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sexta-feira, 26 de abril de 2024

Abigail (2024)

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Abigail de Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett (Irlanda/EUA/Canadá) e com argumento de Stephen Shields e Guy Busick é uma longa-metragem que revela a acção de um grupo criminosos que resolve raptar a filha de um poderoso magnata para reclamar um elevado resgate. Mas quando Abigail (Alisha Weir) é deixada sozinha num quarto estranhos acontecimentos ocorrem pelos corredores da misteriosa mansão em que se esconderam.
Provido de um trailer que capta de imediato a atenção dos cinéfilos fãs do género em questão, este Abigail assume que não é mais do que aquilo a que de facto se propõe. Cedo o espectador compreende que vai estar perante uma história que promete alguma acção, alguns sustos, alguns cenários mais ou menos elaborados mas um argumento que, na prática, não irá muito mais além do típico "filme-pipoca" que habitualmente surgem na época mais estival. Comecemos pelo óbvio e quase enternecedor momento em que assistimos a uma jovem numa suposta "audição" de ballet enquanto uma mulher a espera numa qualquer viela por perto. O segmento tem tanto de calmo como de perturbador pois é imediatamente percebido que dali nada de tranquilo irá chegar e que estas personagens têm mais camadas do que aquelas que inicialmente se revelam ao espectador e, ainda que excessivamente tipificadas mais não sendo do que réplicas de tantas outras em longas-metragens do género, eis que nos encontramos com algum interesse em conhecer o que têm "de novo" para nos oferecer.
A estas duas personagens iniciais, a "Abigail" de Alisha Weir e a "Joey" de Melissa Barrera que se anuncia e assume como a involuntária protagonista de uma história que compreendemos ir ser a única sobrevivente - calma... não estou a revelar nada que não se consiga perceber ao fim de trinta segundos - eis que se amontam todo um conjunto de outras personagens igualmente tipificadas que serão a chamada "carne para canhão" daquilo que está porvir. O polícia caído em desgraça, o militar com os negócios escuros da praxe, a menina rica que decidiu ser hacker, o psicopata de serviço que parece estar a dar as últimas e um qualquer segurança privado que aparenta querer ter coração no mais impróprio dos locais. Todos eles sacrifícios para o banho de sangue que se espera... e que todos nós sabemos que está prestes a rebentar a qualquer momento. Mas... há custa de que sacrifício? Quais os motivos deste (in)esperado grupo de marginais estarem todos no mesmo local, à mesma hora e com o mesmo propósito? Alusões ao Rat Pack à parte - nenhum consegue ser assim tão icónico -, as suas justificações e motivos estão, também elas, ao virar da esquina e são tão óbvias ou desesperadas que qualquer um de nós a identifica nos argumentos de outras histórias do género que já foram originais noutros tempos e que conseguiam captar a atenção dos mais distraídos mas que aqui são apenas lume brando para dar continuidade a uma história que pouco sumo tem e da qual se consegue perceber o final desde que qualquer uma destas personagens disse "olá".
Sem esse grande, ou vá.. pelo menos inesperado argumento... e com um conjunto de personagens obviamente esperadas e pouco originais, Abigail apenas consegue alguma "luz" - ironia à parte - com o seu cenário e decoração bem construído e convincente para aquilo que seria de esperar para uma história deste género não conseguindo, no entanto, que seja o suficiente para se destacar enquanto uma obra de referência mesmo dentro do género... duvido que algum de nós se recorde desta longa-metragem daqui a meia-dúzia de meses sendo apenas o "suficiente" para os propósito do "agora". Não querendo elaborar grande argumento sobre a protagonista Alisha Weir ou sequer para o tão pouco convincente que é a sua interpretação e muito amadora caracterização, resta-me apenas deixar um apontamento (que será cómico quando o espectador o observar) sobre a mesma que não irá assustar ou impressionar mas sim criar a incredulidade sobre o quão pouco pensada terá sido para se deixar levar desta forma para uma obra dita "finalizada".
O trailer é interessante... o cartaz também... a premissa ainda que não seja inovadora consegue sempre atrair o seu nicho e juntar uns quantos fãs mas, no entanto, não se pode viver apenas da promessa mas sim daquilo que se consegue concretizar e aqui foi tudo muito pouco... mesmo a breve participação de um Matthew Goode que já fez mais e melhor com muito menos mas que aqui apenas conseguiu chegar ao patamar de um cómico não propositado que satisfaz para o momento e pouco mais para além disso.
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6 / 10
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sábado, 2 de setembro de 2023

Alone (2020)

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Isolado de Johnny Martin (EUA) é uma, mais uma, das inúmeras obras cinematográficas que surgem no seguimento não só de um género como de um que é agora alimentado pela onda pandémica da COVID-19 que recentemente a todos nos afectou.
Aidan (Tyler Posey) fica barricada no seu apartamento depois de um estranho vírus afectar a popilação mundial. À medida que o tempo passa e o racionamento de alimentos atinge o seu limite, Aidan vê-se impossibilitado de sair de casa enquanto os Screamers ocupam não só as ruas como também os corredores do bloco do seu bloco de apartamentos. Quando toda a esperança falha, existirá algo pelo qual ainda lutar?
Ainda que muito fresca na memória colectiva, a pandemia da COVID-19 haveria de começar a dar os seus frutos no cinema. Se por um lado a temática não é nova recriando mais uma história de infectados que dominam as ruas de todas as cidades, não deixa de ser curioso que esta em particular tenha saído no ano da própria pandemia. Então o que observamos nesta história que seja, talvez não novo, mas curioso de uma perspectiva social?! Logo à partida consigo identificar três elementos. O primeiro não necessariamente uma novidade mas talvez algo invulgar de verificar no género é o facto de ainda que ausente de conhecimento de uma forma geral, o protagonista "Aidan" (Posey) ser alguém que nos primeiros dias do contágio e da propagação da infecção consegue ainda ter alertas sobre os relatos noticiosos e do avanço da estranha pandemia que assola a comunidade. Não é comum nestas histórias que a comunicação social "resista" tanto tempo sendo até, de uma forma geral, um dos primeiros elementos da sociedade que acaba por falir de forma quase ruinosa. Atrapalhadas ou bloqueadas as comunicações e informações... mais rapidamente se propaga a infecção...
Esta continuidade informativa proporcionada também pela existência de uma rede energética (é certo que percebemos que é propositada para que algumas das acções da personagem de Posey possam ter crédito), possibilita a "Aidan" que faça o seu registo de resistente face a um mundo que está à beira de colapsar. O seu vídeo/registo de memórias para uma posterioridade - que poderá não existir - conferem ao espectador um certo conhecimento da dinâmica familiar que existira antes da hecatombe. Uma família unida que agora, o seu último elemento, compreende já não voltar a ter. As memórias que servem apenas como um desabafo de quem sobrevive e, quem sabe, um registo da sua existência num mundo que não voltará a ser o mesmo mas, ainda assim, questiona-se o espectador sobre qual o seu propósito - talvez apenas e só terapêutico - quando a própria rede de energia irá falhar e ninguém lhes poderá ter acesso?!
Finalmente, e ainda que seja um elemento recorrente não é (ainda) uma presença constante nas obras do género, o facto destes infectados (não mortos-vivos) que mais parecem vítimas de um qualquer cataclismo natural que afectou o seu discernimento e capacidade de raciocinar sobre o bem e o mal (uma vez que tentam alimentar-se dos ditos não-infectados), aparentarem ter uma qualquer réstia de consciência que lhes confere uma breve noção de que algo está mal não conseguindo, no entanto, resistir ao impulso maior de atacar indiscriminadamente.
No seio de todo um colapso social, informativo e organizacional, Alone acaba por revelar a reflexão a partir do seu próprio título... como reagir a um mundo no qual nos encontramos totalmente solitários. Não existe nada nem ninguém que alguma vez conhecemos. Tudo ruiu sem cair. Tudo morrer sem desaparecer. Não houve oportunidade para o luto. Não houve despedidas. Viver em nome de quê? Com que propósito? Para quem? É apenas quando uma última esperança chega no seio de um momento fatal - o aparecimento de uma sobrevivente em "Eva" (Summer Spiro) e da curiosa alusão aos seus nomes... "Aidan" e "Eva" - que o nosso protagonista pensa - afinal - que talvez a vida será melhor de preservar do que desaparecer sem deixar qualquer rasto para um mundo que (talvez) possa ainda existir... mais não seja pela fecundação futura do mesmo.
A esperança não morre... morre todo o demais planeta incluindo os poucos registos de sobreviventes que ainda conseguimos encontrar (assombroso Donald Sutherland e o seu "Edward" que revela, uma vez mais, que no meio de uma crise... a Humanidade deserta deserdando qualquer um de nós da consciência que em tempos sãos nos caracteriza), e a única certeza para lá do óbvio mundo que não voltará a ser igual é que as sobrevivência (ou a morte) não será tão amarga agora que um tem a presença do outro para ora dar esperança ora alento num potencial momento final.
O realizador Johnny Martin e o argumentista Matt Naylor falham apenas num elemento primordial para estas histórias... Todos nós que seguimos o género compreendemos que nem sempre se conseguem "fechar" estas histórias que, regra geral, têm um final aberto possibilitando a cada um de nós olhar o futuro (ou o que resta dele) da forma como cada um de nós quiser... no entanto este Alone pega no impossível e faz do final desta narrativa um momento quase absurdo ao conferir ao dois resistentes uma sobrevivência que em nada faz antever o futuro. Depois de uma luta intensa para chegarem ao seu porto seguro... eis que caem no chão e tudo termina... Se era para desistir ali... mais valia ter fechado a porta uns instantes antes e deixar a mente do espectador navegar pela incerteza de que "talvez" alguém não resistisse a um caminho cheio de tantas ameaças. Se o filme tinha conquistado alguma coerência e até suspense na atmosfera que havia criado, é o final que o lança num rumo de obras inacabadas e impossíveis de recuperar... afinal, quem iria querer ver uma sequela de algo que... parece ter terminado como terminou porque se investiu demais no restante filme e agora... já não existia mais capital.
De dinâmico e com um ritmo intenso - exceptuando as caracterizações dos infectados que... poderiam ser melhor elaboradas - e até mesmo um intenso registo da solidão de um sobrevivente para quem o "amanhã" parece não existir, Alone parece querer encerrar o capítulo apocalipse para dar lugar a um romance não concretizado quando, na realidade, poderia ter dado corpo aos dois factores. Vale pelos primeiros oitenta minutos e deita tudo a perder nos últimos cinco. A ambição da história foi interessante mas não se lhe conseguiu dar a devida atenção e cuidado. Com um Donald Sutherland igual a si própria e a constituir-se como um dos elementos mais fortes desta longa-metragem - todos nós sabemos desde o primeiro momento em que o vemos o que dali vem -, e um destaque positivo para a interpretação de Tyler Posey durante toda a primeira metade do filme, Alone deixa-nos, na realidade, com uma sensação de que realmente estamos sozinhos... não num apocalipse mas na esperança de que a dupla realizador/argumentista tivessem dado mais credibilidade a um final sem sabor.
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4 / 10
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quinta-feira, 18 de maio de 2023

