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segunda-feira, 7 de abril de 2025

Era Uma Vez no Apocalipse (2023)


Era Uma Vez no Apocalipse de Tiago Pimentel (Portugal) é uma curta-metragem que conta a história de um Portugal, não muito longe no tempo e que, tal como a demais Humanidade, vive no rescaldo de um terceiro conflito mundial. No país, agora com um governo totalitário, é imposta uma lei marcial que impede a população de circular livremente. Ernesto (Sérgio Godinho) sabe quais as intenções deste governo e é quando o Coronel Salaviza (Paulo Calatré) lhe bate à porta que se desenrola um jogo de insinuações, segredos e mentiras.
Logo desde os primeiros instantes de Era Uma Vez no Apocalipse que percebemos que o meio - físico e temporal - é desolado e desolador. As realidades do território não são aquelas que conhecemos neste presente que afectado pela guerra e pelas suas devastadoras consequências - políticas, sociais e económicas - e tendo lançado tudo e todos num rumo de miséria originaram um governo totalitário que tem a sua própria agenda para o controlo e domínio do país. A intimidação, o medo, as proibições e o totalitarismo sentem-se nesta dinâmica desde o momento em que os dois homens se confrontam num jogo de palavras e insinuações que fazem mais gelar o interior daquela casa do que o aparente frio do Inverno nuclear que se sente lá fora. As suspeitas que ambos têm não são mera ficção. Os dois sabem que cada um deles sabe e esconde mais do que aquilo que aparentemente querem revelar e é apenas uma questão de colocar tudo "à prova" para saber sim qual a dimensão das ditas suspeitas. E toda a dinâmica desta curta-metragem é centrada aqui, nos discursos, olhares e confirmadas suspeitas que cada um destes homens tem sobre o outro.
Enquanto esta dinâmica se desenvolve, o espectador quase esquece a jovem Helena (Mariana Pacheco) que se escondeu naquela casa, ao ponto de quase ignorar que muita da dinâmica entre os dois homens se deve essencialmente aos actos que a jovem teve ao entrar na zona proibida para afazeres que se desconhecem. Compreendemos que algo se passa graças à intervenção que "Ernesto" tem com ela antes de a mandar esconder-se de "Salaviza" mas, ainda assim, tudo é estranho para lá do momento que se mantém tenso. Porquê? Para quê? O que existirá de tão estranho ou proibido para lá dos limites ou fronteiras "aceitáveis" desta nova realidade? Cedo compreendemos que este conflito nuclear dizimou a sociedade. Dizimou instituições e, como em qualquer época de crise, quem tem força militar conquistou o que sobrou no pós-conflito. Muitos devem ter sido os que desaparecerem com o mesmo limitando a população a números diferentes de outros tempos como sobretudo os recursos para os fazer substituir. Sendo estes raros até que ponto todos têm direito a algo? Se o pensamento do espectador se encaminha neste percurso aceitando que a luta dos sobreviventes é ter subsistência e do novo poder o controlo desses mesmos recursos, é a revelação do verdadeiro drama que o assola e faz perceber que a dinâmica da sociedade e mesmo a sua própria sobrevivência está em risco se não se conseguir garantir sobretudo a própria "geração seguinte". Muito num estilo de Children of Men (2006), de Alfonso Cuarón, o que aconteceria se, de repente, deixassem de existir crianças que garantissem o futuro? Ou pior... no caso de existirem, até que ponto seriam vistas como um "empecilho" que esgota o pouco que existe... e sobretudo o pouco que existe desse novo poder que se assume como dono e senhor de tudo e de todos?!
O "novo poder" é, como cedo esperamos, intimidante, intrusivo, inquiridor ou até mesmo inquisidor, regulador pela ordem e pela moral que institui como "certa" e castrador. O "Coronel Salaviza" de Paulo Calatré é tudo isso. E mais. Se o "Ernesto" de Sérgio Godinho se prende com a réstia de moral que se espera de alguém que, tal como a maioria dos demais sobreviventes, se rege por um qualquer ideal de um amanhã melhor, Calatré dá corpo àquela sombra que surge (literalmente) por detrás do nosso ombro e atormenta qualquer tipo de existência ou esperança fazendo ver e crer, qual São Tomé, numa nova ordem quase bíblica do qual apenas e só ele é detentor e garante. A ordem (dele) existe. "Salaviza" irá impô-la nem que para isso precise de eliminar todos os que ousem querer ver (ou viver) o mundo de uma forma diferente. Na realidade a liberdade de uns não afectaria a existência dos outros mas para o coronel a mais ínfima réstia de esperança noutra realidade é uma ameaça por si só. Se a dinâmica entre os actores existe - e existe -, verdade será que é a personagem de Calatré que exala a todo o instante a perfeição e encarnação desse mal que espreita a todas as esquinas e aquela que, não mostrando qualquer reserva nos seus fins e propósitos, consegue captar para si todos os olhares... resista, no final, ou não.
Toda a dinâmica deste filme curto é centrada naquela casa rudimentar e não poderia ter sido criado melhor ambiente para recriar esses dias do fim. O ambiente exterior, ainda que permaneça a curiosidade no espectador, acaba por ser prescindível. Ali tudo acontece e dá um retrato perfeito do que pode ser esse "lá fora". Sabemos que existem carências, que a comunicação com todo o mundo exterior é não só perigosa como complicada e pode colocar todos em risco e sobretudo compreendemos a partir dali que a própria sobrevivência pode, a qualquer momento, ser travada por qualquer elemento... pela fome, pelo crime, pelo governo ou até mesmo por uma qualquer derrocada que ponha fim àquela casa. Nada é certo e seguro e a partir dali, daqueles breves momentos em que observamos o ambiente ao nosso (deles) redor percebemos que o fim é apenas uma realidade a curto ou médio prazo. Ainda um destaque para a direcção de fotografia de Tomás Brice que capta com rigor o imaginário desse fim dos tempos que se espera num filme do género e que é, sem dúvida, mais um dos fortes elementos deste filme curto feito com rigor e precisão afastando-se dos habituais lugares comuns do género e entregando uma história que além do entretenimento leva o espectador a questionar-se sobre a possibilidade de uma qualquer "nova ordem" que limite direitos e liberdades impondo a sua "moral" não desejada.

8 / 10

domingo, 28 de maio de 2023

Es el Momento (2022)

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Es el Momento de Rubén Bautista (Espanha) decorre com base numa não tão simples premissa... Tens poucos segundos para dizer algumas palavras. De imediato, pensa o espectador, está perante uma história que o transporta até um conto sobre uma qualquer vitória para a qual é "agora" necessário fazer os devidos agradecimentos e espalhar um pouco de amor por todos aqueles que influenciaram a protagonista para as suas vitórias. No entanto, cedo se compreende que as vitórias foram as lutas de uma vida que agora parece extinguir-se como se de um abrir e fechar de olhos se tratasse. Tudo é fugaz... a vida... as conquistas... as derrotas e os acontecimentos de um forma geral. A infância e a adolescência... a idade adulta... um primeiro trabalho, o casamento e a maternidade... o divórcio, a velhice e a consequente morte assumem, já bem perto do final, um importância extrema ao equipará-los a todas essas vitórias individuais que os anos - num abrir e fechar de olhos - lhe granjearam e que agora, por mais importância tenham - mais não são do que breves momentos que a vida deu, transformou e guardou na memória.
Poética de um ponto de vista em que esta curta-metragem acaba por ser uma reflexão sobre a vida o que se perdeu, ganhou e, sobretudo, sobre a passagem do tempo, Rubén Bautista acaba por elaborar uma obra que acaba por se assumir como um vídeo motivacional bem executado e cuja mensagem chega ao espectador mas que, ao mesmo tempo, não será a tradicional obra cinematográfica que se espera ver e, por esse mesmo motivo, acaba por não ser aquele filme que será recordado. Eficaz no seu tempo e ao seu próprio ritmo mas não irá perdurar no tempo como uma referência do género mantendo-se apenas como uma obra com a qual o seu realizador poderá viver satisfeito por a ter criado.
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7 / 10
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segunda-feira, 15 de maio de 2023

A Entrevista (2022)

