segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O Homem de Trás-os-Montes (2017)

.
O Homem de Trás-os-Montes de Miguel Moraes Cabral é uma curta-metragem portuguesa de ficção e o filme de abertura da edição deste ano do Caminhos do Cinema Português que hoje começa em Coimbra.
Apaixonado pela região de Trás-os-Montes, Miguel (Miguel Nunes) procura histórias para poder realizar o seu documentário até que encontra um homem que viaja de burro que segue e filma em todos os seus movimentos.
Num registo que confunde a ficção com a realidade, n'O Homem de Trás-os-Montes o espectador acompanha um grupo de documentaristas que estudam o espaço em busca de uma história entre as histórias. Dos costumes às tradições religiosas tão presentes no espaço, aqui filmam-se as memórias colectivas de uma região que está, de certa forma, isolada num Portugal dito profundo ainda tão distante dos olhares do seu próprio povo. É nesta muito lenta viagem que personagens, e até o próprio espectador, se deixam embrenhar na região, nas seus espaços e nos seus vastos campos que em muito se assemelham àqueles que conhecemos dos velhos western norte-americanos uma natural imersão nas tradições , nos rituais, nas danças e até numa certa relação entre sagrado e profano - numa clara oposição da bendição das casas àquele contraste entre o folclore tradicional que opõe princípio e final desta história -, levando-os a uma inesperada viagem onde se perde a noção do seu propósito inicial mas na qual se ganha uma miragem da descoberta pessoal que ali parecem encetar.
Irradiando uma vontade de revelar ao espectador a história desse Portugal ainda desconhecido, Miguel Moraes Cabral revela com o seu O Homem de Trás-os-Montes uma silenciosamente intensa viagem pelos costumes populares, distantes de uma Lisboa que (em muito) já os perdeu, e deixando perceptível que o país tem em muitas das suas práticas populares um certo condimento mais pagão deixando viver em comum "acordo" os rituais instituídos pela Igreja com aqueles que visou (em tempos) proibir.
Assim, esta viagem dos seus protagonistas - juntam-se a Miguel Nunes, Isac Graça, Sérgio Coragem e Beatriz Brás -, acaba por começar com um elevado propósito cinematográfico no qual se documentam as práticas visíveis da região, terminando com um registo daquelas que estão distantes dos olhares mais atentos para, no fundo, mesclar estas duas perspectivas e revelando para lá daquilo que estas personagens desejam, um lado mais distante do seu ser que se deixa levar por estes costumes fazendo-os perder-se nas noções pré-concebidas do seu "eu".
Entre a viagem profissional, o encontro místico e a descoberta pessoal, O Homem de Trás-os-Montes é, num estilo muito próprio, a revelação do "eu" e do "espaço" que se manifesta quando ambos de cruzam num percurso inesperado.
.
7 / 10
.
.

Nasci com a Trovoada: Autobiografia Póstuma de um Cineasta (2017)

.
Nasci com a Trovoada: Autobiografia Póstuma de um Cineasta de Leonor Areal é um documentário em formato de longa-metragem português presente na secção competitiva da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português, a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro e que, através de textos auto-biográficos e cartas pessoais é dado a conhecer ao espectador parte da vida e da obra do realizador Manuel Guimarães.
Por entre as suas preocupações sociais e uma intensa paixão pelo cinema que o acompanhou desde jovem idade, o espectador conhece a obra do realizador neo-realista da sua primeira à última obra enquanto, ao mesmo tempo, conhece compreende como a obra do mesmo foi alvo da atenta e apertada mão da censura e da PIDE durante a ditadura de Salazar.
Uma das primeiras frases proferidas em Nasci com a Trovoada: Autobiografia Póstuma de um Cineasta remete o espectador para um pensamento que acompanhou o realizador na maior parte da sua vida... "tenho 55 anos e sinto-me nervoso tal como quando era adolescente" fruto de uma sociedade que, dizia, tenta insistentemente enganá-lo (nos). As inseguranças e incertezas sobre o seu percurso, sobre a sua obra e o seu legado agudizadas pelo tempo social e político que se fazia sentir no Portugal de então, afectavam-no ao ponto de constantemente considerar a sua obra como algo menor... algo pouco explorado... pouco visto... pouco rentabilizado e suficientemente adulterado para, no final, pouco a considerar sua.
Da sua juventude no Porto enquanto estudante de Belas Artes às viagens a uma Lisboa que respirava (algum) cinema e onde tudo acontecia, Manuel Guimarães revela nos seus textos, cuidadosamente organizados de forma cronológica pela realizadora para a construção deste documentário, a tardia entrada para a Sétima Arte que tanto o fazia mover. Dos primeiros mestres cinematográficos que fizeram despertar a sua paixão de Eisenstein a Murnau, Guimarães recorda o filme O Garoto, de Charlie Chaplin como aquele que determinou todo o seu futuro enquanto cinéfilo e artista.
A sua paixão e vida com Clarice, que surgiu como sua musa ainda nos tempos de Belas Artes e que se tornou na companheira para a vida, os seus textos revelam ainda o trabalho que fez para Reinaldo Ferreira - o famoso Repórter X - para ilustrar a sua revista, no Palácio de Cristal no início da década de '30 por ocasião da Exposição Colonial aí realizada, o realizador assumia-se como um "populista e um revoluncionário" em toda a sua obra.
A sua primeira grande experiência no cinema dá-se com a elaboração de desenhos dos miúdos de Aniki-Bobó, de Manoel de Oliveira aplicando pela primeira vez os seus conhecimentos na obra Vidas sem Rumo (1956) - iniciada anos antes - sendo, pelo caminho, assistente de Arthur Duarte, Alberto Miranda ou Manoel de Oliveira. Foi a única que lhe deu algum lucro apesar de ter sido altamente escrutinada pela PIDE e, como tal, censurada para não apresentar tudo o que deveria.
Foi com Saltimbancos (1951) que deu os primeiros passos. A mesma obra que sofreu inúmeros problemas de produção e que parecia condená-lo a uma constante incerteza sobre o seu futuro. Afectada pelo mau tempo e pela falta de dinheiro, Saltimbancos foi, segundo o próprio uma obra "independente e amadora". É, no entanto, em 1952 que dirige Nazaré, obra sobre a comunidade piscatória da vila e no qual assume a sua vertente realista sendo, no entanto, uma obra "cara e difícil" que considera como o seu melhor filme e onde teve mais liberdade... independentemente dos tempos vividos. No entanto, Guimarães revela a sua solidão... a sua vontade de querer falar de coisas reais e que importassem... daquilo que afectava os portugueses sem, no entanto, poder fazê-lo limitando-se aos desejos de obras populares e de entretenimento... aquelas aceiteis e que lhe poderiam conferir dinheiro... aquelas em que não se sentia ele próprio e que, como tal, delas recusava fazer parte.
Dos insucessos da sua obra ao repúdio de colegas que não queriam trabalhar com o realizador por considerá-lo "maldito" ou "amaldiçoado" ao momento em que chega a direcção de A Costureirinha da Sé (1959), o seu maior desastre artístico e financeiro que o obrigaram a retomar a direcção de vídeos turísticos e comerciais... também eles fracassos comerciais que o impediam de entrar na televisão nacional.
D'O Crime da Aldeia Velha (1964) - hoje um clássico reconhecido - e suas respectivas dúvidas em envolver-se no projecto, Manuel Guimarães revela o seu esgotamento no início da produção do mesmo apesar das melhores condições técnicas e de trabalho que o introduziram no maior complexo fílmico de exteriores do país naquela que seria a sua interpretação sobre a tragédia do amor em busca da razão. Daqui a'O Trigo e o Joio (1965) obra quase imposta e que considerou um erro no seu percurso cinematográfico e que antes de concluir abandonou rumo a Itália onde fora usufruir de uma bolsa de estudo atribuída pela Fundação Calouste Gulbenkian... Aí pensa na vida e como considera não a ter aproveitado. Pensa no filho que pensa ter muitas ilusões e em vias de se preparar para a desilusão - a sua... a dele? - apesar do talento que lhe reconhece. Em Itália pensa no seu próximo projecto, uma história sobre a liberdade de uma mulher que imagina numa varanda que observa todos os dias. Liberdade essa que fica ensombrada com as notícias da morte de Humberto Delgado e com os impedimentos do Estado Português em ter o seu filme presente em Veneza.
A correspondência trocada com Fernando Namora é também analisada e uma sua futura colaboração questionada enquanto desabafa sobre si próprio, sobre a sua revolta interior fazendo denotar um certo desdém pela sua própria pessoa assumindo-se como triste e cansado. Revela a perda, a doença, a depressão e a proximidade do seu fim sempre com muita revolta. Fala na eventualidade de ver um neto, ou neta, e pinta para descontrair a mente como que um antídoto para os seus pensamentos. Pensa ainda num futuro que diz já não ir ter.
Com Lotação Esgotada (1972), sua obra "menor" e mais sarcástica, Guimarães assume-a como o resultado de todo o seu fracasso artístico até ao 25 de Abril, a liberdade finalmente conquistada com as gravações dos primeiros instantes no Largo do Carmo e com Virgílio Ferreira e o seu Cântico Final (1976) sente ter finalmente toda a liberdade de trabalho que sempre ambicionara ter e, apesar de não a considerar como a obra da sua vida... "muito faltava para tal", foi a obra protagonizada por Ruy de Carvalho, Curado Ribeiro, Ana Zanatti e Simone de Oliveira a última que viria a dirigir e a única feita em liberdade.
Com o recurso a imagens das suas obras, fotografias do seu arquivo e algumas escassas entrevistas que viria a dar já nos últimos anos da sua vida, Nasci com a Trovoada: Autobiografia Póstuma de um Cineasta é um registo da sua obra, do seu pensamento e principalmente de uma certa alma atormentada pela falta da liberdade que a sua criatividade fazia sentir. Com um constante sentimento anti-regime e uma superior linha condutora que liga liberdade ao processo criativo, o documentário de Leonor Areal retrata o homem e a obra, a forma como ambos se fundem e vivem em co-dependência e sobretudo o sinal dos tempos vividos e a sua directa influência sobre o realizador eternamente atormentado com a ideia de que a sua obra não são um importante legado para a arte e sobre os tempos que vivera.
Calmo e quase sempre a um passo tranquilo e muito próprio, o documentário de Leonor Areal conserva, no entanto, toda a agitação de uma mente oprimida e colhida pela ditadura mas sempre a funcionar com o propósito maior de filmar a verdade, a realidade e sobretudo o seu tempo.
.
7 / 10
.
.

