quarta-feira, 17 de junho de 2015

Marioneta Ciega (2013)

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Marioneta Ciega de Jaime Fidalgo é uma curta-metragem de ficção de produção mexiano-espanhola e que leva o espectador para uma viagem a uma mente atormentada por um crime do passado.
Tommy (Tomás Pozzi) é um marionetista depressivo e por vezes até maníaco que já no extremo das suas capacidades actua pelas ruas da cidade como forma de expiar os seus tormentos. Por detrás de uma profissão que fará - em princípio - rir os demais, Tommy esconde um terrível passado ensombrado por um segredo que o condiciona.
Conseguirá ele dominar as memórias que o atormentam ou, por sua vez, irá ele ceder ao monstro que tem dentro de si?
Por vezes em narração ou entrevista directa quase documental, por vezes como uma encenação de um passado e presente traumático, o argumento de Marioneta Ciega da autoria do realizador Jaime Fidalgo, Paco Martínez e Tomás Pozzi confere ao espectador uma interessante experiência e descida aos infernos de uma mente perturbada não só pela sua própria decadência como principalmente pelos actos bárbaros cometidos na sua espiral descendente. Com um constante medo presente em todos os seus actos e acções, "Tommy" é um homem perdido na memória de um passado rico em afecto mas que devido aos seus próprios demónios e excessos lançou num rumo de perdição do qual alguma vez conseguiria sair.
No seio de uma vida de alcoól e alguns problemas mentais e de afirmação, "Tommy" apenas conseguiria afirmar-se pela libertação do animal que tinha dentro de si. Os afectos e os laços estabelecidos com aqueles (aquela) com quem de mais perto vivia e estabelecia o seu porto seguro ruíam sempre que se aproximava de alcoól. Ao libertar o tal monstro desconhecido do qual tanto se refere, "Tommy" dava lugar ao irracional, à violência e à brutalidade de um ser que aparentava não existir. É então que num breve mas violento momento condena não só a sua sanidade como a segurança da mulher que lhe trazia conforto numa experiência traumática para ela e reveladora da sua verdadeira essência.
Marioneta Ciega vive num constante recriar de um espírito carnavalesco, feirante ou até mesmo burlesco. No seio de artistas de rua sempre tão místicos como exagerados, esta curta-metragem dá lugar ao tal "outro eu" presente dentro de cada um destes seres que semeiam os sorrisos mas vivem dentro de uma psique desconhecida e instável - brilhante a inserção de um actor tão característico como é Javier Botet como um "Peter Pan" não tão simpático quanto aparenta mas sim uma mente igualmente alheada e que testa - e tenta - o lado escuro dos demais.
Grande a interpretação de Tomás Pozzi que desde o primeiro instante revela o corpo e alma de uma mente atormentada e perdida nos seus pensamentos e pecados, assim como grande é a direcção de fotografia de Jorge Delgado e Lucas Romeo que juntamente como a direcção de arte de Deborah Deneo, David Bermejo, Enma Domínguez e Diego Duarte recriam as luzes, as cores e o espírito de um ambiente circense sem esquecer, no entanto, todo o lado negro que se apodera de um conjunto de almas que aparentam estar perdidas nos seus próprios pecados.
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8 / 10
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terça-feira, 16 de junho de 2015

10 Sombras Douradas (2015)

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10 Sombras Douradas de Duarte Oliveira é uma média-metragem portuguesa de ficção numa adaptação livre de Ten Little Indians, de Agatha Christie.
Dez amigos são convidados para uma festa mistério na sua antiga escola tendo como única condição o uso de uma máscara para aquando da sua chegada. Uma vez iniciado o jantar de confraternização, recebem algumas mensagens indo um por um caindo às mãos de um misterioso assassino.
Ainda que o jovem realizador tente construir um filme com uma premissa suficientemente interessante para a construção de uma história de mistério e suspense, na verdade 10 Sombras Douradas encontra-se a milhas de uma qualidade aceitável para a história que se propõe recriar. No entanto, comecemos pelo seu lado positivo... Todo o segmento inicial das filmagens aéreas - feitas pelo realizador ou obtidas por outros meios - revelam uma qualidade muito interessante e apelativa para conseguir prender o espectador logo nos instante iniciais. No entanto, à medida que 10 Sombras Douradas ganha a sua própria "vida", percebemos que a qualidade ficou, também ela, pelos referidos instantes iniciais.
Se o espectador conseguir esquecer todo aquela instabilidade que a "câmara na mão" tráz à dinamização do filme mas que podem facilmente ser justificados pelos poucos recursos que o realizador eventualmente tenha, não é menos verdade que somos incapazes de esquecer o extremamente frágil e pouco livre argumento que nos remete para uma cópia "barata" da referida obra de Agatha Christie não tendo qualquer rumo próprio que se distancie da mesma ou conseguindo afirmar-se ou à sua originalidade. Mas, comecemos...
Após o simpático momento inicial onde o espectador é levado a uma interessante viagem pelo espaço geográfico e ao som de uma interessante banda-sonora - não original mas bem pensado há que dizê-lo - 10 Sombras Douradas apenas sobrevive com momentos pouco trabalhados de um argumento pobremente representado. Esqueçamos que estamos perante uma obra amadora onde todos os intervenientes não terão - em princípio - qualquer tipo de formação na área mas, na prática, uma boa parte do texto parece estar a ser lido à medida que é representado, sem qualquer espontaneidade ou descontracção.
Os erros interpretativos tidos em certos casos como extensões do argumento prendem-se com momentos como por exemplo aquando da primeira morte um dos intervenientes diz "ela não está a respirar"... Ora... se supostamente levou um tiro na cabeça estranho seria se respirasse... Se a isto juntarmos o facto da captação de som ser extremamente débil tendo por diversas ocasiões lábios que mexem e som que chega depois... passamos de uma história de mistério a uma que obrigatoriamente começa a fazer (sor)rir.
Existem ainda os cómicos de situação... Jovens (muito jovens) actores a interpretar adultos bem sucedidos e com carreiras empresariais e diplomáticas de sucesso que vestem Armani e afins ou até mesmo mulheres (jovens raparigas) que defendem a moral e bons costumes em ruas de prostituição com o único intuito de assassinar aquelas que "fazem pela vida". "Less is more" é um conselho sempre presente para um realizador em início de "carreira"... e quando os meios são poucos é preferível apresentar uma história, que mesmo tendo como inspiração um dos mais interessantes e intensos contos de suspense e mistério, se apresente como algo original e bem executado... algo que aqui não consegue ser.
Depois temos ainda as falhas técnicas que prejudicam a obra na sua credibilidade nomeadamente a captação de som que torna muitos dos diálogos imperceptíveis ou mesmo a caracterização que aquando do esfaqueado... se percebe o saco de "sangue" dentro do bolso da sua camisa. E finalmente o espectador pergunta-se... para quê a máscara com que todos chegam inicialmente se, na prática, ela é imediatamente removido revelando a identidade de todos? Não deveria estar ser mantida durante algum tempo? (pelo menos mais do que aquele que é!).
10 Sombras Douradas não diverte, não entretém ou tão pouco se afirma como uma média-metragem com algum detalhe de qualidade firmada. No entanto, e em defesa do jovem realizador há que dar-lhe os parabéns pela iniciativa, pelo espaço em que filmou que denota potencial para uma história do género (que é como quem diz parabéns pelos meios reunidos e pelos apoios que possa ter conseguido), bem como pela vontade de criar que teve neste filme o seu objecto de estudo... que se espera ser aperfeiçoado para um futuro novo trabalho.
Ainda como nota pessoal... parabéns pelos bloopers finais que conseguiram ser de qualidade bem superior ao resultado final de 10 Sombras Douradas conferindo alguma comédia a alguns momentos que supostamente seriam sérios mas que na realidade não passaram de aborrecidos.
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1 / 10
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Globo d'Oro Itália 2015: os vencedores

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Grande Prémio da Imprensa Estrangeira: Torneranno i Prati, de Ermanno Olmi
Filme: Il Giovane Favoloso, de Mario Martone
Comédia: Noi e la Giulia, de Edoardo Leo
Primeira Obra: Vergine Giurata, de Laura Bispuri
Documentário: Rondi, la Vita, il Cinema e la Passione, de Giorgio Treves
Curta-Metragem: 2 Piedi Sinistri, de Isabella Salvetti
Actor: Luca Zingaretti, Perez
Actriz: Alba Rohrwacher, Hungry Hearts
Argumento: Il Racconto dei Racconti, Edoardo Albinati, Ugo Chiti, Matteo Garrone e Massimo Gaudioso
Fotografia: La Giovinezza, Luca Bigazzi
Música: Latin Lover, Andrea Farri
Carreira: Dante Ferreti
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segunda-feira, 15 de junho de 2015

O Mundo Cai aos Bocados e Ainda Assim as Pessoas Apaixonam-se (2014)

