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terça-feira, 8 de abril de 2025

Dentro (2024)

Dentro de Abbie MacLaughlan e Maria Teixeira Barros (Portugal) é uma curta-metragem baseada num poema de amor da última. Um poema de amor que explora poderosas emoções e a sua ligação à Natureza.
Tendo esta premissa como base o que é que o espectador tem? Nada mais nada menos do que aquilo que poderia ser um interesse momento publicitário a um qualquer sabonete de marca mais ou menos reconhecida tendo como base os diversos momentos em que a protagonista se passeia por cenários ora interessantes ora exploratórios da emoção que pretende transmitir mas que, na realidade, pouco avançam para uma qualquer dinâmica ficcional onde exista de facto uma história e desenvolvimento de personagem que possa interessar, ou pelo menos despertar a curiosidade, ao espectador. Água, árvores, cenários naturais... e pouco mais. Uma deriva de ego excessivo enquanto existe um qualquer momento de eco-sexualidade que não só se torna desnecessário como até é, por momentos, francamente desconfortável e inoportuno. Filme, na sua verdadeira concepção enquanto tal... não o vemos. E em abono da verdade... depois do que temos... nem queremos ver.

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sábado, 11 de maio de 2024

O Dia em que os Porcos Voaram (2023)

O Dia em que os Porcos Voaram de Hugo Guedes, Francisco Parreira e Sebastião Salvador (Portugal) é uma das curtas-metragens presentes na secção Filmes para Crianças da 11ª edição do Leiria Film Fest a decorrer no Teatro Miguel Franco.
Numa escola, as crianças desenham. Enquanto todas desenham  em tons de cinzento uma delas destaca-se por desenhar com criatividade e cor. Num universo uniformizado e onde tudo parece igual... poderá a imaginação vencer?
Nesse dito universo sem cor e imaginação onde todas as crianças aparentam ser "criadas" para um objectivo comum e igualitário sem qualquer poder de decisão sobre aquilo que podem (ou têm direito) a criar, o que acontece quando uma delas se deixa envolver pelo poder da sua criatividade e dar corpo à sua imaginação que, compreende, não ter limites? O que acontece quando um, entre tantos, se destaca pela capacidade de apresentar uma nova e diferente perspectiva daquela que está institucionalizada  (pela professora) deixando que, todos os demais, entrem num choque (ou medo?) pela possibilidade de se dar origem a uma revolução que ninguém conseguirá controlar?
Lentamente a mudança (pela desobediência) instala-se. Aquilo que é visível apenas para um ganha corpo para todos os demais que, involuntariamente, começam a observar um mundo sem limites - como o deve ser para todas as crianças -, com cor, sem fronteiras, sem limites e cheio de oportunidades conferindo-lhes aquilo que até então ainda não tinham experienciado... a possibilidade de imaginar, de criar e finalmente de sentir.
Metafórico pela recriação de um ideal de liberdade na forma de um "porco voador" (afinal, quanta é a força que a imaginação pode ter para conferir a qualquer um de nós a possibilidade de criar), O Dia em que os Porcos Voaram consegue, através dessa imaginação e criatividade, um mundo sem limites, sem fronteiras e sem obstáculos que apenas podem ser criados por um pensamento enclausurado e desconhecedor de todo o seu potencial... que não tem limites.
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6 / 10
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terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Do Outro Lado do Mundo (2008)

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Do Outro Lado do Mundo de Leandro Ferreira (Portugal/Espanha) viu finalmente a sua estreia - ainda que não comercial - ao fim de treze anos depois de ter sido produzida.
A partir de um cenário que teve como base os acontecimentos que deram origem ao movimento das Mães de Bragança, esta longa-metragem leva o espectador a conhecer Lourenço (Paulo Pires), um polícia que desenvolve uma obsessão por Ana (Mercè Llorens), uma stripper de uma bar de alterne, por quem se apaixona e por quem está disposto a tudo.
Depois de anos de espera pela estreia desta longa-metragem de Leandro Ferreira, eis que finalmente a RTP presenteou o espectador com a sua estreia. Com um argumento de Luís Mário Lopes brevemente inspirado nos acontecimentos decorridos no norte de Portugal no início do século, este Do Outro Lado do Mundo tem por base uma pequena comunidade do país assolado - forte palavra para os desvios matrimoniais de alguns casais da região - por casamentos interrompidos, personagens supostamente exóticas que vêm apimentar a pacatez da cidade e despertar, ao mesmo tempo, algumas paixões ardentemente adormecidas das mais insuspeitas personagens.
É este Portugal "pequenino" perdido no interior que é aqui essencialmente explorado. Não necessariamente as dificuldades de uma vida num local isolado e distante mas sim as transformações de personalidade daqueles que nele habitam. O que acontece a estas pessoas que diariamente vêem os mesmos rostos, as mesmas histórias e os mesmos hábitos sem que, de dia para dia, nada se altere ou transforme? Mais, o que acontece quando algo ou alguém de "diferente" chega à cidade e abala uma das suas mais sagradas instituições como o é a familiar? Conseguirá a família resistir à tentação da carne? E o que acontece à ordem social quando esta sagrada instituição é abalada? O que existe para lá da família que ocupa um lugar superior na pirâmide social quando a mesma parece acabar destruída por essa agora nova tentação que surge?
Não é desconhecido para ninguém que é no mais insuspeito dos locais que se esconde a dita tentação. Tentação essa que não só coloca à prova o mais respeitado dos elementos da sociedade - como o é aqui o "Lourenço" de Paulo Pires - mas, sobretudo, tudo aquilo que o mesmo representa. Polícia, filho de polícia, com uma família tida como um pilar da comunidade e que de repente se vê ameaçado na sua estabilidade e envolvido nos meandros mais sinistros da mesma que, apesar de todos saberem que existem, ninguém lá se quer envolver. Para "Lourenço" existe a possibilidade do "sonho" como o mesmo revela quando diz que voltou a fazê-lo depois de conhecer "Ana". Mas, tal como o sonho, esta sua nova vida não passa de uma ilusão que termina quando a manhã chega. Nada aqui é, de certa forma, real. Todo o prazer, todo o sonho, todo o desejo e todas as experiências são fruto do momento. De um momento. Um momento que termina mais rápido do que havia começado e a única certeza que existe são as vidas destruídas que lentamente tentam - se é que conseguem - recuperar de uma realidade que não existira.
Ao mesmo tempo descobrimos pequenas grandes realidades escondidas por detrás destas vidas supostamente exemplares. Conhecemos um padrão de violência não apenas explícita pelas vidas marginais que o bar de alterne nos revela em personagens como, por exemplo, o "Ricky" de Ivo Canelas, mas também no passado de "Lourenço" quando é dado a perceber ao espectador que por detrás do rosto da lei espelhado em si e no seu pai - breve mas potente interpretação de José Eduardo -, também ele polícia, existe um rosto abusador que o intimidava e à sua mãe. A violência, ainda que mais latente na suposta vida de boémia que as novas realidades sociais trouxeram para a cidade, existe escondida e imperturbada nos rostos anónimos forçados a mentir sobre uma suposta harmonia social que todos sentem. Os novos rostos que habitam estes bares de alterne não trouxeram realmente a violência. Pelo contrário. A violência sempre existiu... está é, agora, a ser revelada e vivida às claras.
A dinâmica entre Pires e Llorens é sentida desde o primeiro instante recriando não uma relação afectiva mas uma dependência agonizante que, percebemos, não poderá trazer nada de bom para nenhum deles para lá da compreensão de que ambos são dois marginais numa vida que não os engana (apesar de o tentarem disfarçar). Ambos sabem estar condenados a uma realidade para a qual - ou na qual - nasceram e, independentemente de se conformarem com ela, será apenas e só aquilo que sempre irão poder ter. Tudo o demais será oportunamente arruinado por acções próprias ou suas derivações.
Secundados pelos já mencionados José Eduardo e Ivo Canelas num pouco vulgar desempenho enquanto um vilão que pouco se preocupa por onde passa ou com o que destrói, há ainda que destacar Anabela Teixeira como a mulher saturada de uma vida que não pretende ou Tomás Alves como o jovem com sonhos grandes demais para o local em que se encontra e que silenciosamente compreende nunca poder cumprir, é o argumento de Luís Mário Lopes que se destaca peo retrato desse tantas vezes chamado "Portugal profundo" que tantas vidas por cumprir esconde. Vidas essas que os anos vêem passar e que, também um segredo desarmante, aprendem não a viver mas sim a desprezar tudo o que as rodeia. Não existe respeito, ou o seu mais pequeno vislumbre, para com aqueles com quem se cruzam. Existe, talvez, uma aceitação e união para com aqueles que compreendem poder viver nas mesmas dinâmicas que o tal "eu" sofrido mas ninguém quer, na realidade, estabelecer mais elos do que aqueles que são necessários para sobreviver e encarar mais um dia. No fundo, todos acabam por ser detentores de vidas marginais que disfarçam com uma capa para que a sociedade os veja e "aceite" enquanto seus ilustres membros.
E é este mesmo argumento que tem todo um potencial por explorar que, no entanto, se deixa levar sem nunca aparentar querer consolidar-se como "a tal" história sobre vidas marginais versus vidas socialmente aceites onde ambas se disfarçam esperando que ninguém alguma vez perceba o que realmente são. Todos, sem excepção, pretendem um pouco mais para as suas vidas... uma redenção, uma saída do local em que se encontram, a concretização de um sonho, a esperança de uma vida melhor, um amor, um passado resolvido ou um futuro esperado... No entanto, nenhum parece alcançar esse momento chegando o espectador a equacionar que existe uma redenção ou aceitação de que aquilo que têm é o que foi possível alguma vez alcançar. Existe esta consciência mas, ainda assim, permanece a dúvida se foi essa vida que o argumento quis dar a estas personagens ou se foi o próprio espectador que desejou que as mesmas pudessem fazer-se cumprir sob outras realidades. É esta possibilidade de um duplo caminho que fragiliza um pouco esta longa-metragem conferindo-lhe aquela velha máxima de que poderia ter sido e que se calhar ficar por dizer...
Um bravo à RTP por finalmente ter dado luz e alguma vida a Do Outro Lado do Mundo que, no entanto, deveria ter tido a merecida estreia em sala e não limitar-se a um horário nem sempre nobre para o cinema português e um outro bravo a Paulo Pires que uma vez mais se revela como um protagonista que o nosso cinema - e público - querem ver mais.

