segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Pedro Almodóvar premiado nos EFA '13

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A Academia Europeia de Cinema acaba de anunciar que na cerimónia a decorrer este ano em Berlim no dia 7 de Dezembro, irá atribuir o prémio European Achievement in World Cinema ao realizador espanhol Pedro Almodóvar, pelo conjunto da sua carreira.
De relembrar ainda que Almodóvar tem já o seu mais recente filme Los Amantes Pasajeros, nomeado ao Prémio do Público cujo vencedor será também anunciado no dia 7 de Dezembro.
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MOTELx 2013: os vencedores

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Prémio Yorn - Melhor Curta-Metragem de Terror Portuguesa
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O Coveiro, de André Gil Mata
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Menção Especial
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Desespero, de Rui Pilão
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Garra Carreira - Mestre do Terror
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Tobe Hooper
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domingo, 15 de setembro de 2013

Kiss of the Damned (2012)

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Kiss of the Damned de Xan Cassavetes foi exibido no penúltimo dia do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa a decorrer no Cinema São Jorge, e é possivelmente o pior filme de todo o certame.
Este filme conta-nos a história de amor que nasce entre Djuna (Joséphine de la Baume) uma vampira centenária e Paolo (Milo Ventimiglia) um solitário argumentista. O primeiro olhar que trocam confirma a sua paixão e imediata dependência que irá ser saceada em inúmeras noites de prazer... até à chegada de Mimi (Roxane Mesquida) a problemática e predadora irmã de Djuna.
Mimi irá não só ameaçar a aparentemente sólida relação que a sua irmã mantém com Paolo como também toda a integridade que a comunidade vampira tem estabelecido ao longo dos tempos ao privar-se de ter qualquer contacto com sangue humano originando, no entanto, um desfecho algo esperado.
Xan Cassavetes não só dirigiu como escreveu esta história que denota claras referências ao cinema Giallo italiano. Desde os espaços iniciais onde somos incapazes de ter uma percepção clara sobre quem é o suposto predador que povoa a floresta passando pelos instantes iniciais na mansão de "Djuna" que contrastam imediatamente com todo o ambiente exterior que presenciamos instantes antes, terminando obvimente nos segmentos eróticos abundantes ao longo de todo o filme que são, em diversos momentos, perfeitamente dispensáveis.
No entanto, e por muito boas que sejam as intenções de Cassavetes em recuperar um género que está adormecido há mais de duas décadas (com qualidade), todos os seus objectivos saem francamente prejudicados por uma consistência nula da história que pretende contar sobre a afirmação de um amor dito impossível. Começamos de imediato pelo facto das referidas personagens não terem qualquer tipo de apresentação ou contextualização na história. Elas estão simplesmente "ali" e sucede-se um tímido mas vinculativo encontro que os deixa com um elo do qual aparentemente não se conseguem libertar, passando uma boa parte da narrativa em encontros sexuais que confirmam esta estranha dependência sem que, no entanto, o espectador consiga sentir qualquer tipo de química entre de la Baume e Ventimiglia. Se pensarmos que tudo o que fazem provém de algo mecânico então aí sim o seu trabalho está magnífico... mas se pensarmos na realidade onde as suas personagens deveriam representar um crescente sentido de paixão e entrega entre "Djuna" e "Paolo", então percebemos que falham redondamente e mais parece que estamos a assistir a dois robots a interagir.
Assim se falta conteúdo e consistência ao argumento de Cassavetes, é também justo dizer que tecnicamente ele dá vida a um ambiente muito bem elaborado que recria na perfeição uma certa decadência gótica que os filmes cuja abordagem é a "vida" de uma sociedade de vampiros pretendem recriar. Aqui, e graças a uma consistente direcção de fotografia de Tobias Datum que nos mantém em suspenso numa atmosfera rica em sombras e em ilusõe sobre a dimensão do espaço e do tempo e onde o próprio espectador estranha, a dada altura, o ressurgimento de uma luz que parece ser agora apenas um reflexo da memória.
A contribuir de forma decisiva para esse ambiente gótico está também a elaborada concepção dos espaços a cargo de Chris Trujillo, Ian Salter e Daniel R. Kersting que recriam os espaços que a literatura e algumas obras cinematográficos nos habituaram a considerar como sendo o habitat natural dos vampiros e que captam a essência de uma sociedade que caminha pelo mundo há séculos e que está habituado a pertencer a uma classe distinta e afastada dos demais mas em decadência por não ter a liberdade desejada.
E os aspectos positivos deste filme começam e terminam nesta recriação técnica do espaço e do tempo que, infelizmente, não chegam para tornar Kiss of the Damned numa referência do género, nem tão pouco confirmar Cassavetes como um novo talento do terror ou mesmo o par protagonista como um daqueles que iremos recordar no futuro. Vou mais longe e digo... de toda a edição deste ano do MOTELx este é, sem reservas, o filme mais pobre e menos interessante até ao momento.
Em duas pequenas mas assertivas palavras... perfeitamente dispensável.
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2 / 10
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John Dies at the End (2012)

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John Dies at the End de Don Coscarelli é a longa-metragem que iniciou o quarto dia do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa a decorrer no Cinema São Jorge.
Este filme conta-nos a história de David (Chase Williamson) e John (Rob Mayes), dois inadaptados que se tornam repentinamente em silenciosos heróis da Humanidade quando uma nova droga chamada "Molho de Soja" começa a dominar as mentes daqueles que a consomem e a transportá-los para outras dimensões. Tudo se complica quando, ao delas regressarem, já não serem os mesmos humanos que foram até então mas sim seres prontos a dominar a civilização tal como a conhecemos transformando-a num sistema autoritário onde todos os "desvios" à nova ordem devem ser severamente punidos.
Coscarelli escreveu o argumento deste filme que ressuscita o estilo de comédia apocalíptica e que se assume ao mesmo tempo um filme que tenta, parentemente sem grande esforço, simplesmente divertir o seu público. E isto está perceptível desde os seus primeiros instantes onde "David" interage com "Arnie" (Paul Giamatti), um jornalista em busca de um furo que o catapulte para a ribalta e onde notamos a clara empatia ão só entre os dois actores como também para com a história que pretendem transmitir ao público sem que nenhum se prenda a regras estilísticas além de uma enorme vontade de divertir sem que, no entanto, se esqueça a necessidade de se reflectir sobre o quão fácil é cair numa espiral de loucura com muito pouco esforço quando se pretendem comprovar teorias para as quais poucos estão receptivos. Assim este segmento consegue colocar-nos por um lado perdidos na sua mensagem mas ao mesmo tempo vidrados naquilo que ela poderá fazer nascer com o decorrer da narrativa, principalmente se nos fundamentarmos na dinâmica existente entre a realidade ou a percepção que dela temos.
O exemplo relatado por "David" é por demais esclarecedor do quão longe vamos no elogio à loucura quando se questiona (e nos questiona) sobre o machado que ora se danifica na lâmina ora no cabo que imediatamente substitui... será ele o mesmo machado que efectuou tantos outros... "serviços"? E por incrível que pareça todo este segmento que é, no mínimo, surreal é aquele que nos faz ficar presos ao filme, como às suas personagens e, invariavelmente destas entre si, o que numa perfeita simbiose nos mostra que n
os próprios (o espectador) já entrou nessa mesma espiral de loucura sem sequer ter percebido como foi "recrutado".
Mas não vamos pensar que este filme é apenas um conjunto de teorias mais ou menos paranóicas que se mesclam dando origem a um filme do qual ninguém vai perceber absolutamente nada. Pelo contrário, aqui temos um conjunto de momentos de comédia negra, por vezes gore, e personagens no mínimo excêntricas e cheias de vida que (des)esperam por se fazer notar ao longo deste filme que poderia sem qualquer problema demorar mais duas horas pois certamente teria todo o seu público sempre à espera e a acompanhá-lo. E são assim todos estes momentos e personagens que lhes dão vida, que nos fazem crer a certo ponto que não são só elas que estão drogados com o "Molho de Soja" mas que nós próprios estamos dependentes dos efeitos secundários mais ou menos nefastos que dela provêm. Aranhas gigantes, universos paralelos, personagens (auto) destrutivas que esperam pelo fim do mundo mas tal e qual como se encontrassem num universo Kubrickiano onde umaa noção de perfeição é desejada mas a qual implica ao mesmo tempo a destruição de todos aqueles que dela não fazem parte (tão inferiores são), humanos excêntricos e prontos a enganar o próximo e seres evoluídos que vêem num qualquer renegado o herói salvador de todos os universos mais ou menos conhecidos são aqui realidades das quais não podemos escapar.
Com uma narrativa que transcende qualquer compreensão de quem apenas vê um trailer ou lê um texto como este, Coscarelli obriga-nos a assistir a John Dies at the End como se tivessemos acabado de consumir uma qualquer droga alucinógenea que nos transportasse para o outro lado do ecrã e nos encontrassemos a conviver com uma estranha realidade e seus respectivos habitantes.
Não vamos aqui encontrar um filme de terror nem tão pouco um que nos vá assustar com a sua história. Aqui, a haver terror, é aquele que nos faz libertar da nossa noção sobre a realidade e que nos remete para uma realidade alternativa onde os universos paralelos repletos dos seus habitantes e seres igualmente alternativos que se regem por um conjunto de regras e leis que estão para lá da nossa compreensão, ou aceitação são, eles próprios, realidades que não conseguimos controlar. É quando aceitamos esta premissa que compreendemos que este filme dentro da sua loucura e genialidade nos irá transportar numa viagem sem limites que, tal como qualquer outra dependência, queremos experienciar diversas vezes.
Williamson e Giamatti formam uma dupla dinâmica que vibra com a vontade de contar uma história versus a vontade de a conhecer, enquanto Williamson e Mayes nos encantam com as suas personagens alucinadas e cómicas que dinamizam toda a acção desta longa-metragem que, mesmo com as suas imperfeições em retratar esses ditos outros universos, irão perceber os detalhes da execução dos mesmos e o quão depressa nos remetem propositadamente para filmes de terror série B ao estilo Ed Wood, nos fazem gostar deles e dali não querer sair, não nos deixando esquecer que os cães são realmente os melhores amigos do homem.
É garantido que quem fôr ver este filme que se deixa levar pelo seu génio e pela sua loucura. E isto é tão verdade como o poder haver uma qualquer sequela que dê continuidade às aventuras da dupla protagonista Dave e John. Eu afirmo sem reservas que gostaria de os voltar a ver... "but that's another story"...
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"Dave: My name is David Wong. I once saw a man's kidney grow tentacles, tear itself out of a ragged hole in his back, and go slapping across my kitchen floor. But that's another story."
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7 / 10
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sábado, 14 de setembro de 2013