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O Mundo Cai aos Bocados e Ainda Assim as Pessoas Apaixonam-se de Henrique Pina é uma curta-metragem portuguesa de ficção que conta com as interpretações de Albano Jerónimo, Joana Solnado, António Victorino d'Almeida e José Wallenstein.
Ele (Albano Jerónimo) é um assassino profissional. Ela (Joana Solnado) é casada com Bebé (António Victorino d'Almeida), um dos mafiosos mais poderosos do país. Ambos procuram uma forma de deixaram a vida que até então têm seguido. Conseguirão eles fugir de uma vida que os persegue?
Francisco Baptista escreveu o argumento desta curta-metragem dando-lhe um ambiente que vive num limbo, ou seja, tão depressa o espectador se acha num espaço negro que está prestes a explodir de violência como, de seguida, sente ter acabado de entrar num qualquer espaço pacífico onde nada de terrível pode acontecer. Dito isto, aquilo que mais sobressai das histórias que se interligam a certa altura reside na sensação de escape e consequente esperança que se percebe nos intuitos de cada uma das referidas personagens. Se por um lado "Ele" é um homem marcado por uma vida em que a morte sempre esteve à sua volta, não é menos verdade que Albano Jerónimo lhe confere uma aparente humanidade que deseja fervorosamente sair daquele estilo de vida e da convivência com aquelas pessoas que em nada abonam à sua integridade. É quando se vê no seio de um final de vida - eventualmente o seu - que finalmente percebe ter chegado o fim. Ao mesmo tempo, temos "Ela", a mulher de um perigoso mafioso, interpretada por Joana Solnado que deseja desesperadamente um novo começo de vida... a maternidade... talvez um amor. Mas a sua liberdade tem um custo que terminará com o mesmo pagamento.
As segundas oportunidades são difíceis... para alguns até impossíveis pressupõe este argumento de Francisco Baptista. Impossíveis porque toda a sua vida esteve dependente de uma existência alternativa onde muitos foram os contratos e cedências efectuados em nome de um estilo de vida diferente... sem problemas, excepto os morais. A liberdade, quando desejada, é aqui um bem difícil de alcançar. Ela é comprometedora e pressupõe que muitas são as pontas soltas e traições que se imaginam. Muitos são os contratos que são colocados em causa e que fazem renascer o medo das traições ou das chantagens. No fundo, a liberdade é um bem precioso demais do qual algures no tempo se abdicou sem contrapartidas e que agora não se recupera.
Ainda que todas estas premissas funcionem na sua forma mais básica, O Mundo Cai aos Bocados e Ainda Assim as Pessoas Apaixonam-se é uma daquelas curtas-metragens que pelo seu argumento merecia ter ido mais longe e explorar mais o lado negro da cidade, das suas pessoas e dos seus ambientes. Filmar o "outro lado" da cidade, aquele que poucos conhecem e a maioria prefere nem sequer pensar que existe. O lado escuro... o lado ilegal... e o lado perigoso. Ainda que qualquer um de nós simpatize com a figura de António Victorino d'Almeida, é quase impossível olhar para o maestro e pensar nele enquanto um mestre do crime... um vilão. A sua personagem deveria ter ido ao limite e ultrapassá-lo... deveria ter sido mais negro... menos disponível e acentuadamente mais presente.
Jerónimo e Solnado denotam alguma química que, também ela, não tem a sua devida exploração e confirmação (ou não), conferindo apenas uma ligação que pouco mais existe que para além da conveniência - há que ver para perceber - e o espectador fica com um certo amargo de boca por não conseguir confirmar algumas ligações e fundamentos destas personagens.
Um apontamento positivo ainda para a direcção de fotografia de António Lima e Paulo Segadães que captam a luz e as sombras em doses iguais conseguindo separa os dois segmentos do filme... aquele que se prende com o lado negro e aquele no qual se espera por uma redenção e oportunidade.
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7 / 10
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Cavalo Dinheiro premiado em Espanha

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O filme Cavalo Dinheiro, de Pedro Costa, saiu vencedor do Prémio Especial do Júri da primeira edição do FILMADRID - Festival Internacional de Cine de Madrid.
O FILMADRID nasceu "com a determinação de descobrir caminhos inéditos e movediços dentro da paisagem cinematográfica contemporânea, promovendo e exibindo um cinema de marcado carácter autoral" proporcionando "uma maior cultura cinéfila aos madrilenos".
De destacar que a obra de Pedro Costa iniciou o seu percurso no Festival Internacional de Cinema de Locarno onde recebeu - entre outros - o Prémio de Melhor Realizador.
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Palmarés
Melhor Filme da Competição Oficial: Belluscone. Una Storia Siciliana, de Franco Maresco (Italia)
Prémio Especial do Júri - 1ª edición #FILMADRID: Cavalo Dinheiro, de Pedro Costa (Portugal)
Melhor Filme - Prémio Vanguardias: Resistfilm, de Pablo Marín (Argentina)
Menção Especial Competição Vanguardias: The Last Mango Before the Monsoon, de Payal Kapadia (Índia)
Melhor Filme - Prémio Júri Jovem: Things of the Aimless Wanderer, de Kivu Ruhorahoza (Ruanda/Reino Unido)
Melhor Filme - Prémio Júri CAMIRA: The Reaper, de Zvonimir Juric (Croácia/Eslovénia)
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Jameson Notodo FilmFest 2015: os vencedores

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Prémio Jameson Melhor Filme de Triple Destilación: Algunos Hombres Siguen Sin Aclararse, de Claudia Loring Rude e Víctor Nanclares
Prémio Paramount Melhor Remake: Mamen, de Mario Martínez Duque
Prémio LG Melhor Curta Gravada com Telemóvel: El Palo, de Miki Esparbé
Prémio Latinoamérica en Corto: El Teorema de la Salchicha, de Samuel Chalela Puccini e Fidel Alfonso Barboza Gómez (Colômbia)
Prémio Canal + #ABUSADETUIMAGINACIÓN: Tu Viejo, de Pablo Vara
Prémio ECAM Melhor Realizador: 5 Segundos, de David González Rudiez
Prémio Melhor Argumento: Show Cooking, de Juan Cavestany
Prémio TVE Cámara Abierta 2.0 Melhor Documentário: Ártico Extremo, de Jorge Juárez López
Prémio Melhor Filme de Animação: La Merienda, de Armando Jiménez Rodríguez
Prémio Público de EL PAÍS: Para Sonia, de Sergio Milán
Prémio IED Melhor Direcção Artística:
Ana Rodríguez, BlaBlaBla
Prémio Melhor Actor: Luis Zahera, El Club de los 27
Prémio Melhor Actriz: Beatriz Arjona, Los Pies Fríos
Prémio Talento Visual: Eat My Shit, de Eduardo Casanova
Prémio Melhor Som: Julio Revilla e Miguel Torres, BlaBlaBla
Prémio de Distribuição: BlaBlaBla, de Alexis Morante Portillo, Hostiable, de David Galán Galindo, Uno+Uno, de Juanca Vellido e Eva Moreno e El Club de los 27, de Carlos Solano
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domingo, 14 de junho de 2015

FIKE - Festival Internacional de Curtas-Metragens de Évora 2015: os vencedores

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Prémio FIKE Melhor Ficção: ФЕВРАЛЬ, de Ruslan Magomadov (Rússia)
Prémio FIKE Documentário - Troféu FIKE / Estação Imagem: Formalin und Spiritus, de Iris Fegerl (Alemanha)
Menção Especial Documentário: Noz w Wozie, de Vita Drygas (Polónia)
Prémio FIKE Melhor Animação: Fuligem, de David Doutel e Vasco Sá (Portugal)
Menção Especial Animação: Padre, de Santiago Bou Grasso (Argentina)
Prémio Direção Reginal de Cultura do Alentejo para o Melhor Filme Português: Fuligem, de David Doutel e Vasco Sá (Portugal)
Prémio Comendador Rui Nabeiro para a Melhor Curta-Metragem Europeia: Anomalo, de Aitor Gutierrez (Espanha)
Prémio FIKE Melhor Argumento: Tormenta de Verano, Florencia Román (Argentina)
Prémio FIKE Melhor Fotografia: Soroa, Gaizka Bourgeaud (Espanha)
Menção Especial Fotografia: ФЕВРАЛЬ, de Ruslan Magomadov (Rússia)
Prémio FIKE Melhor Representação: Dominique Pinon, Ferdinand Knapp
Menção Especial Melhor Representação: Nicholas Denton, Rabbit
Prémio do Público: Conte de Fées à l'Usage des Moyennes Personnes, de Chloé Mazlo (França)
Prémio da Organização: Cinema, de Rodrigo Areias (Portugal)
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sexta-feira, 12 de junho de 2015