Après l'Orage (2022)

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Après l'Orage de Brice Veneziano (França) é mais uma das curtas-metragens presentes na competição oficial Internacional da décima-terceira edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos a decorrer na Cantábria, em Espanha até ao próximo dia 20 de Maio.
Depois de mais uma discussão com o pai, Enzo (Raphaël Géron) sai de casa e vai passear com o amigo Arthur (Sidney Kheddam). É quando decidem atirar a bola de futebol aos carros que passam provocando um acidente que os passageiros do mesmo atacam violentamente Arthur enquanto Enzo escuta escondido e se prepara para o mais violento confronto de todos com Marco (Sagamore Stévenin), o seu pai.
A tensão entre "Enzo" e "Marco" surge desde cedo nesta narrativa para que o espectador a compreenda como o foco principal de tudo o que poderá estar por acontecer. Mais, os instantes iniciais denunciam de imediato a falta de qualquer amabilidade ou afecto entre pai e filho ao ponto de podermos até considerar que para lá de indiferença, existe sim um ódio quase inexplicável entre ambos. Mas, quando atentamos aos comportamentos e ao ambiente que existe por entre aquelas quatro paredes, não se torna muito complicado de identificar o que realmente está em falta naquele que outrora fora um lar. A ausência de uma mãe que o espectador identifica como recentemente falecida, foi o incontrolável elemento que abanou as estruturas daquela casa e, sobretudo, a tensa relação que agora se faz sentir entre um pai e um filho cada vez mais distantes. Se por um lado compreendemos que "Marco" é alguém mais rígido dentro daquela casa - eventualmente sempre o fora -, muito também graças à sua profissão enquanto agente da autoridade, não será também incorrecto afirmar que foi esse súbito desaparecimento da mulher que o levou a um consequente afastamento do filho que, em boa medida, representa o único elemento da sua presença ali. Então coloca-se a grande questão de... como agir agora perante alguém que o faz recordar o que já não tem?! Aliás, reveladora é a postura de "Marco" perante a revolta do pai de "Arthur" quando descobre que ambas as crianças estavam juntas quanto "Enzo" escapou â agressão dos automobilistas deixando o amigo para trás... "Marco" observa tudo à distância... a violência sobre o seu filho parece não o afectar... aliás, estará ele a permitir que o filho seja sancionado de uma forma que o próprio se sente incapaz de fazer?
Por sua vez "Enzo" entra numa espiral de perda. Uma criança que se viu sem o seu mais forte alicerce na figura da mãe, agora desaparecida e que o "deixou" com um pai relativamente ausente devido à sua profissão. "Enzo" perdeu, e perdeu-se, num rumo que não se consegue adivinhar qual o fim mas que se compreende pela mágoa e angústia de uma criança que não sabe como reagir a esta sua nova realidade. Incapaz de manifestar a sua solidão e tristeza junto de um pai que também não consegue demonstrar-lhe afecto ou amparo, o jovem vive nas suas pequenas fugas com o seu melhor amigo a única possibilidade que tem de encarar mais um dia onde já nada tem para perder a não ser, eventualmente, o que lhe resta da sua inocência. Os dois amigos, de forma inconsequente ou até impensada, limitam-se a deambular pela realidade de uma pequena vila do interior onde o mundo teima em não passar e o tempo abrandou sucessivas vezes deixando-as de braço dado com uma constante lembrança do que se perdeu.
É então que, neste ambiente de perda, distância e até mesmo alguma violência que começa por ser psicológica (em casa) e física (na sobrevivência sobre aquilo que está para lá das suas quatro paredes) que os dois protagonistas sobrevivem (ou tentam...), desconhecendo o dia de amanhã ou o que o futuro lhes poderá ainda reservar... um ainda mais distanciamento? Um ódio crescente? O encontrarem no "outro" o motivo da sua perda? Existirá alguma hipótese de redenção? Uma compreensão de que são, um para o outro, o único alento que agora têm?! Depois da trovoada, numa tradução literal mas que é principalmente figurativa do estado de espírito e de alma daquelas duas personagens, remete-nos sobretudo para a necessidade - ou tentativa... - de compreender que depois desta perda e da sua respectiva aceitação, existe algo mais. Algo mais que o espectador desconhece, nem tão pouco precisa de o saber, mas que os momentos finais entre os dois protagonistas poderá abrir caminho para esse rumo esperado entre ambos. Existirá algo melhor? Esperamos e desejamos que sim mas, no entanto, não nos compete saber e deixá-los sim no seu próprio espaço trabalhar essa redenção e esse aceitar de que agora só ali estão os dois... um para o outro... entregues a um destino desconhecido mas que é, até prova em contrário, o único que agora têm e que necessitam de lhe conferir estima, dedicação e afecto... tudo aquilo que até àquele exacto momento lhes tem faltado. O futuro poderá ser melhor... mas nós, espectadores, nunca o saberemos... apenas o podemos equacionar enquanto tal. E isso basta-nos.
Dotado de uma belíssima direcção de fotografia que com a sua oscilação e ausências de luzes e cores nos faz transportar para as diferentes dinâmicas psicológicas das duas personagens principais, são sobretudo as duas interpretações protagonistas de Géron e Stévenin que fazem criar luz nesta curta-metragem que para lá de uma história de redenção entre um pai e um filho que há muito que não se olhavam ou comunicavam está sim um conto sobre o crescimento forçado de duas figuras que, independentemente da sua idade, tinham deixado de avançar no tempo sem que, no entanto, este alguma vez tivesse parado.
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8 / 10
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quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Amulet (2020)

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Amulet de Romola Garai (Reino Unido/Emirados Árabes Unidos) presente nesta invulgar edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa a decorrer no Cinema São Jorge revela a história de Tomas (Alec Secareanu), um veterano da guerra nos Balcãs agora sem-abrigo em Londres ao qual é oferecido santuário numa misteriosa casa onde reside Magda (Carla Juri) e a sua mãe, ausente dos olhares mais indiscretos. À medida que Tomas demonstra cada vez mais interesse por Magda, também as suspeitas sobre o que sucede no sótão da casa ganham vida deixando no ar a suspeita de que existe algo mais que os acompanha.
Inicialmente apresentado em dois distintos momentos - o primeiro ainda nos Balcãs no decorrer da guerra e o segundo já na metrópole britânica -, este Amulet ganha uma imediata nuance mística quando o espectador é surpreendentemente apanhado nas tramas de um conflito que de sobrenatural nada teve mas que aqui serve como pano de fundo para observamos as experiências de vida que seriam, à partida, estranhas para qualquer uma destas personagens que se viram envolvidas na mesma. Nuance essa que, ainda que fazendo parte de todo um segmento "passado" não só é determinante para o desenrolar da história futura como principalmente para expôr a personagem principal interpretada por Secareanu e todo o seu trama existencial que transcende aquele que a guerra lhe conferiu.
Assim, e voltando um pouco a este momento passado, "Tomas" é um guarda fronteiriço num local onde as fronteiras eram, até então, inexistentes. Perdido no meio de nenhures tendo como única companhia a densa floresta que o rodeia e os livros que lê, é quando uma mulher desesperada corre na sua direcção que a sua vida irá subitamente ganhar toda uma nova dimensão. De um companheirismo que a solidão gerou a uma compreensão de que o mesmo não poderá ser eterno, é esta inesperada dinâmica gerada onde o mundo parece não ir mais passar que todos os momentos e sobretudo todas as acções ganham vínculos inquestionáveis para o futuro daqueles que atravessam aquele momento em concreto.
A unir este momento temporal na história de "Tomas" àquele da sua vida em Londres encontra-se apenas um único elemento... o amuleto. Não que este o tenha acompanhado para esta sua nova vida na capital britânica mas é o pacto silencioso que o mesmo transporta que testemunhou as suas acções passadas e presentes e que o obriga a um futuro inesperado que pouco terá de redenção mas sim de gerador daquilo que espera o mundo num sentido lato. Agora em Londres, "Tomas" é uma ínfima miragem do homem que fora. Sem-abrigo, perdido e sem companhia, trabalho ou forma mais ou menos segura de subsistência, aquilo que o vincula a uma existência - se assim o poderemos chamar - é o peso que o passado ainda exerce na sua memória impossibilitando-o de avançar mas, ao mesmo tempo, de lhe conferir a oportunidade de um fim auto-imposto. Existe um pacto. Um pacto tido (talvez) com o amuleto, com a obrigação de recordar esse passado ou ainda um predestinado para com o futuro que o espera.
Se a vida de "Tomas" fora, até um momento específico, a penitência de um homem sobrevivente - à custa de quê sabemos muito lentamente -, é quando encontra "Magda" que recupera um certo sentido de vida que até então havia perdido. A co-habitação num espaço que está tão decadente e degradante como as vidas que o habitam, parece ser o garante de que um futuro é, agora, possível. Mas, a grande questão que é então colocada é... até que ponto? Ou se preferirmos... a que custo?! Se a vida parece ganhar um novo sentido para ele, é a sua convivência com "Magda" que lhe revela que o passado ainda não cobrou o seu preço e que muito brevemente o fará... e não será piedoso.
Aos poucos "Tomas" compreende que o mal existe. Que é real. Que espreita a cada momento e que irá reclamar um preço... o preço do passado. Um passado que não ficou esquecido, que tem as suas consequências e que teve as suas vítimas. Um passado que enviou os seus executores (ou carrascos!) e que irá fazer as suas cobranças e forçar as suas punições. Se "Tomas" se revelou como uma inicial vítima de um conflito com o qual ninguém contava e que gerou fatalidades dos vários lados do conflito, foi também real que para estas existirem foram os carrascos de eleição que tomaram as rédeas do mesmo ameaçando os dois lados de uma "fronteira" criada e aprisionando aqueles que indefesos a tentavam passar. Se é verdade que o passado espera na sombra para depois cobrar a sua dívida... Amulet revela que o mesmo o fará sob as mais diversas formas.
No que ao sobrenatural diz respeito... esta longa-metragem revela-se pelo tradicional ao exibir esse "mal" sob a forma de demónios - que serão assumidamente o mais frágil da exposição desta história ou, pelo menos, sob o ganhar forma/corpo dos mesmos - deixando, no entanto, uma interessante premissa (não nova mas ainda assim interessante) de que a violência deu origem ao pecado e este, por sua vez, ao mal que espreita para ganhar espaço no mundo dos humanos aperfeiçoando-se aos poucos até poder estar, um dia, indetectável entre todos e encaminhado pelos seus protectores. A redenção... essa terá de esperar por outro dia, ou por outras mãos, mesmo que estas apenas confirmem de que uma qualquer espécie de justiça já ocorreu... mesmo que testemunhada por poucos e executada em silêncio.
Com uma simpática componente técnica e visual que destaca as nuances, as sombras e os "segredos" desse mal que espreita, Amulet consegue criar dois filmes dentro de um só nunca aperfeiçoando nenhum mas deixando o espectador claramente interessado num único... ou o antes... ou o depois... ficando a junção dos mesmos com um leve travo amargo que promete mas não chega a cumprir.
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6 / 10
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quinta-feira, 9 de julho de 2020