The Conjuring (2013)

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The Conjuring - A Evocação de James Wan presente nesta sétima edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa e que fechou o seu terceiro dia numa sessão dupla em conjunto com o filme V/H/S/2, era não só um dos títulos de terror mais desejados deste festival como possivelmente aquele que todos os fãs de terror esperavam ver este ano.
Quando no início dos anos 70 Carolyn (Lili Taylor) e Roger Perron (Ron Livingston) se mudam com as suas cinco filhas para uma quinta isolada, longe estavam de imaginar que um conjunto de estranhos fenómenos os iria perturbar todas as noites à mesma hora.
É no momento em que as estranhas ocorrências os começa a incomodar drasticamente ao ponto de existirem contactos físicos que Carolyn decide entrar em contacto com Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga), um casal de investigadores paranormais que os irá ajudar a perceber, e afastar, as forças demoníacas que assolam os Perron.
É difícil no género em questão lembrarmo-nos do último grande filme que vimos. Nem sempre as obras de terror nos entregam aquilo que pretendemos por diversos motivos sendo eles, na sua maioria, a fraca capacidade que têm em ser coerentes na sua história ou em provocar aquilo que deles esperamos... o verdadeiro terror. Aqui, no entanto, James Wan que já no tinha entregue os excelentes Saw e Insidious consegue captar muito da essência do género e fazer-nos ver um filme que nos atormenta durante todos os seus extensos e intensos minutos.
Esta história escrita por Chad Hayes e Carey Hayes baseado em factos reais (não esquecer que os Warren estão por detrás do famoso caso Amityville), mantém-nos em suspenso não só pela força das suas imagens que inicialmente nos fazem perceber que nos encontramos perante uma força demoníaca desconhecida mesmo sem revelar abertamente absolutamente nada da mesma mas, aos poucos, vai-nos fazendo perceber que esta irá muito rapidamente não só mostrar a sua força como a sua forma. E é aqui que reside a sua força maior onde primeiro pela força da sugestão e depois pela força das imagens somos confrontados com um dos mais bem elaborados filmes de terror dos últimos anos, poi tudo aquilo que não vemos consegue ser desarmar qualquer um com mais eficácia e só depois estando fragilizado é que se "anuncia" dando assim o seu último golpe.
E não vamos esquecer aquele quarto onde os "Warren" guardam todos os artefactos dos seus anteriores trabalhos que, só por si é assustador e mais ainda o é se pensarmos na quantidade de histórias que cada um deles poderia eventualmente contar. É apenas depois deste presente poder de sugestão é The Conjuring auxiliado pelo poder de uma igualmente bem executada caracterização que coloca a figura do demónio como um dos mais assustadores dos últimos anos e às personagens ditas reais confere um aspecto de desgaste que revela a sua condição de vítima de algo desconhecido e ameaçador.
Das interpretações tenho obrigatoriamente de destacar as duas actrizes principais que cada uma à sua forma tomam o pulso de toda a reconstituição dos factos. Em primeiro lugar Lili Taylor que se poderia facilmente dizer já ser uma especialista no género, mas que aqui consegue conferir alguma humanidade à sua personagem afastando-se assim das típicas interpretações do género que estão longe de ter algum conteúdo para além de serem almas possuídas ou simplesmente para sacrifício. Aqui Taylor consegue demonstrar que a sua "Carolyn" pressente que algo de errado lhe está a acontecer sem conseguir no entanto conferir uma designação ao que é. Ela percebe que não se encontram sózinhos naquela casa enorme e que os barulhos são tudo menos normais mas, como qualquer outra pessoa encontra-se longe de poder perceber ou encontrar uma explicação para todos os fenómenos a que assiste (in)voluntariamente.
Por seu lado Vera Farmiga encarna o lado mais racional de todo o enredo sem que, no entanto, esqueça o lado humana da sua "Lorraine", também ela mãe e a compreender a dor e o sofrimento daquela família que parece aos poucos desintegrar-se ao mesmo tempo que a sua própria família assiste ao ressurgir de alguns demónios do passado.
Cada uma, à sua forma, debatem-se não só com a sua sobrevivência mas também com aquela da sua família que desejam acima de tudo resguardar de um mal desconhecido mas que as tenta e atormenta tendo sempre como pano de fundo todo um recente processo de mudança ou transformação pelo qual ambas passam. No caso de "Carolyn" é a sua recente deslocação para uma casa nova e que lhe é ainda desconhecida, enquanto que "Lorraine" se vê a recuperar de um outro caso, pouco esclarecido, que a fez ver a alma (ou falta dela) de uma outra entidade e que a perturbou pelas imagens que lhe foram transmitidas.
Os protagonistas masculinos Patrick Wilson e Ron Livingston, ainda que funcionem como os seus alicerces, não deixam de carecer de alguma dramatização que conseguisse elevar a sua personagem, ou seja, sabemos que eles são fundamentais para a história mas, na prática, apenas como suporte das acções das duas actrizes não funcionando se elas lá não se encontrassem. No entanto, há a destacar que Wilson consegue ser determinado e assertivo enquanto Livingston mantém uma personagem mais apagada relativamente ao decorrer de todos os acontecimentos.
Ainda que The Conjuring não seja necessariamente o melhor filme de terror do género casa assombrada (o já referido Amityville está ainda no topo dessa lista), não é menos verdade que é um dos mais bem elaborados do género de sempre e que nos consegue manter em suspenso durante toda a sua duração. Vibramos com os pequenos mas reveladores ruídos, e estão garantidos genuínos sustos que nos fazem saltar da cadeira muito graças à suspensão que nos é assegurada desde os instantes iniciais onde o terror pelo que não se vê garante um maior efeito do que expôr todos os pequenos detalhes do género que o explicam em vez de o fazerem sentir. Para os amantes de cinema é uma boa aposta e para os seguidores do género é uma obrigatoriedade.
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"Ed Warren: The devil exists. God exists. And for us, as people, our very destiny hinges on which we decide to follow."
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8 / 10
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Longe do Éden (2013)