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6 / 10
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sábado, 11 de julho de 2020

Dernier Acte (2019)

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Dernier Acte de Miguel Amendola Borrallo, Yohan Gantelet, Antonin Géral-Ariès, Lucie Krencker, Clara Obeidi e Geoffrey Rakotoarisoa (França) é uma das curtas-metragens de animação presentes na respectiva secção da sétima edição do Leiria Film Fest.
A época de caça está aberta. Dois caçadores executam a estratégia maior... infiltrar-se no território do inimigo disfarçados com peles de animais... e tentar a sua sorte.
Em terra de cego quem tem olho é rei. Nada mais certo do que este antigo ditado popular para traçar as intenções de duas personagens que pensam ter decifrado o código absoluto para dominar os animais que tão desesperadamente tentam capturar. Numa savana onde todo um conjunto de animais selvagens têm o seu próprio código, dois caçadores tentam, pela trapaça, retirar os seus lucros e dividendos sobrevivendo assim num universo que não é o seu.
Repleto de humor e algum sarcasmo, esta é a "confirmação" de que por vezes se consegue sobreviver num território que não é o seu ou, pelo menos, que existe a possibilidade de adaptar todo um conjunto de regras e normas previamente conhecidas para que uma inesperada nova realidade ocorra e os locais ditos "normais" de cada um sejam agora... outros domínios. Quando as interacções entre improváveis novos "amigos" se firmam e todo um novo universo se estabeleça como a realidade de alguns... desmistificam-se lugares, papéis "sociais" e até mesmo personalidades que, afinal, não eram tão intransigentes como inicialmente se queriam dar a conhecer.
Típica animação onde se invertem as realidades conhecidas pelas personagens que dela fazem parte, Dernier Acte é um divertido conto sobre sobrevivência firmada no engano e no engodo mas que confirma sempre a vitória do mais preparado... o selvagem. Um selvagem resistente e que tantas vezes demonstra qualidades mais humanas do que aqueles que o são. Divertida e capaz de captar bons momentos de comédia numa animação refinada, principalmente quando conhecemos a sua realidade enquanto obra académica, Dernier Acte permite ao espectador um conjunto de bons e bem dispostos momentos de humor na linha de uma animação mais tradicional que, em boa medida, fez parte da juventude de tantos de nós.
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7 / 10
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quinta-feira, 9 de julho de 2020

Direito à Memória (2019)

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Direito à Memória de Rúben Sevivas (Portugal) é uma das curtas-metragens na secção oficial Documentário da sétima edição do Leiria Film Fest num interessante registo que une o próprio cinema - enquanto espaço físico - a um sempre por explorar contexto Histórico português do qual a informação é sempre necessária para o conhecimento e fomento de uma identidade nacional.
O espectador encontra um edifício degradado, abandonado e fechado para todo um público que passa indiferente àquela realidade. Fundado em Outubro de 1929, o Cine-Parque Chaves foi palco, em Maio de 1958, de um dos discursos de Humberto Delgado aquando da sua campanha à Presidência da República.
À medida que o espectador observa o interior daquele espaço outrora dinâmico e onde toda uma população se divertia a assistir aos mais recentes êxitos cinematográficos, agora escuta gravações desse discurso que sobreviveram ao próprio espaço por terem sido escondidos e enterrados num quintal. Enquanto que a memória - de Delgado - persiste naquelas palavras que ecoam como narração da História propriamente dita, àquela que se prende com o cinema desvanece lentamente não só perante a inutilização do espaço como principalmente pela própria memória que, também ela, não resiste com o desaparecimento daqueles que por ali passaram na sua juventude.
Enquanto as palavras de Delgado narram a decadência de um regime violento, o espectador é levado a uma imediata comparação do mesmo para com o Cine-Parque - encerrado em 1986 - que assiste à sua lenta destruição pelo abandono e para a consequente perda de todo um legado e memória local que se apagam como consequência do abandonado. A degradação de um regime (de então) e aquele do cinema (agora) misturam-se como duas formas de violência "prestadas" a um espaço geográfico - nacional e local respectivamente - que ignoram a História e o seu legado, a memória e a sua importância para a já mencionada construção do "eu" local e da identidade regional e nacional que tremem, tal como o espectador, pelo impacto de palavras que ontem, tal como hoje, não perderam a sua validade, sentido, pertinência e importância.
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8 / 10
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segunda-feira, 18 de maio de 2020

The Door at the Edge of Reality (2019)

 
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The Door at the Edge of Reality de Jacob Greer (EUA) é mais uma das curtas-metragens em exibição no Trapped Film Festival aqui num conto sobre um grupo de mulheres que praticam rituais online com o objectivo de abrir uma porta para outra dimensão.
Com um certo toque de poder feminino no seu âmago, The Door at the Edge of Reality tenta um terror gore pela mutilação do corpo masculino como dualidade entre homem e mulher conferindo-lhe, ao mesmo tempo, uma sentida dinâmica moderna ao selar um "pacto" com o tal "outro lado" com o apoio de milhares de fãs que se encontram nas redes sociais, esse veículo maior de informação destes nossos "novos" tempos.
Se esta curta-metragem explora o propósito do ritual como fim último para a já mencionada passagem para o outro lado desconhecido e onde o "eu" - neste caso feminino - poderá alcançar a supremacia face ao papel social que lhe foi forçado a aceitar na realidade tal como a conhecemos, não será despropositado também mencionar que tudo o que é feito pelas personagens desta curta-metragem continua a favorecer "um" sobre o "outro" na medida em que este último mais não é do que um sacrifício natural para um propósito que se quer fazer ver concluído. Por outras palavras, se existe uma necessidade extrema de expôr um qualquer género como um herdeiro não natural da vassalagem perante o outro, não é menos verdade que durante o ritual e consequente sacrifício os papéis são pouco harmoniosamente invertidos dando uma perpetuação a essa desigualdade social. Mais, é o mesmo ritual que faz denotar que a mudança da órbita social não invalida que o agora "sexo forte" marginalize os seus pares para, ela própria, manter o seu poder numa corrida do "poder pelo poder" e não por uma qualquer justiça social conferida pelo "outro lado".
Com uma vontade extrema de ter o banho de sangue pedido por qualquer filme de terror que se digne, este The Door at the Edge of Reality, acabam por ser estes escassos momentos que dão algum crédito a esta curta-metragem que promete muito este "terror" mas que, na realidade, tenta ser mais visual do que construir uma narrativa credível para confirmar as imagens que tão cuidadosamente tenta recriar. E se para estas a direcção de fotografia de Jon Chomiak contribui ao ponto de por momentos considerarmos estar num qualquer ambiente alucinante e fora de uma normalidade compreendida, há algo que fica a faltar na mesma principalmente no que a personagens protagonistas diz respeito. Sim, é uma realidade que temos uma protagonista e sim, também é verdade que esta dinamiza visualmente uma boa parte desta história mas, em igual medida, o espectador questiona-se sobre a veracidade da mesma porque para lá de compreender as suas motivações esta não parece preocupada em manter-se com sentido mas sim em "lá chegar" - ao tal outro lado - e obter "fãs" nas redes sociais desprovidas de um qualquer conteúdo que confirme as suas crenças (se é que existem).
Feito com alguma despreocupação técnica, narrativa e interpretativa, este The Door at the Edge of Reality assume-se tal como é... despreocupado... arbitrário... e pouco motivado... tem um princípio, um meio e um fim mas... fica-se por aí e consciente de tal.

