domingo, 9 de agosto de 2015

Dark Places (2015)

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Lugares Escuros de Gilles Paquet-Brenner é uma longa-metragem franco-americana e a mais recente estreia cinematográfica de Charlize Theron depois do esperado Mad Mad: Fury Road.
Libby Day (Theron) tinha apenas oito anos em 1985 quando a mãe e duas irmãs foram brutalmente assassinadas na sua casa durante a noite. Depois da detenção de Ben (Tye Sheridan), o seu irmão mais velho, Libby viveu toda uma vida como a "criança vítima" que toda a comunidade decidiu auxiliar.
Mas quando trinta anos depois uma comunidade de investigadores decide recuperar o caso e desvendar todas as pequenas questões que ficaram por responder, Libby vê toda a verdade ressurgir num caso que a atormentou toda a sua vida revivendo assim os trágicos acontecimentos daquele noite.
Num ano em que se assume como uma presença constante nos ecrãs, Charlize Theron não só protagoniza como produz este Dark Places, um thriller dramático no qual volta a contracenar com Nicholas Hoult - tal como no já referido Mad Max: Fury Road - e que coloca o espectador no centro de uma história que mescla o passado e o presente, as memórias e uma confusão de sentimentos que apenas são desvendados no final. No centro de um Kansas rural, as vidas desgastadas não só pelas crises financeiras como principalmente por um conjunto de elementos pessoais que esvaziam as esperanças daqueles que atravessam uma já de si complicada situação, levam a que todas aquelas pequenas grandes diferenças que fogem ao "normal" do meio sejam apontadas como as causadoras de todo o mal. Um mal que não existe necessariamente no "outro" mas sim no "eu" que o observa com desdém e até alguma inveja por conseguir e querer ser diferente... algo que "deste lado" nunca é conseguido.
É com base nesta premissa que se desenvolvem os destinos de "Ben", um jovem solitário e com um espírito relativamente grande demais para o pequeno espaço em que vive e que fruto das suas escolhas de adolescente "alternativo" - para o meio - se vê no centro de um conflito social em que é apontado por tudo... e todos. É quando a tragédia invade a sua casa com a morte da mãe e de duas das suas irmãs que "Ben" vê todos os rumores da cidade caírem sobre si como se de factos já confirmados se tratassem sendo ele culpado de todo o mal que aconteceu dentro do seu lar. Mas... o que aconteceria se anos depois alguém resolvesse olhar para os factos e não para o preconceito que o resolveu "julgar"? Numa América de várias "Américas" - que é como quem diz diversas realidades - que importância tem o elemento diferente que destoa da realidade socialmente aceitável? No seio de um conservadorismo atroz que julga sem conhecer, quem é que ousa ser diferente? Quem ousa pensar pela sua própria cabeça ou até mesmo viver independente? E mais importante que tudo isto, quem poderia sequer demonstrar solidariedade perante uma família que tem - na opinião dos demais - um adorador de Satanás no seio das suas quatro paredes?!
Dark Places é para além do "ensaio" sobre a diferença, um conto sobre aqueles lugares onde a mudança e o tempo não passaram - ou passaram sem deixar marca - e que exteriormente tudo é muito bonito e polido mas que no seu interior esconde um núcleo podre que se refugia no poder do dinheiro e naqueles que na sua falta são engolidos pelo mesmo. Esses lugares onde a sobrevivência depende do engenho próprio e da capacidade de resistir no silêncio a um mundo adverso onde o sacrifício pessoal dita a qualidade de cada um e os sentimentos são uma miragem desconhecida.
O engano e o rumor estão sempre presentes em Dark Places. A incerteza paira no ar e a única coisa que o espectador mantém como certa é que as aparências revelam-se - a seu tempo - correctas e que os culpados (pelo menos alguns...) são verdadeiramente culpados estando, no entanto, a atenção desviada daqueles que o são. As evidências nem sempre o são... tal como as certezas. E aquilo que inicialmente era dado como uma prova da culpa de alguém não o é... assim como todas as vítimas... nem sempre o são. No fundo, aquilo que Dark Places nos faz descobrir é que nem sempre quem sofre é uma vítima inocente... por vezes contribuiu para a sua condição - com um sentido de abnegação - e por outras é uma vítima consciente em nome da salvação de alguém que desconhecendo faz parte do seu ser. Sem nunca esquecer que nem tudo é como inicialmente parece aos olhos dos espectador que sente desde o primeiro momento que a história tem mais do que aquilo que revela... mas que as surpresas só poderão - irão - chegar no final.
Para lá dos pré-julgamentos que sabemos existirem nos meios pequenos onde todos são "obrigados" a parecer mais do que aquilo que realmente são, Dark Places lança ao espectador uma outra questão fundamental... até onde estaria disposto a ir para salvaguardar aqueles de que mais ama? Esta questão que é "encarnada" por "Patty" (Christina Hendricks), a matriarca dos "Day", mas também por "Diondra" (Andrea Roth/Chloë Grace Moretz) que esconde durante anos o seu próprio segredo apenas conhecido de "Ben". Se para a primeira esta questão pode ser respondida por motivos de segurança e de planeamento de um futuro ao qual (não) poderá - irá - assistir, para a outra esta salvaguarda é meramente animal e instintiva sendo que a sua preservação só estará garantida se tudo for executado sem deixar as tais "pontas soltas".
Mas esta sobrevivência não se prende apenas com o poder chegar à frente mais um dia. Ela prende-se principalmente com a capacidade de chegar a esse dia sabendo que tudo aquilo que foi deixado para trás está resolvido fazendo com que seja possível viver de consciência tranquila com esse momento. Saber que somos capazes de impedir que o "mal" - tal como é a certa altura referido por "Libby Day" -, apenas pode(rá) entrar se lhe permitirmos entrada. Saber que perdoámos aquele "eu" que deixámos para trás e que por muito assustado que se encontrasse em tempos mais conturbados da sua (nossa) existência, o dia de amanhã será mais tranquilo e pacífico apenas conseguido com o perdão que lhe (nos) reservámos.
"Libby Day", ainda que uma vítima inconsciente, torna-se uma nova criação quase insensível de Charlize Theron na medida em que nada da sua história pessoal lhe reserva uma memória agradável do seu "eu", assumindo-se uma vez mais como a anti-heroína de serviço. O espectador fica quase indiferente à sua condição/situação durante a maior parte do filme e apenas aos poucos já bem perto do final consegue sentir alguma empatia com a sua personagem. No fundo, ainda que uma vítima desde jovem idade, Charlize Theron consegue criar uma personagem com a qual não existe grande simpatia mesmo tratando-se de uma jovem que esteve no centro de um brutal triplo homicídio tendo perdido toda a família no processo. Para lá de vítima ou de uma ocasional oportunista da sua própria situação, a personagem de Charlize Theron consegue manter-se ora distante e insensível ora curiosa e perdida. Afinal, o que será a realidade?
Destaque ainda para as interpretações de Tye Sheridan e Chloë Grace Moretz, dois dos novos jovens talentos de Hollywood com um percurso seguro e forte que conferem esperança para a nova geração de actores que com as suas personagens se colocam em planos bem distintos entre o Bem e o Mal e ainda as participações secundárias mas decisivas de Nicholas Hoult e Corey Stoll que não tendo grande tempo de antena em Dark Places se assume como uma figura central na evolução de toda a história.
Dark Places é assim um filme cuja história dá ênfase à eterna questão: e se o rumor ganhar vida própria? Mas acima de tudo isso faz ainda uma outra questão... e se depois de ganhar essa vida tudo o que acontecer à sua volta for imediatamente considerado como uma verdade que não se questiona? Confirmado que fica, onde poderá alguém encontrar a sua defesa?
Numa altura em que as salas de cinema ficam cheias de filmes pipoca na sua maioria sem o mínimo de interesse, Dark Places afirma-se como uma interessante e segura aposta através de uma história que para lá das evidências se afirma com as surpresas que reserva porque nem tudo é como parece ser.
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"Libby Day: The truly frightening flaw in humanity is our capacity for cruelty - we all have it."
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8 / 10
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Minhas Piores Lembranças do Fim do Mundo são Aquelas que não Guardei nem por um Segundo (2014)

