adquirir o seu sustento e também alguma (ainda que relativa) liberdade.
O Marine de John Bonito é uma longa-metragem norte-americana de ficção e o típico filme de sexta-feira à noite que não adiantando nada de novo ao panorama cinematográfico não deixa, no entanto, de constatar naquelas listas de filmes que não sendo obras de arte conseguem por sua vez entreter o espectador mais descrente.
John Triton (John Cena) é um Marine condecorado que regressa a casa depois da sua dispensa contra vontade vindo do último conflito no Iraque. Já nos Estados Unidos e tendo como único passado o serviço militar, John encontra-se agora na difícil situação de tentar uma vida civil normal com um trabalho possibilitando assim a construção da sua própria família.
No entanto, nem tudo é simples e quando pensa estabelecer a sua vida - e umas férias - com Kate (Kelly Carlson), a sua mulher, Rome (Robert Patrick) um criminoso com quem se cruza rapta-a obrigando John a uma persguição sem limites pelos pântanos e floresta da Carolina do Sul.
Fazer um comentário a um filmes destes faz com que qualquer crítico de cinema queira dizer mais do que aquilo que ele realmente merece, ou seja, os pontos negativos são em quantidade tão vasta que não se sabe bem por onde começar. No entanto, o mais simples é dar início referindo a pobreza do argumento de Michell Gallagher e Alan McElroy que se prendem unicamente com um conjunto de lugares comuns que cativam todo um público sulista louco e dependente de armamento para quem este filme irá com toda a certeza fazer valer o tempo que se sentaram na sala de cinema. Desde o típico herói de guerra americano que regressa a casa para encontrar um sem número de situações e momentos com os quais não se identifica sem esquecer a sua inaptidão para um novo trabalho para o qual não se encontra preparado e ainda as suas memórias do tempo e esforço que dedicou a servir o seu país a nível militar, John Cena - o actor principal - é o típico "bruto sem miolos" que afinal os tem e não vai desistir de provar - mais que não seja a si próprio - que ainda está vivo e de boa saúde.
Cena por muito empenhado que esteja na defesa da sua interpretação e da sua personagem, revela rapidamente ser um peixe fora de água no que diz respeito à credibilidade com que apresenta o seu "John Triton" mas, ainda assim, consegue ser a grande mais valia deste filme que se torna risível desde muito cedo. As piadas "sem piada" e as vítimas que não o são tornam-se por demais óbvias desde o primeiro instante revelando-se ser apenas ou "boazonas" ou "durões sem mioleira" que disparam contra tudo e todos mesmo quando o objectivo é permanecer anónimo para conseguir fugir... Seriously... who does that?!
Robert Patrick que é possivelmente o rosto mais conhecido a nível interpretativo deste filme não conseguiu, também ele, regressar ao nível do estrelato que lhe conferiu Terminator 2 -Judgment Day ou tão pouco a qualidade interpretativa presente em Copland mantendo-se apenas um escassa chama da sua gélida interpretação do filme com Schwarzenegger do qual ainda hoje é vítima da piadola também presente em The Marine.Com a qualidade a "zeros" e o intenso trabalho que efectua apenas para justificar o próximo cheque e mostrar que ainda se mantém vivo, a grande pergunta que o espectador faz é... não valia mais estar quieto e encostar-se a um canto?! Patrick está uma sombra gasta daquilo que em tempos prometeu ser, e a este ritmo... não lhe auguro boa continuação.
No final o que resta deste filme? Muito pouco... os lugares comuns e as piadas óbvias quer de cariz sexual quer de cariz macho man abundam e todos tentam provar que são melhores que o vizinho do lado - e na prática até podem ser - e os argumentistas tiveram ainda o cuidado de meter ao barulho um polícia justiceiro que afinal pode não ser tão justo assim, deixando toda a execução da dita justiça às mãos de Cena que, na prática, parece mesmo o exterminador justiceiro prestes a entrar em acção com o trunfo de resistir a tudo mesmo não sendo um ciborg de metal.
Se The Marine é mau?! Claro que é... mas é nesse mesmo factor que reside o seu maior potencial. Será que alguém vai assistir a este filme com o pensamento de que vai ter aqui o próximo sucesso a nível de qualidade? Obviamente que não - assim o espero -, mas não é menos verdade que que é o tipo de filme que funciona quando o espectador não quer pensar em absolutamente em nada - ou tão pouco emocionar-se com os acontecimentos - ficando apenas com as pipocas na mão e o sumo na outra a ver um filme que sai mais depressa da cabeça do que aquela com que lá entrou. Por outras palavras, The Marine é um filme tão oco... mas tão oco... que sem ter graça nenhuma não deixamos de nos divertir a vê-lo, remetendo-se ao mesmo tempo para aquele conjunto de filmes que todos adoramos ver mas nenhum de nós o admitirá publicamente porque fica mal na "ficha".
