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segunda-feira, 18 de maio de 2020

Quarantine (2020)

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Quarantine de Jason Gonzalez (EUA) é mais uma das curtas-metragens em exibição no Trapped Film Fest e, novamente, uma que recupera um imaginário que, nos nossos dias, está bem presente na realidade comum.
Uma rapariga encontra-se de quarentena numa casa isolada. Sem forma de se manter informada ou contactar com o exterior a sua mente começa a divagar pelo desconhecido.
Do imaginário do fim do mundo àquele pelo qual o próprio, e cada um de nós, atravessa de momento, esta curta-metragem assume contornos por demais assustadores quando revemos nas acções e comportamentos desta jovem mulher interpretada por Mayrobin Salinas aqueles que, na realidade, tão perto se encontram de nós. Do gel desinfectante ao isolamento social - fruto ou não da actualidade mas... os elementos estão lá -, das memórias que se registam e daquelas que assolam o nosso pensamento, é apenas a ausência de imagem numa televisão por perto que nos faz adivinhar (supôr pelo menos) que a realidade que esta mulher atravessa está anos à frente daquilo que conhecemos no nosso presente.
O tempo passa e, com ele, toda a mente que divaga por caminhos que dificilmente já se conseguem distinguir daquilo que é real lançando todo um indivíduo, que para nós espectadores poderá ser o último na Terra, numa espiral de medo e loucura que amedrontam pela semelhança e incerteza que têm para com o presente. Se em tempos esta história era assustadora pela impossibilidade de a compararmos com algo hoje, é a sua compreensão que nos aproxima do medo que as imagens ilustram e que nos condenam a um pensamento de "e se..." isto se transformar numa realidade diária. Capaz de por breves instantes captar toda uma corrente de pensamento e registar a realidade dos nossos dias, este Quarantine é mais do que um filme de suspense e terror mas sim o próprio que conhecemos agora na primeira pessoa.

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7 / 10

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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Quantas Vezes Tem Sonhado Comigo? (2018)

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Quantas Vezes Tem Sonhado Comigo? de Júlia Buísel (Portugal) presente na secção oficial em competição dos Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra revela um inesperado encontro entre uma mulher (Catarina Wallenstein) e Mefistófeles (Dinis Gomes), uma figura satânica que a quer aliciar para o seu lado de perdição pelas ruas da Lisboa de Pessoa.
Do Chiado às arcadas do Terreiro do Paço, esta primeira incursão da realizadora transforma a Lisboa que todos reconhecemos num inesperado e solitário purgatório por onde uma mulher (ou aquilo que aparenta ser a sua alma penada), vagueia na esperança de (re)encontrar algo que a volte a unir a uma realidade agora desconhecida.
Esta mulher interpretada por Wallenstein parece sofrer do mal de um luto que a visitou antes do tempo e que a deixou a deambular pelas ruas de um familiar "desconhecido". Lisboa, ou as suas ruas, são assim o seu passeio eterno onde a sua busca parece não ter fim... primeiro por procurar algo que a faça recordar e depois pela esperança dessa memória que não chega. É nestas ruas conhecidas mas incertas que uma figura satânica a visita e a tenta... tenta-a primeiro com uma simpatia e depois com promessas de afectos que o próprio não poderá (ou quererá!) garantir.
Pelas ruas dessa mesma Lisboa onde nada reconhece, ou onde ninguém se vislumbra, são provavelmente as imagens de um incêndio descontrolado que a fazem despertar desse son(h)o profundo que a levam a compreender que essa promessa de afecto e amor garantidos por um marido desaparecido, mais não são do que palavras de alguém que em tempos tentou Jesus saindo gorado, e que vagueia os caminhos de um mundo cada vez mais moderno e onde a sua solidão se acentua. É esta mesma solidão que faz despertar a "Mulher" levando-a a compreender que aquilo que procura não encontrará, muito menos através das promessas vãs de quem, também ele, procura uma companhia que não encontrará.
Com um cenário facilmente identificável e uma história cativante pela forma como expõe a solidão de uma figura satânica e, pensa o espectador, idealmente caprichosa e maldosa, Quantas Vezes Tem Sonhado Comigo? peca "apenas" por uma excessiva teatralidade que parece colocar os seus actores e respectivas personagens num palco improvisado onde a declamação ganha terreno face à natural expressividade de um conjunto esperado de emoções e sentimentos que aqui... nunca ganham forma. Num universo em que o submundo se expõe e aos seus sentimentos... espera o espectador mais do que uma simples declamação de um solidão nunca confessada.
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4 / 10
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sábado, 24 de novembro de 2018

O Quadro (2018)

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O Quadro de Paulo Araújo (Portugal) é mais uma das curtas-metragens apresentadas na selecção oficial da XXIVª edição do Caminhos do Cinema Português que hoje se inicia em Coimbra e que à semelhança do anterior filme, também remetem o espectador para um imaginário de suspense e terror.
Lisboa, meados do século passado. O ritmado trabalho de um contabilista é subitamente interrompido quando se sente atormentado por um enigmático quadro nas suas costas.
Luz intermitente, um pânico súbito com o desconhecido. Ruídos estranhos e um telefone que toca sem ninguém estar do outro lado. A única coisa que o argumento de Paulo Araújo faz chegar ao espectador são não os pensamentos de um homem atormentado pelo desconhecido mas sim os ruídos que o ambiente à sua volta insistem em fazer ecoar nos espaços que são, passo a passo, cada vez mais exíguos e talvez seja esta equação a mais forte deste filme curto, ou seja, a capacidade de criar desconforto pela potencial concepção de um perigo que, na realidade, não se observa. Existirá mais prisão do que aquela que se desconhece e teme?
Mas nem tudo está escondido. Existirá de facto aquela mulher retratada no quarto? Será tudo tão sombrio quanto parece? De onde chegam os ruídos que o atormentam? Que estranho escritório - ou casa - é aquele? Estará o espectador presente uma qualquer e inexplicada assombração? Ou será apenas um conjunto de alucinações que ganham forma pela exaustão de um trabalho monótono e sem qualquer potencial diversão?
A todas estas questões surge apenas uma única resposta explícita nos instantes finais desta curta-metragem e que, de certa forma, ilibam (ou não) todos os comportamentos até então tidos e presenciados por um homem que pouco lúcido parecia. Algo previsível no seu desenvolvimento e principalmente no desfecho mas interessante pela forma como se expõe tecnicamente - fotografia, direcção artística, caracterização e guarda-roupa da autoria de Isabel Feliciano -, O Quadro mantém-se fiel ao registo proposto mas, na prática, não se evidencia de tantos outros contos do género.
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4 / 10
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sexta-feira, 13 de abril de 2018

A Quiet Place (2018)

