One Last Wish de Simon Valentine, Edmond Yang e Alex Holm (Noruega) é uma curta-metragem de animação feita com o recurso à inteligência artificial e com argumento de Erland Loe que levanta uma eterna questão... o que fazer com (ou nas) últimas horas de vida? Sem mais, e apenas com isto em mente, a tripla de realizadores cria uma história que coloca uma inesperada personagem no centro de uma trama onde são explorados os seus sentimentos e vontades, a sua vergonha e curiosidade pela descoberta, a sua vontade pelo secretismo para que nada seja desvendado depois da sua partida - estamos perante uma invulgar condenada à morte - e, finalmente, todos estes sentimentos, sensações e descobertas avaliados pelo olhar de um espectador atento que pretende descobrir (também ele) até que ponto esta personagem difere tanto do próprio que, colocado nesta situação, poderia ter uma realidade tão diferente da dela mesmo que o seu "último desejo" fosse algo completamente distinto?! A curiosidade pelo que nunca se teve face a um fim anunciado e a descoberta (por nós) de que ao ambiente daquela personagem se cinge à triste realidade em que habita - e possivelmente sempre habitou - coloca o pensamento no espectador sobre a capacidade da animação em recriar um ambiente que poderia ser a realidade de qualquer pessoa real que se enquadrasse num meio semelhante. Longe de qualquer julgamento ou identificação para com a mesma, é esta personagem fictícia que acaba por demonstrar através do seu inesperado desejo uma consciência de uma realidade não experimentada quando a vida era "normal" e que agora apenas terá de se limitar à possibilidade de concretizar algo que em vida pode ter estado ao seu alcance mas para com o qual sempre se deixou moldar pelos padrões do aceitável e que por um lado a vergonha e por outro a ostracização social sempre a impediram de concretizar. Triste pelo final mas divertida pela forma como se constrói uma história inesperada e simples, One Last Wish é franca e terna, capaz de revelar o mais íntimo do desejo humano longe de preconceitos e com um ligeiro humor incapaz de deixar julgamentos por parte do espectador... e tudo em pouco mais de três minutos.
o28 de Otalia Caussé, Geoffrey Collin, Louise Grardel, Antoine Marchand, Robin Merle e Fabien Meyran (França) é uma das curtas-metragens de animação presentes na competição oficial da sétima edição do Leiria Film Fest.
O eléctrico 28 em Lisboa. Os turistas que se deliciam por todos os cantos da cidade. Mas... quando tudo parece revelar ser uma normal tarde de Verão... os travões deixam de funcionar.
Esta divertida e intensa curta-metragem revela dois aspectos muito interessantes da vida estival da capital portuguesa... por um lado temos uma cidade com o maior registo de luz solar ao longo do ano que aqui se assume como a personagem - e a tela - silenciosa de uma história estival... por outro, encontramos os eternos turistas que, nas suas mais diversas formas e feitios, invadem e assumem as rédeas da vida diária da cidade (que também nunca dorme), captando todos os momentos e todos os recantos da cidade e da sua vida na mesma para um dia mais tarde recordar. Atropelando tudo e todos os que se cruzam no seu caminho, ainda que aqui apenas centrados no famoso eléctrico Lisboeta, nada pode passar ao acaso. Mas... o que acontece quando esta visita dá início a todo um conjunto de acidentes que revelam que a cidade, às mãos dos mesmos, está preparada para o desastre?!
O espírito da cidade e o cuidado que o conjunto de realizadores teve em captar pequenos grandes elementos de Lisboa nomeadamente as colinas pelas quais o eléctrico desce a uma velocidade vertiginosa, a panorâmica da mesma ou os seus inúmeros monumentos bem como os mais caricatos turistas que todos nós conhecemos das ruas da cidade, dão aqui uma cor e um brilho especial que transforma esta curta-metragem numa experiência única e alucinante da qual dificilmente se passa sem notar. Única porque é captada uma certa essência tradicional de uma cidade que se assume cada vez mais cosmopolita sem esquecer os já mencionados recantos que destacam a sua tradição milenar e, ao mesmo tempo alucinante, porque as "invasões" (por vezes bárbaras) que a assolam todos os períodos estivais conseguem transformar a outrora pacatez de Lisboa numa vibrante experiência da qual nem os paquetes com hordas de turistas são esquecidos.
De produção francesa mas com uma assumida alma portuguesa, o28 prima, acima de tudo, por uma garra de boa disposição e uma invulgar energia que conquistam o espectador desde o primeiro instante. Uma curta-metragem símbolo maior de uma animação fresca e desempoeirada capaz de reter o melhor do género e constituir-se, ao mesmo tempo, como um belíssimo exemplar da cidade de Lisboa e dos seus lugares dignamente representados e homenageados com singular beleza e criar, ainda, um conjunto de personagens que, tipificadas, conseguem ser uma paródia ao turista moderno, sedente de momentos captados, de experiências únicas e de uma aventura que fica para o resto dos seus dias.
o28 é uma alma... é uma energia... e uma boa disposição instantânea e selvagem que é, seguramente, um dos mais intensos registos de animação do ano ao qual nenhum irá - ou poderá- ficar indiferente.
Outside the Oranges are Blooming de Nevena Desivojevic (Portugal/Sérvia) é um documentário em formato de curta-metragem que remete o espectador para uma aldeia por entre as montanhas onde um grupo de habitantes resiste ao acelerado desaparecimento da vida na mesma.
A breve descrição desta curta-metragem acaba não só por revelar toda a dinâmica da mesma como, ao mesmo tempo, ser insuficiente para transmitir ao espectador todos os pequenos grandes detalhes que lhe dão corpo e alma.
Tudo começa com a imagem de um vale por onde ecoam cantares tradicionais vindos de parte incerta. Os seus intérpretes, nunca revelados de forma directa, são (supomos) aqueles habitantes que resistem nestas paragens que cada vez mais parecem traços de uma memória - também ela - ausente que agora permanece oculta não só pelo esquecimento como também pelo nevoeiro que se instala por todas aquelas paragens. Aos poucos conhecemos um homem que, tal como o espaço, permanece anónimo. Na realidade, e para a perspectiva do espectador, pouco importa quem ele foi mas o estado (psicológico principalmente) em que ele se encontra como, deduzimos, uma directa influência do espaço envolvente. Ali ele, e todos os demais que brevemente encontramos pelo caminho, definham como memórias vivas de um local que lentamente desaparece e que se deixa dominar pela Natureza, pelo ambiente e pelas memórias que apenas os silêncios dos locais e as estruturas que resistem podem testemunhar.
A vida é aqui quase imóvel e esta apenas é comparável à deslumbrante imponência da Natureza que se assume como o principal elemento de todo este filme. Natureza essa que se afirma perante o próprio espaço e para o espectador que se deixa levar pelo imaginário de um qualquer paraíso natural onde o Homem, pela sua extinção, não (já não) tocou. A Natureza encontra o seu rumo - ouvia-se num filme da década de '90 -, e pode ser aqui referenciado como a melhor descrição para tudo o que "nos" envolve. Aqui, toda a forma de vida é lentamente "tomada" por essa Natureza que apenas deixa subsistir os esqueletos de antigas estruturas que se constituíam como as formas de subsistência do Homem e das suas actividades e, como tal, da sua presença no espaço.
Agora, aquele homem, é convidado a sair daquele local... a encontrar um trabalho noutro sítio mas, à medida que tudo ali parece terminar, o próprio não aparenta querer sair daquele local onde possivelmente toda a sua vida tomou forma e onde residem todas as suas memórias e experiências. Como ele, todos os poucos anónimos que observamos ainda resistirem naquele local permanecendo, todos eles, numa certa espera pelo auto-desaparecimento que os aguarda como se de uma morte social se tratasse e apenas a presença da realizadora parece constituir, para aquele homem, a única réstia de novidade e curiosidade (ou incómodo?!)que poderia encontrar neste aparente "final".
Sem se enquadrar em qualquer género de cinema apocalíptico onde o fim é um potencial início de algo porvir, Outside the Oranges are Blooming parece, por sua vez, ser esse início para lá da presença humana... um espaço real, não dizimado pelo Homem mas sim abandonado pelo mesmo permitindo, dessa forma, a sua recuperação para algo de novo... que o próprio Homem desconhece. Tal como o próprio título parece querer fazer "acontecer"... lá fora... esse outro local agora próspero, prepara-se para revelar que resistiu à acção (ou destruição?!) humana e que apenas o chilrear dos pássaros faz adivinhar essa prosperidade natural tanto desejada.
A Outra Margem de Luís Filipe Rocha (Portugal) foi hoje exibido - onze anos após a sua estreia comercial - no Centro Cultural Olga de Cadaval, em Sintra, no âmbito da décima-segunda edição do LEFFEST - Lisbon & Sintra Film Festival que decorre até ao próximo dia 25 de Novembro em Sintra e em Lisboa.
Ricardo (Filipe Duarte) é transformista e chora a morte de um namorado. Vítima do desgosto, tenta também o suicídio fazendo com que Maria (Maria d'Aires), a irmã com quem não tem contacto o visite em Lisboa. De regresso à sua Amarante natal, Ricardo estabelece contacto com uma velha amizade e conhece Vasco (Tomás Almeida), portador de Trissomia 21 que lhe restitui uma já perdida alegria de e pela vida.
Quando o espectador de um filme, ouvinte de uma música ou apreciador de uma obra de arte se questiona sobre a sua pertinência para o futuro, a primeira grande pergunta que surge é se essa obra em questão irá "ter vida" depois da sua criação. Nesta perspectiva, A Outra Margem datado de 2007, visto hoje uma década depois, não poderia estar mais actual num mundo que perde aceleradamente a sua inocência... se é que esta alguma vez esteve presente nas últimas décadas... ou mesmo em alguma época passada.
