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segunda-feira, 7 de abril de 2025

Nunca Mais é Demasiado Tempo (2024)


Nunca Mais é Demasiado Tempo de Bruno Ferreira (Portugal) é uma curta-metragem que, à primeira vista, seduz de imediato pela sua apresentação de filme por detrás do filme. Ou seja, quem são as pessoas que "existem" por detrás da câmara e o que fazem até à conclusão da obra cinematográfica per si.
No início das filmagens da sua nova obra cinematográfica, um realizador e a sua produtora encontram-se com uma cartomante para obterem mais informações sobre a potencial narrativa do filme. À medida que o tempo passa as previsões da cartomante revelam-se mais próximas da realidade do que aquilo que seria de esperar.
Dividido em três fases distintas, sendo elas "O Desespero", "O Reconhecimento" e "A Cura", esta curta-metragem centra-se nas fases de produção da mesma encontrando, em cada uma delas, elementos e dificuldades com que a equipa de produção se depara. No primeiro instante instala-se o mencionado desespero quando a actriz protagonista do filme não pode comparecer nas filmagens graças a uma virose contraída. Aqui a equipa perde-se nos pequenos afazeres possíveis, das refeições ao poder filmar uns quantos cenários que podem vir a embelezar a curta-metragem conferindo-lhe dinâmica de tempo e espaço e preservar o máximo possível aquilo que está irremediavelmente "parado" face às inevitabilidades da vida passando pro banais conversas que preenchem um dia que está sem qualquer desfecho positivo para a produção do dito filme. No segundo instante de reconhecimento de espaço e das condições em que todos se encontram com um filme por terminar e sem aparente resolução à vista, passamos a conhecer como observadores participantes das dinâmicas da equipa técnica, os seus pensamentos, o que pretendem e a tradicional conversa de "encher saco" para que o dia passe com uma aparente e ilusória sensação de mais um dia cumprido. Filmam-se momentos e instantes ocasionais onde, ao mesmo tempo, surge a dúvida e o receio da continuação e até da própria validação deste trabalho que parece condenado. Finalmente, e quando o caos já está instalado, a cura deste processo prende-se com uma afirmação da produtora que aqui se assume na primeira pessoa como aquela que tenta levar tudo a bom porto. Num processo quase de auto-descoberta que transcende a sua profissão e o seu "eu", encontramo-la como a figura central de uma construção fílmica na qual, em circunstâncias normais, nunca sequer se interviria apesar de tudo controlar. Aqui que o controlo lhe escapou sendo impedida de dar corpo às ideias pensadas da obra cinematográfica, a produtora enquanto sua personagem principal intervém num percurso de crise existencial onde (se) questiona quase filosoficamente o "onde estou... quem sou eu... para onde vou?".
O que mais se tornou apelativo nesta curta-metragem foi observar quase em primeira mão aquilo que está por detrás do produto final que observamos nos grandes ecrãs de uma qualquer sala de cinema. Aqui, longe do estrelato da mesma, temos o "ganhar corpo" das pessoas/personagens que constroem o filme assumindo eles, quase instintivamente, o protagonismo da obra e confirmando as predestinações de uma vidente também ela icónica que tudo "previu". O resultado final é, também ele, objecto do "estrelato" da sala de cinema mas, no entanto, são aqueles que nunca vemos que aqui ganham forma como seus principais protagonistas. Os que escrevem, dirigem, produzem, iluminam, decoram ganham esse corpo mais não seja pela confirmação das suas vozes. Os que estão para lá dos olhares do público - muitos continuam como tal - mas compreendemos que ali estão na eterna "espera" da obra concluída. No final, a fuga... das responsabilidades, do "eu", do que poderia ter sido, daquilo que está a ser... de tudo e de todos como única forma de suportar o (talvez) fracasso ou o medo de se poder ter construído algo que, sendo diferente, é tão válido como aquilo que inicialmente se planeou e projectou.

7 / 10

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Nudo (2023)


Nudo de Hermínio Cardiel (Espanha) é a mais recente curta-metragem do realizador vallisoletano que dirigiu, entre outras, as curtas-metragens Ogro (2021) e Fuera de Servicio (2016).
Clara (Sara Jiménez) e Lea (Carlota Trueba) dançam juntas um qualquer encontro musical quando são subitamente interrompidas por um homem que as tenta seduzir. Depois de um rápido afastamento e de um regresso a casa, Clara sente que alguém a acompanha... ou será apenas a imaginação dela numa sociedade onde os perigos espreitam em todas as esquinas?
Há uma atmosfera tensa desde os primeiros instantes de Nudo que é, em certa medida, desconhecida do espectador. Sente-se e percebe-se que está presente mas, ao mesmo tempo, desconhece o espectador o que é ao certo que o incomoda nas dinâmicas das actrizes - e subsequentemente apenas para com a protagonista -, e destas para com o espaço envolvente. Inicialmente é perceptível na dinâmica entre ambas. Reconhece-se alguma intimidade mas não se consegue sentir a química esperada entre duas pessoas que aparentemente se amam e desejam. Será algo ainda escondido dos seus pares e das suas famílias ou apenas algo que querem "no momento" e não retirar dali grandes planos para o porvir? Esta tensão é imediatamente sentida quando ambas são interrompidas na sua dinâmica por um tipo descontrolado que quer terminar a "sua" noite da melhor forma possível, custe o que custar e até mesmo na despedida das duas amigas/namoradas que é feita de uma forma próxima mas fria e quase indiferente. É então que, enquanto acompanhamos "Clara" que compreendemos que esta atmosfera se adensa de uma forma mais abrupta e que a cidade, cujas ruas se encontram cada vez mais vazias, escondem algo que equacionamos como uma tragédia prestes a acontecer. Vozes indistintas e risos abafados fazem o espectador imaginar o pior. A tal tragédia que afecta as vítimas solitárias, indefesas e desprotegidas e que, sem darem conta, caem nas suas garras deixando marcas para sempre.
É nesta dinâmica que conhecemos e acompanhamos todos os instantes de "Clara" mas que são rapidamente interrompidos pela inserção de "Fernando" (Roberto Enríquez), um homem que inadvertidamente se depara no seu caminho e que tem uma história ainda mais sombria para relatar. A sua chegada é, assumidamente, inesperada. As suas acções são, no entanto, de tal forma dúbias que permanece uma dúvida sobre até que ponto é a sua existência naquele local tão "ocasional" como inicialmente aparenta ser. "Fernando" mostra-se indiferente ao que acontece. Aos resultados das suas acções e, sobretudo, às consequências que pode vir a ter. A sua apatia, ainda que compreensiva face ao que acaba de fazer, deixa o espectador com um certo incómodo sobre o se terá ou não sido propositado... algo planeado. Ele percebe o que fez mas afastou-se. Permanece sim a dúvida se sabe quem deixou para trás... mas sabe sim que acabou por mudar radicalmente duas vidas... a sua e sobretudo a de "Clara".
Sem um claro desfecho para as duas personagens, e ainda que o espectador possa imaginar qual será por pequenos indícios que são revelados, Nudo termina abruptamente deixando essa conclusão para a imaginação do espectador. Estaria "Clara" realmente a ser perseguida? Seriam os seus medos enquanto jovem mulher a caminhar sozinha pela noite de uma cidade deserta que tomaram conta dos seus pensamentos dando vida aos seus receios? Estaria "Fernando" a segui-la? A procurá-la? O que o terá levado a continuar o seu percurso sabendo que a deixou para trás? Sabia que era realmente ela? O que o levou a assumir e incorporar toda uma calma inesperada naquele momento... especialmente quando alguém está prestes a bater-lhe à porta e trazer-lhe notícias que poderá (ou não?!) esperar... Questões estas que deixam o espectador a pensar e que, sobretudo, o fazem questionar-se também sobre o que escondem as sombras para lá daquelas que a noite de uma cidade exibe com honra e (pouca) glória.

7 / 10

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Nobody (2023)

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Nobody de Marcela Jacobina (Portugal) seleccionada para competição na sétima edição do Planos Film Festival a decorrer no Cine-Teatro Paraíso, em Tomar revela a história da personagem que dá nome a este filme curto interpretado por Marcela Jacobina, uma jovem que centra a sua existência numa dinâmica online com homens aos quais cobra pela sua companhia.
Filmado num cenário que agora nos é familiar de período pandémico (e pós-pandémico) onde, mais do que nunca, as relações oscilaram muito para uma vertente virtual - relações essas que vão das de amizade às sociais e principalmente profissionais -, este Nobody sobre "Nobody", uma jovem mulher que revela o seu latente anonimato e desapego para qualquer tipo de interacções sociais e que apenas interage (ou tenta) com o mundo através das múltiplas e breves ocasiões diárias em que contacta com homens que encara como a sua fonte de rendimento e que a procuram pela sensualidade que deposita na sua persona inspirada em anime japonesa.
Desligada a câmara, pergunta-se ela e nós espectadores, o que existe? Muito pouco ou nada. Uma mão cheio de correspondência por abrir, uma mãe que lhe liga insistentemente e à qual não responde e uma casa que é o completo oposto daquilo que encena para o seu público. Desarrumação, pouco brio e uma  aparente realidade de desapego e motivação para o que a rodeia e que não consiga fazer parte daquele imaginário que dá cor à sua ilusão. E é no meio deste isolamento, que calculamos ser auto-imposto, que se desenrola a sua realidade ou, melhor dizendo, a falta dela. Percebemos que não tem qualquer vontade de interacção social mas, ainda assim, mantém estas relações programadas e furtuitas para a sua subsistência. Existe apenas num limite dessa sobrevivência que, na realidade, passa despercebida a todos menos a um cliente habitual (Carloto Cotta) que insiste estar disponível para lhe dar atenção seja quando for. Mas que ela nega e do qual se afasta concentrando-se, quem sabe, no seu apego por esta solidão que, ao mesmo tempo, parecer querer despedir.
"Nobody" é assim, uma mulher fora do tempo mas reflexo do mesmo em que vive. Está no mundo sem estar. Existe sem existir. Ninguém a conhece ou sabe verdadeiramente quem é. Poderá alguém dar pela sua falta algum dia? Saberá alguém que ela é uma realidade ou apenas um boneco criado e que em qualquer momento poderá desaparecer? É no meio destes dilemas que vive (ou existe?!) e para os quais parece não ter qualquer tipo de resposta ou solução.
Ainda que esta curta-metragem consiga fazer um curioso e interessante retrato das realidades deste século já com mais de vinte anos de existência reflectindo sobre as relações que hoje existem ou como se desenvolvem as dinâmicas entre pares, falta a Nobody um maior desenvolvimento no seu argumento que nos permita pensar mais sobre esta jovem mulher para lá daquilo que faz como modo de sobreviver. Foi pensado o seu isolamento e subsistência através destes encontros ocasionais online ou foi o seu objectivo revelar a sua (in)existência como uma realidade desejada? Existe Nobody para lá desta dinâmica ou não é ela mais do que o seu próprio nick define... ninguém?! É a falta desta exploração de personagem que seria interessante e dinamizaria mais esta curta-metragem que acaba por se resumir à breve revelação de uma vida que não o chega a ser mesmo quando um daqueles com quem interage parece querer saber mais do que aquilo que a sua caracterização esconde. Conseguirá ela alguma vez querer exactamente o mesmo?
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6 /10
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domingo, 28 de maio de 2023