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Minhas Piores Lembranças do Fim do Mundo são Aquelas que não Guardei nem por um Segundo de Danilo Godoy é uma curta-metragem de ficção brasileira que cruza passado e presente numa história de um amor perdido num trágico acontecimento.
Em casa, Maria (Rita Batata) assiste a uma VHS cujo título é "Barcelona 1989". Lá fora junto à sua porta Ele (Guilherme Gorski) faz distribuição de encomendas para a casa sua vizinha. Maria observa-o com uma curiosidade que rapidamente se transforma em voyeurismo confundindo esta observação com as suas próprias memórias.
Neste processo Maria conhece a sua vizinha... uma professora de Ikebana (Massae Yamaguti) que lhe devolve as fotos que Maria havia deitado fora.
Danilo Godoy, também o autor deste argumento, cria uma história que cruza de forma determinante o passado com o presente, a memória com a realidade e principalmente a relação que o antes e o depois têm na condição física e psicológica de cada um de nós onde a comunicação presente é quase exclusivamente tida através do gesto, da expressividade e daquela que é não verbalizada. "Maria" é uma jovem mulher afectada pelos acontecimentos traumáticos do seu passado que - deduzimos - estarem presos com a morte daquele que foi possivelmente o único amor da sua vida. Numa clara relação entre o seu passado e o seu presente - ambos encarnados pelo personagem que conduz uma mota, antes como seu namorado e agora como um rapaz que entrega recados e encomendas interpretado por Guilherme Gorski - "Maria" sente uma clara recordação daquilo que em tempos tivera e que agora nada mais é do que um passado perdido e distante.
Presa nas quatro paredes da sua casa e das memórias que ainda conserva, "Maria" definha num claustro que a impediu de viver, de sentir e até de evoluir. Constrangida pela prisão que essas memórias lhe conferem, ela apenas desperta deste "sono" quando uma mota pára em frente da sua casa e, ainda que não seja para ela ou tão pouco quem esperaria que ali estivesse, "Maria" passa a ter o que até então lhe tinha desaparecido... o desejo. O desejo de saber, de conhecer, de experimentar e de criar que lhe são igualmente despertados pela inesperada presença da professora de Ikebana que lhe faz perceber que a criação nunca está errada sendo sim um espelho de um estado de espírito, de um sentimento, da perda e da tristeza, da alegria e da descoberta. São o reflexo no presente de um passado tido, vivido e experimentado.
Do silêncio solitário em que observava o mundo através da sua janela, "Maria" passa a procurar o "outro" - que não o "seu" - na esperança (in)consciente de poder voltar a conectar-se com o mundo que abandonara para sarar as suas feridas da perda sendo este o exacto momento que, sem perceber, se liberta do passado que a enclausurava e que reentrava no mundo presente que esperava por ela. O fim do mundo foi, para "Maria", a perda da única pessoa que eventualmente significava algo para a sua própria existência sendo desde esse preciso momento consumida pela memória de algo que já não tinha. Algo que não a tendo abandonado deliberadamente a deixou perdida num mundo de memórias e de lembranças que que a faziam pensar no quão bom "havia sido". É esta lembrança que aquela mota e o seu condutor vêm uma vez mais despertar na sua memória.
Ainda que as personagens secundárias de Minhas Piores Lembranças do Fim do Mundo são Aquelas que não Guardei nem por um Segundo sejam fundamentais para a dinâmica desta história, não é menos verdade que é em Rita Batata que existe toda uma evolução que oscila entre a mulher apagada e afastada por vontade própria do mundo até àquela que pretende todo um novo contacto humano mesmo que este surja através de um hobbie para o qual jamais havia pensado tomar parte. De mulher amargurada a alguém que (des)espera por voltar a sentir "algo", Rita Batata assume-se como uma força relativamente silenciosa mas assumidamente viva. Um apontamento positiva para Guilherme Gorski que se sente presente durante toda esta curta-metragem mas de uma forma invulgar uma vez que parece ser apenas um fantasma do passado que resolveu surgir na vida da mulher que em tempos amara. Ou pelo menos um que resolveu na medida das suas possibilidades trazê-la de volta à vida que abandonara.
Destaque ainda para a direcção de fotografia de Alexandre Escanfella que faz o espectador sentir-se constantemente num espaço etéreo, inexistente e que apenas habita a mente daqueles que viveram uma dada situação... Perdidos entre o paraíso - ou purgatório - ou as ideias de um ser, a luminosidade captada nesta curta-metragem assumem-se pouco "terrestres" e mais presentes no campo do sonho, da imaginação e da memória realçando uma invulgar história de amor que parou no tempo... sem se perder.
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8 / 10
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sábado, 8 de agosto de 2015

La Famille Bélier (2014)

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A Família Bélier de Eric Lartigau é uma longa-metragem de ficção francesa nomeada a vários César da Academia Francesa de Cinema tendo saído vencedora do de Actriz Revelação atribuído a Louane Emera.
Paula (Emera) é uma jovem adolescente e a única na família que consegue ouvir. O pai Rodolphe (François Damiens), a mãe Gigi (Karin Viard) e o irmão Quentin (Luca Gelberg) são surdos-mudos desde nascença e Paula ajuda-os em todas as tarefas burocráticas e laborais tendo-se tornado adulta antes do seu tempo.
Na escola Paula tem uma paixoneta por Gabriel (Ilian Bergala) pelo que se inscreve nas aulas de coro para poder passar mais algum tempo com ele. No entanto, e contra tudo aquilo que ela própria pensava, Paula revela uma magnífica voz sendo convidada para um concurso de canto e bolsa de estudo pelo seu professor Fabien (Eric Elmosnino). Conseguirá Paula deixar a sua família e rumar para outra cidade?
O argumento original de Eric Lartigau, Thomas Bidegain, Victoria Bedos e Stanislas Carré de Malberg é uma pequena pérola e este filme poderá - infelizmente - passar ao lado do grande público que prefere ignorar cinema falado que não em língua inglesa. Para lá de mais uma comédia francesa, La Famille Bélier é sim uma comédia mas uma que prefere abordar as excentricidades de uma família invulgar sem esquecer todos os dramas que estão associados não só à condição que afecta três dos seus membros mas também aqueles de uma família com dois adolescentes e uma activa vida profissional que não esquece um pequeno toque de política.
Longe de uma qualquer comiseração ou indulgência pelo casal protagonista, La Famille Bélier aborda questões de dois pais que vivem uma vida livre de preconceitos e com uma acentuada dose de carisma onde residem os seus espíritos livres, encarando a fase de crescimento dos seus filhos de forma livre e libertária celebrando não só a vida como todos aqueles pequenos momentos que partilham de forma empolgante como se o último momento que vivem fosse o seu último. Os Bélier são, essencialmente, uma família longe de todas as formalidades e códigos... Aliás, o único código que têm é simplesmente não existirem regras per si.
Mas o que acontece quando um destes elementos, aqui pela personagem "Paula" interpretada por uma inspirada Louane Emera, revelam que a sua vida está para lá daquela pequena vila onde sempre viveu? O que acontece quando se percebe que existe tanto para lá daquilo que sempre se conheceu mas que, ao mesmo tempo, separar-se daqueles com quem se têm os mais fortes elos provoca uma dor nostálgica profunda? É esta mesma dor que leva a que se inicie o primeiro momento de tensão entre pais e filha - principalmente mãe e filha - que revela a dor que sentiu ao ter uma filha "diferente" - para eles... tal como já havia sido mencionado ao longo do filme que também o tal bezerro era diferente dos demais - e que sempre havia odiado pessoas que ouviam... "Gigi", num desempenho magnífico de Karin Viard nomeado ao César, é uma mulher que sofre pela segunda vez... Primeiro por ter uma filha que revela ter pensado com quem não saberia comunicar, e agora de quem tem uma dependência extrema e que vê finalmente "partir".
Neste que é um dos mais tensos e "amargos" momentos de La Famille Bélier, o que se celebra não é essa indiferença entre mãe e filha mas sim a forma encontrada pela primeira de se separar - arriscaria dizer rejeitar se não fosse tão cruel - da sua prole em nome de uma auto-preservação sentimental e emocional que percebe não conseguir controlar. "Paula" é como o elo de ligação da família ao resto do mundo e ainda que sabendo interagir com os demais, "Gigi" entende que não poderá voltar tão depressa a contar com o apoio da sua filha sendo mais fácil afastá-la do que viver com a dor de lhe ter dado a sua benção.
Mas não há momento como aquele em que a família se "reencontra", e Eric Lartigau filma com uma sensibilidade extrema os momentos em que os pais Bélier assistem não só ao dueto da sua filha com "Gabriel" como também à audição que a jovem "Paula" faz na escola. Se no primeiro momento Lartigau priva o espectador de escutar o dueto colocando-o na mesma situação que os seus pais podendo apenas assistir às reacções e emoções que o restante público emite, no segundo faz da audição da jovem um momento de verdadeira comunicação com os seus pais através da linguagem gestual que esta havia ensaiado. Dois momentos verdadeiramente emotivos que apenas encontram igual na despedida final da jovem e da restante família que não revelarei na esperança de que este comentário chegue a alguém e desperte a sua curiosidade em assistirem a um filme diferente mas que preenche pela sua franqueza e transmissão de momentos de uma disposição verdadeiramente contagiante.
Se de Karin Viard ou de François Damiens muito se poderia dizer sobre o seu mais que confirmado talento, é de Louane Emera - justa vencedora do César Revelação - que se tem de fazer notar um comentário bem positivo não só pelo seu sentido de comédia recatada como principalmente pela sua entrega e dedicação à expressão de um conjunto de sentimentos que podendo ou não fazer uma lágrima fazem, com toda a certeza, despoletar todo um conjunto de emoções.
Um filme simples, bem disposto mas também emotivo... La Famille Bélier é a confirmação de que o cinema francês (sobre)vive com boa saúde, com disposição e muita dedicação sem medo de contar bem histórias diferentes mas simples. E o espectador que atente aos momentos musicais... os mais poderosos de todo o filme...
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8 / 10
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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Uggie

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2002 - 2015
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Trois (2015)

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Trois de Roberto Pérez Toledo é uma curta-metragem de ficção espanhola e que dá continuidade à premissa que rege a curta-metragem Fugaces que hoje mais cedo aqui comentei.
Ele (Álex García) e Ele (Adrián Expósito) conhecem Ela (Marine Discazeaux). Eles espanhóis, Ela francesa. Não falam a mesma língua e passaram a noite juntos na praia. Para um deles foi o primeiro ménage à trois. Falam... mas não se entendem.
O ménage à trois inventaram-no os franceses mas... onde fica o amor?
Pérez Toledo volta uma vez mais e de forma astuta à temática das relações humanas. Em que lugar ficou o amor num ménage à trois? Será este a única forma de duas pessoas, cuja atracção é mútua e evidente, conseguem encontrar para se amarem? A falta de comunicação aqui levada à letra através da representação em duas línguas distintas - francês e espanhol - é, no entanto, uma forma inteligente e figurativa da falta de capacidade das pessoas comunicarem realmente entre si e transmitirem as suas preocupações, desejos e sentimentos. Se aquela noite é para "Ela" francesa e a tentar recuperar de um passado complicado - que não é nunca facultado ao espectador - para "Eles" foi a transformação em algo real de um sentimento maior até então impossível de expressar. Aquela noite, e principalmente aquele ménage à trois, foi a confirmação de um amor não declarado - apenas o é com um muito francês mas também muito universal je t'aime - revelado entre os dois amigos espanhóis com aquele que é possivelmente o único afecto/sentimento expressivo do tal amor que esta curta-metragem vê cumprir.
No entanto, existe mais para lá da confirmação deste sentimento. Existe ainda uma alma estrangeira e que não consegue - nem tenta - revelar o quão de positivo foi aquela noite para ela... como de certa forma a salvou de um passado de infelicidade não sabendo ela que, também para eles, esta noite também os salvou de um segredo vivido, sentido e até então nunca confessado... o amor.
Sempre presente nos brilhantes argumentos de Pérez Toledo está não só a dinâmica das relações humanas como principalmente esta (in)comunicabilidade que nos (des)governa diariamente... Porque razão teremos tanto medo de confessar os nossos sentimentos e aquilo que somos àqueles que (n)os motivam e impelem a senti-los?! Porque razão acaba por ser sempre o silêncio o melhor amigo das almas apaixonadas que se perdem pela inexpressividade do sentimento? Porque será a culpa o estado associado do amor? E finalmente, porque motivo utilizaremos inuendos e o acaso como o mote perfeito para expressar algo que nos vai na alma? Se não o medo da rejeição que se esquece quando finalmente se cumpre o sentimento, o que leva cada um de nós a optar por um sofrimento sentido nesse mesmo silêncio que nos impossibilita de sentir e de viver?
Com uma interessante música original de Alejandro Ventura e três inspiradas interpretações que conseguem comunicar para lá das barreiras linguísticas, Trois é mais um filme curto que confirma todo o potencial de um dos mais prolíferos e entusiastas realizadores espanhóis e da condição humana enquanto ser incapaz de expressar todos os seus sentimentos e afectos.
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8 / 10
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Fugaces (2015)