Os primeiros instantes de A Outra Margem levam o espectador para o interior de uma casa de espectáculos nocturnos onde um vivido "Ricardo" interpreta o seu último show de transformismo dando cor a uma canção e a um visual que não são os seus. O seu rosto coberto de maquilhagem e de uma expressão over the top típica do espectáculo que tem em cena esconde, por sua vez, toda uma tristeza enorme pela perda daquele que, até então, tinha sido o seu único (ou pelo menos maior) elo de ligação com o tal mundo real fora dos palcos e com quem havia construído uma vida cúmplice e a dois. Perda essa que, no entanto, iria (in)directamente proporcionar-lhe um inesperado reencontro com o seu passado (julgava) já enterrado e distante.
As más notícias viajam rapidamente (diz-se), e tudo chega aos ouvidos de alguém por muito distantes que se encontrem. Nesta base, é a irmã de "Ricardo" que se aproxima e reata um laço primário há muito desfeito. Sem qualquer contacto com o irmão ou para com a sua vida da qual nada sabia, "Maria" é a nova porta aberta que irá restabelecer o seu contacto com o mundo que o havia desencantado e que, também ele, havia pretendido abandonar. No seio da perda, da incerteza, das incógnitas para com um futuro agora desconhecido e onde nada é tomado como garantido como até então que "Ricardo" se vê, uma vez mais, junto daqueles que melhor o haviam conhecido - os mais de quinze anos de distâncias não confessadas deixam marcas que a todos transformam em novas pessoas - e é o encontro com um sobrinho desconhecido e que, também ele, observa o mundo de outra forma mais pueril, inocente e potencialmente com mais objectivos, sonhos e realidades concretizáveis que, lentamente, devolve a "Ricardo" uma inesperada força e esperança de viver que se havia perdido quando (lhe) desaparece o seu único reduto de felicidade real.
Em Amarante - o tal mundo já conhecido e rejeitado pela personagem de Filipe Duarte -, o encontro entre tio e sobrinho começa por ser de espanto de um e aceitação imediata pelo outro. Enquanto "Ricardo" se revela receptivo mas com os seus próprios receios pela abertura a uma nova relação (agora sanguínea), "Vasco" é o protótipo de jovem adolescente repleto de sonhos, ambições, desejos e sentimentos naturais e puros que ora parecem de difícil alcance ou (para a sua mãe) se impossível concretização quando dizem respeito a uma ligação sentimental com a sua melhor amiga e ex-noiva de "Ricardo". "Vasco" vive o mundo com todas as suas potencialidades e os limites são proporcionalmente inversos aos seus desejos... se os primeiros parecem não existir, os últimos fazem-no equacionar numa família, em amor, em trabalhar no teatro e até mesmo numa vida independente que até então lhe fora impossível pela sua próxima relação com uma mãe protectora e que tem nele o único elo de ligação emocional e afectiva possível. Mãe e filho vivem na imediata dependência um do outro e "Maria" reconhece que tem de deixar o filho voar... mesmo que isso a consuma lenta e ferozmente com o passar dos dias.
A margem (outra) de A Outra Margem é, desta forma, explícita pelo posicionamento no mundo de todas estas personagens ora desencantadas com as suas limitações, emocionalmente desencantadas com as suas conquistas ou distantes de uma concretização pessoal nos mais diversos níveis pelas concessões que tiveram de fazer para um mundo que não os compreendeu ou quis acompanhar... o lado sentimental e afectivo de "Maria"... a inadaptação sentimental de "Luísa" (Sara Graça), o sentimento de perda de um filho manifestado por "José" (Horácio Manuel) que desesperadamente quer reatar com "Ricardo" sem saber ou conseguir perceber como o fazer e finalmente deste último que sente ter perdido a oportunidade de constituir família com a sua de sangue... e dar-lhe continuidade afectiva com um namorado agora desaparecido. É, no entanto, em "Vasco" que todos estes sonhos e desejos parecem manter-se vivos... sonha ter uma profissão... uma família... amor... ser pai... nem que seja no teatro (a sua paixão) onde tudo parece poder viver alternadamente mas de forma real, satisfazendo os tais sonhos "impossíveis" de um mundo concentrado não em si mas sim na sua diferença... naquela que os olhos dos outros insistem em ver mas não em compreender o que está para lá dos mesmos. Assim, esta outra margem é aquela que separa o desencanto dos ditos "normais" para o outro lado onde residem os "sonhadores"... mesmo aqueles que são, também eles, considerados diferentes por uma qualquer ordem normativa imposta por "alguém" que um dia delimitou espaços, estabeleceu fronteiras e criou a marginalização do "outro" simplesmente porque este não se enquadrava dentro de um qualquer padrão de normalidade por vezes tantas vezes difícil de alcançar. "Vasco" sonha... vive... e deseja... mantendo-se vivo pela hipótese de que tudo é possível esquecendo, ou melhor ignorando, que os impossíveis existem... mais do que qualquer um de nós está disposto a admitir.
É nessas referidas margens - a "minha" em oposição à dos "outros" - em que todos se encontram, que finalmente se reconhecem essas "diferenças" mas onde também se compreende a sua relativização... quão diferentes seremos todos nós se, no final, apenas conseguimos identificar todo um conjunto de aspirações comuns... uma casa, um trabalho, um amor... uma vida! Estaremos "nós", os ditos "normais" concentrados naquilo que realmente desejamos ou, por sua vez, atentos ao que nos separa daqueles que realmente ainda ousam lutar pelo que sonham e, dessa forma, estereotipados como os "diferentes"?! De regresso às primeiras palavras deste comentário, o mundo poderá não estar assim tão diferente de 2007... basta para tal enquadrarmos todo o contexto político e social da época para compreendermos que com a devida escalada dos conflitos e dos extremismos, estes nunca desapareceram na realidade. No entanto, e tal como o realizador Luís Filipe Rocha referira na palestra que sucedeu à exibição da sua obra, ainda há seres humanos que se enquadrem nessa designação, trabalhando diariamente para a diferença individualizada de cada um, elevando espíritos, conferindo oportunidades ou proporcionando a concretização de pequenos mas pontuais transformações que geram o enriquecimento pessoal e a elevação de uma melhoria do estado individual de cada um... A possibilidade está lá... basta que para a sua concretização se concentre - o indivíduo - não no todo... mas sim nesse pequeno e "diferente" ser individualizado.
Correndo o risco da criação de mais um "lugar comum", é inegável dizer que Filipe Duarte é um dos actores maiores da sua geração. Criador de magníficas interpretações que cativam pela sua expressão e ponderação de todos os pequenos momentos que transmitem todo um mundo de emoções, sentimentos e pensamentos, Duarte prende o espectador à sua interpretação desde os primeiros instantes - todos os troféus não farão o filme maior do que é mas, no entanto, são justificados e pecam por não serem mais -, e os momentos que divide com o jovem Tomás Almeida geram toda uma química instantânea que o espectador não ignora. Assim, e num registo assumidamente dramático, são os gestos, os olhares e, como tal, todas as cumplicidades criadas que elevam A Outra Margem a um outro patamar. Aos dois não pode ser ignorado o contributo da excelência interpretativa de Maria d'Aires, e da sua "Maria", mãe galinha mas mulher adiada pela incapacidade (ou falta de vontade), em completar-se enquanto mulher com sentimentos e desejos próprios... a sua vida, ainda que vivida repleta de amor maternal, sente-se a determinado momento como alguém cerrado para o mundo que está para lá das portas da sua casa. Intenso o diálogo que tem com o "Ricardo" de Filipe Duarte onde expõe os seus desejos para o futuro de um filho que quer ver "crescer e ganhar asas", d'Aires tem um dos mais fortes e intensos desempenhos do cinema português recente.
Simples mas criativo, humano e existencialista, colectivo pelo seu potencial mas ao mesmo tempo individualizado pela forma como demonstra que apenas uma pessoa pode fazer a diferença, A Outra Margem nunca se transforma num filme militante por forçosamente querer difundir um qualquer estilo de vida ou uma valorização da diferença per si... A Outra Margem é sim um filme que revela a possibilidade e a normalização dessa diferença... daqueles que a fazem e dos demais receptivos a abraçá-la... esses, tantas vezes ignorados mas capazes de transformar o mundo, passo a passo, rua a rua, bairro a bairro... num espaço um pouco melhor longe do cinismo e da amargura que tantas vezes caracterizam os comportamentos humanos que se recusam a criar normas e impôr regras sobre "o que é" e "o que deveria ser".