Nonna (2022)

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Nonna de Paco Sepúlveda (Espanha) é uma das mais recentes obras de cinema em formato curto que nos transporta para o imaginário recente da pandemia da COVID-19.
Com duas semanas a viver em estado de emergência Mercedes (Teresa del Olmo), está confinada sozinha em casa. Uma noite tem um acidente ao escorregar no chuveiro. Apesar de todos os seus esforços para chamar alguém de família, o auxílio está dificultado pelas restrições sentidas à liberdade de circulação.
A curta-metragem de Paco Sepúlveda leva o espectador a uma estranha e dolorosa viagem cuja realidade ali apresentada está presente antes, durante e depois dos efeitos da pandemia que a todos nos afectou. Se por um lado encontramos aqui a realidade de uma mulher idosa que se vê prisioneira do seu próprio lar e das restrições que a pandemia impuseram, não é menos verdade que muitos dos receios sentidos enquanto mulher e mulher de idade avançada estão presentes para lá daquele período tenebroso que sentimos no início desta terceira década do século XXI. Senão vejamos... encontramo-nos perante a vida de uma mulher que, ainda que de idade avançada e mantendo algumas liberdades, se vê neste período presa a uma realidade que não é totalmente a sua... por um lado ainda se movimenta mas, ao mesmo tempo, tem condicionantes como, por exemplo, um botão de emergência para pedir auxílio... Mas será este auxílio prestado de acordo com os seus desejos? Poderá esta mulher sentir-se confortável com estranhos que a socorram e que a vejam - neste caso em concreto - exposta ao mundo e a quem quer que surja e que seja o "socorro" daquele momento?
Se a privacidade desta mulher é ameaçada pela força das circunstâncias, não é menos verdade que a sua liberdade também o é na medida em que se encontra dependente da possibilidade de auxílio da família que, pandemia à parte, também ela se vê condicionada pelas circunstâncias da vida, do trabalho e das obrigações que os forçam a encontrar-se cada um... no seu espaço. Finalmente, e aqui um factor que esteve invariavelmente ligado ao tempo vivido em 2020, a restrição forçada de movimento que a tantos condicionou impedindo-os de chegar perto daqueles que de si precisavam levando todos a uma inesperada independência dentro da dependência sentida pelos mais vulneráveis. Aqui, uma mulher de idade avançada que depende da sua família mais próxima vê-se forçada a encontrar o escape pelas suas próprias mãos e, ao mesmo tempo, decidir o que fazer (ou não) para sobreviver à ausência daqueles de quem precisa. No seio da vergonha, do medo, das incertezas e de um futuro que se afirma como incerto, conseguirá esta mulher sobreviver àquela que será possivelmente uma das maiores provações da sua vida?
Intenso desde o primeiro instante na medida em que o espectador se encontra frente a frente com uma história que está para lá de um terror psicológico, este Nonna capta sim o terror urbano actual - daquela actualidade - em que os mais idosos e, por consequência, mais vulneráveis se viram dependentes e retidos a uma realidade que já não era a sua. Como sobreviver quando ninguém se pode aproximar de ti? Como sobreviver quando uma distância de cem metros pode ser tão complicada de percorrer como uma de cem quilómetros? Como sobreviver quando a vergonha te impede de pedir socorro a um estranho que, para "ti" pode representar a violação do teu espaço... do teu corpo... da tua individualidade? Este medo apenas é comparável (talvez não tanto) pelo sentido por um familiar que tenta tudo por tudo para te socorrer mas que os dias vividos levantam a suspeita e a desconfiança para  com todos aqueles que não estão dentro da norma "actual" representando, dessa forma, o transgressor que nunca na vida pensou ser? Intenso ainda pela dura e crua realidade que ali se expôs sobre o dia-a-dia de tantos e tantos idosos que vivem numa solidão aí consciente mas que se tornou "normal" pelas inconsistências de uma vida que não permite aos seus estarem presentes em todos os momentos das suas vulneráveis vidas. Vulnerabilidade... essa sim a palavra que caracteriza todas as vidas aqui retratadas... uns colhidos pela vergonha... outros pela incerteza... e todos pela desconfiança que os dias estranhos e "diferentes" - e nada normais - nos impuseram, levando a que todos nós experimentassem forçadamente a realidade que a própria realidade nos impõe nesses dias que agora chamamos de "normais"... onde recuperamos das perdas, das ausências e daquilo que fica depois da morte que a todos bateu à porta.
Um bravo a um inteligente realizador que conseguiu retirar o melhor de um argumento sobre uma história trágica, actual e que foi a realidade de todos nós bem como de uma fenomenal e igualmente intensa interpretação de uma magnânime Teresa del Olmo.
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8 / 10
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quinta-feira, 18 de maio de 2023

No Hay Fantasmas (2023)

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No Hay Fantasmas, de Nacho Solana (Espanha) é uma das curtas-metragens seleccionadas em competição na secção Cantábria da mais recente edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos a decorrer na Cantábria até ao próximo dia 20 de Maio.
Andrea (Catalina Sopelana) é uma jovem com uma função muito especial. Ela consegue escutar o que sussurram os pequenos fenómenos paranormais dos quais os outros apenas observam breves manifestações. Mas Andrea insiste que não são fantasmas...
Num breve instante em que visita uma casa para fazer a "comunicação" entre uma mulher desesperada e cuja casa tem sido local para a manifestação de alguém que já partiu para uma outra dimensão, "Andrea" sente um conflito interno primeiro por conseguir transmitir algum sossego a esta mulher que parece não conseguir resistir ao que sente e pressente mas também, e talvez principalmente, porque este caso parece manifestar-se também nela de forma diferente do que aqueles que até então havia presenciado.
As casas, dizem, são perfeitos receptáculos daqueles que nelas habitam. É ali que se formam famílias, memórias, alegrias e tristezas que compõem lares onde toda uma história individual se manifesta com o passar dos anos. É isto que "Andrea" acaba por sentir cada vez que entra num local e tenta, à sua maneira, resolver problemas que ficaram para trás ou pequenos palavras que ficaram por dizer. Por vezes nem sempre as melhores, como aqui acabamos por assistir mas, ao mesmo tempo, são aquelas que sem prejudicar vivos ou a memória dos mortos representam o sossego, talvez eterno, para ambas as partes. A grande questão que é colocada à personagem interpretada por Catalina Sopelana é se ela será capaz de encerrar este capítulo onde perpetuá-lo sem saber as suas consequências ou futuro...
Com uma premissa interessante sobre o que está para lá da vida terrena, o argumento de Jordi Fraga parece fragilizar-se quando pretende revelar mais sobre a história de "Andrea" através daquilo que ela faz e do "serviço" que está naquele momento a realizar naquela casa. O espectador compreende que a sua história está muito para lá daquilo que nos é revelado e que seria eventualmente interessante contextualizar mais esse passado por contar - difícil claro se considerarmos que estamos perante uma curta-metragem onde tudo tem de ser contado em breve minutos -, e que no fundo deixa todo uma estrada em aberto permitindo a imaginação deambular por caminhos que, provavelmente, nem seriam aqueles disponíveis para a história da protagonista. Num limbo entre o que é e aquilo que poderia ser, a curta-metragem deixa pairar um seu próprio fantasma... aquilo que será o passado de "Andrea" e o que a levou a ser, tal como nos é apresentada, um pária num mundo indisponível para ouvir as histórias que tem por contar... a sua... e principalmente as daqueles que já partiram para um qualquer outro lugar e que deixaram os seus "ecos" para trás.
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7 / 10
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Nuestro Hijo (2022)