Se a tudo isto juntarmos um John Cena sem qualquer expressão facial, Robert Patrick que parece já ter contribuído para também deixar de as ter - Hello botox! - uma Kelly Carlson que se lembrou de inalar hélio como se fosse água e uma Abigail Bianca - what?! - que quer a todo o custo ser a vilã boazona... então temos The Marine como aquele filme que tem tudo para correr mal... que realmente correu.
Ainda assim, e por muito que custe a acreditar a qualquer um de nós... Diverte... E no final, quando nos propomos a ver tão "obra", o que interessa é se ele cumpriu o seu propósito... e cumpre... mal, mas cumpre.
Boca do Inferno de Laura Seixas é uma curta-metragem portuguesa de ficção cujo argumento de Renata Pereira nos leva a uma viagem pela dor e por um luto não cumprido.
Madalena (Mafalda Marafusta) é uma jovem adolescente que tem no mar o seu refúgio. Os seus pensamentos dirigem-se sempre para o mesmo espaço onde jaz uma fotografia como homenagem a alguém que, ficamos a saber, ser o seu irmão.
Enquanto a mãe a quer afastada daquele espaço, Madalena não resiste em lá voltar uma e outra vez... até uma última.
A realizadora dirige uma história cujo argumento de Renata Pereira se prende principalmente com uma mensagem de perda, de sentimento de inadaptação e com um luto ainda não cumprido. É neste misto de emoções ainda não exteriorizadas que Boca do Inferno dá corpo a uma família que aos poucos se desmorona após a morte de um dos seus. No fundo, como ultrapassar (sobreviver) a morte de um filho - que nem nome existe para aqueles que lhe sobrevivem - e ainda assim conseguir manter unida a restante família sabendo que ali existe sempre um lugar à mesa que nunca mais será preenchido e cuja falta será diariamente sentida? Como manter viva uma memória sabendo que ela será eternamente dolorosa e que cada recanto da casa faz lembrar aquele que partiu? E depois destas questões sem resposta, como equacionar ainda a presença de mais um filho com o mesmo desporto que viu partir um deles?
Como se estas questões não bastassem, Boca do Inferno tem, no entanto, como ponto de partida principal uma questão invulgar nos filmes do género, ou seja, a perspectiva do irmão - neste caso irmã - que sobreviver à perda do seu par mais directo. A nível de enredo que foque o irmão sobrevivente, de repente lembro-me de duas obras que focam este assunto sendo a primeira a britânica/irlandesa In America, de Jim Sheridan (2002) e a norte-americana Imaginary Heroes, de Dan Harris (2004). Se em ambas a perda do irmão é o elemento de ligação com Boca do Inferno, o evento separa-as... Uma a morte chega pela doença, na outra pelo suicídio e aqui por acidente mas a todas une o sentimento de que aquele que fica é agora o elo de ligação a uma família que se separa e desfaz à medida que os dias passam. Incapazes de unirem aquilo que parece destinado a separar-se, são estes filhos - o sobrevivente - que sofre no silêncio uma dor a quem ninguém presta atenção. Uma dor que os desfaz duplamente pela perda do irmão e pela família que é uma fraca imagem daquilo que em tempos foram. Incapazes de responder a esta espiral de perda o único aparente conforto é a dor de que eles próprios podem também partir sem uma resposta.
No final a todas estas histórias um elemento mais as une... a capacidade de ser retratado o luto a que um dia se vêem obrigados a cumprir. O luto que encerra finalmente um capítulo de dor extrema que sem fazer esquecer aquele que partiu lhes confere, ao mesmo tempo, aquele ponto final que lhes permite seguir mais um dia... um dia de cada vez. O luto que celebra a vida daquele que partiu mas também a vida daqueles que têm agora de redefinir o seu espaço e transformar-se tendo a ausência de um sempre a seu lado.