Oceansize de Adrien Chartie, Romain Jouandeau, Gilles Maziers e Fabien Thareau (França) é uma curta-metragem de animação 3D cuja acção decorre numa plataforma petrolífera onde um mergulhador em missão para verificar os alicerces da mesma provoca não só um acidente como desperta um inesperado visitante que tudo irá transformar. Os realizadores e também argumentistas criam com Oceansize uma interessante atmosfera que une o melhor do cinema do género ao conseguir neste brevíssimo filme criar uma história de animação onde se encontra a acção, o suspense e em boa medida o terror sem esquecer a clara referência a um certo cinema ambientalista onde os valores de proteção do planeta Terra são cada vez mais visíveis e nos quais se pretende uma consciencialização enquanto se entretém e anima o espectador. A história, ainda que pretenda recriar o despertar de um monstro que pode, em boa medida, assumir várias formas e cujos objectivos não são sempre claros como se poderia pretender - e ainda bem que não pois um certo mistério é sempre desejado para este género de história -, acaba por assumir duas distintas vertentes. A primeira de todas elas prende-se com o facto de existir no subconsciente de todos nós um certo imaginário de que existe "algo" para lá daquilo que os olhos conseguem observar. Aqui esse inatingível ganha forma com o lado mais profundo dos oceanos onde tudo é ainda tão incerto e desconhecido que, na realidade, tudo (ou nada!) poderá existir numa dimensão que nos é desconhecida. Ao encontrarmos um escape para dar corpo a esse imaginário ocupado pela incerteza e pelo desconhecido, o "monstro" ganha vida assumindo a forma que cada um de nós pretende e, nesta curta-metragem, o mesmo ganha corpo através daquilo que em boa medida pode ser encarado como um dos grandes corruptores (e poluidores) do planeta... o petróleo. É, ao mesmo tempo, nesta medida que surge uma segundo dinâmica nesta história quando esse "monstro" decide enfrentar, dominar e destruir todo o aparelho "produtivo" que lhe deu corpo e vida. O "monstro" é assim visto como um defensor já não adormecido da Terra e, como tal, tudo faz para destruir o seu cancro... o Homem. Primeiro eliminando o seu espaço e finalmente tentando mesmo destruir a sua própria existência garantido, dessa forma, que o planeta continue a existir de uma forma o mais harmoniosa possível. O terror encontra-se lá mesmo não se assumindo como uma história sobrenatural que confere ao espectador uma dinâmica de Homem versus Paranormal. O terror manifesta-se sobretudo - senão quase exclusivamente - como uma consequência da acção danosa e destrutiva do Homem que se assume como dono e senhor de um espaço que é partilhado e não apenas seu. Assim o tempo de assistir inactivo e silenciosamente termina fazendo crescer esse tal "monstro" adormecido que agora decide controlar pela força aquilo que sempre fora seu e que tão vilmente havia sido usurpado e destruído pela sobrevivência desse mesmo espaço comum. Com um olhar atento e de certa forma comprometido com essa dinâmica de consciencialização ambiental que aos poucos se manifesta no cinema de formato curto, a quadra de realizadores e argumentistas consegue criar com sucesso uma história com tanta potencialidade como a própria dimensão do oceano manifestando, ao mesmo tempo, a capacidade de criar uma história de acção e suspense (também um pouco sobrenatural há que admiti-lo) capaz de captar a atenção não só do espectador mais disposto ao género como também a um público mais alargado capaz de explorar um pouco mais das diversas vertentes que a história propõe.
Omega de Peter Ninos (Austrália) recupera, nos seus escassos quinze minutos, o universo da invasão do planeta Terra por parte de seres não identificados com o conluio de algumas entidades terrestres cujo interesse não é, no entanto, revelado ao espectador. Por detrás de uma conspiração terrena... o que poderá acontecer àqueles que desafiam uma ordem instalada?
O realizador e Trent Ninos escrevem o argumento desta curta-metragem e exploram a mais antiga e profunda das conspirações que o cinema alguma vez entregou - e fomentou - ao espectador... e se não estivermos sózinhos no Universo? Mais, e se para lá de não estarmos sózinhos existir a possibilidade de uma qualquer outra forma de vida (potencialmente mais inteligente) que pretenda conquistar o espaço que temos único e no qual habitamos? Se a esta trama adicionarmos a sempre eterna conspiração - governamental ou não! - que pressupõe que no planeta alguém se prepara para acolher esta nova espécie, então encontramos não só o fundamento desta história que, no entanto, deixa mais perguntas no ar do que propriamente aquelas a que pretende dar resposta.
Omega é uma curta-metragem com aparentes boas intenções e que não só homenageia o género como se denota a intenção do realizador em explorar todo este universo de pré-concepções sobre o "não estarmos sózinho nesse espaço imenso e desconhecido"... mas, no entanto, os enredos aqui expostos são não só conhecidos do espectador como deixados em aberto mantendo apenas a premissa de um "cometa" em rota de colisão com a Terra - que depois sabemos serem os ditos extra-terrestres a viajar para a mesma - como a chegada dos ditos seres, como os únicos momentos com algum interesse e cativantes pelos seus efeitos especiais, em todo o um filme que, pelo meio, explora momentos nunca concluídos ou francamente interessantes para a demais dinâmica.
Com interpretações que arriscaria apelidar de medíocres e incapazes de explorar a dinâmica psicológica das personagens que aqui são expostas, o interesse (relativo) desta obra permanece no desconhecido - literalmente - na medida em que explora a hipótese de vida para além da terrena, no pressuposto de que o espectador vai ver e "conhecer" algo mais que se aproxima e finalmente nos brevíssimos efeitos especiais que corroboram a hipótese de que algo, ou alguém, está para chegar. Das interpretações extremamente frágeis ao argumento que parece ter ideias a mais e tempo a menos, Omega (sobre)vive pela suposição de que o espectador vai esperar por algo (que nunca acontece) e de uma igual expectativa de que todas as questões encontrarão finalmente uma resposta.
Intrigante - pelo pressuposto - mas fragilizada pela inexistente concretização e finalização das suas inúmeras "pontas soltas", Omega compreende-se como todo um conjunto de boas intenções e "vontade de fazer" de uma equipa que poderia ter ido mais longe e entregue algo mais coerente e original.
Our Madness de João Viana (Portugal/França/Moçambique) é uma das longas-metragens que esteve presente na competição oficial nacional da décima-quinta edição do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema Independente que decorreu na Culturgest e Cinema São Jorge, em Lisboa entre os passados dias 26 de Abril e 6 de Maio.
Lucy (Ernania Raínha) está internada no Hospital Psiquiátrico de Infulene, em Moçambique. Lucy procura o filho Zacaria (Hanic Corio) de quem não tem notícias e o marido Pak (Pak Ndjamena) que está na guerra. Num país que não é estranho à guerra, Lucy tenta sobreviver aos efeitos que a mesma lhe deixou.
O argumento da autoria de João Viana deixa o espectador dividido desde os primeiros instantes. Dividido entre a realidade dos efeitos de um conflito que durou durante décadas no país - podemos reconhecê-lo nas infraestruturas em ruínas, num país onde a vida humana se encontra dispersa bem como no próprio hospital psiquiátrico onde muitos permanecem sem que, no entanto, não pareçam de facto estar naquele local - e o imaginado que nos coloca perante uma história que recorre à metáfora do purgatório para apresentar todo um conjunto de personagens que não sabem, ou reconhecem, o lugar onde estão e os "porquês" de ali se encontrarem, Our Madness acaba por ser não só por ser uma reflexão sobre o conflito como principalmente sobre os devastadores efeitos que dele decorrem.
Partindo deste pressuposto, Our Madness apresenta a primeira dinâmica - o hospital psiquiátrico - como o local onde aquelas almas perdidas na sua própria noção de realidade se encontram. Ali vivem sem que na realidade compreendam esta estadia como uma qualquer consequência da sua divagação no mundo. O espectador acompanha-os observando que os corredores daquele hospital estão vazios de assistência médica, de serviços sociais, de pessoal administrativo ou mesmo de visitas que aguardem por ver como estão os seus entes queridos lançando de imediato a dúvida sobre o que realmente acontece naquele espaço. Assim, é esta dúvida que lança um segundo possível momento em que escutamos uma mensagem nos intercomunicadores que apregoa que "é preciso fé" para todo o tipo de possibilidades e crenças em que os ouvintes possam professar a sua equacionando, dessa forma, que a esperança proporcione, um dia, a hipótese de lançar estes "transeuntes" num universo mais real à - ou para com a - sua condição. É neste momento que o espectador mais compreende que esta realidade possa não o ser na verdade, ou seja, aquilo que observamos é um ponto de estada temporária onde as almas daqueles que supostamente "já partiram" esperam para encontrar os seus entes mais próximos e que os acompanharão realmente para esse "outro lado" onde irão finalmente descansar.
É esta compreensão da realidade no hospital que assim lança o espectador para os primeiros comentários de Our Madness quando se refere que há cinco séculos (com a escravatura) as almas fugiam nos sonhos... há três séculos (com as guerras dos outros)... fugiam nos sonhos... há cem anos (sob um regime fantoche)... fugiam também nos sonhos e agora, naquele espaço, é pelos sonhos que conseguem finalmente fazer-se sentir (aos vivos) como estando ainda presentes na sua realidade... seja ela qual fôr e talvez explicando dessa forma como os três protagonistas deambulam pelo chamado "país real" aguardando um reencontro que tarda mas chega... perdendo-se novamente pelas suas realidades imaginadas como que mantendo uma esperança de que essa sua realidade o seja para os demais que não observamos ou, por outras palavras, os vivos distantes noutro "universo".
Outro elemento que (n)os lança no imaginário do purgatório é a constante revelação de que estas personagens comunicam mais através dos olhares e de breves murmúrios que expõem (ao espectador), ou dos seus pequenos hábitos ou espaços seguros que os levam a um conjunto de comportamentos incompreensíveis se a dita "normalidade" marcasse presença. Existe um constante imaginário surreal nos seus comportamentos encarando tudo o que os rodeia com uma aparente tranquilidade e passividade incoerente para quem se sente vivo (ou disso tenha percepção) e que sinta a falta da sua rotina... "Zacaria" surge e desaparece do seu imaginário com a mesma regularidade com que "Pak" se mantém na guerra no mato tentando matar algo que o próprio não encontra culminando ambas as realidades com um elogio ao "corpo"... destroçado em Guernica... linchado no Alabama... eliminado em Auschwitz... mutilado em Hiroshima... segregado em Sharpville ou, no fundo metralhado no século XX. A liberdade, de corpo e de espírito tarda... e apenas quando pode repousar em espaço de tranquilidade encontrará finalmente a liberdade.