Tocadora (2017)

.
Tocadora de Joana Imaginário é uma curta-metragem portuguesa de animação presente na secção competitiva da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português que hoje se inicia em Coimbra e irá decorrer até ao próximo dia 3 de Dezembro.
Entre o tempo e o esquecimento, Tocadora inicia com uma abordagem real à técnica da animação na qual se irá desenrolar a sua acção. Da inspiração dos mestres à criação, a arte da animação é aqui experimentada como que uma forma de livre expressão da sua criadora que imagina uma quebra entre o real e o imaginado deixando-se levar - em espírito - ao universo dessa animação que tende a criar. Embrenhando-se por um universo imaginado que acaba, no fundo, por ser aquele ao qual pretende dar vida, a criadora pega nos seus elementos e materiais dando forma a uma imaginação que se deixa levar por um tempo interrompido onde tudo voa e se exprime livremente longe de qualquer regra ou espaço temporal.
Tendo a criadora como uma personagem activa da sua própria história - afinal, como a poderia criar se uma sua parte não estivesse ali presente - Tocadora é assim uma animação pretendida na primeira pessoa e que se deixa levar pelas etapas do processo criativo.
Inteligente pela sua animação mas essencialmente o relato de um agradecimento pessoal e não tanto virada para o espectador, esta curta-metragem ainda que belíssima na sua componente animada, perde-se mais pelos meandros do "eu" do que propriamente na sua vertente de cinema que consiga chegar e alcançar o público com a sua mensagem. No entanto, e enquanto homenagem àqueles que inspiraram, de forma consciente ou não, a autora, Tocadora é uma bonita e inspirada nota de agradecimento aos mesmos.
.
5 / 10
.
.

domingo, 26 de novembro de 2017

Lisbon & Sintra Film Festival 2017: os vencedores

.
Foram ontem anunciados os vencedores da décima-primeira edição do LEFFEST - Lisbon & Sintra Film Festival que decorreu, entre outras, no Cinema Monumental, em Lisboa e no Centro Cultural Olga de Cadaval, em Sintra.
Foram os vencedores:
.
Selecção Oficial
Prémio Jaeger-LeCoultre - Filme: Tesnota, de Kantemir Balagov
Prémio Especial do Júri João Bénard da Costa: Cocote, de Nelson Carlo de los Santos Arias
Prémio Revelação: Olga Dragunova, Tesnota
Prémio do Público: Call Me by Your Name, de Luca Guadagnino
.
Prémios do Encontro Internacional de Escolas de Cinema
Curta-Metragem: Un Homme Mon Fils, de Florent Gouëlou (La Femis, Paris)
Menções Honrosas: Heimat, de Emi Buchwald (Polish National Film Television and Theater School) e Les Yeux Fermés, de Léopold Legrand, (Institut National Supérieur des Arts du Spectacle et des Techniques de Diffusion, Bélgica)
.

sábado, 25 de novembro de 2017

.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Anthony Harvey

.
1931 - 2017
.

João Ricardo

.
1964 - 2017
.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Dmitri Hvorostovsky

.
1962 - 2017
.

Sophia Estudante 2017: os nomeados

.
Foram há instantes anunciados os nomeados à quarta edição dos Sophia Estudante entregues anualmente pela Academia Portuguesa de Cinema a curtas-metragens saídas dos mais variados estabelecimentos de ensino.
Nas categorias de Ficção, Documentário, Animação e Experimental os nomeados são:
.
Ficção
Casas Caiadas, de Kyle Sousa (UCP Porto)
Estranho Amor, de João Silva Santos (Escola Superior Media Artes e Design)
Foi, de Vasco Reis Ruivo (Universidade Lusófona)
Íris, de Renato Arroyo (Universidade Lusófona)
Loop, de Manuel Caeiro (Escola Profissional de Val do Rio)
Snooze, de Dinis Leal Machado (Escola Superior Media Artes e Design)