Mafalda Marafusta tem uma interpretação central em toda esta história e consegue agarrar essa perspectiva da sobrevivente. Todo o filme gira, de uma ou outra forma, em torno dos seus sentimentos e reacções, da forma como lida com a tal família em ruptura e com o seu próprio desejo de enfrentar o mesmo destino que o irmão mas sobrevivendo e honrando a sua memória. No entanto, não é através do risco que o irá conseguir mas sim pela forma como encara o desafio e sai dele com vida. Com a memória dele presente mas com a consciência que ela só poderá honrá-la se o recordar... e vivendo. Ainda que de alguma forma contida, Marafusta consegue ser um espírito dinâmico ao longo de Boca do Inferno e manter toda a coerência desta curta-metragem que apenas peca pela dinâmica familiar que deveria ser mais espontânea, mais emotiva e menos "concentrada" no texto. A dor tem de vir - espera-se - do seu âmago e de um desgaste psicológico e não de uma palavra expressa num papel.
Destaco ainda, e de forma positiva, a captação de uma Boca do Inferno - a localidade - e da sua ambiência cinza tão típica daquela zona de Cascais pela direcção de fotografia de JP Caldeano conferindo à curta-metragem o seu próprio sentimento de luto e tristeza.
A Minha Rua de Rúben Ferreira é uma longa-metragem portuguesa de ficção e a mais recente do realizador da saga O Lenhador Assassino e O Estrondo.
Diego e Adrian são dois irmãos que desde jovem idade tudo fizeram juntos. Quando aos cinco anos de idade fogem de casa para viver na praia, conhecem Irina, uma menina por quem os dois se apaixonam e que ditará a sua separação para o resto das suas vidas.
Enquanto Adrian tem uma vida descansada junta da sua amada, Diego leva uma vida de tortura e miséria que o irão transformar num Líder do crime... de uma rua cujo futuro será incerto tendo, no entanto, uma única certeza... o passado irá reencontrá-lo para um ajuste de contas.
Rúben Ferreira e Alex Carvalho voltam a unir esforços para escrever o argumento desta longa-metragem que tem um início promissor... o registo docu-ficcional da história de vida de "Diego" entrega a A Minha Rua um início interessante e auspicioso por se inserir no campo do mockumentary despertando assim no espectador uma certa curiosidade para onde se dirige o rumo deste jovem desprezado que, sendo ficcional, consegue encontrar um elemento de "real" ao relatar a sua amarga história.
No entanto, e ainda que com um pequeno segmento que consegue cativar e permanecer seguro nos seus objectivos, não é menos verdade que rapidamente cai no habitual registo das obras previamente mencionadas repetindo a fórmula já conhecida em O Estrondo ou O Lenhador Assassino... aqui sem mortes devido a um qualquer psicopata mas sim graças a um "senhor do crime". Longe de grandes novidades ou de um enredo que fuja às já habituais cenas de gangs mafiosos ou carochos com a mania que são batidos no crime e na vida criminosa de rua que conhecemos dos demais filmes de Ferreira, A Minha Rua prima essencialmente por ser um filme cuja dinamização do seu realizador é o seu ponto forte.
A dinâmica entre as personagens já a conhecemos... vivem de alguns gags e momentos com algumas lutas e palavreado forte e feio bem à moda do norte - alhos e bugalhos que, sejamos honestos, até conseguem ter alguma piada - mas para além disso não existe nenhuma evolução ou crescendo nas personagens que seja digno da atenção que lhes prestamos sendo na sua essência o mesmo actor sem qualquer tipo de caracterização ou envelhecimento mesmo que passem meses ou anos entre segmentos. Os diálogos são - na sua essência - cópias fiéis daquilo que já vimos e há excepção do espaço em que estão inseridos que vai ocasionalmente mudando, A Minha Rua é... mais do mesmo. Mais do mesmo ao ponto de no final de tantos filmes já realizados encontrarmos ainda actores que olham directamente para a câmera, que se riem quando deveriam mostrar medo pela personagem que se tem como criminosa e que, na prática, mais parece um ensaio geral do que propriamente filme final.
Tecnicamente também não encontramos novidades ou até mesmo acréscimo de qualidade... Pelo contrário, A Minha Rua demonstra que o tempo que levou a ser feito não é proporcional à qualidade que se esperava ou encontra nas obras iniciais do jovem realizador que não só continham interessantes planos sequência e um cuidado extremo com aspectos como o som ou a fotografia e que são aqui esquecidos deixando a desejar quanto ao resultado final.
A Minha Rua é, no final, resumido a uma pequena frase ou pensamento... Um aplauso à iniciativa mas já não tanto ao trabalho aplicado que se esperaria ser muito melhor.