Altitude (2019)

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Altitude de Nicole Scherer (Áustria) é uma das curtas-metragens presentes na competição oficial de Ficção da sétima edição do Leiria Film Fest.
Sarah e Thomas escalam uma montanha. À medida que a altitude é maior, os seus pensamentos desviam-se para uma realidade que desconheciam. Irão eles conseguir chegar ao seu destino?!
"O caminho da mente é o desvio"... assim começa esta história que inicialmente se apresenta como um potencial conto sobre os altos e baixos de uma relação amorosa, cedo se revela e transforma num relato assombroso sobre a descida - ironia à parte - às profundezas da mesma, da mente humana... ou até do (seu) próprio Inferno.
Tudo começa com uma escalada. Aqui acompanhamos um casal enquanto tentam chegar a uma cabana para um fim-de-semana (julgamos) romântico. Lentamos, e pela percepção que ambas as personagens nos transmitem, percebemos que esta escalada atravessa os limites pensados... a cabana nunca mais está ao seu alcance ainda que a altitude em que se encontram seja cada vez maior. Lentamente não só a paciência como o cansaço - físico e mental - manifestam-se e dão lugar a um sentido desespero que nenhum consegue esconder. Nas parcas palavras que trocam nota-se algum desdém e saturação e fisicamente compreende o espectador que o corpo (e a mente) começa a dar os primeiros sinais de um desgaste acentuado. A altitude - geográfica - permite que a sua imaginação comece a trabalhar por vontade própria e as alucinações ganham a sua própria forma manifestando-se cada vez mais violentas ao ponto de "Sarah" e "Thomas" - e até mesmo o espectador - se questionarem se aquilo que estão a ver e sentir será ou não real...
Num misto de terror paranormal e terror psicológico, Altitude manifesta várias questões que o espectador identifica ao longo do decorrer de factos que funcionam como sinais de alerta... Por um lado é fácil recorrer à ideia de que todos os acontecimentos surgem como sinal de uma privação de oxigénio (pela altitude) que provoca reacções no cérebro das duas personagens... privados de um pensamento racional e momentaneamente alheados da realidade, ambos reagem conforme aquele pouco "juízo" que lhes resta dado o momento, a situação e o ambiente em que se encontram. No entanto, nem só de racionalidade (ou falta dela) chega uma explicação plausível... poderá este casal aparentemente feliz pretender um fim-de-semana longe da vida dita "real" para resolver problemas conjugais latentes e que podemos - pelos acontecimentos do momento - justificar como traumas para ali levados? Poderá esta viagem ser mais do que um simples retiro? Poderá ser ela o último reduto de algo que está prestes a terminar? E se terminar... de que forma se irá manifestar?
Finalmente, e porque nem sempre a lógica funciona como uma história potencialmente "normal" no seio de uma relação, Altitude deixa a margem de manobra suficiente para que o espectador se sinta inserido numa história de terror tradicional onde por detrás de todas as sombras e recantos de uma montanha - e da floresta que se encontra ao seu redor -, esconde-se um "mal antigo" prestes a "ocupar" um hospedeiro mais frágil dando lugar a todo um conjunto de momentos e perturbações que nele, e através dele , se manifestem seduzindo os inocentes e levando-os para o outro lado da luz... sabendo que tudo "termina" pela confirmação de algo mais óbvio que tanto eles (como nós) procurávamos afinal... esta curta-metragem confirma que existe um desfecho preparado para cada um de nós dependendo da sua mais ou menos imediata compreensão daquilo que pequenos sinais deixam transparecer.
Terror psicológico/real versus terror paranormal... a cada espectador de decidir aquilo que as suas próprias memórias de grandes filmes ou séries de culto o fazem recordar transformando toda a experiência de Altitude como uma celebração desses demónios que sobrevivem nos filmes do género e que nós enquanto fãs dos mesmos recordamos e aos quais damos "vida".
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8 / 10
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Amador (2019)

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Amador de Carlos Polo (Espanha) é uma das curtas-metragens presentes na competição oficial Ficção da sétima edição do Leiria Film Fest que este ano decorre num formato online devido à situação de emergência sanitária do COVID-19 naquela que se assume como uma das mais intensas histórias deste ano.
Ele (Israel Elejalde) encontra-se numa loja de brinquedos. Fala ao telefone com a mulher que o questiona sobre o seu atraso. À saída, um encontro com um homem mais novo. O futuro está prestes a vingar uma acção do passado.
Depois de Trato Preferente (2014) nomeada ao Goya da Academia Espanhola de Cinema e de Hogar Dulce Hogar (2017), Carlos Polo regressa com uma história que, uma vez mais, se aproxima de potenciais realidades da sociedade contemporânea que o cinema consegue retratar com um olhar clínico mas, ao mesmo tempo, dotados de uma sensibilidade que, aqui muito concretamente, não nos deixa criar empatia com o protagonista mas sim repudiá-lo quando o vemos como um homem como qualquer outro mas com um segredo que o distancia dos demais pela monstruosidade dos seus actos.
Esta realidade faz-nos conhecer um homem como qualquer outro. Um homem como uma aparente vida familiar estabilizada que, por entre todos os problemas matrimoniais que possam existir, se concentra no bem-estar que criou com o seu núcleo familiar. No entanto, cedo compreende o espectador que existe um segredo escondido que coloca em causa toda essa aparente normalidade. O homem não se encontrava naquele local por acaso... existia um encontro. Um encontro marcado com um homem mais jovem assumindo assim o espectador que existe uma vida dupla e que aquele homem - numa magnífica interpretação Israel Elejalde - que em tempos assumira uma vida dita normal perante a sociedade reprimiu, ao mesmo tempo, todo o seu desejo homossexual o qual satisfaz em pequenos e fortuitos encontros longe dos olhares dessa mesma sociedade que abraçou.
Mas, é quando tudo corre mal e este encontro dá lugar a um momento tenso e violento que se compreende que nem este encontro foi casual nem tão pouco o desejo daquele homem é simplesmente algo homossexual. O jovem revela um desejo de vingança por um passado que nunca é explicado. O encontro dá lugar a um assalto e este a um momento de tensão e violência pouco explicados e que permitem apenas a sugestão por parte do espectador mais atento a pequenos detalhes que podem indiciar o que une estas duas personagens entre si. A violência, inicialmente física, cedo se manifesta como uma vingança psicológica de um passado temporalmente distante mas ainda presente na mesma do jovem que opta por privá-lo de todos os seus bens no momento. Apenas resiste um peluche que a personagem de Elejalde comprar para o seu filho antes de se encontrar com o seu jovem companheiro.
Das promessas de amor firmadas junto da sua família a uma vida que o espectador até poderia identificar como a de alguém que cedeu às pressões sociais da família, dos amigos e até mesmo da comunidade, é na dinâmica tida com o filho que se compreende que este homem poderá esconder algo mais. Uma vez inserido na vida social do seu filho, é então que se aproxima o choque e a repulsa do espectador, agora sim esclarecido sobre as reais intenções deste homem e, sobretudo, sobre o seu passado e a relação que o uniu ao seu assaltante deixando a este último todo um trauma psicológico que, mesmo passados anos, nunca fora ultrapassado.
A realidade aqui presente desmonta todo um perfil sobre os predadores sexuais que se escondem por detrás de rostos aparentemente comuns que qualquer um de nós pode ver a qualquer instante nas nossas ruas, deixando o espectador com todo um conjunto de interrogações primeiro sobre as já mencionadas pressões exercidas pela sociedade e pela comunidade que esperam e vão delinear o rumo da vida de cada um - a heteronormatividade com o casamento,a família e a paternidade a si associados versus o exercício da verdadeira sexualidade - e, por sua vez, o entendimento do espectador que aquele homem que inicialmente fora pensado como alguém que escondia e reprimia a sua sexualidade mais não era do que um perigoso predador que vive(ra) na sombra e que era causador de inúmeros ataques a vítimas inocentes. Um predador e um pedófilo que, tal como uma aranha, foi pelo menos uma vez preso na sua própria teia... até quando?!
Intenso conto dramático sobre um terror escondido por detrás dos aparentemente mais "normais" rostos, em Amador Israel Elejalde tem uma fortíssima interpretação que, enquanto tal, o espectador compreende a sua magistralidade mas que, enquanto retrato de um perigoso rosto, consegue provocar todo um conjunto de igualmente intensas e desconfortáveis sensações primorosamente apuradas por uma realização segura e fria do realizador espanhol que aqui seguramente entrega uma das suas mais dedicadas (e delicadas) obras de formato curto.
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9 / 10
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terça-feira, 26 de novembro de 2019