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Nuestro Hijo de Laura Campo (Espanha) é uma das curtas-metragens seleccionadas para a Secção Cantábria da 13ª edição do FICPI - Festival Internacional de Cine de Piélagos que decorre até ao próximo dia 20 de Maio na Cantábria, em Espanha.
Marcos está desaparecido e a polícia quer que os seus pais revelem tudo o que sabem do que acontecera antes. Ambos parecem colaborar... mas até que ponto...
Aquilo que esta curta-metragem revela desde cedo ao espectador é primeiro a revolta dos progenitores em querer que a polícia avance mais depressa do que aquilo que parece para que a criança desaparecida possa ser encontrada e, em segundo lugar, uma latente e crescente tensão entre os dois pais que parecem mais desunidos na sua recente perda do que propriamente uma acção em bloco para agilizar os factos àqueles que deles necessitam. É esta tensão entre o casal que nos desperta a atenção e que faz adivinhar que outros acontecimentos poderão estar por detrás deste desaparecimento. Terá sido um rapto encenado por um deles para culpar ou ferir o outro? Será que o rapto esconde uma tragédia latente resultante de uma disputa matrimonial? Será que a criança desapareceu realmente?
Que a facilidade deste rapto é um facto consumado, afinal quão fácil é desaparecer no meio de tanta gente quanto aquela que existe num parque onde dezenas de crianças e adultos passeiam ao longo do dia, o que é certo é que as dúvidas começam a instalar-se na cabeça do espectador que rapidamente observa esta história como algo mais do que um simples acontecimento perpetrado por um estranho mas sim como algo consumado pelo ciúme e pelo desdém que as acções, interacções e hábitos do casal começam, aos poucos, a revelar como a realidade da vida matrimonial do mesmo. O espectador sente o controlo, o medo, a ira senão mesmo raiva e ódio, o desprezo e até mesmo a vontade de vingança que as palavras de cada um deles fazem adivinhar para e sobre o outro e ao mesmo tempo conseguimos perceber que existe um pouco mais que não estava a ser revelado e que quando o é acaba por funcionar como um motor que assume involuntariamente tudo o que está por detrás da dinâmica destas duas personagens.
Com uma vítima clara das acções de adultos que mais não querem do que magoar-se mutuamente e que encontram numa criança indefesa a "arma" para os seus actos, o sucedido a esta criança mais não é do que um relato constante de tantas e tantas notícias que diariamente escutamos nos boletins informativos e que nos deixam a todos chocados não só pela incredulidade dos acontecimentos como sobretudo pelo silêncio com que todos nós pactuámos quando compreendemos que na "porta ao lado" os relatos de violência física ou psicológica eram uma constante diária.
Ainda que os momentos de interrogatório exibam uma certa incongruência e naveguem por caminhos tidos quase como irreais, os mesmos fazem com que esta curta-metragem cuja acção se limita àquele espaço, ganhe contornos quase sufocantes que apenas as conclusões retiradas pelos discursos conseguem aligeirar brevemente a dinâmica até à compreensão de que algo inimaginável poderá ter ocorrido. E este elemento acaba por funcionar em duas dinâmicas... o primeiro ao transformar-se como um dos momentos mais importantes desta história que sufoca-nos a todos dentro daquelas quatro paredes privadas de luz natural... ao mesmo tempo, e em segundo lugar, poderá funcionar como uma dinâmica perigosa e sobrevalorizada que afasta o espectador que não se deixou levar pelo enredo por detrás das palavras e que perde curiosidade em tentar perceber ou descobrir aquilo que os silêncios e os segredos que lhe estão inerentes poderão esconder. Ao serem revelados todos os detalhes e chegarem à luz aquilo que não havia ainda sido dito... o esperado concretiza-se e o desfecho ainda que previsível consegue ser hediondo por sabermos que não é apenas uma qualquer ficção.
Intrigante e por vários momentos mórbida pelos factos tragicamente actuais que tráz em formato curto para o grande ecrã, Nuestro Hijo é uma interessante reflexão sobre as relações matrimoniais no pós... a alguma vez terem funcionado bem.
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7 / 10
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sábado, 9 de maio de 2020

New York New York (2020)

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New York New York de Spike Lee (EUA) é a última obra do realizador de BlackKklansman (2018), agora num formato de curta-metragem para prestar uma homenagem à cidade de Nova York numa época de incertezas e inseguranças que a levam, tal como já sucedera noutras cidades do mundo semanas antes, num improvável e desolador cenário de total ausência de vida humana.
Ao som de "My Way" por Frank Sinatra, Spike Lee homenageia inicialmente todos os pequenos grandes lugares que qualquer espectador mais atento de um qualquer filme centrado na cidade que nunca dorme reconhece de imediato. Percorremos, nos primeiros instantes, a cidade em tons quase opacos que nos permitem observar como que um amanhecer que, numa outra época dita "normal", faria adivinhar as centenas de milhares de pessoas que iriam percorrer ruas cada vez mais cheias de vida, som e movimento, mas que agora parecem desvanecer com um invulgar silêncio. Poucos automóveis, ainda menos pessoas, e edifícios gigantescos que desenham um outro horizonte. O silêncio ou, pelo menos, aquele provocado pela ausência humana, é apenas interrompido pelo ocasional vestígio dessa outrora realidade ou de algum ruído dessa Natureza agora distante.... Uma gaivota... o mar... o vento...
Mas este New York New York, num assumido registo de total devoção, dedicação e amor para com a cidade não existe apenas para a homenagem àquilo que a cidade representa mas sobretudo àqueles que lhe dão essa cor que todos conhecemos - pelo menos... por aquilo com o qual somos (fomos?!)  diariamente bombardeados pelos inúmeros relatos que chegavam da cidade -, mas sobretudo àqueles que agora lutam contra uma ameaça invisível como esta representada pela pandemia do COVID-19. Não, não estamos perante um qualquer filme fatalista pós-Humanidade (pelo menos não é essa a intenção com a qual foi dirigido), mas sim um de eterna devoção a uma alma que transcende qualquer realidade momentânea e que representa the tough and the brave que hoje salvam e protegem as vidas das vítimas que adoecem... de enfermeiros àqueles que trabalham nos transportes, de funcionários de limpeza urbana aos médicos, todo o "pessoal" que passa, de certa forma, invisível e até mesmo pouco apreciado noutras realidades que agora nos parecem distantes, é aqui homenageado nos instantes finais desta curta-metragem cujo único propósito é celebrar a vida, a alma, o espírito, a dedicação e o amor a uma cidade e a um povo que vive (tem vivido) segundo duas principais máximas... Aquela cantada por Sinatra, um dos seus mais representativos símbolos, em "My Way" e até mesmo aquela expressa no próprios nome/símbolo da cidade que todos amam... New York.
Num estilo documental e com o sentido de homenagem, as imagens quase paradas no tempo de uma cidade cosmopolita apelam a um sentimento de emoção (ou comoção?!) terminando com um elevado sentido "patriótico"... não para um qualquer país mas sim para com a cidade que o transcende e que lhe sobreviverá. Não será a obra mais emblemática de Spike Lee mas será, seguramente, um das suas mais pessoais e emotivas para um contexto que já sendo História ficará nela marcado para lá de todas as obras que o realizador já entregou ao seu público.
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7 / 10
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segunda-feira, 18 de março de 2019

Num País Estrangeiro (2018)

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Num País Estrangeiro de Miguel Seabra Lopes e Karen Akerman (Portugal/Brasil) é um documentário em formato de curta-metragem que parte da transcrição de um texto de censurado em 1968 estabelecendo uma autobiografia de Herberto Helder como o ponto de partida deste relato sobre o "proibido".
Num espaço em que os rostos se esfumaçam e todos os países são "estrangeiros", o local ao qual se poderá apelidar de "casa" acaba comprometido por um ideal de pertença a lado algum. O apátrida - ou o exilado -, são assim uma realidade constante de todos aqueles que fogem.
A viagem encetada é aquilo uma constante pela presença do transporte (comboio) que ocasionalmente desperta os sentidos do espectador atento - e preciso - ao que as imagens pouco revelam. Esse anonimato permanente como sintoma de que "eles" poderemos ser "todos nós" que nos encontramos nesse tal "país estrangeiro", acaba por transformar este documentário num elemento interessante do ponto de vista desse tal exilado mas, ao mesmo tempo, funciona como uma quebra de dinâmica na história que pretende ser contada (ou relatada), desviando o público não tanto para a realidade do que é mas sim para as diversas estradas do que "poderia ser" caso cada um de nós pretenda - e disponha de tempo - para pensar nas diferentes realidades que os estados totalitários onde reina a censura colocam os seus cidadãos.
Os corpos dão lugar às memórias e estas, frequentemente vividas por "um" e não pelo colectivo, transformam-se com o passar do tempo em registos semi-apagados de uma experiência de outros tempos. Algo pessoal, existencial e assumidamente literário deixado de lado o universal, que se vive na primeira pessoa e se é incapaz de partilhar, deixando a sua mensagem relativamente perdida nessa esperança de que nenhum país - ou país estrangeiro - possa ser a condição ad aeternum de alguém que se vê forçado a viajar para lá da sua vontade esquecendo a pessoa, o espaço ou até mesmo o lugar personalizando a viagem como a personagem central de um conto que se repete e não tem fim.
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1 / 10
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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Nevoeiro (2018)