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Um Lugar Silencioso de John Krasinski é uma longa-metragem norte-americana centrada na interacção de uma família forçada a viver em silêncio num meio isolado como forma de escapar a uma misteriosa criatura que caça e ataca quando escuta o mais ínfimo dos ruídos.
Krasinski juntamente com Bryan Woods e Scott Beck escreveram o argumento desta inesperada e surpreendente história que leva o espectador para a vivência quase improvável de uma família que não só tem de viver num silêncio sepulcral como principalmente escapar a um perigo invisível que ataca ao mínimo ruído existente. Num mundo onde a presença humana parece ter desaparecido do mapa, como escapar a um perigo que não se observa?
A dinâmica desta longa-metragem é imediatamente cativante não só pela forma como se desenha a vivência desta família encabeçada por Emily Blunt como "Evelyn" e John Krasinski como "Lee" na qual a sobrevivência dos seus três filhos é a prioridade máxima. Não existe vida aparente para além dos cinco nem tão pouco qualquer tipo de notícia do mundo exterior à sua pequena comunidade onde apenas eles resistem. As poucas notícias que chegam ao espectador são aquelas de jornais que guardam no seu bunker improvisado remetentes a tempos não tão distantes onde se percebe que o planeta Terra foi alvo de uma invasão alienígena. Ao 89º dia compreende o espectador que os desaparecidos são às centenas de milhar, que as cidades estão desertas - principalmente as mais pequenas onde a acção de A Quiet Place se desenrola - e que a necessidade de sobreviver é em igual proporção àquela de manter o silêncio como uma constante na própria dinamização desta história e da original forma de comunicação entre as personagens que transformaram uma aparente debilidade de um mundo normal numa técnica de escapar neste nova forma de sociedade que desconhece o dia de amanhã.
Do mundo exterior pouco se sabe. A comunicação é inexistente e apenas as informações dos "primeiros dias" subsiste. Mais de um ano depois da invasão e da destruição inicial, os alimentos escasseiam e já não existe nada para pilhar nas lojas tendo a sobrevivência de ser efectuada por mão própria e com o pouco que a terra ainda pode fornecer. No entanto chega ao espectador a realidade de "Evelyn" que se encontra no final da sua gravidez, que o espectador compreende que é esta nova forma de vida, que poderá dar continuidade àquilo que resta da civilização, que poderá pôr em risco a sobrevivência de uma família que já se deparou com a morte de um dos seus. Sobreviver é assim indispensável mas... a que custo?
Se por um lado o espectador poderá imaginar que o género cinematográfico em questão está mais do que explorado com as inúmeras e por vezes infundadas histórias de invasão alienígena existe, no entanto, a confirmação de que Krasinski - actor, realizador, argumentista e produtor -, deu vida a um conto que prima pela quase total ausência de extraterrestres que apenas brevemente conhecemos nos segmentos finais, pela igualmente ausente existência de uma qualquer batalha que lançasse os sobreviventes nos seus abrigos (aqui apenas percebemos o que aconteceu ao mundo após a sua aparente destruição), mas sobretudo pela habilidade em inovar e transformá-la através da sua forma de comunicação que chega apenas pela interacção entre os diversos actores bem como pelas composições das suas personagens que sofrem, choram, riem e falam através da expressividade de um olhar ou pela língua gestual americana que aqui ganha lugar de língua de destaque revelando que as supostas pequenas debilidades do mundo tal como o conhecemos são, afinal, as formas mais válidas de sobrevivência numa espécie de nova sociedade incerta e insegura.
O silêncio, ou a sua ausência nos pequenos actos do dia-a-dia, acabam por transformar-se em A Quiet Place como uma outra forma de comunicação ou até mesmo numa espécie de personagem oculta na medida em que são as alterações a esse existir quotidiano que se assumem como os tais elementos de destaque nesta longa-metragem. Caminhar já não se faz da mesma forma, uma ida a um supermercado é agora feita no mais profundo silêncio e o simples mexer numa prateleira da cozinha lá de casa pode transformar-se num risco de vida constante. Tudo tem de ser feito no mais absoluto silêncio que se afirma e os ruídos existentes apenas são os daqueles elementos naturais que não perturbam a nova força dominante num planeta que o espectador desconhece estar ainda com vida humana ou já desta desprovido.
Krasinski que o espectador mais atento poderá reconhecer de inúmeras obras de comédia ou até mesmo pelo seu ar cool e descontraído, é aqui a força motora de um filme tenso e intenso de um terror que está para lá da simples invasão extraterrestre, e que se afirma pela forma pela incapacidade de expressar dor ou sofrimento correndo o risco de, ao estar exposto, se transformar na próxima vítima desse mal oculto e anónimo. Da comédia ao terror como a mesma ligeireza mas, ao mesmo tempo, firmando-se como um interessante e inteligente contador de histórias, Krasinski faz do seu A Quiet Place o filme sensação do momento que prima pela dinâmica da família em tempos conturbados independentemente do pano de fundo ser aquele que aqui encontramos mas que facilmente poderia centrar-se num qualquer outro contexto mais ou menos denso. No final, a grande questão que permanece para o espectador é apenas uma... até que ponto estaria qualquer um disposto a ir para salvar aquilo que tem de mais sagrado... ninguém lutará por um país, por uma crença ou por um governo... mas sim pela perpetuação daquilo que tem de mais sagrado... uma família que ama. E é em nome desse amor, ou por esse amor, que se sobrevive e vive o mais certo sacrifício...
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"Evelyn: Who are we if we can't protect them?"
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8 / 10
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sábado, 2 de dezembro de 2017

Qualquer Coisa de Belo (2017)

Qualquer Coisa de Belo de Pedro Sena Nunes é um documentário em formato de curta-metragem presente na vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra.
Neste documentário a fotografia e o cinema existem como um complemento indissociável. Num registo documental, o espectador revisita momentos dos pacientes do Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda captados no final dos anos 60 do século passado quando, ainda em ditadura, a doença mental era encarcerada e aqueles que dela padeciam isolados como comuns criminosos vetados ao abandono.
Agora desactivada enquanto unidade hospitalar, o Miguel Bombarda perdura como uma ossada em decomposição e apenas as fotografias, como um registo dessa memória, comprovam que noutros tempos a vida - ainda que sob uma outra forma - existiu naquele espaço por onde ainda ecoam pensamentos soltos pelos corredores agora em completo abandono.
Essas mesmas fotografias - mais de quinhentas - levam o espectador a observar aqueles que não faziam (fazem?!) parte da sociedade registando a sua vivência naquele espaço esquecido. Enquanto que no cinema o espectador observa uma imagem em movimento, é a fotografia que capta o momento tal como ele é sem subterfúgios, manobras ou retoque final para embelezar (ou não) aquele acto ou espaço específico ainda que induzindo quem observa para uma ideia concreta tida pelo fotógrafo.
Intrigante e pouco reconfortante, Qualquer Coisa de Belo insere o espectador naqueles corredores, quartos e bloco num todo, dando-lhe uma breve perspectiva e sentimento de isolamento e solidão talvez sentido, noutros tempos, por aqueles que ocuparam o mesmo espaço sentindo-se - também ele - como uma parte ausente de uma sociedade distante e que se recusa a tê-lo(s) como membros integrantes da mesma.
Qualquer Coisa de Belo, é assim, um interessante documento de memória histórica não só do indivíduo como principalmente do espaço em específico e ainda da época que então se vivia.
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7 / 10
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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Quand on a 17 Ans (2016)