Alien: Containment (2019)


Alien: Containment de Chris Reading (EUA) é uma das curtas-metragens realizadas no âmbito dos quarenta anos da saga Alien iniciada em 1979 por Ridley Scott.
Depois de uma quebra na quarentena na nave em que viajavam, quatro sobreviventes a bordo de uma pequena cápsula tentam compreender se escaparam ilesos ou se um deles transportam um inesperado ocupante.
Na tradição destes pequenos contos complementares à história "mãe", Alien: Containment consegue em dez breves minutos recuperar o medo claustrofóbico que os seus predecessores criaram e num espaço que o próprio espectador nunca chega a reconhecer na sua totalidade - apesar dos diversos elementos  visuais e sonoros que nos transportam para a saga original - é real a tensão da incerteza sobre que rodeia quem, sobre os traumas que podem ter ficado de um momento de terror que acabaram de viver (e o qual compreendemos de imediato com a destruição da nave em que viajam) e sobretudo sobre o estranho "ocupante" que pode estar escondido no veículo aparentemente mais insuspeito.
Curioso enquanto um potencial filme-projecto introdutório a uma história mais evoluída e desenvolvida pois existe sempre a curiosidade do que está para lá do "Do Not Open" final, este Alien: Containment sofre apenas dessa incapacidade - pela própria duração do filme - de ir mais além na sua narrativa e explorar o que poderá ter acontecido dentro da nova nave para a qual se dirigem e que os recolhe. Afinal, não é da natureza humana descobrir o que está para lá do suposto aviso e proibição?
Finalmente fica ainda um apontamento positivo para a direcção de fotografia de Howard Mills que consegue, quarenta anos depois, recuperar muito do espaço visual do título original que se observou em Alien transformando sombras em momentos ocupados pelo tal "algo" desconhecido compreendendo, o espectador, que esse tal passageiro se esconde nas mesmas observando e estudando a sua próxima vítima.



7 / 10

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Alien: Ore (2019)

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Alien: Ore de Kailey Spear e Sam Spear (Canadá) faz parte de um conjunto de curtas-metragens dirigidas no âmbito do quadragésimo aniversário da longa-metragem Alien (1979), de Ridley Scott e que aqui nos transporta uma vez mais para o imaginário que encontrámos nas primeiras entregas desta saga.
Lorraine (Mikela Jay) anseia por uma vida melhor para a sua família. Quando no início do seu turno nas minas é encontrado o corpo de um colega, ela vê-se forçada a optar por fugir de um inimigo desconhecido ou ficar naquele lugar garantindo, dessa forma, a segurança da sua família.
São breves os instantes desta curta-metragem, que ultrapassa em muito pouco os dez minutos de duração, mas que, no entanto, consegue captar nos mesmos toda a dinâmica de claustro e de medo que foram conferidos há quarenta anos a esta saga. Temos, como tem sido recorrente desde Aliens (1986), de James Cameron, a dinâmica familiar onde valores mais altos que o da segurança própria se impõem para a defesa da continuidade da espécie (humana) que a tudo se sujeita para que o já nosso conhecido alien não ultrapasse as fronteiras que os protagonistas se colocam como aquelas que são intransponíveis. Aqui é a protagonista interpretada por uma destemida Mikela Jay secundada pelos seus parceiros da mina que se impõe como a última barreira entre o alien e as suas famílias que esperam "lá em cima" fora de uma mina e num espaço habitacional bem mais simpático. Ao recusar seguir caminho para uma atmosfera mais respirável e ir ao encontro da sua família por quem, na prática, luta por uma vida melhor, a sua "Lorraine" opta por enfrentar o perigo e tentar barrar-lhe o caminho permitindo que a sua prole sobreviva pelo menos mais um dia.
Juntamente a esta dinâmica familiar que acabamos por encontrar em várias das obras da saga bem como nas suas "irmãs" tidas como menos populares a cargo da dupla Alien vs. Predator (2004 e 2007 respectivamente), é aqui também de notar a vertente da empresa tutelar das malfadadas minas que tem a sua própria agenda para os intrigantes alien - a indústria de armamento sempre à espreita -, reforçando a ideia de que sim, os bónus existem, mas apenas e só se os seus funcionários estiverem dispostos a olhar para o outro lado no que diz respeito a tão perigoso e ainda "anónimo" assassino que espreita na escuridão... já dizia em 1986 a "Tenente Ripley" interpretada pela tão desejada Sigourney Weaver "You don't see them fucking each other over a goddamn percentage"... já a espécie humana...
Inteligente e muito bem recreada está a típica atmosfera pretendida para esta saga... ambientes fechados que recriam o sentimento de claustro primeiro com o elevador sobrelotado e finalmente através dos cenários fechados subterrâneos das minas onde todos tentam ganhar pela sua sobrevivência mas dos quais a certo ponto se compreende que ninguém irá abandonar... pelo menos não vivo, e que são enriquecidos por uma direcção de fotografia de Graham Talbot e Nelson Talbot que os transforma para lá de espaços pequenos onde todos se sentem presos em locais que parecem já de si ter poucos corredores e caminhos que lhes permitam a fuga.
Finalmente, mas não menos importante, é de destacar também como estes filmes que com mais ou menos orçamento surgem com uma execução bem delineada e pensada e sempre com a presença dos nossos já "estimados" aliens que surgem vindos do nada... escondidos na escuridão que a direcção de fotografia permite dando crédito à já debatida ideia de que mete mais medo o perigo que não se vê pela sugestão do que pode vir do que propriamente aquele que estando à nossa frente pode criar hipóteses de defesa que julgamos não ter. Num jogo de gato e do rato tão típico nestas obras, é aquele que foge, mais do que aquele que caça, que tem de pensar mais além das suas próprias possibilidades bastando apenas a este último esperar pelo primeiro momento de distração para fazer vingar o seu golpe fatal.
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8 / 10
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domingo, 24 de novembro de 2019

Alien: Night Shift (2019)

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Alien: Night Shift de Aiden Brezonick (EUA) é mais uma das curtas-metragens que celebra o quadragésimo aniversário da obra de Ridley Scott levando o espectador a cenários que lhe são de certa forma familiares e aqui continuados graças à imaginação e dedicação de novos realizadores.
Encontramo-nos na Colónia Mineira de High Lonesome em LV-422. Welles (Terrance Keith Richardson) chama por Harper (Tanner Rittenhouse), um colega de trabalho estranhamente isolado dos demais e adormecido numa pequena viela. Mas o que Welles não sabe é que Harper esteve na presença de uma inesperada companhia...
Desenvolvendo de forma cativante e inspirada o imaginário da saga Alien (ainda que com alguns aceitáveis lugares comuns típicos de quem pretende a devida homenagem), esta curta-metragem - a semelhança das demais já aqui apresentadas -, recria um pouco da atmosfera apresentada já há algumas décadas, a premissa de que estas personagens estão na presença de uma estranha companhia que não só não sabem identificar como tão pouco estão preparados para lidar com os efeitos destruidores da sua passagem.
Todos os elementos são inicialmente entregues ao espectador mais atento que compreende que os dois amigos mais não são do que o embrião inicial de toda uma história que está por ser desenvolvida. E é aqui que esta curta-metragem não só apresenta o seu maior trunfo como, ao mesmo tempo, peca pela curta (extremamente curta) duração que interrompe o espectador em tudo aquilo que o mesmo queria ver. No fundo, e por outras palavras, tudo aquilo que observamos neste Alien: Night Shift mais não é do que o óbvio e esperado de uma história centrada neste universo... dois amigos que vão a um bar depois de um deles ter sido encontrado em estranhas circunstâncias... reúnem-se com um outro grupo de colonos do já mencionado planeta para aí darem início a todo um jogo de gato e rato sendo, também este, interrompido pelos verdadeiros acontecimentos "lá fora" que começam a ocorrer um pouco por todo o colonato. O invasor está às portas... e ninguém deu pela sua chegada. Que comece a caçada...
O potencial desta curta-metragem, que no seu argumento base limita-se a uma breve (mas sentida) homenagem ao género e à saga em concreto, reside naquilo que o espectador acaba por não ver... o que ocorre no centro daquele bar já o vimos na obra original de Scott ou até mesmo nas demais sequelas aquando das primeiras manifestações do Xenomorfo. No entanto, e para lá dessa manifestação ou breve jogo de gato versus rato, é aquela confirmação de tumulto fora de portas que o espectador acaba por considerar interessante... a possibilidade de observar o derrube do colonato e a confirmação de que este "Alien" é, afinal, o verdadeiro senhor de um território para o qual nenhum humano estava preparado seduz por todas as possibilidades que são aqui equacionadas não propriamente em Alien: Night Shift mas sim nas portas que este abre para a potencial obra maior que poderia ser construída a partir daqui revelando quão depressa caiu um dos eventuais primeiros colonatos.
Caprichos de um espectador - eu - à parte, esta curta-metragem assume-se facilmente como mais uma digna representante do universo Alien deixando o comum mortal - novamente tal como eu - expectante para uma potencial nova entrega desta saga que tarda em chegar. A grande opus está porvir - assim o desejo -, e todos estes filmes curtos que abrem portas para esse futuro - ainda que aqui pareçam ser claros testemunhos do passado -, são magníficos exemplares de todo um imaginário colectivo inter-geracional e fiéis testemunhos de uma das maiores sagas de ficção científica das últimas décadas.
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6 / 10
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sábado, 23 de novembro de 2019