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Nevoeiro de Daniel Veloso (Portugal) baseado no conto de Mário Dionísio, é uma das curtas-metragens presentes na competição oficial da XXIVª edição dos Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra no Teatro Académico Gil Vicente até ao próximo dia 1 de Dezembro.
Lisboa, década de '40. A cidade e o país estão com ordem de racionamento enquanto os mantimentos partem para a Alemanha Nazi. Ao mesmo tempo, milhares de trabalhadores lutam na clandestinidade contra a miséria e a fome.
Não poderia chegar em melhor forma um dos poucos filmes portugueses que aborda os debilitados anos da nossa História não só sob o regime fascista como, muito particularmente, aqueles passados sob os anos da Segunda Guerra Mundial onde o mesmo pactuava de forma silenciosa com a Alemanha Nazi. Esta obra cinematográfica baseada no conto de Mário Dionísio e com argumento de Inês Oliveira e do realizador Daniel Veloso revela uma história de clandestinidade, de opressão, de miséria mas, ao mesmo tempo, de uma constante luta contra as agruras de um regime repressivo que ainda iria durar mais trinta anos.
Nesta história encontramos "Paulo" (João Patrício) que juntamente com dois companheiros na clandestinidade reúnem um conjunto de papéis que dactilografam para passar uma mensagem de reivindicação dos seus direitos. Relutante, parece compreender a sua situação mas, ao mesmo tempo, querer distanciar-se pela compreensão do perigo que a mesma representa. Pelo trabalho que tem desenvolvimento na clandestinidade, bem como pelos registos que futuramente lhe são deixados, o espectador conhece um homem que fora, em tempos, empenhado na luta pelos direitos dos mais fracos, dos trabalhadores e dos oprimidos pelos quais, no entanto, agora revela uma intensa falta de entusiasmo que não só o compromete para com os demais como principalmente o demarcam das acções que estes pretendem realizar. "Paulo" é um homem presente fisicamente mas distante pela sua abstracção para com aquilo que todos os demais lutam.
Quando sente ou sabe que a polícia se aproxima, "Paulo" distancia-se dos demais vivendo nas sombras da "sombra" na medida em que continua presente na luta clandestina mas, ainda assim, afastado das grandes convulsões que outra apaixonadamente defendera e se essas em tempos o levaram a abraçar os mais desfavorecidos, agora compreende que esta luta está (estaria) condenada ainda por muito tempo. Os valores que antes foram os seus são então pouco mais do que uma memória distante e impossível de ser concretizados como sempre sonhara. "Paulo" é, no fundo, um homem desiludido, desencantado e que se demitira desse tal "sonho"... Incapaz de lutar com a convicção que o marcara... mais não lhe resta do que fugir de todos aqueles que o conheceram... mas a que custo?
A inevitabilidade da ironia presente no desfecho desta história acaba por ser superior àquela dos acontecimentos históricos que, na realidade, todos nós conhecemos pelos mil e um relatos do período em questão que todos nós já observamos nos mais variados documentários ou documentos históricos. Todos nós sabemos que até 1974, muitos seriam aqueles que viriam a ser perseguidos, presos, torturados, mortos e mais ainda aqueles que atravessavam fronteiras na ilegalidade para fugir ao martírio de um regime brutal e impiedoso. No entanto, Nevoeiro é, para lá de um registo desse tempo - que o faz e muito bem -, um conto (imaginado ou não) sobre as oportunidades e consequências dessa fuga que levavam o Homem não só à demissão do seu compromisso moral para com os valores em que sempre acreditara mas, sobretudo, à ironia do cativeiro longe do cativeiro na medida em que pode pretender a fuga... mas o que será dela quando apenas tem como rumo uma inevitável e esperada prisão onde será duplamente detido... primeiro pelos seus opositores e, finalmente, por aqueles que partilharam a luta com ele e que no próprio reconhecem tão "válido" como aqueles que os haviam detido.
Com sólidas mas tranquilas interpretações - magnífica a contenção de João Patrício - e uma direcção de fotografia capaz de captar o ambiente dos tempos "negros" que o país vivera nessas décadas, Nevoeiro é uma intrigante - pelo seu extenso potencial - curta-metragem dirigida com um pulso firme digno de uma história sobre a História onde os seus protagonistas, não se demitindo da execução dos seus sonhos e liberdades, compreendem a impossibilidade da sua concretização nos tempos sombrios em que ousaram tê-los fazendo assim justiça ao ideal de nevoeiro - político e principalmente pessoal - que se fazia sentir.
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8 / 10
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terça-feira, 4 de setembro de 2018

The Nun (2018)

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The Nun - A Freira Maldita de Corin Hardy (EUA) é a prequela mais que anunciada do franchising The Conjuring (2013) iniciado por James Wan e prolongado  no ano seguinte com Annabelle, de John R. Leonetti levando o espectador às origens de "tudo", quando o Padre Burke (Demián Bichir) e a noviça Irene (Taissa Farmiga) são enviadas pelo Vaticano para a Roménia onde, na companhia de Frenchie (Jonas Bloquet), investigam o estranho suicídio de uma freira.
No Mosteiro, todos encontram não só as mais temidas ameaças de um mundo paralelo que tentam emergir e dominar o mundo que pretendem transformar num paraíso para as trevas como principalmente os seus medos de um passado traumático e ainda não encerrado.
Gary Dauberman escreve o argumento de The Nun a partir de uma história também da autoria de James Wan em que os universos de The Conjuring e de Annabelle encontram aqui as suas origens. Assim, The Nun é a eterna vontade de encontra o princípio de todo o mal - neste caso - encontrando uma forma não só de explicar os acontecimentos já futuramente ocorridos - não esquecer que esta história é cronologicamente anterior àquela das outras obras já mencionadas - como também de prolongar uma história ao ponto do espectador se distanciar da ideia de que o mesmo se baseia em acontecimentos verídicos para aqui encontrar uma mescla sobrenatural que, por vezes, mais roça o mundo da fantasia ou dos medos mais básicos do que propriamente a dinâmica de uma história onde o espectador pense que... isto aconteceu.
Aquilo que fora iniciado com The Conjuring inseria-se muito facilmente naquele imaginário já preenchido com Amityville (1979) ou The Entity (1982) dando corpo a factos documentados sobre a presença de entidades paranormais que ocupam e se instalam num espaço que já não lhes pertence atormentado todos aqueles que estão num mundo terreno. The Nun como seu suposto e imediato predecessor, pretende ocupar aquele lugar de "aqui temos o início de tudo", a razão explicativa de todos os fenómenos paranormais que sucessivamente iam pondo um fim à tranquilidade de meros mortais que não sabem o que acontece à sua volta mas que, no entanto, são por esses acontecimentos atormentados condenando a sua vida a um inesperado mas forçado isolamento... afinal, quem irá acreditar que a sua casa está "possuída"? Mas, o que encontramos realmente aqui?
Independentemente de podermos estar perante uma longa-metragem que retrata essas origens, em que medida é que elas realmente se interligam com as demais histórias que não para lá de uma qualquer menção final que cruza personagens das diversas histórias? Existirá alguma ligação entre as mesmas ou uma mera casualidade que não as transforma nessa "origem" mas talvez sim num "cruzamento" macabro de universos? Poderá o espectador encontrar relação entre esta história e a de Annabelle? Conseguirá, para lá do óbvio, estabelecer uma qualquer ligação com The Conjuring? Talvez com The Conjuring 2 (2016) e, ainda assim, não sabemos em que medida está alterada a dinâmica da primeira obra ou mesmo a necessidade de encontrar forçosamente uma forma de tudo juntar e alargar o já referido franchising para fazer com que o espectador se deixe levar uma vez mais para estes meandros.
Assim, para lá dos sustos ocasionais mais ou menos bem conseguidos e que para os mesmos muito contribui toda a atmosfera recriada de um espaço medieval que, só por si, já reúne todo um imaginário sobrenatural - não se esqueça o espectador que nos encontramos na Roménia - recriada pela direcção de arte de Jennifer Spence, Adrian Curelea, Vraciu Eduard Daniel e Gina Calin, a direcção de fotografia de Maxime Alexandre que utiliza de forma hábil e inteligente a escassa luz e as sombras constantes e claro, não esquecer a música de Abel Korzeniowski que sabe criar toda uma muito própria atmosfera, The Nun é um filme que o espectador já conhece. Conhece os sustos, conhece o inesperado, entende que todos os pequenos detalhes dos quais esta história é construída são devidamente fabricados para proporcionar a espera tensão e é apenas o momento final em que esta história se liga às demais que consegue, de alguma forma, suscitar alguma curiosidade sobre como tudo realmente se conjuga não deixando, no entanto, de ser um legado frágil ainda que minimamente coerente, sobre o passado de uma assombração que insiste em atormentar as vítimas mais sensíveis e que espreita... dos locais onde já é esperado que ele (esse mal) se encontre. No final sobram ao espectador Bichir, Farmiga e Bloquet - não muito bom princípio de carreira norte-americana - muito aquém de todo um potencial dramático que já lhes reconhecemos e aqui em interpretações que tocam, de muito perto, o banal e pouco inspirado servindo apenas de aperitivo a uma qualquer noite de cinema fantástico que, no entanto, poderá ser superado com tantas outras histórias melhor concretizadas.
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terça-feira, 15 de maio de 2018

Ñimbo (2017)

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Ñimbo de Ricardo Zavala (Espanha) é uma curta-metragem com um argumento escrito pelo realizador em parceria com Diana Estévez que conta a história de Matías (Sergio Viniccio) um homem que compreende tarde que a Humanidade se prende à relação com as coisas materiais fazendo delas o seu próprio mundo.
Num mundo onde mais nada para lá de uma praia deserta parece existir, "Matías" parece apenas manter conforto na relação que estabelece com um pequeno urso de peluche de nome "Ñimbo". Depois de um longo sono, "Matías" desperta para perceber que o seu objecto de conforto desaparecera da sua vista e compreender que a integridade de todo o seu mundo fora abalada.
Intencionalmente preocupada com uma analogia onde Homem e Mundo vivem num certo espaço temporal distante - pouca é a relação entre ambos para lá daquela de sobrevivência e subsistência a que o Homem está sujeito -, esta curta-metragem parece perder-se na sua dinâmica narrativa quando, ao mesmo tempo, tenta passar a mensagem de dependência do Homem em relação aos seus bens materiais que considera mais importantes do que todo o demais espaço que não sequer perde para contemplar.
Quando num espaço onde apenas reage para a sua sobrevivência e sustento se preocupa com um objecto que, na prática, o espectador nunca conhece a sua real importância para lá de uma potencial relação com o seu passado mais infantilizado - que não percebemos se já o perdera de facto -, o espectador questiona-se se a intenção do realizador é realmente a relação do Homem com o meio, do Homem com o seu passado ou ainda do Homem com o mundo material onde a riqueza e a posse determinam a importância social de cada um.
Algo dispersa na sua intenção e sujeita a uma múltipla interpretação do seu argumento - nem sempre pelos melhores motivos - Ñimbo revela ainda as suas fragilidades técnica nomeadamente na captação de som e na dinamização de um espaço natural sub-aproveitado que apenas parece servir de adorno para a fluência da história e não uma sua parte integrante. Compreensível, de uma forma geral, no que diz respeito às suas intenções é, no entanto, a execução e prática das mesmas que se faz perder na sua narração demonstrando um argumento algo fragilizado e pouco coerente que se deixa fluir pela força da necessidade de encontrar um final para esta história.
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5 / 10
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sábado, 5 de maio de 2018

Nove de Novembro (2018)