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Quando se tem 17 Anos de André Téchiné é uma longa-metragem francesa presente na secção Panorama - Longas-Metragens da vigésima-primeira edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa até ao próximo dia 23 de Setembro.
Damien (Kacey Mottet Klein) vive com a mãe Marianne (Sandrine Kiberlain) enquanto cumpre mais uma missão militar no estrangeiro. Na escola sofre o acosso sistemático de Thomas (Corentin Fila) e os dois acabam por por em prática a sua agressividade. Quando a mãe de Damien começa a tratar a de Thomas que se encontra doente, os dois rapazes começam a privar mais de perto e aquilo que era uma tumultuosa relação começa a exibir alguns sinais de cumplicidade. Será esta crescente empatia algo mais do que uma não tão simples amizade?
Depois de obras como Barocco (1976), Rendez-vous (1985), Les Roseaux Sauvages (1994) ou Les Temps qui Changent (2004), André Téchiné regressa com a sua mais recente longa-metragem cujo argumento também assina em colaboração com Céline Sciamma sobre a problemática relação entre dois jovens vindos de dois mundos distintos. Por um lado o espectador encontra "Damien", um rapaz apenas criado pela mãe devido à distância das missões militares que levam o pai para o outro lado do mundo, desenvolvendo um lado mais sentimental que é visto pelos outros - pelo menos por "Thomas" - como fruto de uma prepotência que abomina. Do outro lado temos "Thomas", filho adoptado de um casal que trabalha numa quinta nas montanhas e que vê na sua diferença (a família adoptiva), o motivo pelo qual é inferior aos demais na sua comunidade. Ambos filhos de lares e de famílias que os amam, tanto "Damien" como "Thomas" são, em última análise, marginais dentro de um mesmo espaço tendo aquilo que consideram como as suas diferenças as justificações para, no fundo, serem mais parecidos do que ambicionam ser... Se ao primeiro falta um pai presente ao outro falta a capacidade de poder aproveitar uma juventude tal como ela é... livre de trabalhos e responsabilidades que façam dele um jovem como todos os demais. No fundo, ambos assumem papéis de expressividade mais adultos do que o que são tendo, dessa forma, mais responsabilidade perante o lar do que a esperada de dois jovens ainda na adolescência.
Dividido em três segmentos distintos, Quand on a 17 Ans inicia com o primeiro trimestre escolar onde a relação entre os dois jovens é crua, máscula e tida à lei de uma agressividade que ninguém consegue explicar. Funcionando como uma aprendizagem  - do espectador - a respeito dos mesmos, percebemos que ambos são o elemento marginal dentro dos parâmetros impostos pelos próprios colegas que os negligenciam e ignoram. E, se esta marginalização faz de "Damien" um jovem que se destaca na sua carreira académica mas na prática pouco social, "Thomas" destaca-se nas áreas mais práticas do tratamento de uma quinta onde se vê a constituir carreira mantendo-se, também ele, anti-social para tudo o que demais o rodeia.
De um segundo trimestre onde começam a respeitar o espaço alheio - acabam por viver ambos na casa de "Damien" como forma de facilitar a vida escolar de "Thomas" e poder servir de forma a que os dois se entendam dentro do mesmo local - mas no qual onde o espectador fica também a conhecer o fascínio e atracção sexual que o primeiro sente em relação ao segundo, este é também o segmento onde compreendemos que para lá de um qualquer desejo reprimido dos dois, existe uma atracção que os impede de se distanciarem, algo que os atrai e repele na mesma proporção mas que impede de tornar esse afastamento como algo final e definitivo. O mesmo segmento em que existe a primeira atracção sentimental/sexual e que por medo ao tido como "proibido" é inocentemente repelido pela força mas que deixa a certeza de que o sentimento existe e é dinâmico, a um terceiro e último trimestre onde a crise e a tormenta dão lugar a uma aproximação e a um desejo cumprido. O segmento em que se confirma a perda e a necessidade de sentir que existe algo mais para lá dela. O momento em que finalmente se compreende que o que existe não será apenas um acto de momento mas sim a confirmação de um desejo e de um amor - talvez ainda algo pueril e adolescente - que os irá manter unidos para sempre.
Mottet Klein e Fila têm duas fortes e dinâmicas interpretações que comprovam que a diferença - imaginária ou não - é eliminada pela força de um sentimento maior... Seja amor, atracção física ou mesmo atracção sentimental ou fruto de um "algo" que o outro tem e que se deseja - que no caso de "Thomas" pode estar intimamente relacionado com a relação familiar que "Damien" tem e que ele não sente dentro da sua casa apesar do espectador compreender que ele é amado pelos seus pais -, a relação entre os dois é maravilhosamente interpretada por dois jovens actores que terão certamente um futuro promissor da arte da representação e que aqui conseguem dar uma alma - por vezes perturbada - às suas personagens mas que é ultrapassada pela força e calor de uma empatia que cresce lentamente e que os une irremediavelmente. No entanto, é Sandrine Kiberlain que tem a interpretação mais marcante desta ternamente violenta longa-metragem, comprovado inicialmente pela capacidade de perdoar e acolher um jovem que sabe ter agredido fisicamente o seu filho e que depois se desfaz nos braços de ambos quando a própria sente que a perda lhe bateu à porta. A sua contenção constante que nem uma morte inesperada quebra, é subitamente interrompida num tenso e arrepiante momento em que vê, à distância, aquele que é o amor da sua vida afastado para sempre dos seus braços e impossibilitada de a ele recorrer comprovando que ainda que perto... a ausência de afecto e de cumplicidade a marcam e a condenam (inicialmente) a uma incapacidade de viver.
Sem grandes momentos de ostentação sentimental e, no fundo, um drama capaz de viver de momentos equilibrados entre a tensão física e psicológica - sobretudo a tida na perspectiva de "Thomas" sobre o mundo que sente estar a condená-lo a cada passo - Quand on a 17 Ans consegue afirmar-se como aquela obra em que os dois protagonistas estão no seu coming of age sem nunca extrapolar considerações sobre os seus actos, sobre as suas escolhas ou mesmo sobre a sua forma de encarar esse tal mundo onde todos têm - aos olhos dos demais - de encarnar um papel social que lhe foi conferido para desempenhar no momento em que nasceram.
Digno de destacar ainda a direcção de fotografia de Julien Hirsch que lhe confere um certo ambiente equivalente ao constante frio que se parece fazer sentir na pequena vila francesa, sem esquecer a música original de Alexis Rault que caminha ao ritmo dos sentimentos dos dois jovens, Quand on a 17 Ans é uma (mais uma) interessante e agradável surpresa deste festival este ano e uma das mais suavemente emocionantes longas-metragens do cinema francês que chega finalmente ao nosso país comprovando - não que existissem dúvidas - da qualidade de transmissão de sentimentos e pensamentos que o cinema de Téchiné sempre conseguiu transmitir.
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8 / 10
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domingo, 5 de junho de 2016

Quando um Asno Chega (2016)

Quando um Asno Chega de Francisco Moura Relvas é uma curta-metragem documental / experimental portuguesa que regista a pacatez de uma vida perdida no tempo sob a perspectiva de alguns daqueles que a vivem... os animais numa propriedade rural.
Com o principal foco na comunidade animal, o espectador observa uma cabra, cães, gatos e galinhas como os"habitantes" da referida propriedade e a compreensão de que são os mesmos que mantêm, ou contribuem, para a sua eventual subsistência.
Numa tentativa de definir o tempo - numa calmaria desconhecida para o espectador e até incompreendida por vezes dado o ritmo de vida que poderá eventualmente ter na cidade -, este lento correr de imagens pressupõe não só a caracterização da comunidade (ou desta potencial sociedade) assim como todo um estilo de vida campestre que se observa com curiosidade.
A principal fragilidade de Quando um Asno Chega chega, no entanto, através dessa longa e demorada passada que torna, por vezes, o seu difícil consumo na medida em que se pergunta ao espectador de forma inconsciente... até que ponto irá conseguir resistir a esta observação!
Pertinente sob a perspectiva de análise destes outros habitantes - e seus devidos instrumentos de trabalho - de uma comunidade desertificada de vida humana, suas funções, e o passar do tempo sobre os mesmos mas, ainda assim, complicado de gerir temporalmente pela sua demorada e inexistente... actividade.
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5 / 10
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quinta-feira, 14 de abril de 2016

Que é Feito dos Dias na Cave (2016)