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A Entrevista de Susana Sampedro e Fernando Tato (Espanha) é uma das curtas-metragens em competição na secção Nacional da décima-terceira edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos a decorrer na Cantábria até ao próximo dia 20 de Maio.
Sara (Sílvia V. Lorenzo) chega à revista Cosmo Fashion para uma entrevista de trabalho. Rapidamente esta entrevista ganha contornos desconfortáveis quando ela se depara com as perguntas de Laura (Martina Stetson) que parece conhecê-la.
O realizador Fernando Tato escreve o argumento desta curta-metragem com a colaboração da dupla de actrizes Lorenzo e Stetson que, desta forma, conferem às suas palavras uma interpretação francamente mais pessoal e igualmente intensificando a dramatização de um momento que para lá de tenso esconde não só traumas do passado como também alguns de um presente não verbalizado. Aquilo que temos inicialmente nesta curta-metragem é a história de uma mulher - Lorenzo - que, achamos, está há muito tempo afastada do mercado de trabalho. A vida deu-lhe outras prioridades mais ou menos esperadas e ela é, agora, uma estranha num mundo laboral nem sempre simpático para aqueles que se ausentam "tempo demais". O que a leva a esta ressurgimento, seria uma pergunta perfeitamente natural, não fosse a dinâmica da entrevistadora - Stetson - estranha desde os primeiros instantes. Ainda que duas mulheres de idade próxima e que eventualmente até poderiam ter estudado no mesmo local e ao mesmo tempo, o espectador repara que a mulher que "Sara" é uma mulher mais fragilizada e apagada no tempo. As tais consequências da vida ou agruras do tempo estão nela bem mais vincadas. Por sua vez "Laura" é uma mulher forte, dinâmica e com pouco tempo para perder com alguém que se "lembrou" de voltar ao mundo profissional depois de o ter preterido em favor de "coisas menores".
É nesta aparentemente "estranha" dinâmica que encontramos dois mundo tão diferentes criando uma imediata empatia com "Sara" que não tão secretamente queremos ver vencer uma entrevista que parece ter tudo para lhe correr mal. "Laura" não está disposta a dar-lhe qualquer oportunidade e todos os passos em falso poderão ser aproveitados para a preterir em favor de outra pessoa. Qualquer outra pessoa. Implacável e com alguma satisfação pessoal por agora ter aquela mulher à sua frente, a personagem interpretada por Stetson lentamente revela que conhece "Sara" e que havia sido vítima de bullying quando ambas eram mais novas. Se a simpatia do espectador estava inteiramente dedicada à personagem de Sílvia Lorenzo, rapidamente oscilamos para o outro lado quando percebemos que apesar das mágoas do passado estamos, agora, perante alguém que sobreviveu e que conseguiu transformar a sua vida e cair com os pés bem assentes na terra e alcançar os seus objectivos. As perguntas, cada vez mais pessoais e francamente menos inocentes, revelam que "Laura" não esqueceu "Sara" e que está disposta a tudo para a recusar e cancelar tal como anos antes se havia sentido às mãos desta última.
Mas, todas as histórias de vida parecem encontrar uma qualquer redenção para os seus portadores mesmo que ninguém "trabalhe" para aplicar uma esperada justiça. As circunstâncias em que estas duas mulheres se voltam a encontrar estão longe de ser perfeitas e a outrora agressora é, também ela, uma vítima não da sua "inimiga" mas sim de uma vida que escolhera e que, afinal, não havia sido tão perfeita como inicialmente ela poderia tê-la imaginado. "Sara" é uma vítima sim, mas de um casamento cheio de problemas, de humilhações e cancelamentos pessoais que a transformou num vulto fantasmagórico sem personalidade, vontade ou ideias. Esta entrevista pode ser a sua última oportunidade de recuperar algo e construir uma vida diferente e melhor ou então um inesperado fim que continuará a lançá-la numa vida secundária e cheia de dificuldades das quais dificilmente terá hipótese de recuperar.
Num ambiente sempre tenso onde papéis sociais se invertem, onde a história, bem como um desejo de vingança são recuperados e onde finalmente se demonstra a capacidade evoluir e ultrapassar um passado por vezes complicado, a dupla de realizadores bem como a dupla de actrizes e co-argumentistas cativam e dominam esta curta-metragem que se centra, sobretudo, na possibilidade de uma segunda oportunidade... Primeiro aquela tida pela personagem interpretada por Stetson que conseguir passar de uma indefesa vítima a uma mulher profissionalmente bem sucedida que dirige e comanda uma empresa e, finalmente aquela de Stetson, uma mulher que nos idos anos de juventude era uma agressora psicológica (talvez física) e que agora, anos passados ao sentir a mesma perseguição que em tempos provocara, procura também ela uma segunda oportunidade de se redimir mas principalmente de sobreviver e não sucumbir a uma destruição que primeiro lhe abalou o físico e depois a auto-confiança que percebe ter tido e perdera.
Intensa, muito intensa pela mensagem mas também pela forma como é filmada num espaço que parece ser tão pequeno como as perspectivas sentidas pelas duas protagonistas, mas sobretudo actual, A Entrevista para uma segunda oportunidade - a destas duas mulheres - cativa pelo que se diz e sobretudo pela forma como ambas conseguem num posterior silêncio sobre aquilo que não se diz, compreender que as suas histórias, em dado momento, não estão tão distantes como poderiam imaginar.
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8 / 10
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sexta-feira, 29 de maio de 2020

Egg (2020)

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Egg de Michael J. Goldberg (EUA) é mais uma das curtas-metragens exibidas no decorrer do WAO:GFF - We Are One: A Global Film Festival e que nos revela um conto onde o espectador conhece Jeff (Alex Anfanger) que se encontra num encontro com Alana (Leah Henoch) num restaurante de estrada perdido no meio do deserto. Se este encontro potencialmente sentimental poderia ter tudo para resultar, cedo é revelado que parece bem mais penoso do que o esperado. Existirá escapatório para este "date" ou a imaginação irá levar Jeff para caminhos nunca esperados?!
A curta-metragem de Michael J. Goldberg - também argumentista - recupera um género de comédia/paródia de situação que aqui se subdivide em dois momentos específicos. O primeiro quando o espectador assiste a um encontro que não está a correr bem e, o segundo, quando um dos seus intervenientes se deixa levar pela imaginação equacionando toda a viagem de um ovo desde o seu primeiro momento de existência até àquele último instante antes de ser digerido. O porquê de um ovo? Tão simples quanto a este estar presente na refeição que ambos tomam naquele restaurante... poderia ter sido qualquer outra coisa e, como tal, porque não um ovo?!
Para lá da odisseia que nos é apresentada sobre as (des)venturas de um ovo perdido no meio de uma qualquer estrada deserta - muito ao estilo farwest -, onde tudo toma contornos de um filme de acção sem um desfecho à vista, Egg surge de um efeito surpresa sobre aquilo que observamos num misto de incredulidade e espanto. Como é que passamos de um "diner" à beira de uma estrada deserta para a aventura de sobrevivência de um ovo que tenta tudo por tudo para resistir às agruras de uma vida que nunca conhecera?! Com uma utilização pensada e cheia de recursos do absurdo e do sobrenatural - na medida em que nada disto poderia acontecer num filme que se quisesse levar a sério -, a realidade é que esta história transforma o seu protagonista num novo aventureiro que poderá facilmente voltar a ser visto caso nele alguém queira investir... afinal, até a própria história termina com a potencialidade do seu próprio regresso!
Cómico? Sim. Uma novidade ligeira? Sim. Não se leva muito a sério? Sem dúvida que sim! Temos um conto de comédia. Uma história que se deixa levar pelo simples recurso à imaginação de uma mente que parece jovem e cheia de rumos por percorrer e que funciona na exacta medida daquilo que desta curta-metragem esperamos... uma história simples, divertida e ligeira que nos leva numa aventura de pouco mais de dez minutos e que distrai o espectador pelo seu próprio propósito sem grandes fins ou objectivos. Memorável ou inovadora não será mas cumpre o que promete no campo do comédia de aventura ou de situação.
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6 / 10
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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Estamos Todos Aqui (2018)