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Longe do Éden de Carlos Amaral é uma das curtas-metragens portuguesas em competição para o Prémio Yorn de Melhor Curta de Terror na edição deste ano do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa.
Esta história cujo argumento foi também assinado por Carlos Amaral, conta-nos a história de um sobrevivente que viaja num mundo pós-apocalíptico em busca de um último sinal da civilização e de uma Humanidade já perdida.
Numa longa viagem que nos transporta através de uma paisagem desolada (e desoladora), assistimos à tentativa de sobrevivência deste homem (Vítor Correia) quando tudo aparenta estar contra ele e a sua missão. No entanto, sem nunca aparentar perder a esperança de encontrar parte do mundo como outrora o conhecera, ele caminha sem um destino concreto por entre perigos de uma civilização que pouco tem daquilo que em tempos a caracterizava.
Longe do Éden denota uma clara inspiração que Carlos Amaral, seu realizador e argumentista, teve em obras do género nomeadamente The Road ou The Book of Eli, onde o protagonista tenta reencontrar e assegurar uma réstia do seu passado, seja ele a protecção do seu ente mais querido ou uma peça da cultura de um passado perdido, no fundo obras quais que denotam aquilo que esta curta-metragem tenta com sucesso evidenciar como o seu ponto forte, ou seja, uma total falta de esperança num ideal de futuro que cada vez mais aparenta ser sem perspectivas e que no fundo é o fim de um ciclo. Esperança essa que se mantém mas que, na prática, apenas serve como o mote para a própria sobrevivência e que no fundo é ilustrado nos momentos iniciais quando aquele homem caminha com uma máscara no rosto que o ajuda a respirar o que serve de perfeita analogia à mensagem a transmitir... no fundo ele sabe que o ar contém elementos nocivos para a sua sobrevivências mas a dada altura retira a máscara para melhor poder estar no seu percurso.
Sendo uma curta-metragem mais centrada em elementos como a perda da esperança ou a solidão, o elemento "terror" aparece aqui sob a perspectiva da sua própria perda, ou seja, se todos nós somos movidos com ideias de um futuro melhor, mais seguro e com objectivos concretos para a nossa auto-preservação, a ideia de que tudo pode deixar de existir ou de nos encontrarmos num espaço onde na prática já nada é como aquilo que em tempos conhecemos pode por si só constituir um cenário demasiadamente negro e assustador ou no fundo o terror que não queremos encarar. Assim, sem ser necessariamente um filme de terror, a teoria e os elementos nos quais se fundamenta são assustadores o suficiente para o encararmos pelo menos como uma obra de terror psicológico. Imaginemo-nos num mundo onde tudo o que vemos são ruínas e estradas vazias, onde o perigo pode espreitar de qualquer esquina e os únicos poucos sobreviventes com que nos encontramos são ou marginais ou violentos... sim, encontramo-nos num universo por demais assustador.
Vítor Correia está fenomenal nesta sua interpretação, e aos poucos parece assumir-se como o último homem errante na terra, tal como já havia de certa forma demonstrado no filme Estrada de Palha de Rodrigo Areias (produtor desta curta), e no seu silêncio e desespero tenta percorrer o seu caminho com a tal esperança estampada apenas no seu olhar e cada vez mais dissipada dos seus actos. Sempre com o seu caminho em mente, do qual só se desviará se a morte chegar primeiro, mas aparentemente consciente de que apenas o quer terminar para comprovar se "algo" desse tal passado existe.
E se a sua interpretação está perfeita como o tal herói perdido num mundo que já não é o seu, não é menos verdade afirmar que tecnicamente falando é onde podemos encontrar os elementos mais fortes desta curta-metragem. Logo em primeiro lugar há obrigatoriamente que destacar a brilhante fotografia de Paulo Castilho que nos recria na perfeição o ambiente apocalíptico pretendido. Percorremos todo um espaço geográfico ou temporal que nos é alheio, onde os caminhos e os espaços estão desprovidos de cor, de vida ou de qualquer tipo de luz que diferencie os objectos que nele se encontram. Sabemos que ali não existe nada além de um enorme cemitério a céu aberto e onde tudo parece igual independentemente dos locais que se percorram, sendo que os únicos focos de luz e cor mais intensos são os que aquele homem retém do passado na sua já escassa memória, e aí sentimo-los tão vibrantes como realmente foram distanciando-se do tal "presente" em que se encontra, não podendo esquecer o guarda-roupa da autoria de Susana Abreu que nos faz imediatamente recordar os já referidos The Road, The Book of Eli ou mesmo Mad Max onde os intervenientes assumem uma pose mais robusta e radicalmente militarizada e também a caracterização que esteve a cargo de Bárbara Brandão e que faz realçar o desgaste físico esperado de alguém que já passou por um sem número de provações que jamais poderemos imaginar.
Finalmente deixo ainda uma nota positiva aos suaves acordes musicais compostos por Miguel Santos que refletem com grande precisão a principal falta de esperança na qual todo o enredo se baseia e que tenta evidenciar.
Longe do Éden pode estar longe de denotar uma originalidade efectiva visto ser um género já muito trabalhado no cinema mas, ainda assim, constitui um interessante esboço para uma eventual longa-metragem que teria aqui um bom início para o seu desenvolvimento e que graças à direcção de arte de Júlio Alves que conceptualiza vibrantes e magníficos cenários naturais e de exteriores se tornaria, pelo menos para o panorama nacional, uma obra de referência.
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7 / 10
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Byzantium (2012)

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Byzantium de Neil Jordan este presente no terceiro dia da sétima edição do MOTELx - Festival Internacional e Cinema de Terror de Lisboa a decorrer no Cinema São Jorge, e constitui a mais recente incursão do realizador irlandês num universo que já lhe é familiar ao adaptar o argumento de Moira Buffini e fazer-nos entrar uma vez mais no universo de um grupo de indivíduos que sobrevive durante século por se alimentarem de sangue humano, vinte anos depois do seu êxito Interview with the Vampire que juntou Tom Cruise e Brad Pitt a uma estreante Kirsten Dunst.
Aqui duas misteriosas mulheres Eleanor (Saoirse Ronan) e a sua mãe Clara (Gemma Arterton), fugidas de um passado que as atormenta, procuram um local seguro para se esconderem de um grupo de homens que as persegue para as eliminar.
Ao chegarem a uma estância balnear, Clara conhece Noel (Daniel Mays), proprietário de Byzantium, uma pensão abandonada onde se instala e encontra forma de lucrar algum dinheiro, enquanto Clara conhece Frank (Caleb Jones), um adolescente por quem nutre uma empatia imediata e a quem conta o seu terrível e obscuro segredo esquecendo por momentos que deveriam manter-se sempre em fuga do seu sombrio passado protegendo assim aquilo que resta das suas vidas.
Moira Buffini adapta o seu próprio conto para este filme de Jordan que apesar de se distanciar de Interview with the Vampire, denota várias semelhanças com a mesma nomeadamente na história cruzada no tempo onde vivemos o filme interligando as diferentes épocas temporais pelo qual a narrativa se desenvolve obtendo assim aos poucos todos os elementos que constituem a dramatização da mesma. Assim, se por um lado iniciamos esta história em pleno século XXI, não é menos verdade que tudo aquilo que temos como adquirido nesta época é já um reflexo daquilo que acontecera às suas personagens há mais de duzentos anos.
Nos dois títulos temos um par protagonista, e se na obra dos anos 90 é masculino, aqui temos duas protagonistas que dominam o ecrã sendo que aqui as duas vivem num misto quase contemplativo dos momentos pelos quais passam sem criarem grandes, ou quaisquer, laços com os mesmos mantendo-se sempre em movimento para manter a sua ideia de segurança. Vivendo sempre numa eterna viagem que as faz esquecer os locais pelos quais passam "Eleanor" e "Clara" são duas mulheres que vivem não com uma benção mas sim com o fardo de terem vida eterna sendo que foi esta dádiva a mesma que as salvou de uma vida de doença e morte prematura que as esperava graças à sua vida de miséria de outros tempos. No entanto, tudo tem um preço e para escaparem à sua própria extinção têm de, em contrapartida, suavizar a morte daqueles que respiram o último fôlego garantindo-lhes assim uma leve e tranquila passagem para outro mundo. E é exactamente neste tópico que para mim reside a maior genialidade deste filme, do argumento de Buffini e da inteligente direcção de Neil Jordan ao abordar muito dignamente uma temática que é ainda muito controversa e sensível como a eutanásia.
Ao contrário daquilo que normalmente assistimos neste género de filmes, nos quais temos os protagonistas a interpretar um conjunto de seres que vagueiam pelas noites e pelo tempo numa incansável caça pelo sangue que os alimenta e dá continuidade, aqui as protagonistas apenas o fazem como uma penitência que paga a sua extensão de vida, ou seja, elas de facto alimentam-se de sangue que lhes garante essa existência mas apenas daqueles que já de si vivem o seu último fôlego, retirando-lhes a vida de uma forma tranquila, quase piedosa, e sem qualquer tipo de violência ou comportamentos selváticos. A morte, para elas, não é uma forma de viverem mas sim uma forma de garantirem aos demais, apenas àqueles a quem sentem ter chegado a sua hora, uma forma de abandonarem dignamente uma vida que já não lhes irá garantir qualidade. No fundo, a mesma penitência pela qual as próprias foram de encontro à sua própria morte, ou por outras palavras, à forma como tinham de continuar a vida digna que "em vida" jamais iriam ter. Se repararmos, apenas existe morte violenta para aqueles que ou as ameaçam na sua própria segurança ou então para aqueles que ameaçam expôr a sua condição. Para todos os demais ela, a morte, chega tranquilamente, pela calada de uma qualquer noite no silêncio de uma casa deserta, e em todas as situações nas quais poderiam tirar partido das desvantagens dos mais frágeis afastam-se como se a sua presença constitui-se uma violação da integridade dos demais. A morte para estes chega como amiga... o último conforto e a tranquilidade assegurada para uma nova dimensão.
A das vida a esta história temos as notáveis interpretações de Saoirse Ronan e Gemma Arterton  que interpretam por um lado a inocência e sua consequente perda, e por outro o espírito de sacrifício e de sobrevivência que está inerente a todos os humanos, ou àqueles que já o foram, criando uma dinâmica silenciosamente frenética entre as protagonistas e as demais personagens que com elas se cruzam.
Ronan assume-se cada vez mais como um rosto para o futuro, já o é no presente, e que aos poucos se transforma numa segura e forte actriz protagonista capaz de tomar pelo pulso todos os filmes em que participa enquanto Arterton confirma que consegue aliar o seu lado mais sensual e de femme fatale a uma personalidade de mãe protectora que, ainda assim, coloca a sua própria sobrevivência à frente de qualquer sentimentalismo que a possa derrubar sendo capaz de tudo para se manter em segurança. As duas complementam-se e estranhamente conseguimos encontrar elementos com os quais nos identificarmos para lá do mais sinistros que possam parecer, e apesar de viverem com o mesmo dilema dos protagonistas de Interview with the Vampire que colocam uma como caçador/a (Cruise/Artenton) e a outra enquanto presa (Pitt/Saoirse), sabemos que estão também elas apenas à procura de uma companhia para atravessarem o passar dos tempos mas estas longe de um qualquer ritual de caça como aquele que está presente na obra do século passado.
No entanto se a dinâmica narrativa e interpretativa deste filme é por si já cativante, ele é também um desafio tecnicamente fascinante graças a uma direcção de fotografia de Sean Bobbit, que já nos presenteou com os magníficos Shame e Hunger, colocando-nos aqui como uma presença externa que a tudo assiste ao mesmo tempo que transforma todo o ambiente num espaço quente e vibrante como a própria essência de um apagado e quase abandonado Byzantium, pensão onde as protagonistas encontram uma estranha redenção entre ambas e para com o seu passado comum que determina e justifica não só o mesmo como as escolhas que nele fizeram para garantir a sua continuidade.
O espanhol Javier Navarrete é também um dos trunfos deste filme conseguindo entregar e colocar uma quente e sedutor música numa fria Inglaterra, envolvendo-nos assim numa história de época ao mesmo tempo que nos coloca neste século que agora atravessamos com sonoridades típicas de cada uma sem que os dois momentos se atropelem ou se confundam.
Finalmente, e para além do distinto guarda-roupa de Consolata Boyle, há ainda que fazer a devida referência à direcção de arte de Simon Elliott, Bill Crutcher e Martin Goulding que dão a cada elemento e espaço um toque especial como se o espectador se sentisse parte daqueles momentos e locais sendo, na sua maioria, leves apontamentos de uma memória perdida no tempo. Tudo está lá naquele preciso momento mas, a certa altura, sentimos como se fossem apenas meras representações daquilo que outrora haviamos imaginado.
Byzantium é assumidamente um filme diferente do género "vampírico" que nos seduz pela sua originalidade e composição cinematográfica e que felizmente se distancia dos inúmeros filmes que têm passado pelos ecrãs nos últimos anos que mais não são do que histórias menos consistentes unicamente desenhadas para atrair milhares às salas não se preocupando com a qualidade do que é contado.
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"Eleanor: My story can never be told."
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8 / 10
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O Coveiro (2012)