Se a dinâmica de acção em tempo real consegue, por momentos, levar o espectador a uma crença de que está perante um conjunto de personagens apenas perdidas nos seus próprios pensamentos, é esta "realidade" de purgatório que ganha uma maior credibilidade quando todo o universo - de personagens, de história e de comportamentos - parece ligado através de um conjunto de momentos nem sempre coerentes ou de uma continuidade espaço-temporal que o espectador facilmente considera como distante em relação à forma como tudo surge, acontece ou aparece. Assim, apenas num universo distante dessa realidade dos vivos poderia equacionar estes comportamentos "pouco lógicos", de perda, de afastamento, de busca e de procura onde se vagueia por um espaço potencialmente desconhecido à procura de alguém que surge e desaparece nos mais inesperados locais... e mesmo quando se comprova que não está "lá"... de repente reaparece como se o momentos anterior não tivesse alguma vez existido.
Longe de uma história de terror pois aqui nenhuma destas personagens vive num iminente receio de algo maligno que surja no horizonte, Our Madness é sim uma viagem sobrenatural a um conjunto de mentes perdidas . ou desaparecidas - num universo alternativo que apenas procuram um descanso eterno junto daqueles que reconhecem como parte da sua existência anterior. Muitos são aqueles que vagueiam pelo desconhecido do "além vida" mas, no entanto, poucos são aqueles que o reconhecem como tal para conseguirem encontrar o tal descanso eterno que o "corpo" anseie.
A loucura (a nossa), persiste em lançar os corpos vivos numa constante convivência de guerra e conflito que perturba o tal "depois"... é aí que esta longa-metragem se centra... na vontade explícita de uma mente inquieta que, sem o seu descanso eterno, procura tudo aquilo que ainda mantém vivo da sua existência passada e, como tal, construir a sua nova "vida" (ou aquilo que dela resiste) de forma imperturbável e pacífica... e Ernania Raínha, como a protagonista desta história pós-vida, é simplesmente deslumbrante e sublime fazendo com que os seus silêncios cheios de vida revelem que existe algo mais para lá de todo o dito sofrimento ou provação que se teve (ela... nós) em vida e do seu descanso uma possibilidade assumida.
Où en Êtes-Vous, João Pedro Rodrigues? de João Pedro Rodrigues é um documentário experimental português em competição na vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro, e é da autoria do realizador de O Fantasma (2000), Morrer como um Homem (2009) e O Ornitólogo (2016) que segue momentos da vida do realizador editados pelo próprio.
Desde a curta-metragem Parabéns (1997) que o revelou à crítica internacional sem esquecer a primeira longa-metragem O Fantasma (2000) que o levou à competição oficial do Festival Internacional de Cinema de Veneza, analisa mais do que o homem a sua obra pelo olhar do mesmo. Os seus primeiros pensamentos chegam através da observação - pelo espectador - primeiro do seu corpo e depois do seu reflexo como que uma íntima reflexão sobre a obra como uma parte do seu ser. Em constante mutação - tal como os milhares de borboletas que depois observamos -, a obra do realizador vista através de pequenos detalhes. O cartaz d'O Ornitólogo - o seu mais recente êxito internacional -, os pequenos brinquedos de plástico d'A Última Vez que Vi Macau (2012) ou Mahjong (2013) sem esquecer o pequeno gato de Parabéns (1997) protagonizado por João Rui Guerra da Mata ou os primeiros ensaios de Morrer como um Homem (2009), Où en Êtes-Vous, João Pedro Rodrigues? é pleno em simbologia ou elementos da obra do realizador perceptíveis aos mais atentos, como que representativos não só da sua obra como que a funcionar como uma extensão do próprio para e pela memória perpetuado(s). Obra essa sempre marcado por uma certa mutação, transformação, pelo corpo e pela sensualidade do mesmo... Assim o tivemos em Parabéns e O Fantasma assumidamente marcadas pelo corpo e pela sensualidade/sexualidade dos mesmos, em Morrer como um Homem pela sua componente de mutação visível na vontade da sua personagem principal ou em O Ornitólogo onde ambos - corpo e transformação - se centram numa única personagem cuja viagem física e espiritual marcam essas referidas etapas.
Como que uma viagem pela sua inspiração, pelas suas musas, pelos seus elementos e claro, pela sua obra, esta curta-metragem é como um testemunho do seu legado e um desejo pelo ser inatingível perpetuado na memória do cinema no qual deixa inegavelmente a sua marca e o seu cunho.
Diferente e talvez até distante da obra dita "tradicional" de João Pedro Rodrigues, a questão lançada com este Où en Êtes-Vous (...) não poderia ser mais pertinente... nela - na sua obra - ele está (omni)presente... por todo o lado... vincado e marcado para que o espectador quando uma delas observe sinta que a mesma tem o seu cunho visível impossibilitando-o de a comparar com qualquer outra.
Oxygen de Jacob E. Mullet é uma curta-metragem britânica que relata os instantes de Luke (Alex Cottom), um jovem homossexual vítima de bullying por parte de alguns dos seus colegas.
Entre os seus pensamentos e sentimentos de dor e angústia, Luke deixa-se levar pelo sonho daquilo que poderia ter sido a sua vida se ele fosse igual a todos os outros.
Assumidamente amadora, a curta-metragem de Jacob E. Mullet sofre dos males de tantas outras do género que apesar de terem uma importante e sempre actual mensagem a transmitir são, no entanto, vítimas da sua própria vontade que nunca chega a ser cumprida. Com uma montagem pouco eficiente e um conjunto de recados morais - ao espectador - transmitidos em voz off como uma reflexão estilo documentário, Oxygen falha ao prender-se sob todas as frentes à sua própria concepção. Não é segredo - ou pelo menos assim se exibe - que este filme curto é elaborado por um conjunto de amigos que decidiu que tinha de ser através da imagem de movimento o tal trabalho de final de curso. Com o positivo e o negativo que isto comporta, Oxygen acaba por ser vítima do já referido amadorismo bem como de uma parca capacidade - ou acompanhamento - não só nos detalhes técnicos profundamente mal executados como também da falta de experiência dos seus actores que se limitam a debitar alguns pensamentos panfletários que qualquer um de nós poderá ler em notas informativas.
Oxygen poderia ser uma curta-metragem diferente e, apesar da falta de experiência de quem a executa, deveria ter sido mais cuidada e melhor preparada para - dentro do género - servir de exemplo para uma população mais jovem obter informação ou até mesmo "manual" de sensibilização para adolescentes. No entanto, a incapacidade de transmitir uma mensagem cuidada, pausas e edições inoportunas e a falta de noção de que imagens sobrepostas não fazem de uma colagem um filme, transformam este filme curto num desastre em movimento que consegue mais depressa obter uma gargalhada do que propriamente a tal sensibilização que foi (penso) o objectivo primário deste filme curto.
Desadequado... por vezes enfadonho e honestamente mal editado, Oxygen é uma curta-metragem que dificilmente contribuirá para alguma noção informativa quer sobre a homossexualidade quer sobre o bullying de uma forma geral, valendo apenas - talvez - pelas supostas boas intenções com que todos nela trabalharam.
Ojos Claros de Ricardo Vargas Lozano é uma curta-metragem mexicana presente na secção competitiva Internacional da oitava edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorre na Cantábria, em Espanha.
Um homem aparentemente solitário recebe, ao regressar do trabalho, uma misteriosa caixa que fora deixada à porta da sua casa. No interior encontram-se, em vídeo, as memórias de Carlos, um jovem com quem tem uma ainda não explicada mas forte relação.
A curta-metragem de Vargas Lozano é desde os instantes iniciais, aquele género de filme ao qual o espectador se prende de forma inexplicável. Dividida em dois claros momentos - aquele em que o homem mais velho e desgastado por uma vida aparentemente difícil e um segundo em que o próprio observa a vida que supõe (supomos) feliz de "Carlos" e "Karen" (a sua namorada) -, Ojos Claros é cativante pela forma como deixa o espectador ser levado por uma história passada reflectida no presente e que, ainda que previsível em certa medida, se transforma numa revelação que esperamos ter aquele desfecho de "encontro" entre as suas personagens principais.
Entre passado e presente - ambos inconclusivos -, o espectador conhece este homem mais velho, solitário e aparentemente desgostoso na vida que leva, minimalista não pelos poucos pertences que possa eventualmente ter mas sim pela condição em que se apresenta como alguém desprovido de ligações reais com o mundo "lá fora", entregando-se a uma continuidade esperada que tem como fim último a sua própria extinção. Por outro lado, ao receber aquela caixa misteriosa com um vídeo sobre a vida do jovem "Carlos", compreendemos que a sua vida ganha um estranho e até improvável novo alento esperando - talvez - encontrar naquela vida sentimentalmente bem sucedida uma qualquer redenção para a sua que está, como sabemos, incompleta.
É naquele vídeo que observamos vida, felicidade, amor, alguma tristeza, cumplicidade e entrega. Encontramos a soma de todos os sentimentos e sensações que, na realidade, todos deveriam experimentar e viver nesta breve passagem a que vulgarmente todos chamamos de vida mas, ao mesmo tempo, este vídeo teve um objectivo e um propósito que apenas mais tarde compreenderemos. Algo teria de suceder para que estes dois homens - frutos de duas distintas gerações - se encontrassem e se conhecessem... talvez não da forma esperada... ou talvez daquela que era a única e possível, mas o seu encontro e o saber que ambos existiam foi, de forma mais ou menos trágica, a confirmação de que ambos existiam, viveram e experimentaram todas as alegrias mas também os dissabores de uma realidade presente.