El Efecto Barrymore de Federico Calabuig é uma curta-metragem espanhola de ficção que nos apresenta dois amigos Rafa (Andres Acevedo) e Rocío (Beatriz Arjona). Numa amena conversa Rafa revela que nunca foi beijado. Rocío não acredita pois o seu amigo é atraente e já manteve relacionamentos com várias mulheres. Mas... que intenções terá Rafa para revelar o seu segredo?
Calabuig escreve mais um argumento que se centra nas relações entre amigos e as cumplicidades que se formam entre si e que permitem todos os desabafos e confidências mais íntimas. Aqui, a história - e o título desta curta-metragem - remetem-nos para Never Been Kissed, de Raja Gosnell, (1999) - um sucesso imediato nos idos anos 90 - onde uma ora tímida e inadaptada ora esfuziante Drew Barrymore nunca havia sido beijada por aquele que considerava o rapaz perfeito.
Os nossos protagonistas repetem esse êxito mas de uma forma não tão inadaptada como a de Barrymore. Tanto "Rafa" como "Rocío" são dois amigos que escondem - ou por medo da rejeição ou até mesmo da sua confirmação - essa mútua atracção e que seguiram as suas vidas sem nunca pensar nos "e se..." que esta relação podia reservar para lá da óbvia amizade que os une. Não tão inadaptada como a de Barrymore pois confirma-se que as suas vidas já os levaram a outras relações - meramente sexuais - e que o espaço reservado ao "amor" foi sempre preservado para a possibilidade de um dia se confirmar uma aproximação entre ambos.
Pelo meio da mentira - inofensiva - e das pequenas brincadeiras que as trocas de olhares confirmam, o desejo está explícito nos seus comportamentos e nas suas forma de estar... na sua linguagem corporal que assume a vontade e que a atracção não é meramente ficcional.
El Efecto Barrymore confirma não só a possibilidade de contar uma história bem escrita e muito bem interpretada - um aplauso a Acevedo e Arjona - como principalmente a coerência de sentimentos que, uma vez mais, Calabuig transmite com as suas palavras e direcção sem nunca esquecer o lado inocente com uma pitada de desejo e principalmente tudo filmado com o intuito de deixar no espectador um simpático sorriso.
Puertas Adentro de Jonatan Olmedo é uma curta-metragem argentina de ficção que nos relata os quinze dias de férias entre Nahuel (Lucas Lagré) e Franco (Ronan Núñez), dois amigos de longa data - que se reunem em casa deste último - e que por entre alcoól e alguns jogos fazem denotar uma acentuada tensão sexual entre ambos.
O realizador e também argumentista Jonatan Olmedo recria um conto que transporta o espectador para uma tórrida temporada de férias onde não só o calor climatérico se denota mas sim - e talvez principalmente - aquele que provém da óbvia ligação física que une as duas personagens. O argumento de Olmedo começa inicialmente por apresentar dois amigos que se divertem com as normais cumplicidades adolescentes e que confirmam ao espectador que estamos perante uma relação de sentida e notória amizade. No entanto, à medida que a confirmamos, também se torna evidente que existe algo mais por detrás daqueles sorrisos e proximidade e que os olhares de ambos deixam, aos poucos, escapar.
Se inicialmente estes sinais se materializam por pequenos toques que qualquer um de nós poderia achar serem aqueles decorrentes de uma conversa típica entre dois adolescentes, cedo se percebe também que aqueles olhares escondem algo mais do que uma simples amizade, e a cumplicidade já sentida entre os dois cedo revela que existe desejo e tensão sexual entre ambos. Como se costuma dizer em linguagem mais popular "os olhos são os primeiros a comer", e aqui este mesmo ditado materializa-se.
Mas esta materialização prende-se apenas no campo de uma hipótese... materializa-se pelo olhar de ambos e por aquele tido pelo espectador que os observa mas, na prática, entre "Nahuel" e "Franco" nada ocorre que o confirme deixando apenas no ar a sugestão de que sim, é uma eventualidade ou pelo menos uma possibilidade.
Sem que nenhum admita verbalmente, e para lá dos seus olhares cúmplices e de uma total entrega, toda a comunicação corporal tida pelos dois revela o desejo, a extrema vontade e principalmente uma entrega que está para lá da simples amizade... Desejo? Paixão? Algo puramente sexual? O espectador nunca chega a confirmá-lo mas, no entanto, tanto a interpretação de Lucas Lagré - "Nahuel" - como a de Ronan Núñez - "Franco" - são suficientemente esclarecedoras, tal o seu empenho, de que algo mais forte os une do que apenas uma amizade.