Um Refúgio Azul, de João Lourenço (Escola Superior Artística do Porto)
.
Documentário
Camel Toe, de Alexandra Barbosa (Escola Artística Soares dos Reis)
Camel Toe, de Francisco Cortez (Escola Superior Artística do Porto)
Navegando pelas Águas do Lethes, de Mónica Cavaco (ETIC_Algarve)
Porque Foi Então que Te Roubaram o Mundo? Quem To Roubou?, de Inês Duarte (Escola Profissional e Artes, Tecnologias e Desporto)
Rumo à Onda Grande, de Eva de Wit (ETIC)
Sou, de Miguel Saraiva Braga (World Academy)
Vala ou Espaço entre o Ser e o Mundo, de Rodrigo Barroso (Escola Artística Soares dos Reis)
.
Animação
A Clarabóia, de Alícia Moreira (Instituto Politécnico do Cávado e Ave)
A Viagem, de João Monteiro, Luís Vital e Ricardo Livramento (Escola Superior de Tecnologia e Gestão - Portalegre)
Outro Ritmo, de Elton Fortes, Felix Lima, Pedro Ferreira e Tiago Nunes (Universidade Lusófona)
The Voyager, de João Gonzalez (Escola Superior Media Artes e Design)
Vozes ao Vento, de Elton Fortes, Felix Lima, Pedro Ferreira e Tiago Nunes (Universidade Lusófona)
Wanted, de Eduardo Inácio (ETIC)
.
Experimental
Bambara, de Ângela Silva (Escola Artística Soares dos Reis)
Blondes Make the Best Victims, de Rita Ventura (Escola Superior Media Artes e Design)
Brthr, de Inma Veiga (Escola Superior de Artes e Design)
Columbófilo, de Kopal Joshy (Universidade Lusófona)
La Boîte Rouge, de João Rodrigues (ETIC)
N, de Carolina Coelho (Universidade da Beira Interior)
Reminiscência, de Amélia Urbano, Beatriz Mota e Lúcia Pinto (Escola Superior Media Artes e Design)
.
Os vencedores serão conhecidos numa cerimónia a realizar no próximo dia 7 de Dezembro no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
.
.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Call Me by Your Name (2017)

.
Chama-me pelo Teu Nome de Luca Guadagninoé uma longa-metragem de co-produção entre Itália, França, Estados Unidos e Brasil presente na competição oficial da décima-primeira edição do Lisbon & Sintra Film Festival que decorre até ao próximo dia 26 de Novembro e que hoje foi exibida no Centro Cultural Olga de Cadaval, em Sintra.
No norte de Itália no Verão de 1983, Elio (Timothée Chalamet) de dezassete anos passa os dias na propriedade da família enquanto se dedica às actividades de um jovem da sua idade... escuta e toca música, insinua-se a Marzia (Esther Garrel) e vive uma aparentemente estável existência com os pais (Michael Stuhlbarg e Amira Casar) com quem celebra uma relação próxima e que lhe proporcionam uma formação académica "não oficial" que fazem dele um jovem com um conhecimento cultural acima da média.
No entanto, é quando Oliver (Armie Hammer), assistente do pai de Elio, chega à propriedade que ele irá finalmente compreender o que sente o seu coração, desenvolver a sua sexualidade e compreender o que é o amor e a perda.
Depois de Io Sono l'Amore (2009) e A Bigger Splash (2015), Luca Guadagnino chega com a adaptação da obra de André Aciman cujo argumento escrito por James Ivory leva o espectador a uma intensa viagem pelo início da década de '80 em Itália. Mas esta não é uma viagem qualquer... nem para as personagens de uma classe alta italiana nem tão pouco para o espectador preso a um ideal de amor "estabelecido" e aceite. Os instantes iniciais de Call Me by Your Name apresentam ao espectador uma tradicional história estival... da despreocupação natural da época aos serões passados em família e a receber amigos sem esquecer uma habitual preparação (parental) para um novo ano lectivo, todas as personagens desta história vivem tempos tranquilos naquele que pode ser considerado um paraíso perdido... um espaço idílico que celebra o convívio, uma certa adoração pela arte e pela cultura - não estivéssemos nós perante uma história que decorre em Itália, um "túmulo" vivo da própria História - que florescem no seio de uma despreocupação aparente. No entanto, tudo iria subitamente ser alterado com a chegada de uma nova (e esperada) personagem.
"Oliver" (Armie Hammer) é aqui o elemento da mudança. Essencialmente um promissor académico que vem não só disfrutar do espaço como auxiliar o "Prof. Pearlman" (Stuhlbarg), "Oliver" tem para com o espaço e aqueles que com ele co-habitam uma relação de indiferente apatia. O seu intuito é profissional e, podendo, aproveitar as maravilhas de uma região que é idílica. Se inicialmente o espectador o considera como alguém indiferente ou até mesmo frio e apático com o espaço e com as pessoas, cedo também surgem os pequenos sinais que o parecem fazer querer estar mais naquele espaço do que apenas por motivos profissionais. Os constantes passeios - desconhecidos em certa medida para o espectador - e a convivência com os nativos transformam-no (para o espectador uma vez mais) em alguém que não será, afinal, tão indiferente quanto as suas acções o parecem querer fazer. É então que surge a dinâmica com "Elio"...
Tanto "Elio" como "Oliver" estão essencialmente no chamado "início de vida"... Se para um os prazeres da dita já se começaram a provar, para um ainda jovem "Elio" que se encontra no tal "despertar" emocional, sexual e até sentimental, todos os comportamentos que lhe são naturais ou, até mesmo, aqueles que adquire por convivência e reprodução são uma novidade e a presença de "Oliver" por e para quem se mostra um interessado fazem do jovem "Elio" um curioso relativamente preparado para a experiência que lhe trará este Verão. Se a dinâmica entre ambos parece inicialmente condenada a residir apenas no campo da indiferença e de um certo desdém que, compreendemos mais tarde ser o resultado de uma frustração proveniente de um interesse mútuo não manifestado, acaba por ser a paixão pela cultura e pela arte - das ruínas das civilizações antigas de Itália à música que ambos admiram - que os aproxima e os faz olharem-se não como meros companheiros de casa mas sim como aquele alguém que irá manifestamente alterar as suas vidas fazendo daquilo que não se pode confessar o motivo para que troquem todas as confidências e sentimentos até então reprimidos.
Se o primeiro momento de Call Me by Your Name se dedicou quase exclusivamente a "Elio" como um jovem relativamente apático para quem tudo e nada são preocupações, é agora a sua dinâmica com "Oliver" que se transforma no elemento central desta história que - espera o espectador - terá tudo ou para resultar ou falhar sem barreiras. Da descoberta a uma aparente indiferença - qual jogo de dança com avanços e retrocessos -, "Elio" e "Oliver" aproximam-se e distanciam-se conforme as possibilidades que (pensam) surgem entre eles. Da Itália profundamente tradicional e onde persistem os valores de outros tempos à dinâmica de todo um novo mundo que se avizinha no seu futuro - ainda que este se mantenha distante - os dois cruzam uma etapa das suas vidas em que o amor (ou o seu despoletar) tem tanto de proibido como de apetecível e se para um este se traduz no despertar de um traço da sua personalidade que desconhecia ou, pelo menos, que tardava em reconhecer, para o outro é a confirmação de um sentimento nobre, talvez já há muito não sentido, e que agora está ali ao seu lado prestes a tudo experimentar, tudo sentir e possibilitando que tudo se proporcione.
Mas, se da dinâmica entre os dois se trata, no fundo, toda a história de Call Me by Your Name, é certo que o maior crescimento emocional se encontra do lado do "Elio" de Timothée Chalamet não só pela forma como o actor retrata não só o inicial conflito emocional que o divide entre "Marzia" e de seguida para com "Oliver" mas principalmente pelo seu ritual de descoberta e pela silenciosa dinâmica que mantém com os seus pais conhecedores da sua transformação emocional mas que o acompanham passo a passo incentivando e promovendo esse crescimento sem um julgamento ou condenação. Aliás, se toda esta longa-metragem mostra essa mesma evolução sentimental de "Elio", são os minutos finais junto do seu pai que lhe conferem toda um poder dramático capaz de fazer valer todo um filme que, já de si, se afirma como um dos emocionalmente mais intensos do ano.
Call Me by Your Name é assim uma história de descoberta sentimental, do tal primeiro e verdadeiro amor que, independentemente de poder terminar ou não da melhor forma, se assume como aquele detentor de todo um poder transformador que perdurará na memória e que assumirá a responsabilidade pelas mais profundas marcas emocionais e sentimentais. Aquele que irá perdurar como o que deixou as referências de um sentimento difícil de se poder reencontrar mas que possibilitou a experiência de o reconhecer quando e se alguma vez se voltar a repetir. Mas, ao mesmo tempo, Call Me by Your Name é ainda a confirmação não de uma história onde a homossexualidade é fruto de uma qualquer relação amargurada ou rodeada de todo um conjunto de regras nocturnas de um qualquer submundo mas sim uma história firmada no seio de uma família onde reina a confiança, o amor, a entrega e a partilha de todo um conjunto de sentimentos que, independentemente de não serem proferidos são sentidos como uma presença constante. "Elio" incapaz de proferir os seus reais sentimentos no seu seio familiar sente que, sem o confirmar, tem o apoio dos seus pais que implicitamente com uma presença ou uma conversa mais franca onde tudo se esclarece, estão do seu lado prontos para amá-lo e ampará-lo quando e se o necessitar. Call Me by Your Name, sem recorrer ao gratuito ou a um qualquer submundo, confirma que as histórias de amor no cinema não estão apenas direccionadas para um público heterossexual mas também para o público homossexual, com histórias e finais (mais ou menos) felizes e capaz de agradar a todo um grande público afirmando-se sim, como um dos grandes filmes do ano.
Da Itália tradicional - ou tradicionalista - onde ainda persistiam as inúmeras referências aos valores familiares "correctos" instaurados pelo regime pré-guerra, Call Me by Your Name transporta o amor como o valor primordial e essencial nas relações humanas. Seja o amor familiar, aquele que perdurará entre amigos que partilham todo um conjunto de momento cúmplices ou até mesmo entre o tal primeiro - e talvez único - grande amor, esta história vai para lá de qualquer estigma permitindo ao espectador observar esse conto sobre o amor... O amor que inicialmente se estranha, que depois até se repele mas com o qual finalmente não se consegue passar sem ele. O amor que os faz (re)conhecer-se, que os impele a passar todo o seu tempo juntos e no qual se depositam todas as mais íntimas confidências sabendo que não existirá no seu seio qualquer tipo de julgamento. Call Me by Your Name é assim uma verdadeiro celebração ao mais nobre de todos os sentimentos.
Para lá de toda uma reconstituição história de época irrepreensível graças ao magnífico toque de um dos mais intensos realizadores italianos do momento, Call Me by Your Name é também a confirmação de um notável conjunto de actores entre os quais se destacam, obviamente, Timothée Chalamet, Armie Hammer e Michael Stuhlbarg. Se a dinâmica sentimental entre os dois primeiros é aquela esperada de uma relação afectiva que se descobre, desenvolve e cimenta, é aquela sentida entre o "Elio" de Chalamet e o seu pai interpretado por Stuhlbarg que se destaca. Nestas histórias centradas na confirmação de um amor homossexual, o espectador está tradicionalmente habituado a assistir aos inúmeros conflitos familiares que passam desde o repúdio ao abandono encontrando, no entanto, aqui uma história de profunda e extrema dedicação entre os dois. A descoberta de "Elio" e a certeza do seu pai de que independentemente de qualquer sentimento que ele manifestasse estaria sempre ao seu lado disposto a apoiar o filho em todas as suas cruzadas é, no mínimo, desarmante e talvez o momento que mais facilmente puxa pela lágrima do espectador.
Call Me by Your Name é assim a confirmação de uma das mais intensas histórias dramáticas e de amor do ano. Uma história capaz de impulsionar o género romântico afastando o drama mais fácil e esperado confirmando que o amor - primeiro e verdadeiro - pode permanecer para sempre na vida daqueles que arriscam experimentá-lo e por ele se deixar guiar independentemente das consequências que chegam àqueles que o quiseram sentir. Sem querer recorrer ao lugar comum que é, no entanto, aqui imprescindível mas... Call Me by Your Name é um clássico confirmado e intemporal.
.