Para ambos aquela praia é o símbolo de uma vida desejada - confirmada ou por confirmar apenas o futuro o poderá ditar -, que os completa e que lhes dá algum tipo de significado e validação. Duas vidas que os seus actores encarnam como uma alma reveladora dos seus âmagos, das suas fraquezas mas sobretudo das suas inesperadas forças. Duas vidas que, no momento certo, confirmam que eles tiveram e presenciaram essa tal "breve passagem" independentemente da sua respectiva duração... ambos experimentaram o amor e, em certa medida, ambos existem sob formas diferentes como um resultado directo desse mesmo amor... confirmado, perdido mas sobretudo vivido.
Ricardo Vargas Lozano cria portanto uma curta-metragem emotiva, emocionante mas sobretudo que espelha de forma exemplar os caminhos de um coração que viveu. De um coração que simplesmente existiu e para lá da perpetuação - ou não - do seu fruto, conseguiu trazer de uma vida desaparecida as suas almas de volta ao reino dos ditos vivos.
Intensa e capaz de deixar o espectador esperar pelo instante seguinte com ânsia e o seu próprio sofrimento, Ojos Claros é a confirmação de um belíssimo contador de histórias como o é Ricardo Vargas Lozano e um dos filmes maiores da edição deste ano do Piélagos en Corto.
Ozzy de Alberto Rodríguez e Nacho La Casa é uma longa-metragem espanhola de animação que foi nomeada ao Goya da Academia Espanhola de Cinema a atribuir no próximo dia 4 de Fevereiro, na respectiva categoria.
Ozzy (voz de Guillermo Romero), é um alegre e destemido cão que vê o seu mundo alterar radicalmente quando os Martin - a família com quem está - deixá-lo num luxuoso hotel enquanto vão de férias. Mas, o que aconteceria se aquele hotel não fosse mais do que uma fachada para um terrível local onde todos os animais se encontram para serem explorados? Estará o inocente Ozzy capaz de sobreviver a tão grande provação?
O argumento que é da autoria de Juan Ramón Ruiz de Somavía capta todo um conjunto de elementos que levam o espectador para a familiaridade de um lar onde o agregado se divide entre humanos e canídeos. As cumplicidades entre os membros da família bem como as zangas e aborrecimentos que um cão inocente mas enérgico trazem a uma casa são aqui exploradas com o humor e a imaginação que apenas os filmes de animação conseguem conferir a estas histórias.
Das típicas tardes de aborrecimento em que vale tudo para chamar a atenção às complicações com a vizinhança, do arqui-inimigo na pessoa de um jovem distribuidor de jornais sem esquecer a ternura e dedicação da mais jovem dos "Martin" para com "Ozzy", todo o ambiente desta longa-metragem capta a essência e a ingenuidade de uma vida isenta de problemas e repleta de uma compaixão extrema que apenas a acção externa do Homem - aqui também ele "animado" - irá testar. Se o pequeno mundo que nos rodeia se mostra paradisíaco, é quando passamos a nossa fronteira geográfica que percebemos que nem tudo é tão idílico como inicialmente aparentava ser.
Se a vida de "Ozzy" é perfeita - dentro do possível - na casa dos "Martin", na qual vive protegido de um mundo bem mais do que imagina, onde confraterniza com os seus amigos de longa data, onde vive uma paixão escondida e até é a personagem principal da banda-desenhada com a qual o seu humano ganha a vida, é quando este resolve ir de férias que finalmente percebe que a sua vida atribulada não o é... e que as dificuldades espreitam a todas as esquinas.
Dos passatempos que se transformam em trabalhos forçados aos imaginativos castigos que o mais improvável dos reclusos passa a encarar como uma constante, Ozzy - o filme - assume-se como um tributo à amizade - entre cães -, à saudade - entre humanos e canídeos - e principalmente ao mais fiel dos amigos do Homem... o cão. O cão que independentemente da sua raça, tamanho ou origem vive com um animal social dependente do conforto que lhe deve ser proporcionado e da tranquilidade que o mesmo origina. Mas, uma vez na prisão social, e considerando que a questão da amizade e da dedicação são uma certeza nesta longa-metragem, Ozzy assume-se ainda como um tributo ao cinema que encontramos através de pequenas grandes referências ao longo da sua acção. Do eterno género "prisional" onde as elites se dividem entre director e polícias versus presidiários e, de entre estes, a pirâmide social divide-se sempre pelos diversos grupos e etnias governando os mais fortes ou com mais influências sobre os demais que, desprovidos de poder, são subjugados, até à referência explícita a algumas outras longas-metragens onde o cinema se encontra e de boa saúde... Para citar alguns, Ozzy faz homenagem a The Shawshank Redemption (1994), de Frank Darabont, Mean Machine (2001), de Barry Skolnick sem esquecer The Last Castle (2001), de Rod Lurie - ao espectador a tarefa de descobrir essas mesmas referências - criando, pelo meio a única e essencial mensagem/homenagem a reter... a de que a amizade é eterna e a sua forma apenas um "protocolo".
Com simpáticos e inteligentes momentos de humor apesar da história ser, na sua essência, algo expectável, é a inteligência emocional que Ozzy pretende retratar que conquista o espectador não deixando por mãos alheias a rica construção das personagens - em especial o protagonista - que se transforma num elemento memorável pela capacidade de o humanizar e de lhe conferir sentimentos nobres que a muitos de nós escapam ao mesmo tempo que nos encontramos perante uma longa-metragem "infantil" capaz de agradar aos mais adultos.
Independentemente da vitória ou não nos Goya, Ozzy triunfa pela capacidade que tem enquanto longa-metragem de animação, enquanto a personagem que cria e claro, no seu óbvio potencial de ser o primeiro de tantos outros títulos que podem abrilhantar esta saga, afirmando ainda que de forma inocente e por vezes pueril se conseguem transmitir mensagens e valores maiores que nem sempre, na ficção, são tão bem sucedidos.
O Ornitólogo de João Pedro Rodrigues é uma longa-metragem portuguesa e o mais recente filme do realizador de O Fantasma (2000), Odete (2005), Morrer como um Homem (2009) e A Última Vez que Vi Macau (2012).
Fernando (Paul Hamy) é - tal como já antevê o título desta obra - um ornitólogo. Num qualquer vale observa as aves no seu habitat natural e aventura-se pelo rio onde inadvertidamente perto o controle da pequena canoa em que viaja. Inconsciente numa das suas margens, Fernando é salvo por Lin (Chan Suan) e Fei (Han Wen), duas turistas chinesas que fazem um caminho religioso mas que revelam as suas próprias intenções durante o mesmo.
Observando todo um novo universo desconhecido até então, Fernando encontra-se num estranho limbo que o separa do mundo que conhece daquele que está prestes a descobrir.
Uma obra assinada por João Pedro Rodrigues é, por si só, significado para o espectador mais atento de que está prestes a assistir a um trabalho original e que irá certamente figurar entre os mais emblemáticos do ano... nacionais e não só. Aqui, e seguindo uma (sua) linha condutora no que à irreverência diz respeito, Rodrigues cruza o sagrado e o profano na história e na abordagem que confere ao seu protagonista "Fernando". O argumento, também da sua autoria, apresenta assim este homem pacato e observador cuja missão está em documentar a vida natural das aves da região, seus hábitos e costumes enquanto que espera pacientemente pela possibilidade de comunicar com alguém que está do outro lado da "linha" de telefone com quem - insistentemente - não consegue comunicar.
Como que um registo desta metamorfose porvir e símbolo de uma comunicação que não consegue estabelecer com esse que é lentamente registado como o seu passado, "Fernando" lança-se mais afincadamente na observação das aves que - também elas - o começam a observar do alto como se se tratassem de uma observação "divina" natural dos seus actos e comportamentos. Aliás, por momentos o espectador acaba não por assistir ao ponto do vista deste homem perdido na floresta mas sim à observação que dele é feita como se fosse necessário comprovar a sua existência e os seus feitos. "Fernando" está (in)conscientemente à prova por parte desse algo divino e do espectador que observa essa transformação de libertação de um passado nunca devidamente comprovado.
Neste início de observação e transformação, "Fernando" perde-se nas águas rápidas de um rio selvagem sendo mais tarde recolhido das mesmas por duas chinesas que caminham pelas florestas rumo a um espaço sagrado... algo que pretendem conhecer como o seu próprio ritual de "crescimento" espiritual mas que é subitamente subvertido quando ambas decidem - de certa forma - sodomizar o homem que retiraram das águas. "Fernando" de homem agradecido e sofrido passa a vítima de duas mulheres que acusam a floresta de estar ocupada por estranhos espíritos - serão elas?! - que as perseguem e querem prender aos seus truques e rituais de perdição. O instinto carnal assumido e explícito deste breve encontro com contornos BDSM como que se o espectador assisti-se a uma punição, tanto transformam "Fernando" num homem cativo de um passado do qual se pretende libertar como em alguém que retira um inesperado prazer sexual pelas amarras que lhe conferem - atempadamente - um instinto de luta e sobrevivência e, como tal, no primeiro passo rumo a essa metamorfose que assola um homem em busca de uma fé que a própria natureza lhe havia custado a revelar. Entre os planos das duas mulheres que tencionam eliminá-lo e a sua vontade de chegar a um certo plano existencial onde se iria libertar deste seu encarceramento espiritual, "Fernando" consegue uma inesperada e árdua fuga que o colocam como parte desse estado natural e em direcção ao seu ponto de partida.