David di Donatello 2015: os vencedores

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Filme: Anime Nere, de Francesco Munzi
David Giovani: Noi e la Giulia, de Edoardo Leo
Documentário: Belluscone. Una Storia Siciliana, de Franco Maresco
Curta-Metragem: Thriller, de Giuseppe Marco Albano
Filme Europeu: The Theory of Everything, de James Marsh (Reino Unido)
Filme Estrangeiro: Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance), de Alejandro González Iñárritu (EUA)
Produtor: Anime Nere, Cinemaundici e Babe Films, com Rai Cinema
Realizador: Francesco Munzi, Anime Nere
Realizador Revelação: Edoardo Falcone, Se Dio Vuole
Actor Protagonista: Elio Germano, Il Giovane Favoloso
Actriz Protagonista: Margherita Buy, Mia Madre
Actor Secundário: Carlo Buccirosso, Noi e la Giulia
Actriz Secundária: Giulia Lazzarini, Mia Madre
Argumento: Anime Nere, Maurizio Braucci, Francesco Munzi e Fabrizio Ruggirello
Montagem: Anime Nere, Cristiano Travaglioli
Fotografia: Anime Nere, Vladan Radovic
Música Original: Anime Nere, Giuliano Taviani
Canção Original: "Anime Nere", de Anime Nere, por M. de Lorenzo (intérprete) e Giuliano Taviani (letra e música)
Som: Anime Nere, Stefano Campus
Direcção de Produção: Il Giovane Favoloso, Giancarlo Muselli
Guarda-Roupa: Il Giovane Favoloso, Ursula Patzak
Caracterização: Il Giovane Favoloso, Maurizio Silvi
Design de Cabelo: Il Giovane Favoloso, Aldo Signoretti e Alberta Giuliani
Efeitos Especiais Digitais: Il Ragazzo Invisibile, Visualogie
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Globo d'Oro 2015: os nomeados

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Melhor Filme
Anime Nere, de Francesco Munzi
Fango e Gloria, de Leonardo Tiberi
Il Giovane Favoloso, de Mario Martone
Mia Madre, de Nanni Moretti
Il Racconto dei Racconti, de Matteo Garrone
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Melhor Comédia
Arance e Martello, de Diego Bianchi
Buoni a Nulla, de Gianni Di Gregorio
Il Nome del Figlio, de Francesca Archibugi
Latin Lover, de Cristina Comencini
Noi e la Giulia, de Edoardo Leo
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Melhor Primeira Obra
Arance e Martello, de Diego Bianchi
Cloro, de Lamberto Sanfelice
La Terra dei Santi, de Fernando Muraca
N-Capace, de Eleonora Danco
Vergine Giurata, de Laura Bispuri
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Melhor Documentário
Il Diario di Feliz, de Emiliano Mancuso
Musica Valida per l'Espatrio, de Francesco Cordio
Rada, de Alessandro Abba Legnazzi
Rondi, Vita, Cinema e Passione, de Giorgio Treves
Triangle, de Costanza Quatriglio
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Melhor Curta-Metragem
Articolo 4, de Paolo Zaffaina, Alberto Guariento e Matteo Manzi
Due Piedi Sinistri, de Isabella Salvetti
L'Impresa, de Davide Labanti
Sugar Plum Fairy, de Marco Renda
A Vuoto, de Adriano Giotti
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Melhor Actor
Diego Bianchi, Arance e Martello
Gianni Di Gregorio, Buoni a Nulla
Fabrizio Ferracane, Anime Nere
Francesco Scianna, Latin Lover
Luca Zingaretti, Perez
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Melhor Actriz
Margherita Buy, Mia Madre
Virna Lisi, Latin Lover
Michaela Ramazzotti, Il Nome del Figlio
Alba Rohrwacher, Hungry Hearts
Sara Serraiocco, Cloro
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Melhor Argumento
Anime Nere, Francesco Munzi, Fabrizio Ruggirello e Maurizio Braucci
Il Giovane Favoloso, Mario Martone e Ippolita Di Majo
Il Racconto dei Racconti, Matteo Garrone, Edoardo Albinati, Ugo Chiti e Massimo Gaudioso
La Giovinezza, Paolo Sorrentino
Mia Madre, Nanni Moretti, Francesco Piccolo e Valia Santelli
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Melhor Fotografia
Arance e Martello, Roberto Forza
Il Giovane Favoloso, Renato Berta
La Giovinezza, Luca Bigazzi
Maraviglioso Boccaccio, Simone Zampagni
Perez, Ferran Paredes
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Melhor Música
Io sto con la Sposa, Diso Logoi
La Buca, Pino Donaggio
Latin Lover, Andrea Farri
Perez, Riccardo Ceres
Take Five, Giordano Corapi
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quinta-feira, 11 de junho de 2015

Ornette Coleman

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1930 - 2015
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The Crow: City of Angels (1996)

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O Corvo - Cidade dos Anjos de Tim Pope é uma longa-metragem norte-americana sequela de The Crow (1994), de Alex Proyas que não ressuscita a personagem "Eric Draven" interpretada por Brandon Lee mas dá sim corpo a "Ashe Corven" (Vincent Perez), mais uma vítima da violência de uma Los Angeles futurista e degradada onde reina o crime.
Tempos depois de Ashe e o seu filho terem sido selvaticamente assassinados por um gang do submundo da droga, este ressuscita para vingar a morte do seu filho e limpar as ruas de uma cidade que há muito encontrou a sua perdição.
Primeira, e única à data, longa-metragem de ficção de Tim Pope, este The Crow: City of Angels faz jus àquilo pelo qual o realizador mais tem destacado a sua carreira... os videoclips. Esqueçamos por momentos a dificuldade que é dirigir uma sequela de um filme de culto como o foi The Crow e concentre-se o espectador naquilo que assiste nesta longa de Tim Pope. Aquilo que aqui é entregue e com alguns apontamentos positivos no que ao aspecto técnico diz respeito, é um elaborado videoclip cujo cenário é brilhantemente apimentado com ideias e transformações quase pós-apocalípticas deixando para trás o tal cenário de uma cidade devastada pela violência que poderia, muito facilmente, ser o resultado de uma sociedade perdida e destruída por algo maior que não é mencionado.
Em The Crow: City of Angels temos uma cidade completamente dominada pela escuridão, pela noite, pela violência, pela marginalidade, droga, homicídios e gangs que controlam os passos e a existência de todos aqueles que por ali ousam permanecer. Temos os ocasionais criminosos e aqueles que, mais organizados, impõe as regras e as leis, e uma total ausência de existências ditas normais até que chega o nosso protagonista "Ashe Corven" que metido nos seus próprios assuntos - se é que alguns - se vê involuntariamente envolvido num acontecimento que lhe irá provocar - e ao seu filho - o trágico destino de uma morte antes de tempo.
No seio desta cidade alternativa e que não dá sinais de outra existência que não a da perdição, The Crow: City of Angels tenta revitalizar o espírito do seu predecessor de 1994 e criar a tal dinâmica de que o "corvo" - personagem central mas quase ignorada, não fossem as suas breves aparições e era perfeitamente secundado - procura as vítimas injustiçadas de uma cidade que não dorme e não perdoa. No entanto, e sem qualquer dinamismo, o realizador falha na construção das personagens envolvidas removendo-lhes qualquer sentido ou carisma que Brandon Lee ou Michael Wincott haviam conferido anos antes aos seus "alter-egos" cinematográficos - e que bem que vão - tendo os mesmos contribuído e muito para o já mencionado estatuto de "culto" que esta obra adquiriu (não exclusivamente claro está, pois o trágico desaparecimento de Brandon Lee isso consolidou).
Assim o que pode o espectador esperar de The Crow: City of Angels? Na realidade... pouco! Temos a tal construção de uma cidade "perdida" bem executada... o retrato de um mundo do crime interessante mas que, bem visto, acaba por ser suficientemente forçado para que não se sinta o ar tenebroso que aparenta querer fazer chegar ao espectador mas, com tudo isto, temos sim aquele ambiente de "videoclip" bem executado e, com uma música bem escolhida... eventualmente até estaríamos perante um intenso e bem elaborado videoclip que poderia, inclusive, servir de referência para o género. Fora isso, temos uma pobre tentativa de fazer subir a fasquia para igualar a obra de Proyas e um conjunto de desempenhos que ficam muito longe do melhor de Vincent Perez - sem grande dinamismo ou entrega ao seu "Ashe" - um Iggy Pop que quase arriscaria dizer... igual a si mesmo, ou até Thomas Jane aqui quase como um pobre figurante de uma obra que... pouco tem ou guarda a seu favor.
Repleta de lugares comuns sobre a marginalidade e o tal "submundo" do crime organizado, sobre o que é ser "alternativo" ou com um rumo próprio, The Crow: City of Angels permanece, no entanto, com um ponto positivo pela sua direcção de fotografia a cargo de Jean-Yves Escoffier que capta o essencial de uma cidade tenebrosa e perdida nessa mesma escuridão, que serve como um potencial passatempo para o espectador desejoso de não perder muito do seu tempo a pensar nas dinâmicas desta história ou então para os assumidos fãs desta saga que, no entanto, não irão ter uma longa-metragem tão coerente como aquela tida com a de Alex Proyas.
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3 / 10
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Shortcutz Viseu - Sessão #55

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O Shortcutz Viseu está de volta para a sua Sessão #55 com mais duas Curtas-Metragens em Competição sendo elas 2000 Pés, de Bruno Nacarato e ainda Margem, de Miguel Pereira sendo que esta sessão conta com a presença dos dois realizadores que irão apresentar os seus filmes ao público presente.
Finalmente no segmento de Curta-Metragem Convidada será exibido o filme curto Memórias de um Filme, de Tiago Resende que também estará presente nesta sessão.
Assim amanhã a partir das 22 horas será uma vez mais o Museu Grão Vasco a sede para uma noite de muito bom cinema em formato curto.
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Denali (2015)