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5 / 10

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Deathless (2020)

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Deathless de Katie Carpenter e Jenna Canell (EUA) é uma das curtas-metragens que foi exibida no Trapped Film Festival e onde o espectador é transportado para tempos futuros após um evento impediu os humanos de morrer, de envelhecer ou de engravidar.
Agora, numa quinta distante daquilo que resta da civilização uma família vive na tranquilidade do campo até serem perturbados por três ladrões que procuram uma mercadoria muito especial.
Trinta anos depois do "Crash" que modificou a vida tal como todos a conheciam - desconhecem-se os motivos, o cataclismo ou o apocalipse tal como ele foi -, esta curta-metragem recupera o género onde o retomar a vida normal após o conflito é a palavra de ordem. Mas, a questão levanta-se quando nada é apresentado sobre o que existe para lá daquela pacatez que o campo parece proporcionar a um grupo de pessoas que tentam manter-se fora dos olhares mais curiosos construindo a sua vida tal como ela (lhes) parece "normal". Das imagens do caos e dos distúrbios às notícias da desordem e de um Estado sem lei, encontramos então uma paz podre que apenas existe quando ninguém sabe que estas almas perduram num espaço onde, possivelmente, têm algo mais a esconder do que aquilo que a vista desarmada apresenta.
Entre estes sobreviventes pacíficos e os guerrilheiros da estrada muito ao estilo de um Mad Max, Deathless é a nova entrega de um conjunto de filmes (neste casos curtos) que recupera o género que prolifera numa altura em que a própria existência do espectador - dentro e fora da sala de cinema - está num estranho impasse. Com um cenário idílico no seio de um mundo que se compreende apocalíptico, esta curta-metragem apresenta aquilo que, tragicamente, já conhecemos dos destinos da Humanidade... enquanto uns tentam recuperar a normalidade que conheceram de tempos que são, neste agora, distantes, outros rendem-se e entregam-se a uma vivência de marginalidade onde o dinheiro e os bens materiais ganham uma importância ainda maior do que nesse "antigo normal"... mas o que aconteceria se esses "bens" fossem agora as vidas humanas que, não sendo escassas, apresentam características muito próprias que as tornam "únicas"?
Na selva humana que é aqui tragicamente ilustrada por um "novo normal" onde as regras de civilização já há muito que desapareceram, Deathless é o reconto de tempos trágicos que, transformados pela mão do Homem, sucumbem pelas mesmas aproximando-se a cada dia da perdição e da total desumanização... E ainda que o cenário em que personagens e espectador se encontrem aparente querer mostrar um qualquer paraíso, rápido se compreende que mais não é do que uma vã miragem ou ilustração do mesmo. Não sendo uma novidade em termos de cenário ou de história e deixando em falta toda uma contextualização histórica sobre os acontecimentos que (n)os transportaram a este momento, esta curta-metragem consegue, ainda assim, manter uma construção técnica digna para o género cinematográfico em questão bem como manter uma coerência nos vilões e "heróis" (que não o são) revelando os dois lados de uma realidade que qualquer um de nós poderá observar independentemente dos tempos e dos dias que vive... ou viverá.

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7 / 10

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Devoted Dead (2017)

Devoted Dead de BJ Segura (EUA) presente na competição oficial do Trapped Film Festival inicia a sua trama através de uma história aparentemente banal sobre um boys band que se prepara para a gravação de um novo tema. Desconhecedores daquilo que se passa para lá das portas do estúdio, é quando se aventuram pelas ruas da cidade que finalmente tomam conhecimento de que o mundo tem, realmente... problemas maiores.
Num acto de liberdade crítica poderia facilmente estabelecer uma próxima ligação deste filme curto à obra Anna and the Apocalipse (2017), de John McPhail distanciando-os, ao mesmo tempo, não só pela qualidade do humor, de tempo e de interpretações mais amadora que aqui poderemos encontrar mas também pela falta de originalidade com que esta obra chega para o espectador mais atento que seguiu a obra escocesa de há três anos.
Tudo indica que estamos quase perante um "estudo" ou ensaio para aquilo que viria a ser esse Apocalipse de McPhail e, não fossem dois distintos realizadores que dão luz às suas respectivas obras, poderíamos considerar este Devoted Dead como a obra de preparação para a longa. Não se distanciam na sua componente musical, nem tão pouco na percepção do apocalipse "lá fora" quando ambos os protagonistas percorrem as ruas da cidade que caem às mãos do terror zombie sem que nenhum tenha a devida compreensão desse novo mundo que os espera. Distanciam-se pela execução dos momentos, perante a capacidade de transformar esta obra num filme-divertimento que se assume mais perante aqueles que o construíram - e cujo amor à obra está longe de ser questionado - e não tanto para o seu público e que, para lá da dedicação... tudo o demais ficou a dever (muito) àquilo que se poderia esperar de inovação ou de qualidade deixando esta curta-metragem praticamente... morta.
Entretém o seu público por breves momentos deixando compreender que existiu vontade de construir uma obra de género mas, para lá da boa vontade, ficou todo um filme que poderia ter sido um pouco... "mais".
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3 / 10
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Da Capo (2019)

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Da Capo de Mário de Oliveira (Portugal) é a curta-metragem vencedora do Sophia Estudante na categoria de Ficção que leva o espectador a uma viagem temporal entre passado e presente e à revelação da união entre duas personagens que pelo ocaso se reencontram num universo que lhes é familiar.
Um pintor (Nuno Nolasco) e o seu "objecto artístico" (Miguel Cadima). A contemplação e a o desejo latente. A intimidade que se explora e a separação que se adivinha.
A curta-metragem de Mário de Oliveira explora o amor, o desejo, a empatia, a ligação inquestionável entre duas almas e ainda a hipótese de um reencontro de duas almas cúmplices através de uma viagem temporal.
Com a vontade de que algum mistério una as mãos a um conto histórico e romântico, o realizador dá cor a um relato sobre o poder do amor. Um amor que poderá até nem ser assumido face aos tempos passados que não reconheciam todas as diferentes cores do mesmo mas que devido à sua força e determinação encontra lugar no mundo mesmo anos passados onde os intervenientes - ainda que com a mesma forma - são os receptáculos daquilo que perdurou.
Parca em diálogos mas intuitiva pela forma como expõe os gestos e a forma como estes reflectem um sentimento intemporal, esta curta-metragem urge por uma maior definição do seu argumento que expunha para lá do óbvio as motivações e os (des)encontros dos dois protagonistas transformando-a, assim, numa eventual história de amor - mesmo que não cumprido - entre duas pessoas deslocadas do seu tempo e do seu espaço.
Os dois momentos temporais em que a acção se desenrola, ainda que compactados ao essencial para que a narrativa funcione, revelam a necessidade de uma maior profundidade do espaço e das personagens com o mesmo, podendo dessa forma evoluir para um filme memorável do género e não aquele conjunto de lugares eventualmente comuns que encontramos neste tipo de histórias. Se pensarmos como só a vertente da viagem temporal poderia transformar toda esta história num relato fascinante e emocionante aqui perdido - obviamente pela limitação de tempo de uma curta-metragem -, conseguiria o espectador compreender que estamos perante muito mais que não se chegou a cumprir. Interessante do ponto de vista do seu argumento, a Da Capo falta uma maior precisão técnica que possibilite, ao mesmo tempo, uma maior exploração dos meandros sentimentais das duas personagens que se perdem no tempo.
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5 / 10
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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Dos Veintitrés (2018)

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Dos Veintitrés de David Mora (Espanha) é a mais recente curta-metragem realizada pelo actor espanhol que aqui é também o seu protagonista numa história onde no silêncio confessional assume uma paixão (ou amor não confesso) por um seu amigo que o acompanha numa tarde estival junto à piscina. Enquanto um tenta um novo record debaixo de água, o outro verbaliza os seus sentimentos como nunca antes o havia feito.
Três breves minutos assumem-se como o ponto forte e mais frágil desta curta-metragem. O ponto mais forte por o seu argumento - também da autoria de Mora - conseguir conter o essencial de uma mensagem profundamente sentida que expõe, de forma crua e honesta, aquilo que expressa o coração de alguém que não consegue encontrar coragem para dizer (na realidade) a quem interessa. Ali, de forma cúmplice e pessoal, é com o espectador que é partilhada a mensagem de uma vida, os sentimentos de um momento não tão breve e claro, toda a frontalidade que apenas os sentimentos mais honestos conseguem conter. Por outro lado, é a curta duração deste filme que expõe o espectador a uma maior necessidade de saber e conhecer o passado destas duas personagens, visto que uma é meramente decorativa para o desenvolvimento da história, de forma a saber como funciona a dinâmica entre ambas e o passado mais ou menos comum que contribua para este desabafo tão intenso por parte do protagonista (mais uma vez David Mora).
Intensa pela dinâmica estabelecida entre a personagem e o espectador, Dos Veintitrés termina talvez naquele momento em que se espera um pouco mais do que poderá ser confessado mas, ao mesmo tempo, dois minutos e vinte e três segundos de toda uma confissão que apenas pode ser confirmada naquele instante confere muito mais do que provavelmente toda uma vida onde tudo (ou talvez nada) se esconde. Talvez seja esse o ponto forte desta história... deixar na sugestão do "e depois" causado junto do espectador que reside toda uma dinâmica das possibilidades sentimentais que este conto encerra.
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6 / 10
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sexta-feira, 15 de novembro de 2019