No entanto, é nesta fuga que o nosso protagonista encontra os primeiros sinais de uma floresta com vida própria, que cruza ancestrais rituais pagãos de uma população - ou espíritos?! - que festeja e celebra uma certa imoralidade, que se escondem por detrás de máscaras que nos fazem ignorar a sua verdadeira identidade e que, ao mesmo tempo, exalam uma certa perversão sexual que "Fernando" ou ignora ou que o finge como seu próprio prazer e auto-satisfação. De identidade ocultada - destes mafarricos - à sua que é subtilmente "roubada" quando descobre os seus documentos adulterados com a sua foto queimada e impressão digital eliminada, "Fernando" (Magalhães no BI) percebe e sente que afinal não se encontra tão solitário naquele percurso como inicialmente julgava.
De rituais profanos ao surgimento da sombra de uma cabra - o diabo?! - numa noite de festejo, também ele profano, "Fernando" perde-se nas deduções de alguém em auto-descoberta até ao dia seguinte em que rompe decididamente com um passado nunca clarificado ao deixar-se levar pelos encantos de um "Jesus" (Xelo Cagiao) pastor (de almas?) mudo por quem se deixa seduzir. É esta relação - que não resultará por muito tempo - que o leva a ultrapassar definitivamente os seus limites quando após uma luta "Jesus" é acidentalmente esfaqueado e morto - por ele - com um punhal (lança) no peito... (será ele o próprio?!)...
O trajecto de "Fernando" - mais ou menos acidental - enigmático e quase surreal levam-no a vários encontros... com uma capela perdida onde continua a ser observado dos céus e até mesmo "visitado" por uma pomba de asa partida que habilmente tenta salvar ou, mais tarde, por todo um conjunto de animais que revelam a fronteira ultrapassada de uma vida antiga para aquela que é (agora) a sua nova realidade. Do seu primeiro sermão aos peixes - a simbologia pré-Cristandade aqui assumida - ou de como os mesmos residem num espaço imundo quando poderiam ser habitantes de qualquer outro lugar mais aprazível - a libertação e liberdade do ser e do espírito ao alcance de todos em vez de uma submissão a normais ditas "aceites" e a espaços de "pertença" previamente estabelecidos - ao encontro com caçadoras que com ele comunicam em latim e o revelam - expõem? - como "António" (de Paul Hamy a João Pedro Rodrigues) - o dito santo - homem de antigos prazeres da carne, sem esquecer o encontro com "Tomé" (Xelo Cagiao) gémeo de "Jesus" que ele assassinara involuntariamente.
Da simbologia da Cristandade ao paganismo no qual muita da mesma se fundamentou - e fundamenta -, sem esquecer os rituais da carne, da sensualidade e principalmente da sexualidade como uma parte integrante do Homem, da Humanidade e, como tal, da sua perpetuação, O Ornitólogo é ainda um relato sobre a existência, sobre o ser, sobre esse mesmo Homem (ou homem?!), sobre a sua vulnerabilidade às ditas coisas mundanas de uma vida que é de constante liberdade e libertação do "pré-estabelecido" numa sempre presente dinâmica de religioso versus profano... do que é aceite e convencional ao que é proibido e experimental e da sua compreensão que não é um dito santo mas sim alguém disposto a ver, registar, compreender mas sobretudo sentir... prazer. Prazer esse que à margem da sexualidade experimentada é exposto como o culminar de uma liberdade então sentida e reflectida rumo a Pádua ao som de uma "Canção do Engate" de António Variações.
Assumidamente desafiador com o seu cinema, João Pedro Rodrigues impõe-se pela originalidade das suas histórias, pela simbologia inerente a cada momento de personagens que se descobrem e revelam - do "Sérgio" de Ricardo Meneses em O Fantasma (2000), passando pela "Odete" de Ana Cristina Oliveira em Odete (2005) sem esquecer a "Tonia" de Fernando Santos em Morrer como um Homem (2009) - até ao tal sentimento de uma liberdade que se expõe pouco convencional para os demais mas essencial para essa libertação do espírito por muito tortuoso ou atormentado que possa apresentar mas que se assume fiel e digno para com esse "eu" que se revela, bem como pela forma como dá corpo e credibilidade a todas estas almas eventualmente perdidas num universo de um preconceito pré-estabelecido - a tal Cristandade talvez (des)virtualizada dos seus princípios primários - que são tal como todos os demais e que esperam apenas um simples e básico elemento perdido em todas as afirmações de imposições de crenças religiosas perdidas na sua própria auto-afirmação... a capacidade de querer e querer ser... amado.
Com uma brilhante fotografia de Rui Poças que capta esse algo "etéreo" que observa sem interferir e uma inspirada interpretação de Paul Hamy, um dos mais carismáticos actores franceses do momento, que dá corpo ao "antes" de um "António" assumido, O Ornitólogo é um filme sobre o "ser" e o viver bem com esse algo escondido que anseia por se libertar. Um filme sobre a reflexão e exposição do "eu" reprimido nos cânones (moralmente) impostos que primeiro vinculam e depois oprimem impedindo - de facto - o tal divino que todos deveriam simplesmente viver e, como tal, transforma-se este tão aguardado filme numa das mais importantes e significativas obras deste ano cinematográfico nacional e mais uma do emblemático legado que o realizador deixa ao cinema nacional.
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. "Música final: Tu estás livre e eu estou livre E há uma noite para passar Porque não vamos unidos Porque não vamos ficar Na aventura dos sentidos (...)" .
Otoño de David López Ania e Jorge López Ania é uma curta-metragem espanhola de animação que reflecte sobre as pessoas... a sua capacidade de se manterem ocupadas enquanto, à sua volta, o tempo passa e as aproxima de um fim anunciado.
Um homem está sentado num banco de jardim e observa uma foto que o emociona. De repente uma folha ocupa o espaço à sua frente. Ele precisa de limpar os seus pensamentos e talvez o inesperado clima o ajude...
Ao estilo de uma reflexão sobre o passar dos anos e as perdas que afligem um homem, Otoño pressupõe a passagem do tempo que se celebra no chamado "Outono da vida"... de uma época de transformações onde se compreendem as dores de um passado que já não regressa, as vidas daqueles com quem privámos e principalmente a chegada de um próprio fim, esta curta-metragem celebra, no entanto, o outro lado da vida... aquele em que a passagem desse tempo é celebrado como um presente que o "universo" permite gozar e que, já perto do fim, fornece ainda as distracções necessárias para que ele seja apenas uma miragem ao fundo de um túnel.
Com algum humor que dilui o drama de uma realidade presente a todo e qualquer um de nós, Otoño capta, sob a forma de uma eficaz animação, o tempo - climatérico e cronológico - e a forma como ele deixa marcas físicas e emocionais naqueles que a ele vão conseguindo resistir.
Namoro à Espanhola - Aventura na Catalunha de Emílio Martínez Lázaro é a mais recente longa-metragem espanhola a estrear em sala e a continuação de Ocho Apellidos Vascos (2014) que foi, à data, o maior sucesso de bilheteira do país vizinho.
Depois da separação de Rafa (Dani Rovira) e de Amaia (Clara Lago), esta última apaixona-se por Pau (Berto Romero) um catalão. Rumo à Catalunha deixando tudo para trás, é Koldo (Karra Elejalde), o seu pai, que segue para a Andaluzia para convencer Rafa a conquistar, uma vez mais, o coração da sua filha. No entanto, nem tudo parece ser assim tão fácil naquele que poderá ser o primeiro casamento de uma Catalunha independente...
Borja Cobeaga e Diego San José estão uma vez mais por detrás do argumento desta sequela de Ocho Apellidos Vascos tentando recuperar muito do espírito de comédia que esteve na origem daquela que foi uma divertida e espontânea história de amor. Uma história de amor igual a tantas outras onde as diferenças não só do indivíduo como também de toda uma comunidade culturalmente distinta se evidenciam como entraves à sua concretização mas que, por força de um qualquer mistério, parecem resultar como uma oposição, ou seja, quando mais esta diferença se assume mais sentida faz à aproximação daqueles que as denotam.
Espanha para o mundo... Espanha das nações a nível interno. Os vários mundos que compõem o país vizinho parecem embelezá-lo enquanto comunidade para o exterior mas, internamente, o espectador percebe que existem momentos e situações dignas de um cómico de situação que, no entanto, pouco poderão fazer rir aos mais fundamentalistas. Desde as separações linguísticas ao imaginário de uma independência ainda por confirmar, Ocho Apellidos Catalanes recupera o tal imaginário dos bascos senhores de si próprios, da independência ainda não confirmada de uma Catalunha dona de si própria contrariamente ao dolce fare niente de um sul andaluz onde os propósitos fundamentais de uma vida bem vivida passam pela diversão, pelo bom comer e pelo amor - numa prática mais ou menos consumada - que se (os) distancia de um restante país mais Europeu... e menos "quente".
Mas, no meio de tudo isto o que sobra para realmente compreender... O amor... Por si só incompreensível - pois desista quem o tenta explicar -, mas capaz de se afirmar como a força motora das vidas destas personagens que se têm contentado com a solidão, com casamentos e uniões "menos más" e que lhes confiram a tal "idade adulta" que até então lhes tem passado ao lado ou até mesmo a aceitação de uma vida a solo que, no entanto, os impeça de sofrer pela entrega a alguém que (não sabem) poderá nunca os amar em idêntica proporção. Mas, o que irá realmente acontecer quando decidem finalmente arriscar e reclamar o seu direito à felicidade?