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O Coveiro de André Gil Mata é uma curta-metragem portuguesa de ficção que concorre ao Prémio Yorn - Melhor Curta de Terror Portuguesa nesta sétima edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa a decorrer no Cinema São Jorge.
O Coveiro conta-nos a história de uma ciança que nasce monstro e, como tal, provoca primeiro a morte da sua mãe, destino que mais tarde terá também o seu pai, o coveiro da aldeia em que vivem. Com o passar dos anos, ele próprio assume as funções outrora desempenhadas pelo seu pai como coveiro da aldeia, numa vida solitária onde cava durante as noites num cemitério misto de terra e ferrugem mas, no entanto, a chegada de um homem sem cabeça irá mudar o destino deste orfão isolado dos demais.
André Gil Mata escreve também o argumento desta simplesmente magnífica curta-metragem que, inspirada nos tradicionais contos de cordel portugueses, nos conta uma trágica história de amor ou, na realidade, uma história que nos conta a ausência dita normal do mesmo. Através de uma impecável narração de Adolfo Luxúria Caníbal que ritmadamente e em rima nos conta a história de um conjunto invulgar de personagens que deambulam pela noite à espera de uma qualquer redenção que tarda em chegar, O Coveiro apresenta-nos assim um enredo no qual o espectador é inserido como se de um sonho, ou melhor, de um pesadelo se tratasse.
As suas invulgares personagens, marginais da sociedade que literalmente nunca chegam a ver a luz do dia e onde toda a acção se concretiza ao luar entre cenários sombrios e arrepiantes que nos dão a clara noção de que presenciamos um sonho... Um sonho onde o fim só é uma realidade para aqueles que nele morrem e que encontram a sua esperada redenção na morte que escolhe o seu preciso momento para os levar ao cemitério onde todos, sem excepção, esperam pelo seu devido lugar. Local esse que ao contrário da sociedade em que habitam, não os renega, não os afasta ou recusa, garantindo-lhes ali o descanso eterno que será para eles a sua maior prova de amor.
Gil Mata garante-nos um filme que nos prende desde o seu primeiro instante. Em primeiro lugar pelo seu próprio e muito característico ambiente que nos insere literalmente num tradicional filme de terror no qual todos os pequenos recantos e sombras têm um significado quer seja ele mórbido ou mais macabro no qual as suas diversas personagens não são necessariamente nem medonhas nem vilãs, mas sim aqueles que foram renegados dos olhares ditos convencionais da sociedade "correcta". Aqui encontramos os renegados. Aqueles que devido às suas origens ou estilos de vida são ignorados, ainda que a sua presença se faça sentir pela concretização das suas profissões ou dos serviços que prestam.
De seguida, encontramos toda uma simbologia que nos remete para o domínios do subconsciente, dos sonhos e dos pesadelos como se de uma vida alternativa se tratasse como por exemplo o facto de toda a sua narrativa se desenvolver de noite ao luar, onde todos se podem esconder nas já referidas sombras de forma a que os olhares mais indiscretos sejam cegos ao que pelas ruas e vielas acontece. Noite essa que, tal como as diversas personagens que nela vivem, esconde a vergonha que elas possam representar e que como tal podem continuar a povoar os espaços que as pessoas de bem não cruzam. É esta mesma simbologia que nos remete para o tal subconsciente que desde o primeiro instante se pretende quer através da narração de Luxúria Caníbal quer através da constante melodia de fundo, conduzida por Pedro Augusto e que escutamos como se nos pretendesse seduzir e embalar, mantendo-nos assim em suspenso sobre se presenciamos um sonho ou se ali existe algo que a qualquer momento nos pode aterrorizar tal como num pesadelo.
O Coveiro é assim um conto que se mescla nas trevas e no amor, numa história de embalar e num pesadelo ao som de ma voz que parece realmente querer hipnotizar-nos para um universo fantástico onde co-habitam um sem número de invulgares personagens que vivem na sombra. Personagens essas que ganham vida através das cativantes interpretações de David Almeida, Paula Guedes, Valdemar Santos ou Carlos Monteiro que transformam o seu génio para dar alma a estes invulgares seres da noite.
E O Coveiro é também uma aposta segura e garantida a nível técnico onde a sua originalidade não tem, felizmente, limites. Desde a sua enigmática e hipnótica melodia já aqui referenciada como a própria execução que mistura animação com ficção fazendo-nos alternar na tal percepção, ou melhor a falta dela, de em que espaço realmente nos encontramos... estaremos no real... ou num espaço imaginado?! E não esquecendo claro, uma das mais originais e bem executados direcções de fotografia, da autoria de Paulo Abreu e Jorge Quintela, que nos colocam nesse referido centro fazendo-nos perder qualquer noção previamente obtida sobre o "real". Se num instante pensamos estar num mundo antigo, digno de qualquer obra de terror dos anos 20 do século passado, não é menos verdade que quando o assumimos como real somos "destronados" e imersos num universo de imaginação onde a captação, ou recriação, das sombras nos faz libertar das nossas certezas e obriga-nos a experimentar todo um mundo novo... o de Gil Mata.
Se queremos originalidade e imaginação no cinema nacional... não precisamos de procurar mais... ela está toda aqui e com muita vontade de voar naquela que é uma das mais fortes obras do cinema nacional... passado ou presente.
Uma história, narrada ao luar, de uma criança que nasce monstro. - See more at: http://www.cinemaportugues.ubi.pt/bd/info/2143686711#sthash.hxiu3BFL.dpu
Uma história, narrada ao luar, de uma criança que nasce monstro. - See more at: http://www.cinemaportugues.ubi.pt/bd/info/2143686711#sthash.hxiu3BFL.dpuf
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10 / 10
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The Battery (2012)