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Que é Feito dos Dias na Cave de Rafael Almeida é uma curta-metragem portuguesa de ficção e uma das finalistas da última edição do Prémio Sophia Estudante atribuídos pela Academia Portuguesa de Cinema que nos retrata a tentativa de fuga de Marco (João Sério) do hospital psiquiátrico em que se encontra percorrendo um sem fim de corredores labirínticos que parecem prendê-lo cada vez mais àquele espaço.
Numa fuga constante pela qual tem de ultrapassar os evidentes obsctáculos que lhe são colocados, no final conseguirá Marco fugir de uma prisão que não é apenas construída por quatro paredes?
Com um argumento da autoria de Tiago Primitivo, Que é Feito dos Dias na Cave cedo apresenta uma abordagem fresca e interessante ao transportar o próprio espectador nesta aventura. Num ritmo de constante movimento, "Marco" está, desde muito cedo, acompanhado pelo espectador que através da presença de um câmara - técnico - como uma das personagens deste enredo, possibilita dessa forma a sua imersão na própria história estando, passo a passo, a efectuar a mesma fuga que a personagem principal tenta encetar.
Se a primeira prisão de "Marco" se deve principalmente pelo espaço em que se encontra - um hospital psiquiátrico repleto de corredores que por momentos parecem irem dar a todo e a nenhum local - que o aprisiona da sua vontade de liberdade, é também de registar que ele vive dentro de outra prisão que é aquela do foro psicológico e psiquiátrico na medida em que é uma vítima da sua própria mente agora ilusoriamente libertada pela sua recusa em tomar medicação. "Marco" tem toda uma nova - para o espectador mas não para ele - perspectiva sobre os limites, e sua falta, de uma mente capaz de tudo para alcançar um objectivo - a liberdade - esquecendo que, ao mesmo tempo, esta não passa de uma parca ilusão da (sua) realidade.
Corredor que precede um outro corredor, portas que se abrem para dar lugar a outras tantas portas, Que é Feito dos Dias na Cave apresenta ainda os meandros do seu próprio labirinto através de uma misteriosa figura que acompanha "Marco", cada vez mais à beira do seu próprio limite, e que parece por diversas ocasiões entregar-lhe directivas que o possam encaminhar para uma imaginada última porta daquele hospital e que por momentos obriga o espectador a questionar se aquele hospital não será mais nocivo do que benéfico para aqueles que o ocupam ao transformar médicos em carrascos e seguranças em carcereiros que precisam - para "Marco" - de ser enganados e, se necessário, eliminados.
Com as interpretações de João Sério que entrega uma louca genialidade ao seu personagem conferindo-lhe momentos de uma estranha e ilusória lucidez e um Salvador Nery como o interessante e enigmático "Paulo" - conquistando assim mais uma personagem marcante no seu curriculum - Que é Feito dos Dias na Cave dá continuidade a Demência - o anterior filme de Rafael Almeida - explorando uma vez mais os meandros do foro psicológico, a perda da lucidez e da realidade e a entrada num perverso mundo novo onde a coerência e o raciocínio parecem ter há muito abandonado estes corpos que se apresentam perdidos dentro de si próprios.
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7 / 10
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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

I Quattro dell'Apocalisse (1975)

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Os Quatro do Apocalipse de Lucio Fulci é um western spaghetti italiano que junta quatro criminosos em fuga no perigoso "oeste selvagem" norte-americano. O jogador Stubby Preston (Fabio Testi), a prostituta grávida Bunny O'Neill (Lynne Frederick), o alcoólico Clem (Michael J. Pollard) e o louco Bud (Harry Baird) são enviados para o interior desprotegido no oeste americano para não enfrentarem a morte na cidade em que estão detidos. Juntos embarcam nesta odisseia enfrentando os perigos que lhe estão inerentes e ainda a companhia de Chaco (Tomas Milian) que poderá não ser tão amistosa quanto parece.
Ennio De Concini e Lucio Fulci adaptam ao cinema as histórias de Bret Harte naquele que é uma das muitas obras do género western spaghetti - westerns filmados em Itália, muitos dos quais nos célebres estúdios da Cinecittà em Romma - onde o espectador encontra os eternos marginais de uma sociedade fora-da-lei que os transformará em potenciais redentoras de uma justiça por encontrar. Em I Quattro dell'Apocalisse a história confirma-se. Quando o espectador vê "Stubby Preston" chegar à cidade pressupõe que vamos encontrar mais um dos muitos que ali rumam para vigarizar o mais "inocente" dos fora-da-lei e ganhar uns quantos milagrosos dólares à conta. No entanto, aquilo que rapidamente percebe é que a cidade não está assim tão desprotegida quanto se poderia pensar, e existem aqueles que são mais espertos - não necessariamente inteligentes - do que aqueles que esperar lucrar com a ignorância dos "locais". Assim, chegamos a uma cidade onde o crime é, não recompensado, mas sim suplantado por um crime... ainda mais organizado.
Numa viagem pelas desérticas planícies dos Estados Unidos - que afinal mais não são do que em Itália -, acompanhamos assim os nossos quatro improváveis heróis numa tentativa de sobrevivência às agruras climatéricas e até à vontade de manter uma sanidade mental que parece desvanecer com o avançar do espaço, e ainda a uma sobrevivência a um perigo que se aproxima enquanto amigo mas que tem os seus próprios planos para os condicionar a um momento de desespero. A interpretação de Tomas Milian como o temido "Chaco" é provavelmente o imediato oposto ao "Stubby" de Fabio Testi. Se um surge como um ligeiro vigarista que acaba por encontrar a redenção não só com a sua viagem mas também com a convivência com os seus três novos e inesperados amigos, o vilão de Milian faz o percurso exactamente inverso na medida em que se apresenta como uma vantagem para a quadra perdida na planície mas que rapidamente se revela coma a sua maior e mais complicada provação que exalta os perigos e o verdadeiro crime para lá do crime recorrente nestas histórias.
A redenção dos quatro amigos, também uma característica neste sub-género, chega com o anunciado fim da sua viagem. Ou pelo menos um fim para alguns deles que ou não resistem à dita viagem ou nela encontram o repouso para uma nova vida (pelo menos assim o esperam) e com ela... uma nova oportunidade. Redenção essa que, no entanto, não chega sem a própria vingança que lhe é prometida e, no fundo, este não seria um western spaghetti - ou qualquer tipo de western na realidade - se a vingança não fizesse parte desta história. Ela é, afinal, o clímax de todos estes contos que revelam um pouco da (i)moralidade da época e da consciencialização que algumas das suas mais improváveis personagens acabam por reflectir. Essa mesma consciencialização que chega sob duas formas... A primeira com um nascimento (que surge da morte) que acaba por denotar toda uma nova vida física e geográfica (dado o local em que acontece) e, a segunda, por marcar também um ponto de viragem num sobrevivente através da vingança que vê confirmada para com o seu grupo de amigos nem todos resistentes da mesma viagem que era, digamos, improvável. No fundo, quem conseguiria resistir a tanto?!
Fiel ao espírito, com interpretações coerentes e marcantes dentro do estilo de onde exaltam o anti-herói - Testi - e o vilão - Milian - I Quattro dell'Apocalisse revela o seu drama (social), algum humor incutido pelas personagens interpretadas por Pollard e Baird, a história de sobrevivência pelo "velho Oeste" que é, ao mesmo tempo, ainda conquistado pelas inúmeras vagas de emigrantes mais ou menos fundamentalistas que "inundavam" o país e isto sem esquecer, pelo meio, o romance e alguma feminilidade que surgem através de Frederick mantendo todo um espírito de western norte-americano... falado em italiano naquilo que podemos confirmar ser bom entretenimento durante pouco mais de hora e meia. E, para os mais atentos, é ainda conferida a possibilidade de ver alguns dos pequenos erros cinematográficos que passam e imortalizam todo um género pela sua simplicidade e ingenuidade que conferem a estas obras um estatuto de culto que lhes é incontornável.
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6 / 10
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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