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Fugaces de Roberto Pérez Toledo é uma curta-metragem espanhola de ficção elaborada aquando da semana do Orgulho Pride de Madrid e que nos dá a conhecer a história de dois jovens adultos. O primeiro (Fran Ropero) residente em Madrid que dá a indicações sobre a cidade a Luís (Álvaro Pérez Muñoz), vindo de Albacete para as referidas festas.
Numa cidade cheia de jovens turistas tanto da província como estrangeiros, há sempre algum de se destaca por entre a multidão. É com este pensamento que Roberto Pérez Toledo lança Fugaces, a sua mais recente curta-metragem onde mais uma vez estuda a dinâmica das relações humanas.
Depois de Rotos (2012), Al Final Todos Mueren (2013) ou Los Amigos Raros (2014), Pérez Toledo leva o espectador a mais uma das suas incursões sobre aquilo que nos une e nos separa reflectindo sobre as características individuais que podem aproximar as pessoas mas principalmente sobre todos os elementos que as podem separar. Em Fugaces a sua perspectiva leva o espectador a um encontro casual que durante alguns dias se transforma num romance - ou pelo menos naquele que poderia ser o seu projecto - e que funciona pela química demonstrada entre os dois protagonistas mas que, ao mesmo tempo, se anuncia findo desde o primeiro instante. Findo não pela distância que separa os ditos protagonistas - Madrid vs. Albacete - mas sim pela hipótese, pela circunstância e pelo imediatismo a que as relações modernas são ou estão "condenadas" sabendo que pode perder-se a pessoa com quem se está tendo sempre outro alguém por perto. No fundo Pérez Toledo preconiza sobre esta dimensão humana em que todos somos mais ou menos viciados em encontros fugazes e inconsequentes nos quais preenchemos as nossas necessidades afectivas e sexuais de momento não criando ou tendo qualquer tipo de ligação mais duradoura limitando- se apenas ao instantâneo, fácil e em certa medida descartável.
No final aquilo que fica implícito nesta história é que a possibilidade de uma relação duradoura e que consiga sobreviver às distâncias e eventuais adversidades é sempre preterida a favor daqueles de momento, de ocasião e que satisfazem apenas os apetites do instante ignorando a potencialidade de algo que seria necessário construir e fomentar.
Pérez Toledo que não me canso de referir de cada vez que estreia um dos seus novos filmes curtos é um dos novos nomes do cinema espanhol. Independentemente daquilo que a sua carreira venha a entregar ao espectador e mesmo que se separe desta linha condutora que tem apresentado até à data, a sua habilidade e capacidade de contar histórias com as quais o espectador se identifique ou reveja no principal da sua essência, certo é que o faz como aprumo e excelência conferindo credibilidade e veracidade a cada uma destas novas personagens que cria e às quais dá vida. Dito isto e como voto pessoal, espero que nunca se separe deste cinema de personagens, de histórias e de ligações que mesmo sendo interrompidas caracterizam não só as adversidades como todos aqueles elementos que compõem as relações humanas... duradouras ou não.
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7 / 10
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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Um Rapaz Chamado Jaime (2015)

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Um Rapaz Chamado Jaime de André Marques é uma curta-metragem portuguesa de ficção e o mais recente trabalho do realizador de O Anjo (2013).
O argumento desta curta-metragem, também da autoria do realizador, apresenta-nos Jaime (Henrique de Carvalho), um rapaz para quem a normalidade do seu dia-a-dia reside na violência a que é sujeito às mãos do seu pai.
Incapaz de se relacionar com os outros, Jaime tem uma invulgar forma de interagir com César (Pedro Ó Parente), aquele que parece ser o seu único amigo, e que irá determinar de forma dramático o resto da sua vida.
Num evidente salto qualitativo desde O Anjo, André Marques cria uma interessante história não só pela forma como aborda uma invulgar e escondida dinâmica familiar como, ao mesmo tempo, quebra o - um - silêncio sobre a violência física e sexual no seio da mesma de forma crua e quanto baste explícita. Para lá dos inúmeros relatos informativos dos quais tomamos conhecimento e que tantas vezes preferimos ignorar, em Um Rapaz Chamado Jaime o espectador entre não só dentro da mente perturbada e atormentada de "Jaime" como também dentro daquele que deveria ser o seu porto de abrigo... o seu lar. O que será que realmente acontece na mente daqueles que vêem e vivem no único local do mundo onde qualquer um se deveria sentir protegido e em segurança? O que acontece quando este local se torna naquele que mais atormenta a existência de alguém transformando-o numa zona de tensão e repúdio? E finalmente, o que acontece quando todo um ambiente de tortura física e psicológica são tidos como "normais" transformando toda a interacção humana num único e contínuo acto de violência?
Todas estas questões têm obviamente uma resposta. Uma resposta que não se avizinha desde o primeiro instante como sendo aquela que esperamos para um desfecho feliz - impossível depois de todos os momentos mais ou menos explícitos que presenciamos da "rotina" a que "Jaime" está sujeito mas que, ao mesmo tempo, desencadeiam todo um processo de auto-destruição.
"Jaime" está perdido... apenas ele não consegue ainda perceber isso. Incapaz de se sentir seguro no seu lar ou de estabelecer um qualquer tipo de relações de amizade ou afectivas com outras pessoas - percebemos aliás que boa parte da sua existência foi vivida neste estado de insegurança e com a ausência de uma mãe que fugiu do seu lar -, toda a atracção física se direccionam na imagem de "César" mas puramente num instinto animal que lhe é transmitido como sendo "normal". A afectividade não existe tendo sido destronada pela possessividade e violência e estas a uma manifestação de relação meramente carnal e tida pela força. Quando o afecto é desconhecido e a violência é um estado psicológico "normal" e o único que compreende como o correcto para se relacionar com os demais, o espectador percebe que "Jaime" está a uma curta distância de descarrilar definitivamente.
Com uma interessante direcção de fotografia de Teresa O. Sousa que capta não só uma luz interessante nos exteriores no primeiro segmento da curta-metragem como um ambiente tenso e pesado que parecem transformar aquele apartamento numa câmara de penitências escura e mórbida, Um Rapaz Chamado Jaime destaca-se não só pelo já referido argumento como ainda pela inspirada interpretação de um jovem Henrique de Carvalho como o jovem atormentado e preso dentro de um ambiente tortuoso, inseguro dos seus sentimentos e principalmente de como expressá-los e cuja inaptidão irão, a curto prazo definir o seu destino, no desempenho que o coloca afastado da "escola" que podem ter sido as novelas e no rumo como um potencial e interessante protagonista em cinema.
Um último e igualmente positivo apontamento às interpretações de Pedro Ó Parente que tendo uma interpretação secundária faz dela o ponto de desejo - e sem retorno - desta história, e ainda para Sérgio Mendes como "António", o pai abusador e violento que dá todo um novo rosto àquilo que facilmente poderemos identificar como um predador com o rosto do mal demonstrando que sem qualquer artifício ou caracterização este (mal) pode ter um rosto igual a tantos outros e bem mais próximo do que qualquer um de nós imagina.
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8 / 10
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Tu (2015)