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The Battery de Jeremy Gardner foi um dos filmes em exibição no terceiro dia do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa a decorrer no Cinema São Jorge.
Ben (Jeremy Gardner) e Mickey (Adam Cronheim), dois antigos jogadores de baseball, percorrem agora as estradas de um desolado interior norte-americano na esperança de encontrarem algum sinal da civilização que outrora conheceram bem como escapar das investidas da praga de mortos-vivos que agora dominam todos os espaços que atravessam.
Com personalidades e posturas assumidamente diferentes perante o novo mundo que agora encontram, Ben é um tipo pragmático e com a noção que o perigo espreita em qualquer local e, por isso, tenta estar o mais alerto possível para antever todas as complicadas situações com que se podem deparar. Por sua vez Mickey isola-se num espaço próprio onde a música o faz abstrair de todas as contrariedades que podem aparecer, deixando para Ben a luta com os temidos mortos-vivos que aos poucos os vão cercando.
É quando interceptam uma comunicação de um outro grupo de sobreviventes que Mickey fica obsecado com a voz de Annie, uma mulher que não conhecendo desperta nele os seus desejos de uma sexualidade reprimida. No entanto esta deixa-lhe um aviso... que esqueça a sua voz e que alguma vez comunicaram pois se voltasse a acontecer as circunstâncias seriam graves.
Este filme independente e de baixo orçamento é um "filho" inspirado de Jeremy Gardner que aqui é não só o realizador e argumentista mas também produtor e o seu actor principal. Sem grandes meios e claramente uma produção que é quase feita de câmara ao ombro, The Battery assume-me como uma obra para além do género zombie que tenta aqui captar a essência do Homem num momento de crise seja esta qual fôr.
Assim, e tendo em conta o tradicional filme do género, Gardner leva-nos aqui a entrar num universo onde dois homens reagem a uma crise generalizada e que fez desaparecer a ideia de civilização que sempre havia feito parte do seu imaginário. Sem encontrar os tradicionais elementos de hecatombe e apenas nos deparando com um silêncio e pacatez excessivos que pressupõe esse "acontecimento" transformar da sociedade, entramos num universo onde somos obrigados a contemplar a natureza que nos envolve e que, aos poucos, recupera terreno face ao Homem no seu sentido mais lato. Natureza essa que também ela silenciosamente tem mostrado recuperar o seu próprio espaço em detrimento da Humanidade agora perdida.
Gardner vai ainda mais longe quando juntamente com este sentimento de solidão, perda e ter de enfrentar, cada um à sua maneira, a nova realidade que agora se apresenta, nos mostra a própria dimensão do Homem que se apresenta ele próprio com um comportamento mais dominante, mais rude e mais selvagem onde, em nome da sobrevivência, se pode colocar em risco a segurança dos demais. Segurança essa que uma vez colocada em risco pode significar não só a de um como a de todos os envolvidos pois apenas através de uma rede de elos de ligação se pode garantir intacta.
Ao longo de uma paisagem vazia de vida humana, estes dois caricatos personagens cuja única relação que têm foi a de em tempos idos pertencerem à mesma equipa de baseball vão preenchendo e dinamizado todo o filme com os seus comportamentos peculiares e distintos. Enquanto "Ben" é dinâmico, e por vezes cínico, pretendendo manter-se sempre em movimento garantindo assim a sua ideia de segurança ao não criar laços com nenhum espaço ou objecto para além do essencial, "Mickey" sente falta de certos confortos e regalias que a vida como sempre a conheceu lhe garantia... uma casa, um cama ou um simples videojogo com o qual passava o seu tempo livre. As posturas que ambos têm serão as mesmas que, a seu tempo, poderão colocá-los em diversos níveis de perigo que, em última análise, culminarão com a sua eventual morte (ou sobrevivência), caminho que nos é deixado à imaginação no momento em que ambos se vêem enclausurados num carro do qual não conseguem nem sair nem pôr a trabalhar.
Gardner consegue assim realizar um filme inteligente não só pela sua concepção ter sido obtida através de poucos recursos como principalmente pelas suas mensagens e reflexões sobre o meio, a natureza humana e os comportamentos em tempo de crise que transformam o Homem num ser selvagem e errático capaz de tudo em nome da sua auto-preservação. Repleto de interessantes e bem delineados momentos de comédia que suavizam muito da dinâmica mais reflectiva deste filme, The Battery impõe-se como um filme moderno e de certa forma irreverente ao inserir-se num género muito particular e sem fazer do mesmo a sua única referência central. Suspeito que teremos no futuro muitas e mais agradáveis surpresas de Gardner.
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7 / 10
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Countdown (2012)

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Countdown de Nattawut Poonpiriya é, longe de qualquer reserva, um dos filmes sensação do último dia do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa e que consegue arrancar não só algumas sádicas gargalhadas como também se constitui como um intenso filme de acção claustrofóbica.
Uma passagem de ano em Nova York pode constituir o sonho de qualquer um. Assim o encararam Jack (Pachara Chirathivat), Pam (Pattarasaya Kreuasuwansri) e Bee (Jarinporn Joonkiat), três jovens tailandeses que vivem e estudam na cidade e que se preparam para a noite das suas vidas.
Quando encontram os fragmentos de um pequeno cartão com um número de telefone de um dealer chamado Jesus, resolvem ligar-lhe e pedir que os abasteça para a tão aguardada noite. Depois de uma misteriosa sucessão de acontecimentos Jesus (David Asavanond) chega finalmente ao seu apartamento para os questionar sobre o seu passado e proveniência naquela que se iria transformar numa noite que jamais iriam esquecer e na qual seriam surpreendidos não só por aquela enigmática figura como também por uma estranha redenção que de outra forma poderia nunca chegar.
Poonpiriya além de realizar assina também o argumento desta história que tem tanto ou mais de comédia mordaz do que tem de terror, inserindo-nos num pequeno e tenso ambiente cuja direcção de fotografia de Niramon Ross parece querer fazer-nos regredir para um cinema de género dos anos 70 do século passado onde o espaço e acção mais tensos se desenvolvem num pequeno meio e a um ritmo que se poderia considerar alucinado repleto de incertezas e de inseguranças onde as principais personagens se encontram perdidas.
Se os actores que interpretam os três estudantes tailandeses em Nova York têm desempenhos pouco expressivos e por vezes até medianos com desfechos de certa forma previsíveis, não é menos verdade que o referido misto de tensão e comédia devem-se quase exclusivamente a uma genial composição de personagem de seu nome "Jesus" que o actor David Asavanond constrói numa pereita união de comédia, sátira e mensagem social que espelha alguma falta de valores e padrão moral da nossa sociedade. Asavanond consegue dar ao seu "Jesus" aquilo que pretendemos retirar de uma personagem assumidamente má isto é, se por um lado repudiamos toda a sua técnica de pressão e de intimidação, não é menos verdade que deixamos a sua postura de anjo vingador que reclama justiça para aqueles que foram esquecidos e oprimidos de alguma forma pelos outros três intervenientes assuma contornos de sedução para o espectador que são impossíveis de ignorar.
O actor, que recebeu o prémio de melhor actor na indústria tailandesa, espalha um misto de sensações ao introduzir uma personagem descontraída e relaxada que apenas quer fazer algum dinheiro e viver uma passagem de ano alheado de qualquer tipo de responsabilidades para, aos poucos, revelar-se como alguém repleto de ideias e modus operandi sádico, irónico e que não está ali para brincar... muito pelo contrário, ele prepara-se para dar a entender aos demais que veio para reclamar as suas almas e que não pára enquanto não as conseguir. Ainda que alguém que recorre, também ele, a um padrão moral francamente baixo, não é menos verdade que desde o primeiro instante que nos cativa e esperamos que ele se torne cem vezes pior do que aquilo que já revelou e aquele olhar parado no vazio consegue ser bastante revelador de que lhes está a estudar as almas e, como tal, intimidante conseguindo assim ser o centro de toda esta longa-metragem.
Ainda que algo mediano no seu apressado desfecho, Countdown (sobre)vive de uma bem executada composição da sua personagem principal e de todo um ambiente de época, apesar de decorrer na actualidade, que nos faz esquecer o mundo lá fora concentrando-nos única e exclusivamente no que está a ocorrer naquele assombroso apartamento onde ninguém pode chegar quando toda uma cidade de ruas cheias de pessoas se prepara para celebrar o futuro e deixar para trás todo um pasado mais complicado... de certa forma uma relativa ironia com as próprias posturas dos jovens tailandeses que têm, principalmente eles, o seu próprio passado para esquecer.
Dinâmico e macabro, graças a Asavanond, Countdown pode servir como uma interessante reflexão sobre as consequências que advêm dos actos do passado... Passado esse que mais cedo ou mais tarde aparece para reclamar as suas dívidas.
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8 / 10
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Douro Film Harvest 2013

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14 a 21 de Setembro de 2013
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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Chained (2012)