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Denali de Ben Moon é uma curta-metragem documental norte-americana realizada com base não só em fotografias como em vídeos que documentam a relação de amizade entre o realizador e o seu falecido cão Denali, e tudo a partir da perspectiva deste último.
Desde os momentos passados na praia passando pela doença oncológica de Ben na qual Denali revela o medo que sentiu pela solidão que poderia atravessar, uma constante nesta curta-metragem é a inquestionável dedicação entre ambos que transcende as barreiras Homem vs. Animal e faz dos dois um único elemento. Denali não é apenas o "cão" da casa mas sim um elemento participativo da família que constitui com Ben. Um par... uma dupla que atravessam as mais diversas aventuras - que apenas poderemos imaginar - e que terminam com o desaparecimento - apenas físico - de Denali.
No final uma mensagem... O Homem tem muito a aprender com o seu mais fiel amigo, principalmente a sua extrema capacidade de amar e dedicar-se àquele com quem vive e pelo qual consegue expressar as mais sentidas mensagens de amor e de dedicação... um afecto extremo e incondicional. Tal como a certa altura se refere "quando alguém que amas entra pela porta, mesmo que aconteça cinco vezes ao dia, deves ficar completamente louco de alegria"... é assim que este mais fiel amigo - o de Ben e, de certa forma, o de qualquer um de nós - nos recebe, e ao qual devemos a nossa mais sentida e sincera amizade.
Um documentário invulgar narrado na perspectiva não do "homem" mas sim do "animal" que não comunicando verbalmente tem através destas palavras em sete breves minutos a sua mais fiel e íntima interpretação. Denali é uma curta-metragem que nesses minutos tanto transmite e uma daquelas que não devemos perder.
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"When someone you love walks through the door, even if it happens five times a day, you should go totally insane with joy."
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9 / 10
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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Robert Chartoff

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1933 - 2015
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Festival Ibérico de Cinema de Badajoz 2015: selecção oficial

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Selecção Oficial
40 Aniversario, de J. Enrique Sánchez (Espanha)
El Abrazo, de Iñaki Sánchez (Espanha)
Bloquejats Apilats, de Marc Riba e Anna Solanas (Espanha)
Boa Noite Cinderela, de Carlos Conceição (Portugal)
O Canto dos 4 Caminhos, de Nuno Amorim (Portugal)
Cuentas y Cuentos, de Sergio Prado (Espanha)
The Dream Player, de Curro Royo (Espanha)
Fortunato - d'Aqui até São Torcato, de João Rodrigues (Portugal)
Fuligem, de David Doutel e Vasco Sá (Portugal)
Hostiable, de David Galán (Espanha)
Los Huesos del Frío, de Enrique Leal (Espanha)
Inquilinos, de Jaume Balagueró (Espanha)
Interior. Familia, de Esteve Soler (Espanha)
Line-Up, de Alex Juliá (Espanha)
Miami, de Simão Cayatte (Portugal)
Sailor’s Grave, de Direccão Colectiva (Espanha)
Videoclube, de Ana Almeida (Portugal)
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Secção Curtas-Metragens da Extremadura
Amigas Íntimas, de Irene Cardona
Cefalea, de María Sánchez Testón
Podredumbres, de Juan Carlos Guerra
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terça-feira, 9 de junho de 2015

Maman (2013)

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Maman de Ugo Bienvenu e Kevin Manach é uma curta-metragem de animação francesa que leva o espectador ao interior de uma casa onde co-habitam pai, mãe e filho.
Por entre aquelas quatro paredes reina o silêncio. O silêncio de um desespero que os consome lentamente e de cuja comparação imediata serve o vapor que sai daquela panela ao lume.
A casa - como uma "máquina" - reduz-se à interacção necessária para poder funcionar diariamente de forma regular, evitando toda e qualquer outra forma de comunicação lançando todos os seus mecanismos - a família - para um estado de isolamento num espaço confinado. A "loucura" que aos poucos deles se apodera define, ao mesmo tempo, o espaço pertencente a cada um deles - ou pelo menos aquele onde melhor se sentem - afastando-os individualmente de uma notada tensa convivência. Num nervosismo constante, o espectador apenas se questiona para quando o momento que tudo irá fazer destronar.
Ainda que interessante pela construção da dinâmica - ou sua ausência - familiar, Maman é um retrato da mesma que necessitava de uma maior exploração dando a conhecer os antecedentes deste distanciamento - que apenas poderemos imaginar ou deduzir - e desenvolvendo os métodos e formas pelos quais cada um opta como forma de sentirem o seu "escape".
Forte pela forma como retrata a família, esta curta-metragem centra o seu nome numa personagem que divide o protagonismo com os demais delegando - (in)voluntariamente - as "suas" funções tidas como tradicionais, perdendo-se mutuamente com os outros elementos presentes - filho que dança às escondidas... pai que engoma em agonia... -, esquecendo que se é da "mãe" que pretende falar, a deixa sózinha numa cozinha que parece prestes a explodir.
Simpática - mas não memorável - Maman necessitava de um desenvolvimento superior àquele que lhe é conferido sendo, no entanto, um interessante relato sobre a "família" - mais ou menos moderna.
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6 / 10
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Nuno Melo

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1960 - 2015
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Spy (2015)

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Spy de Paul Feig é uma longa-metragem de ficção e o mais recente filme do realizador de Bridesmaids (2011), The Heat (2013) e do ainda por estrear Ghostbusters (2016).
Susan Cooper (Melissa McCarthy) é uma assistente administrativa na CIA e a directa auxiliar no terreno de Bradley Fine (Jude Law). Mas, quando Fine é morto por Rayna Boyanov (Rose Byrne), líder de um grupo mafioso búlgaro, Susan é directamente enviada enquanto infiltrada para uma missão de reconhecimento.
Quando todas as apostas jogam contra Susan, ela mostra-se uma inesperada mais valia para a agência revelando-se como uma experiente e astuta agente... com alguns enganos pelo caminho.
Depois de ter dado um dos desempenhos mais memoráveis de Bridesmaids a Melissa McCarthy, o realizador e argumentista Paul Feig decide retomar esta evidente química frente e por detrás das câmaras voltando a chamar a actriz para aqui se assumir como a protagonistas de Spy. Numa evidente homenagem aos filmes de espionagem - nomeadamente ao eterno espião James Bond bastando lembrarmo-nos dos créditos iniciais - mas tendo como "modelo" o mais improvável de todos os agentes Austin Powers, Feig dá a McCarthy a magnífica personagem de "Susan Cooper", uma mulher que se contentou com o lado menos brilhante e aventureiro da vida deixando-se levar pelos encantos do melhor agente infiltrado de todos os tempos.
McCarthy que se destacou como a simpática secundária "Sookie" na já ida série Gilmore Girls e que aos poucos tem vindo a afirmar-se no cinema tendo já conquistado uma nomeação ao Oscar no referido Bridesmaids, consegue com Spy transformar-se na mais recente esperada e merecida protagonista de comédia com uma interpretação espontânea, directa, cândida mas, ao mesmo tempo, forte e destemida nunca esquecendo uma origem simples que a diferencia de todo um mundo prestes a devorar aqueles que se sentem diferentes.
Fresco pela capacidade inventiva de fazer rir e internacional quanto baste para fazer dele o filme de espiões do momento - afinal, temos viagens que nos levam de Varna a Paris sem esquecer a eterna Roma - Spy prima ainda pelos magníficos secundários como o "Bradley Fine" de Jude Law, o espião demasiadamente concentrado na sua própria imagem, a "Rayna Boyanov" de Rose Byrne - outra actriz retirada de Bridesmaids - como a implacável dama do crime que afinal parece apenas necessitar de alguém que seja verdadeiramente seu amigo, o "Rick Ford" interpretado por um surpreendente Jason Statham que sem se afastar do seu registo de filme de acção consegue primar na comédia com uma inventiva e bem humorada personagem e finalmente a "Nancy Artingstall" de Miranda Hart, eventualmente a mais desconhecida dos actores principais, mas que consegue afirmar-se nos seus momentos.
Livre, bem disposto e com um conjunto de personagens que têm uma vida própria incapaz de ser travada, Spy é o filme que coloca Melissa McCarthy como a protagonista do momento. O espectador é incapaz de não criar uma imediata empatia com a sua "Susan Cooper" e esperar por todos os momentos hilariantes que sabemos nos ir entregar - sem esquecer aqueles onde, ao mesmo tempo, se assume como uma improvável actriz de acção ao estilo Matrix (sem exageros) - deixando uma assumida expectativa quanto à sua participação em Ghostbusters já no próximo ano.
Sendo um género tradicionalmente difícil não só pela falta de originalidade como principalmente pela falta de actores que consigam elevar o filme ao seu estatuto, Spy cai em boas mãos com o já referido (improvável) conjunto de actores e realizador/argumentista. Dos primeiros retira as características pelas quais são normalmente conhecidos - a faceta de galã de Law, a divertida e inocente McCarthy, o "acelera" Statham ou a pérfida Byrne - mas parodiando com as mesmas de forma a que todos eles se tornem um pouco mais humanos e próximos dos espectadores que os acompanham nos mais variados registos.
De entretenimento e divertimento fácil sem cair no absurdo, Spy é o tipo de filme do qual todos nós esperamos a sequela. E que ela seja tão boa como esta não caindo nos estereótipos ou lugares comuns que estão, tantas vezes, reservas às sagas que insistem em não terminar. McCarthy não irá ao Oscar pois este não é o tradicional filme que a Academia norte-americana tem por hábito premiar mas suspeito que pelo menos a (merecida) nomeação a Globo de Ouro em Comédia não lhe irá escapar.
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8 / 10
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Mr. Lune (2014)