D is for Demon (2019)

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D is for Demon de Stephen Stull (EUA) é mais uma das curtas-metragem presentes na décima edição do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta até amanhã e uma nova incursão no universo do abecedário da morte aqui com um especial interesse pela invocação de um demónio.
Ele (Jonthan C. Schelmety) e Ela (Dina Najjar) encontram-se num quarto de hotel. Preparam-se para uma noite de paixão quando, de repente Ela decide lembrá-lo de algo. Irá o sentimento de culpa prevalecer ou entregar-se-ão a uma noite de paixão?
Dedicando-se à tal mais ou menos esperada incursão no campo dos pecados capitais - a traição que origina a ira... a avareza... o orgulho... ou até mesmo a soberba - D is for Demon transforma-se rapidamente numa reflexão sobre os sentidos e a percepção nem sempre capaz de um casal (ou protótipo de...), cujos pecados dão corpo a uma punição inesperada quando as suas almas são reclamadas por uma entidade que, fazendo-se afirmar perante os mesmos, nunca dá aos protagonistas um completo "ar de sua graça".
Se "Ele" quer, para lá de um compromisso, uma "relação" que lhe confira certas "vantagens" matrimoniais onde o sexo venha acompanhado de uma "dona-de-casa", já "Ela" está apenas preocupada em manter viva a emoção do proibido e do momento deixando-se levar por aquilo que sabe que ele nunca lhe irá dar... o tal compromisso.
É quando ambos se distanciam, ainda que por momentos, do seu real propósito naquele quarto de hotel, que as manifestações sobrenaturais ocorrem com a malícia e tentação esperadas ao revelaram-se quanto baste para anunciarem a sua presença sem que, na realidade, se deixem ver em absoluto. A tentação provocada, esperada ou não pelos protagonistas, assume-se sobretudo pela violência de um desespero como resultado do ilegal e desse fruto proibido que ambos provaram e, como tal, a noite que prometia acabar com a satisfação do desejo... termina sim mas com a confirmação do pecado maior do qual ninguém poderá escapar... um pela morte... e o outro pela sua condenação num purgatório do qual jamais irá fugir.
Com uma dinâmica já conhecida e interpretações que não se destacam ou harmoniosamente co-habitam com o argumento proposto, D is for Demon prima pela premissa apresentada mas fragiliza na execução de uma história que poderia ser mais polida ou interpretada com maior empenho e desdém... Desdém esse para transformar as personagens não em elementos comuns de um qualquer dia-a-dia mas sim seres detestáveis que o espectador pudesse, de certa forma, perceber que o pecado cometido era intencional e não o fruto de uma culpa que se compreende mas que se deixa prolongar. Acessível na sua narrativa e de aceitação que não deixa grande margem à imaginação, esta curta-metragem tinha aquele tal potencial para se deixar levar por caminhos mais tenebrosos optando, por sua vez, por invocar o demónio sem que, na realidade, lhe permitisse que ele se revelasse em todo o seu... esplendor.
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5 / 10
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terça-feira, 27 de novembro de 2018

Os Dois Irmãos (2018)

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Os Dois Irmãos de Francisco Manso (Portugal/Cabo Verde) é uma das longas-metragens em competição na XXIVª edição dos Caminhos do Cinema Português a decorrer no Teatro Académico Gil Vicente, me Coimbra cujo argumento de José Fanha baseado na obra de Germano de Almeida conta a história de André (Flávio Hamilton) regressado a casa no interior de Cabo Verde depois de anos a viver em Lisboa. Aí, o pai revela-lhe que o irmão João (Che Gonçalves) esteve envolvido com Maria Joana (Janeth Tavares), a sua mulher.
Num momento em que André revela querer avançar com a sua vida em Lisboa, família e antigos amigos exigem justiça... André, desesperado com o isolamento e ostracização da comunidade, rapidamente terá de agir.
De destacar nesta história é o imediato choque entre os vários membros desta comunidade que primeiro recebem um dos seus vindo da antiga metrópole como um elemento mais "evoluído" que agora mal reconhecem. Assim, o provocado choque entre a sociedade do século XXI e o rural e tradicional que se mantêm intactos num ambiente no qual a dita evolução ainda não se manifestou fica latente por esta chegada como principalmente pelas constantes manifestações de um sistema que se rege e governa pelo "costume" e pelos velhos hábitos que os antigos clãs estabeleceram, fazendo da prática comum a lei pela qual todos se governam. Nesta perspectiva, não só a chegada de um "André" que poucos já reconhecem como um dos seus é um elemento "estrangeiro" e estranho como  também lhe é exigido que respeite as leis da comunidade ostracizando um irmão e uma mulher que se envolveram durante a sua ausência. Mas, na realidade... quem serão estas pessoas que, em tempos, foram as suas?
"André" é o protótipo de alguém dividido entre esses dois referidos mundos... por um lado fiel aos seus costumes e tradições, à sua família e antigas paixões bem como ao espaço que o viu nascer e que, de certa forma, mantém como a sua principal referência enquanto o homem que é. Por outro, é este mesmo espaço e as suas gentes que são, na realidade, também inesperados estranhos não só por se encontrarem num patamar social diferente do seu mas também pela sua realidade que exige uma vingança para com um acto que o próprio cometera nessa Lisboa distante. Qual a necessidade de se vingar ou mesmo de exigir uma inexistente justiça quando o próprio não só não quer saber do sucedido como também ali chegou para dele se distanciar definitivamente?! Poderá (ou quererá) ele manter algum tipo de laços quando os próprios intervenientes apenas o desejam se forem selados com sangue?
É com esta perspectiva em mente que toma lugar o outro momento do filme, já em tribunal, quando depois de um crime cometido se exige o julgamento do mesmo. Assim, numa constante revelação de momentos, o espectador observa, percebe e regista não só a (in)operatividade de todas as forças - política, justiça e política - como principalmente as toma como meras paródias de um poder absoluto e não questionado que opera no local mais respeitando esse dito "costume" do que propriamente as leis do país que apenas se aplicam numa capital... também distante. Será "André" o último bastião da aplicação dessa justiça ou apenas alguém em mera transição e cujo destino será... incerto?
Os Dois Irmãos funciona assim como o registo de uma história moral e social que exibe o directo conflito entre rural e urbano, que opõe as diferenças inerentes a cada um deles e sobretudo como a extrema necessidade da pertença do Homem ao seu ambiente primário o expõe a uma pressão que o condiciona não só no seu pensamento como sobretudo nos seus actos... nada é deixado impune... principalmente as acções de um homem no seu pensado limite.
Ainda que interessante de um ponto de vista de análise dos dois meios em questão, Os Dois Irmãos é uma longa-metragem extremamente frágil no ponto de vista da sua execução onde não só um certo amadorismo dos actores compromete a mensagem que se pretende transmitir como também os elementos técnicos desta história parecem mais depressa a querer transformar num segmento de uma qualquer sitcom do que propriamente numa história forte e coesa que exponha o referido choque de culturas que se opõem. Do drama social de um "André" entre mundos aos momentos tendencialmente mais cómicos - propositados ou não... nunca saberemos - esta longa-metragem sofre sobretudo pelo descrédito que tende a afirmar do que propriamente pelas incoerências de um argumento que poderia ser não só mais elaborado como mais convicente do ponto de vista da sua mecânica versus mensagem.
Com interpretações de Flávio Hamilton e Che Gonçalves capazes de dinamizar o grande ecrã - tivessem elas tido mais e melhor margem de manobra para expôs os conflitos das suas personagens - e um ambiente natural propício a uma moderna história de vingança, tivesse Os Dois Irmãos sido mais consistente e encontraríamos aqui uma história que a ninguém envergonharia.
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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Diane a les Épaules (2017)