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Estamos Todos Aqui de Chico Santos e Rafael Mellim (Brasil) foi mais uma das curtas-metragens apresentadas neste último dia de exibição da Competição Oficial da vigésima-terceira edição do Queer Lisboa a decorrer até ao próximo Sábado no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Rosa, que nunca se sentiu Lucas o nome que lhe havia sido dado ao nascimento, fora expulsa de casa. Na emergência de construir a sua própria casa na Favela da Prainha, a expansão do maior porto da América Latina vê não só os seus como os sonhos de toda a comunidade ameaçados privando-a de um ideal de futuro.
A dupla de realizadores, que também escreveu o argumento desta curta-metragem que se assume desde o primeiro instante como breve demais para aquilo que nos poderá oferece, enquadra o espectador naquilo que é inegável... a extrema pobreza (social, cultural e económica) do espaço e da população que o habita. Longe de qualquer juízo de valor sobre os mesmos mas sim acentuado sobre as condições que a todos obrigaram a encontrar-se naquele local, é esse mesmo espectador que é imediatamente seduzido pelos comportamentos e rituais quase mecânicos que levam a nossa protagonista a uma busca incansável por um espaço e pelos materiais que a poderão permitir construir o seu novo lar num ambiente assumidamente agressivo.
"Rosa" - personagem docuficcionada - é uma jovem mulher numa transição desconhecida para o espectador. Na prática, essa mesma transição é apenas protagonista por ser (deduzimos) a razão pela qual ela necessita procurar pelo seu espaço sem se remeter para uma mendicidade ou prostituição quase forçadas, e encontrar assim um potencial lugar ao qual chame seu... e de lar. Um lar que lhe fora privado por uma família que compreendemos ter sido abusiva, injusta e que lhe renegou o direito a ser aquilo que sempre foi... uma mulher livre. Nesta medida, aquilo que o espectador compreende é todo o seu ambiente agora "natural" centrado em todo um conjunto de adversidades que lhe são forçadamente propostas e das quais terá de escapar se lhes quiser sobreviver.
Neste contexto, "Rosa" é uma mulher personagem de um espaço que joga desde o primeiro instante contra ela própria, onde reina o perigo, a miséria, as dificuldades e sobretudo todo um conjunto de impossibilidades que a privam de viver a sua vida tal como ela deveria ser... livre. O espaço apresentado pelos realizadores não poderia ser mais adverso... todo um bairro (favela) onde reina a miséria e o empobrecimento. Habitações precárias erguidas por entre o lixo e os detritos esquecidos pelo sem fim de construções que crescem ao seu redor e "na outra margem" das suas possibilidades, fazendo criar famílias que estão, em todas as frentes, num limiar de vida digna e que para sobreviver apenas está garantido pelo recurso à ilegalidade.
É, neste mesmo meio, que "Rosa" tem não só de sobreviver como também lutar e insurgir-se contra as ameaças que se sucedem quando o próprio local está ameaçado pela expansão de um novo motor económico que irá colocar em causa toda a sua (nova) forma de sobrevivência. Atenta, lutadora e agora despertada para a realidade de toda a sua nova condição, "Rosa" terá de se insurgir contra as ameaças ou perder-se e morrer face à incerteza a que a remetem e que a espera sem qualquer piedade.
Para lá de um atento olhar sobre a transição de uma jovem mulher, Estamos Todos Aqui é um intenso relato sobre a sobrevivência humana. Sobrevivência essa que se pode assumir física, psicológica, económica, cultural ou sob uma qualquer outra forma que ameace a dignidade humana e que mais ou menos moderadamente catapulta todos os seus intervenientes a uma luta sem fim pelo seu espaço e sobretudo pela sua existência. Estamos Todos Aqui poderia, dessa forma, ser a interessante pergunta colocada ao "outro" com o fim último de compreender quem tem mais direito sobre o "espaço"... "eu"... "tu"... "o outro"?! Serão umas formas de existência mais válidas que as outras? Terei "eu" mais direito ao espaço do que "tu"? Será a minha existência mais válida do que a "tua"?
Vivida de forma intensa e quase sempre a atingir um clímax, "Rosa" e o seu grito de revolta que a obriga a incorporar esse Estamos Todos Aqui como o seu lema de vida constituíram-se como um dos mais interessantes filmes curtos a passar este ano pelo Queer Lisboa e um tubo de ensaio para aquilo que poderia ser uma história mais longa e, sem qualquer ponta de filosofia, um interessante relato sobre quanto tempo dura ou resiste a luta por essa dignidade tantas vezes perdida.
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8 / 10
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sexta-feira, 3 de maio de 2019

Equinox (2019)

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Equinox de Bruno Carnide (Portugal) é uma das curtas-metragens em competição na décima-sexta edição do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema a decorrer em várias salas da capital que aqui, num registo de animação, nos remete para o país do sol nascente onde um confronto está prestes a atingir o seu clímax.
Em pouco mais de três brevíssimos minutos, Bruno Carnide dá corpo ao argumento de Carlos Salvador naquela que é uma animação Europeia num ambiente asiático, que cruza elementos do cinema noir, do drama, do conto de amor sem deixar de brindar o espectador com pequenas surpresas que tarde se revelam para deixar o espectador num impasse. Um impasse que não se afirma pela incerteza da história a que este acabou de assistir mas sim uma que convictamente se afirma num pensamento comum para estas curtas-metragens cuja duração finda muito rapidamente... "onde está tudo o demais?". Desde sempre defendo que uma história - um filme - termina no exacto momento em que tem de durar. Nada, em princípio, fica por contar e os elementos e nuances que são fornecidas ao espectador são exactamente aqueles que deveriam ter visto a luz do dia. No entanto, são pequenas e surpreendentes histórias que rapidamente confirmam que toda a regra tem uma excepção, e é esta que deixa o espectador com a firme convicção que Equinox deveria ter ido mais além.
Não lhe falta nada... Temos um ambiente animada que recria com uma precisão invejável uma Tóquio cosmopolita que, no entanto, é apresentada pela calada da noite enquanto todos se escondem de um rebuliço diário, temos o clima que tantas vezes associamos a estas histórias orientais que não fazem o espectador dispersar com pequenos detalhes narrativos - sendo que aqui estes são importantes para a dinamização do tempo e do espaço - e que nos remete para uma história que se desvenda num meio privado mas numa urbe imensa e, finalmente, esta mesma história que ganha corpo não por aquilo que vemos e que é revelado mas sim através do poder de uma imaginação que se deixa embrenhar pelos requintes que cada um atribui àquilo que escuta para lá do que é devidamente fornecido enquanto "espaço".
Um homem e uma mulher encontram-se. Ambos falam sobre a presença dela com alguém. Nada é fornecido sobre estas duas personagens para lá de um ciúme que ganha forma enquanto as palavras são escutadas. Adivinha-se um ambiente tenso. Uma história cheia de mágoas, de rancores, de ofensas que não são novas e que podem facilmente assumir-se com um crime porvir. São os pequenos elementos de uma cidade que aparentemente dorme mas que ganha uma "consciência" sobre esse futuro próximo... O vermelho assume-se com o indício maior de um acto violento. O vermelho que se reflecte nos edifícios, nos semáforos e até nas palavras que ganham forma enquanto o fim (do filme...) se aproxima. A cidade, que apenas aparenta dormir, desperta com um som agudo e aquilo que parecia ser iminente acontece para a surpresa (não esperada) do espectador.
Equinox não falha. Não existem elementos supérfluos e tudo, da primeira palavra à primeira imagem, encontra-se devidamente centrado no espaço e no tempo que o espectador precisa para se deixar levar por uma história que tudo conta mas que poderia deixar-se levar pelo tempo sendo digerida pelo espectador com idêntica dedicação, curiosidade e surpresa. Nada falha a não ser o tempo... o tempo que chega demais para as personagens que mesmo não sendo vistas ganham corpo pela alma que depositam em cada palavra que soltam enquanto todo um universo de sons se escutam "lá fora".
Eventualmente atípica para uma animação, Equinox consegue equilibrar intensidade e dramatização mantendo o espectador preso a um novo segmento e na esperança que a história possa não acabar tão brevemente como aquilo que cedo se adivinha.
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7 / 10
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segunda-feira, 29 de abril de 2019

Eran Otros Tiempos (2018)

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Eran Otros Tiempos de Alejandro Talaverón (Espanha) é um dos filmes curtos presentes na secção competitiva LGBT da décima edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos que decorre na Cantábria, em Espanha até ao próximo dia 4 de Maio.
No presente, todos temos liberdade sexual e as minorias levantam a sua voz podendo, dessa forma, orgulhosamente sair à rua e expressar aquilo que e por quem sentem. Mas nem sempre foi assim...
Este belíssimo documentário curto tem como principal interveniente a avó do realizador que começa por ser apresentada ao espectador como uma mulher idosa, viúva e por quem se espera ter um inesperado interesse por aquilo que ela potencialmente tem para nos contar. No entanto, não é tanto pela história que nunca chega a ser devidamente desenvolvida que nos interessamos, mas sim pela candura e honestidade com que a mesma fala e se expõe a um espectador surpreendido pela sua genuinidade e coração aberto para falar não sobre as dinâmicas de uma mulher na terceira idade mas sim daquilo que sempre a fez mover um pouco mais além... o amor.
Talaverón com uma câmara firme e o gosto por descobrir - ou fazer descobrir - a sua avó, apresenta-nos uma mulher que aparenta levar a vida de forma ligeira e despreocupada. Certa dos seus sentimentos e segura daquilo que sentiu no passado, lentamente revela-se para uma câmara que a quer descobrir confessando assim a paixão que sentiu pela noiva do seu irmão. Paixão essa que nunca confessou pelo medo das represálias, da família e mesmo da rejeição. A única coisa da qual ela revela não sentir qualquer lamento é do próprio sentimento... Um sentimento que a fez sentir viva, que a faz sorrir pelas memórias que lhe trazem e que, mesmo não tendo sido um amor cumprido, foi sentido com a intensidade de uma jovem que ainda hoje é.. em pensamento.
Com uma vida construída para lá do sentimento da paixão - e que deu, obviamente, origem ao seu neto e realizador -, esta mulher sempre sentiu uma forte atracção pela cunhada com quem pouco conviveu para lá dos eventuais encontros familiares que se proporcionariam ao longo dos anos e por quem nunca perdeu um especial carinho que, no fundo, sempre definiu o seu ser e os seus sentimentos.
Inteligente, emotiva e dotada de uma grande sensibilidade que levam o espectador a simpatizar desde o primeiro instante com esta mulher de força emocional extrema, Eran Otros Tiempos define não só os sinais do tempo e da sua mudança onde tudo aparenta estar mais fácil para a aceitação pessoal dos sentimentos individuais mas que, ao mesmo tempo, não deixa grande margem de manobra para essa mesma aceitação àqueles que, vindos de outros tempos, ainda se deixam definir pelos parâmetros e valores de outras épocas libertando-os (talvez) de culpas sentidas mas condicionando-os no tempo e no espaço que já não lhes permite viver a vida com a mesma intensidade. Se o espectador se deixar levar pela genuinidade de uma mulher desses "outros tempos"... aqui encontrará a sua musa.
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8 / 10
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sábado, 24 de novembro de 2018