É com esta pergunta em mente que assistimos à dinâmica entre "Koldo" (Karra Elejalde) e "Merche" (Carmen Machi) e, por outro lado, a "Rafa" (Rovira) e "Amaia" (Lago). Os primeiros, já idos nos seus sessenta's, concentram-se na aceitação mais ou menos implícita, de uma vida a solo onde apenas podem esperar retirar alguns dias "menos maus" sem alguém a seu lado. Apaixonados - nem sempre secretamente - mas com o real receio de que não sejam aceites - mais ele que ela - aceitaram que o casamento (ou mesmo uma simples união) não é para eles... pelo menos não até os reais sentimentos de "Koldo" serem revelados para salvação de um dia melhor para "Rafa". Já este, concentrado num dolce fare niente que a sua vida lhe tem proporcionado, acorda finalmente quando compreende que o amor da sua vida - "Amaia" - poderá deixar de ser sua pelo compromisso que está prestes a aceitar com "Pau", um artista catalão demasiadamente concentrado na auto-adoração do que propriamente num amor que mais não é - para ele - do que algo de ocasião que irá satisfazer uma avó "independentista".
Ainda que os cómicos de situação derivados de alguns preciosismos independentistas tenham resultado em Ocho Apellidos Vascos, é também certo que em Ocho Apellidos Catalanes apenas funcionam pela óbvia e esperada conclusão que o espectador sente em relação a estas personagens que o apaixonaram há cerca de dois anos e não tanto pela dinâmica aqui recriada com um humor mais ligeiro, mais naïf e também um pouco mais resultante da ocasião do que propriamente pela comédia em si. Por outras palavras, se momentos existem em que nos fazem esboçar um sorriso... este já não é tão sentido como aquele tido há dois anos com Ocho Apellidos Vascos, muito mais espontâneo, emocional, divertido e até mesmo natural mas sim de uma certa "esperança" que desta vez o destino destas personagens seja aquele que nessa altura para eles desejámos.
Com vontade assumida de destacar os seus actores secundários esbatendo a interpretação de Rovira e Lago, Ocho Apellidos Catalanes é uma longa-metragem simpática, com momentos bem conseguidos e uma certa verve catalã - nunca havia visto tantas bandeiras da Catalunha juntas num filme - ou "barreiras" linguísticas que fazem uma vincada e assumida distinção entre as várias Espanhas de Espanha mas, ainda assim, não tem tanta alma (ou espírito) como o título original que agarrou os espectadores não só no país vizinho como também por todos aqueles por onde passou, que garantiu o Goya a três dos seus actores, Elejalde, Machi e Rovira - Actores Secundários e Revelação respectivamente - e que soube brincar com o amor, com as diferenças e com os estereótipos de um país que sabe, assumidamente, rir de si próprio e que não esquece uma vedeta - que o é - como Rosa Maria Sardà, aqui a dar alma a uma independentista catalã com valores de família e de conservadorismo bem firmes na sua mente.
Oneiros de Gustavo Silva é uma das curtas-metragens portuguesas candidatas ao Prémio YORN MOTELx de Melhor Curta-Metragem Portuguesa de Terror nesta décima edição do Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que agora decorre no Cinema São Jorge.
Um jovem (Bruno Gusmão Monteiro) tenta estudar quando, por alguma obra do acaso, a sua televisão insiste em ficar ligada e à medida que o tempo passa os acontecimentos vão ficando mais sinistros.
Esta que é uma das dez curtas-metragens nomeadas este ano pelo MOTELx ao Prémio de Curta Portuguesa de Terror é, até à data, aquela que se apresenta mais frágil. O argumento da autoria do próprio realizador emerge o espectador num território que é - de certa forma - familiar a todos, ou seja, o que acontece naquele exacto momento em que a pressão parece tomar conta do cérebro e as insónias e o cansaço se mesclam dando origem a um domínio incerto da razão que apresenta factos e acontecimentos que proporcionam experiências tidas como "fora do normal" noutras situações. Quem não já sentiu, naquele "tal" momento de pressão, que já fez algo que parece precisar de ser feito num déjà vu misterioso e para o qual não são encontradas explicações? Num ritmo quase claustrofóbico onde o espaço parece tornar-se mais reduzido de instante para instante e numa sucessão de acontecimentos que se confundem com um sonho ou momentos já vividos, os quais geram uma confusão apenas tida por uma mente sem descanso
Dito isto, Oneiros perde-se um pouco ao estabelecer esta ligação com um certo elemento sobrenatural onde a já referida televisão parece saída de Poltergeist, de Tobe Hooper (1982) sem que, no entanto, esta seja o veículo de passagem entre dois mundos... o físico e o já referido sobrenatural assumindo-se, por sua vez, como um simples adereço cuja explicação nunca é abordada ou sequer confirmada. No fundo, se Oneiros seria certamente uma curta-metragem dinâmica e forte se se limitasse ao espaço confinado em que se desenrola a acção e aborda-se mais a tal fragilidade de uma mente atormentada pela falta de descanso isolando o jovem estudante num patamar de loucura auto-destrutiva sem, no entanto, recorrer à tal abordagem que ora insere o espectador nesta "realidade" ora o leva a sugerir que afinal o sobrenatural existe e está prestes a manifestar-se... mas não!
Com claras referências - assumidas ou não - do já referido título do início da década de 80 sem que existam espíritos que o confirmem, Oneiros denota as já explanadas fragilidades mantendo, no entanto, uma interessante atmosfera de um apartamento que parece, também ele, modificar-se como que se uma alma própria possuísse. Afinal - dizem - também as casas ganham as energias daqueles que nela habitam...
Offline de Guilherme Trindade é uma longa-metragem portuguesa feita com um conjunto de actores da nova geração como Duarte Gomes, Íris Cayatte, Sara Barros Leitão, Daniela Love, João Nunes Monteiro, Miguel Lemos e João Harrington Sena aos quais se juntam alguns nomes confirmados como Ana Bustorff e Emília Silvestre em interpretações secundárias.
Feito inicialmente para a RTP, Offline conta-nos a história de Tiago (Duarte Gomes), recentemente chegado a Portugal vindo de uma missão humanitária por África e que começa a trabalhar como professor de História e Geografia num colégio. Rita (Íris Cayatte), a sua vizinha do lado, é uma informática reclusa no seu apartamento e incapaz de mostrar qualquer comportamento social dito normal distanciando-se de qualquer forma de socialização exterior ao mesmo. Os dois encontram-se... Conhecem-se e parecem desenvolver uma química por explorar que os poderá aproximar bem como ao mundo que os rodeia... Quer a nível pessoal como sentimental.
Ivone Rodrigues, João Harrington Sena e Guilherme Trindade escrevem o argumento de Offline naquela que é uma história sobre as relações inter-pessoais de uma nova geração habituada às redes sociais e à informatização dos relacionamentos esquecendo, por outro lado, que existe todo um mundo distante dos toques de um telemóvel ou das teclas de um computador onde pessoas reais com emoções, expressões e sentimentos espontaneamente manifestados vibra e se faz sentir. Actual e bastante pertinente, esta história remete o espectador para a análise de dois universos "virtualmente" díspares como são os de "Tiago", um jovem distanciado dos telemóveis, da televisão, da informática e claro, das redes sociais, mas habituado sim à confraternização com as pessoas com quem se cruza. Do outro lado encontramos "Rita", uma jovem socialmente inadaptada para quem a interacção com outras pessoas representa um desafio que parece ser difícil de ultrapassar, que se assumem como os protagonistas de uma invulgar e inesperada história de amor. À sua volta todo um conjunto de amigos que os cruzam como "Carla "Sailorspoon"" (Sara Barros Leitão) e "Leonardo "Davintji"" (João Nunes Monteiro), ela uma vlogger famosa cujos vídeos a fazem sentir-se ligada ao mundo sem, no entanto, esquecer o seu intensa e bem sucedida faceta social que a aproxima de inúmeros amigos e ele o típico vlogger nerd que aproveita os melhores dias da sua juventude, sem esquecer "Marco" (Miguel Lemos) e "Diana" (Daniela Love), o resultado de um casal "moderno" fruto da interactividade das redes virtuais que comunica quase exclusivamente por mensagens até ao momento "final" em que se conhecem vivendo uma química emergente mas com alguns segredos por revelar.
Se o tema das relações, e por consequência o amor, é um (senão o) tema principal desta longa-metragem, não será menos correcto afirmar que este surge como um aspecto de um conjunto de personagens socialmente inadaptadas - mas apaixonantes - nas relações físicas que se estabelecem entre todos e que por várias condicionantes se tornam por vezes mecânicas, pouco espontâneas ou até mesmo pouco naturais. As relações inter-pessoais surgem deterioradas, mostrando personagens que comunicam através de siglas virtuais - a nova linguagem - e não por um conjunto natural de assuntos partilhados em comum como que o resultado de algo mecânico... É um facto que as novas tecnologias aproximam as pessoas distantes e espalhadas pelos mais exuberantes locais do mundo mas, por outro lado, até que ponto não distanciarão aquelas que de "nós" mais perto se encontram?!
"Tiago" e "Rita" são assim o resultado de uma sociedade moderna mas, todavia, em lugares bem distintos da mesma. Ele centrado num mundo onde os olhares e as relações físicas se sobrepõem a tecnologias que chegam ao mundo mas que, por sua vez, o afastam do mesmo. Posição esta que aliás, o distancia e lhe dificultam uma vida profissional alvo das várias ameaças encapotadas de Isabel (Emília Silvestre) a directora de colégio onde dá aulas que não desarma face à auto-exclusão informática de um professor "fora do seu tempo". Já "Rita" é uma mulher afastada da sociedade... Sem amigos - apenas uma que conhecemos - e sem grande tacto para uma conversa que dure mais de um minuto, ela refugia-se numa profissão que a levam a entrar cada vez mais num isolamento auto-imposto enquanto o mundo continua "lá fora". Mas, como o ditado já é antigo... poderão estes opostos atrair-se?!