.
"Mr. Perlman: We rip out so much of ourselves to be cured of things faster than we should that we go bankrupt by the age of thirty and have less to offer each time we start with someone new. But to feel nothing so as not to feel anything - what a waste!"
.
10 / 10
.
.

David Cassidy

.
1950 - 2017
.

Film Independent Spirit Awards 2018: os nomeados

.
Foram hoje anunciados os nomeados aos Independent Spirit Awards destacando Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino, The Florida Project, de Sean Baker, Get Out, de Jordan Peele, Lady Bird, de Greta Gerwig e The Rider, de Chloé Zhao como os cinco candidatos ao troféu de Melhor Filme.
São os nomeados:
.
Melhor Filme
Call Me by Your Name, de Luca Guadagnino
The Florida Project, de Sean Baker
Get Out, de Jordan Peele
Lady Bird, de Greta Gerwig
The Rider, de Chloé Zhao
.
Melhor Primeira Obra
Columbus, de Kogonada
Ingrid Goes West, de Matt Spicer
Menashe, de Joshua Z. Weinstein
Oh Lucy!, de Atsuko Hirayanagi
Patti Cake$, de Geremy Jasper
.
Prémio John Cassavettes
Dayveon
, de Amman Abbasi
A Ghost Story, de David Lowery
Life & Nothing More, de Antonio Méndez Esparza
Most Beautiful Island, de Ana Asensio
The Transfiguration, de Michael O'Shea
.
Melhor Documentário
The Departure, de Lana Wilson
Motherland, de Ramona S. Diaz
Quest, de Jonathan Olshefski
De Sidste Mænd i Aleppo, de Firas Fayyad, Steen Johannessen e Hasan Kattan
Visages, Villages, de JR e Agnès Varda
.
Melhor Filme Internacional
120 Battements par Minute, de Robin Campillo (França)
I Am Not a Witch, de Rungano Nyoni (Reino Unido/França/Alemanha)
Lady Macbeth, de William Oldroyd (Reino Unido)
Nelyubov, de Andrey Zvyagintsev (Rússia)
Una Mujer Fantástica, de Sebastián Lelio (Chile)
.
Melhor Realizador
Sean Baker, The Florida Project
Jonas Carpignano, A Ciambra
Luca Guadagnino, Call Me by Your Name
Jordan Peele, Get Out
Benny Safdie e Josh Safdie, Good Time
Chloé Zhao, The Rider
.
Melhor Actor Protagonista
Timothée Chalamet, Call Me by Your Name
Harris Dickinson, Beach Rats
James Franco, The Disaster Artist
Daniel Kaluuya, Get Out
Robert Pattinson, Good Time
.
Melhor Actriz Protagonista
Salma Hayek, Beatriz at Dinner
Frances McDormand, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
Margot Robbie, I, Tonya
Saoirse Ronan, Lady Bird
Shinobu Terajima, Oh Lucy!
Regina Williams, Life and Nothing More
.
Melhor Actor Secundário
Nnamdi Asomugha, Crown Heights
Armie Hammer, Call Me by Your Name
Barry Keoghan, The Killing of a Sacred Deer
Sam Rockwell, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
Benny Safdie, Good Time
.
Melhor Actriz Secundária
Holly Hunter, The Big Sick
Allison Janney, I, Tonya
Laurie Metcalf, Lady Bird
Lois Smith, Marjorie Prime
Taliah Lennice Webster, Good Time
.
Melhor Argumento
Greta Gerwig, Lady Bird
Azazel Jacobs, The Lovers
Martin McDonagh, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
Jordan Peele, Get Out
Mike White, Beatriz at Dinner
.
Melhor Primeiro Argumento
Kris Avedisian, Kyle Espeleta e Jesse Wakeman, Donald Cried
Emily V. Gordon e Kumail Nanjiani, The Big Sick
Ingrid Jungermann, Women Who Kill
Kogonada, Columbus
David Branson Smith e Matt Spicer, Ingrid Goes West
.
Melhor Montagem
Ronald Bronstein e Benny Safdie, Good Time
Walter Fasano, Call Me by Your Name
Alex O’Flinn, The Rider
Gregory Plotkin, Get Out
Tatiana S. Riegel, I, Tonya
.
Melhor Fotografia
Thimios Bakatakis, The Killing of a Sacred Deer
Elisha Christian, Columbus
Hélène Louvart, Beach Rats
Sayombhu Mukdeeprom, Call Me by Your Name
Joshua James Richards, The Rider
.
Prémio Robert Altman: Mudbound, Dee Rees (realizadora), Billy Hopkins e Ashley Ingram (directores de casting) e Jonathan Banks, Mary J. Blige, Jason Clarke, Garrett Hedlund, Jason Mitchell, Rob Morgan e Carey Mulligan (elenco)
.
Prémio Bonnie:
So Yong Kim, Lynn Shelton e Chloé Zhao
.
Prémio Truer than FictionShevaun Mizrahi, Distant Constellation
Jonathan Olshefski, Quest
Jeff Unay, The Cage Fighter
.
Someone to Watch Award