A Estranha Casa na Bruma (2018)

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A Estranha Casa na Bruma e Guilherme Daniel (Portugal) presente na selecção oficial da XXIVª edição do Caminhos do Cinema Português e curta-metragem já premiada noutros festivais de cinema, adaptada de um conto de H. P. Lovecraft revela a viagem de um peregrino (Daniel Viana) que após percorrer um longo caminho chega a uma enigmática casa cuja porta fica virada para um abismo. Lá dentro um misterioso homem (Carlos Fartura) acolhe-o com um sorriso. Mas, de repente, alguém bate à porta...
A mais recente curta-metragem de Guilherme Daniel lança o espectador num espaço aparentemente transitório entre duas distintas realidades. Por um lado encontramos logo de início uma floresta seca e queimada da qual a vida parece distanciar-se. Por outro, rapidamente este "peregrino" se afasta desta realidade indo sair a um terreno árido junto a uma ravina que desemboca no mar. De uma imensa floresta onde a vida já não tem lugar a um espaço que se caracteriza pela intensa presença da água - eterno símbolo de vida -, o espectador facilmente poderia considerar que toda a caminhada da personagem de Daniel Viana mais não é do que uma mais ou menos lenta travessia por um purgatório que, talvez o próprio, ainda não tenha reconhecido.
Mas, no entanto, é a dinâmica estabelecida no espaço que circunda a misteriosa casa e aquela tida com a personagem de Carlos Fartura já no interior da mesma que se assume como mais surpreendente. Uma alma perdida ou um guardião de mundos desconhecidos? Que a mitologia existe, é um facto, pois aquela enigmática porta e o bater que nela ecoam só podem ser fruto de majestosas criaturas mitológicas do submundo dos mares como, por exemplo, um Neptuno que comanda a partir dali a ligação que mantém com o mundo exterior. No entanto, nunca confirmada que está essa presença, apenas pode decifrar o espectador que aqueles que por ali páram são os que vão, futuramente, assumir o posto de guardião dessa mesma porta... a abrir em condições extremas e especiais. Mas é, quando finalmente decide abri-la, que o seu corpo irá ressurgir num qualquer outro local... talvez este bem mais certo e real do que aquele em que se encontrara e que, de certa forma, poderá confirmar a tese do purgatório.
Inteligente adaptação do imaginário de Lovecraft com um não tão leve toque ambiental - a referência à floresta queimada é infeliz e tragicamente real demais no nosso imaginário -, e com uma rica direcção de fotografia da autoria do próprio realizador que intensifica o género "ambiental", A Estranha Casa na Bruma é um daqueles filmes curtos que pede desesperadamente para se transformar numa história mais consistente e exploratória que faça o espectador embrenhar(-se) pelo imaginário do fantástico conseguindo, sem grandes dúvidas, ser bem sucedida.
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7 / 10
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domingo, 30 de setembro de 2018

Estiu 1993 (2017)

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Verão 1993 de Carla Simón (Espanha) é uma das longa-metragens espanholas presentes no Cine Fiesta - Mostra de Cinema Espanhol 2018 a decorrer até ao próximo dia 2 de Outubro.
No Verão de 1993 depois da morte dos pais, a jovem Frida (Laia Artigas) de seis anos abandona a casa dos avós em Barcelona rumo a uma nova realidade no campo com os tios Esteve (David Verdaguer) e Marga (Bruna Cusí) e a prima Ana (Paula Robles). Se esta nova vida parece ter tudo para ser feliz, Frida esconde uma ainda desconhecida tristeza e revolta que não trazem estabilidade para a vida de todos. Mas à medida que o Verão caminha para o seu final, também os sentimentos de Frida estão prestes a ser revelados...
Escolhida como a longa-metragem espanhola que representaria o país na nonagésima edição dos Oscars e com uma carreira internacional pelos mais diversos festivais de cinema, Estiu 1993 chega finalmente a Portugal onde se assume naturalmente como uma das melhores obras a estrear nas salas do país durante o último ano. Com um passo aparentemente tranquilo, Carla Simón - realizadora e argumentista desta obra auto-biográfica - leva o espectador a observar não só a nova realidade de "Frida" como principalmente essa realidade através dos seus olhos na medida em que existem duas imediatas perspectivas para este (seu) novo mundo... A primeira que se prende directamente com aquilo que está obviamente explícito para o espectador e que lhe chega pelas breves informações que tornam esta mudança concretizada... a morte da mãe... um pai já falecido há mais tempo... e avós cuja idade já não lhes permite tomar conta da jovem "Frida". Observamos o primeiro contacto "definitivo" com os seus tios, a chegada a uma nova casa no campo rodeada de uma enorme floresta por entre a qual irá - futuramente - perder-se nas suas brincadeiras e o recurso aos seus parcos objectos pessoais que trouxe da sua - agora - antiga casa. A segunda perspectiva é conferida ao espectador pelo olhar da jovem criança... um olhar aparentemente frio, distante e que se tenta adaptar ao espaço, e às pessoas, sem que, no entanto, com elas pretenda estabelecer um laço definitivo ou próximo. A sua existência naquele local é, pelos seus próprios olhos, algo imediato e circunstancial, desprovido de qualquer empatia ou de identificação com uma vida que, para qualquer outra criança, poderia ser considerada como um longo e extenso período de férias que se prolonga para lá do habitual... mas para "Frida", estas "férias" mais não são do que uma qualquer eventual penitência que não compreende e não está disposta a aceitar como comprovam as suas parcas perguntas sobre a "casa de Barcelona".
Estas duas perspectivas, subtilmente apresentadas pela realizadora, prendem o espectador a uma dupla compreensão do momento na medida em que primeiro observa toda esta transformação na vida de uma criança para depois compreender o que a mesma significa mas... através dos seus olhos e da sua própria compreensão. Independentemente do anterior estilo de vida, que se torna perceptível através dessas poucas informações que as personagens "adultas" fazem chegar, o espectador cedo compreende que para aquela criança todo o seu mundo foi abalado... não só pela perda dos pais, e mais concretamente do recém falecimento da sua mãe, como pelo afastamento dos poucos amigos que poderia ter na sua cidade natal, dos avós e tia que permaneceram na capital catalã e, finalmente, por todo um novo estilo de vida num ambiente que mal conhece com tios cuja mútua convivência desconhecemos e com uma prima mais nova que vê nela a sua melhor amiga mas que a própria tem como alguém que apenas pretende os seus brinquedos. São estas perspectivas que não só fazem o espectador aproximar-se da jovem "Frida" - numa soberba interpretação de Laia Artigas - como compreender que é nela que reside toda a tensão dramática, emotiva e contenção de sentimentos que independentemente de explodirem a qualquer momento se tomam como os definitivos para a formação do seu carácter e estado de espírito.
Assim, num passo muito próprio e num relato não perceptível sobre o passar dos dias e desta esperada "adaptação ao meio e às pessoas", o espectador compreende ainda o espírito do seu tempo na medida em que observa e retém que a mãe da jovem "Frida" faleceu de complicações com uma pneumonia mas que os tais "adultos" pensavam ser "outra coisa" - numa clara alusão ao vírus da SIDA -, da mesma forma que observamos a reacção desses ditos adultos que pretendem o afastamento de uma criança que se feriu na rua e que está a sangrar... Do conservadorismo à ignorância e da alteração comportamental das pessoas ao seu redor, aquilo que todos parecem esquecer é que é a jovem "Frida" que tem não só a maior perda, como a maior transformação e sobretudo a maior capacidade de reprimir as suas emoções e ocultar aquilo que realmente pensa e sente. Quando os adultos pensam que o seu mundo fora alterado e está em reboliço esquecem-se, de imediato, que são aqueles que não compreendem essas transformações aqueles que maior e mais depressa as vivem.
Nesta história auto-biográfica destaca-se, portanto, a jovem Laia Artigas como a protagonista "Frida". São os seus constantes silêncios e observação desse seu não tão admirável mundo novo que prendem o espectador... Primeiro por se manifestar como a jovem cujo "sono" é apenas desperto pelo fogo de artifício dos outros ao seu redor que festejam um qualquer acontecimento. Depois por se tentar enquadrar num mundo que sente não ser o seu... Está com os seus tios e com a sua prima mas, ao mesmo tempo, distante de tudo o demais que conhecera até então e é a imagem da casa de Barcelona, a sua casa, que tanto a preocupa com os seus seis anos de idade... o tal espaço que não compreende não ser o seu nem tão pouco o porquê de não lá regressar apesar de ser um espaço que, conforme lhe é dito, ainda não está ocupado por mais ninguém. É esta adaptação - ou falta dela - que aparentam transformá-la numa jovem e problemática criança, cheia de caprichos e de vontades que ninguém parecer (querer) compreender e que, ao mesmo tempo, a revelam como alguém quase insuportável mas que, no entanto, é apenas a única forma que encontra de exprimir um qualquer sofrimento que ninguém parece conhecer. Comportamento esse que, repleto de pequenas grandes manifestações religiosas vindas de uma avó que compreendemos como mais conservadora e católica, lhe conferem uma percepção (ainda que imaginária) de uma realidade extra-terrena que a poderá confortar mas que, no entanto, apenas potencializam a sua vontade de comunica com uma mãe que já não irá responder. Finalmente, é a aceitação de um novo espaço, e de uma nova forma de família, à qual se rende e com a qual partilha um primeiro e verdadeiro momento de intimidade que a fazem desarmar e que a revelam como, nada mais, a criança que é... cheia de uma dor imensa que não conseguira exprimir e que finalmente se abate sobre ela ao compreender que nada poderá voltar a ser como até então fora... e que nada lhe poderá possibilitar a tal família que tivera até então. As suas lágrimas são de revolta, de dor, de perda mas, sobretudo, da compreensão de todas elas como a sua nova realidade.
Com a tal passada especial que levam o espectador a percorrer os mesmos espaços que a jovem "Frida" ao seu ritmo e à sua capacidade de ver o mundo com os olhos de alguém que ainda não deveria pensar no mesmo, Estiu 1993 é não só uma das mais intensas obras cinematográficas deste último ano como sobretudo um intenso, inteligente e emocional registo sobre a perda e sobre uma dor psicológica que tantas vezes é difícil não só de compreender por quem a observa como sobretudo por aqueles que a sentem e Carla Simón tem aqui não só a sua primeira longa-metragem como seguramente aquela que irá ser referenciada ao longo dos anos como a mais emblemática de todo o seu percurso. Simplesmente genial.
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9 / 10
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domingo, 5 de agosto de 2018