Alien: Alone (2019)

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Alien: Alone de Noah Miller (EUA) é uma das curtas-metragens que celebram os quarenta anos de Alien (1979), de Ridley Scott numa história que nos apresenta Hope (Taylor Lyons), o único membro sobrevivente da nave Otranto, que ao longo de um ano mantém a estrutura e funcionamento da mesma com vista à chega a uma fronteira espacial onde possa ser salva. Solitária nesta sua expedição, Hope encontra e forma uma estranha amizade que poderá redefinir todos os seus objectivos de voltar a encontrar vida humana.
Com uma clara influência na obra que deu origem a toda esta saga Alien - a de Scott em 1979 -, este Alien: Alone de Noah Miller - seu argumentista e realizador - exibe desde cedo diversos elementos que remontam o espectador para essa memória. Da foto polaroid da tripulação aos pequenos comunicadores que nos levam a esses claustrofóbicos corredores da Nostromo, esta curta-metragem mais do que o espírito da saga tenta sim celebrar a memória e, de certa forma, as origens de todo o "movimento" Alien.
Se são os pequenos detalhes visuais que dão o mote para este revivalismo, não deixa também de ser um facto aqui verificado que é o sentimento de solidão que ganha forma quando a protagonista "Hope" manifesta todo um desesperado sentimento de abandono e perda - não sabemos em que condições - de uma tripulação agora ausente e de uma nave cujos sinais de degradação são por demais evidentes... um pouco como a sua alma. Esta ausência de vida e de alguém com quem compartilhar tão intensa e longa viagem cujo fim é incerto não só pelo distanciamento da tal fronteira do espaço profundo versus "territórios habitados" mas também pelo facto de não saber identificar qual será o ponto de ruptura absoluta da nave em que viaja, será colmatada com aquilo que se encontra por detrás de uma misteriosa porta e que poderá dar origem a uma amizade com "Hope".
O dilema aqui levantado em que Humano e Xenomorfo estabelecem essa improvável relação de cumplicidade é, no fundo, o elemento de maior destaque nesta curta-metragem sendo que, no entanto, já fora observado em Alien Ressurection (1997), de Jean-Pierre Jeunet. Relação essa estabelecida através de uma forma primária de maternidade que a obra do realizador francês decidiu explorar e que aqui é formada a partir de um desespero de isolamento sentido pela protagonista que decide "sobreviver" para chegar a território humano na companhia do xenomorfo e não tanto pela sua necessidade de lá chegar impedindo a propagação daquilo que será, no fundo, a contaminação desse mesmo espaço. Mas terá "Hope" os seus próprios planos para essa Humanidade à qual se dirige que podem, na realidade, estabelecer uma ideia daquilo que terá acontecido à sua tripulação?! Estará ela a esconder algo mais do que a sua própria sobrevivência?
Se Noah Miller cria esta curta-metragem com o recurso a diversos elementos de obras passadas - o espírito de isolamento, elementos de decoração de cenário e guarda-roupa ou mesmo a já mencionada relação entre a protagonista e o xenomorfo -, a realidade é que a esta curta-metragem falta, no entanto, toda a força e dinamismo recriadas até nas obras mais recentes - Prometheus (2012) e Covenant (2017) - consideradas as mais frágeis da saga, mas que conseguem enquadrar todo um sentimento claustrofóbico, labiríntico e de verdadeiro terror no espaço do qual ninguém poderá escapar ileso que aqui se limita a uma abordagem quase empática ou mesmo "espiritual" que colocam Homem e Xenoformo em patamares semelhantes de sobrevivência face ao mundo exterior (ainda que este seja inexistente)... até descobrirmos quem é, na realidade, esta sobrevivente "Hope".
Fiel ao género - ainda que francamente frágil na sua construção - Alien: Alone explora essa vertente do isolamento e da solidão pervertendo ambos e conferindo-lhes "alma" pela forma como esta - mesmo que inexistente - quando corrompida pode realmente enveredar por aquele lugar escuro e sinistro apenas comparável com a imensidão desse tal universo por onde a Otranto, a Nostromo, a Prometheus ou a Covenant viajaram e da qual trouxeram as suas próprias "memórias".
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6 / 10
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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Alien: Specimen (2019)

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Alien: Specimen de Kelsey Taylor (EUA) é uma das curtas-metragens que celebram o quadragésimo aniversário do início da saga Alien (1979), de Ridley Scott aqui no universo do LV-492, um planeta com um património botânico diverso e onde, numa estufa, Julie (Jolene Andersen) se vê encerrada depois de detectado pela sua cadela alguns resíduos estranhos. Mas, como seria de esperar, Julie não está sozinha...
Existe sempre alguma suspeita por parte do espectador quando um novo título surge na saga iniciada no final da década de '70. No entanto, é a curiosidade que fala mais alto e a esperança de que esse mesmo universo seja respeitado faz com que qualquer um de nós se deixe levar pela esperança de que "este" - independentemente de qual seja -, volte a deixar-nos colados ao ecrã em mais uma história onde a luta pela sobrevivência impera e comanda os destinos dos menos afortunados que se deparam com os resistentes xenoformos.
Cedo, ainda que com apenas uns curtos dez minutos de duração, percebe o espectador que Alien: Specimen tem merecidamente o seu lugar neste universo. O argumento de Federico Fracchia não só consegue ser fiel ao esperado espírito do género mantendo sempre o suspense e a incerteza a cada esquina como também surpreende com os inesperados twists que espreitam em pequenos e subtis detalhes nomeadamente no destino entre vítimas e predadores que "trocam de lugar" à medida que o tempo avança sem que o espectador nunca suspeite de quem é quem.
É neste ambiente de suspeita tensão que tudo acontece e a relação entre Humano, Animal e Xenoformo desenvolve-se numa dependência mútua transformando cada um destes protagonistas numa peça fundamental de uma história que, compreendemos no final, não acontece com os contornos que esperamos principalmente pela diferente dinâmica das mesmas em relação às longas-metragens que conhecemos e que foram brilhantemente protagonizadas por uma personificação de heroína que foi (É!!!) Sigourney Weaver. Estes três protagonistas têm assim uma relação diferente, ainda que cúmplice e mesmo dependente, mas nem tudo ocorre como tradicionalmente seria de esperar. Para tal inicial ilusão do espectador contribuem de forma determinante em primeiro lugar a perfeita direcção de fotografia de Adam Lee que o confunde fazendo ignorar pequenos elementos que apenas um segundo visionamento esclarecem e transformando todo aquele recinto num grande labirinto onde gato e rato se observam, avaliam e escondem esperando pelo momento certo para finalmente revelarem a sua presença. Interessante como a não tão subtil biodiversidade aqui ganha, também ela, o seu próprio lugar quase como que uma personagem silenciosa que contribui para uma camuflagem sempre necessária quando se (tenta) escapa de um perigo desconhecido ou, por sua vez, como este o utiliza para a construção da sua própria teia. A isto acresce todo um particular ambiente que os efeitos sonoros criam deixando toda a dinâmica num tempo suspenso e incerto que deixam o espectador desconhecedor do decorrer dos segundos.
Ainda que Jolene Andersen não seja a "Ripley" de Sigourney Weaver - nunca ninguém o será -, a actriz consegue firmar-se num daqueles desempenhos de heroína improvável que, já bem perto do final, se revela também ela como um inesperado predador que utiliza os meios ao seu redor para uma sobrevivência num espaço que, afinal, também não é seu. Perguntamos neste momento... quem será o verdadeiro predador... Humano ou Xenomorfo?! Ainda que, na realidade, todos nós tenhamos a nossa clara preferência que será sempre anti-xenomorfo... ou, pelo menos, compreender que todo o invasor, assuma ele que forma assumir, não passa disso... um invasor em território desconhecido e onde as suas vantagens são claramente menores.
Inteligentemente criado e digno emissor de uma homenagem a uma das maiores e mais intensas sagas do cinema de ficção científica, este Alien: Specimen é um dos mais bem estruturados e elaborados filmes curtos do género e um daqueles que irá, com toda a certeza, figurar nas mais sentidas homenagens à mesma deixando o espectador e, muito particularmente aquele que segue esta saga desde 1979 com a eterna questão... quando é que regressa a nova entrega... e quando é que a "Tenente Ripley" marca finalmente o seu regresso?!
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8 / 10
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sábado, 16 de novembro de 2019

Astray (2019)