Amman Abbasi, Dayveon
Justin Chon, Gook
Kevin Phillips, Super Dark Times
.
Producers Award:
Giulia Caruso e Ki Jin Kim, Ben LeClair e Summer Shelton
.
Os vencedores serão anunciados numa cerimónia a realizar a 3 de Março de 2018, na Califórnia.
.
.

Producers Guild of America Awards 2017: Documentários nomeados

.
Foram hoje divulgados os nomeados aos Producers Guild of America Awards na categoria de Documentário Longa-Metragem estando estes na linha da frente para a nomeação para o Oscar na respectiva categoria.
São os nomeados:
.
Documentário Longa-Metragem
Chasing Coral, de Jeff Orlowski
City of Ghosts, de Matthew Heineman
Cries from Syria, de Evgeny Afineevsky
Earth: One Amazing Day, de Richard Dale, Lixin Fan e Peter Webber
Jane, de Brett Morgen
Joshua: Teenager vs. Superpower, de Joe Piscatella
The Newspaperman: The Life and Times of Ben Bradlee, de John Maggio
.
Os vencedores desta categoria bem como em Ficção - cujos nomeados serão anunciados no próximo dia 5 de Janeiro - serão conhecidos na cerimónia a realizar no Beverly Hilton Hotel a 20 de Janeiro de 2018.
.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Bragacine - Festival Internacional de Cinema Independente de Braga 2017: os vencedores

.
Decorreu nos passados dias 17 e 18 de Novembro a décima-quinta edição do Bragacine - Festival Internacional de Cinema Independente de Braga, no Minho tendo atribuído os seus anuais prémios Augusta.
Foram os vencedores:
.
Grande Prémio Bragacine: Posoki, de Stephan Komandarev
Filme Português: Treblinka, de Sérgio Tréfaut
Documentário: Resiste BA-61!, de Paulo César Fajardo
Curta-Metragem: Placidez, de Luís Miranda
Produtor: Crooked House, de Gilles Paquet-Brenner
Escola: Ciências da Comunicação - ICS - Universidade do Minho
Realizador: Emily Harris e Ate de Jong, Love Is Thicker Than Water
Actor: Josh Brolin, Only the Brave
Actriz: Carla Chambel, Êxodo
Carreira: Carla Chambel
.
.

How to Talk to Girls at Parties (2017)