No entanto, e como é habitual nos contos sobre a amizade, o despertar do desejo, e a sexualidade em tão jovem idade, está também por detrás de Puertas Adentro o compreensível medo da inadaptação, da aceitação - ou falta dela - e principalmente do preconceito e da ostracização. Na teoria individual sentida por cada um, tanto "Franco" como "Nahuel" percebem que se desejam mas, no entanto, até que ponto aquilo que sentem e vêem no outro não pode ser apenas algo que imaginam como sendo real? É essa incerteza e medo do "depois" que os impede de assumir um conjunto de desejos e sentimentos obrigando-os a viver na incerteza dos seus e principalmente naquela que se prende com as vontades do outro. O toque derivado das pequenas brincadeiras típicas da masculinização e da transformação de idade transformam-se assim nos únicos contactos tidos como aceitáveis perante uma sociedade incerta e que julga com medo de ser julgado.
Ainda um apontamento positivo para a direcção de fotografia de José Mariano Pulfer que confere com a sua captação de luz transformar todo um ambiente climatericamente quente num espaço de exacerbada tensão sexual que não confirmada é obviamente sentida.
. Filme:Line of Credit, de Salomé Alexi (Geórgia/França) Menção Especial:Violet, de Bas Devos (Bélgica/Holanda) e For Some Inexplicable Reason, de Gabor Reisz (Hungria) Documentário:Dancing with Maria, de Ivan Gregolet (Argentina) . Curta-Metragem de Ficção:Everything Will Be Okay, de Patrick Vollrah (Alemanha) Menção Especial: Emoke Zsigmond, Playfellows - interpretação (Hungria) Curta-Metragem Documental:Is Longing Hereditary, de Gitte Hellwig (Alemanha) Curta-Metragem de Animação:Whole, de Robert Banning e Verena Klinger (Alemanha) Curta-Metragem Experimental:Démontable, de Douwe DijkstraI (Holanda) Menção Especial:Ferdinand Knapp, de Andrea Baldini (França) . Prémio do Público - Longa-Metragem:Transit, de Hannah Espia (Filipinas) Prémio do Público - Curta-Metragem:Shipwreck, de Morgan Knibbe (Holanda)
. Filme do Ano:Il Giovane Favoloso, Carlo Degli Esposti (prod.), Mario Martone (real. e arg.), Ippolita Di Majo (arg.) e Elio
Germano (actor) Realizador do Melhor Film Italiano: Paolo Sorrentino, Youth - La Giovinezza Realizador Revelação: Edoardo Falcone, Se Dio Vuole Comédia:Noi e la Giulia, de Edoardo Leo Produtor: Cinemaundici /Luigi Musini e Olivia Musini com Rai Cinema, em colaboração com On My Own, Anime Nere, Torneranno i Prati e Last Summer Actor Protagonista: Alessandro Gassmann, Il Nome del Figlio e I Nostri Ragazzi Actriz Protagonista: Margherita Buy, Mia Madre Actor Secundário: Claudio Amendola, Noi e la Giulia Actriz Secundária: Micaela Ramazzotti, Il Nome del Figlio Argumento: Francesco Munzi, Fabrizio Ruggirello, Maurizio Braucci com a colaboração de Gioacchino Criac, Anime Nere Argumento Original:Il Ragazzo Invisibile, Alessandro Fabbri, Ludovica Rampoldi e Stefano Sardo Montagem: Cristiano Travaglioli, Anime Nere e Youth - La Giovinezza Fotografia: Luca Bigazzi, Youth - La Giovinezza Música Original: Nicola Piovani, Hungry Hearts Canção Original:"Sei mai stata sulla luna?", de Francesco De Gregori Sei Mai Stata sulla Luna? Som: Maricetta Lombardo, Il Racconto dei Racconti Design de Produção: Dimitri Capuani, Il Racconto dei Racconti Guarda-Roupa: Massimo Cantini Parrini, Il Racconto dei Racconti Carreira: Ninetto Davoli Prémio Nino Manfredi: Paola Cortellesi Prémio Especial: Cristina Comencini, Latin Lover Nastri Europeo: Laura Morante e Lambert Wilson Nastro Internazionale: Douglas Kirkland .
O Shortcutz Viseu está de volta para a Sessão #56 e desde vez com dois dos seus segmentos habituais. Sem sessão competitiva, o Shortcutz Viseu apresenta o segmento Filme Convidado onde será exibido Bicicleta, de Luís Vieira Campos que estará presente para apresentar o seu filme bem como outros elementos da equipa técnica.