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Astray de Kyle Sharpe (Canadá) é uma das curtas-metragens de animação presentes na selecção oficial da décima edição do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta.
A curiosidade de uma mulher sobre uma casa abandonada leva-a a embarcar numa viagem pela desconhecido e pelos horrores que se escondem por detrás das sombras. Irá ela descobrir o que habita naquele espaço?
Numa perspectiva de terror gótico e considerando que esta curta-metragem tinha todo um potencial por explorar sobre os verdadeiros horrores de uma casa que esconde uma versão perfeita do "mal" enquanto uma entidade, Astray é uma potente curta-metragem de género que tem tudo para se assumir como uma referência do género. Nada do que aqui temos é colocado ao acaso. Tão pouco está sub-explorada deixando, no entanto, uma porta aberta - sem ironia para com o próprio começo desta história - para que a mesma se possa (ou deva) explorar enquanto um conto mais longo onde se conhecem os verdadeiros detalhes do que todos os recantos daquela casa dos horrores escondem.
Se é um facto que acompanhamos as tímidas investidas desta jovem que se deixa embrenhar pelos corredores obscuras daquela velha mansão, não deixa de ser uma realidade que, para o espectador, interessam mais os pequenos detalhes e inuendos apresentados (pensamos) pela mesma para que a jovem se deixe levar, num misto de curiosidade e incapacidade de fugir, por aqueles corredores que parecem colocá-la face a um labirinto onde o único caminho possível é seguir em frente e deparar-se com aquilo que, deduzimos, a espera. Da borboleta que invade a casa como o símbolo da pureza que deve seguir às portas que se abrem para dar rosto a um novo caminho, Astray faz sempre ressaltar a sua componente mórbida e gótica que põem em evidência um destino que poderá ser tão ou mais escuro quanto os recantos por onde a jovem passa. E é quando pensamos que se a tal pureza escapa, também ela - a jovem - pode encontrar o seu final feliz, que deparamos com o inesperado e compreendemos que ela mais não é do que uma boneca nas mãos de um poder maior que a controla, aos seus passos e sobretudo ao seu final revelando-a como, não mais, do que uma peça de um jogo maior.
Executada com rigor e precisão, a curta-metragem Astray é o símbolo de um filme maior em construção - ou pelo menos um que se poderia criar -, e a revelação de que o horror e a animação podem andar de mãos dadas e ser tão ou mais eficazes do que muitas obras de ficção habituadas ao mesmo estereótipo que (re)cria sucessivas obras com o mesmo final. Aqui o realizador Kyle Sharpe cria a atmosfera perfeita... para que o terror reine e para que o espectador se deixe cativar e mantenha toda a sua atenção aos pequenos detalhes que parecem, também eles, ganhar a sua própria vida e "alma".
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7 / 10
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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Alien: Harvest (2019)

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Alien: Harvest de Benjamin Howdeshell (EUA) é uma das diversas curtas-metragens elaboradas no quadragésimo aniversário da saga Alien iniciada por Ridley Scott aqui de volta ao claustro de uma nave perdida no espaço quando uma ameaça maior espreita no escuro.
Os quatro sobreviventes de uma nave perdida no espaço têm poucos minutos para chegar à cápsula de evacuação. No sensor de movimentos sabem que estão acompanhados e que o perigo espreita a todas as esquinas mas... não estarão eles na companhia de um perigo totalmente desconhecido?
Ainda que distante do ambiente claustrofóbico de Alien (1979) ou da enérgica acção de Aliens (1986) de James Cameron, este Alien: Harvest consegue nos seus escassos minutos despertar a atenção do espectador e, muito particularmente, recuperar com os seus meios que serão (certamente) mais modestos, todo um ambiente de terror que o género propõe e consegue cumprir.
Em pouco mais de nove minutos de duração, Alien: Harvest oferece ao espectador o vilão que se esconde à espera das suas presas, todo o clima de uma nave perdida e em rota de auto-destruição onde circula e reina o medo daquilo que não se revela a cada esquina e, sobretudo, todo um twist que apenas se sentira na obra de Ridley Scott nos finais dos anos '70 onde nem todos aqueles nos quais se deposita confiança a mercem de facto.
Alien: Harvest, isenta de interpretações de primeiro nível como aquela que Sigourney Weaver revelou ao grande público com a sua "Ellen Ripley" que a transformou num dos símbolos femininos de acção mais importantes da Sétima Arte consegue, no entanto, criar quatro personagens típicas do género e que marcam a curta-metragem pela sua relevância na sua dinâmica e, no fundo, no que é esperado dos actores que dão corpo e alma aos protagonistas da mesma. Da inocência à esperança num novo futuro, da desinteressada sobrevivência ao lucro fácil por detrás de cada manobra, todas estas personagens parecem ter o fim marcado de acordo com os últimos instantes da sua vivência naquela nave que, com já sabemos, não parece deixar ninguém sem que primeiro revele a sua verdadeira essência. Porque nem todas as vítimas o são e nem todos os alien são predadores injustificados, uns actuam por impulso de caçador enquanto outros pelos benefícios decorrentes das acções que determinaram o seu carácter e Alien: Harvest expõe, em título de homenagem, todos os pequenos elementos que em 1979 fizeram de Alien uma obra de culto e referência máxima por entre os filmes de ficção científica, de acção, de suspense e mesmo de terror... onde gritar não garantirá qualquer tipo de salvação possível.
De forma apaixonada e competente, com tudo aquilo que se espera do género - visualmente falando e especialmente por ser uma celebração do quadragésimo aniversário -, bem como pelo próprio ambiente de terror claustrofóbico do qual esta saga foi (é!) expoente máximo, Alien: Harvest garante ao espectador uns breves minutos que o fazem desejar que a nova entrega (longa) da saga chegue o quanto antes e que, quem sabe, Weaver regresse tão em forma como a sua "Ripley" o pede... porque não há grandes vilões sem heroínas a sério, e estes quarenta anos pedem um desfecho que o seja de verdade.
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8 / 10
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sábado, 29 de junho de 2019

Alien Convergence (2017)

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Convergência Alien de Rob Pallatina (EUA) apresenta um conjunto de personagens com incapacidades físicas originadas pelos mais diversos motivos incluindo ferimentos em combate e que testam métodos revolucionários de controlar, através da mente, um avião para missões em cenários de guerra evitando, dessa forma, a perda de vidas humanas. No entanto, é durante estes ensaios que a Terra se vê na rota do que parece ser um cometa mas que, afinal, são meteoritos que transportam vida alienígena que poderá ameaçar a existência da Humanidade tal como a conhecemos.
Há qualquer coisa de mórbido em todos nós que nos leva a ter um interesse quase doentio em todas e quaisquer histórias que se assemelhem àquilo que poderá ser o fim do planeta ou da sua vida - humana e não só - e que, por mais ou menos intensas, mais ou menos bem construídas ou mais ou menos credíveis nos faz querer assistir a todos os instantes que estas histórias e obras cinematográficas - estou a ser simpático - nos proporcionam. Mas, fosse esse o mal maior desta longa-metragem ou do argumento de Marc Gottlieb...
Alien Convergence inicia com todas as pequenas arrogâncias de um conjunto de profissionais que julgam conseguir obter nomeações aos Oscars à custa de uma obra que nem perfil tem para se aproximar dos Razzies. Das incoerências de narrativa que se apresentam desde os primeiros instantes e que não conferem qualquer tipo de credibilidade a qualquer uma das personagens ou que, na pior e quase sempre comum das hipóteses as transformam em pequenas versões snobs centradas no seu pequeno grande ego passando pela óbvia vontade (ou necessidade?!) em contar uma história repleta de um pequeno - muito pequeno - conteúdo que não consegue dignificar qualquer um dos géneros em que se pretende inserir... nem terror... nem ficção científica... nem drama. Nem tão pouco comédia "corredor" onde, rapidamente, o espectador se observa a caminhar mas ao qual não consegue encontrar a mais ínfima referência apesar de compreender que algo deste género só mesmo... com muito humor e engenho (não no melhor dos sentidos).
Se desta constante apatia, à qual estas personagens conseguem com tanto empenho inserir o espectador pouco se retira, não será menos correcto afirmar que as potenciais boas intenções que residem nas fragilidades físicas das personagens incutidas pelo argumento, cedo se transformam em grandes elementos de distracção que colocam o espectador a pensar que afinal... isto parece um qualquer "vale dos desesperados" e não necessariamente pessoas que tentam encontrar a sua validade quando tudo no mundo poderia querer colocá-los naquelas temidas "margens" onde a sua importância passou à História. Mas, se os seus contributos para os aperfeiçoamentos militares são no mínimo dúbias pela sua falta de coerência, é quando essa presença extra-terrestre se aproxima que finalmente compreendemos que todos, na Terra, são de facto incapazes mentalmente... o tal elemento que tentavam trabalhar para salvar vidas humanas e que, na realidade... a todos parece faltar. Dito isto, se o planeta parece finalmente cair face à ameaça exterior... o espectador compreende que antes já caíra às mãos de tantas incoerência... ligares comuns e sobretudo uma enorme arrogância que apenas os menos inteligentes parecem ter, convencidos de que descobriram o último engenho tecnológico.
Sobre a invasão alienígena... que importa ela na realidade? Absolutamente nada. Temos meteoritos que afinal não o são... vida extra-terrestre sob a forma de insectos gigantescos com os seus próprios planos de "world domination" - e que, na realidade, revelam ter mais QI do que qualquer humano por ali "espalhado" - e um conjunto de humanos que sobrevivem graças ao acaso... apenas faltaram os lugares comuns das "condições climatéricas adversas" para justificar a salvação da espécie... e tudo isto sem nunca esquecer os tão elaborados efeitos especiais que em mais do que uma ocasião deixam escapar o helicóptero telecomandado como um real no qual os "nossos" sobreviventes voam pelas paisagens semi-destruídas de uns Estados Unidos ocupados. Resultado final... a desgraça absoluta em algo que se anunciava ruinoso desde o primeiro instante.
Pobre, absurdo e mal executado em todas as frentes, Alien Convergence pode ser o tal exemplar daquilo que "nunca se deve fazer" quando se tenta criar algo diferente... Menos pode ser mais... aqui, essa regra não se confirmou... tudo é menos, e realmente tudo esteve a mais.
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1 / 10
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sexta-feira, 17 de maio de 2019