¿Quién es Libertad Lionetti? (2014)

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¿Quién es Libertad Lionetti?, de J.K. Álvarez é uma curta-metragem de ficção espanhola que situa o espectador no futuro ano de 2051 onde perante uma sala de aula extremamente ordenada e multicultural, alguns alunos revelam desconhecer o passado do planeta.
Quem foi Libertad Lionetti (Arianna Fortes)? Quem foi Sandy West (Ángel de Miguel)? Como foi que, em 2016, se iniciou a Terceira Guerra Mundial, aquela que opôs ciência e religião?
De anónimo par romântico a casal protagonista da maior revolução mundial, o romance que existia entre Sandy e Libertad estaria longe de fazer imaginar a importância que ambos teriam no mundo como em 2051 o conhecem... Mas, quem são estas duas tão importantes personagens que definiram a emergência de um novo mundo?
O argumento também da autoria de J.K. Álvarez para lá de se inserir o espectador numa dinâmica futurista onde a sociedade é o resultado da recuperação de uma guerra que opôs todas as mais básicas convicções da Humanidade quer na fé que sentiam ter que nos conhecimentos científicos que lhes garantiam uma maior proximidade com a realidade de "então".
Depois da desgraça que assolou a vida de "Sandy" e de "Libertad", ele tornou-se num pária dessa mesma sociedade. Num vulto fantasmagórico que passou a vaguear pela terra sem qualquer objectivo, propósito ou amor próprio afastado do mundo e de tudo aquilo que o mesmo representava. No entanto aquilo com o qual o espectador é aqui confrontado é com a hipótese de poder existir algo mais para lá da morte... Poderá existir uma nova vida com referências novas a partir de um momento que no passado "imediato" foi negativo? Poderá existir memória desse passado? Ou, mais importante ainda, poderá existir um futuro? Será a morte a última barreira... a última etapa? Ou será que para lá dessa mesma barreira existe uma possibilidade de existir uma continuidade que garanta a todos uma segunda oportunidade?
É com base nesta premissa que se desenvolve a guerra de todas as guerras. Aquela que abala todas as convicções fundamentais e que faz o Homem regredir à sua base opondo religião e ciência... opondo factos a mitos e dividindo uma sociedade que já se fazia sentir abalada por toda uma constante descrença - não esquecer que tudo isto é relatado numa sala de aula no histórico dia 11 de Setembro. Num mundo em que a morte pode ser travada ou até regredida, o que acontece se "Libertad" fôr, afinal a primeira de muitas pessoas que volta a viver colocando em causa tudo aquilo que se conheceu até então? É no reino das segundas oportunidades, que então todos desejam, uns confirmam e outros negam que a desgraça atinge proporções mundiais.
Apesar de Arianna Fortes encarnar a personagem que dá título e mote a toda esta curta-metragem é, no entanto, Ángel de Miguel que a agarra desde o primeiro instante inicialmente como o jovem apaixonado e que descobre ter todo o resto da vida à sua frente, que se desgraça pela perda do amor da sua vida e que finalmente o recupera tornando-se numa inesperadamente referência de uma revolução de mentes e principalmente da Humanidade.
Ainda que uma curta-metragem bem estruturada tanto a nível de argumento como das interpretações e de elementos técnicos como a sua montagem e fotografia, ¿Quién es Libertad Lionetti? deixa aquela quase "necessidade" de conhecer mais detalhes sobre o desenrolar do conflito e aquilo que sucedeu até chegarmos ao momento inicial onde a sociedade aparenta ser uma vez mais tranquila e ordeira. Em suma, o potencial para que ¿Quién es Libertad Lionetti? se torne um filme não tão curto existe... e certamente o espectador agradecia.
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8 / 10
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domingo, 19 de abril de 2015

Quai d'Orsay (2013)

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Palácio das Necessidades de Bertrand Tavernier (França) filme que conferiu a Niels Arestrup o César de Actor Secundário entregue pela Academia Francesa de Cinema, conta a história de Alexandre Taillard de Vorms (Thierry Lhermitte), o excêntrico Ministro dos Negócios Estrangeiros de França que procura todas as oportunidades para brilhar... desde as conferências nas Nações Unidas em Nova York às crises de poder num qualquer país africano alicerçado num conjunto de valores que defende... legitimidade, lucidez e eficácia.
É quando chega o jovem Arthur Vlaminck (Raphaël Personnaz) para ser o seu assistente e perito em "linguagem" que a verdadeira máquina diplomática francesa começa a funcionar... para o bem e para o mal deixando para trás todo um rasto de incoerências e indecisões.
Baseado em Quai d'Orsay - Chroniques Diplomatiques da autoria de Abel Lanzac e Christophe Blain, a dupla em parceria com o realizador Bertrand Tavernier escreve o argumento desta obra cinematográfica que oscila entre o cómico e o alucinado num retrato que pensamos fiel de todo o enredo diplomático... francês ou não! E é neste constante registo que o espectador encontra Quai d'Orsay.
A obra de Tavernier, nomeada a três César da Academia - para lá do já mencionado troféu na categoria de Actor Secundário foi ainda nomeada para Actriz Secundária e Argumento Adaptado - centra-se essencialmente num registo de comédia sarcástica que equipara - de forma inteligente até - os meandros dos corredores diplomáticos a um certo frenesim onde tudo acontece... sem que nada aconteça de facto. Perdidos num registo linguístico que tenta respeitar o "politicamente correcto" e valores auto-impostos nos bastidores de um mundo diplomático impedindo, dessa forma, de que verdadeiras medidas, resoluções ou vontades sejam tomadas para a harmonização da relação entre os Estados. Aqui, pelo contrário, Quai d'Orsay é, tal como o nome indica em português, não o Palácio das Necessidades onde se tentou (de forma mais ou menos tácita) expôr o centro diplomático português mas sim um verdadeiro palácio de necessidades políticas onde tudo se respeita mesmo que se compreenda o absurdo deste "bem-estar" político não entre famílias partidárias mas sim entre Estados soberanos esquecendo (polidamente) que todos o são... e não uns mais que outros à la Orwell.
Quai d'Orsay é, portanto, o centro de toda uma necessidade de convivência pacífica e ultra-respeitadora (quase como um fanatismo), desprovido de valores ou, por outro lado, recheado daqueles que resultam do imediatismo desses mesmos corredores diplomáticos, deixando não só o espectador num estado esgotante e esgotado de corredores e caminhos que se percorrem vezes sem conta ao longo do dia para que, no final, nada seja resolvido, nada seja decidido e todos permaneçam num constante estado de impasse limite do qual ninguém parece querer, poder ou conseguir sair.
Inteligente pela forma como estabelece a relação entre Ministro dos Negócios Estrangeiros e Director de Linguagem e Comunicação - imprescindível nestes dias que correm -, e pela erudita e não menos cómica disposição do frenesim que todos parecem assumir no Ministério onde nada se decide para lá do impasse (e até mesmo este parece ser decidido a muito custo), Quai d'Orsay é, no final, um filme que reside essencialmente na dinâmica da personagem semi-silenciosa de toda esta história... "Claude Maupas" (Niels Arestrup) com todos os seus colaboradores revelando que ele sim é o homem na sombra que faz todos os gabinetes  movimentarem-se (ainda que num passo muito discreto) e assumindo que com esforço, subtileza e com a noção de que não existe vida privada e particular se cria a fórmula para um verdadeiro membro do corpo diplomático existir... ainda que em última análise o trabalho de toda uma vida possa ser... quase nulo.
Simpático pela sua recriação da dinâmica diplomática onde tudo gira em torno de nada e na qual todas as incertezas são a única certeza destes homens e mulheres que se dedicam às relações entre Estados - e seus chefes -, Quai d'Orsay transforma-se nos últimos instantes numa experiência tão desgastante para o espectador como o é para as personagens que os seus actores pretendem retratar. Não deixando de ser inteligente e mesmo como os seus apontamentos de humor semi-refinado, a longa-metragem de Tavernier circula livremente - ou mais freneticamente - em torno da "não-história", ou seja, sobre aqueles factos que nunca chegam a existir pela força da própria política diplomática levando o espectador a crer que assiste sim a uma obra em que todos circulam, todos giram e caminham sem que, no final, alguma coisa tenha sido, de facto, alcançada.
Excessivamente - ou voluntariamente - longo (quase duas horas de duração), Quai d'Orsay é a prova de que pode existir um filme sobre tudo... onde reina o nada e onde as suas personagens podem ter um longo e rico debate sobre a melhor forma de como abordar o outro implementando um discurso onde absolutamente nada seja dito... ou revelado. Ou, talvez tenha realmente tudo sido dito revelando assim a ineficácia ou incapacidade de tomar medidas quando as mesmas são necessárias e urgentes...
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6 / 10
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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Queen and Country (2014)