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Tu de Luciano Sazo - também o autor do argumento - é uma curta-metragem portuguesa de ficção que nos apresenta uma mulher (Liliana Leite) naquele que parecia ser um dia como tantos outros... e era.
Ela acorda e faz a sua rotina matinal que, no entanto, está longe de ser apenas vestir-se e ir beber o seu café. O seu dia começa quando vê aquele homem (Luís Eusébio) que ama loucamente. Será que ele também a ama?
Solitária e aparentemente reservada, "Ela" é uma mulher que vê - literalmente - o mundo pela janela. Observa quem passa e aqueles que captam a sua atenção são imediatamente alvo de um jogo a "dois" sem que esse outro interveniente perceba que faz parte da trama. Presa às suas noções de interacção e à vontade que tem de estar perto de alguém, "Ela" parece desconhecer outro tipo de relação que não aquela que ocasionalmente estabelece com a troca de duas ou três palavras.
O argumento de Luciano Sazo parece prender o espectador à noção de que há relações complicadas demais para serem estabelecidas e, como tal, porque não imaginá-las na medida em que tudo acontece... apenas não é concretizado de facto. Quando um "olá" ganha contornos de atracção e um "como estás?" a confirmação de um desejo, Tu parece levar o espectador para uma personagem cuja mente não teve a interacção suficiente com o exterior para perceber que alguns contactos são meramente superficiais e de ocasião. No entanto, é quando continuamos a acompanhar esta mulher - num interessante e algo neurótico registo que a actriz Liliana Leite confere à sua personagem - que percebemos que para ela vários são os focos da sua atenção.
O espectador poderia inicialmente pensar que esta mulher teria sido magoada ou desiludida sentimentalmente mas esta teoria esbate-se quando a vemos imaginar a "primeira vez" que conversou com a tal pessoa com mais do que um homem. Para lá de um difícil (re)começar, aquilo que Tu nos revela é que no silêncio de uma sombra ou resguardada por uma qualquer janela existe uma mulher que fixamente observa aqueles que a sua mente imagina como alguém com quem estabeleceu interacção e com os quais existiu uma empatia que os leva a serem "o tal".
Assim, e num domínio que nos escapa enquanto ocasional mas sim o fruto de uma mente perturbada, aquilo que esta mulher representa não é tanto uma mente magoada mas sim a de alguém que se perdeu algures no tempo e que apenas a sua imaginação a faz crer que todos aqueles homens - sim, o espectador deduz automaticamente que podem ser mais do que dois - são seus eventuais amigos ou até mesmo alguém com quem pode estabelecer uma relação amorosa e sentimental.
Sem nunca confirmar qual o seu destino, "tu" pode ser qualquer um com quem tenha trocado um comentário banal - como a simples troca de um isqueiro - e que para ela por uma eventual desistência de se fixar em alguém se fixa, por sua vez, em todos aqueles que se atravessam o seu caminho. De desespero sentimental a um potencial distúrbio psicológico, esta mulher senta-se no limbo deixando o espectador numa sempre presente dúvida.
A dar continuidade a um conjunto de obras nas quais salienta a destreza das relações humanas, Luciano Sazo destaca-se uma vez mais pela forma complexa com que aborda não só o momento como a condição em que no mesmo se situa o "Homem". Quais as suas condições ambientais, sociais e até mesmo económicas destacando, no entanto, toda uma complexidade narrativa que não especifica nem o passado ou tão pouco o futuro deixando apenas o presente como a certeza que abre vários potenciais caminhos.
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7 / 10
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Lux (2015)

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Lux de Bernardo Lopes e Inês Malveiro é uma curta-metragem portuguesa de ficção e a vencedora do Over & Out 2015 como Melhor Filme que nos conta a história de Pedro (Sérgio Moura Afonso), um escritor em plena crise criativa que se isola no seu apartamento na esperança de poder construir o seu mais recente romance.
Mas o que acontece quando Pedro parece estar com uma ideia nova? Algo de curioso sucede na sala do lado...
O argumento original de Bernardo Lopes contém algumas interessantes ideias não só sobre os dilemas de um escritor em plena crise criativa que se deixa levar pelo ambiente claustrofóbico que povoa como também pela forma como reproduz activamente os momentos em que surgem ao mesmo as suas novas ideias e, por sua vez, os momentos em que as perder - sem revelar porque é necessário vê-los - conseguindo desta forma não só transmitir ao espectador o momento que imaginamos mas aqui recriá-lo para lá do papel ou da imaginação.
Se toda a ambiência daquele apartamento parecem levar o espectador para um isolamento onde o cuidado para com o "eu" deixa de ser uma preocupação - tal como podemos constatar na situação de "Pedro" que parece deixar-se arrastar para o início de uma qualquer depressão -, não é menos verdade que aos poucos - e à medida que descobrimos os pequenos detalhes que compreendem a criação da "obra" - é possível destacar Lux como uma curta-metragem atenta nos detalhes. Atenta ao ponto de merecer uma maior exploração de toda a condição psicológica da sua personagem principal - numa interessante e bem construída interpretação de Sérgio Moura Afonso - para a qual contribui de forma decisiva a própria direcção de fotografia de Pedro Arial que confere ao espaço não só a amplitude que a criação exige como o condicionamento que a falta de inspiração impõe, como também a um desenvolvimento daquela que parece ser o início de uma neurose que a falta de inspiração lhe provoca.
Original e bem construída Lux teria - tem - pernas para andar um pouco mais longe.
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7 / 10
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Shortcutz Viseu - Sessão #57

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Depois de uma curtíssimas férias, o Shortcutz Viseu está de volta e desta vez para a sua nova residência - Carmo'81 - já no próximo Sábado dia 8 de Agosto pelas 22 horas na Rua do Carmo nº81, em Viseu.
A sessão #57 abre com o habitual segmento de Curtas em Competição onde serão exibidas as curtas-metragens Sintoma de Ausência, de Carlos Melim que estará presente na sessão acompanhado de vários elementos da equipa técnica, e ainda Cold Hands, de Tiago Sarmento também presente na sessão para a apresentação da sua curta-metragem.
Finalmente no segmento DOC Xpress Viseu será exibido o documentário Rua das Tendas, de Diana Almeida que também se deslocará ao Carmo'81 para apresentar a sua curta-metragem e conversar com o público.
Para uma rentrée cinematográfica com o melhor que se faz de cinema curto, o local para estar é a Carmo'81 a partir das 22 horas do próximo Sábado.
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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Última Sesión (2014)

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Última Sesión de Natxo Fuentes é uma curta-metragem espanhola de ficção onde o cinema e a sua importância para uma comunidade são destacados de uma forma que evidencia a humanidade do espaço como daqueles que nele tiveram especial influência.
Uma noite determina o fim de um cinema mítico de uma cidade. Enquanto os silêncios se mesclam com a melancolia, quatro pessoas encontram aquele que pode ser o novo rumo para a sua história e para o seu futuro.
O realizador e também argumentista de Última Sesión cria aquela que pretende ser em primeiro lugar uma história de homenagem à magia do cinema. Mas não um cinema qualquer... Uma homenagem ao cinema enquanto arte e por sua vez, àquelas características salas de cinema de bairro onde tantos dos seus habitantes viram e fizeram a história da própria arte como de tantos filmes com os quais cresceram e viajaram por lugares mais ou menos imaginários e imaginados.
No entanto, Última Sesión transporta-nos ao interior daquela sala - agora relativamente vazia - que anuncia o seu próprio fim. O fim de tantos sonhos e de vidas inteiras que ali se formaram enquanto espectadores, enquanto críticos e enquanto seres que naquelas salas e entre aquelas paredes viram os anos - os seus - passarem com inúmeras histórias e experiências passadas. É aqui que os quatro intervenientes desta história se (re)encontram questionando o que foram as suas vidas - as do projeccionista e a de Enriqueta - e aquilo que poderá ser a benção última de um cinema para o futuro - de Iván e de Nuria - que se espera dê uma continuidade à magia mas agora real. Se por um lado o jovem casal encontra agora um potencial futuro e uma empatia que os faça encontrar a sua própria história, o casal mais velho que dedicara toda a sua vida àquelas paredes e a tantas histórias cinematográficas, encontra agora o motivo para, também eles, poder encontrar o seu caminho junto que fora durante tantos anos ora silenciado ora vivido numa cumplicidade não confirmada mas que agora necessita de ser "aceso".
De tantas histórias de amor viveu aquele espaço que, de certa forma, nunca confirmou aquela do par romântico que agora se vê "obrigado" a confirmar os seus sentimentos numa altura em que tudo parece condenado a um triste e mais ou menos esperado final. Se as histórias de amor foram, até então, no ecrã, é agora altura de as poder viver ao vivo, em carne e osso, com toque, sentimento, desejo, paixão e o dito amor até então não vivido.
O cinema como arte, como espaço físico e como local de experiências e vivências comuns entre aqueles que o amam, o sentem e o respiram é a quinta personagem - silenciosa - desta curta-metragem que vive e respira um património comum entre todos aqueles que fizeram História num espaço pelo qual navegaram e se sentaram na primeira fila e que nele encontram a possibilidade de dar continuidade a um rumo comum construindo, uma vez mais, as suas próprias histórias e aventuras.
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8 / 10
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Letter to a Refusing Pilot (2013)

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Letter to a Refusing Pilot de Akram Zaatari é um documentário em formato de curta-metragem libanês que foi exibido no Pequeno Auditório da Culturgest no âmbito do DocLisboa - Festival Internacional de Cinema que decorreu em Lisboa entre os dias 16 e 26 de Outubro passado.
Esta curta-metragem documental tem por base o momento em que Hagai Tamir, um aviador israelita, se recusou a bombardear a Escola Secundária de Saida, no Líbano, em 1982. Arquitecto de formação, Tamir reconheceu a estrutura do edifício relatando que seria ou uma escola ou um hospital largando, de seguida, as bombas sobre o mar e evitando a morte de dezenas de crianças. O seu gesto foi, no entanto, interrompido quando horas depois outro piloto bombardeia o mesmo local destruindo por completo a referida escola.
Num relato antes e depois dos bombardeamentos, Akram Zaatari recorre ao diário mantido pelo irmão na altura onde nos revela fotos e pequenas mensagens por ele escritas, com as quais tem o cuidado tratando-o como um artefacto histórico, e estabelecendo uma interessante e curiosa relação entre este diário e a obra O Principezinho, de Antoine de Saint-Éxupery através da presença de diversos elementos comuns em ambas as obras nomeadamente a presença de uma densa manta de árvores nas escolas - tal como o embondeiro da obra de Saint-Éxupery - a rosa e o evidente e já referido piloto com quem o Principezinho estabelece uma amizade.
Em Letter to a Refusing Pilot, esta amizade pode ser sentida - e estabelecida - entre a mensagem que Zaatari tenta passar com o seu documentário ao referido piloto que se recusou a seguir uma ordem - que poderão mais não ser do que dois estranhos - assim como pela simbologia sempre presente do avião que as crianças constroem com folhas de papel e que lançam dos telhados da cidade em que vivem como que tentando estabelecer uma "ponte aérea" de ligação entre dois mundos, duas culturas e duas nacionalidades. Afinal, tal como em O Principezinho, a mensagem maior que aqui se tenta passar para lá da óbvia em que a paz é uma constante, é aquela que apela aos sentimentos mais nobres de amizade, da tal bondade de criança que todos um dia tivemos e que algures no tempo caiu esquecida sem que dela se sentisse falta.
Tal como uma carta, Letter to a Refusing Pilot é uma mensagem visual sobre as inexistentes diferenças entre duas culturas vizinhas que se encontram de costas voltadas. Uma mensagem de agradecimento que revela o que não foi destruído - por um - e uma sentida forma de esticar a mão percebendo que o "eu" e o "outro" não são assim tão diferentes separando-os apenas a nacionalidade política e concentrando-se no facto de que pequenos - grandes - gestos podem revelar toda a diferença.
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8 / 10
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El Perro Naranja (2014)