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Nove de Novembro de Lázaro Louzao (Espanha) revela a história de Roberto (Ademar Silvoso) e Miguel (Brais Yanek) que, no final da década de '80 cumprem dez anos de relação. Em quatro breves dias enquanto assistem às convulsões numa distante Alemanha, as memórias do passado entram em conflito com a sua realidade presente e aquilo que parecia ser uma união estável demonstra ser tão frágil como o Muro que, em Berlim, ameaça ruir.
O realizador e argumentista Lázaro Louzao cria com este Nove de Novembro um conto sobre a relação entre dois mundos aparentemente similares mas que têm de viver numa crescente incerteza que irá definir os seus destinos. Desde cedo que o espectador acompanha a relação entre o par protagonista percebendo as aparentes diferenças que caracterizam cada um deles e, do universo de 1978 àquele de 1989, compreendem-se as dinâmicas entre o casal desde o momento em que reinou a paixão, passando pelo amor, pela convivência e até mesmo pela inesperada traição que marcará um novo momento... o do final... mas não uma ruptura.
Numa constante oscilação entre épocas temporais - não esquecer que assistimos a um presente em Novembro de '89 mas com revisitação ao momento pós-ditadura franquista em 1978 -, Nove de Novembro começa por revelar o momento em que "Roberto" e "Miguel" se conhecem e trocam as primeiras (e pouco desejadas) impressões comuns. Por entre os problemas comuns a qualquer casal que cruzam a traição ou até questões financeiras, dos desentendimentos que tudo geram aos dissabores pelo confronto de realidades que são, em certa medida, distintos entre si, esta longa-metragem apresenta-nos também os momentos cúmplices entre este par protagonista que, ainda assim, parece fazer adivinhar uma iminente ruptura na sua convivência comum.
Mas não são só os esperados problemas enquanto casal que esta longa-metragem revela. Nove de Novembro tem ainda o contributo histórico de inserir o espectador numa determinada época da História contemporânea de Espanha e revelar que desses idos anos da década de '70 onde o país saíra de uma ditadura de mais de quarenta anos, existia toda uma esperança rejuvenescedora na dita "nova geração", onde todos os sonhos e desejos pareciam então possíveis e concretizáveis mas que, pela força de um conservadorismo e catolicismo muito enraizados na sociedade, se deixaram perder tornando-se nas frustrações daqueles que iriam (então) construir a nova Espanha. Entre as frustrações de uma família que nem sempre aceita a revelação da sexualidade de "Miguel", ao início da vivência a dois por este facto despoletada, esta história capta então o tal registo a dois, de dois perante um mundo em constante transformação - não só pela recente Democracia em Espanha como também numa Europa em convulsão e que se reformularia até violentamente - e principalmente a forma como todas as certezas do casal "sentem" (est)a transformação como algo determinante no seio da vida a dois.
Assim, as discussões que inicialmente se assumem como fruto de um conjunto de adaptações normais de uma vida onde dois decidem, começam lentamente a ganhar contornos mais profundos ao revelar dissabores sentidos em relação a uma educação mais conservadora - a de "Miguel" -, que resulta na queda da relação nos lugares comuns daquelas que se formam no início de uma liberdade recém adquirida onde o desejo pelo "proibido" se assume e ganha forma, lentamente minando a confiança, a existência pacífica e a sentida cumplicidade que (em tempos) havia marcado a sua convivência e o seu espaço comum.
Repleto de histórias sobre um passado comum, a consciência de um presente que já não o será podendo estar, inclusive, perdido até na própria amizade, com a certeza da doença que agora afecta o que resta dessa já ida cumplicidade, Lázaro Louzano cria uma história de um amor (não) perdido e ausente que transforma as realidades de dois homens - e da sociedade - num inesperado não tão admirável mundo novo que é vivido quase exclusivamente por detrás das quatro paredes de um quarto onde se conversa, se recorda o passado, se ama e principalmente se ganha consciência da realidade da desilusão. No fundo este não tão breve encontra versa sobre a compreensão daquilo que se perdoa e aquilo que já não se consegue suportar.
Com uma excelente direcção de fotografia de Maite Redondo e Iago Vilarinho que capta a essência de um espaço onde agora já pouca luz consegue brilhar e duas magníficas interpretações a cargo de um intenso Ademar Silvoso que se deixa levar pela força motora de um amor desencantado e de Brais Yanek como aquele que tudo teve e tudo deixou perder, Lázaro Louzao cria Nove de Novembro, uma inesperada e firme primeira longa-metragem onde a história do indivíduo se confunde com a do mundo, complementando-se nas suas diferenças e assumindo-se como idênticas na sentida transformação que ambas encontram... mesmo na liberdade onde tudo aquilo que se espera nem sempre se assume como garantido.
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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Notas de Campo (2017)

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Notas de Campo de Catarina Botelho é um documentário português em formato de curta-metragem presente na selecção oficial do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro.
Duas mulheres partilham os seus pensamentos sobre o futuro e objectivos desfeitos durante o período das políticas de austeridade em Portugal. Num claro choque entre o passado, o presente e o futuro impõe-se a questão sobre os efeitos das mesmas sobre toda uma geração.
Dos tempos perdidos em estudos por um futuro melhor, à confirmação de uma família e de um legado que deixará aos filhos questionados pelos tempos de incerteza e insegurança que se fizeram sentir num dos mais instáveis períodos da História contemporânea do país, duas mulheres desabafam sobre as suas vidas.
Equacionam-se os infindáveis momentos perdidos a pensar na chamada "crise". No tempo que não passam com os filhos sempre em busca de mais um trabalho que possa assegurar mais algum rendimento mensal e as novas formas de sobrevivência que se encontram para que esse rendimento extra chegue todos os finais do mês. A vida, tal como a conheceram anteriormente, já não existe. Os paradigmas e as certezas todos eles entraram num rumo de instabilidade. Nada é certo... nem o emprego, nem o futuro da família nem mesmo o instante que se vive e que pode, a qualquer momento, ser alterado. Tudo é, a todo o momento, uma incógnita.
Sentiu-se (sentiram) uma guerra. Uma que opunha - conforme se diz a certa altura - dois lados de interesses... O primeiro que representa a experiência económica e dos seus interesses bem como os de uma Europa distante da sua componente social e, do outro, os interesses do colectivo, da população e de um povo que agora se opõem potencializando uma vertente de constante violência social e política.
Da miséria encoberta àquela que estava diariamente aos olhos de todos nós. Dos que resistiram àqueles que se deixaram levar, Notas de Campo assume-se como um registo na primeira pessoa daqueles que passaram por tempos difíceis - os seus e os de todo um colectivo - que arrasaram, modificaram ideias, alteraram momentos e transformaram tudo... e todos.
Imagens de um país deserto, longe das cidades outrora cheias de vida, percorrem o ecrã e o espectador é levado a um estado de aparente apocalipse... um local pós-colapso que agora está impossível de ser repovoado. Todos os dias se pensa como encontrar dinheiro, diz uma delas e Notas de Campo concentra-se na possibilidade de uma aparente estagnação e incerteza sobre o que poderá ser o tal "amanhã"... Existirá sequer? Como preparar os filhos para a vinda de algo que não se sabe o que é com a certeza de que, no entanto, o seu lado cívico e social foram os únicos a "ganhar" algo com todas estas transformações.
Se a mensagem social de Notas de Campo é franca e espelha, na essência, as questões que todo um povo levanta sobre a sua condição é, no entanto, a sua execução isenta de rostos que humanizem os seus testemunhos, a grande omissão deste documentário que, ainda assim, surge como um dos primeiros (senão o primeiro) retrato pós-crise.
Essencial para a consciencialização - formada e por formar - de um país que quase se privou de o ser, Notas de Campo é um documento essencial dos anos da crise mas, sobretudo, da forma como apresenta testemunhos na primeira pessoa sobre esses dias escuros.
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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Nasci com a Trovoada: Autobiografia Póstuma de um Cineasta (2017)