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Chained de Jennifer Lynch foi um dos últimos filmes exibidos no segundo dia do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa e que conta com a interpretação de um intenso Vincent D'Onofrio como actor principal.
Bob (D'Onofrio) é um sinistro condutor de táxi que de cada vez que em serviço tem uma mulher no seu táxi a leva para casa onde a viola e mata. Num dos seus "serviços" transporta Sarah (Julia Ormond) e Tim (Evan Bird), o seu filho de sete anos. Enquanto Sarah tem o mesmo trágico destino, Bob serve-se de Tim para seu escravo e efectuar todo o tipo de serviços que deseja.
Os anos passam e Tim torna-se num jovem homem (Eamon Farren) que, acorrentado para não poder escapar, testemunha tudo aquilo que Bob faz ao longo dos anos ao mesmo tempo que pretender fazer dele o seu protegifo.
Irá o agora adulto Tim continuar o legado de Bob... ou será que finalmente vai descobrir toda a verdade por detrás deste sinistro rapto?
Jennifer Lynch que além de dirigir o filme escreveu também o seu argumento inspirada na história de Damian O'Donnell, consegue não só dar continuidade a um registo onde as suas personagens parecem pertencer a um universo alternativo demasiadamente violento para ser real, mas que o é, como também recriar um ambiente tenso e claustrofóbico do qual parece que as suas personagens (as vítimas) jamais irão conseguir escapar naquela que se mantém uma estranha e desconfortável expectativa até bem perto do final da narrativa.
As personagens seguem desde o primeiro instante uma continuidade quase mórbida, tal como o é a relação estabelecida entre ambos, e que apenas tem um elemento explicativo perto do final quando percebemos quais os elos que ligam "Bob" a "Tim" e o verdadeiro motivo pelo qual o primeiro manteve sempre vivo o segundo como se de um disciplinador e educador se tratasse.
Vincent D'Onofrio é o vilão perfeito para o género em questão e cedo percebemos que ele consegue ser verdadeiramente assustador e manter-nos em suspenso relativamente aos seus actos. Se por um lado ele se mostra como um demónio vestido de uma aparência pacata que vive uma existência banal igual a tantas outras, não é menos verdade que muito rapidamente se transforma revelando assim aquilo que tão arduamente esconde dos demais e, apesar de algo esbatido em tantos outros filmes do género, a explicação dada para tal comportamento chega muito cedo demonstrando alguma previsibilidade que, ainda assim, não afecta a dinâmica principal do filme.
Por sua vez Evan Bird e Eamon Farren que interpretam o jovem "Tim" em dois momentos específicos da sua vida conseguem captar o fundamental da sua essência e, no fundo, da relação que manteve com o seu raptor. Se inicialmente enquanto jovem criança Bird dá um retrato de alguém perdido que apenas que voltar a encontrar o seu pai e fugir de alguém que destabilizou toda a sua existência, não é menos verdade que Farren revela um lado mais ponderado, pensativo e calculista que equaciona todas as suas hipóteses e como deles tirar o melhor partido, algo que no seu cativeiro conseguiu reter de tão abominável homem como fora "Bob", aparentemente desenvolvendo por ele uma estranha e invulgar empatia e da qual só serão mais tarde revelados os seus verdadeiros motivos e "porquês", mostrando assim a duplicidade do seu título que faz de Chained não propriamente a referência à corrente que o detém mas sim aos elos invisíveis que nos prendem às mais diversas pessoas.
Shane Daly, o director de fotografia, consegue captar a essência do ambiente pretendido. Por um lado uma casa perdida no meio de um ambiente austero que elimina qualquer cor que poderia entregar ao espaço um ambiente mais familiar e próximo do desejado desenvolvimento de uma criança. Por outro, não deixa de inserir pequenos apontamentos de luz que tornam o espaço onde este passa a maior parte do seu tempo como o lar que deixara de conhecer. É esta dinâmica aqui encontrada que nos faz perceber a real dimensão da ligação entre raptor e raptado que nos atinge de surpresa já bem perto do final, e que explica muita da dinâmica entre ambos.
Finalmente, e como um apontamento paralelo, é curioso verificar como Chained denota uma vez mais a tendência geral deste ano cinematográfico de terror onde a crise e as sucessivas carências financeiras e sociais marcam aquilo que se quer do real terror... longe de possessões demoníacas são os espíritos irrequietos do homem comum que realmente atormentam e espalham o terror no seio daqueles que com eles convivem por vezes até muito de perto demonstrando que o verdadeiro demónio pode esconder-se por detrás dos rostos daqueles que sempre conhecemos.
Um passo à frente de Surveillance faz deste Chained a marca actual de Lynch que se quer assumir como um dos novos nomes do terror moderno e irreverente.
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8 / 10
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El Desierto (2013)

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El Desierto de Christoph Behl foi uma das longas-metragens presentes no segundo dia da sétima edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa a decorrer no Cinema São Jorge, e que constitui uma agradáel surpresa e reinvenção do género mundo pós-apocalíptico no qual os mortos-vivos dominam a Terra.
Tudo começa e o espectador percebe que nos encontramos num mundo que já não conhecemos. Somos transportados para uma casa fortificada onde Axel (Lautaro Delgado), Ana (Victoria Almeida) e Jonathan (William Prociuk) sobrevivem, protegendo-a de todos aqueles que dela se aproximam, especialmente dos ataques dos mortos-vivos que povoam uma qualquer cidade cujo nome nunca é revelado. Sentimos a tensão existente entre todos e percebemo-la quando nos é revelado que noutros tempos este fora um triângulo amoroso com fortes laços de amizade que aos poucos, e dada a situação em que se encontram, se foi desfazendo aumentando a separação sentida entre eles.
Ana mantém uma relação com Jonathan enquanto Alex vive um ciúme não muito escondido desejando recuperar a atenção dela e como forma de encararem o difícil passar do tempo Ana cria uma pequena sala onde ao estilo de confessionária desabafam todos os seus pensamentos para a posteridade.
Numa das muitas expedições que fazem para encontrar provisões Axel e Jonathan tomam a radical decisão de capturar um dos mortos-vivos que povoam as ruas da cidade e levá-lo para casa onde passará a viver com os três. Pitágoras (Lucas Lagré), como o baptizam, irá exercer uma radical pressão não só no trio como principalmente influenciar alguns do seus comportamentos e, em última análise, das decisões que tomam para o seu futuro.
Christoph Behl, que também assina o argumento de El Desierto, coloca-nos num invulgar filme pós-apocalíptico onde há excepção da introdução do morto-vivo interpretado por Lucas Lagré, toda a trama se centra na degradação das relações de amizade e sentimentais do trio protagonista. Invulgar porque estamos perante uma história que se centra não na hecatombe que se fez sentir na sociedade ou mesmo numa cidade que nunca identificamos no decorrer do filme, mas sim sobre a degradação da relação entre três pessoas que em tempos viviam uma relação próxima que os fez ter para além de uma amizade toda uma relação afectiva e sexual onde se completavam.
Behl transporta-nos assim para o interior de uma casa, quase um bunker fortificado, onde entre as escassas paredes e espaço que se apresentam todos eles têm de conviver encarando-se dia após dia... hora após hora não podendo escapar não só das suas mútuas presenças como principalmente de qualquer confronto físico ou verbal que possa eventualmente surgir. Assim, não só o espaço se torna cada vez mais pequeno como é principalmente notória a claustrofobia psicológica que se sente surgir entre "Ana" e "Axel", outrora amigos e amantes mas agora mais distantes do que dois estranhos.
A crescente tensão entre ambos ganha novos contornos com a presença de "Pítágoras", o enigmático morto-vivo de olhar vazio no espaço como se fitasse algo (uma miragem) que já não existe (a sociedade) mas do qual se recorda vagamente e em vez de atacar os demais como se espera num contexto do género mantém-nos em suspenso sobre quando irá chegar esse tal momento que todos e tudo transformará. Atordoado dentro da sua "não vida", este morto-vivo acba por se tornar no elemento revelador de uma ordem perdida onde as regras, a liberdade e própria ideia de direito já se extinguiu. Pelas suas atitudes "Ana" revela a total falta de respeito que sente por aquela criatura, parodiando sadicamente a sua existência como única forma de manifestar o sufoco e a incompatibilidade que sente dentro de um espaço onde partilha o seu passado (Axel) e o seu presente (Jonathan), demonstrando não só o pouco valor que lhe atribui como principalmente o incómodo que este lhe causa sendo a ele, no entanto, que recorre quando pretende determinar qual o seu destino, e que irá vincadamente marcar o fim da humanidade como outrora a conhecemos.
"Axel" é, por sua vez, o reflexo de uma identidade que num momento de crise se perde. Em primeiro lugar manifestou essa perda pela abdicação do espaço individual pelo colectivo e finalmente como sua directa consequência a perda total da sua individualidade é manifestada quando aos poucos cobre o seu corpo com tatuagens que mostram uma desconhecida faceta sua como que referi-se toda uma nova identidade que o distancia daquilo que em tempos fora. Os seus silêncios são tão fortes como o desprezo/amor que "Ana" ainda sente por ele não querendo, no entanto, manifestá-lo por respeito a alguém com quem pelo tempo se aproximou.
Finalmente o trio completa-se com "Jonathan", aquele que de uma ou outra forma tenta manter, ou talvez recuperar, a pouca Humanidade que ainda lhes resta e que pretende igualmente restabelecer a confiança que os seus parceiros de casa tinham noutros tempos mais tranquilos. A ruptura que se anuncia inevitável, mas também ela silenciosa, chega quando percebe que tem de abdicar um pouco mais da sua "posse" de "Ana" em favor de uma sua maior entrega a "Axel" que desespera por algum sinal desta para si. Sem ser um elemento dominante durante este filme, a personagem interpretada por William Prociuk assume-se como o último elo de ligação para com o racional e enquanto os outros não comunicam entre si ele pergunta o que pode fazer para que eles se voltem a falar. É "Jonathan" que cede às vontades da sua companheira permanecendo no ritual de confessionário que esta lhe pede como escape desta sua nova realidade e também ele que tatua a nova identidade de "Axel" por todo o seu corpo.
Mas Behl vai mais longe com este El Desierto e a acreditar numa estranha coincidência este seu argumento pode ter semelhanças bem mais fortes com a realidade do que aquelas que estamos dispostos a ver nele. Se não analisemos... um mundo em crise pós-apocalíptica que transformou os humanos em seres desprovidos de vida, sem lei, pensamento ou ordem, marginais apáticos que reagem ao cheiro dos poucos que restaram com vida e onde três curiosos indivíduos se mantêm numa casa fechada e isolada do exterior. O elemento feminino regista nomes gregos na parede, sociedade essa que deu ao mundo o pensamento filosófico e a Democracia que são agora meras miragens do passado e que aqui se assumem como uma reflexão de um realizador alemão num país não assumido mas presente (Argentina) que passou também ele no início deste novo século por uma crise social e económica que transformou em seres dispersantes toda a sua população. Curioso e dá que pensar, não?!
Intrigante é também a abordagem dada a toda a narrativa que se centre única e exclusivamente no interior de um apartamento onde as referências externas nos chegam apenas dos breves instantes iniciais onde assistimos a um espaço desertificado e pelos sons que nos chegam desses mesmos espaços graças aos inúmeros microfones que este trio de sobreviventes espalhou pelas imediações e que assim lhes indicam a presença de qualquer ser mais ou menos "vivo". Abordagem esta que nos obriga a uma clausura tão permanente como a das personagens bem como a termos uma percepção do exterior tão "fiel" como aquela que os próprios recebem dele antes de se aventurarem nas suas inúmeras expedições em busca de alimento que lhes permita (sobre)viver.
Apesar do seu ritmo mais lento e espaçado quase reflexivo do momento em que se encontram e daquilo que em tempos foram, El Desierto consegue cativar-nos por uma invulgar mensagem de auto-desistência do "eu" como se se encontrassem realmente num deserto de onde a fuga fosse impossível e que nos é exponenciada pela direcção de fotografia de Gustavo Biazzi e pela caracterização de Franca Gallo que conferem a este filme uma imagem apagada e esbatida como se aquelas personagens (pessoas) fossem uma pálida e irreconhecível representação do que foram noutros tempos, e também da sociedade que se perdeu em sucessivas crises, não especificadas deixando assim a liberdade ao espectador de as imaginar, tendo por isso caído e desaparecido da memórias daqueles que em tempos as construíram.
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8 / 10
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Flytopia (2012)