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Diane a les Épaules de Fabien Gorgeart (França) exibido no âmbito da décima-nona Festa do Cinema Francês a decorrer em Lisboa no Cinema São Jorge é uma longa-metragem que revela nove meses na vida de Diane (Clotilde Hesme), barriga de aluguer para os amigos Thomas (Thomas Suire) e Jacques (Grégory Montel) ao mesmo tempo que inesperadamente se apaixona por Fabrizio (Fabrizio Rongione).
Filha de uma vida libertina mas a atravessar a idade em que o seu relógio biológico parece começar a manifestar-se, Diane vive dividida entre uma vida de folia e um sentimento de amor que insiste em bater-lhe à porta... mas não para sempre.
"Diane", interpretada de forma inspirada por uma fogosa Clotilde Hesme, é uma mulher que parece recusar as ditas responsabilidades que a vida adulta normalmente trazem consigo. Livre de qualquer relacionamento ou relação sentimental, trabalho e até mesmo de família, os únicos momentos em que a observamos inicialmente prende-se com um jogo de relações fugazes tidas nas habituais saídas nocturnas e um compromisso mais sério com um casal amigo para quem serve de barriga de aluguer. É aqui que surgem os nove meses nos quais a acompanhamos e que observamos o seu amadurecimento enquanto mulher... e mãe ou, pelo menos, enquanto potencial mãe de uma criança... que não será sua.
Clotilde Hesme tem uma qualquer força interior que leva o espectador primeiro a compreendê-la enquanto uma mulher livre, sem responsabilidades - mas não irresponsável - cujo mais importante e talvez único propósito na sua vida é uma diversão constante libertando-se de qualquer "amarra" que a sociedade criou sobre o conceito do que é ser "mulher". Nesta medida, e para lá de qualquer desejo maternal, ela assume aquela que será eventualmente a sua maior responsabilidade à data ao desejar facultar aos seus amigos a parentalidade que, de outra forma, lhes seria dificultada. É neste processo que todas as "regras" sociais dessa idade adulta já anunciada parecem começar a manifestar-se... primeiro a lealdade aos amigos, depois a maternidade e, finalmente, o inesperado despertar sentimental que surge ao conhecer "Fabrizio" com quem, no entanto, parece co-existir numa relação de toca e foge. Emancipada, independente, fugaz mas com uma elevada debilidade sentimental, a "Diane" de Hesme acaba por transformar-se, no olhar do espectador mais atento, uma mulher perdida entre aquilo que a sociedade espera que ela seja e aquilo que a própria deseja ser... enquanto mulher, esposa e mãe... acabando por terminar tal como começa num patamar onde apenas permanece como mulher... (in)completa - agora - para os seus próprios parâmetros daquilo que deveria ser.
Com todo o peso do mundo - o esperado e não só - "Diane" vibra ao som de uma qualquer música diária que a acompanha, longe de qualquer significado absoluto mas como uma sinfonia dos seus pensamentos de momento e que a caracterizam mais do que qualquer palavra que possa proferir... com medo de (se) magoar acaba por atingir aqueles que privam de perto com ela afastando-os lentamente não só pela sua incapacidade de decidir para lá do momento mas sobretudo pela sua crescente sensação de compreender que quer mais... sem com isso aceitar que tem de ceder e comprometer-se em encontrá-lo acompanhada por alguém de quem goste e por quem manifeste os seus sentimentos.
Revelador enquanto uma obra que facilmente poderíamos caracterizar enquanto um coming of (late) age, Diane a les Épaules vibra a um passo muito próprio destronando velhas concepções sobre o papel social de uma mulher aqui emancipada mas fervorosamente desejosa de que esses tais papéis sociais que todas as demais "compreenderam", também lhe cheguem um dia sendo, no entanto, capaz de ir vivendo e experimentando o mundo tal como ele se lhe vai manifestando e, ao mesmo tempo, receosa de se deixar levar por um qualquer sentimento que se percebe ser difícil de aceitar e compreender.
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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Disobedience (2017)

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Disobedience de Sebastián Lelio (Reino Unido/Irlanda/EUA) exibido na secção Panorama da vigésima-segunda edição do Queer Lisboa - Festival Internacional de Cinema Queer a decorrer no Cinema São Jorge centra-se na história de Ronit (Rachel Weisz), uma mulher que regressa à sua Londres natal para o funeral do seu pai rabi, depois de décadas de ostracização pela sua comunidade ortodoxa ao ter sido descoberta a sua relação com Esti (Rachel McAdams), agora casada com o seu amigo de infância Dovid (Alessandro Nivola).
Se há uma palavra que imediatamente surge na mente do espectador ao assistir a esta longa-metragem de Sebastián Lelio, ela é imediatamente "solidão". Os instantes iniciais revelam uma "Ronit" - "Ronnie" nos Estados Unidos - como uma fotógrafa reputada mas cuja vida pós-laboral se mantém isolada num qualquer canto de um bar que lhe serve exclusivamente para os seus encontros sexuais fortuitos e assim conseguir preencher com alguma falsa noção de sentimento (sexual) o vazio no qual sente a sua vida. Na cidade que nunca dorme, "Ronit" é então o protótipo de alguém que está literalmente sózinha numa cidade com milhões de pessoas que circulam diariamente à sua volta sem que, na realidade, se apercebam que ela ali está.
Esta sua noção de solidão é imediatamente interrompida quando subitamente recebe notícias de um pai recentemente falecido. O mesmo pai que pactuou com o afastamento das pessoas que conhecia, da sua comunidade, da sua cidade e mesmo da sua vida. É neste contexto que o espectador é imediatamente assombrado com outra dinâmica relacionada com o poder e a influência de uma comunidade mais reclusa e ortodoxa que se fecham nos seus hábitos e costumes impondo a obrigado e o dever como derivados directos um do outro e que pré-estabeleceu "papéis sociais" para cada um dos seus membros. Homens e mulheres devem ter relações meramente cordiais... homem deve casar com mulher... mulher deve ser submissa, boa esposa e boa mãe... homem garante o sustento para o seu lar.
É nesta dinâmica que encontramos "Esti" e "Dovid", amigos de "Ronit" desde infância e que se juntaram como um casal primeiro por um conhecimento comum e próximo e depois porque era o que deles se esperava. Distantes de uma qualquer noção de cumplicidade e amor, foi a amizade que os juntou e, ao mesmo tempo, a mesma que com o decorrer dos anos acabou por separá-los emocionalmente. A sua relação e casamento, agora uma obrigação social, desgastou-se pela imagem perdida de uma amiga distante - "Ronit" - e paixão (eventualmente comum) mas apenas correspondida para com "Esti". "Ronit", chega a uma Londres que parece ainda mais fria dentro de portas familiares, abalando todas as estruturas sociais que a encontram... a da família, a dos amigos e mesmo a de conhecidos que, conhecendo ou não o motivo do seu afastamento, a julgam como uma forasteira muito pouco desejada.
No entanto, é a dinâmica estabelecida entre o trio protagonista que cativa o espectador desde o primeiro instante. Se a dinâmica entre a personagem de Wiesz e a de Nivola parece amistosa, franca e em certa medida cúmplice, cedo se revela como tensa e indiferente. O "Dovit" de Nivola, fervoroso judeu ortodoxo cujos valores não tendem a ser abalados, encara a chegada de "Ronit" como a da amiga desaparecida (e não convocada) como um estorvo que pode ser contido e se inicialmente a convida para dentro da sua casa, cedo compreende que a família que tende a construir com "Esti" pode ser abalada com esta presença. É, por outro lado, a relação entre as duas mulheres aquela que acaba por se revelar como a mais intensa, cúmplice e a que poderá dar mais frutos quando se compreende que o amor que as separou fisicamente nunca deixou de existir nem no seu pensamento nem naquele desejo pensado extinto. "Ronit" e "Esti" são, afinal uma única alma dividida em dois corpos que se completam, desejam, amam e anseiam... mas o meio ao seu redor, ultra-conservador e religioso, não as permite consumar esse amor.
Se a "Ronit" de Weisz se revela como uma mulher segura psicologicamente, mas ao mesmo tempo frágil emocionalmente - ainda que firma nas suas convicções sobre o seu "papel" (a existir um) no mundo - pela descoberta de um pai que, de facto, não queria saber dela, e a "Esti" de McAdams como aquela que acabou por sempre a amar em segredo limitando-se a um papel de esposa devota e cumprida das suas "obrigações" matrimoniais é, no entanto, no "Dovid" de Alessandro Nivola que o espectador sente o maior e mais intenso conflito emocional na medida em que os seus momentos no ecrã se preenchem de pequenos elementos contraditórios à espera do seu próprio clímax. Nivola compõe uma personagem que se altera com o decorrer dos minutos... de um inicial homem seguro e confiante prestes a transformar-se no pilar de uma comunidade que o respeita - muito por ser o discípulo preferido do pai de "Ronit" -, o seu "Dovid" transforma-se num homem que vê a sua posição na comunidade ser ameaçada pela presença de um elemento por todos indesejado mas que, ao mesmo tempo, tenta conciliar para o bem de todos (e das aparências), respeitando a memória do homem que, no fundo, todos respeitam. É com a descoberta de um cada vez mais desinteresse da sua esposa "Esti" que "Dovid" se expõe como um homem aparentemente violento - não fisicamente mas psicologicamente e para si pela compreensão de que o seu ideal de família está prestes a terminar -, comprometendo não só a sua posição dentro do seu lar, como na comunidade e, sobretudo, perante os demais líderes que o escolheram para os liderar.
Expondo estas três personagens - co-protagonistas que ocupam, cada uma delas, a sua própria dinâmica na construção desta intensa história -, questiona-se o espectador sobre a origem desta "desobediência" ainda não confirmada... Se facilmente a poderíamos associar à personagem de Weisz na medida em que esta, expulsa do seu grupo primário, conseguiu construir toda uma nova realidade onde pode viver uma vida mais ou menos livre (pelo menos psicologicamente) dos padrões de "sociedade" a que estaria exposta na sua Londres ou, mais ainda, a poderíamos observar nos comportamentos transgressores - novamente para a referida comunidade - da "Esti" de McAdams, a realidade é que esta desobediência firma-se convictamente nos comportamentos do "Dovid" de Nivola... o aparentemente afável anfitrião... o violentamente instável marido... o receoso futuro pai...e, finalmente, o compreensível, empático e humano amigo, cúmplice e confidente que, incerto do seu papel no ideal de mundo que havia criado, compreende realmente que a tal palavra de Deus que passara anos a apregoar está finalmente na aceitação do "outro", da sua diferença e sobretudo da forma como esta não ameaça em nada aquilo que ele próprio representa mas sim expande os seus próprios horizontes a uma nova descoberta desse mesmo mundo em seu redor... Não será a verdadeira palavra de Deus a capacidade que "nos" conferiu, pelo livre arbítrio, de poder escolher quem amar, com quem formar amizade, a possibilidade de respeitar, de honrar e de conhecer tudo o todos os que nos rodeiam não vendo neles rótulos pré-definidos pela sociedade ou comunidade em que nos encontramos?!
Disobedience será assim inicialmente uma história de solidão... mas também uma história de busca pelo reconhecimento, pela aceitação, pela compreensão, pelo amor, pela família, pela redenção e até mesmo pela tradição - não nos poderemos esquecer que "Ronit" também regressa e apenas leva com ela aquilo que a mãe lhe havia destinado perdendo todos os demais valores de família - e o verdadeiro acto de desobediência, presente em cada uma destas personagens co-protagonistas, está na sua capacidade de, em bom tempo, compreender que todos podem ser felizes, juntos ou separados, se conseguirem respeitar as vontades individuais... tal como a palavra de Deus tinha, nos princípio dos tempos, estabelecido como uma sua vontade.
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"Rav: (...) what is this thing? Man? Woman? It is a being with the power to disobey."
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9 / 10
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sexta-feira, 20 de julho de 2018