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Nasci com a Trovoada: Autobiografia Póstuma de um Cineasta de Leonor Areal é um documentário em formato de longa-metragem português presente na secção competitiva da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português, a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro e que, através de textos auto-biográficos e cartas pessoais é dado a conhecer ao espectador parte da vida e da obra do realizador Manuel Guimarães.
Por entre as suas preocupações sociais e uma intensa paixão pelo cinema que o acompanhou desde jovem idade, o espectador conhece a obra do realizador neo-realista da sua primeira à última obra enquanto, ao mesmo tempo, conhece compreende como a obra do mesmo foi alvo da atenta e apertada mão da censura e da PIDE durante a ditadura de Salazar.
Uma das primeiras frases proferidas em Nasci com a Trovoada: Autobiografia Póstuma de um Cineasta remete o espectador para um pensamento que acompanhou o realizador na maior parte da sua vida... "tenho 55 anos e sinto-me nervoso tal como quando era adolescente" fruto de uma sociedade que, dizia, tenta insistentemente enganá-lo (nos). As inseguranças e incertezas sobre o seu percurso, sobre a sua obra e o seu legado agudizadas pelo tempo social e político que se fazia sentir no Portugal de então, afectavam-no ao ponto de constantemente considerar a sua obra como algo menor... algo pouco explorado... pouco visto... pouco rentabilizado e suficientemente adulterado para, no final, pouco a considerar sua.
Da sua juventude no Porto enquanto estudante de Belas Artes às viagens a uma Lisboa que respirava (algum) cinema e onde tudo acontecia, Manuel Guimarães revela nos seus textos, cuidadosamente organizados de forma cronológica pela realizadora para a construção deste documentário, a tardia entrada para a Sétima Arte que tanto o fazia mover. Dos primeiros mestres cinematográficos que fizeram despertar a sua paixão de Eisenstein a Murnau, Guimarães recorda o filme O Garoto, de Charlie Chaplin como aquele que determinou todo o seu futuro enquanto cinéfilo e artista.
A sua paixão e vida com Clarice, que surgiu como sua musa ainda nos tempos de Belas Artes e que se tornou na companheira para a vida, os seus textos revelam ainda o trabalho que fez para Reinaldo Ferreira - o famoso Repórter X - para ilustrar a sua revista, no Palácio de Cristal no início da década de '30 por ocasião da Exposição Colonial aí realizada, o realizador assumia-se como um "populista e um revoluncionário" em toda a sua obra.
A sua primeira grande experiência no cinema dá-se com a elaboração de desenhos dos miúdos de Aniki-Bobó, de Manoel de Oliveira aplicando pela primeira vez os seus conhecimentos na obra Vidas sem Rumo (1956) - iniciada anos antes - sendo, pelo caminho, assistente de Arthur Duarte, Alberto Miranda ou Manoel de Oliveira. Foi a única que lhe deu algum lucro apesar de ter sido altamente escrutinada pela PIDE e, como tal, censurada para não apresentar tudo o que deveria.
Foi com Saltimbancos (1951) que deu os primeiros passos. A mesma obra que sofreu inúmeros problemas de produção e que parecia condená-lo a uma constante incerteza sobre o seu futuro. Afectada pelo mau tempo e pela falta de dinheiro, Saltimbancos foi, segundo o próprio uma obra "independente e amadora". É, no entanto, em 1952 que dirige Nazaré, obra sobre a comunidade piscatória da vila e no qual assume a sua vertente realista sendo, no entanto, uma obra "cara e difícil" que considera como o seu melhor filme e onde teve mais liberdade... independentemente dos tempos vividos. No entanto, Guimarães revela a sua solidão... a sua vontade de querer falar de coisas reais e que importassem... daquilo que afectava os portugueses sem, no entanto, poder fazê-lo limitando-se aos desejos de obras populares e de entretenimento... aquelas aceiteis e que lhe poderiam conferir dinheiro... aquelas em que não se sentia ele próprio e que, como tal, delas recusava fazer parte.
Dos insucessos da sua obra ao repúdio de colegas que não queriam trabalhar com o realizador por considerá-lo "maldito" ou "amaldiçoado" ao momento em que chega a direcção de A Costureirinha da Sé (1959), o seu maior desastre artístico e financeiro que o obrigaram a retomar a direcção de vídeos turísticos e comerciais... também eles fracassos comerciais que o impediam de entrar na televisão nacional.
D'O Crime da Aldeia Velha (1964) - hoje um clássico reconhecido - e suas respectivas dúvidas em envolver-se no projecto, Manuel Guimarães revela o seu esgotamento no início da produção do mesmo apesar das melhores condições técnicas e de trabalho que o introduziram no maior complexo fílmico de exteriores do país naquela que seria a sua interpretação sobre a tragédia do amor em busca da razão. Daqui a'O Trigo e o Joio (1965) obra quase imposta e que considerou um erro no seu percurso cinematográfico e que antes de concluir abandonou rumo a Itália onde fora usufruir de uma bolsa de estudo atribuída pela Fundação Calouste Gulbenkian... Aí pensa na vida e como considera não a ter aproveitado. Pensa no filho que pensa ter muitas ilusões e em vias de se preparar para a desilusão - a sua... a dele? - apesar do talento que lhe reconhece. Em Itália pensa no seu próximo projecto, uma história sobre a liberdade de uma mulher que imagina numa varanda que observa todos os dias. Liberdade essa que fica ensombrada com as notícias da morte de Humberto Delgado e com os impedimentos do Estado Português em ter o seu filme presente em Veneza.
A correspondência trocada com Fernando Namora é também analisada e uma sua futura colaboração questionada enquanto desabafa sobre si próprio, sobre a sua revolta interior fazendo denotar um certo desdém pela sua própria pessoa assumindo-se como triste e cansado. Revela a perda, a doença, a depressão e a proximidade do seu fim sempre com muita revolta. Fala na eventualidade de ver um neto, ou neta, e pinta para descontrair a mente como que um antídoto para os seus pensamentos. Pensa ainda num futuro que diz já não ir ter.
Com Lotação Esgotada (1972), sua obra "menor" e mais sarcástica, Guimarães assume-a como o resultado de todo o seu fracasso artístico até ao 25 de Abril, a liberdade finalmente conquistada com as gravações dos primeiros instantes no Largo do Carmo e com Virgílio Ferreira e o seu Cântico Final (1976) sente ter finalmente toda a liberdade de trabalho que sempre ambicionara ter e, apesar de não a considerar como a obra da sua vida... "muito faltava para tal", foi a obra protagonizada por Ruy de Carvalho, Curado Ribeiro, Ana Zanatti e Simone de Oliveira a última que viria a dirigir e a única feita em liberdade.
Com o recurso a imagens das suas obras, fotografias do seu arquivo e algumas escassas entrevistas que viria a dar já nos últimos anos da sua vida, Nasci com a Trovoada: Autobiografia Póstuma de um Cineasta é um registo da sua obra, do seu pensamento e principalmente de uma certa alma atormentada pela falta da liberdade que a sua criatividade fazia sentir. Com um constante sentimento anti-regime e uma superior linha condutora que liga liberdade ao processo criativo, o documentário de Leonor Areal retrata o homem e a obra, a forma como ambos se fundem e vivem em co-dependência e sobretudo o sinal dos tempos vividos e a sua directa influência sobre o realizador eternamente atormentado com a ideia de que a sua obra não são um importante legado para a arte e sobre os tempos que vivera.
Calmo e quase sempre a um passo tranquilo e muito próprio, o documentário de Leonor Areal conserva, no entanto, toda a agitação de uma mente oprimida e colhida pela ditadura mas sempre a funcionar com o propósito maior de filmar a verdade, a realidade e sobretudo o seu tempo.
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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

No Place Like Home (2017)

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No Place Like Home de David Velduque é uma curta-metragem espanhola de ficção e a mais recente obra do realizador de Por Un Beso (2016) que aqui conta a história de Niko (Marius Praniauskas), um jovem que regressa à sua terra natal num país da Europa de Leste para tratar da sua mãe apenas para descobrir que aquilo que o irá esperar está longe de estar relacionado com os motivos que o levaram até ali.
Velduque e Marco Laborda escrevem o argumento desta história com que o relato não tão ficcionado de um jovem que tudo abandonou para finalmente conseguir ser feliz e honesto para com os seus sentimentos. Num país não mencionado - e que na prática não joga como uma necessidade pois conhecemos inúmeros que poderiam inserir-se fielmente nesta temática -, No Place Like Home joga com a premissa de que aquilo que o espectador observa está directamente relacionado com o que escuta na medida em que se trata de um passado recente confessado a uma mãe (Gillian Apter) cujos propósitos estão longe de relacionados com aqueles com que atraiu o seu filho de volta a casa. Assim, e à medida que observamos um "Niko" que vive a vida ao seu máximo não se privando de estabelecer algumas amizades bem como alguns paixões - mesmo que de uma só noite -, cedo percebemos que a sua fuga do seu país natal se deve exclusivamente a uma sexualidade não aceite pela sua família ou comunidade.
A homossexualidade de "Niko", repudiada pela família que a encara como (possivelmente) uma doença ou pelo menos assim o pode depreender o espectador pelas amargas palavras que o protagonista deixa escapar na carta que escreve à mãe - cujas condições para a sua elaboração apenas iremos compreender mais tarde -, serviu para que sempre se sentisse a viver numa mentira e distante do seu grupo primário no qual deveria depositar toda a confiança, bem-estar e segurança que, na realidade, percebe estarem distantes caso confessasse - como uma penitência - o seu verdadeiro "eu". "Niko" é assim não só um prisioneiro da vida que a família pensa e quer que ele viva como, em primeiro lugar, da sua própria manifestação pessoal de sentimentos e de uma sexualidade que, na realidade, não poderá alguma vez expressar encontrando-se naquele local.
É no regresso e numa recepção afectuosa que esperava encontrar a tal redenção que continua a faltar. Se os sorrisos e alguns afectos foram manifestados, cedo compreende que, afinal, o problema de saúde da mãe mais não era do que uma forma de o atrair novamente àquele espaço para um potencial "tratamento" para uma "doença" que não tem. A justiça - ou uma sua vã noção - perpetrada pela sua comunidade com o consentimento de uma família que não o encara como um dos seus, transformam-no num pária e num criminoso culpado sem julgamento de um crime que não o é, apenas conseguindo recordar todos os seus bons e felizes momentos fora de um espaço que o odeia onde conseguiu, finalmente, encontrar não só a sua alma gémea como amigos que o aceitam tal como ele é.
Como alerta, e bem, o final desta curta-metragem, esta história aqui ficcionada poderá ser uma realidade bem perto de nós - geograficamente falando pelo menos -, onde países que condenam a livre expressão dos sentimentos, da sexualidade até mesmo dos afectos, detêm aqueles que ousam - segundo as suas leis - desafiar os costumes e as tradições de que um "homem ama uma mulher", sendo todos os demais comportamentos aberrações e desvios que têm de ser denunciados, detidos e punidos para uma "purificação" social que na realidade... não existe.
Assustador não só pela forma como todo um mundo de um indivíduo pode mudar radicalmente num breve instante, mas sobretudo pela forma como a ignorância e o preconceito podem cabalmente terminar com a tolerância e o respeito dando lugar a violentas formas de amedrontar, aprisionar e aniquilar a liberdade individual. Velduque, que já se havia destacado com o brilhante e emotivo Por Un Beso (2016), consegue uma vez mais entregar um sentido filme curto com uma poderosa mensagem social e interpretado por um expressivo, intenso e dinâmico Marius Praniauskas que consegue conferir uma sofrida alma a um jovem cujo "crime" foi querer viver.
Pertinente e actual enquanto cinema social, No Place Like Home confirma David Velduque como um realizador capaz de contar de forma simples, histórias complexas e actuais que pela forma ficcionada que assumem, podem levar o espectador a reagir aos problemas sociais que se encontram a cada virar de esquina.
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segunda-feira, 15 de maio de 2017

Nortik (2017)