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Flytopia de Karni Arieli e Saul Freed é uma curta-metragem britânica presente nesta sétima edição do MOTELx - Festival de Cinema de Terror de Lisboa. Arieli e Freed em colaboração com Will Self escreve este argumento do género fantástico que nos conta a estranha e quase mórbida relação estabelecida entre Jonathon (Ashley Artus) e todos os insectos que insistem em povoar a sua casa e deixá-lo incapaz de terminar o seu livro.
Os insectos, cada vez em maior número e sedentos de atenção, comunicam as suas intenções a Jonathon e este para encontrar alguma paz terá de ceder aos seus caprichos naquela que será uma relação repleta de moscas, de sexo, de paixão, de morte e de muita carne à mistura, naquele que será um final tão mórbido quanto algumas das cenas que iremos testemunhar.
Esta curta-metragem consegue alcançar uma componente de cinema fantástico interessante ao juntar uma harmoniosa relação entre homem e animal ao seu contexto e estabelecer um universo muito particular onde o "assassino" ganha toda uma nova conotação e que graças à brilhante direcção de fotografia de Mátyás Erdély quase que somos inseridos num universo paralelo que muito se assemelha ao de uma fábula onde os animais ganhas literalmente uma personalidade, desejos e necessidades humanas.
Interessante, sem ser memorável, esta curta-metragem vale principalmente pelos momentos mais cómicos que nos fazem distrair de algo que roça de muito perto a bizarria.
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7 / 10
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Linhas de Wellington candidato ao Oscar de Filme Estrangeiro

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Dois dias depois de anunciados os candidatos aos Sophia, foi anunciado pela Academia Portuguesa de Cinema o filme seleccionado para representar Portugal ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, tendo a escolha recaído sobre Linhas de Wellington, de Valeria Sarmiento.
O filme foi um projecto iniciado pelo realizador chileno Raoul Ruíz tendo sido terminado por Sarmiento, a sua mulher, e que conta com um elenco internacional onde se destacam John Malkovich, Marisa Paredes, Albano Jerónimo, Victória Guerra, Soraia Chaves, Nuno Lopes, Carloto Cotta, Mathieu Amalric, Melvil Poupaud, Catherine Deneuve, Isabelle Huppert, Filipe Vargas ou Adriano Luz, foi ainda nomeado para nove Sophia sendo eles Melhor Filme, Melhor Actor Secundário (Adriano Luz e Albano Jerónimo), Melhor Argumento Original, Melhor Fotografia, Melhor Direcção Artística, Melhor Som, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Caracterização, cujos vencedores serão conhecidos na cerimónia a realizar no próximo dia 6 de Outubro no Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa.
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Desespero (2013)

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Desespero de Rui Pilão é a mais recente curta-metragem do jovem realizador português que venceu o CinEuphoria de Melhor Curta-Metragem Portuguesa no início do ano com a sua magnífica curta Aqui Jaz a Minha Casa, e que agora concorre ao Prémio YORN de Melhor Curta-Metragem de Terror Portuguesa na edição deste ano do MOTELx.
Um homem (Miguel Rubim) senta-se no escuro da sua casa depois de um acto hediondo que iria definir irremediavelmente o destino da sua família. Ele aguarda por algo ou alguém que irá culminar num clímax inesperadamente assustador.
Ela (Vanessa Ribeiro Rodrigues), a sua mulher, chega a casa e questiona-o sobre o corte da luz enquanto comenta que os dias serão melhores depois de receber o salário daquele mês. Este pequeno confronto verbal irá desencadear uma sucessão de acontecimentos que nos irá revelar as suas verdadeiras personalidades e, acima de tudo isto, até onde vão para colocar um fim aos seus problemas económicos.
Rui Pilão consegue com o seu argumento entregar uma história de terror diferente do habitual. Longe de qualquer possessão demoníaca ou assombração, aqui o terror (sobre)vive graças a algo bem mais assustador e presente nos nossos dias e que se prende essencialmente com factores da dita crise que hoje atravessamos. Aquele jovem casal, com anos e tempo pela frente, depara-se com uma situação que parece aos poucos ir castrando qualquer tipo de sonho ou ambição que possam ter. Os alimentos que escasseiam e que estão impossibilitados de comprar ou uma conta de luz que não conseguem pagar são apenas alguns dos muitos problemas que podem estar a atravessar naquele momento. Ele sem trabalho... ela com um que exerce mas que não consegue colmatar todos os seus compromissos fazem com que a sensação de impotência tome conta das suas vidas.
Dito isto, o "demónio" (a existir um), é aquele que pelo desespero do momento se vai aos poucos apoderando das suas vidas, das suas acções e das escolhas que têm invariavelmente de fazer. Escolhas estas que para além de os guiar os vão definindo num ser que não conhecem (ou que julgavam não conhecer) e que age segundo parâmetros muito diferentes daqueles que sempre idealizaram e com os quais se identificavam até àquele momento específico. Momento esse que parece funcionar como um escape, como uma forma de atravessar uma situação que pode parecer claustrofóbica, sufocante e demasiadamente surreal pois mesmo passando por ela parece que a estão a observar a uma distância de segurança que os afasta da tal realidade que, essa sim, consegue ser assustadora.
O par protagonista consegue transferir para o espectador uma estranha e invulgar dinâmica que só peca por não se concretizar ainda mais. Percebemos que aquele casal um dia teve amor, que existia cumplicidade e que construíram aquilo que em tempos foi "uma" vida. O último acto entre ambos isso confirmou... o beijo. O beijo que embora forçado no meio de um desentendimento demonstra que estabeleceram um último elo de ligação, ou pelo menos aquilo que se pretendia como tal. No entanto, esse mais não foi do que o "click" que fez despoletar toda a tragédia que se fazia adivinhar.
Entre os dois actores existe uma ligação bem conseguida e condutora para a narrativa desta curta-metragem mas, ao mesmo tempo, temos dois elementos que nos deixa à espera de mais. De Miguel Rubim, que recria um novo tipo de vilão ao encontrar apenas no seu (deles) desaparecimento a solução para todos os seus problemas, e que tem uma presença forte e dinâmica em Desespero, há uma certa necessidade do espectador em ter mais da sua personagem. O que tem feito desde que ficou sem trabalho? Qual o tal click que o levou a transformar aquele dia no último que poderia ver? O que fazia antes e que tipo de homem era? São tudo questões que independentemente de não obstruírem o desenrolar da acção, fazem com que se sinta falta de as ver respondidas.
No que diz respeito a Vanessa Ribeiro Rodrigues que começa como uma simpática e afável mulher com a qual criamos uma instantânea cumplicidade, a sua personagem fica algo tremida quando, no momento mais alto do seu próprio crescendo, parece denotar uma certa teatralidade que quebra um pouco a dinâmica que recriou com o espectador. No entanto, a sua personagem fica redimida com o público quando no exacto final mostra um estranho alívio e contentamento com toda a finalização da sua "obra".
Tecnicamente, a direcção de fotografia de António Morais consegue transportar-nos para um ambiente e espaço quase mórbidos. A falta de luz, a ausência de espaços vivos para onde desviarmos a atenção e dando àqueles mais apagados uma estranha "vida" que nos obriga a concentrar nas expressões dos dois actores, faz o espectador sentir que se encontra num espaço outrora que calor mas que agora apenas alberga a morte ou aqueles que para lá caminham. Já a música original de Nuno Osório que nos insere numa atmosfera dura e pesada poderia ser dispensada nos momentos em que "Ela" caminha para a descoberta da morte do seu ente mais querido pois corta alguma da tensão dramática que se espera obter apenas pelo espaço, pela sua esperada dor e pelo som da sua respiração ofegante que aumentariam exponencialmente o clímax de toda a curta-metragem.
Como os dois apontamentos finais apenas posso referir aquilo que já se torna óbvio em primeiro lugar quanto à confirmação de Rui Pilão como um jovem e emergente cineasta que terá com toda a certeza um futuro promissor num cinema português que (espero) lhe abra as portas e em segundo lugar que o terror está para além de uma "simples" possessão... O verdadeiro terror encontra-se nas reais acções e intenções dos homens comuns que um dia encontram o seu ponto de ruptura não conseguindo dele fugir e que praticam o mal apenas porque sabem que o podem e "devem" fazer. Desespero é disso um reflexo ficcionado (ou talvez não) que nos deve preocupar pela potencial semelhança com acontecimentos reais que, de vez em quando, nos entram pela casa graças aos inúmeros relatos televisivos a que assistimos.
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7 / 10
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Cheap Thrills (2013)