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Mr. Lune de Julien Seze é uma curta-metragem de animação francesa que nos conta a história de.. Mr. Lune, o simpático e acolhedor habitante da Lua onde reside sem qualquer outra companhia.
Mr. Lune vive fascinado com o planeta Terra que todos os dias vê passar diante dos seus olhos. Acordado por um cometa que foi contra a Lua, Mr. Lune recebe um foguetão com uma mensagem de boas-vindas - à Terra - e decide responder. Mas esta resposta traria consequências que ele jamais imaginaria.
Para lá de uma execução de excelência que destaca a qualidade inquestionável desta curta-metragem, Mr. Lune destaca-se não só pela empatia que o espectador cria com a personagem animada, mas principalmente pela mensagem que esta transmite com sentida paixão. Num mundo - o dele - em que a solidão dita uma extrema melancolia e a única realidade conhecida, "Mr. Lune" questiona-se sobre a potencial existência de "algo mais" naquela bola azul que todos os dias vê passar diante dos seus olhos.
No entanto, o que acontecerá se a existência de vida do outro lado não fôr tão simpática e francamente hóstil ao contrário de "Mr. Lune"? O que acontecerá se a diferença não fôr tão bem aceite? Tão respeitada? Tão desejada? E no fundo, o que acontecerá se a sua casa começar a ser cobiçada por aqueles que, não sendo dali, a exigem como sua?
Numa sentida reflexão animada - com humor (que mais nos aproxima do que distancia), boa disposição e alguma simpatia - sobre aquilo que nos define, nos une e principalmente sobre o que nos separa, Mr. Lune é uma das mais sentidas e bem executadas animações do último ano... E para quem pensa a animação é apenas para crianças ou que através da mesma não se transmitem grandes mensagens, é porque ainda não viu o poder de uma de qualidade como aqui se destaca Mr. Lune e o génio de um realizador como Julien Seze.
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8 / 10
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domingo, 7 de junho de 2015

Christopher Lee

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1922 - 2015
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Maria José Silva

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1937 - 2015
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Maggie (2015)

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Maggie de Henry Hobson é a mais recente longa-metragem de Arnold Schwarzenegger a ter estreia comercial este mês em Portugal e que nos remete para um cenário pós-apocalíptico onde a perda e a sobrevivência se mesclam numa história que é, de alguma forma, familiar.
Maggie (Abigail Breslin) encontra-se separada da sua família aquando de um vírus infecta uma boa parte da população do Midwest. Wade (Schwarzenegger), o seu pai, procura-a por entre as ruínas de uma cidade para a encontrar num centro de detenção dos infectados.
Depois de a levar para casa, Maggie começa lentamente a transformar-se num zombie caníbal e, como tal, numa ameaça para a segurança da sua família e da sua comunidade.
O argumento de Maggie está longe de fugir aos elementos fundamentais de um filme onde os mortos-vivos tomaram conta da Terra mas, no entanto, também não se aproxima da premissa original do género onde o espectador está perante uma intensa e longa viagem de fuga, de medo e de perda. Aqui o que se pode encontrar é principalmente uma história de despedida, de redenção e principalmente uma em que se pretende encontrar um qualquer tipo de paz em tempos conturbados que possibilitem uma tranquila passagem para "outro lado".
Longe de encontrarmos o típico filme em que Schwarzenegger protege o mundo de uma qualquer ameaça, Maggie mostra-nos uma faceta pouco explorada do actor como um pacato pai de família que percebe ir perder uma parte significativa da mesma. Quase sempre contido, é o lado dramático de Schwarzenegger que se vê explorado. Aquela faceta de duro com uma arma que elimina tudo à sua volta dá lugar a uma introspecção sobre o lar, a família e os tempos que para lá da janela de casa insistem em transformar-se ao mesmo tempo que cada um dos membros daquela família procuram - também eles - o seu próprio lugar.
Quando o mundo que conhecem - campos, cultivo, subsistência e trabalho - são postos em causa por uma ameaça desconhecida, o que fazer ou de que forma perceber que é necessário a partir daquele momento equacionar toda uma nova existência? O que fazer quando, durante esse processo, se percebe que uma parte importante da vida está prestes a desaparecer para sempre não deixando qualquer tipo de lembrança ou memória?
Ao mesmo tempo Maggie reflecte - de forma quase silenciosa - sobre as novas ameaças ecológicas ao relacionar o início deste vírus bem como o contágio humano, com a presença de novos químicos utilizados nos campos de cultivo, motivo pelo qual os mesmos são imediatamente incendiados e destruídos lançando assim a população com uma nova crise - a alimentar e a laboral - que os coloca numa posição de desconfiança e resistência a tudo o que ameace o pouco que têm. É nesta época de incerta mudança - que claramente não é para melhor - que "Maggie" se transforma. Uma transformação que leva à desconfiança, à suspeita, à ostracização e eventual perseguição. Até que ponto se torna a sociedade mais segura quando ninguém está - aparentemente - livre das suspeitas de um vizinho?! O tempo não pode ser desperdiçado pois todo o que existe é importante para a segurança comum.
Se Abigail Breslin entrega uma interpretação inspirada para o género - também a sua personagem com a percepção de que o tempo é limitado e, como tal, importante demais para ser desperdiçado -, não é menos verdade que é Schwarzenegger que detém toda a relevância ao longo desta longa-metragem que surpreende por se manter fiel ao género mas fugindo dos tradicionais clichés do grupo de sobreviventes que vagueia pelas cidades abandonadas à procura de alimento e refúgio. Aqui o alimento apesar de escassear a acção é, no entanto, centrada toda no mesmo espaço: uma casa. A casa de família. Aquela onde "Maggie" nasceu, cresceu, onde a sua mãe morreu e onde o seu pai voltou a casar e ter mais filhos. A casa onde todas as recordações estão gravadas e onde tudo pode - e vai - terminar sem qualquer ausência ou fuga. Sem desesperos, gritos, perdas ou separações. A casa que (como se diz) guarda as memórias de todos aqueles que por ela passaram ganhando assim a sua própria vida e alma.
Schwarzenegger é seguro neste seu regresso ao grande ecrã com uma interpretação contida - tanto quanto necessário num filme em que o que está implícito é a perda de um ente querido - com uma história onde a agressividade se vê mais nas acções de uma nova sociedade do que propriamente no cataclismo que a fez cair.
Seguro ainda pelos seus aspectos técnicos nomeadamente a caracterização e a direcção de fotografia de Lukas Ettlin, é curiosamente através da protagonista Abigail Breslin que Maggie cai num cliché algo absurdo mesmo nos instantes finais com a solução por si encontrada para terminar com o seu martírio. Ainda assim é, no seu geral, um filme interessante que foge aos variados lugares comuns que normalmente abundam pelo género e que se afirma como um interessante regresso de "Arnie" à Sétima Arte.
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7 / 10
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sábado, 6 de junho de 2015

Pierre Brice

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1929 - 2015
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Shaun the Sheep Movie (2015)