The End (2013)

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The End de Raj Pathak e Crash Taylor (Reino Unido) recupera, no formato de filme curto, o imaginário de um mundo devastado por uma praga zombie no qual, Tina (Shelley Draper) e Sofie (Ava Nicholson) - mãe e filha - se refugiam numa velha casa abandonada para escapar de uma morte anunciada. Mas, é quando Tina julga que a sua filha está a salvo, que o perigo espreita... dentro e fora da casa.
Pia Cook e Tina Smith compõem um argumento que, no essencial, é fiel ao género proposto. Exibem uma história com um dilema existencial cujo foco principal é a sobrevivência das referidas personagens e daquilo que sobra da sua família mas, ao mesmo tempo, não esquecendo toda a sub-história que se prende através desse mundo desertificado de vida humana mas povoado por aquilo que pensamos ser uma extensa horde de perigosos zombies.
Com esta perspectiva em mente, e após a esperança poder encontrar o seu fim naquela casa abandonada, aquilo que o espectador observa é um conjunto de óbvias referências ao êxito britânico 28 Weeks Later (2007), de Juan Carlos Fresnadillo nos momentos mais elementares como, por exemplo, a descida da dupla protagonista por uma colina, o refúgio numa casa abandonada que é rapidamente invadida pelos mortos-vivos ou o dilema de uma mãe infectada versus a sobrevivência da sua própria filha. Neste âmbito, e considerando que The End não apresenta propriamente uma dinâmica original ou inovadora para o género - que apesar de já extenso o seu arquivo consegue, por vezes, encontrar interessantes obras -, aquilo que aqui temos é a clara homenagem ao mesmo feita pela dupla Pathak e Taylor que, ao mesmo tempo, poderá servir enquanto rampa de lançamento para algo maior (se, por exemplo, encontrássemos referências expressas a um passado não explorado) futuramente criado e que melhor represente o género de forma original e inovadora.
The End no entanto e no final - ironia à parte - independentemente da boa vontade de todos, nunca consegue transformar-se numa obra suficientemente apelativa para cativar o espectador.
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3 / 10
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domingo, 22 de julho de 2018

États d'Âme (2017)


États d'Âme de Jean Kévin-Dijoux (França) é uma curta-metragem de cariz académico e, suposição minha, feito num âmbito de cariz educativo ou de sensibilização dado o seu frágil argumento que, no entanto, pretende fazer mostrar uma mensagem de empatia.
Numa escola um jovem é abordado por uma colega que revela ter interesse nele. Indiferente ao acto, é já na sala de aula que ele é exposto e ridicularizado pela suposição da sua sexualidade. Ao mesmo tempo, outro colega é igualmente humilhado pela mesma rapariga quando se descobre que escreve poesia. Num contexto onde aparentemente estes dois jovens são opostos na sua vida existirá espaço para a mútua compreensão?
Com uma clara tentativa de empatizar e criar compreensão para as diferenças expondo opostos e supostos papéis sociais que já deveriam estar bem diluídos nos anos em que vivemos (mas que aparentemente se revelam cada vez mais intransigentes), o realizador, intérprete e argumentista Jean Kévin-Dijoux revela as suas boas intenções para quebrar esses (ainda) paradigmas sociais criando uma curta-metragem que pretende retratar a "normalidade" da diferença como se ela não fosse de facto normal. Compreensível a vontade de consciencializar e até mesmo a de revelar que existe muito mais dentro do "frasco" do que aquilo que a primeira impressão (ou rótulo) supostamente revela mas, ao mesmo tempo, é na vontade de revelar que a diferença é "normal" que o espectador acaba por ver a  mesma como algo que existe e não assumir, desde logo, que todos aqueles alunos (com a natural "estupidez" da idade) sejam normais e diferentes cada um à sua maneira... independentemente da sua sexualidade, dos seus gostos pela poesia ou simplesmente pela esperada indiferença a tudo o que os rodeia.
A vontade de consciencialização existe... mas este États d'Âme perde-se por querer rebater um conjunto de assunto que por se quererem "diferentes" acabam de facto por sè-lo. Não que seja uma curta-metragem desnecessária - mesmo com todas as suas enormes fragilidades estéticas e de execução - mas seria um filme curto com outro relevo e importância caso a sua elaboração fosse mais cuidada e aprimorada.



3 / 10

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Enchufados (2017)

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Enchufados de Sadie Duarte (Espanha) é uma curta-metragem que revela um pequeno momento na vida dos funcionários de uma empresa onde todos procuram um ambiente cordial... até surgir a próxima promoção.
Alfredo (Paco Arévalo) é o funcionário mais antigo da Blown Away. Como todos, procura o seu momento de glória e em que possa disfrutar de anos de dedicação. Mas, o que acontecerá se todos procurarem a mesma promoção que ele? Está Alfredo ainda "dentro do prazo" deste impiedoso mundo laboral?!
Com leves rasgos de humor, o argumento da autoria da realizadora tenta de forma agridoce, retratar um pouco da comunidade laboral tal como - de certa forma - todos a conhecemos; convenientemente simpática e agradável mas, a seu tempo implacável e traiçoeira à procura do próximo passo em falso. E é num passo em falso que esta curta-metragem realmente cai...
Enchufados poderia ser muito facilmente um daqueles episódios d'Os Malucos do Riso que todos nós vimos em criança. Mas, se nessa altura as piadas fáceis e de certa forma gratuitas que a trupe de Guilherme Leite fazia chegar ao espectador até conseguiam retirar alguns sorrisos, a realidade é que hoje, pensando um pouco melhor nas graçolas sem graça que nos eram apresentadas... o sentido de comédia fugiu repentinamente... E assim nos encontramos com a curta-metragem de Sadie Duarte capaz de fazer tremer o mais ingénuo mas incapaz de se afirmar com algum humor inteligente ou até mesmo sentido que se fizesse destacar por entre as inúmeras curtas-metragens que tentam o género... e quase sempre de forma precária.
Que o mundo laboral é mordaz e pronto para fazer cair o próprio sucesso... já todos nós o sabemos. Que os colegas que se fazem passar por (falsos) "amigos"... também já todos nós os conhecemos... Mas quando se tenta contar uma história destas caindo repetidas vezes na mesma fórmula gasta e sem graça, o erro não é do espectador incapaz de sorrir com esta gratuitidade de momentos mas sim de um contador de histórias nem sempre inspirado para retirar mais e melhor de um conto que já foi visto, filmado, retido e desgastado vezes sem conta. As piadas - sem graça - ditas como se fossem a última anedota do mundo e que todos iam apreciar consegue sim retirar um sorriso porque são - de facto - as últimas que o espectador espera escutar numa história assumidamente previsível e sem qualquer conteúdo que a faça destacar entre todas as demais.
Primária e até certa ponto a tocar no enfadonho, Enchufados prima por um humor carnavalesco que todos aprendemos desde muito cedo a ignorar e a desejar que passe rápido para que não tenhamos de forçar o rosto a reter uma expressão de contentamento que simplesmente não se encontra por lá.
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1 / 10
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segunda-feira, 4 de junho de 2018