.
How to Talk to Girls at Parties de John Cameron Mitchell é uma longa-metragem de co-produção norte-americana e britânica e a mais recente obra do realizador de Hedwig and the Angry Inch (2001) e Rabbit Hole (2010).
No submundo punk da Londres do final da década de '70, Enn (Alex Sharp) e os amigos tentam encontrar uma festa organizada por Queen Boadicea (Nicole Kidman). Ao chegarem a uma casa onde um grupo de alienigenas se reúne para uma festa de despedida do planeta Terra, Enn conhece Zan (Elle Fanning) por quem sente uma química imediata. No entanto, Enn está longe de imaginar que este grupo de estranhos "estudantes americanos" se prepara para um misterioso rito de passagem...
A expectativa de reencontrar uma colaboração entre Cameron Mitchell e Nicole Kidman era grande. Grande ao ponto de esperar desta obra cujo argumento é assinado pelo próprio realizador e por Philippa Goslett baseado no conto da autoria de Neil Gaiman e com uma abordagem a um período sempre fascinante da História contemporânea britânica se transformasse numa das referências deste ano. No entanto se a temática oscila entre o enigmático e a comédia podendo facultar ao espectador uma experiência cinematográfica diferente... aquilo que no final se regista é que esta comédia o é... mas não pelos melhores motivos.
How to Talk to Girls at Parties dá início à sua odisseia - mesmo que desastrosa - com um pequeno espectáculo digital onde os efeitos especiais reinam. Se o espectador pensa que este poderá vir a ser um dos trunfos desta longa-metragem, cedo compreende que eles mais não são do que uma amostragem dos pequenos clãs extraterrestres que irão brindar o ecrã com a sua presença. Dos seus clãs que mais tarde descobriremos serem representações de qualidade mais ou menos humanas (afinal todos têm um pouco de inteligência, motivação, etc etc etc...), saberemos também que nenhum deles apresenta o coração que falta à sua expedição inter-galáctica. Da satisfação das mais básicas necessidades não humanas à celebração de uma humanização da diferença, How to Talk to Girls at Parties tenta criar a "raça" perfeita ao criar a primeira relação entre espécies em Terra e comprovar que a diferença - dentro ou fora do planeta - deve ser celebrada e não repudiada ou antagonizada.
É então que chegamos ao momento punk... ou pelo menos àquele que aqui seria tentado. Se é certo que a longa-metragem de John Cameron Mitchell tenta explorar um pouco desta temática apresentando nas suas personagens um certo descontentamento pela sociedade actual - da altura - em que a juventude dos '70 se tentava demarcar não só da ordem imposto como moralmente correcta como também dos idos '60 em que o optimismo hippie não resultou enquanto "fundador" de uma nova sociedade, é também certo que How to Talk to Girls at Parties falha na medida em que ridiculariza os objectivos de toda uma geração que aqui são praticamente - senão totalmente - inexistentes. Ainda que exista alguma necessidade de explorar o lado violento (ou desobediente) da juventude - qual delas não o é?! - e que a expressão ou interacção entre as personagens seja essencialmente feita à base de um código de indiferença, ridicularização e até mesmo pelo uso dessa esperada violência, How to Talk to Girls at Parties tudo transforma num conjunto de momentos pré-fabricados onde esse desprezo pelo imposto está presente mas, no entanto, aqueles que lhe desobedecem caem não só nas manhas de um conjunto de sentimentos pacifistas - o amor, a comunhão ou até mesmo a cumplicidade - que são essencialmente esperados pela dita "ordem" que tanto juram repudiar.
Se isto não fosse suficiente para classificar esta longa-metragem como uma obra tão estranha como as suas personagens o são, é a excessiva semelhança a Hedwig and the Angry Inch (2001) que o transforma numa (não) sequela transferida de Berlim para Londres onde apenas escapa a componente de recriação de época. As personagens estão estereotipadas, os valores adulterados e a esperança num mundo melhor... nunca mais chega. Se "Enn" e os seus amigos mais não são do que um conjunto de adolescentes iguais àqueles de uma qualquer outra época, justo será dizer que os pouco icónicos extraterrestres conseguem consumar o nível de absurdo de toda esta história... Dos seus aspectos aos rituais pseudo-canibalísticos que defendem sem esquecer o desdém por uma sociedade que considerem menos evoluída mas que apresenta valores maiores - ainda que não cumpridos - ou o eterno estigma de que os terrestres mais não são do que passíveis receptáculos de um qualquer abuso sexual que satisfaça as necessidades "superiores" de uma raça que também o é, How to Talk to Girls at Parties centra todo um conjunto de elementos que levam o espectador a rir do resultado final... mas não pelos melhores motivos.
Perdida a esperança de que esta longa-metragem seja uma análise, mesmo que cómica, do movimento punk em que se analisa uma época pelos olhos daqueles que apenas a vislumbraram à distância, How to Talk to Girls at Parties transforma essa raça superior "vinda de longe" numa analogia parental para com as personagens terrestres como os inesperados "diferentes" que o poder paternal não consegue compreender. Se a isto juntarmos a explícita vontade de classificar os terrestres como exploradores de um planeta que definha com o passar dos anos então Cameron Mitchell conseguiu ainda filmar uma improvável história ambiental como que um aviso para as gerações futuras... "vocês comem tudo que um dia acabam por comer-se a vocês próprios"...
Como momento positivo destas quase das horas de cinema "alternativo" temos então a já referida reconstituição de época dos bairros e lares operários dos arredores londrinos às grandes mansões desertificadas fruto de uma época de colapso económico passando pelos trajes a maquilhagens característicos de uma geração em revolta sem esquecer, claro está, o excêntrico guarda-roupa quer de terrestres quer dos "extra" ambos futuristas - nem sempre pelos melhores motivos - para uma época em constante transformação.
De uma Elle Fanning nem sempre bem aproveitada - afina, para ser superior anda muito perdida - a um Alex Sharp em modo "o que estou aqui a fazer", são os secundários como Nicole Kidman como "Queen Boadicea" ou AJ Lewis como "Vic" que melhor encarnam não só o espírito de uma época como as personagens mais centradas deste conto e, no fundo, com mais sentido ou conteúdo numa história que se perde e atropela a cada minuto que passa transformando este tão esperado How to Talk to Girls at Parties naquilo que vulgarmente se poderia apelidar de um perfeito desastre. Ainda que se tenha tentado conferir-lhe uma alma (a filme e a personagens), esta perdeu-se tão ou mais depressa do que o sentido da obra nesse tal Universo que ninguém sabe quando ou onde (se é que) termina.
.

.
4 / 10
.
.

Tous les Rêves du Monde (2017)

.
Todos os Sonhos do Mundo de Laurence Ferreira Barbosa é uma co-produção luso-francesa com o selo de Paulo Branco exibida no Centro Cultural Olga de Cadaval decorrer da décima-primeira edição do Lisbon & Sintra Film Festival que decorre até ao próximo dia 26 de Novembro.
Paméla (Paméla Constantino-Ramos) é uma jovem de 18 anos filha de emigrantes portugueses em França. Com muitos sonhos mas poucos objectivos concretos na vida, Paméla tem apenas como paixões a patinagem no gelo, tocar piano e as viagens que faz a um saudoso Portugal que visita duas vezes ao ano. Num limbo entre a idade jovem e os anos enquanto adulta, entre França e Portugal e as certezas e incertezas que toda esta descoberta comporta, Paméla tem ainda de descobrir o mais importante... o seu próprio rumo.
A realizadora e Guillaume André escrevem este belíssimo argumento centrado na figura da jovem "Paméla". Dos dias em que a sua vida se prepara para uma mudança radical abraçando a tal idade adulta que tantas dúvidas e incertezas tráz, "Paméla" vive na sombra de uma família conservadora que a ama e todos aqueles sonhos de menina que, de uma ou outra forma, vão forçosamente desvanecendo materializando-se uns e dissipando outros naquela imaginação de uma criança que... já não é.
Os primeiros momentos desta jovem magnificamente interpretada por uma Paméla Constantino-Ramos, apresentada como actriz amadora mas cheia de uma garra invulgar para um primeiro desempenho cinematográfico, levam a que o espectador a acompanhe nos seus instantes enquanto estudante finalista com problemas em libertar-se daquele último ano escolar. Vítima de um complexo para com o eterno rótulo de "filha de emigrantes", "Paméla" é por um lado aconselhada a seguir a via profissional e, por outro, vive o sonho dos pais em se formar na escola dita "normal" não podendo de qualquer forma desapontá-los nesse objectivo. Ao mesmo tempo que reencontra "Kevin" (Alexandre Prince), um velho companheiro de escola que se sente atraído por ela, prepara-se ainda para regressar de férias a Portugal onde irá reunir-se com toda a família mas sem passar por Lisboa que tanto anseia conhecer.
Lentamente, na França que a viu nascer bem como mais tarde no Portugal em que encontra as suas origens e raízes, "Paméla" transforma-se, perante o seu silêncio e normal fechar de olhos dos seus pais, na jovem mulher que inevitavelmente é. A confirmação de que vive dividida entre dois países e dois mundos, uma família e a sua independência, a escola e um eventual trabalho ou até mesmo a solidão e um potencial namoro que lhe batem à porta são todos elementos desta transformação pela qual "Paméla" atravessa e que, privada de alguém próximo com quem compartilhar estes momentos, os enfrenta sózinha mas de pulso firme e com uma vontade natural de se afirmar. "Paméla" é, em última análise, uma jovem pré-adulta que tem de começar a tomar as suas escolhas, decidir os seus gostos e firmar os seus objectivos ainda que, muitos deles, possam diferir daqueles naturalmente impostos por uma família que só quer o seu melhor.
Perdida entre amores e desamores, amizades perdidas e agora reconquistadas, um país de origem e outro no qual se sente realmente em casa, numa família que apenas quer o seu melhor mas que esquece (por amor) os seus próprios desejos e vontades, é então "Paméla" aquela que realmente atravessa toda uma época de transformações e auto-conhecimento que não avisaram que chegariam mas que se impuseram esperando uma resposta que ela seria forçada a dar. Presa a uma imagem de menina, esta jovem mulher tem agora que finalmente decidir pela sua própria vontade mesmo contra a vontade daqueles com quem co-habita ou qualquer amizade que possa eventualmente ter. Longe de ser a menina perfeita na escola ou mesmo de desejar ter o eterno rótulo de "capaz para o ensino profissional" vulgarmente atribuído aos "segunda geração", "Paméla" terá de definir o que realmente quer... ser a eterna criança por e sobre quem todos os demais decidem ou perder-se por todos os sonhos do (seu) mundo?... Ou, pelo menos, por alguns deles... (impedido está o espectador de também compreendê-los ao observar quais os momentos aos quais ela verdadeiramente se dedica... desde a patinagem ao cinema sem esquecer a música e, aparentemente, o mundo das artes ou tão bem parece enquadrar-se...).
Se Ferreira Barbosa e Guillaume André criam esta história de auto-afirmação e descoberta ao qual o espectador se dedica com gosto e se se encontram aqui jovens talentos dos quais certamente muito ainda se escutará como, por exemplo, Alexandre Prince com o seu humor desarmante, David Murgia que com o seu "Jérémy" marca pela irreverência ou mesmo Lola Vieira que se assume como a secundária de peso junto da protagonista é, no entanto, a Paméla Constantino-Ramos que o mesmo espectador se rende. Actriz amadora - tal como fora apresentada (e os demais) no início da sessão -, Constantino-Ramos é dona de uma sensibilidade extrema que torna a sua personagem ora frágil ora determinada, ora sonhadora ora detentora de muitas certezas - o momento na clínica de aborto é disso exemplo -, e todos os momentos que lhe são dados enquanto protagonista para presentear o ecrã com a sua presença são, eles próprios, dotados de uma qualquer magia que a sua candura transmitem. Portuguesa, Francesa ou Europeia, Constantino-Ramos (com os desempenhos certos), será certamente uma actriz a fixar não só pelo seu talento como também beleza, de quem se deverá esperar pela próxima entrega enquanto actriz.
Tous les Rêves du Monde - da realizadora, da protagonista ou até mesmo do espectador - é assim uma história sobre a mudança. Aquela mudança que é forçada e que espera sem que por ela se dê conta. Uma mudança pela qual todos atravessamos ao abandonar aquela idade em que tudo é possível mas na qual se começam a sentir o peso das responsabilidades, das escolhas e do eterno vínculo ao qual, pelo decidir, todos ficamos condicionados. Emotivo, realista, por vezes documental mas assumidamente poético, a beleza de Tous les Rêves du Monde assume-se pela forma transversal com que abraça todos os géneros, sem pretensões para lá daquela de contar uma belíssima história com a qual o espectador se possa identificar, emocionar e até mesmo sorrir.
.