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Nortik de Tiago Iúri é uma curta-metragem portuguesa de ficção exibida no âmbito das sessões mensais do Shortcutz Viseu,
Jane (Soraia Estrada) é encarregue de procura o cubo para estabelecer contacto. Ele (Wilson Capitão) é o fundador da Aristarco encarregue de lutar por um mundo melhor. Mas... que mundo?!
Tiago Iúri cria com Nortik uma das raras incursões cinematográficas portuguesas - pelo menos aquelas com evidente qualidade - no campo da ficção científica, entregando com esta curta-metragem uma história que coloca o espectador numa constante incerteza sobre o mundo (que mundo?) em que se encontra.
Numa atmosfera indefinida onde um ser é despertado de um qualquer sono profundo, temos a referida "Jane" como presente na activação de um holograma da Terra... A primeira questão coloca-se no momento quando o espectador tem de equacionar que a Terra - pelo menos como a conhece - já é, neste tempo cinematográfico, uma memória de um passado distante. Este pensamento faz ainda mais sentido se as primeiras palavras proferidas em Nortik vierem de imediato à sua memória, ou seja, "procuram um mundo melhor", deixando claro que aquele que existira... já não se confirma.
É aqui que entra "Jane"... o seu "despertar" confirma que este ser praticamente humano - poderíamos aqui facilmente utilizar a expressão humanóide -, desprovida talvez apenas de uma abstracta alma, procura o local onde a Humanidade (tal como fora?) estabelece as suas bases e crie novas raízes. O distanciamento ou potencial inexistência de um espaço capaz de suportar a espécie cai por terra quando, inesperadamente, ganha forma a existência de Nortik... planeta com uma temperatura potencial aceitável, uma estrela e sem lua mas que, no entanto, contém fraca percentagem de oxigénio e se distância a 111 anos de hibernação. E, mais tarde até, esta eventualidade de um novo "lar" é ainda confirmada com outro planeta mais próximo mas, ao mesmo tempo, com uma temperatura menos "aconselhável".
Da procura do tal mundo melhor - para o qual se desconhece quem o poderá realmente habitar - à existência de uma vida extra-humana aqui personificada por "Jane", um claro humanóide a quem tudo é possível salvaguardando assim a preservação da vida humana - que possa existir - Nortik exibe um claro piscar de olhos a obras como Blade Runner (1982), de Ridley Scott ou Ex Machina (2014), de Alex Garland onde para lá de um mundo futurista sob uma ordem diferente, é a ideia de "vida" que já não é definida sob os parâmetros que hoje conhecemos transformando-se portanto numa interessante abordagem à potencial forma como a mesma perdeu a importância para essa mesma ordem ou, por sua vez, adquiriu-a em demasia por ser (à semelhança de outras no nosso presente), a "actual" espécie em extinção transformando a sua segurança mais importante que nunca.
Mas, é para lá do seu argumento susceptível de muitas interpretações que reside a extrema qualidade de Nortik não só pela sua excelência técnica visível na direcção de fotografia que graças a esse poder do cinema consegue transportar o espectador para um qualquer planeta distante que fica, na realidade, já ao virar da esquina e ainda descaracterizar o próprio espaço para lhe conferir uma estranha "alma" podendo este ser em qualquer parte desse universo perdido onde a vida - a existir - ainda se anuncia primitiva e intocada por uma qualquer presença externa. A acentuar este ambiente temos ainda a direcção musical de Tiago Iúri e Tiago Fernandes que contribui para a criação de uma atmosfera muito típica do cinema série B dos anos '70 e '80 recentemente recuperada pela curta-metragem finlandesa Nightsatan and the Loops of Doom (2013), de Christer Lindström - com a qual, aliás, Nortik partilha uma agradável similitude -, rapidamente transformando-a num excelente exemplar do género.
Potencialmente inteligente e uma interessante forma de começar a explorar o género - e até esta própria história que está tudo menos "acabada" -, Nortik consegue a rara façanha de poder levar o espectador a imaginar outros mundos, outras aventuras e outros domínios ao mesmo tempo que se questiona sobre o futuro da Humanidade... da sua sobrevivência enquanto um todo bem como da sua resistência à própria existência enquanto ser de sentimentos, emoções, pensamentos e livre arbítrio.
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quarta-feira, 10 de maio de 2017

Non Toccate Questa Casa (2017)

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Non Toccate Questa Casa de Americo Melchionda é uma curta-metragem italiana presente na secção Internacional da nona edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorrem na Cantábria, em Espanha.
Durante o Mundial de Futebol de 2014 Itália enfrenta o Uruguai. Ao mesmo tempo a família de Filippo (Marco Marra) de doze anos vê-se a braços com o despejo da sua casa pelo excesso de dívidas por pagar. Enquanto o Giuseppe (Americo Melchionda) o pai, ameaça fazer explodir a casa, Filippo tenta encontrar uma solução vendendo a caderneta do Mundial de '82... mas falta o cromo de Gaetano Scirea.
Americo Melchionda para lá de realizador e um dos actores desta curta-metragem assume também as funções de argumentista em colaboração com Emanuele Milasi criando assim uma história que infelizmente ainda se encontra na ordem do dia ao criar mais uma das inúmeras histórias da crise económica que atingiu o sul da Europa nos últimos anos privando, dessa forma, o normal desenvolvimento social de tantas famílias que, de um dia para o outro, se viram sem a sua tranquilidade e despejados de todos os (poucos) bens que passaram vidas a construir. A casa, como o bem maior de todos, símbolo de estabilidade e segurança social é em Non Toccate Questa Casa o marco principal de uma luta que aparenta não só não ter uma resolução pacífica como pode igualmente representar o ponto principal de uma discórdia que se prepara para terminar de forma violenta.
A família, ameaçada pela desgraça económica e financeira bem como pelos seus imediatos carrascos nas figuras dos emissários bancários, sente já não ter nada a perder. Em vias de serem afastados da sua casa (ainda em construção) e encontrarem-se três gerações na rua sem qualquer forma de subsistir, só encontram uma solução... se saírem dali toda a casa será explodida impedindo de cair na mão de qualquer outra pessoa que possa assim continuar o sonho daqueles que a começaram. No entanto, enquanto este acto de violência extrema - não da família mas sim dos bancos sobre a mesma - se prepara para ser consumado, o clímax desta história encontra-se, no entanto, no rumo e nas acções do jovem "Giuseppe" que sente, em tão jovem idade, que pode fazer algo que irá transformar a vida da sua família para sempre.
Perdido e sem acção junto da sua família que vê em total desespero e num misto de vergonha e incerteza com o testemunho da sua desgraça pessoal por parte de toda uma vizinhança que apela em seu favor, "Giuseppe" decide encontrar a solução para todos os problemas da família tentando vender um bem máximo - seu - legado desde o seu avô... a caderneta do Mundial de '82 com a selecção de futebol italiana vencedora do torneio. Mas, quanto tenta solucionar todos os problemas da família descobre que lhe falta apenas um cromo para completar toda a colecção... ou talvez não falte. Na inocência da sua jovem idade em que pensa que num objecto ao qual dá tanto significado e valor pode residir a solução para todos os problemas desse "mundo dos adultos" que ainda não compreende, "Giuseppe" perde-se na ilusão de um mercado próximo dos seus amigos que jogam o desperto pelo qual tem tanta paixão.
Os instantes em que o jovem "Giuseppe" - numa brilhante e silenciosamente emotiva interpretação de Marco Marra - joga pela vitória, em que compreende a sua limitação face a problema grandes demais para que os entenda na sua totalidade e em que descobre que a sua luta não tem salvação possível, levam o espectador a conter as suas emoções ao assistir a toda uma transformação de uma jovem criança no homem prematuro em que se transforma. Naqueles breves instantes "Giuseppe" perdeu toda a sua inocência, todos os seus sonhos de criança que é, entrando prematuramente na dita idade adulta em que as expectativas, sonhos, ambições e desejos de quem ainda ousa tê-los, se perdem pela amargura de um mundo que não espera e que é implacável para todos os que anseiam ser um pouco mais do que aquilo que lhes está reservado.
Melchionda dirige uma história que, para lá da sua imaginação, contém todo um significado simbólico sobre aqueles que perderam tudo, principalmente a sua vontade de viver, num mundo onde as tramas financeiras os colocaram no seio de um desespero sem fim. Enquanto elemento presente de uma história que o próprio dirige, Melchionda cria com Non Toccate Questa Casa, uma atmosfera violentamente melancólica, desesperante até por momentos, e onde a realidade chega sem que seja convidada destronando e destroçando qualquer ilusão, sonho, perspectiva ou vontade revelando, neste que é a sua mais recente obra enquanto realizador, todo um potencial para contar histórias que podem não ser mágicas mas conseguem relatar os nossos dias.
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9 / 10
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quinta-feira, 6 de abril de 2017

Nenhum Nome (2010)