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A Ovelha Choné - O Filme de Mark Burton e Richard Starzak é uma longa-metragem britânica de animação e a mais recente a dar vida às aventuras da ovelha mais conhecida dos mais novos.
Quando Shaun - a Ovelha Choné - decide tirar um dia de folga das aborrecidas tarefas da quinta todos os caminhos levam à confusão e ao desaparecimento do Agricultor na grande cidade. No entanto, é quando os porcos da quinta decidem tomar o controlo da casa, que Shaun ruma à cidade para encontrar o seu dono agora com amnésia.
Como as confusões não acabam por aqui, o restante rebanho segue Shaun enquanto todos são perseguidos por um imparável funcionário do canil que detém todos os animais com quem se cruza. Conseguirá Shaun regressar aos verdes pastos da sua quinta?
Ainda que uma animação pouco típica numa sala de cinema - muito também graças à conotação que o nem sempre feliz título português conferiu a esta série animada - Shaun the Sheep é assumidamente uma animação não só para crianças. Longe de uma história banal, esta longa-metragem cujo argumento ficou também a cargo da dupla de realizadores, é um interessante estudo sobre as pequenas tarefas rotineiras do dia-a-dia que inicialmente nos parecem constrangedoras e aborrecidas mas que, na sua ausência, assumem uma proporção curiosa ao serem elas que caracterizam aquilo que todos nós conhecemos como lar.
Ao mesmo tempo Shaun the Sheep Movie tece sérias e interessantes considerações - sempre de forma bem divertida - sobre a independência ao sairmos do nosso espaço e da nossa casa, sobre o crescimento e amadurecimento mas principalmente sobre a amizade e como só existe um espaço ao qual chamamos lar apesar de todos os percursos que seguimos ao longo da nossa vida, e tudo isto tendo ainda tempo para uma simpática reflexão sobre os milhares de animais que se encontram em abrigos prestes a ser adoptados e a encontrar, também eles, a sua própria família.
Com um humor cortante e ao qual o espectador não consegue resistir - independentemente da sua idade - Shaun the Sheep Movie reserva ainda simpáticos momentos de emotividade e emoção que fazem tanto miúdos como graúdos sonhar um pouco com aquele tipo de animação que infelizmente já não são muito comuns onde as histórias podem ser contadas sem o recurso à violência gratuita sem que por isso percam o seu lado mais frenético, louco e agitado que apenas personagens bem construídas, com história e o seu próprio "passado" conseguem entregar.
Aqui os protagonistas são os animais... Todos eles. São eles que interagem com uma história que pretendem contar, com as frustrações que os desanimam e desmotivam e são também eles que pretendem mostrar e obter um novo rumo para as suas vidas desinteressantes. Não falam, mas expressam-se através de ruídos característicos que lhes são atribuídos, e as suas preocupações são por demais evidentes para o espectador... Até mesmo os seus comportamentos que são por momentos mais "humanos" do que aqueles tidos pelos próprios. As poucas personagens ditas humanas conseguem ser menos expressivas do que os supostos animais, e as poucas formas "verbalizadas" que denotam são ainda mais incompreensíveis do que as produzidas pelas ovelhas, cães, tartarugas, lagostas ou peixes... Mas todos eles, sem excepção, têm a sua própria mensagem para contar.
Com uma passada certa e constante sem que, no entanto, seja uma "fábrica" de produção em massa, a Aardman Animation consegue produzir histórias credíveis, fortes e divertidas, assumindo-se assim como um nome de peso na animação europeia e com a sua marca característica que foge à criação computorizada e sem que isso face as suas personagens perder qualquer tipo de expressividade... bem pelo contrário... "Shaun the Sheep" não poderia ter naquele "rosto" todo um conjunto de expressões... até mesmo a ironia.
Para mim uma das mais bem sucedidas animações dos últimos tempos. Talvez não chegue longe face às inúmeras outras histórias cujo marketing funciona em peso e mais eficazmente mas por aqui a diversão consegue ser tão boa - por vezes melhor - quando livre de preconceitos o espectador arrisca assistir a uma história que está muito para além de um título que nem sempre é muito feliz.
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8 / 10
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sexta-feira, 5 de junho de 2015

Totally Free (2015)

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Totally Free de Daniel Soares é um documentário em formato de curta-metragem português filmado em San Francisco na Califórnia e que retrata um conjunto de pessoas que de forma mais ou menos anónima se encontram e reunem num jardim onde fazem livre de preconceitos aquilo que mais os faz sentir livres... patinar.
Sem qualquer tipo de expectativas sobre o que fazer ou tão pouco como o fazer para impressionar os demais que ali se encontram, cada uma daquelas pessoas tem um único propósito... descontrair de uma vida que pode, por vezes, ser complicada e entregando-se apenas a uma sensação de total descontracção e liberdade.
Num ritmo colorido e com uma coreografia quase programada Totally Free é, no entanto, o registo de um conjunto de pessoas que curiosamente se unem pelo seu intenso desejo de liberdade - social, económica, cultural, profissional (...) - e que encontram os seus pares através de uma actividade lúdica e desportiva que praticam como se de uma tribo se tratassem e que apenas encontra semelhanças com o período em que, enquanto jovens crianças, todos fazíamos aquilo que nos fizesse sentir bem e especiais independentemente do que os demais pudessem achar sobre os nossos actos num exercício de plena libertação de preconceitos e noções sobre o socialmente "correcto", de quem ou como se é.
Num mundo repleto de pessoas pouco interessantes mas que têm protagonismo, porque não entregá-lo àqueles que têm realmente algo a contar? Este é um pensamento expresso pelo realizador numa entrevista e que, no fundo, resume muito a essência de Totally Free... Todas aquelas pessoas têm a sua história, os seus porquês e os motivos que os levam ali àquele lugar onde se reunem e libertam das noções pré-concebidas pelos demais. Com este mini-documentário o realizador permite ao espectador sonhar sobre as suas possibilidades e ambições tal como aquelas dos que são ali representados.
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"Just listen to your heart."
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8 / 10
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Chicos que Lloran (2015)

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Chicos que Lloran de Roberto Pérez Toledo é uma curta-metragem espanhola de ficção e o mais recente filme do realizador de Seis Puntos Sobre Emma (2006), Al Final Todos Mueren (2013) - colectivo de realizadores - e Los Amigos Raros (2014).
Quatro amigos partem para um passeio pelo floresta quando um deles (Javier Zapata) avisa que se vai casar com Marga com quem está junto há seis meses. Mas é quando grava um pequeno vídeo para lhe enviar que todos os segredos se descobrem.
Os filmes de Pérez Toledo têm ao longo dos anos denotado uma característica muito especial, ou seja, a atenção que o realizador e argumentista deposita nas relações de amizade entre as suas mais variadas personagens. Com um cuidado especial a filmá-las, Pérez Toledo conta-nos através das suas histórias as mais diferentes formas de amizade e de como estas se compõem de segredos, de silêncios, de proximidade e também - neste caso - de como nem sempre todos eles funcionam de forma a favorecer aqueles elos primários que estabelecemos com as pessoas que nos são mais queridas. Em Chicos que Lloran aquilo que é realçado é a capacidade de dizer ao nosso melhor amigo aquilo que mais ninguém é capaz - por desinteresse ou simples omissão - mesmo que essas revelações levem a uma quebra de amizade, a desentendimentos ou até a algum tipo de agressão que, também eles, marcarão um percurso.
Ainda com a interpretação de David Mora, Sergio Wolbers e Andrés Acevedo, Chicos que Lloran oferece ao espectador o passado, o presente e o futuro de um instante determinante de três amigos que ao assistirem a um ponto de viragem de um outro decidem quebrar o silêncio que pode ser transformador na sua vida. Sob a premissa de que a amizade não é um bem absoluto que pode a qualquer momento ser colocada à prova, esta curta-metragem reflecte ainda sobre aquilo que eles são e o que sonharam em crianças poder vir a ser. Existirá alguma semelhança ou, por sua vez, os seus percursos levaram-nos a percorrer caminhos diferentes? Estará esta amizade a salvo face a todos os elementos exteriores que ao longo dos tempos foram surgindo? Será amizade nunca alertar aqueles que nos estão próximos ou será que a intromissão nos assuntos dos nossos amigos, protegendo-os de alguma desilusão, não é a prova maior de que estamos sempre do seu lado mesmo que eles possam ficar ressentidos com o que dizemos ou fazemos?
Quase sempre num registo semi-cómico mas com uma acentuada dramatização típica de um momento de viragem, Chicos que Lloran apresenta ainda uma inteligente e motiva música original de Alejandro Ventura que alerta o espectador para todas essas pequenas e quase invisíveis transformações de (mais) uma inteligente direcção de Pérez Toledo sobre as relações humanas.
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8 / 10
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Sintoma de Ausência (2015)