.
9 / 10
.
.

domingo, 19 de novembro de 2017

Della Reese

.
1931 - 2017
.

Peter Baldwin

.
1931 - 2017
.

NAACP Image Awards 2017: os nomeados

.
Foram hoje anunciados os nomeados anuais aos NAACP Image Awards nos Estados Unidos. A nomeação para Melhor Filme do ano recaiu sobre Detroit, Get Out, Girls Trip, Marshall e Roman J. Israel, Esq..
São os nomeados:
.
Melhor Filme
Detroit, de Kathryn Bigelow
Get Out, de Jordan Peele
Girls Trip, de Malcolm D. Lee
Marshall, de Reginald Hudlin
Roman J. Israel, Esq., de Dan Gilroy
.
Melhor Filme Independente
Detroit, de Kathryn Bigelow
Last Flag Flying, de Richard Linklater
Mudbound, de Dee Rees
Professor Marston and the Wonder Women, de Angela Robinson
Wind River, de Taylor Sheridan
.
Melhor Documentário
I Called Him Morgan, de Kasper Collin
STEP, de Amanda Lipitz
Tell Them We Are Rising: The Story of Black Colleges and Universities, de Stanley Nelson
The Rape of Recy Taylor, de Nancy Buirski
Whose Streets?, de Sabaah Folayan e Damon Davis
.
Melhor Realizador
Dee Rees, Mudbound
Jordan Peele, Get Out
Malcolm D. Lee, Girls Trip
Reginald Hudlin, Marshall
Stella Meghie, Everything, Everything
.
Melhor Actor
Algee Smith, Detroit
Chadwick Boseman, Marshall
Daniel Kaluuya, Get Out
Denzel Washington, Roman J. Israel, Esq.
Idris Elba, The Mountain Between Us
.
Melhor Actriz
Amandla Stenberg, Everything, Everything
Danai Gurira, All Eyez on Me
Halle Berry, Kidnap
Natalie Paul, Crown Heights
Octavia Spencer, Gifted
.
Melhor Actor Secundário
Idris Elba, THOR: Ragnarok
Laurence Fishburne, Last Flag Flying
Lil Rel Howery, Get Out
Nnamdi Asomugha, Crown Heights
Sterling K. Brown, Marshall
.
Melhor Actriz Secundária
Audra McDonald, Beauty and the Beast
Keesha Sharp, Marshall
Regina Hall, Girls Trip
Tessa Thompson, THOR: Ragnarok
Tiffany Haddish, Girls Trip
.
Melhor Interpretação Vocal
David Oyelowo, The Lion Guard
Kerry Washington, Cars 3
Loretta Devine, Doc McStuffins
Tiffany Haddish, Legends of Chamberlain Heights
Yvette Nicole Brown, Elena of Avalor
.
Melhor Argumento
Dee Rees e Virgil Williams, Mudbound
Emily V. Gordon e Kumail Nanjiani, The Big Sick
Jordan Peele, Get Out
Kenya Barris e Tracy Oliver, Girls Trip
Mark Boal, Detroit
.
.

sábado, 18 de novembro de 2017

It Comes at Night (2017)