The Damned (2017)


The Damned de Fred Cavender (França) é uma curta-metragem cuja premissa se centra num conjunto de habitantes de uma cidade que se encontra rodeada por um gigantesco muro. Centrados nos seus dramas familiares vivem alheados de uma realidade que lhes escapa... ou estarão todos eles voluntariamente ocupados com a ideia de uma realidade que está para lá desse muro?
Cavender que também escreveu o argumento desta curta-metragem consegue criar uma história que prende o espectador não pela bizarra realidade que estas personagens apresentam como sendo a sua "vida", mas sim pela suspeita do que poderá vir a acontecer com os mesmos quando, deduzimos nós, ousarem ultrapassar aquela aparente fronteira que ali lhes é colocada. O muro, ainda que visualmente ausente de boa parte da dinâmica, ganha contornos de uma silenciosa personagem que parece assombrar a realidade destas "vidas", e que apenas se assume como tal de uma forma lenta à medida que as diferentes dinâmicas parecem ganhar contornos dando corpo às realidades de cada um dos intervenientes que tentam encontrar o seu lugar neste espaço incolor e distante.
Os conflitos e a solidão parecem ocupar cada uma destas personagens. Ora aqueles que tentam começar uma vida nova optando por adquirir um "quarto novo" para a sua casa... naquele que o vende cujo único propósito parece ser conquistar mais rendimento para poder fazer uma viagem turística para o mundo para lá daquele muro... na família disfuncional cuja realidade parece apenas ser sobreviver ao instante seguinte não se preocupando com o que está porvir... ou até mesmo no par solitário que tenta encontrar um qualquer propósito comum e estabelecer uma dinâmica em conjunto para esquecer o pouco que os dias lhes parecem trazer. Nesta medida, até mesmo os propósitos diários são escassos. Compreendemos que poucos, se é que alguns, têm propósitos maiores nas suas realidades e tudo é, compreensível desde o primeiro instante, ausente, distante e sem pequenos elementos de uma realidade à qual qualquer um de nós está habituado. O jantar do par solitário assim o revela quando se deliciam com uma refeição de cenouras das quais já não conheciam o sabor. Ou até mesmo na vida de uma família desfeita onde a jovem filha se assume como o elemento rebelde prestes a perturbar não só a sua vida familiar como aquela desta sociedade que compreendemos "ordeira" e "disciplinada" não por convicção mas sim em prol de uma qualquer ordem que é incompreensível até aos últimos instantes. E é quando o espectador finalmente compreende o que os rodeia, que os enclausura e que domina as suas realidades que se equaciona o fim como a inevitabilidade mais realista que os amedronta. E nesse momento tudo ganha uma explicação deixando o argumento, no entanto, um vazio sobre os porquês desta população ali ter chegado. O que os forçou? Uma crise? Um fim? Uma tentativa de novo começo? Estarão eles na base de uma sociedade estratificada e que apenas lhes confere aquele espaço para viver? Existirá outro mundo para lá daquilo que os contornos daquele muro lhes permitem ver?
Sendo este argumento o ponto forte desta curta-metragem, imediatamente equiparado com a direcção de fotografia que confere um ambiente especial e quase desumanizado ao espaço e às suas personagens, são estas que, no entanto, se afirmam como o elemento mais frágil deste filme curto na medida em que pouca é a exploração das personagens que quase se limitam a um debitar de frases feitas que nos dão - aos espectadores - noções básicas do seu descontentamento ou revolta interior para com o que os rodeia e para com aqueles com quem vivem. Existe pouco nestas personagens e todas elas poderiam ter apresentado muito mais dinamizando a história, o próprio argumento e o ambiente que se esperaria ainda mais negro se equacionarmos que no final compreendemos as suas realidades e o porquê dos medos que aparentam revelar. Ainda assim, e sobretudo pelo potencial exibido nesta história que nos apresenta a realidade destes "amaldiçoados" sem nunca pretender justificar os porquês e os seus passados, The Damned revela-se como uma história que confere ao sentido de fim (ou fim do mundo?) uma nova e interessante perspectiva não esquecendo nunca exibir o ideal de "sonho" que algumas destas personagens insistem em não perder.



7 / 10

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Dead Zone (2013)

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Dead Zone de Brian Binder (EUA) - também autor do argumento - é uma curta-metragem que revela a história de um jovem isolado (Tyler Alverson), num mundo devastado por uma qualquer epidemia e que espera por encontrar o cão que perdeu como última forma de ter um qualquer contacto com o mundo tal como o conhecera. As suas instruções foram breves... nunca se afastar do bunker em que reside - uma gruta -, nunca se cruzar com os corvos - misteriosos guardiões do espaço em que se encontra - e finalmente não entrar na "dead zone"... o espaço a que antes haviam chamado de casa. Irá ele resistir neste novo mundo?
Inúmeros são os filmes - curtos e não só - que se dedicam a este imaginário de fim-do-mundo ou de mundo pós destruição. Muitas são também as boas vontades e o gosto que o género exerce sobre não só fãs do mesmo como naqueles que desejam começar a sua carreira cinematográfica com estas histórias capazes de fazer despertar no espectador um gostinho pelo "como seria?" inerente a estes contos. No entanto, e ainda que reinem as boas intenções naqueles que as constroem com toda a sua dedicação, nem sempre o resultado final é ou o esperado ou o melhor.
Sem qualquer condescendência para com o trabalho de Brian Binder e de toda a sua equipa envolvida na construção deste filme curto, a realidade é que aquilo que aqui é apresentado já foi filmado, visto e revisto vezes sem conta e com mais criatividade ou primor na sua execução. A história... não é desconhecida.
Num mundo do qual poucas referências obtemos, apenas um sobrevivente e alguns tipos que o perseguem (pensamos), com o fim último de o exterminar. Afinal, o que existirá para lá daqueles morros e marcos de "segurança" que foram, em tempos, apresentados ao nosso protagonista como o último reduto de uma qualquer salvação pela qual espera? Deambulando por uma espaço desconhecido e com o propósito de encontrar uma companhia que perdera - o seu cão - e que escuta constantemente - delírio ou não nunca saberemos -, o actor principal desta curta-metragem, ainda que convincente dentro do género, necessitava de um aprofundamento do seu carácter e estado de espírito que aqui se resume ao já conhecido em tantos outros filmes do género... Tudo se resume ao "até que ponto aguenta alguém num mundo que aparenta estar deserto"... Até que ponto resiste a mente humana a uma solidão da qual parece não escapar?
Com uma maior e melhor coordenação não só do argumento como dos actores dos quais poderia ter sido explorado mais das suas motivações ou do seu ânimo - que aqui se resume a breves momentos em que a expressão facial tudo revela -, Dead Zone poderia ter surgido ao espectador como uma curta-metragem melhor conseguida e que deixasse mais mistério, suspense ou até mesmo incerteza sobre o que existe para lá daqueles montes e até que ponto existiria a própria Humanidade se o último habitante "limpo" perdesse o controlo sobre as suas emoções ou livre pensamento. Interessante pela abordagem, pela clara vontade em contar uma boa história e pelo prenúncio de interpretações que tinham mais sumo para ser espremido, Dead Zone mantém-se pelo seguro e não arrisca para alcançar aquilo que poderia ter sido.
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5 / 10
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Didáskale (2018)