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Sintoma de Ausência de Carlos Melim é uma curta-metragem portuguesa de ficção que nos conta um momento na vida de Isabel (Mia Tomé) que após uma indisposição resolve comprar um teste de gravidez.
Num momento em que a relação com o seu namorado parece ter terminado e onde depende apenas da amizade de Rita (Filipa Areosa), Isabel parece encontrar-se completamente sózinha no mundo.
É graças ao argumento de Nelson P. Ferreira e Vítor Bruno Pereira que, uma vez mais, temos uma interessante abordagem ao "eu" na obra de Carlos Melim. Depois de De Mim... (2013) e de Remissão Completa (2014), Sintoma de Ausência é mais uma reflexão sobre o lugar do "eu" num mundo que parece andar mais depressa do que aquilo que qualquer um de nós consegue acompanhar.
No entanto esta não é uma simples reflexão sobre esse lugar do "eu" mas sim a sua posição após uma percepção de que para lá de todos aqueles que nos rodeiam estamos, essencialmente, solitários. É esta solidão que então define a essência de cada um e se em De Mim... esta era definida pela chegada a um espaço novo longe de tudo aquilo que contribuiu para a formação de cada um enquanto indivíduo - neste caso a experiência do próprio realizador - e se em Remissão Completa essa mesma essência era definida aquando da confrontação com a própria morte em Sintoma de Ausência esta é definida pelo potencial surgimento de uma vida nova e de todas as responsabilidades que lhe estão inerentes.
Como abraçar então uma nova vida quando todo o mundo parece fugir-lhe entre os dedos? O que fazer quando essa mesma vida pode ser acompanhada na solidão, sem apoio, sem o conforto de um pai que é assumidamente ausente e desinteressado - na eventual futura mãe - e cuja vida depende apenas, e essencialmente, da mãe que mais não é do que uma jovem. É esta ausência - de uma relação, de um pai, de uma família, de amigos, de elos, de intimidade, e eventualmente até de uma criança - com que "Isabel" tem de aprender e saber lidar.
"Isabel" é no fundo uma jovem perdida. Não existem grandes amizades - só lhe conhecemos uma - e ao longo desta curta-metragem o espectador entende que a sua existência em Lisboa dependia única e exclusivamente de uma relação afectiva que agora termina e da qual não sabe se "ficou" algo. A sua repentina indisposição levanta a suspeita de uma gravidez que nem ela sabe se deseja e quer mas que pode ser o veículo para a manutenção da relação que parece ter terminado. Será este o motivo correcto para que esta potencial gravidez funcione? O verdadeiro medo chega quando "Isabel" não sabe se a sua vida tem mais significado para lá daquele que teve com o seu namorado e por tal procura-o de todas as maneiras... segue-o na rua - ou o que julga ser ele - remetendo toda a demais existência para aquele pequeno apartamento em que habita e onde se anula na escuridão de uma casa que de lar pouco tem.
Mas no final mantém-se a questão... Quem somos nós realmente? Sabemos que nascemos e morremos sózinhos mas, em todo o período em que por "cá" andamos, seremos apenas uma dependência de alguém ou um indivíduo que tem de se conhecer antes de saber quem é o "outro"? Estará "Isabel" capaz de perpetuar a sua vida - com uma outra vida - não sabendo quem ela própria é?
Para todas as vidas existe uma encruzilhada, ou seja, aquele exacto momento em que nada parece fazer sentido mesmo que aparentem existir algumas boas ou interessantes soluções. Esta encruzilhada é, para "Isabel", aquele exacto momento em que a sua gravidez é incerta, em que um potencial stress emocional parece tê-la privado do seu ciclo biológico natural mas que, ao mesmo tempo, pode também ser um sinal que confirme o seu período de gestação. Este é o momento da sua escolha... das escolhas... O momento em que parada à porta do hospital percebe que tem de conhecer a sua condição e saber que rumo lhe dar.
Mia Tomé entrega um especial e interessante espaço psicológico à sua "Isabel" fazendo-a oscilar entre a rapariga pós-adolescente que vê toda a sua vida a avançar rápido demais considerando a sua própria preparação e a jovem mulher decidida a cumprir os seus desejos junto de alguém que aparentemente pouca importância lhe confere. No entanto, é no meio deste dilema que melhor consegue evidenciar aquilo que de certa forma melhor a caracteriza... a sua solidão - sempre realçada por uma direcção de fotografia preocupada em captar os espaços "negros" que se acentuam ao longo da curta-metragem conferindo-lhe assim a constante presença do "nada". Numa cidade rodeada de gente a sua personagem é solitária, desamparada e entregue apenas aos ocasionais momentos em que partilha desabafos com aquela que é a sua única amiga. Não lhe conhecemos nem família, nem qualquer tipo de trabalho, nem relação... nada. "Isabel" é uma jovem mulher que se desaparecesse do mapa ninguém conseguiria alguma vez perceber que ela tinha sequer existido. Perdida na limitação da sua personagem, Mia Tomé transforma a sua "Isabel" num ser igual a tantos de nós que por vezes se questionam se alguém se irá lembrar do "eu".
Sintoma de Ausência fica, para o espectador, como o filme sem o - um - desfecho conclusivo... Existirá uma criança? Existirá uma interrupção de gravidez? Existirá uma "Isabel" depois deste momento aparentemente decisivo? Esta existirá, mas certamente será alguém muito diferente depois de saber o que realmente espera.
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8 / 10
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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Poltergeist (2015)

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Poltergeist de Gil Kenan é o mais recente remake de uma obra de ficção/terror numa época em que os mesmos parecem abundar. Desta vez o revivalismo leva-nos até à obra homónima de Tobe Hooper de 1982 mas com alguns elementos modernos que não ajudam à revitalização do género.
Os Bowen - Eric (Sam Rokwell), Amy (Rosemaria DeWitt), Kendra (Saxon Sharbino), Griffin (Kyle Catlett) e Madison (Kennedi Clements) - chegam a uma nova casa depois da mais recente crise económica e desemprego afectar a família. Enquanto tentam adaptar-se à nova casa, Griffin nota que a jovem Madison começa a apresentar um comportamento diferente à medida que o próprio percebe que pequenos fenómenos ocorrem um pouco por toda a casa.
Quando Madison desaparece após estranhos acontecimentos ocorrerem, os Bowen tentam lutar contra o desconhecido e recuperar a sua jovem filha.
Com uma clara inspiração na história original de Steven Spielberg, David Lindsay-Abaire escreve o argumento de Poltergeist depois do brilhante Rabbit Hole (com algumas outras entregas pelo meio) naquilo que é uma clara e esforçada tentativa de recuperar um género e uma trilogia adormecidos há quase trinta anos e que assim deveria ter continuado. Ainda que Poltergeist inicie bem e com alguns momentos de tensão relativamente bem construídos, não é menos verdade que a tentativa de fazer algo "diferente" através de uma réplica daquilo que o espectador mais atento rapidamente identifica como parte fundamental do original, não abona a favor deste remake.
Por um lado Lindsay-Abaire faz desta família a nova vítima da crise, do desemprego e de um estatuto social que se perde - ao contrário dos já nossos conhecidos "Freeling" que só encontram esses problemas pós-entidades sobrenaturais - ou até mesmo estabelecer uma relação próxima entre os pequenos fenómenos que ocorrem dentro daquela casa com as linhas de alta tensão que passam perto da comunidade mas isto só funcionaria se o espectador não soubesse aquilo que o espera ou nunca tivesse assistido à obra original. E as "inovações" terminam por aqui.
Aquilo que temos de seguida é uma rápida, e por vezes desastrada, recuperação do fenómeno sobrenatural e da desvirtualização de algumas personagens e dos seus papéis, nomeadamente da mãe de família que aqui deixa de ser a heroína protagonista para dar lugar a um filho que se assume como o salvador de uma irmã perdida às mãos das entidades do além, ou até mesmo o pai de família que teria em Sam Rockwell um interessante protagonista mas que aqui pouco mais faz do que vaguear também ele fantasmagoricamente por um filme que lhe escapa pelos dedos muito fácil e rapidamente.
Não temos a magia sobrenatural à volta dos investigadores do mesmo, nem tão pouco o regresso de alguém capaz de possuir o carisma de uma Zelda Rubinstein que nos cativava pela enorme personalidade que depositava à sua "Tangina", cedendo aqui também à evolução do meio televisivo e trazendo para este Poltergeist as modernices de uma reality-TV desinteressante e oca que sobrevive apenas e só graças aos momentos pop que consegue recriar. Com o devido respeito a Jared Harris e ao seu "Carrigan Burke"... no thanks!
A Poltergeist versão 2015 falta alma, apesar de ser um filme que pressupõe ter a existência de muitos no seu enredo, falta personalidade para as suas personagens que vivem de alguns clichés e de uma tentativa hipster de se tornar a nova porta de entrada às respectivas sequelas - que eventualmente vão surgir ainda com menos força do que este - e ainda que aqui existam alguns momentos inicialmente bem pensados... nada assustará mais do que aquilo que tivemos em 1982 com o dedo mágico de Spielberg - se é que me entendem!!!
Rockwell não chega à interpretação de Craig T. Nelson e DeWitt não consegue ser a mãe coragem que JoBeth Williams foi. A jovem Kennedi Clements não estabelece uma empatia natural com o espectador como o fez Heather O'Rourke nem tão pouco conseguimos esquecer Oliver Robins e a sua saga pessoa com um palhaço ou com o aparelho dos dentes e que aqui através da interpretação de Kyle Catlett deixa de ser algo secundário para assumir ele a postura de "salvador da nação". A magia, muita ou pouca, perde-se e Poltergeist mais não é do que um daqueles filmes que entretém agora no Verão toda uma nova geração que, muito possivelmente, jamais se dignará a conhecer os títulos originais, que irá chegar aos Prémios MTV mas que nunca conseguirá estabelecer o estatuto de culto como a trilogia original conseguiu. Nunca as piscinas, as árvores ou os palhaços foram tão assustadores como no Poltergeist original e o espectador fã do mesmo sente-se um tanto atraiçoado com a recuperação tão insonsa de um título que reservou boas experiências e sustos àqueles que foram "criados" com o bom cinema de terror dos idos anos 80.
Poltergeist distrai... tem os seus momentos... mas também exagera - por vezes ao absurdo (aquela árvore... enfim...) - não estabelece qualquer empatia com as personagens e no fim... bom, no fim bocejamos porque percebemos que isto era perfeitamente dispensável.
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5 / 10
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quarta-feira, 3 de junho de 2015

San Andreas (2015)