A noite de sexta-feira conta ainda com o segmento Shortcutz Around the World onde será exibido o filme curto Marioneta Ciega, de Jaime Fidalgo (Espanha) que marca a presença de mais um filme do catálogo da distribuidora basca Mailuki Films no Shortcutz Viseu.
Para mais uma noite de bom cinema o local para se estar em Viseu é o Museu Grão Vasco, a partir das 22 horas.
A vencedora de um Oscar Helen Mirren - pelo filme The Queen - foi galardoada pelo Congresso Mundial Judaico com um Prémio de Reconhecimento pela sua interpretação no filme Woman in Gold, de Simon Curtis.
Num evento celebrado na Neue Galerie, em Nova York, Ronald S. Lauder - Presidente do CMJ - refere que é "graças à a espantosa interpretação de Helen Mirren que desencadeia uma vez mais a discussão junto do público internacional sobre este legado particular da Segunda Guerra Mundial que ainda não foi devidamente resolvido por muitos governos e museus".
Woman in Gold segue a história de Maria Altmann, uma austro-americana que ocupou os cabeçalhos da comunicação social graças à sua batalha legal contra o governo austríaco ao reclamar cinco obras de Gustav Klimt - incluindo o Retrato de Adele Bloch-Bauer I sobre o qual se refere este filme - que foram roubadas à sua família pelos nazis durante o conflito mundial.
Ao receber este troféu Mirren refere que "fazer parte deste filme e preservar o legado de Maria Altmann foi uma experiência excepcional desde o seu início (...) Estou profundamente emocionada por receber este prémio do Congresso Mundial Judaico, uma organização que faz um trabalho extremamente importante por todo o mundo ao advogar os direitos dos judeus".
Woman in Gold estreou em Portugal no passado dia 4 de Junho com o título Mulher de Ouro.
. Filme - Lola de Ouro:Victoria, Jan Dressler e Sebastian Schipper (prods.) Filme - Lola de Prata:Jack, Jan Krüger e René Römert (prods.) Filme - Lola de Bronze:Zeit der Kannibalen, Milena Maitz (prod.) Documentário:Citizenfour, de Laura Poitras (real. e prod.) e Dirk Wilutzky e Mathilde Bonnefoy (prods.) Filme Infantil/Juvenil:
Rico, Oskar und die Tieferschatten, Philipp Budweg e Robert Marciniak Realizador: Sebastian Schipper, Victoria Actor: Frederick Lau, Victoria Actriz: Laia Costa, Victoria Actor Secundário: Joel Basman, Wir sind Jung. Wir sind Stark. Actriz Secundária: Nina Kunzendorf, Phoenix Argumento: Stefen Weigl, Zeit der Kannibalen Montagem:
Who Am I - Kein System ist Sicher, Robert Rzesacz Fotografia: Sturla Brandth Grøvlen, Victoria Música Original: Nils Frahm, Victoria Design de Produção:
Who Am I - Kein System ist Sicher, Silke Buhr Guarda-Roupa: Barbara Grupp, Die Geliebten Schwestern Som:
Who Am I - Kein System ist Sicher, Florian Beck, Ansgar Frerich e Bernhard Joest Caracterização: Nannie Gebhardt-Seele, Tatjana Krauskopf, Die Geliebten Schwestern Honorário: Barbara Baum Prémio do Público:Honig im Kopf, de Til Schweiger .
A curta-metragem Mulher.Mar, de Filipe Pinto e Pedro Pinto foi a vencedora do mês de Maio do Shortcutz Viseu.
Mulher.Mar torna-se portanto na mais recente nomeada ao Prémio Shortcutz Viseu de Melhor Curta do
Ano na
segunda cerimónia a realizar em meados de 2015 competindo para este
galardão com as curtas-metragens Salomé, de Sofia Bairrão, Bicho, de Carlos Jesus e Miguel Munhá, Cigano, de David Bonneville, Pela Boca Morre o Peixe, de João P. Nunes, Boy, de Bruno Gascon, Contactos 2.0, de Bernardo Gomes de Almeida e Rodrigo Duvens Pinto, Bodas de Papel, de Francisco Antunez, O Reino, de Paulo Castilho, Não são Favas, são Feijocas, de Tânia Dinis e Dédalo, de Jerónimo Ribeiro Rocha que foi a vencedora do passado mês de Abril.