.
Ele Vem à Noite de Trey Edward Shults é uma longa-metragem norte-americana cujo argumento da autoria do próprio realizador remete o espectador para um tempo incerto onde a desolação, o medo e a existência de uma praga desconhecida remetem Paul (Joel Edgerton) e a sua família para o seio de uma floresta onde sobrevivem isolados do mundo exterior graças a uma ordem e um ritual ao qual se auto-impuseram para se refugiaram de um perigo que espreita para lá do desconhecido.
No entanto, é quando chega Will (Christopher Abbott) e a sua família que todos são colocados à prova, deixando-se consumir por esse desconhecido e pelo medo irracional que o mesmo impõe no seio de todos, fazendo-os temer não só o que se encontra para lá das suas novas fronteiras como principalmente aquilo com que se deparam dentro da sua própria casa.
It Comes at Night não poderia ter chegado em melhor altura. Num momento histórico e político em que se suspeita de tudo e de todos e que se criam medos e resistências para lá do imaginável sobre o que se esconde para lá do nosso próprio campo de visão, a longa-metragem de Trey Edward Shults chega primeiro como uma fria análise sobre os comportamentos humanos neste século XXI como também uma feita àquilo que esconde a irracionalidade daqueles que são (foram) os homens ditos de bem.
À excepção de todo um clima tenso e de suspeito que afecta todos as personagens de It Comes at Night de uma forma geral, são os pequenos e muito breves momentos em que a vida parece finalmente começar a "correr bem" dentro da catástrofe que o espectador pode analisar de forma mais fiel aquilo que são, no fundo, os comportamentos e o fundamental da personalidade dos membros destas duas famílias. Se a suspeita mina a inicial relação entre os dois homens - Edgerton e Abbott -, é a sua convivência que os transforma em improváveis aliados nestes (agora) tempos de crise onde a união faz, literalmente, a força. De potenciais inimigos a uma dupla que une duas famílias, a suspeita chega quando os comportamentos de alguns fazem ameaçar o bem-estar de todos e, por consequência, o estado de saúde que pode ser facilmente ameaçado por esse "vírus" que ameaçou - e talvez até tenha eliminado - a Humanidade. Deste vírus pouco sabemos. Aliás, o único elemento que nos chega do mesmo são os breves "rumores" de que falam sobre o seu aparecimento e, ainda que nada seja revelado dos seus efeitos, aquilo do qual o espectador tem conhecimento é, no fundo, os breves efeitos físicos que algumas destas personagens denotam no decorrer do seu relato. Sabemos que se propaga pelo ar e apenas de noite - eis a sugestão do título - mas claramente não a todos os humanos... e pouco sabemos da vida animal aparentemente não afectada pelo mesmo. Sabemos que existe alguma vida (talvez) inteligente nos poucos humanos que parecem resistir mas não onde se encontram ou em que condições para lá da óbvia militarização dos mesmos. No entanto, é no seio deste pequeno grupo de seis membros que residem os elementos importantes de It Comes at Night.
O perigo exterior está, obviamente, já mencionado; o vírus. No entanto, e voltando um pouco atrás no relato, é a suspeita que surge entre as famílias que reside o mais importante. Em condições ditas normais e nas quais a sociedade funciona com os mecanismos de segurança e protecção assegurados, a suspeita de uma infecção, de uma doença, de um contágio ou até mesmo de uma pandemia colocaria todos sobre-aviso e com atenção para os pequenos sinais de alarme. Aqui, onde tudo aparenta ter falido e onde a sociedade - então como a conheceram - já não existe, são as pequenas suspeitas dentro do grupo que marcam o tom e o passo dos destinos de todos. Permitir que um estranho - por muito próximo que com ele agora se esteja - continue a residir no espaço que é "meu" ou, por sua vez, eliminar este invasor de quem, na prática, nada se conhece? Esta decisão, agora fulcral, poderá manter o espaço livre de qualquer elemento potencialmente perigoso que, pela força ou pelo uso dos recursos (para os quais também contribuiu) tente dominar e controlar e, dessa forma, manter a sua superioridade, é aquela que irá num instante dominar a mente de todos... e num mundo (agora) dominado pelo medo, quem tem mais poder controla não só os recursos como todos aqueles que circulam ao seu redor. E It Comes at Night é sobre isto mesmo... a irracionalidade, a percepção do poder como forma de sobrevivência e o encontrar nos demais o tal "outro" que pode pôr a causa a existência do meu "eu".
No meio desta análise sobre a irracionalidade e sobre a suspeita existe ainda a simbologia presente mais ou menos explícita de It Comes at Night começando pelo mais óbvio e que é, no fundo, um dos principais elementos da "segurança" de todos... a porta vermelha. Depois de ver It Comes at Night, o espectador começa involuntariamente a pensar no que observara nomeadamente sobre o referido mundo exterior... Nunca são confirmados detalhes do que está para lá das árvores ou da floresta, nem mesmo quando "Paul" e "Will" são confrontados com alguns desconhecidos que os tentam eliminar... Aliás, o único destes sobreviventes é instantaneamente eliminado por "Paul" impedindo-os de obter respostas sobre o mundo tal como o conheceram, levantando - de imediato - uma questão pertinente sobre a existência ou não do mesmo ou, por sua vez, será que nos encontramos nalguma "real" realidade e não num subterfúgio onde mentes perdidas passaram a residir como se de um novo purgatório se tratasse.
Ainda que esta ideia de purgatório parece conflituosa - para o espectador - e até mesmo improvável dada, por exemplo, a necessidade de encontrar alimentos para subsistir ou mesmo água, a realidade é que a existência da já referida porta como garantia de uma segurança face ao desconhecido perde-se quando, arbitrariamente e sem aparente conhecimento de nenhum dos resistentes, "Stanley", o cão de "Paul" é brutalmente ferido por... ninguém... regressando à casa depois de um misterioso desaparecimento ao encontrar "algo" nesse tal horizonte desconhecido para lá das árvores da floresta. Rapidamente, e sem grandes demoras, aquilo que assola a mente do espectador é, por um lado, estar perante um cenário macabro onde já nada existe além da porvir tomada de consciência de alguém que já não é, ou seja, almas que ficaram retidas nesse purgatório à espera de compreenderem a sua extinção ou, num cenário mais negro e catastrófico esta extinção confirmou-se e aquilo que existe é o nada - daí nunca ser vislumbrado pelos intervenientes - deixando apenas a estas personagens a capacidade de reproduzirem pelas suas expressões a incredulidade e a desconfiança face a tudo o que vêem "à sua frente". Se o "nada" consegue ganhar forma... então é esse mesmo "nada" que por eles é observado.. quão assustador será?!
Mas, no final, e sem visões mais ou menos românticas (ou esperadas) desse fim não anunciado, aquilo que permanece com mais firmeza na mente do espectador é a irracionalidade dos homens normais. A irracionalidade que se apodera do mesmo quando em tempo de crise... tempos de incertezas, de faltas de segurança, dos medos face a um (im)provável desconhecido, face ao "outro" e até mesmo a propósito dos "meus" que, no risco de serem afectados por esse mal desconhecido, se transformam também eles em alvos do meu medo e, como tal, elementos que precisam ser eliminados em nome da minha segurança que é, pela falta de recursos e da minha própria desumanização, cada vez menos.
Em It Comes at Night residem ainda três pilares fundamentais... Edgerton como o pai de família que tenta sobreviver com a mesma mantendo tudo o que é exterior à sua casa trancado... Trancado metaforicamente uma vez que é o próprio que se isola dentro de uma casa deixando todo o demais mundo - ou o que dele existe - fora de portas. Forte, letrado e no antigo mundo talvez um homem incapaz de manter um trabalho mais físico, é ele que agora domina o meio tomando nas suas mãos o trabalho mais árduo mesmo que este implique livrar-se daqueles que entretanto ficam doentes. Por outro encontramos o "Travis" de Kelvin Harrison Jr. - filho de "Paul" - cujas ânsias de um jovem de dezassete anos ganham cada vez mais forma não só pela perda dos seus, como do mundo que deveria estar a descobrir assim como pela "invasão" de um novo grupo de  pessoas que despertam (em certa medida) os seus próprios anseios sexuais e sentimentais agora cada vez mais difíceis de serem respondidos. Finalmente encontram Christopher Abbott e o seu "Will" que, de certa forma, acaba por ser uma personagem em muito semelhante ao "Paul" de Edgerton na medida em que é um pai de família para a qual tudo faz - incluindo mentir - para a proteger e manter e que tenta encontrar na aliança com os poucos demais que ainda subsistem a sua própria sobrevivência mantendo, no entanto, sempre a confiada desconfiança como método de auto-sobrevivência. Três pilares, três mundos, três pontos-de-vista e três existências que, em tempos normais, poderiam ser complementares mas que, neste novo mundo, apenas se assumem como marcos de uma desconfiança generalizada na qual o "outro" (mesmo que conhecido) é todo um mundo de potenciais ameaças às quais "eu" não posso - nem quero - ceder porque o medo que "sinto" e que se apoderou de "mim" e da minha existência comanda e condiciona todo o "meu" pensamento.
.

.
8 / 10
.