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Didáskale de Juan Manuel Clausell (Espanha) é uma curta-metragem que dá corpo a uma viagem entre o passado e o presente num choque de mentalidades e referências das épocas temporais que atravessa.
Com um momento inicial em que dois filósofos da Antiguidade clássica reflectem sobre o tempo e sobre o contributo do seu pensamento para a sociedade, Didáskale reflecte sobre a viagem de um desses filósofos através de tempos que são, para si, desconhecidos, descobrindo-os enquanto eles marcam aqueles que neles "vivem". Assim, levantam-se as questões existenciais... o que é o amor? O que é a religião? Por que objectivos vivem os Homens? Existe (existirá?) moral com o passagem do tempo?
Ainda que repleto de um conjunto de questões morais e filosóficas sobre a essência da Humanidade, esta curta-metragem priva-se de uma sólida construção deixando-se levar pelas questões relevantes colocadas de uma forma moral e quase condenatória daqueles que o tempo - dele (filósofo) e nosso (na actualidade) - parece agora fazer viver. A falta de isenção deste trabalho - a mensagem ainda que actual e pertinente falha no imediato julgamento do tempo social e dos seus intervenientes - provoca o imediato repúdio do espectador na medida em que todas as observações sociais e temporais que aqui se pretendem retratar revelam não só algum amadorismo na sua concepção como, sobretudo, uma falta de imparcialidade na execução de uma observação não participante. De forma mais resumida, se o conteúdo central desta história parece até ser pertinente na forma como poderia revelar o que seria - aos olhos de alguém da Antiguidade - uma falta de valores morais observada com curiosidade empírica, Didáskale revela sim a própria condenação do realizador sobre aquilo que este acha como incorrecto num mundo onde os valores estão perdidos e a Humanidade vive pela força de bens materiais que corrompem e retiram a essência ao Homem de uma forma geral. Ainda que possa ser verdade... como sabê-lo na mente de quem nunca experimentou aquilo a que hoje "todos" temos acesso?
Didáskale é ainda uma curta-metragem extremamente frágil no que diz respeito a elementos técnicos começando logo pela sua captação de som que mais parece experimental e elaborada a título de ensaio do que propriamente a execução final de um filme que se perdeu no exacto momento em que teve a sua origem transformando-e em algo banal, pouco prudente na análise que, não existe, e por momentos snob na aparente isenção de julgamentos que se acumulam a cada segundo.
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1 / 10
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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Desaliento (2018)

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Desaliento de Pinky Alonso (Espanha) é uma das curtas-metragens presentes na secção oficial Cantábria e na paralela OneSequenceShot.
Depois de uma intensa relação sexual um casal discute tornando realidade todos os inconfessáveis segredos que, até então, escondiam e que resultarão num inesperado final.
O argumento de Sara Márquez revela duas intensas personagens numa história com contornos negros e um desespero latente. "Ela" (Itziar Castro) é uma mulher casada e revela que está grávida a um amante que se assume traído. Se "Ela" está disposta a tudo abandonar para começar uma nova vida ao seu lado, já "Ele" (David F. Mayora) revela, com a descoberta desta notícia, ter perdido todo o interesse pela mulher que, até então, amara.
Se esta história parece assumir contornos que cruzam o humor negro com uma história de duas personagens desesperadas com uma aparente vida exterior e que encontram naqueles breves momentos a razão para a sua existência, não é alheio ao olhar do espectador que ambos se encontram num espaço que tem tanto de excelência como de decadente. As paredes exteriores daquela casa expõem - para os demais - a excelência de um espaço abastado e senhorial que, no entanto, apenas escondem a desordem e decadência de uma vida que se encontra nas margens. O desconforto exposto pelos dois protagonistas contrasta igualmente com os diversos manequins que estão aleatoriamente dispostos pela casa. Nada faz adivinhar um ambiente tranquilo ou "legal". O pecado - a existir - está por todos os recantos de uma casa que tem sido o palco para encontros fortuitos e extra-matrimoniais que ambos ali cumprem. No entanto, é nos comportamentos destas duas personagens que encontramos os maiores "podres"...
Se "Ela" é uma mulher preocupada com esta sua relação ilegal que aparenta querer manter como a única possível na sua vida, é a notícias que transmite a "Ele" que tudo poderá colocar em risco revelando que, um deles, estará a viver uma vida dupla - ou tripla - que o outro desconhece. O encontro entre ambos, longe de parecer próximo ou cúmplice, mais revela ser o escape para uma qualquer vida na qual parecem não se sentir inseridos e o plano sequência aqui escolhido para tudo filmar aparenta querer revelar ao espectador que tudo mais não é do que uma relativamente breve passagem para ambos... ou, pelo menos, para um deles.
A iminente separação para a qual nos parece levar o argumento de Sara Márquez, será apenas o abrupto final para um deles e o sentido de humor negro aqui revelado parece fazer adivinhar que estas vidas tão igualmente tristes, mais não são do que o reflexo de toda uma existência desconexa e desligada de um mundo dito "normal" que os obriga a encontros casuais num espaço, também ele, marginal. Da marginalidade do espaço àquela das (suas) vidas, Desaliento é, portanto o retrato de um desânimo... de uma falta de ligação ao outro ou, por outro lado, de um desespero por essa extrema necessidade de pertença que a sempre intensa Itziar Castro revela através dos seus breves olhares dispersos no espaço.
E como todas as tragédias porvir tendem a fazer terminar uma história cujo futuro das suas personagens desconhecemos - ou talvez não! -, eis que este Desaliento termina com contornos tragicómicos e a certeza de que por detrás de toda a potencial ilegalidade sentimental e amorosa está a vontade, a necessidade e o desespero de poder tentar ser amado.
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8 / 10
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quarta-feira, 2 de maio de 2018

Dayless (2016)

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Dayless de Gerardo de la Fuente López (Espanha) é uma das cinco curtas-metragens de animação presente na respectiva secção oficial da nona edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos a decorrer até ao próximo sábado, na Cantábria, em Espanha.
Ele parece odiar a vida... mas esta poderá não odiá-lo. Numa nova concepção do mundo... como será que alguém pode encontrar uma forma feliz para viver?
A curta-metragem de Gerardo de la Fuente, cujo argumento também escreveu, é uma triste mas dinâmica alegoria para um novo e futurista mundo no qual tudo perdeu o seu sentido e a noção de felicidade é apenas uma miragem de um passado que já ninguém conhece. Aquilo que o espectador observa deste novo mundo é uma dimensão mecanizada de toda a vida conforme a conhecemos... da simples deslocação para um local de trabalho até ao momento em que os indivíduos têm de interagir entre si, nada é espontâneo ou natural existindo, para tudo, um obrigatório equilíbrio para que o funcionamento das partes resulte. Tudo está uniformizado e a diferença é inexistente... ou pelo menos assim pensamos.
As distâncias, física e psicológicas, fazem parte desta nova ordem mundial e todos estão privados de qualquer tipo de posses materiais mantendo - para o exterior - toda a sua vida a descoberto e bem visível. Não existe cor nem tão pouco qualquer elemento que diferencia algum destes habitantes dos demais. Os rostos são desprovidos de qualquer expressão e a uniformização é total e absoluta mas, no entanto, o que acontece quando "Ele" resolve finalmente libertar-se desta sua vida rotineira e aceite em comunidade? A cor existe... para lá do seu espaço autorizado, e a vida pode na realidade ser diferente daquilo que todos conhecem mas... o que fazer num mundo tão diferente e desconhecido onde mais ninguém habita? Como sobreviver a esta nova realidade que tudo tem de apelativo mas na qual mais ninguém se encontra? Será bom permanecer naquele espaço ou, por sua vez, regressar a todo um mundo previsível e que já se conhece? Onde nada se tem mas onde tudo está certo, garantido e seguro?!
Incerto e sem qualquer registo, os anos passam... a vida mantém-se sem alteração e a realidade que sempre se conheceu é a única possível de poder aguentar... ou até mesmo suportar! De la Fuente cria portanto a alegoria perfeita sobre um estado de espírito de uma população incapaz de encontrar felicidade nas pequenas coisas ou, nesta sua impossibilidade, de arriscar enfrentar a diferença e o outro lado de uma realidade que procura mas desconhece, que teme mas pela qual anseia e que, mesmo sabendo que existe nesse "outro lado", prefere manter afastado como algo nefasto e capaz de afectar a sua noção de estabilidade.
Detentora de uma forte e actual mensagem, Dayless é portanto o registo de uma vivência cada vez mais mecânica e autómata de uma sociedade que quer por hábito quer por consciencialização se habituou a deixar de viver e principalmente de sonhar.
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8 / 10
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domingo, 29 de abril de 2018