É aqui que entra aquele que considero como o mais apaixonante desta longa-metragem - que afirmo ter sido uma simpática e muito agradável surpresa - quando observamos a interacção entre o casal protagonista e a evolução que ambos têm a um "centro". "Tiago" vê-se (in)voluntariamente forçado a abraçar o mundo do qual se tem mantido distante e abrir o seu espaço às novas tecnologias e a toda a informação que lhe chega à distância de um click... Por sua vez é "Rita" que revela a maior transformação - e adaptação - a um mundo de interacção física e pessoal abraçando a existência de um mundo para lá das redes sociais e da lividez da informatização conhecendo aqueles que estão para lá da porta da sua casa... Transformação essa que inicialmente a revelam como uma inadaptada e que depois, muito lentamente, mostram como ele conhece todo esse admirável mundo novo de emoções, de sensações e de um conhecimento e amadurecimento sentimental que desenvolve com "Tiago" como o seu não só novo amigo como um amor que a poderá ver crescer para lá de uma simples evolução etária.
Com um desfecho apaixonante e que cativa pela forma como se revela esta evolução sentimental naquele que é um dos momentos mais apaixonantes de um novo cinema português, Offline "agarra" o espectador pelas leves e inspiradas interpretações de um conjunto de grandes e novos talentos nacionais que interpretam uma história terna e actual, pela inspirada interpretação de uma "vilã" simpática a cargo de Emília Silvestre e a recuperação de uma desaparecida Ana Bustorff que, apesar da sua brevíssima interpretação, seduz pelo encanto e presença marcante.
Uma pena que Offline ainda não tenha recebido o merecido destaque pela simpática e profissional execução de uma obra que é ligeira e representativa de um cinema comercial e abrangente, que não cai em lugares comuns e que, ao mesmo tempo, se apresenta longe de pretensões, primando apenas pela entrega de um conjunto de profissionais que querem contar uma boa história.
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"Rita: Qual a diferença entre a cola, um avião e a família?
Olhos Pretos, Cabelo Azul de João Meirinhos e Emanuel Garcia é uma curta-metragem portuguesa de ficção que leva o espectador à mente - e ao comportamento - de uma jovem mulher incapaz de controlar os seus impulsos sexuais. Ela (Vanessa Guimarães) vive no isolamento de um pequeno apartamento com as comodidades básicas para a sua sobrevivência. O namorado (Francisco Sousa) está de viagem. Ela deseja mais e encontra-o num amante (Emílio Mota) ocasional e num Voyeur (João Reis) como atrelado. Poderá ela conseguir manter uma relação de aparente conveniência e que não a satisfaz?
João Meirinhos entrega, enquanto argumentista, uma história (não) simples sobre a dupla personalidade de uma jovem mulher que (re)age conforme a sua solidão. Enquanto acompanhada pelo seu namorado, esta mulher perde-se em devaneios infantis e sexuais que com ele satisfaz como se mais ninguém existisse no mundo. No entanto, uma vez separada dele - ainda que momentaneamente - pergunta-se sobre como poderão ser preenchidos estes vazios "sentimentais".
Sem uma ocupação profissional (legal) com que ocupar o seu tempo, os seus rendimentos provêm de encontros sexuais que provoca via redes sociais e que a satisfazem não só sexualmente como economicamente. Assim, num dilema entre solidão versus relação, esta mulher divaga numa espiral lunática e decadente que parece ser limitada a um futuro próximo.
Ainda que as intenções sobre a decadência da mente humana e a vontade de encontrar um "complemento" junto do "outro" expressas em Olhos Pretos, Cabelo Azul, a realidade é que esta curta-metragem está longe de cumprir os requisitos mínimos para que o desfecho final não seja mais do que um cómico de situação sobre os limites - ou falta deles - da devassidão e da plena satisfação.
Com um conjunto de interpretações medianas, especialmente da protagonista de quem se pedia muito mais e muito melhor, o espectador tem apenas um vislumbre sobre a sua mente - que apenas poderá igualar à decadência e degradação das imagens que a própria vê no vídeo - completa com momentos e formas de atingir uma plenitude económico-sexual instantâneas mas que, na realidade, pouco mais que isso lhe irão conferir.
Com excertos que oscilam entre as mais pobres sitcoms televisivas e alguma incoerência fruto de um amadorismo inocente, reconhecendo no entanto as boas intenções com que esta curta-metragem tentou ser elaborada, Olhos Pretos, Cabelo Azul está para lá da convicção de uma obra simples e com objectivos entrando estrondosamente na dinâmica do "pobre mas feliz".
Outubro Acabou de Karen Akerman, Miguel Seabra Lopes e António Akerman Seabra é uma curta-metragem luso-brasileira na qual uma jovem criança se prepara para filmar a sua grande obra cinematográfica.
Com a ajuda dos pais, este menino sonha e deseja criar um filme feito inteiramente pelo seu pulso e através de um conjunto de imagens que capta diariamente. Mas, insatisfeito com aquilo que consegue filmar, os seus sonhos (ou pesadelos) tornam-se cada vez mais intensos e preocupantes.
Num registo de cinema familiar, Outubro Acabou tem um conjunto de elementos interessantes não só sobre a sua feitura - como uma jovem criança sente que precisa criar uma obra cinematográfica que valide a sua presença no mundo - como também reais - quando se sente confrontado com a realidade do mundo e dos (inexistentes) apoios cinematográficos - e simbólicas - se pensarmos numa vertente em que o próprio título (Outubro) e a cor vermelha do seu pijama e de alguns apontamentos ao longo da curta-metragem - lençol, sapatos, unhas... - que remetem imediatamente para um período soviético ou, mais concretamente Oktyabr (1928) - Outubro -, de Eisentein que, tal como a obra do casal Akerman/Seabra Lopes e do seu jovem filho, também se assume como uma obra documental mas... em períodos e contextos históricos assumidamente distintos.
Aqui o foco é a necessidade de criar uma obra... um registo de um momento... uma marca de uma presença sentida pelo jovem António Akerman Seabra que levam o espectador a acompanhar todo o processo de criação desde a filmagem à edição sem esquecer claro o óbvio argumento/narrativa e, dessa forma, poder contemplar uma continuidade não há obra em si - apesar de implícito - mas sim ao registo de memórias, do tempo, das pessoas e, no fundo, da sua existência como um todo.
No final, quanto Outubro finalmente acaba, a obra está concluída com o recurso às suas próprias imagens - de António - aquando do seu nascimento. No fundo Outubro acaba... com o nascimento do seu próprio criador.
Interessante de um ponto de vista simbólico, e de certa forma, talvez a principal, numa perspectiva familiar e de construção de obra em conjunto, Outubro Acabou - grande vencedora da última edição do Córtex - Festival de Curtas-Metragens de Sintra - pode ser uma obra terna e algo cúmplice mas no final poderá não chegar a um público mais abrangente não só graças à sua duração como principalmente por essa vertente mais íntima que não chegará a todos os públicos.
One Step Ahead de Caque Trueba e Juan Trueba é uma curta-metragem de ficção espanhola presente na secção Cantábria da sétima edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorre naquela região espanhola até ao próximo dia 7 de Maio.
Javi (Juan Trueba/Alejandro Albarracín) acreditava num amor eterno. Sofía (Lara de Miguel/Aura Garrido) pensou que era uma coisa de crianças.
A relação entre os dois sempre foi de uma proximidade distante. De uma doce amarga experiência que insistia em separar os seus caminhos. Conseguirão alguma vez encontrar um ponto de mútuo encontro?
Com argumento da autoria dos dois realizadores, One Step Ahead é uma história de um amor interrompido. Uma história de um amor que sobrevive a vários anos de uma separação mais ou menos involuntária mas que reside não só nos corações dos dois protagonistas como nos pequenos símbolos representativos da sua união e da cumplicidade que, um dia, fora estabelecida.
De uma casa de árvore perdida no meio de um bosque à grande cidade onde se estabelecem para lá de vidas, algumas carreiras, One Step Ahead revela a evolução de uma relação cúmplice tida à distância e que se transforma pelas mais variadas vicissitudes e acasos da vida. Poderá o início de uma nova relação fazer esquecer aquela que foi não só a primeira como a mais verdadeira? Existirá um "depois" daquilo que foi o mais puro e sentido amor?
No seio de todo um conjunto de questões, algumas das quais de resposta óbvia mas, tantas outras que nunca ninguém conseguirá responder melhor do que após o tempo que ocorre entre um encontro e o posterior reencontro, One Step Ahead vive num misto de conto de amor e história infantil que, num passo muito próprio e repleto de uma energia quase de história de encantar revela uma história de amor, de descoberta, de separação, de ligação e finalmente de uma confirmação de que existem de facto duas almas que se completam, que se complementam e que sobretudo estão destinadas a ser o par perfeito... mesmo com todas as descobertas que, entretanto, foram feitas sobre o "eu" e sobre o "outro".
Com uma interessantíssima direcção de fotografia de Ignacio Aguilar que capta a essência da transformação e evolução temporal sem, no entanto, nunca perder aquela magia de história de encantar, One Step Ahead é, no fundo, um pequeno conto sobre um amor que nunca morre... mesmo quando esteve disfarçado de um afastamento intemporal.