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Pela Raínha de John Boorman é uma das longas-metragens em competição nesta edição do Lisbon & Estoril Film Festival a decorrer no Centro de Congressos do Estoril e no Cinema São Jorge até ao próximo dia 16 de Novembro.
Depois de um conjunto de anos a recuperar dos tormentos da Segunda Guerra Mundial, Inglaterra vê-se novamente envolvida num novo conflito, desta vez na Coreia. Bill (Callum Turner) e Percy (Caleb Landry Jones) travam amizade no difícil e isolado campo de treinos em que se encontram e partilham os amores e desamores pelos seus superiores que parecem concentrados em lhes dificultar a vida.
Mas é na difícil realidade da aproximação da guerra que a sua amizade será realmente colocada à prova, no mesmo instante em que Bill conhece a bela e enigmática Ophelia (Tamsin Egerton) e que Elizabeth II se torna a Raínha de Inglaterra.
Ainda que um filme centrado num período bem conturbado da História moderna e de conseguir captar uma certa irreverência que está sempre inerente a este tipo de filme de "caserna" que o torna assumidamente bem disposto apesar da imensa tragédia que está por detrás das suas diversas personagens, Queen and Country perde-se na empatia que tenta criar não só entre as suas personagens como principalmente na identificação e proximidade que estas deveriam ter com o seu público.
A dinâmica e potencial existentes por detrás desta história são, ou deveriam ser, os suficientes para estarmos perante um daqueles filmes de época em que as realidades ou tragédias pessoais estariam acima do conflito que serve de pano de fundo para as mesmas. No entanto, não só é uma verdade que o conflito em si se assume como uma mera tela que constextualiza a relação das personagens como estas não se desenvolvem o suficiente para considerarmos que elas sim são, afinal, aquilo em que o espectador se deveria concentrar.
No fundo, e para que Queen and Country faça total sentido na aparente - apenas e só - dispersão, é considerá-lo como a segunda parte da obra de 1987, Hope and Glory onde a mesma família vivia as amarguras da já referida Segunda Guerra Mundial e que aqui mais não são do que exactamente os mesmos, anos depois e com um novo conflito a ensombrar as suas vidas. Aqui encontramos a família Rohan mais velha e o jovem Bill como centro desta novo conflito como uma das suas principais personagens. Esqueçamos os anos que separam 1945 de 1952 e as potenciais mudanças que esta família sentiu, ainda que algumas delas vivam nas entrelinhas e sejam brevemente referenciadas e concentremo-nos sim no seu crescimento e na forma como as guerras realmente mudam as pessoas tornando-as mais indiferentes aos pequenos grandes dramas da vida e tentando aproveitar aqueles outros momentos que podem fazer valer um pouco mais essa mesma vida.
No final Queen and Country é a justa homenagem aos "Rohan" tal como os deixámos em 1945 mas, ao mesmo tempo, a porta de entrada para uma nova sequela - não sabemos quando - que talvez nos permita explorar as agora consequências da Coreia num período aparentemente mais calmo. Terão eles encontrado alguma redenção? Serão as suas vidas mais tranquilas? Ou aquela eterna pergunta... terão eles próprios encontrado algum tipo de redenção ou expiação com as escolhas - e rumos - que tomaram ou aos quais foram obrigados.
Com algum humor à mistura, ainda que normalmente mais corrosivo do que necessariamente feito a pensar em divertir alguém, Queen and Country centra toda a sua atenção nos vazios que ficam nas personagens que os povoam. Assistimos ao que poderia ter sido, ao que aconteceria, ao que poderia ser, às hipóteses, aos sonhos, aos desejos que não se podem cumprir e principalmente na solidão que se percebe que todos sentem mas que na prática nunca a vão confrontar. Não será aquele filme que ficará no coração, principalmente se não visto imediatamente após a Hope and Glory, mas confirma-se como o segundo acto de uma história que ainda assim fica por contar.
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7 / 10
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quinta-feira, 3 de abril de 2014

Quebra de Contrato (2012)

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Quebra de Contrato de Lindebergue Vieira é uma curta-metragem brasileira de comédia que foi exibida no âmbito da secção competitiva do FESTin - Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa e decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Inspirada numa notícia de um jornal alemão sobre o facto de um homem ter sido processado por não engravidar a mulher do vizinho, o realizador Lindebergue Vieira entrega esta divertida e simpática curta-metragem onde nos é apresentado um casal que tenta engravidar mas que se depara com a infertilidade do marido impossibilitando assim de realizar o seu sonho.
Com um pensamento positivo e muita fé no que vão conseguir concretizar, este casal resolve fazer o seu próprio casting para descobrir um homem capaz de engravidar "tecnicamente" a mulher e proporcionar-lhes assim a parentalidade que tanto desejam.
Depois de uma árdua, documentada e muito divertida tarefa as surpresas, nem sempre boas, iriam chegar para um desfecho inesperado mas bastante positivo que está curiosamente bem afastado de qualquer tipo de ficção.
Esta curta-metragem foi uma das mais positivas e bem dispostas desta primeira sessão de curtas-metragens em competição e aquela que através da sua intensa comédia consegue tocar num tema tão sensível como é o da infertilidade. Sedentos de se transformarem nos pais mais babados do mundo e concretizando ao mesmo tempo um desejo de infância, a tragédia viria assolar a existência deste par e complicar-lhes os planos dando assim ao espectador aquilo que poderia ser um filme pesado e cheio de tensão interior que nos poderia fazer perder no desgosto alheio. Por sua vez Lindebergue Vieira teve o cuidado de transformar todo este pesadelo numa história leve, mas não ligeira, onde as complicações são meros obstáculos a ultrapassar e onde tudo o que se espera são apenas largos cojuntos de gargalhadas e boa disposição que nos confirmam que por muito negro que possa estar o cenário há sempre uma volta que se lhe pode dar, e tudo isto sente-se na química imediata que os actores têm entre si assim como pela forma como o "acto" per si é consumado e, mais importante, devidamente documentado em vídeo-reportagem para recordar no futuro.
Quebra de Contrato é não só um dos filmes mais marcantes da tarde de ontem como também o consegue ser certamente de toda a competição por entregar de uma forma tão harmoniosa como principalmente positiva, o relato da dor de uma família que consegue encontrar no meio das suas dificuldades uma saída para o seu desgosto.
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8 / 10
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O Que Eu Entendo por Amor (2013)