Esta Noite que nos Chama (2016)

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Esta Noite que nos Chama de Francisco Morais e Miguel Pinto (Portugal) é uma curta-metragem com argumento da dupla de realizadores que conta um breve momento na vida de Luís (José Ceitil), um aparentemente pacífico comerciante de lãs que numa noite na sua loja é assaltado por Alex (Nelson Leão) e Sérgio (Pedro Bernardino). Mas aquele que parece um encontro do acaso cedo se transforma num inesperado ajuste de contas com o passado...
Esta curta-metragem ganha forma apresentando ao espectador a vida de um homem aparentemente simples. Já com uma certa idade, "Luís" trabalha num comércio local em franca decadência, vive só e toda a sua vida gira em torno de um conjunto de acções e momentos que já são parte de uma rotina de anos. Esta vida, característica de tantos que, tal como ele, já entraram na dita terceira idade, revela-se como símbolo de toda uma geração que agora, desamparados de qualquer apoio familiar ou social, se limita a (sobre)viver num mundo que aparenta já não ter lugar para ele(s). Mas, e se a vida de "Luís" esconder algo mais que não é revelado?
Quando a dinâmica de "Luís" é subitamente absorvida pela introdução de duas novas personagens - "Alex" e "Sérgio" -, o espectador rende-se à evidência de que algo mais irá surgir na vida de todos e que os seus destinos irão - algures - cruzar-se. Do assalto a algo mais carnal que possa colmatar as necessidades mútuas - para um talvez a quebra da sua solidão... para os outros mais algum dinheiro para satisfazer uma vida marginal... inicialmente não sabemos -, tudo passa pela mente do espectador que se deixa levar por esta dupla dinâmica num argumento que se revela consistente oscilando, no entanto, entre um aparente drama social e uma história de crime e talvez algum mistério.
Se aos poucos o espectador é surpreendido com os destinos das três personagens é, no entanto, a dinâmica recriada por um breve flashback que permanece na sua mente esclarecendo-o sobre os propósitos da dupla de jovens actores e das suas personagens que, para lá de um qualquer assalto, parecem condenados a um inesperado tormento que os ensombra desde um passado já - para eles - distante. E se as histórias de "Alex" e "Sérgio" não surpreendam em absoluto o espectador já "certo" daquilo que potencialmente os motiva, é sim "Luís" que se revela como o verdadeiro "lobo" que se esconde nessa vida dita "normal".
Não restam dúvidas que os predadores se escondem por detrás de rostos aparentemente normais - ou banais - com os quais todos nós nos cruzamos diariamente mas, no entanto, a dupla de realizadores e argumentistas consegue criar uma dinâmica de aparente solidão social a propósito de "Luís" que origina o mote da surpresa num espectador atento e preso à sua dinâmica inicial. É este mesmo efeito surpresa que revela não só a quebra da empatia que existia para com a sua personagem logo nos instantes iniciais, como desmistifica principalmente a noção de que marginal é apenas a dupla de jovens que tão veementemente desejam entrar na sua loja com o único pretexto de ganhar um dinheiro extra.
Consistente na sua trama e favorecida com três interpretações dignas e fiéis à mensagem que pretendem transmitir ao seu público, Esta Noite que nos Chama é o exemplo perfeito de um filme que se divide em dois momentos precisos levando inicialmente o espectador a criar uma ideia sobre a sua dinâmica para, de seguida, rapidamente a desfazer quando apresentados todos os elementos que dão cor e uma inesperada vida ao argumento transformando radicalmente até o próprio género da história.
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7 / 10
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quarta-feira, 16 de maio de 2018

En Medio de la Noche (2017)

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En Medio de la Noche de Marcos Sastre (Espanha) é uma curta-metragem que revela um momento na vida de Amélia, uma jovem que foge por uma estrada deserta de um carro que a persegue pela noite. Amélia (Esther Lastra) encontra refúgio na casa de Ruth (Alba Bermejo) com quem estabelece uma conversa ocasional que expõe os seus medos. Quem serão estas duas mulheres?
Marcos Sastre dirige este thriller com alguma paixão deixando transparecer toda uma vontade de entregar ao espectador uma história fértil em incertezas, inuendos e um clima de terror que o mantém em suspenso sobre quem será a verdadeira vítima... quem será o verdadeiro agressor e até que ponto é que aquilo que vemos é de facto a intenção primária de personagens que nem sempre se revelam tal como são.
Distraído que está o espectador sobre a fuga desta jovem por ruas sombrias, desertificadas e onde as casas que as circundam parecem, também elas, ausentes de qualquer manifestação de vida, En Medio de la Noche consegue - nesta perspectiva - criar um ambiente tenso e interessante que lança o seu público numa dimensão onde se mantém incerto sobre aquilo que observa. Mas, no entanto, também cedo compreende que são os pequenos detalhes e as alusões a um género cinematográfico específico que lançam as primeiras pistas sobre aquilo que poderá suceder nesta história.
Se inicialmente o espectador se deixa levar pela dinâmica de um qualquer thriller ou até mesmo um filme sobre uma qualquer máfia que persegue a sua vítima, não deixa de ser real a noção de que poderemos estar perante uma invulgar história de terror... de suspense assumido... ou até mesmo sobrenatural. É esta incerteza sobre o seu género que consegue afirmar-se como o elemento mais forte desta curta-metragem e confirmar que até bem perto do final o espectador observa uma história onde não conseguiu compreender quem realmente foge de quem e quais as verdadeiras intenções de "Amélia", de "Ruth" ou de qualquer uma das demais personagens secundárias.
Com uma direcção de fotografia fiel ao género proposto mas cuja dinâmica é interrompida por alguma fragilidade da realização e montagem que quebra o ritmo desta história, En Medio de la Noche consegue criar o ambiente correcto para o argumento que aqui é filmado mas, ao mesmo tempo, não se deixa levar por uma concretização mais firme que possibilitasse ao espectador uma maior expectativa sobre as suas personagens que, através de breves elementos, se denunciam cedo demais.
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3 / 10
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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Ética (2016)