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Cheap Thrills de E.L. Katz foi até ao momento a grande surpresa do MOTELx - Festival de Cinema de Terror de Lisboa deste ano e constitui um dos mais fortes filmes do género comédia negra que esperei ver até ao momento mas que, por esse mesmo motivos, corre o sério risco de ser considerado como apenas "mais uma" comédia (espero que não!!!).
Craig (Pat Healy) é um outrora brilhante estudante que nunca teve a oportunidade certa na sua vida. A trabalhar numa oficina e com uma vida economicamente complicada, Craig vê-se a braços com cada vez menos dinheiro e as dificuldades a surgiram a um ritmo galopante como uma hipoteca por pagar e dinheiro que não tem. Quando um dia é despedido do seu trabalho e vendo-se assim sem qualquer tipo de rendimento só pensa em beber uns copos e esquecer a mágoa que sente por ver a sua vida falhada.
É então que reencontra Vince (Ethan Embry), um velho amigo do liceu que lhe revela viver de cobranças e de expedientes ocasionais que lhe vão remediando a vida. No entanto a noite estaria longe de acabar e ambos encontram Violet (Sara Paxton) e Colin (David Koechner), um casal abastado e com um humor muito negro prontos para fazer um conjunto de excêntricas apostas e aguardar para ver quem pactua com elas... e quem lhes cede.
David Chirchirillo e Trent Haaga escreveram um argumento que vai muito para além do conjunto de apostas mais ou menos (des)honestas e grotescas com que somos brindados ao longo deste genial e original filme. Se pensarmos bem depois de o ver, esta parte mais cómica apenas surge um bom tempo depois de ficarmos a conhecer a difícil vida de "Craig" que muito rapidamente aparenta desmoronar-se sem qualquer hipótese de resistir aos problemas que lhe aparecem e que, como sinal dos tempos em que vivemos, corre sério risco de perder o seu modesto apartamento e com isso poder ter a sua família separada. Assim, e desde o instante inicial, temos um filme que nos faz parar e pensar sobre a sociedade contemporânea e os seus perigos que espreitam em todas as esquinas. A falta de trabalho e consequente falta de dinheiro, a perda de uma casa e da família e as contas que se acumulam sem dar qualquer descanso ou espaço para respirar estão todos eles presentes em todos os instantes.
No entanto isto não é só... É no momento mais frágil e complicado da vida de "Craig" que as oportunidade, as mais ilícitas claro, surgem e apresentam a facilidade que existe em poder ter e alcançar tudo aquilo que se deseja... Desde as contas pagas a um enriquecimento pouco digno e ilegal bem como alguma segurança, ainda que ilusória, para o futuro são entregues quase de bandeja como uma pequena contrapartida... Para os ter "Craig" terá de jogar a sua dignidade, a sua integridade... esquecer a moral e perder os seus princípios... e acima de tudo esquecer que para poder "ter" ele tem primeiro que abdicar da sua Humanidade entrando assim num perigoso jogo do qual sairá definitivamente modificado.
Assim, a principal análise que deveremos fazer deste filme encontra-se para além de todos aqueles momentos mais bem dispostos, ritmados e com um conjunto de momentos capazes de fazer inveja ao mais macabro filme de terror, e deveríamos sim concentrar a nossa atenção naquilo que se prende com o mais perigoso e susceptível de ser o verdadeiro terror moderno, ou seja, o que a crise, a instabilidade e a falta de segurança económica podem realmente fazer a um indivíduo ao ponto de alterarem radicalmente toda a sua existência física e principalmente psicológica, a qual define verdadeiramente a "morte" do Homem e da sua condição que o diferencia do animal.
A encarnar este "Craig" temos Pat Healy naquela que é uma brilhante interpretação sobre o Homem deste início do século XXI com todas as suas condicionantes que o definem. Quais os seus verdadeiros limites e aquilo que o separa do seu lado mais selvagem ou até onde poderá este homem (qualquer homem) ir para poder manter a segurança segurança económica. Até que ponto está disposto a abdicar dos valores e dos direitos que até então sempre defendeu ou, por sua vez numa abordagem mais fria e crua, como estes o impedem de ser quem ele realmente pode ser. Healy tem a mais profunda transformação ao longo de Cheap Thrills, e consegue mostrar-nos até onde pode ir um homem que, na prática, não tem mais nada a perder e está, por isso, disponível para tudo enfrentando os maiores riscos mesmo aqueles que põem em causa a sua segurança pois sabe que, se não os correr, ela estará irremediavelmente perdida.
Por sua vez, e como seu companheira de desafios, temos um "Vince" de Ethan Embry que funciona, em todos os momentos, como o total oposto de "Craig". Se inicialmente é aquele que tem uma "profissão" de risco onde a sua integridade física está de certa forma sempre ameaçada, e como tal seria aquele disposto a correr o maior risco de todos, Embry interpreta aqui o homem físico que a dado momento é incapaz de cometer "tudo" ganhando assim uma improvável moral que até então desconhecera, ou que nunca quis explorar como risco de expôr a sua própria vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, aquele que demonstra que no mais inesperado ser é capaz de nascer uma consciência que o impede de realizar certas "tarefas".
Enquanto uma dupla centralizadora de toda a acção deste filme, Healy e Embry entregam-nos alguns dos momentos mais hilariantes e inesperados de todo o filme funcionando numa dupla perfeita impossível de antever o funcionamento deste filme sem a presença de um deles.
Finalmente "Violet" e "Colin", o casal interpretado por Sara Paxton e David Koechner mais não são do que uma reflexão sobre aqueles que tendo poder (o económico claro está) determinam o bom funcionamento daquilo, ou daqueles, que pretendem ter por motivos tão fúteis ou ignóbeis como o simples facto de "poderem ter". Movidos por ideais tão absurdos como o poder de uma aposta e de controlo sobre as necessidades alheias, este par consegue ter uma interpretação secundária, mas muito dinâmica, que assusta não pela sua calma e descontracção com que encaram a sua vida, mas sim pelo seu desinteresse ao olhar para a fragilidade de terceiros não com preocupação para com eles, mas com a perspectiva quase mórbida de ver até onde vão por uma nota de cem dólares.
Aqui o humor está para além de uma simples comédia "feel good". A comédia com Cheap Thrills é, tal como o próprio título indica, um conjunto de momentos banais e sem qualquer interesse para quem os paga para além da possibilidade de... os pagar, controlando assim toda a dinâmica dos que precisam e que se encontram na margem de uma sociedade castradora e impiedosa tal como aquela pela qual, infelizmente, atravessamos.
No final, aquilo que este brilhante argumento de Chirchirillo e Haaga nos prova ou que pelo menos nos deveria fazer pensar para além das gargalhadas, é que a comédia é algo secundário em todo o filme, e que apesar de nos fazer rir com um conjunto quase absurdo de momentos, a realidade está de facto na triste condição a que o Homem chega (ou à qual é levado), para poder sobreviver numa sociedade que tem tanto... nas mãos de tão poucos.
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10 / 10
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