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El Perro Naranja de Angel Puado - também o autor do argumento - é uma longa-metragem espanhola que retrata a história de quatro amigos que se encontram numa idade de transição e mudança das suas vidas reflectindo portanto sobre o seu passado e o facto do tempo ter passado sem que nenhum desse por ele.
Damián (Damián Varea) é o galã do grupo. Numa relação com Angela tenta encontrar sempre a próxima eleita para a sua contagem pessoal. Abraham (Abraham Arenas) numa relação com María que o deixa quando ele estava prestes a pedi-la em casamento. Toni (Toni Ferri), incapaz de expressar os seus sentimentos. E finalmente Fele (Fele Pastor), dono de uma garrafeira e aquele que aparenta estar mais estabelecido na vida.
Todos eles com os seus problemas existenciais, com o facto da idade passar e não estarem numa relação estável - por incapacidade ou medo - e por saberem que já não são aquele jovem de outrora com sonhos, esperanças e desejos, encontram o seu único refúgio no El Perro Naranja, onde discutem sobre as suas vidas e sobre os seus anseios.
El Perro Naranja é - para além do referido espaço de amizade dos protagonistas deste filme - o nome simbólico de um espaço que todos nós poderemos identificar na nossa formação enquanto indivíduos. Aquele local onde todos encontravam conforto nos desabafos que apenas se conseguem ter com os amigos e que ali ficam encerrados e terminados sem qualquer tipo de julgamento mas sim compreensão. Dito isto, esta longa-metragem assume-se como um tradicional filme de homens adultos que, no entanto, se encontram ainda na ressaca de uma pós-adolescência inibindo-os assim de assumir compromissos e realmente tomarem a vida pelas suas mãos. Numa fase adolescente que não termina, as responsabilidades inerentes à idade que avança sem parar são assim ultrapassadas com e por momentos inconscientes e inconsequentes. As pessoas magoam-se... os dias passam... e a solidão acaba por assumir um papel determinante na vida de cada um.
Não sendo uma longa-metragem de referência no género, El Perro Naranja consegue, ainda assim, transformar-se num título interessante se considerarmos não só a qualidade da interpretação dos diversos actores - protagonistas e secundários - assim como o dinamismo da história que se assume fluído e natural como se realmente de um conjunto de amigos se tratasse e que acaba por ser o ponto mais forte da mesma.
Possivelmente não será - por força dos mercados - um daqueles filmes que irá fazer grande carreira comercial (se lá chegar) mas, no entanto, a nível de festivais de cinema poderá chegar a um público alvo que se identificará com a história, com a dinâmica e com a química denotada nas interpretações dos actores protagonistas e, possivelmente, com alguns dos seus dramas e momentos mais reflexivos.
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7 / 10
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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Fantastic Four (2015)

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Quarteto Fantástico de Josh Trank é uma longa-metragem norte-americana que lança o espectador em mais uma incursão no mundo dos super-heróis - qual típico filme de Verão.
Reed Richards (Miles Teller) cresceu com a ideia de construir uma máquina que viajasse no tempo. Os seus ambiciosos planos chegam ao conhecimento de Franklin Storm (Reg. E. Cathey) que o recruta para a sua equipa composta pelos dois filhos Johnny (Michael B. Jordan) e Sue (Kate Mara) e com a dedicada ajuda de Ben Grimm (Jamie Bell) e de Victor Von Doom (Toby Kebbell), Reed consegue cumprir os seus planos.
Quando afastados do projecto que lhe levou toda a sua vida Reed decide que ele e a sua equipa têm de ser os primeiros a testá-la mas... num universo de tempo e espaço desconhecido, Reed não contava com as consequências que iriam transformar radicalmente as vidas de todos conferindo-lhes inclusive novas identidades.
Fantastic Four é assim o habitual filme de Verão repleto de efeitos especiais estonteantes e cujo primeiro capítulo se destina única e exclusivamente a iniciar aquela que será eventualmente uma saga cheia de sequelas e consequentes histórias paralelas sem fim. Bilheteira, a quanto obrigas?! Pelo meio, o que sobra? Uma história condenada aos lugares comuns habituais dos jovens extremamente inteligentes mas que são socialmente inadaptados e que formam aquilo que facilmente poderemos identificar como um clã... Todos pertencem ao mesmo grupo, conhecem as virtudes e defeitos mútuos e parecem saber o que e como os demais pensam a cada momento.
Pelo caminho fica uma tentativa de alerta sócio-ecológico sobre as condições deploráveis a que o Homem tem condenado o Planeta Terra - que oportunamente chega na mesma altura em que a população mundial parece estar a consumir a produção máxima do planeta vivendo agora de um "empréstimo" do próximo ano - e aquela já gasta mensagem de que não devemos renegar os jovens inteligentes pois eles, por muito que pareçam vindos de outro planeta são, afinal, iguais a todos nós... apenas francamente mais inteligentes. Se a isto juntarmos que existe sempre a desvirtualização do Bem a favor do Mal - tecnologia e recursos de outro planeta que poderão ser utilizados na Terra sob troca de elevadas quantias de dinheiro e logo, mais poder bem como o uso dos então transformados jovens em super-heróis que é como quem diz mais poder militar sobre o "inimigo" (seja lá ele quem fôr) - então Fantastic Four tem os elementos todos para garantir ao espectador e fã que as sequelas irão chegar e desta vez já com as nossas personagens confortáveis na sua nova pele enquanto "salvadores" da Humanidade.
Sem grandes rasgos ou marcos a nível de interpretação, Jamie Bell, Miles Teller, Kate Mara e Michael B. Jordan afirmam o seu protagonismo todos eles saídos de outras obras bem mais significativas nas suas carreiras mas que, como sabemos, não garantiram grandes cheques no bolso. E ainda que este filme lhes garante trabalho - fílmico e promocional - para os próximos largos tempos, a questão que se me coloca é... será que valerá a pena participar neste tipo de filmes que, não sendo executado na perfeição, os deixa simplesmente como "mais um" num mercado já saturado de sagas de super-heróis?
Simpático pela qualidade dos efeitos especiais Fantastic Four não deixa grandes referências para lá desse marco positivo, tudo o resto já está visto em dezenas de outros melhor executados não necessariamente a nível técnico mas seguramente a nível de argumento e desenvolvimento das suas personagens. Numa palavra.... entretém.
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4 / 10
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Prémio MOTELx de Melhor Curta-Metragem Portuguesa de Terror 2015: as seleccionadas

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Foram divulgados os primeiros títulos que irão passar pelo MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que irá decorrer no Cinema São Jorge entre os próximos dias 8 e 13 de Setembro e, entre eles, as dez curtas-metragens portuguesas candidatas ao Prémio MOTELx de Melhor Curta-Metragem Portuguesa de Terror sendo as escolhidas para o prémio de 2015:
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Andlit, de João Teixeira Figueira
The Bad Girl, de Ricardo Machado
Efeito Isaías, de Rámon de los Santos
Ermida, de Vasco Esteves
Gasolina, de João Teixeira
Insónia, de Bernardo Lima
The Last Nazi Hunter 2, de Carlos Silva
Miami, de Simão Cayatte
O Tesouro, de Paulo Araújo
A Tua Plateia, de Óscar Faria
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A vencedora que será conhecida na cerimónia de encerramento do MOTELx e irá suceder a Pela Boca Morre o Peixe, de João P. Nunes.
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My Sweet Nurse (2014)

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My Sweet Nurse de Pedro Murad é uma curta-metragem de ficção brasileira que coloca o espectador dentro de um quarto de um velho hospital. Num convívio silencioso onde parecem apenas resistir as memórias, Ele (Pietro Mário) e Enfermeira (Elaine Moreira) são a única companhia numa eternidade que parece não se extinguir.
Num silêncio entre as duas personagens que se prolonga durante os quinze minutos de My Sweet Nurse, o espectador apenas retém que o tempo passa através dos pequenos sinais exibidos desta mesma interacção nomeadamente os relatos na rádio ou a sempre presente revista LIFE. Ao mesmo tempo prevalece a sensação de que embora o tempo desta história passe... aquele que as personagens vivem percorre um tempo físico bem mais distante. As músicas que ambos escutam na rádio assim como as revistas que trazem notícias de épocas temporais sempre distantes deixam a impressão de que aquele quarto não será necessariamente um hospital - afinal pouca actividade temos que nos demonstre qualquer tipo de vida para além desta - mas sim um qualquer purgatório no qual ambos têm de penar.
Dos tempos dos primeiros ensaios nucleares e Eisenhower sem esquecer Kennedy, João Paulo II ou os brutais ataques terroristas do 11 de Setembro, as duas personagens não exibem qualquer marca de que o tempo ou a idade passou por eles apresentando-se sempre com o mesmo aspecto. Não falam, mas comunicam e percebemos que entre ambos existe uma qualquer cumplicidade. Conhece(ra)m-se mas distanciaram-se. Talvez a morte de um e as alucinações do outro os façam agora reencontrar-se mas mantendo ainda um distanciamento intelectual.
Como dois velhos fantasmas que atormentam um espaço abandonado conferindo-lhe uma mística que ao mesmo tempo os isola num purgatório mútuo, "Ele" e "Ela" - de outros tempos - espantam-se com as transformações que percebem ocorrer para lá das suas quatro paredes. Quem são - serão ou terão sido - eles? Terão sido esquecidos? O que acontece no mundo que eles não conseguem testemunhar em primeira mão para lá daquilo que lhes chega?
Entre o realismo do tempo que passa e o horror das novidades que não presenciam, estas duas almas . vultos - transfiguram-se numa amargura distante, sem contacto, fria e que apenas se sente viva pelo deambular de expressões e gestos que os fazem sentir vivos... à sua maneira. Enquanto uns vivem e outros morrem, estes dois permanecem imóveis e inalterados num tempo que decididamente já não é o seu.
De execução enigmática que prende o espectador pela sua composição, My Sweet Nurse revela uma amargura latente nos rostos das suas personagens por saberem que tendo feito parte de um mundo comum já o abandonaram sem conseguir saber para onde seguir ou que rumo levar. Este já não é o seu mundo e como tal necessitam recomeçar e criar toda uma nova forma de comunicação... noutro lugar.
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8 / 10
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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Insidious: Chapter 3 (2015)