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Ética de Román Reyes é uma curta-metragem espanhola de ficção que revela a história de Manu (Reyes), um homem que um dia decide seguir o seu verdadeiro "eu" como Elisa. Num mundo que não está preparado para aceitar e respeitar a diferença, conseguirá Elisa viver de bem com a sua consciência e com os seus sentimentos?
Reyes interpreta, produz, realiza e escreveu o argumento desta história que se debate com um tema quase universal... estará a sociedade como um todo capaz de aceitar a diferença e a individualidade de qualquer um de nós? A resposta, para lá de complexa, quase sempre é dada com um não inicial. No entanto, existe todo um mundo capaz de ser explorado e debatido por detrás do mesmo começando este, desde o primeiro instante, com o elemento mais importante de todos... estará este "eu" capaz de se respeitar a si próprio?
Num mundo formatado e normalizado a compreender apenas os papéis sociais que lhe foram incutidos por séculos de conceitos já estabelecidos e formados como "normais", a luta interior de "Manu" começa quando o próprio compreende a sua diferença dessa sociedade exterior não se enquadrando naquilo que a mesma "escolheu" por ele. Assim, o primeiro passo que este dá para uma total aceitação começa quando o próprio se aceita tal como na realidade se sente e vê... uma mulher. Partindo deste pressuposto começa então a segunda vida - e a única que é essencialmente verdadeira - de "Manu" mas, desta vez, como "Elisa".
"Elisa" é uma mulher proveniente de um ambiente ultra-conservador onde os valores ditos morais se confundem muito rapidamente com um extremismo ideológico latente na pessoa do seu irmão "Adrián" (também interpretado por Reyes) e pelos símbolos políticos e partidários que o mesmo exibe bem como no seu discurso claramente fruto dessa mesma educação - familiar e social - que o aproximam da xenofobia, homofobia ou transfobia. No fundo, para este "Adrián" tudo o que escape à sua noção como "normal" é automaticamente alvo das suas violentas investidas e processado como algo a abater. Assim, e da auto-aceitação a uma desejada aceitação social, "Elisa" embarca naquela que é provavelmente a sua luta mais difícil mas não comparável àquele sentida quando o seu corpo e a sua mente colidiam - também elas - violentamente levando a que o cérebro não registasse a mesma imagem que os seus olhos lhe transmitiam.
Com uma banda sonora que aproxima o espectador de um Laurence Anyways, de Xavier Dolan logo nos instantes iniciais, este Ética tenta portanto celebrar para lá daquela aceitação ou compreensão social, a luta do "eu" sobre a imagem que tem incutida desde jovem idade para com a representação de género que, na realidade, sente como sendo a sua verdadeira. Assim, e considerando todas as barreiras sociais e familiares que persistem na vida do indivíduo - "Elisa" -, o espectador observa não só a sua luta interna como principalmente aquela tida para com todos os elementos exteriores, nomeadamente a família, que deveria ser indiscutivelmente o elo ou grupo primário e de principal apoio para com ela.
Ainda que executada com algumas fragilidades técnicas nomeadamente na captação de som ou dos ângulos captados que a execução de one man show lhe impõe - afinal tudo recai nas mãos do realizador/actor -, Román Reyes consegue, no entanto, incutir a esta sua obra um cunho de relevância social francamente importante na medida em que tenta, pelos seus próprios meios, trazer à sétima arte mais um registo de um tema tido como polémico mas que, na realidade, apenas se centra na mais básica de todas as premissas... o direito de cada um de nós se exprimir e sentir livremente... tal como se sente.
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7 / 10
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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Engagement (2017)

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Engagement de Roberto Pérez Toledo é uma curta-metragem espanhola de ficção na qual o realizador volta a abordar a temática das relações nesta era das redes sociais e respectivas tecnologias. Até que ponto a relação o é de facto se não confirmada com inúmeras likes e fotografias de dias felizes para que todos a possam comprovar e confirmar?
Com um argumento também da sua autoria, Pérez Toledo capta de forma irónica e mordaz uma relação dita moderna. Tanto "Ele" (David Mora) como "Ela" (Andrea Dueso) são o resultado de um mundo em que as pessoas não se conhecem de forma dita normal - para os pârametros do antigamente -, mas sim através de redes sociais que ambos mantêm a título individual para que todos os demais amigos e conhecidos - mais estes - possam confirmar o seu dia-a-dia de uma forma religiosa como que uma confirmação não só da sua existência como sobretudo de uma qualquer relevância social tida como status.
Um like... alguns seguidores... muitas visualizações de página. Assim se mede a importância de cada um num mundo fisicamente distante mas que se aproxima através de um monitor que espelha a quantidade de momentos - fabricados ou não - que o "outro" resolve publicar e dar a conhecer como a sua vida. No entanto o problema chega quando dentro da referida relação se começam a controlar não só os likes que se recebem mas também aqueles que dentro do próprio casal são atribuídos a terceiros questionando a existência de uma fidelidade online que, impossível de ser traída pessoalmente, se sente ameaçada nos meandros das redes sociais.
Felicidade versus teatralidade e fidelidades versus curiosidade, Engagement é mais um trabalho do realizador espanhol que insiste em analisar os meandros das relações modernas, a sua formação, os seus inuendos e até mesmo a sua constante e crescente normalidade distanciando-se daquilo que todos conheciam como "normal" e assumindo-se como o novo modelo comportamental e de relacionamentos neste (já não tão) novo século.
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6 / 10
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Excuse (2017)

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Excuse de Diogo Morgado é uma curta-metragem norte-americana - também com argumento da autoria do realizador - que se centra no encontro entre Brenda (Daniela Ruah) e Alex (Alberto Frezza), duas pessoas que se encontram no topo de um edifício e que estabelecem uma pequena conversa sobre os porquês da vida.
Em breves minutos, Diogo Morgado consegue dirigir uma história capaz de estabelecer uma simpática dinâmica entre os seus dois actores assim como deixar a expectativa - para o espectador - sobre a potencial relação criada entre aquelas duas personagens que se encontraram num sítio improvável.
Cedo se compreende que os dois encontram-se num qualquer hospital psiquiátrico, ali levados por uma qualquer amargura e dissabor da vida que os colocou como "responsáveis" mais ou menos conscientes desse passado. Aos poucos, é-nos revelado esse passado cercado pelo acaso e pela morte, pela tragédia e pela tristeza, tendo-os levado a um ponto de ruptura onde a própria morte e a culpa se tornaram responsáveis pela sua permanência naquele local. "Alex" transforma-se no protagonista que relata toda esta história a partir da sua perspectiva - construída também a partir do encontro com "Brenda" -, revelando que foi desde aquele instante em que se cruzou com ela no topo daquele edifício, que toda a sua vida ganhou uma nova perspectiva. Quem seria aquela mulher aparentemente tão psicologicamente desgastada como ele? Qual seria a sua vida, o seu passado, a sua história e o seu dissabor? Já "Brenda", por sua vez, revela-se primeiro como o rosto de uma incerteza para de seguida compreender que o seu passado atingiu um limite que bloqueou para se salvaguardar... Mas a realidade acaba sempre por bater à porta, e é neste ponto de ruptura em que ambos se encontram que irão, finalmente, perceber que a pessoa certa capaz de o/a salvar pode surgir até no mais improvável dos locais. Afinal, se ali não estivessem... ter-se-iam alguma vez encontrado numa qualquer rua de uma enorme cidade?
O passado, como transformador e influenciador directo da história pessoal de cada um, é aqui explorado por Diogo Morgado não como um momento trágico - apesar dele ser o mote primário do futuro destas duas personagens - mas sim como o despoletar de uma história futura que o espectador retém como motivadora - e quem sabe feliz - de duas almas que encontraram um passado solitário, isolado e até mesmo limite na medida em que o mesmo levou os dois a um afastamento de uma sociedade que, no seu momento específico, resolveu virar-lhes as costas.
Ainda que não sejam aqui manifestadas quaisquer emoções pois, afinal, tanto a "Brenda" de Ruah como o "Alex" de Frezza procuram ambos a compreensão e aceitação de um passado mais ou menos recente, Morgado consegue deixar a porta aberta para um futuro em que as mesmas possam ser vividas e expressas numa total liberdade tendo a tragédia como um pano de fundo pelo qual ambos passaram. Emocionalmente mais adulta - e francamente distante pela positiva - do que a já aqui comentada longa-metragem Malapata, a curta-metrgem Excuse consegue sim deixar a porta aberta a uma interessante etapa do actor enquanto realizador de histórias que o espectador gosta de ver contadas e trazer ao cinema o rosto de uma Daniela Ruah que - finalmente - tem a oportunidade de brilhar em cinema.
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"Alex: Fear pushes us to survive."
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7 / 10
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Equis o Corazón (2016)

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Equis o Corazón de Roberto Pérez Toledo é uma curta-metragem espanhola que relata um encontro entre Ele (Diego Martínez) e Ela (Katia Klein), um potencial novo casal fruto de uma casualidade nas redes sociais que ambos frequenta(va)m.
Uma saída. Algumas perguntas. Os likes nas fotos alheias nas redes sociais. Os ciúmes e algum sentimento de que a vida mudou... ou talvez não.
Com argumento de Pérez Toledo, Equis o Corazón é o fruto de uma divertida análise aos encontros e às relações saídas das redes sociais. Como surgem as compatibilidades e até que ponto são estas relações tidas e encaradas como estáveis quando numa simples aplicação num qualquer telemóvel pode determinar a rapidez com que se encontra um novo parceiro, um novo momento e uma nova suposta relação. Será esta forma de encontrar o parceiro ideal menos válida do que aquelas tidas há dez ou vinte anos atrás? O que as torna mais esporádicas e efémeras?
Ao mesmo tempo esta curta-metragem de Roberto Pérez Toledo analisa também a forma mais persistente com que, nestes nossos novos tempos, se analisam e "controlam" os comportamentos dos parceiros. Por outras palavras, se antigamente um casal estava distante e mantinha, de certa forma, uma certa independência de movimentos e, como tal, também de comportamentos que acabariam por ficar enterrados num silêncio inviolável, nos dias que hoje vivemos todas as relações fruto de encontros nas redes sociais que qualquer um de nós mantém, permite ao "outro" observar as nossas interacções dentro das mesmas e saber com quem se comunica, quem se "segue" e quem se "observa" pelo simples clicar de um "like" numa fotografia alheia. Das inseguranças ao medo do abandono que prolifera e se mantém como um tema de conversa nestas novas relações do século XXI, Equis o Corazón explora não só essas inseguranças como também lhes confere alguma ligeireza e humor... Afinal se "Ela" está com "Ele" - e vice-versa - é porque encontra compatibilidades até então não vistas... independentemente do local em que se cruzaram pela primeira vez.
Porque o amor não é simples - ou talvez seja -, transforma-o com o seu Equis o Corazón numa ciência em permanente evolução e rendição.
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6 / 10
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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Escape from Isis (2015)