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O Que Eu Entendo por Amor de Ricardo Martins é uma curta-metragem portuguesa que foi exibida na respectiva secção competitiva do FESTin - Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa e cujo argumento da autoria de Tiago Bastos Capitão nos leva a conhecer Julieta (Celeste Ribeiro), uma mulher idosa que um dia acordo com o seu marido Hilário (Carlos Nery) morto a seu lado.
Aquilo que se segue é um conjunto de pensamentos em voz alta por parte de Julieta que nos revelam a sua vida de sofrimento, solidão e mágoa por toda uma vida sem amor e sem uma companhia para os dias que passou. Percebemos que a Julieta tudo lhe foi recusado... uma vida com um amigo, com um amor e principalmente com filhos com quem ela poderia ter partilhado momentos mais tranquilos e que hoje, tal como refere, pudessem visitá-la e dar continuidade à sua vida que a cada dia que passa sente estar mais próxima do final.
A opção de Ricardo Martins em centrar toda a acção dentro de um apartamento é, por si só, muito inteligente. Não só estamos perante uma vida que percebemos ter sido solitária como nos encontramos agora neste local que em tudo parece assemelhar-se a uma pequena prisão. Janelas cerradas encerram um silêncio absoluto que nos impede de escutar ou perceber o que se passa para além daquelas quatro paredes. A porta de entrada sempre trancada à chave, impede qualquer circulação em ambas as direcções. Todo o mundo exterior está vedado... não temos percepção de nenhum televisor, a música é agora uma lembrança quase desaparecida e o telefone só tem uso para uma ocasional chamada de emergência que nunca é confirmada.
O único elemento do que temos para lá daquela apartamento é assim, os pensamentos de "Julieta" que transportam o espectador para um mundo que experienciou e viveu com mágoa e amargura. A sua vida solitária em que desejava que o marido chegasse a casa e não fosse abusivo, o assistir às suas sucessivas traições feitas mais ou menos em silêncio e finalmente a privação de poder ser mãe e ter alguém a quem realmente a amasse sem questões, sem barreiras e sem limites. Limites esses que sempre sentiu e que lhe foram impostos pelas paredes daquele apartamento que a tudo assistiu menos a amor.
Foi esta mesma privação que a levou um dia a dizer basta. O fim que não lhe foi imposto mas que ela determinou como sendo necessário para finalmente poder ter a sua tranquilidade e a sua paz. O momento em que decidiu ser aquele em que tomaria o seu destino pelas suas próprias mãos sendo assim o mesmo que a fez perceber que só ela poderia ter amor por ela própria. Falta esta que sempre determinou que às mãos do "outro" (o seu marido) seria sempre um "objecto" de segunda categoria e não alguém que precisava, e estava) de se sentir viva.
Celeste Ribeiro tem uma interpretação notável e espelha o terror e a demência sem que para isso seja necessário recorrer a uma caracterização assustadora. São as suas palavras e os locais para onde estas transportam o espectador que nos fazem imaginar o pesadelo pelo qual viveu não um dia mas todos aqueles que constituem a sua vida. Vida essa que começou com ilusões e desejos que cedo e depressa se mostraram impossíveis de concretizar pois mais não foi do que uma escrava, em todos os sentidos, de um homem que se serviu dela sem nunca a amar. O Que Eu Entendo por Amor é assim a sua forma de dizer não só que nunca o teve como de mostrar que só ela seria capaz de executar algo que terminasse a sua dor e, dessa mesma forma, perceber que só ela seria capaz de o demonstrar por si própria.
É desta forma que Ricardo Martins nos mostra que O Que Eu Entendo por Amor pode ser uma interessante reflexão não sobre aquilo que o amor é mas aquilo em que ele se pode tornar quando é unidireccional e sentido apenas por um breve período de tempo... se é que este chegou de alguma forma a existir, transformando assim esta curta-metragem não só num exercício sobre o drama de uma vida esquecida como também um breve relato sobre o sofrimento e o terror não visível de uma vida que o sentiu.
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8 / 10
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sábado, 29 de março de 2014

Quesito Prohibido (2014)

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Quesito Prohibido de Roberto Carretón é uma curta-metragem espanhola de comédia que nos apresenta dois casais amigos; Jaime (Manuel Galea) e Elena (Laura Carmo) e ainda Mario (Guillermo Pardo Gil) e Susi (Eider Elorza) que se encontram em casa enquanto se divertem com um jogo.
Aquilo que inicialmente parece uma agradável noite entre amigos rapidamente cai num clima tenso e problemático quando Jaime e Susi revelam ter os seus próprios segredos.
Não sendo uma curta-metragem de referência, Quesito Prohibido não deixa de ser uma comédia simpática que consegue cumprir o seu propósito e fazer o espectador sorrir com o inesperado twist final ainda que pareça retorcido demais para uma comédia de situação.
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6 / 10
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Quarta Divisão (2013)

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Quarta Divisão de Joaquim Leitão é a mais recente longa-metragem do realizador cujo argumento, também da sua autoria, nos remete para uma intensa investigação policial e aos meandros da violênca doméstica e pedofilia.
Quando Martim (Martim Barbeiro) desaparece misteriosamente, a Quarta Divisão liderada por Helena Tavares (Carla Chambel) e Carlos (Sabri Lucas) investiga de imediato os acontecimentos que se encaminham para uma potencial situação de rapto e pedofilia.
Ao investigar a família, Helena percebe que algo de oculto rodeia os pais de Martim, e que Olga (Cristina Câmara) e Filipe (Paulo Pires) escondem mais do que aquilo que revelam sobre este desaparecimento do seu filho.
Aos poucos percebemos que o passado destas destacadas personalidades da sociedade e da política podem saber mais do que se passa do que aquilo que decidem revelar.
De volta a um cinema mais comercial, Joaquim Leitão escreve o argumento deste filme que preza por uma certa ambivalência que por um lado nos prende ao ecrã na expectativa de saber qual o desenrolar da história e consequente desfecho dos acontecimentos que parecem, logo desde o primeiro instante, ter mais a revelar do que o aparente desaparecimento do jovem "Martim" como também instala uma certa inquietude sobre a dispersão do enredo em histórias paralelas que nos parecem, em diversos segmentos, desnecessárias para o bom desenrolar da história e das suas personagens e levando o espectador a factos que poderiam facilmente fazer parte de outro qualquer filme. O mais flagrante prende-se com a história paralela da greve dos polícias que reclamam pelos seus direitos adquiridos que parece querer ganhar alguma importância no argumento de Quarta Divisão mas que, na prática, é apenas um elemento que demonstra a constante dispersão de interesses das histórias individuais de cada uma das personagens que aqui acompanhamos.
Com uma abordagem à vida policial em muito semelhante ao filme francês Polisse, de Maïween onde um conjunto de polícias é obrigado a conviver com as impensáveis histórias que cruzam as nossas ruas, Quarta Divisão concentra-se muito concretamente na vida de apenas dois, Helena e Carlos sendo que da primeira pouco sabemos para além de querer fazer justiça pelas suas próprias mãos numa eventual fuga com um passado que parece não ter sido ainda saldada e do segundo percebemos que ainda que dedicado é um marido e pai ausente cuja família aparenta estar à beira da ruptura. Carla Chambel enquanto "Helena", tem uma interpretação firme e segura da qual esperamos apenas por uma qualquer surpresa que nos faça simpatizar definitivamente com os seus valores e vontade de agir mas, no entanto, apresenta uma pequena fragilidade ao demonstrar ser mais fria e técnica do que aquilo que esperamos dado o seu constante dilema de valores entre o pessoal e o profissional que a dividem constantemente.
Por sua vez, Sabri Lucas tem aqui uma interessante e sólida interpretação que oscila entre o cómico e o dramático que o confirma como um novo talento cinematográfico do qual esperamos poder vir a encontrar mais presente em futuras produções, e que se transforma facilmente naquela personagem que no meio de tanta desgraça e vida destruída, o elo que nos faz crer que a vida tem também ela um lugar menos mau.
As duas outras interpretações que centralizam a acção ficam a cargo de Cristina Câmara, quase desaparecida desde o seu grande sucesso Tentação, também pelas mãos de Leitão, e que aqui recupera um pouco mais do protagonismo que dela se espera, como a fria e distante "Olga" que parece ter muito mais a contar do que o não tão simples desaparecimento do seu filho, e finalmente Paulo Pires como "Filipe", o respeitável homem da vida social e política activa que esconde uma vida privada sórdida, longe do respeito que socialmente lhe é atribuído. Se por um lado as suas personagens são consistentes e fiéis ao que delas esperamos, não é menos verdade que têm potencial suficiente para apresentarem um maior desenvolvimento, esse sim digno de aparecer no filme para melhor caracterizar as suas personagens, para além do simples relato "aconteceu em tempos" que temos conhecimento pelo relato de algumas delas que com eles se cruzaram em tempos.
Deixo também um pequeno destaque ao jovem actor Martim Barbeiro que tendo a personagem central no desenvolvimento de todos os acontecimentos, "Martim" que desaparece misteriosamente, é também aquela que acaba por ter um dinamismo menor estando quase junto da mera figuração, sendo que poderia ter sido melhor aproveitado para relatar através dos seus olhos aquilo que o fez fugir de uma vida aparentemente estável e sólida.
Finalmente aquilo que menos me convenceu, e que aliás acho praticamente desnecessário em todo este filme, é o momento final onde somos alertados para as vítimas de violência doméstica que ano após ano sofrem ou mesmo perdem a vida em Portugal, sendo que poucos daqueles que a praticam são levados a responder perante a justiça ou mesmo por ela penalizados. É certo que se tenta dar um certo alerta para este mal silêncioso da sociedade mas, ao mesmo tempo, se considerarmos toda a dinâmica do filme em que as vítimas existem desde o primeiro instante nas mais variadas camadas sociais, este alerta poderia ser dispensado pois não se pretende um efeito moralizador mas sim de denúncia que as imagens já haviam passado, ou será que perto do final alguém ainda tem dúvidas sobre qual a verdadeira mensagem deste filme?
Não sendo o melhor filme do género, Quarta Divisão não deixa de ser uma muito bem-vinda obra de Joaquim Leitão com uma história interessante independentemente das suas aparentes fragilidades e que se constitui como um filme comercial mas que, ainda assim, reune um conjunto notável de interpretações que confirmam os seus actores como alguns dos melhores do momento.
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7 / 10
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quinta-feira, 30 de maio de 2013