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Insidious: Capítulo 3 de Leigh Whannell é a prequela e terceiro título da saga Insidious que estreou recentemente em Portugal levando os espectadores ao passado algo distante dos acontecimentos da família Lambert.
Tudo começa com Quinn (Stefanie Scott) que recentemente perdera a sua mãe e a tenta contactar com a ajuda de Elise (Lin Shaye), uma médium de respeito entre aqueles que já necessitaram da sua ajuda. Numa sessão em que Elise se mostra relutante, ambas são contactadas por uma entidade que parece ter encontrado em Quinn um veículo para atormentar o mundo dos vivos levando-os para um lugar obscuro onde as almas permanecem num eterno desassossego.
Conseguirá Quinn finalmente contactar a sua mãe ou será ela a mais recente vítima deste impiedoso demónio?
O realizador e argumentista Leigh Whannell que se tinha saído relativamente bem com os dois títulos anteriores a Insidious: Chapter 3, regressa com o único intuito de tentar facturar um pouco mais rentabilizando esta saga que, como todos adivinhamos, não irá ficar por aqui. Num rumo que se poderia deduzir como (i)lógico, o espectador é levado às origens desta já mítica saga e ao universo dos mundos paralelos onde o bem e o mal vivem com os seus espaços bem definidos sendo que, este último, tente incansavelmente penetrar nas almas daqueles que ainda povoam o mundo dos vivos.
Com segmentos quase tipificados e já pré-estabelecidos em todas as sagas do género, Insidious: Chapter 3 revela-se como um filme banal e que há excepção de um ou outro momento bem conseguido aquando na manifestação da entidade, pouco mais revela como original ou bem estruturado remetendo-se única e exclusivamente para o entretenimento pipoca do qual pouco - ou nenhum - conteúdo retira. A questão que então se coloca ao espectador é se este capítulo era verdadeiramente necessário... e a resposta é um sentido não! Desde recorrer a momentos de graçola fácil que se interligam com o suposto terror, este Capítulo 3 segue a fórmula tradicional dos filmes do género e que se serve da sua hora e meia de duração para explicar as motivações das personagens que mais tarde - nos dois primeiros capítulos - irão aparecer ao espectador sem contribuir verdadeiramente para o essencial de uma obra de terror.
Com personagens gastas como o caso do "Sean" de Dermot Mulroney que poderia ter sido mais desenvolvido para lá do pai viúvo com problemas de afirmação ou até mesmo a "Quinn" de Stefanie Scott que cai no habitual lugar comum da filha que pretende contactar com a mãe recentemente falecida e isto sem esquecer a vizinha psíquica que todos julgam alucinada ou até mesmo o vizinho do lado apaixonado por "Quinn" cujo único propósito na história se prende com as pancadas na parede que afinal não foram dadas por ele, Insidious: Chapter 3 também não contribui com nada de positivo para aquelas personagens que iremos ver no futuro - nos capítulos anteriores - remetendo-as para aquele espaço da justificação das suas motivações e sua respectiva permanência na história.
Entretém mas pouco para lá do filme de terror/pipoca com os momentos tensos devidamente programados que se intercalam com alguns mais ligeiros e de humor sem graça que, todos juntos, pouco contribuem para credibilizar aquilo que foi, na prática, um título dispensável para a saga.
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4 / 10
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Pan-demia (2014)

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Pan-demia de Ruben Sainz é uma curta-metragem de ficção espanhola e que nos leva a uma qualquer loja de um qualquer bairro de uma cidade prestes a testemunhar em primeira mão o desespero de um homem.
Quando Antxoni (Martxelo Rubio) entra uma padaria com o objectivo de a assaltar, longe estaria de pensar que teria um momento tão existencial com a padeira Maribel (Ane Gabarain) ao ponto de confessar os seus tormentos. Mas, será ele um simples assaltante?!
Para lá de um instante inicial preso a alguma tensão, o argumento de Ruben Sainz e Karmele Barandiaran aproxima o espectador de uma realidade bem mais trágica do que um assalto fruto de uma qualquer dependência toxicómana. Em Pan-demia, o espectador olha de frente para os efeitos de uma época e de uma crise sob uma população desprotegida e frágil contra todos os tormentos dos quais é vítima diariamente.
Sem esquecer a desumanização à qual a sociedade contemporânea está condenada, Pan-demia relata com humor a tragédia de alguém cujo último recurso foi não só cometer um crime que possivelmente sempre condenara como, ao mesmo tempo, enveredar pela representação de forma a não ser desmascarado o seu acto condenando-o a uma vida de maior infortúnio tendo no trabalho temporário a sua salvação disfarçada.
No entanto, Pan-demia vai ainda mais longe demonstrando que algures escondidos num mundo avassalador existem pessoas de bem que inicialmente desconfiando das intenções alheias conseguem nos seus perpetradores encontrar as justificações válidas para os actos mais extremistas colocando-se numa posição semi-neutral e auxiliando quem mais precisa. No meio da tragédia alheia, Pan-demia consegue tecer um retrato mordaz e cru sobre os nossos dias... os nossos tempos... e sobre uma crise que se esquece de valores e principalmente das pessoas que devora sem piedade. Tudo num tom de humor crítico que não condena o assaltante e tão pouco transforma a padeira numa vítima inocente... afinal, também ela tem as suas condições!
Com duas magníficas e sarcásticas interpretações de Martxelo Rubio e Ana Gabarain, Pan-demia é uma curta-metragem intensa não só pela sua mensagem como principalmente pelo humor cru com que transmite uma realidade tão presente.
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8 / 10
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T-Mobile New Horizons International Film Festival premeia As Mil e Uma Noites

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O T-Mobile New Horizons International Film Festival que decorreu na Polónia premiou o tríptico português As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes com o Prémio FIPRESCI por, segundo o júri "confrontar a crise social contemporânea através de um conto que é por vezes imaginativo, divertido e desafiante elevando vidas do dia-a-dia ao nível de mito". Com uma carreira internacional iniciada na última edição do Festival Internacional de Cinema de Cannes, As Mil e Uma Noites subdividem-se em três volumes: Volume I - O Inquieto, Volume II - O Desolado e Volume III - O Encantado tendo estreia comercial marcada em  Portugal para finais de Agosto, início de Setembro e início de Outubro.
O palmarés do T-Mobile New Horizons International Film Festival foi o seguinte:
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Selecção Oficial
Grande Prémio: Lucifer, de Gust Van den Berghe (Bélgica)
Menção Especial: La Obra del Siglo, de Carlos M. Quintela (Argentina/Cuba/Suíça/Alemanha)
Prémio FIPRESCI: As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes (Portugal/França/Alemanha/Suíça)
Prémio do Público: Ich Seh, Ich Seh, de Severin Fiala e Veronika Franz (Áustria)
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Films on Art
Primeiro Prémio: Twenty Eight Nights and a Poem, de Akram Zaatari (Líbano)
Menção Especial: The Wolfpack, de Crystal Moselle (EUA)
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Curtas-Metragens Polacas
Primeiro Prémio: LOVE, LOVE, de Grzegorz Zariczny
Segundo Prémio: La Etiuda, de Martin Rath
Terceiro Prémio: Woolen Cogwheels, de Bartosz Kedzierski
Menção Especial: Object, de Paulina Skibińska
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Curta-Metragem Europeia: Moon Blink, de Rainer Kohlberger (Áustria/Alemanha)
London Film Academy Award: Moon Blink, de Rainer Kohlberger (Áustria/Alemanha)
Segundo Prémio: All That is Solid, de Louis Henderson (França/Gana)
Terceiro Prémio: Things, de Ben Rivers (Reino Unido)
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Zoom Competition
Primeiro Prémio: The Queen of Silence, de Agnieszka Zwiefka (Polónia/Alemanha)
Videoclip: The Drift, de Marcin Ozóg (Polónia)
Prémio Especial Wroclaw Capital Europeia da Cultura 2016: America, de Aleksandra Terpińska (Polónia)
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domingo, 2 de agosto de 2015

Trainwreck (2015)