Amsterdam (2017)

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Amsterdam de Sam Langshaw (Austrália) revisita, em formato curto, uma tradicional história onde duas aparentes almas perdidas e rendidas à solidão encontram (finalmente) a sua "outra metade" num inesperada momento de despedida.
Matt (Luke Baweja) está solitário na festa de despedida de Jess (Claudia Coy). Mas, inesperadamente, ela resolve marcar um encontro entre ele e Joe (Thomas Crotty). Mas o que Matt não espera é que nesta festa de despedida poderá também ter de dizer adeus a alguém com quem se vê partilhar a vida.
A típica história pós-adolescente onde quando um dos intervenientes já não crê ser digno de receber amor de ninguém estando, ao mesmo tempo, numa encruzilhada de uma vida que pode transformar-se a qualquer instante. Esta curta-metragem de Langshaw que também assina o argumento, apenas revela ao espectador uma história que se assume como uma reflexão num momento de impasse... a despedida de uma amiga de toda uma vida (que o será ou não) enquanto se equaciona como preencher a lacuna que então se apresentar... O aceitar um novo desafio sem ter ao lado alguém com quem partilhar desabafos e pelo meio, conhecer alguém que poderá ser "o tal" sem, no entanto, ter energia para lutar por esse novo alguém com quem se desejar ter a oportunidade de construir algo mais. Aqui impõe-se ainda a reflexão sobre a hipótese de estar "o outro" disponível para as mesmas questões desafiantes que "Matt" se coloca sobre o amor... sobre a (in)capacidade de poder amar ou não e saber se há correspondência que possa valer o esforço de um sacrifício de descoberta que possibilite o acaso do "acontecer".
Num registo muito teen, Amsterdam tenta celebrar as hipóteses e as oportunidades. O amor e as suas consequências... a capacidade de estar disponível para o "acontecer" de algo que poderá ser positivo. As oportunidades de novos rumos originadas pelo acaso e pela sorte. Ainda a oportunidade de poder reconhecer o interesse do "outro" em "mim" e sobretudo a capacidade de não voltar a cara pensando que o que surge é bom demais para ser verdade.
No seio de todo um conjunto de lugares comuns que roçam a comédia, o romance e a história de amor por cumprir, esta Amsterdam não é uma história que o espectador possa considerar nova ou original... é apenas mais uma história que ousa a representatividade mas que, há semelhança de tantas outras, acaba por ter as mesmas linhas de condução que tantas e tantas outras histórias do género. Bem disposta e com um par protagonista convincente nas suas breves interacções, Amsterdam é apenas o celebrar da potencialidade de "mais uma" história de amor ou, pelo menos, da sua eventual possibilidade.
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5 / 10
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domingo, 25 de novembro de 2018

Anteu (2018)

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Anteu de João Vladimiro (Portugal/França) presente na competição oficial da XXIVª edição dos Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 1 de Dezembro revela a história de Anteu, nascido numa aldeia isolada e o único jovem adulto existente nas redondezas. Depois da morte da mãe e do sucessivo falecimento do pai, Anteu fica sózinho. Quem é Anteu?!
Dividido em dois segmentos específicos o argumento de Anteu inicia o seu primeiro momento intitulado O Berço e a Cova no qual se explora - tal como está implicitamente retratado no título - o nascimento e a morte das principais personagens... da mãe... do pai... transformando-o no único homem presente na sua aldeia. Num meio aparentemente humilde e onde reinam os silêncios resultantes do desconhecimento do mundo exterior, a excelência deste segmento chega não só através do seu argumento mas principalmente pela qualidade técnica com que se expõe o filme lançando diversos segmentos num aparente tromp d'oeil que fazem transitar de um momento para outro criando ilusões sobre a profundidade e o espaço per si que resultam numa dinâmica de intensidade e imensidão que confundem e atraem o espectador. Como principal mensagem deste segmento permanece a ideia da morte presente... o sentido de fim próximo que paira sobre a existência destas personagens que silenciosamente atravessam a vida sem que nunca ambicionem mais um dia.
É neste marasmo de fim anunciado que surge o segundo momento intitulado A Máquina. Aquele em que Homem e Mecanismo não se confrontem mas se complementam existindo um para satisfazer a necessidade última do outro deixando, no entanto, o espectador incerto sobre como os seus propósitos e fins se irão, de facto, complementar. "Anteu" parece carregar o peso do mundo às suas costas e a sua sentida solidão agudiza-se quando tudo à sua volta parece perdido. O espaço é por ele contemplado como que fazendo o espectador observar uma última despedida apenas interrompida pela execução de uma tarefa que irá determinar tanto o espaço como a sua própria existência no mesmo. "Anteu", jovem homem de poucas palavras irá agora determinar o fim... de tudo. É com o tempo que compreendemos que a sua construção com o auxílio da máquina é a concretização última da sua despedida de um mundo do qual nada mais - se é que alguma vez - pode esperar. Intensamente dramático pela força dos seus silêncios, "Anteu" perde-se e rendeu-se ao único espaço que alguma vez conheceu... possivelmente melhor do que a ele próprio pela ausência de influências externas.
João Vladimiro cria uma curta-metragem que presta homenagem ao silêncio dos espaços perdidos por um país - qualquer um - que se rendeu à urbanização. A desertificação do espaço e do meio levam ao esgotamento dos mesmos e daqueles que neles vivem, rendidos a uma força laboral cujos frutos pouco ou nada serão conhecidos e satisfatórios e levando-os a um desespero que - vivido nesse mesmo silêncio -, terá um fim rápido e compreendido. Pela força das suas imagens e pelo desfecho tragicamente tão silencioso como a vida do protagonista, Anteu prima pela capacidade avassaladora com que (se) entrega e rende a uma desgraça humana tão potente como devastadora. Porque a emoção chega mesmo que, tal como o seu protagonista, o faça em silêncio.
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8 / 10
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sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Alma Clandestina (2018)