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San Andreas de Brad Peyton é a mais recente longa-metragem catástrofe e que terá estreia comercial em Portugal durante o mês de Junho.
Depois de um terramoto que abala toda a California deixando um rasto de destruição sem precedentes, Ray (Dwayne Johnson) ruma a São Francisco, cidade que se prepara para o mais violento abalo sísmico de sempre e onde se encontra a sua filha Blake (Alexandra Daddario).
Carlton Cuse, Andre Fabrizio e Jeremy Passmore são os autores do argumento de San Andreas, um filme que não se prende tanto com uma história que vá emocionar os espectadores mas sim um que possa e consiga impressionar pela espectacularidade dos efeitos especiais envolvidos há semelhança do que acontecera já com longas-metragens do género nomeadamente The Day After Tomorrow (2004) ou 2012 (2009) cujo único apelo às emoções humanas é aquele feito através da mais ou menos elaborada destruição do planeta Terra tal como o conhecemos.
No entanto - pensado ou não por parte dos argumentistas - não deixa de conter alguma réstia de verdade que todos os problemas ambientais surjam eles sob a forma que surgirem, não são questões suficientemente importantes para no meio de toda esta recriação da desgraça pensarmos um pouco nos "e se..." que toda a questão levanta se bem que, na prática, nenhum espectador pensa.
Mas, quanto a assuntos mais sérios, ficamos por aqui. San Andreas vive exclusivamente do seu efeito sensacionalista onde quanto maior a desgraça e o espectáculo que lhe está inerente melhor será o efeito "rentável" do filme... afinal, qual de nós assiste a isto pensando realmente que todos estes acontecimentos são uma "possibilidade"? Aquilo que o espectador realmente procura é um blockbuster de entretenimento onde a sobrevivência esteja presente naqueles que se assumem como os protagonistas do filme e quanto a isso podemos todos ficar descansados pois de sobrevivência fala este filme. Em San Andreas temos um pouco de tudo sem esquecer os tradicionais factores e elementos que caracterizam um filme do género nomeadamente o herói que cedo se revela com um qualquer acto de bravura mas que na sua vida pessoal sofre de inúmeros problemas existenciais e familiares que irão definir toda a sua personagem desde esse momento inicial. Temos desgraça anunciada e em grandes proporções que definem com uma nova fronteira tudo aquilo que conhecemos como a realidade presente... destruição, mortes - ainda que nada gráfico visualmente - arranha-céus que não resistem, monumentos nacionais que caem como uma baralho de cartas e finalmente um tsunami que parece estar tão "na moda" agora... Desastre natural que não apresente um tsunami... não é desastre natural.
Se até aqui todos estes elementos são típicos do género, não é menos verdade que também entramos no campo daqueles lugares comuns que seriam perfeitamente dispensáveis para a boa execução de um filme-catástrofe nomeadamente quando é finalmente desvendado o grande problema emocional do protagonista ao ser-lhe colocada uma situação idêntica que parece ser determinante e definitiva. Clichés que vamos também encontrar já bem perto do final quando os sobreviventes olham embevecidos para uma cidade destruída por detrás de um grande plano da bandeira norte-americana... Sim, todos nós sabemos que o "evento" ocorre nos Estados Unidos mas não precisamos do "plano patriota" num acontecimento que, a ter lugar, ultrapassa qualquer tipo de nacionalidade ou fronteira... afinal, e ao contrário daquilo que muitos pensam... todos nós habitamos nesta esfera azul.
Com interpretações fiéis ao género - que não se esperam grandes conflitos existenciais ou emocionais pois não estamos aqui para isso - San Andreas é o blockbuster de acção do Verão, competente e com toda a consciência que não irá ultrapassar fronteiras como a "referência do género", que funciona bem como um filme de entretenimento que reserva ao espectador momentos de acção bem construídos e que talvez - atenção ao talvez - possa recolher alguns prémios no campo dos efeitos especiais que são, assumidamente, o seu ponto forte.
Simpático e energético, competente e com as respectivas tiradas sarcásticas que lhe são esperadas, San Andreas não irá desiludir nenhum espectador que entenda de antemão que não está perante o melhor filme do ano mas sim perante uma boa longa-metragem de acção.
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terça-feira, 2 de junho de 2015

Alberto De Martino

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1929 - 2015
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Woman in Gold (2015)

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Mulher de Ouro de Simon Curtis é uma longa-metragem britânica que conta com a participação de Helen Mirren como protagonista ao interpretar Maria Altmann, uma judia austríaca que conseguiu fugir para os Estados Unidos que descobre cinquenta anos depois que é a legítima herdeira do famoso quadro Woman in Gold de Gustav Klimt que, na realidade, mais não era do que o retrato da sua tia Adele Bloch-Bauer.
Depois de um encontro com o advogado Randy Schoenberg (Ryan Reynolds) sobre quais as suas expectativas de o recuperar, ambos viajam para a Áustria - detentora do quadro - onde pretendem iniciar um processo de recuperação do mesmo sem esquecer entretanto, todos os traumas do passado e as memórias de uma família que já não tem.
Desde o Anschluss austríaco à Los Angeles de 1998, o argumento de Woman in Gold é uma viagem não só ao passado como principalmente uma feita aos meandros de uma justiça que ainda está por cumprir. Maria Altmann é uma mulher que, como tantas outras, leva uma vida aparentemente normal até ao dia em que perde a sua irmã... a última prova da sua origem austríaca como também da emocionante fuga do seu país de forma a não cair nas garras da perseguição nazi. Mas, quando esta mulher descobre que parte das suas memórias existem na posse do Estado Austríaco, a mesma pretende acima de tudo que a verdade seja reposta e que seja finalmente encerrar um capítulo da sua vida que não julgava ainda por sarar.
Entre um conjunto de momentos em flashback onde conhecemos todas as origens familiares de Altmann bem como o seu casamento, os seus espaços e lugares, as suas ligações com uma tia que serviu de mote inspirador a uma das obras mais emblemáticas da arte europeia, e toda uma dinâmica batalha legal onde aqueles que se apresentam como defensores de uma restituição da justiça são também os mesmos que mais cerram fileiras para que esta nunca seja cumprida, o espectador de Woman in Gold não só se identifica com diversos momentos desta história como, ao mesmo tempo, deseja que alguns daqueles segmentos do passado pudessem ter sido mais extensos e que explorassem de melhor forma todas as pequenas cumplicidades familiares que se intensificaram quando o terror lhes batia literalmente à porta sendo esta "falta" aquela que é a principal fragilidade do filme não por estar mal explorada mas sim por ter deixado no espectador uma necessidade de saber mais sobre esta família.
Curiosos são alguns factos nomeadamente a dinâmica entre "Randy" e "Maria" - aqui tão bem explorada por Reynolds e Mirren respectivamente - que de gerações diferentes e como uma igualmente distinta relação com o passado conseguem através de um objectivo comum encontrar um meio termo que faz funcionar o seu relacionamento. Se para "Maria" a vontade era esquecer e ultrapassar um passado trágico, para "Randy" foi a necessidade de conhecer o seu próprio passado - também de famílias originárias e fugidas da Áustria - que despoletou tanto o interesse pelo caso de "Maria" como por uma história da História que faltava fazer cumprir.
Igualmente de destaque a forma como é retratado o governo e autoridades austríacas que inicialmente deram início a todo este processo de restituição das obras de arte roubadas pelos nazis como que numa tentativa de sarar e saldar a dívida com o seu passado mas que, de seguida, parecem querer que essa manifestação de boa vontade não passasse de uma formalidade que nunca seria cumprida através de um conjunto de burocracias e questões legais que mais rapidamente levavam as vítimas ao esgotamento pelo desespero do que propriamente a uma justiça que havia demorado cinquenta anos a chegar.
Finalmente uma última curiosidade - e possivelmente aquela que melhor define a reposição e devida justiça pessoal - o momento em que "Maria" se despede dos seus pais pela última vez dando de seguida início ao seu processo de fuga com o seu marido, quando as últimas palavras do seu pai são que os (pai e mãe) recorde. É esta dinâmica da preservação da memória e das origens - para lá de nacionalidades - que acabam por se manifestar como as mais importantes no cinema de género que Woman in Gold representa acabando por definir que apesar dos trágicos acontecimentos da década de quarenta do século passado estão (estiveram) para sempre vivos na memória de todos aqueles que por eles passaram mas que ainda mais vivos estão as memórias e os afectos partilhados pelas vítimas que se separaram muitos dos quais sem nunca mais se tornarem a ver.
Com uma - mais uma - sólida interpretação de Helen Mirren que dá uma força sobrenatural a cada personagem - aqui real - a que dá corpo, Woman in Gold destaca-se na minha opinião por um subentendido alerta para uma certa similitude entre o passado e o presente onde nesta Europa adormecida se começam a levantar pontas de xenofobias internas que se julgavam desaparecidas na "Europa das Nações" constituindo-se como um nem sempre reconhecido documento sobre uma memória que devemos preservar na esperança de que não se volte a repetir.
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"Maria Altmann: Unlike Lot's wife, I never looked back."
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8 / 10
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