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Descarrilada de Judd Apatow é a mais recente longa-metragem do realizador de The 40 Year Old Virgin (2005) e Knocked Up (2007) voltando, uma vez mais, às dinâmicas de "casal improvável" que estão tão presentes nas suas obras anteriores.
Amy (Amy Schumer) foi influenciada desde criança pelo seu pai de que as relações vitalícias são um mito. Agora uma mulher comprometida apenas com o seu trabalho, Amy não tem qualquer tipo de relação que dure mais do que uma noite. No entanto, é no decorrer de uma entrevista para a revista em que trabalha que conhece Aaron (Bill Hader), médico de várias estrelas do desporto e por quem estranhamente se apaixona. Conseguirá Amy ultrapassar os sentimentos contraditórios que tem e pela primeira vez ter uma relação séria?
Enquanto espectador que tem como ponto de partida as já mencionadas obras de Apatow que foram verdadeiros exemplos de comédia descontraída e bem sucedida, Trainwreck era apenas uma boa desculpa para voltar ao cinema para mais um bom momento de disposição e algum humor. Não sendo - no final - um resultado que se possa comparar às mesmas, o argumento da autoria da própria Amy Schumer consegue captar alguma energia e momentos interessantes de comédia sendo que, no entanto, consegue suplantar-se nos pequenos segmentos em que se esquece a comédia e se dá lugar ao drama nomeadamente no pequeno momento de redenção entre "Amy" e "Allistair",o enteado da sua irmã, sendo apenas mediano na comédia que deveria ser o seu forte.
Contrariamente a The 40 Year Old Virgin ou a Knocked Up, aqui o casal protagonista é encabeçado pela personagem feminina que aparenta ter todo o argumento escrito à volta da mesma - talvez fruto da entrega da personagem feminina à própria argumentista - esquecendo o facto de que deveriam ambos brilhar e ser centrais na trama e apesar de existir alguma química entre ambos não é menos verdade que esta apenas parece resultar a 100% no segmento final de Trainwreck que consegue ser verdadeiramente delicioso. Amy Schumer, inspirada e com um desempenho que poderia ser um dos mais significativo do ano em comédia, acaba por ser uma versão apagada num filme que não funcionaria se não fossem as demais personagens que funcionam à sua volta e pelo elenco francamente mediático que dele faz parte onde se encontram nomes como o de Tilda Swinton, Ezra Miller, Brie Larson ou até John Cena com uma personagem que poderá estar nos antípodas dos "militares brutos" que povoam o seu curriculum artístico.
Dito isto aquilo que temos em Trainwreck é a "Amy" de Amy Schumer como uma mulher distanciada de uma vida cúmplice a dois - ou até mesmo no seio da sua família - e que influenciada por um negativismo que herdou dos tempos mais jovens do seu pai se entrega num sem fim de relações distantes e impessoais meramente baseadas em sexo e sem qualquer tipo de simpatia, empatia ou química usando e abusando daqueles com quem se cruza... mesmo aqueles que poderiam eventualmente ter representado "algo mais" na sua vida.
No entanto, se formos analisar as demais personagens de Trainwreck, não é "Amy" a única emocionalmente descontrolada que iremos encontrar. Da desinteressada com a "little people", "Dianna" de Tilda Swinton ao alpinista social e sexualmente devasso adolescente "Donald" de Ezra Miller ao homossexual escondido "Steven" de John Cena, Trainwreck não é necessariamente uma apologia à vida descontrolada de "Amy" mas sim a todas estas vidas que na prática não conseguiram ainda encontrar o seu lugar certo e que por repressão, desinteresse ou até mesmo incapacidade, vivem vidas desinteressantes, desinteressadas e aborrecidas passando todo o tempo a achar que são o centro do (seu) universo. Na falta de algo melhor pela sua incapacidade de o terem... para quê preocuparem-se com "algo mais"?
No final - e depois de analisada a mensagem transmitida - aquilo que Trainwreck tenta representar é todo aquele conjunto de pessoas que deambulam pelas ruas com os seus mais variados problemas de partilha de intimidade, de incapacidade de manterem uma relação ou simplesmente medo de se entregarem a alguém sob o risco de saírem magoadas... No fundo todos "nós" que pelo meio das suas inadaptações e receios passam pela vida muitas vezes sem sentir e sem perceberem que nesta breve "passagem" se calhar nunca chegaram a viver. Mas Trainwreck também deixa passar que o principal desta "mensagem" está lá mas em bruto sem nunca ter permitido ser explorada e, de certa forma, sem ter conseguido criar a tal ligação com o espectador que percebe que poderia ter sido muito mais. De forma mais simpática, e ainda que seja um filme que tem os seus momentos, Trainwreck também descarrilou.
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6 / 10
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Animal (2014)

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Animal de Carlos Aceituno - também o argumentista - é uma curta-metragem de ficção espanhola na qual o espectador assiste à viagem de dois delinquentes que viajam para o local do próximo "trabalho".
É durante esta viagem que atropelam um cão e enquanto discutem o seu extermínio que o mais velho (Tato Amador) mata o mais novo (Javier Hernández). Mas, será tudo assim tão simples quanto parece?
A genialidade da curta-metragem de Carlos Aceituno reside para lá de um conjunto de elementos técnicos que a compõem. Animal consegue em breves minutos expôr um argumento que desencadeia um conjunto de reviravoltas que o espectador não espera, desviando a atenção de tudo o que é importante até ao último instante.
Se inicialmente o espectador se concentra nos dilemas de dois vigaristas que, julgamos nós, se preparam para o golpe seguinte, não é menos verdade que após o atropelamento do inocente cão, os dilemas que encontram residem na sua humanidade e capacidade - ou falta dela - de porem termo a uma vida em sofrimento. Aos poucos, e sem pensarmos no que realmente estará a decorrer, o espectador apenas simpatiza - ou não - com os argumentos apresentados por cada um deles levando-nos a equacionar os poucos ou inesperados escrúpulos que aqueles dois homens apresentam. Até que ponto será mais importante o lucro ilícito ou a vida do melhor amigo do Homem que está a extinguir-se aos poucos diante dos seus olhos? E quem será de facto o mais poderoso? Aquele que apresenta valores morais ou o que tem a arma na mão?
Quando um deles é morto pelo outro - não revelarei qual - e o verdadeiro propósito da sua viagem é finalmente exposto, o espectador percebe então todo o esquema que está por detrás desta viagem bem como os propósitos de uma viagem que apresenta agora ser bem mais humana do que aquilo que tínhamos percebido até então. Como não existem inocentes mas também - pelo menos aqui - culpados absolutos, o espectador percebe finalmente que afinal aqueles dois homens poderiam não ser vilões a preparar o próximo golpe mas sim vítimas inesperadas de uma sociedade que os engoliu algures no tempo não lhes disponibilizando qualquer tipo de saída ou soluções para os seus problemas que não pareçam à vista desarmada como práticas de dois impiedosos criminosos.
Percebemos então que enquanto espectadores, e tal como a maioria, agimos de impulso e sem todas as informações olhando para "o outro" como um criminoso em potência e alguém que vive na margem da sociedade sem perceber que esta pode tê-los levado àquele beco sem saída. Nem tudo é o que parece e em Animal esta máxima aplica-se na perfeição.
Nem tudo é tão linear como aparenta e as interpretações de Tato Amador e Javier Hernández comprovam-me com mestria ao encarnarem a pele de dois vigaristas que rapidamente se revelam bem mais humanos e com propósitos nobres dos quais nenhum de nós suspeitaria e é apenas quando o misterioso cão e o conteúdo da bagageira se revelam que finalmente percebemos o quão enganados estávamos.
Paco Cuenca e a sua direcção de fotografia em Animal são, também eles, personagens silenciosos pois contribuem de forma exímia para o escalar de tensão e de um calor incomodativo que culmina com uma morte não anunciada e que comprovam que existe algo mais para lá daquilo que o espectador observa mostrando que nem tudo é como inicialmente nos é dado a conhecer...
No final de tudo perguntamo-nos... Qual será realmente o crime perfeito?!
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8 / 10
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sábado, 1 de agosto de 2015

Uma Cidade Entre Nós (2015)

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Uma Cidade Entre Nós de Maria João Ferreira - também argumentista - é uma longa-metragem portuguesa independente que teve a sua antestreia nos Açores no passado mês de Janeiro e que nos apresenta a história de Joana (Ana Lopes) uma mulher casada com Diogo (Mané Crestejo) mas que se encontra secretamente com Bruno (Salvador Nery) por quem se sente atraída desde os tempos de faculdade.
No entanto, ao contrário do que Joana pensa, Diogo sabe que ela se encontra com alguém, e na relação de (in)dependência sexual que ambos estabelecem para viverem numa coexistência pacífica, ele não está disposto a abdicar do seu papel enquanto marido muito facilmente.
A realizadora e argumentista Maria João Ferreira consegue criar uma história que nos apresenta um curioso conjunto de personagens que se interligam numa rede de desejos e amores não cumpridos e que se completam pela dependência criada entre si.
"Não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos", com este pensamento de Anaïs Nin começa Uma Cidade Entre Nós, fazendo adivinhar que todos mais não são do que um reflexo ou imagem daquilo que o próprio deseja que o outro seja... No fundo, neste conjunto de relações atribuladas e praticamente todas não cumpridas, temos um conjunto de personagens que vagueia pela indecisão e (des)compromisso em que reinam as suas vidas. O tempo passa e as pessoas amadurecem ou pelo menos assim gostaríamos de pensar, mas aquilo que a realizadora nos pretende mostrar é que por falta de coragem ou de compromisso, muitos deixam passar as pessoas, as situações e os momentos que, na prática, poderiam ditar - e comprometer - a felicidade de cada um.
No entanto, aquele vão desejo de liberdade que a juventude já passada insiste em manter, desfaz os sonhos de uma relação - uma que seja verdadeira - pois isso pressupõe, no pensamento de alguns, que se abdica automaticamente dessa liberdade e não que se comece uma partilha da mesma. Na prática, não é a falta de desejo em que o "outro" seja um complemento, mas sim o medo que esse assuma a tal perda de liberdade que se apodera destas personagens.
Mas não é tudo... Aos poucos conhecemos "Joana" (Ana Lopes) que vive numa intensa e imaginada independência que, segundo ela, é a condição máxima para gostar de alguém. Essa sua independência em se relacionar com quem deseja sem comprometer o seu casamento com "Diogo" é, ao mesmo tempo, o exacto elemento que a condiciona. Na prática ela deita-se com quem quer mas também não cria nenhum tipo de empatia ou cumplicidade com ninguém pois sabe que o marido a espera... No fundo a tão aclamada "relação aberta" tão na moda onde existe algo... sem existir. Mas "Joana" é uma mulher infeliz. Dividida entre o seu amor dos tempos de estudante e um casamento que apenas aparenta ser sexualmente feliz, ela é uma mulher indecisa e algo frustrada que vive entre alguém que "não tem" mas que ama... e alguém "quem tem" mas com quem apenas existe desejo.
Quer seja por pressão social ou de pares, "Joana" e "Diogo" casaram-se. Construíram as fundações de uma casa sem que, no entanto, dela tenham conseguido construir um lar. Vivem no mesmo espaço mas com vidas separadas e apenas se confirmam enquanto casal pelos momentos que passam juntos na cama excitando-se mutuamente pela provocação e pelo instinto mais selvagem e primário que ambos manifestam... mas que se transforma lentamente num sacrifício que dá lugar ao desprezo e à indiferença.
"Diogo" é, por sua vez, o protótipo do yuppie que julga que as suas posses, a sua mulher e no fundo, ele próprio, são um troféu conquistado que precisa ser exibido e que com o qual tudo aquilo que quer pode ter. Não aceita um "não". O mesmo tipo de comportamento que com o passar do tempo faz (fará) dele um homem solitário e amargurado mas que tal como denota no presente... "enquanto pinga... dá para o gasto".
A completar o trio protagonista temos "Bruno" (Salvador Nery), o tipo com uma vida profissional estável mas que vive na sombra de um amor universitário que nunca lhe permitiu avançar para outra. Pacato mas interessado e disposto a lutar por quem quer ter a seu lado, "Bruno" apenas conta com a cumplicidade extrema de "Nuno" (Miguel Coutinho) - uma personagem que deixa a sensação de que teria muito mais para revelar como observador secundário de todas estas relações e dos tempos de estudante -, o amigo leal e confidente que tenta chamá-lo à razão para que avance com a sua vida e não se prenda por algo que nunca irá ter.
Mas não há protagonistas sem secundários que confirmam que uma boa história se completa com um interessante conjunto de personagens que suavizam a mesma com os necessários momentos cómicos. Anna Carvalho como "Zénite" e Luciano Gomes enquanto "Lombardo" cumprem essa missão na perfeição estabelecendo-se como aquelas duas personagens que tendo confirmado o seu espaço em Uma Cidade Entre Nós não têm, no entanto, o devido e merecido destaque que as suas personagens mereciam. E a confirmá-lo temos o final desta longa-metragem que é, nem mais nem menos, com os dois a embarcar para a sua viagem de sonho - e no fundo, aqueles que descobrindo as infidelidades e falta de amor alheios... revelam que o único sólido é o seu. Assim divertidos e com carisma, fica a sensação de que estes dois actores teriam muito mais a entregar às suas personagens.
Ainda que denote alguns elementos menos conseguidos nomeadamente a nível da coesão entre os vários segmentos que se cruzam por vezes abruptamente, o som nem sempre perfeito ou um final abrupto que teria espaço para mais meia hora de filme, Uma Cidade Entre Nós tem um interessante argumento sobre as relações sentimentais - ou sexuais - estabelecidas entre as personagens, e consegue ser uma surpreendente longa-metragem independente ao primar por um conjunto de segmentos que exploram a natureza humana, os seus desejos, a posse e a materialização (ou falta dela) de sentimentos maiores do que apenas alguns ocasionais e passageiros encontros. No fundo Uma Cidade Entre Nós questiona o espectador sobre a necessidade ou vontade de estabelecer uma relação afectiva - e como tal denotar um amadurecimento psicológico - em detrimento de uma ligação meramente sexual que aparenta ser momentaneamente satisfatória mas pouco compensatória a longo prazo. Todos querem sentir-se completos mas... à custa de quê?
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7 / 10
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Una Nit (2014)