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Escape from Isis de Edward Watts é um documentário britânico recentemente exibido em Portugal que revela o brutal regime em que milhões de mulheres vivem sob o controle do Daesh e o grupo de homens que se dedica a resgatá-las ao mesmo possibilitando-lhes uma vida em liberdade.
Executado ao estilo de uma reportagem em que os intervenientes são apresentados enquanto personagens activas, este documentário permite ao espectador uma abordagem inicial que enquadra Histórica e politicamente os Estados que vivem com uma crescente ocupação do Daesh e a sua directa influência sobre aqueles que vivem nestes territórios. Ao mesmo tempo, o espectador compreende ainda que esta crescente influência do grupo terrorista no interior de alguns países como, por exemplo, o Iraque se reflecte como uma consequência da instabilidade política do país que, tal como na Síria actual, permitiu aos mesmos ganhar e aumentar a sua esfera de influência.
Dos territórios desolados por anos de guerras civis que desordenaram uma ordem - ainda que totalitária - às populações amedrontados que vivem sob um jugo de poder desumano e desumanizador, Escape from Isis aborda essencialmente as vidas daqueles que ficaram sobre o mando do grupo terrorista e, claro, aqueles que se tornam imediatamente como os mais vulneráveis entre todos... as mulheres. Num regime que pretende instaurar uma ditadura fundamentalista religiosa onde a mulher ocupa o lugar mais baixo de uma hierarquia desumanizadora, este documentário aborda, através de relatos tidos na primeira pessoa, a transformação na vida diária daquelas que se viram de um momento para o outro a viver num território ocupado e levadas a uma condição desumana que as transforma não em pessoas, nem tão pouco cidadãs mas sim objectos que podem ser usados e facilmente descartados quando a sua desobediência - afirmação enquanto ser humano - fala mais alto.
Por medo, revolta ou claro necessidade inata estas mulheres - e por mulher entenda-se qualquer criança com idade igual ou superior a 12 anos -, transformam-se em prisioneiras num regime onde ninguém depõe a seu favor. Da simples negação ao "outro" como sua auto-afirmação ao adultério, o regime do Daesh transforma estas mulheres em banais criminosas que são uma afronta à sua dita "lei" religiosa passíveis de serem punidas primeiro com a ostracização social que as afasta inclusive da sua própria família e, finalmente, com a sua morte por apedrejamento - da própria família à comunidade de homens que a condena sem qualquer julgamento que a possa ilibar do "crime".
Do outro lado da fronteira, principalmente na Turquia, o espectador acompanha ainda a acção de um grupo de homens que se dedica ao seu resgate e salvamento. Quer seja através do "rapto" - leia-se resgate - ou mesmo através do pagamento de avultadas verbas que têm como fim último a continuidade do regime através da compra de armamento -, estes homens descobrem em que localidades estas mulheres se encontram, tentam estabelecer contactos e ligações com os seus captores que as mantêm isoladas num cativeiro onde mais não são do que os referidos "instrumentos" e "objectos" e, finalmente, tentam retirados desses mesmos locais garantindo-lhes uma vida de liberdade nos territórios ou países em que o Daesh não exerce qualquer influência.
Ignorando os processos que este grupo de homens exerce - até para sua própria segurança - Escape from Isis leva o espectador a uma viagem que oscila entre a beleza natural do território e a barbárie dos crimes que são cometidos no mesmo. No final apenas acompanhamos a chegada a uma terra de ninguém onde a liberdade é finalmente uma luz ao fundo do túnel - nunca é garantida enquanto uma fronteira não é ultrapassada -, a chegada destas mulheres aos inúmeros campos de refugiados que se encontram dispersos pelos mais variados países e, finalmente, a contínua acção daquele grupo de homens que não só arrisca a sua condição social como principalmente a sua segurança garantindo a estas mulheres a sua liberdade e aos terroristas do Daesh cada vez menos "mercadoria" - como são consideradas as mulheres - que tenham para negociar e perpetuar a sua acção macabra através do dinheiro que tentam receber.
Poucas vezes um documentário consegue arrancar calafrios do espectador como este Escape from Isis. Não só toda a sua acção é de cortar a respiração desde que começa como o espectador compreende que não está a assistir a uma qualquer situação encenada que aconteceu há inúmeros anos. Pelo contrário, tudo o que este documentário proporciona é um conjunto de situações - não exploradas até à exaustão - que acontece in loco. Um passo em falso pode representar a morte de uma ou várias mulheres. Um pagamento não feito descoberto pode representar a sua própria morte ou pelo menos a desconfiança que encerra uma canal de libertação das mesmas. A identidade nem sempre preservada daqueles que negoceiam pode, por vezes, representar um conjunto de ameaças e represálias que, normalmente, pode resultar na morte. A segurança é inexistente e o espectador sente que caminha numa linha muito ténue que separa essa esperada segurança de uma morte que se percebe quase sempre como uma certeza.
Intenso, dramático, emotivo e sempre revoltante pela desumanização a que um grupo pode remeter toda uma sociedade, Escape from Isis é um documentário contemporâneo, importante, pertinente e sobretudo um mordaz relato de uma realidade que necessita ser denunciada e que se constitua como um registo importante da nossa História - ainda a decorrer. Registo esse que, como referi, denuncie a brutalidade de um regime totalitário e fundamentalista enquanto, ao mesmo tempo, tente sensibilizar as opiniões daqueles que (nas nossas sociedades) encarem o outro, que é, também ele uma vítima, como um perigo tão grave como um agressor em plena actividade.
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8 / 10
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quinta-feira, 11 de maio de 2017

Encerrada (2016)

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Encerrada de Rogelio Sastre é uma curta-metragem espanhola de ficção presente na secção Cantábria da oitava edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorre até ao próximo dia 13 na Cantábria, em Espanha e no qual tive o prazer de marcar presença enquanto programador oficial do festival.
Nora tem uma depressão e encontra-se no zoológico onde os animais a olham enquanto ela tenta comunicar com alguém pelo telefone. Nora sente-se só.
Naquela que é uma aparente analogia da sociedade moderna onde qualquer um de nós se encontra num mundo tecnologicamente desenvolvimento mas onde as relações pessoais e humanas perdem cada vez mais significado ou relevância, Encerrada é, portanto, a história de uma mulher presa num estado psicológico mais frágil que tenta desesperadamente contactar com aqueles com quem, em tempos, partilhou uma boa parte das suas histórias e que agora lhe estão distantes.
Perdida num aparente desespero, "Nora" é apenas observada por aqueles que, estranhamente, poderão sentir-se numa mesma condição que ela... enquanto a sua depressão a obriga a tomar uma constante quantidade de medicamentos dos quais se queixa de forma vã ao telefone, também aqueles animais parecem presos num mundo diferente - e igualmente distante - do seu habitat natural que lentamente os doma a um estado não natural. Se "Nora" se encontra solitária na sua "selva urbana", também aqueles que agora a observam "compreendem" o seu isolamento por serem vítimas de um mal semelhante que os condiciona nos seus movimentos e liberdades inatas. "Nora" vive portanto a sua própria prisão... também ela a céu aberto... que a aprisiona a uma ilusão de liberdade que não sente não só pela medicação a que está sujeita como também pela ânsia que todos os locais lhe parecem conferir deixando-a apenas "livre" naquele zoológico onde tanta estabelecer uma qualquer comunicação. Tal como os demais animais, "Nora" é assim uma réstia da mulher que outrora fora limitando-se a deambular por espaços que aparentam permitir-lhe essa tal liberdade mas que, na prática, mais não são do que ilusões que a permitem ir sobrevivendo.
Com um interessante argumento que explora a analogia entre Homem versus Animal presos na liberdade das sociedades modernas, Encerrada fragiliza, no entanto, na sua vertente prática quando, num mise en scène, se perde na turbulenta concretização da história revelando algum amadorismo que transforma esta história de semelhanças entre os vários intervenientes num conto banal repleto de boas intenções mas assumidamente perdido na sua tentativa de concretização. Ainda que o potencial narrativo exista ele fica, na prática, ausente desta história da qual o espectador apenas pode retirar a boa intenção com a qual o seu realizador pretendeu contar uma história sobre os problemas de uma sociedade onde tudo parece correr mais depressa do que aquilo que a mente humana consegue inicialmente processar.
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3 / 10
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