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Nenhum Nome de Gonçalo Waddington é uma curta-metragem portuguesa de ficção que conta a história do internamento de um homem após ter sofrido um acidente de automóvel e por quem a enfermeira que lhe dá assistência, desenvolve uma relação marcante mas, ao mesmo tempo, impessoal.
Sem qualquer tipo de diálogo, aliás, o único que se escuta está distorcido de forma a ser incompreensível, Nenhum Nome é uma curta-metragem para a qual o espectador terá de utilizar os seus demais sentidos principalmente a visão. Tudo deve ser observado... desde a forma como o homem que sofreu um acidente observa os primeiros instantes em que chega ao hospital ou até mesmo a forma impessoal com que este se apresenta distanciando os seus funcionários dos quais se destaca a enfermeira interpretada por Carla Maciel. A perspectiva de espaço entregue pela sua personagem é fundamental para que o espectador tenha uma percepção de que esta mulher, grávida de vários meses, se encontra num cruzamento entre a vida (que carrega) e a morte que a rodeia percorrendo de forma anónima e sem qualquer identidade todos aqueles corredores com inúmeras histórias sem nome - talvez uma alusão ao anonimato com que ela e aqueles que ajuda a curar se relacionam - revelando, no fundo, que todos estão relativamente abstraídos das demais realidades que presenciam diariamente.
Por outro lado, há pequenos indícios de que estas duas presenças sejam mais do que meros anónimos. Nenhum Nome inicia e termina de igual forma... com uma viagem por uma estrada numa noite escura. Uma viagem que parece não ter fim mas cujos viajantes se conhecem. Marido e mulher? Será aquele homem ali coberto de ligaduras o pai da criança que aquela enfermeira gera? Será ela a outra ocupante do automóvel? Será aquele hospital aparentemente desprovido de outros pacientes um purgatório - em terra?! - que os faz aguardar para uma nova passagem para outro lugar? Ali não existem nomes... nem pessoas... nem histórias... nem indícios de vida para lá da destas duas personagens. Nada indica que outros ali recorram ou sequer que ali estejam e apenas a chegada de um paciente faz adivinhar que estamos num hospital - com um breve cameo de Waddington - onde estas almas repousam, trabalham... ou esperam?
Com um intenso desempenho de Carla Maciel como uma mulher presa num limbo entre a vida e a morte (pensamos!), que faz tremer pelos seus silêncios e é cortante pelo seu olhar que penetra a alma de quem (a) vê, e uma direcção de fotografia de Carlos Lopes que "submerge" o espectador num ideal de purgatório - ou sala de espera?! - transformando aquilo que poderia ser um hospital numa superfície sem alma - ou por onde as almas caminham - fazendo apenas cruzar aquelas que (se) esperam por embarcar numa qualquer outra viagem... de carro rumo ao infinito, talvez!
Marco Martins e Gonçalo Waddington criam assim a história perfeita para o espectador contemplar. O que existe (ou existirá) para lá de uma presença terrena que pode terminar a qualquer momento? Iremos lá encontrar alguém que possamos reconhecer facilmente? Será que estamos realmente nesse outro universo que ninguém pode ou consegue descrever ou apenas num qualquer hospital onde se tenta recuperar de um inesperado acidente? Terá existido acidente? Estaremos à porta da morte? Continuará a existir vida para lá destas existências?
Entre o contemplativo e uma interpretação magistral de Carla Maciel, seria impossível esquecer e não mencionar a brilhante direcção de um magnífico actor que é Gonçalo Waddington que coloca os seus actores no centro de uma história dada à imaginação e à suposição dos seus espectadores, que transforma o ambiente real num potencial imaginado sem esquecer que tem uma história por contar e que (lhe) permite, pela sua incerteza, viajar pela imaginação mais ou menos "provocada" do espectador, por domínios que desconhece mas que acabam por se encontrar no tal "imaginado" de cada um de nós.
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8 / 10
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sábado, 18 de março de 2017

Nude Dudes (2014)

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Nude Dudes de António da Silva é uma curta-metragem portuguesa dirigida aquando de uma visita do realizador a Israel. Em Tel Aviv, António da Silva ficou hospedado em casa de Matan e Menache, dois homens que praticam nudismo na sua própria casa.
Da actualização dos seus perfis online como se de um ritual se tratasse à nudez explícita como parte de uma sexualidade desinibida entre ambos e seus convidados, Nude Dudes é um retrato de uma liberdade sexual e de consciência naquela que é considerada como uma das áreas "quentes" do globo.
Com narração de Rodrigo Peñalosa que dá sentido e voz àquilo que o espectador observa da dinâmica destes dois homens para com aqueles a quem cede alojamento e também deles para com a sociedade e comunidade em que vivem, Nude Dudes - como já é habitual na obra de António da Silva - vive essencialmente do lado voyeurista a que todas as suas curtas-metragens expõe do e para o espectador. "Entrar" num filme de António da Silva já não é segredo para o espectador que conhece o conteúdo das mesmas e que reconhece a sua participação enquanto realizador versus observador (participante), bem como a forma como consegue de forma descomprometida ilustrar e desmistificar uma vivência e uma sexualidade que pode ser inserida de forma curiosa no espaço em que ele se encontra.
Das divindades gregas que filma em Limanakia (2014) aos executivos concentrados de Bankers (2012) sem esquecer a sedução meramente carnal de Doggers (2015), também Nude Dudes é representativo de um espaço. De um parque a uma praia e desta a um wc público, Nude Dudes transporta o espectador para o suposto espaço idílico da Terra Santa revelando que existe mais vida para lá das ameaças de bombas ou de terrorismo e que a sexualidade é aqui vivida com uma aparente tranquilidade e normalidade expondo(-se) o desejo, o lado carnal e uma vivência de ambas tanto dentro como fora de portas.
Apesar de compreendida a mensagem que o realizador pretende aqui desmistificar, este lado mais "intelectual" de Nude Dudes perde-se com a exposição da atmosfera carnal sentida desde o primeiro instante, ou seja, se por um lado se compreende que existe uma tentativa de revelar que o espaço geográfico é tranquilo e que o amor/sexo existe com a maior naturalidade, não deixa de ser verdade que esta mensagem se perder dada a vertente exibicionista versus voyeurista que tem.
Intencionalmente provocatória mas com a habitual mensagem descomprometida sobre sexo e a sua vivência e experimentação, Nude Dudes perde-se um bocado devido à centralidade de duas personagens que estão... sem estar, ou seja, se por um lado são os dois companheiros de casa que se encontram no centro de toda a trama... cedo parecem desaparecer dos olhares do espectador que é levado a passear por uma qualquer praia israelita ficando, dessa forma, um pouco distante de outras obras do realizador mais preparadas para revelar um todo e não apenas um ou dois pequenos intervenientes.
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4 / 10
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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

The Night of the Living Dead 2: Case Zero (2016)

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The Night of the Living Dead 2: Case Zero de Cristobal Santana é uma longa-metragem independente espanhola intencionalmente criada como a prequela de Night of the Living Dead (1968) de George Romero.
Alicia viaja com a mãe para casa dos avós junto às montanhas. Uma vez lá chegadas, ambas notam estranhos comportamentos mas que, no entanto, associam à idade e ao isolamento sendo que algo se esconde por detrás de hábitos muito particulares.
Tido como a tal prequela de Night of the Living Dead mas com efeitos muito modernos para a ida década de 60 que aqui tentam imitar - de forma muito precária - a saga [REC], de Jaume Balagueró, este The Night of the Living Dead 2: Case Zero é um filme que desde os instantes iniciais se assume - ao espectador - como algo muito difícil de criar qualquer tipo de credibilidade, empatia ou coerência nos momentos que pretende recriar. Ora vejamos... falamos da suposta prequela de um título que ainda hoje, quase cinquenta anos passados, é ainda tido como uma referência do género e uma obra que marcou uma tendência que perdura nas suas mais diversas variantes. Sentida e compreendida - espera-se - essa responsabilidade, The Night of the Living Dead 2: Case Zero acaba por ser desde cedo uma obra que "marca" pela trivialidade, pelos momentos banais sem qualquer relevância para a história e tão pouco para o espectador que imagina que teria sido mais simples e fácil ter entregue a câmara a uma criança de cinco anos e largá-la num quarto escuro onde todos os demónios da imaginação ganhassem liberdade.
O efeito found footage claramente recuperado da obra já referida de Balagueró - e demais do género - e a suposta compreensão de que mãe e filha se dirigem para cuidar dos avós"doentes" e isolados são momentos já vistos e tidos vezes sem conta não revelando grande criatividade que possa atestar para a qualidade deste filme. Se a isto juntarmos o facto de perdermos perto de vinte minutos em que com elas "viajamos" sempre a seguir os pensamentos incoerentes de uma jovem adolescente com nada mais nos bolsos do que a saturação de ir visitar os avós então aquilo que aqui encontramos é algo que rapidamente faz o espectador atingir o seu ponto de saturação... Afinal, quem de nós aguenta estar durante mais de dois minutos a ver uma estrada a ser filmada?!
A isto juntam-se as tais imagens "verídicas não editadas" e aleatoriamente expostas como se afinal... tivessem sido convenientemente tratadas para credibilizar esta história que de credibilidade... nada tem. Momentos filmados pela propriedade sem nenhuma razão aparente... montanhas mais próximas também registadas sem nenhum fundamento ou explicação que levam o espectador a questionar-se de existiu, de facto, algum fundamento para esta captação de imagem ou se as mesmas conseguem de alguma forma contribuir para o desenrolar desta história que não só não é consistente per si como por muito que se tente não contém nenhuma ligação plausível para que o seu autor a queira apresentar como a tal "prequela" da obra de Romero ou mesmo reflectir sobre a necessidade de filmar um vão de escada, silêncios penosos - como aliás o é este The Night of the Living Dead 2: Case Zero no seu todo - ou acompanhar as incessantes subidas e descidas de escada numa viagem quase labiríntica por uma pequena propriedade que qualquer um de nós faria em menos tempo do que aquele que foi utilizado para filmar este... "filme". Entre uma cozinha, um quintal e um vão de escada o espectador pergunta-se... estará sobre o efeito de anti-depressivos?! Pois mais deprimente que isto é praticamente (im)possível...
Com interpretações - se assim as pudermos apelidar - (muito) amadoras, cenários tão deprimentes que nem obsoletos conseguem ser e uma fraca adaptação - mesmo que primária - do espírito apocalipse zombie, The Night of the Living Dead 2: Case Zero é uma tentativa nula que criar alguma simpatia, interesse, excitação ou menos ainda medo mantendo-se unicamente na índole de uma obra abusivamente apática - tal como as suas personagens -, sem graça e excessivamente longa na sua capacidade de nada fazer ou provocar. Por muito interessante que seja ter uma câmara na mão... nem todo o resultado final (?!) consegue ser um filme... muito menos uma referência no género.
Nem prequela, nem pré-prequela (...), nem introdução ou tão pouco uma variante do género... aqui temos apenas um realizador (???!!!) que tentou fazer um filme do seu quintal... e dizer que ele estava repleto de zombies que, por falta de orçamento, o espectador nunca consegue ver...
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