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Una Nit de Marta Bayarri - aqui também a actriz principal e argumentista - é uma curta-metragem de ficção espanhola que transporta o espectador até uma dura realidade.
Um homem (Oriol Ruiz) e uma mulher (Bayarri) conhecem-se e dirigem-se para o apartamento dele. Existe um flirt, um desejo e uma vontade mútua de passar uma noite intensa. Mas, o que acontece quando as perguntas se tornam cada vez mais íntimas e geradoras de uma tensão que os incomoda? Esta sim será uma noite que nenhum deles irá esquecer.
Marta Bayarri assume-se com a força motora - realizador, argumentista e actriz - de uma curta-metragem que desde o primeiro instante faz com que o espectador se sinta prestes a testemunhar algo de transformador. Aquilo que parece ser o resultado de um qualquer encontro nocturno pelos bares da cidade, rapidamente se transforma num jogo de gato e do rato em que apenas o mais forte vai ganhar a "caçada" da noite.
"Ele" - o gato - de encantador, charmoso e até sedutor subitamente sente o seu espaço a ser invadido e começa a estabelecer um conjunto de defesas que têm como único intuito um ataque ainda por anunciar e "Ela", de de audaz e corajosa rapidamente se sente presa numa gaiola da qual parece não encontrar a porta de saída embrenhando-se num jogo que parece não querer jogar. As palavras utilizadas ganham contornos que definem o dominador e o dominado, o gato e o rato, o recluso e o polícia sendo que assumidamente se percebe que um irá controlar os passos do outro sem lhe permitir fazer o jogo da forma que deseja. A violência anuncia-se e naqueles breves instantes assistimos a uma dinâmica entre "Ele" e "Ela" que nos aproxima de uma realidade que afinal não é assim tão ficcionada.
Una Nit destaca-se por representar aquele momento de viragem numa vida. O momento em que o ser apanhado de surpresa por um encontro com alguém de quem na prática nada conhece e que podendo ser exteriormente atraente e sedutor é, no entanto, um perigo escondido. Ao assistir a esta curta-metragem quantos de nós não pensaram nas inúmeras histórias de violências física e psicológica das quais tantas vezes ouvimos falar sem lhes prestar devida atenção e que resultam sempre numa personificação da tragédia alheia? Quantos não se revêem até na própria história tendo nela encontrado pontos de semelhança com "encontros" trágicos que representaram não a felicidade mas sim o tormento de um momento? Representará esse algo sedutor algo mais do que apenas aquilo que os olhos captam no primeiro instante?
Se Marta Bayarri tem uma descontraída e finalmente séria interpretação, não será menos justa afirmar que é Oriol Ruiz que domina - na teoria e na prática - toda esta curta-metragem conferindo à sua personagem a tal graciosidade que cativa quem para ele olha e que quando o consegue se revela como o verdadeiro perigo disfarçado com pele de cordeiro. São seus os momentos mais intensos e as palavras realmente assustadoras. É sua a dinâmica e o rosto do mal que se escondem "às claras" e aos olhos de todos nós. É dele que inicialmente gostamos mas que de seguida nos causa toda a repulsa do mundo não só pelas suas palavras mas principalmente pelos seus actos que - não confirmados - mas se mostram assustadoramente perigosos.
Jordi Azategui - director de fotografia - é também ele uma das personagens silenciosas de Una Nit pois se inicialmente nos coloca num espaço cuja luminosidade confere ao espectador a sensação de que está num local não só acolhedor como sedutor, aos poucos transforma aquele apartamento num local que parece labiríntico ou até mesmo uma prisão da qual não se consegue escapar.
Intensa pela sua mensagem - nada escondida - e por duas sólidas interpretações que tão depressa nos fazem sorrir pela sedução do momento como de repente nos conferem medo pelo destino da personagem feminina, Una Nit poderá ser o sólido retrato de uma noite entre tantas noites... mas aquela que nenhum dos intervenientes irá certamente esquecer.
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8 / 10
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Mobiliario Urbano (2014)

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Mobiliario Urbano de Ignacio Nacho é uma curta-metragem espanhola num estilo de documentário social que nos apresenta a dura e triste realidade espanhola - e não só - dos últimos anos nos quais os despejos das famílias das suas casas atingiram números nunca antes imaginados.
Tal como um poema visual pelo qual acompanhamos algumas pessoas que olham a câmara - e como tal o espectador - de frente, humanizando as suas realidades como se fossem as nossas, percebemos a sua mensagem como algo silenciosamente inquietante. A casa não são apenas quatro paredes de cimento mas sim um conjunto de memórias passadas e presentes que no seu todo forma(ra)m um lar... o espaço onde uma família se constituiu, onde aumentou e na qual estão depositadas todas as alegrias e tristezas de uma vida.
Tudo se perdeu menos a dignidade. A dignidade daqueles que foram forçados a transformar-se, a encontrar um novo lugar e a perceber em primeira mão a injustiça de uma vida regida por políticos descontroladas que exigiram o impossível e que agora levam o pouco que cada um tem.
Ignacio Nacho transforma o seu Mobiliario Urbano numa curta-metragem desarmante, crua, dura e cuja realidade muitos de nós conhecem em primeira mão. Um documentário forte e cujos breves minutos de duração decorridos num silêncio de palavras transformam a (sobre)vivência de vidas reais numa poderosa mensagem de coragem e de dignidade.
As casas são mais do que quatro paredes de cimento com janelas... são vidas, são histórias, tristezas e alegrias que por motivos que estas famílias não controlam, lhes foram impiedosamente retiradas. São espaços aos quais não conseguem voltar mas que carregam para sempre uma parte deles mesmos.
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9 / 10
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A Lifestory (2014)

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A Lifestory de Nacho Rodríguez é uma curta-metragem espanhola de animação nomeada ao Goya da Academia Espanhola de Cinema na sua última edição.
Um pequeno gato num planeta quase extinto observa pela janela da sua casa todo um universo por explorar. Numa viagem que se anuncia perigosa, este gato irá procurar não só a salvação do seu planeta como todo um espaço desconhecido onde irá encontrar a sua coragem.
A partir do momento em que nascemos começamos a abandonar a nossa infância. É com esta ideia melancólica que o argumento e a curta-metragem de Nacho Rodríguez ganham forma e que emotivamente explora a ideia de que todos nós temos um dia que partir. Partir rumo ao desconhecido onde não só ganhamos experiências de vida que de uma ou outra forma nos vão moldando e dando forma, mas também uma viagem na qual ultrapassamos os nossos medos e conhecemos todo um novo universo que, para o bem e para o mal, nos transformam.
Com a certeza de que nunca mais seremos aquela pessoa que partiu, Rodríguez cria toda uma ambiência em A Lifestory que a transforma num pequeno grande filme sobre a vida e todos os conhecimentos que se espera dela termos retirado. Conhecimentos esses que apenas uma animação extremamente bem executada poderia fazer mostrar ao espectador que o lugar do qual partimos estará sempre de braços abertos para nos receber... não uma criança desprotegida mas sim um - mesmo . outro ser que agora sabe o que o mundo lhe reserva.
Dotado de uma magnífica música original de Abelardo Fernández Bagüés, A Lifestory é sem reservas um dos melhores filmes de animação do último ano e (mais) uma pérola do cinema de nuestros hermanos.
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9 / 10
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