Drvo - A Árvore (2018)

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Drvo - A Árvore de André Gil Mata (Portugal/Bósnia-Herzegovina) foi a longa-metragem de abertura da décima-quinta edição do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema Independente a decorrer em Lisboa até ao próximo dia 6 de Maio e também um dos filmes presentes na Competição Nacional.
Um Homem (Petar Fradelic), uma Criança (Filip Zivanovic). Duas guerras. Dois estados temporais. Um Rio. Uma Árvore. O Homem e a Criança conhecem-se sob uma árvore junto a um rio. Partilham uma memória.
Com argumento do próprio Gil Mata e uma direcção de fotografia de João Ribeiro - que "pinta" belíssimo quadros de imagem em movimento -, Drvo - A Árvore é assumidamente uma obra de arte que exige, sem se impôr, ser contemplada.
Os dois momentos que acompanham esta longa-metragem aproximam o espectador de duas cruas realidades temporais de uma Sarajevo que, então, viveu sob um manto negro e violento. Numa primeira realidade temos uma criança (Zivanovic) que enquanto brinca "força" o espectador a escutar os bombardeamentos que, distantes, cercam o espaço natural à sua volta. Percebemos, mais tarde, que um homem (Fradelic) vive sob a mesma realidade no mesmo espaço. Distantes pelo tempo, o espectador compreende estas semelhantes realidades como os anos '40 - para a criança - e '90 - para o homem - onde a capital bósnia viveu sob intensos períodos de guerra - Segunda Guerra Mundial e os conflitos resultantes da declaração de independência da então Jugoslávia - nos quais, aqueles que nela subsistiam viviam sob um intenso e violento purgatório. Se a criança encontra espaço para brincar alheando-se (ou talvez não) da realidade "lá de fora", é no homem mais velho que encontramos o rosto marcado por esta (sobre)vivência e uma certa apatia para com aquilo que o rodeia.
"Ele" (Fradelic) recolhe garrafas de vidro que transporta às suas costas, e os únicos ruídos que são perceptíveis são os do vidro que chocalha e o dos seus passos na neve. Distantes, mas igualmente presentes, são os dos bombardeamentos que, no entanto, acabam por ser por ele ignorados tal a sua normalidade nesta que é a sua realidade. Dali parte num barco e desce o rio rumo a uma realidade que o espectador desconhece até que, de repente, um vulto surge numa das suas margens. O vulto de uma criança que ele então persegue até uma árvore. É naquela árvore com as marcas do frio de um rigoroso Inverno, que os dois se encontram e conversam revelando incoerentes momentos de uma memória partilhada, e eventualmente colectiva, da sua realidade e daquela do espaço em que ambos se encontram.
A conversa entre ambos ganha uma dimensão de reflexão na medida em que explora pequenas particularidades que parecem comuns a ambos. Pequenos momentos dessa referida memória que apenas o mesmo ser poderia saber e conhecer. É então que o espectador se questiona se estas duas pessoas não serão uma única em momentos distintos de uma realidade comum e, nesta medida, em que espaço temporal se encontram de facto... naquele que foi vivido pelo jovem ou pelo adulto? Estarão eles distanciados por anos ou simplesmente por realidades distintas mas comuns que se cruzam nesta cidade deserta, quase fantasma, que poderá mais não ser do que a imagem reflectida que ambos encontram e conhecem como o seu espaço de segurança?
Por momentos, e tendo esta linha de pensamento, o espectador questiona-se sobre a possibilidade deste mais não ser do que um espaço transitório para onde ambos foram transportados no seu "depois". Um espaço no qual a mesma pessoa em diferentes etapas da sua vida encontrou para poder tranquilizar o seu outro "eu"... Um jovem que encontra uma qualquer forma de paz compreendendo que o próprio irá existir até tardia idade, e o mais velho assegurando este que as agruras da vida não terminarão com o rugir das bombas que escuta ao longe. Nem tudo serão maus tempos e os anos de uma paz física e psicológica surgirão com os anos mas, ao mesmo tempo, ambos são, no seu tempo, assombrados com a realidade da guerra, do fim, da perda, da inexistência, do nada e até mesmo de uma morte vizinha que espreita pelo melhor momento de surgir e se dar a conhecer.
Também surge ao espectador uma noção de tragédia grega... dos deuses do Olimpo e dos seus servos na medida em que o homem (Fradelic) não só procura a sua subsistência (a moeda) pela recolha das garrafas como também se faz transportar entre margens através do seu barco. Fradelic, ou o "Caronte" destes tempos, transporta ou aborda aqueles que se acercam à margem do rio conferindo-lhes a possibilidade de uma existência do "outro" lado ou, por sua vez, confirmando que ainda não chegou o tempo deles serem transportados para essa nova realidade que julgam ter então alcançado. A tranquilidade ou seu adiamento, surge então personificado pela caminhada sem destino que estas margens precisam "consumir" antes de ser consumada a eterna e última passagem para o outro lado ou outra existência.
Ao mesmo tempo, André Gil Mata força o espectador a acompanhar o "homem" de Fradelic, primeiro através de uma calma e psicologicamente tranquila existência - pelo menos aparentemente -, que o faz percorrer as ruas de uma cidade abandonada e visivelmente deserta apenas na companhia de um fiel cão. Nesta caminhada percebemos a existência de um sofrimento inerente às suas acções, algo que o acompanha como um fardo atribuído a alguém que cumpre uma pena... O sofrimento como pena de uma existência condenada aos meus ritos e rituais, aos mesmos gestos e passos que se repetem sistematicamente dia após dia e dos quais este homem não consegue escapar. Numa prisão a céu aberto, o espectador sente uma imediata empatia pelo homem, pela sua condição e pela forma como silenciosamente - pela ausência de outro alguém ou até mesmo pela voluntariedade que assume ou assumiu com o passar dos tempos -, aceita o seu isolamento e aquilo que o destino lhe proporcionou... naquele momento e em toda a sua vida. O desespero surge assim não pela condição mas pela repetição de um ritual que se perpetua. Um desespero silencioso que apenas quebra para salvar da incerteza o seu "eu" mais jovem e que, de certa forma, resulta como um auto-conforto na medida em que as suas palavras poder-se-ão perpetuar na mente de um jovem que cresce e se desenvolve com a certeza de que esta incerteza de paz e segurança serão a sua realidade no início da sua vida e potencialmente nesse tal "final" nunca confirmado.
Contemplativo desde os instantes iniciais onde o espectador é levado a conhecer o interior de uma modesta habitação perdida num qualquer vale dos Balcãs, Drvo - A Árvore assume-se como a fonte de uma vida (a árvore) independentemente da forma como esta poderá ser desenvolvida no futuro. Ela será no entanto, o elemento que testemunha toda essa passagem de tempo, de pensamento, de regimes, de conflitos e sobretudo daqueles que a cruzaram ignorando que se manteve ali durante tempos inconfessáveis. Com uma direcção de fotografia de João Ribeiro, um mestre na captação do espírito, do momento e da energia do espaço, Gil Mata constrói uma obra maior do cinema português distanciando-se, no entanto, de qualquer nacionalidade que poderia inicialmente ser atribuída a esta história. Ao reter a mensagem de Drvo - A Árvore, o espectador desconhece primeiro o espaço - apenas revelado por pequenos elementos da obra -, depois o tempo - que apenas assume pela narrativa e pelo cenário de fundo na qual se desenrola - e finalmente a sua origem que pode firmar a obra apenas pela origem do seu realizador mas transformá-la num conto sem nacionalidade pela universalidade da sua mensagem.
De longe uma das obras maiores do novo cinema português, Drvo - A Árvore consegue nos seus pouco mais de noventa minutos firmar a importância da memória (física, psicológica, histórica, temporal...), transformar-se num conto assombroso na medida em que deixa o espectador incerto sobre os limites da ficção, do drama, do real e do fantástico sem que, no entanto, este se consiga esquecer de que se encontra perante uma história contemplativa sobre o silêncio, a dor, a perda e sobretudo o sofrimento de uma alma que - desconhecemos - se limita a percorrer os mesmos espaços, cantos e lugares de forma monótona (des)esperando por um breve momento no qual possa partilhar a sua sabedoria e o seu relato sobre a passagem desse tempo nem sempre benemérito.
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