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Alma Clandestina de José Barahona (Brasil) é um dos documentários presentes na secção Da Terra à Lua da décima-sexta edição do DocLisboa - Festival Internacional de Cinema a decorrer na capital até ao próximo Domingo.
Maria Auxiliadora Lara Barcellos. Activista política que lutou contra a ditadura no Brasil na década de '60 e que se viu forçada a viver no exílio na América Latina e na Europa depois de períodos de detenção e tortura. Dorinha, como era conhecida pelos que lhe eram mais próximos, suicidou-se em 1976 em Berlim deixando, no entanto, um legado de vida que deve ser novamente analisado.
Depois de Estive em Lisboa e Lembrei de Você (2015) essa obra (não tão) ficcionada sobre a emigração brasileira para a capital portuguesa, o realizador José Barahona regressa com esta obra documental que versa sobre um importante e não tão distante período da História recente do Brasil que não só é pertinente pela sua contextualização histórica como principalmente pelos tempos que hoje o país vive onde a política regride voluntariamente a estes idos anos.
Se em Estive em Lisboa e Lembrei de Você Barahona explora a dinâmica de um cidadão brasileiro em busca de melhores dias para a sua vida, encontrando em Lisboa o tal "eldorado" sob a forma de uma solidão que pode, no entanto, proporcionar-lhe um novo começo - não necessariamente melhor -, em Alma Clandestina o realizador propõe um olhar pertinente, perturbador, não distante e actual sobre a vida de uma activista política que, como tantos outros, incluindo o "Sérgio" interpretado por Paulo Azevedo na já mencionada obra, mais não procura do que uma vida justa e igualitária com todas as oportunidades que são sentidas como merecidas. Mas, bem distante da ficção, aquilo que Alma Clandestina proporciona ao espectador é, para lá de uma história, um relato sobre a crueldade de um regime que (se) impõe eliminando sem qualquer pudor todos os que lhe façam frente.
Foi neste período de ditadura militar iniciado em 1964 e que apenas viria a terminar em 1985 que o Brasil viu não só o seu retrocesso nas liberdades individuais como também culturais o que levou a Maria Auxiliadora Barcellos a uma vida de exílio que a fez passar pelo Chile, México, Bélgica, França e Alemanha. Neste período, distante da sua família e do país onde nascera, a activista viria a estabelecer um conjunto de comunicações com a sua família no Brasil e que Alma Clandestina aborda como uma forma de conhecer não só a política (contemporânea de Dilma Rousseff), como também - e principalmente - a mulher por detrás de toda esta militância.
"Dorinha" é caracterizada por todos como uma mulher forma de aparência frágil. Alguém capaz de discutir assertivamente assuntos sociais e políticos deixando aqueles que a escutavam interessados e conscientes mas, ao mesmo tempo, é o distanciamento desta mulher do seu ambiente natural que a caracterizam como uma mulher de certa forma atormentada com a impossibilidade de uma liberdade vivida nesse seu Brasil cada vez mais distante. Maria Auxiliadora Barcellos viria a morrer - por suicídio - em Berlim em 1976 com 31 anos de idade. Longe da Democracia que tanto ambicionara para o seu país, seriam os tormentos de uma vida "em fuga" que viriam a caracterizar o seu pensamento, o seu comportamento e principalmente a sua queda física e emocional longe desse país que se deixou mergulhar numa ditadura que perseguia, torturava e eliminava aqueles que se lhe opunham. É esta dinâmica, para lá dessa contextualização histórica que é aqui tão bem enquadrada pelo realizador, que se explora dando assim forma à mente e ao pensamento de uma mulher atormentada, fisicamente distante mas mentalmente comprometida com um desejo de liberdade e Democracia que o país não vivia. Num momento é inclusive equiparado ao sentimento de "Dorinha" aquele tido pelos escravos africanos que compreendiam nunca mais pisar a sua terra levados pelos barcos negreiros para as terras de Vera Cruz... banzu... uma profunda nostalgia e saudade que a levaram a querer representar toda uma nova vida nessa clandestinidade que era, também ela, opressora e limitadora na medida em que não lhe conferiam qualquer possibilidade de viver a sua vida nesse Brasil que sempre sonhara e imaginara... o tal no qual "olhava para o céu que a alimenta", revelador da sua extrema esperança nesse lugar comum a que todos nós em liberdade apelidamos de "dias melhores".
Os seus pensamentos inundam os testemunhos daqueles que com ela conviveram assim como as cartas que deixara para trás como desabafos de uma vida... vivida mas saturada... desencantada até. O desencanto pela ideia de um Brasil "caridoso" no qual afirma existir apenas pela inferioridade do ."outro" e que denuncia toda a sua fragilidade emocional e revolta psicológica pela perpetuação de um regime que insistia na diminuição dos que com ele não concordam e até mesmo por uma incerteza que a colocava e aos demais militantes numa condição oscilante entre "exilados" e "banidos" impossibilitando-os de qualquer reconhecimento internacional independentemente do local em que se encontrassem.
Mas, são as memórias desse período de torturas e dos seus torturadores que tudo utilizavam da agressão física e emocional sem esquecer a sexual que, em boa medida, Alma Clandestina apresenta ao espectador. Contrariamente a tantos outros documentários do género, aqui José Barahona centra a dinâmica de uma acção não nos infindáveis relatos sobre o que se passava para lá das paredes de uma qualquer prisão para onde eram levados os opositores políticos mas sim nos testemunhos na primeira pessoa sobre o que por lá acontecia. Não escutamos momentos sobre tortura ou pressão física e psicológica que qualquer um de nós mais atento ou interessado nestes documentos históricos já não conheça de tantas outras obras. Aqui, por sua vez, escutamos os desabafos de uma dessas intervenientes e compreendemos principalmente a sua degradação emocional enquadrando as suas palavras - bem como o que elas escondem - no período histórico em questão e a sua involuntária perda para com esses pensamentos questionando-se o espectador por diversas vezes sobre o trauma que a memória guarda dividindo Maria Auxiliadora em três momentos específicos... um certo ideal de felicidade junto dos seus... a dor e a revolta de um presente de tortura e fuga... e finalmente a compreensão de um futuro que (in)conscientemente reconhecia ser incerto. Para lá de qualquer registo sobre a ditadura - a noção pressupõe (ou deveria) per si toda uma conotação negativa - Alma Clandestina é sim o registo da força de vida de uma mulher mas também das suas ânsias e fragilidades que lentamente a consumiram e se transformaram num desespero crescente e imparável.
Baseado em testemunhos daqueles que com ela conviveram, em diversas das suas cartas e em textos como Continuo Sonhado e Buti, Alma Clandestina é o documentário necessário e pertinente não só enquanto um documento histórico como também enquanto um espelho dos dias que agora estão novamente a ser vividos no Brasil, onde o discurso político ultra-radicalizado ganha toda uma nova dinâmica e no qual parece novamente querer perseguir aqueles que se lhe opõem ou são considerados "inimigos", criando divisões, grupos e segmentos de exclusão e sobretudo uma certa consciência social da existência de um "eu" e o "outro" residindo na primeira pessoa essa ideia de positividade e iluminação que é imediatamente confiscada a todos aqueles que não partilham o mesmo ideal do "líder" e da silenciosa ditadura que se instala... com o consentimento de um povo nem sempre esclarecido e tantas vezes politicamente ignorante que procura um Messias num suposto rosto de lei carismático e igualmente perigoso.
A alma, mesmo enclausurada, nunca se transforma em capturada. O testemunho da vida de Maria Auxiliadora Barcellos aqui trazido ao grande ecrã por José Barahona comprova sim, que pode ser frágil, que pode tremer ou até mesmo viver nessa clandestinidade que o próprio título do documentário assume... Mas é esse mesmo tormento e até mesmo essa clandestinidade que a tornam livre... Livre de escolher o seu dia e o seu amanhã dentro de todas as incertezas que lhe estão inerentes a uma vida que é, de certa forma, vivida num cativeiro a céu aberto, sem paredes ou grades que o tolhem mas que, ao mesmo tempo, não lhe possibilitam a proximidade aos seus e ao que é seu como a mesma desejaria.
Assim, se Alma Clandestina é importante por esta perspectiva histórica e pessoal da vida de uma mulher que é essencialmente intemporal... mais relevante se transforma a partir do momento em que o espectador consciente compreende os dias pelos quais o Brasil, e até mesmo um pouco do mundo, atravessa.
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"Estar vivo e existir não é respirar... É sentir uma pulsação que te empurra."
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8 / 10
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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Anjo (2018)

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Anjo de Miguel Nunes (Portugal) - também argumentista e intérprete protagonista - é uma das curtas-metragens presentes na secção Panorama da vigésima-segunda edição do Queer Lisboa - Festival Internacional de Cinema Queer a decorrer no Cinema São Jorge e que revela uma Lisboa estival testemunha de uma paixão abruptamente interrompida.
Miguel (Nunes) encontra-se numa entrevista para entrada nos Estados Unidos. Pretende encontrar um amigo. Revela a sua paixão. De seguida encontramos o seu apartamento onde, compreendemos, sucedem-se as festas, as reuniões de amigos e a presença d'Ele (Edgar Morais), com quem vive momentos de entrega, cumplicidade e paixão, faz-se sentir na sua memória e nos seus pensamentos.
Da curta-metragem de Miguel Nunes surgem de imediato não só o seu nome enquanto realizador, argumentista, actor e produtor da mesma como também a presença de Joana de Verona e Edgar Morais como seus actores e rostos de uma nova geração de intérpretes portugueses com um percurso cinematográfico já confirmado para conquistarem um novo público para as salas. Se este elemento não fosse por si já suficiente, eis que o espectador encontra na sinopse aquele que poderá ser uma história de amor numa Lisboa contemporânea onde esta nova geração dos 30's ruma sem um destino certo ou vínculos firmes para lá daqueles que são firmados pela lealdade para com a tribo.
Seja nos palcos de um qualquer festival de cinema, nos telhados vizinhos observando uma Lisboa nocturna ou nas inúmeras festas que, não observadas, ocupam longas madrugadas, Anjo centra-se numa dessas figuras... a de "Miguel". Tudo começa com uma entrevista de entrada nos Estados Unidos onde ficamos a saber que ele pretende passar duas semanas da sua vida à procura de um amigo... de uma paixão. A tal paixão estival que lhe ficou na memória e que, por motivos que o espectador desconhece, terminou repentinamente. "Ele" (Edgar Morais) partiu. Os breves momentos que passam juntos são de paixão intensa, de entrega e de cumplicidade. De olhares e pequenas conversas banais entre quem, compreendemos, já se conhece ao ponto de tudo se poder dizer através do nada. Dos passeios pelas ruas aos pequenos silêncios que se partilham, "Ele" e "Miguel" entregam-se nos braços um do outro. Instala-se então a dúvida no espectador que se questiona sobre os porquês desta separação. Não terá sido nada de tão importante como aparentava? Terá "Miguel" sentido algo mais que na realidade nunca existira? Porque se terá confirmado esta distanciamento? Existe um endereço do outro lado do Atlântico mas... será que ainda permanece a tal cumplicidade?!
Interessante do ponto de vista dos tais "ses" que se instalam e mantêm na mente do espectador, a Anjo falta, no entanto, o tal aproveitamento da intenção narrativa para transformar o tal sofrimento da paixão distante, a dinâmica da proximidade dos amigos e o sentimento de busca pelo que já não lhe (a "Miguel") lhe pertence - ou possui - e transformá-lo num drama moderno sobre a procura do amor nesta geração dos 30's ainda tão pouco explorada em cinema. Habituados que estamos a encontrar filmes mais juvenis que exploram a temática do amor - não de forma condescendente mas sobre a tal geração ainda livre de grandes responsabilidades que estejam para lá de aproveitarem a respectiva juventude -, Anjo (tal como Verão Danado (2017), de Pedro Cabeleira que é, curiosamente, da mesma produtora ou mesmo Uma Rapariga da sua Idade (2015), de Márcio Laranjeira) tem todo o potencial para explorar esta dinâmica de uma geração que ainda procura o seu lugar num mundo que parece ter fechado a porta na altura em que a mesma se preparava para sair "de casa" mas, ao mesmo tempo, privou-se de o fazer deixando o espectador com uma mão cheia de incertezas, questões, dúvidas e pensamentos sobre a (não) concretização dessa busca... terá "Miguel" ido para os Estados Unidos... terá "Ele" (Morais) ainda correspondido à tal paixão? Pergunta que é, aliás, levantada pela entrevistadora (deduzimos que na Embaixada) quando "Miguel" revela que não sabe ao certo onde o amigo vive... Ou será que tudo mais não é do que uma reflexão tardia sobre uma busca e um amor que, não tendo sido correspondido, permanece como algo bonito e inalterado na mente daquele que realmente amou?!
Inteligente e perspicaz pela forma como filma esta (já não tão nova) geração que parece procurar, acima de uma estabilidade financeira, uma que também seja emocional, Anjo é, para lá de uma simpática estreia do actor enquanto realizador, um filme ensaio com potencial suficiente para explorar todas as dinâmicas da vida (apresentada) de "Miguel" - com os amigos, com o amor, com a vida de uma forma geral - sob a forma de ma longa-metragem... talvez com um resultado (sobre essa mesma geração) emocionalmente não tão feliz... mas real, crua e ligeiramente esperançosa sobre o tal "dia de amanhã" que a sua personagem aqui aparenta procurar.
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6 / 10
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