O Quadro (2013)

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O Quadro de Pedro Luz, Cidália Borges, Ricardo Nunes, Sandra Nunes, Pedro Fonseca, Paulo Lamy Costa, Sabrina Ildefonso, Pedro Coelho, Rui Dias, Ana Pinheiro, Nádia Santos, Nuno Oliveira, Marta Ferreira, Tânia Monteiro, Hugo Malveiro, Daniel Vilar Jorge, Catarina Soares, Sara Sim Sim, Debora Martins e Sofia Vilar Jorge é uma curta-metragem de ficção feita como trabalho final de um workshop de cinema digital que nos conta uma curiosa história de amor.
Quando uma mulher das limpezas fica encarregada de limpar toda uma galeria antes de uma exposição, longe estava de pensar que se fosse encantar por uma das obras expostas. Menos ainda seria de considerar que mais alguém se encontrava dentro daquela galeria a olhar para ela tão apaixonadamente como ela olhava para um curioso quadro do Super-Homem e do Batman.
Depois dela adormecer em frente àquele quadro... a exposição está prestes a começar com menos uma obra do que se esperava, facto que contribui não só para o pânico do artista como também para o insucesso da exposição.
O simpático argumento também elaborado pela extensa lista de realizadores acima enunciados consegue ter um objectivo romântico e cómico promissor, no entanto, a brevíssima duração desta curta-metragem não o deixa brilhar o suficiente limitando-se a uma ligeira abordagem à história de amor em questão, e permanecendo longe de uma verdadeira história romântica como poderia ser noutras condições.
Assim temos essencialmente uma curta-metragem/projecto que cumpre a sua função não sendo, no entanto, um filme que permaneça para além dessa mesma condição que é, no fundo, o seu próprio limite.
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3 / 10
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sábado, 18 de maio de 2013

Queens Logic (1991)

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Uma Ponte em Nova Iorque de Steve Rash é uma longa-metragem de comédia que conta com um elenco de estrelas onde se destacam Kevin Bacon, Linda Fiorentino, John Malkovich, Joe Mantegna, Ken Olin, Chloe Webb, Tom Waits e Jamie Lee Curtis.
Tudo se desenrola em torno do iminente casamento de Ray (Olin) para o qual se reunem todos os seus amigos... o já casado e pai Al (Mantegna), Dennis (Bacon) a estela de cinema desaparecida e Eliot (Malkovich) o amigo gay e solitário que não consegue encontrar o amor, enquanto do outro lado temos Patricia (Webb) a noiva sempre acompanhada por Carla (Fiorentino), a sua eterna amiga e mulher negligenciada de Al.
Ao longo de um fim-de-semana onde todas as máscaras vão estar definitivamente removidas e todos eles têm de enfrentar não só as opiniões uns dos outros como também a realidade das suas próprias vidas e as mudanças que elas levaram e do qual só subsistiu um único elemento... a sua constante e inabalável amizade.
O argumento deste filme da autoria de Tony Spiridakis e Joseph W. Savino compõe um conjunto de personagens que, de uma ou outra forma, representam o despertar para uma idade adulta pela qual todos passam. Os medos de assumir um relacionamento e da perda de uma certa independência individual que colidem com um igual medo de perder a pessoa amada e com a qual se antevê a possibilidade de constituir uma vida, uma família e um legado para o futuro vivem lado a lado com os receios daqueles quejá tendo encontrado essa pessoa teimam em não encarar essa mesma idade dita "adulta", permanecendo insistentemente num mundo muito particular para os quais nada se diferenciou da adolescência, bem como com o medo de nunca encontrar a "tal" cara metade.
São estes mesmos medos que subsistem ao longo de todo o filme encontrando apenas alguma redenção com os próprios ensinamentos que aquele fim-de-semana decisivo parece querer fazer demonstrar a todo o momento e com todo o tipo de provações aos quais estas personagens são sujeitas. Todos, sem excepção, encaram o casamento de um deles como um teste... Uma prova não só à sua amizade que, mesmo à distância, parecia estar incólume, como também exercem uma reflexão sobre os rumos que as suas vidas levaram e aquele que pode levar a partir destes aparentemente decisivos dias, como se de um "ou tudo ou nada" se tratasse.
Todos eles, sem excepção, procuram uma espécie de segunda oportunidade que julgam poder alcançar com o casamento bem sucedido de "Ray" mas, no entanto, este não está tão certo sobre se o quer celebrar, ao mesmo tempo que sabe não querer perder "Patricia", a única mulher que alguma vez amou, e é em torno das suas próprias experiências pessoais que toda uma nova vida para cada um deles é equacionada sabendo que, é nos seus amigos... naqueles amigos, que se encontra a resposta para todas as suas perguntas bem como o único porto seguro que alguma vez irão encontrar e alguém que sem os julgar terá sempre o conjunto certo de palavras para dizer.
Se todas estas personagens se compõem de uma forma geral e onde todos contribuem para o desenvolvimento uns dos outros, desde o amigo que casou mas não cresceu, passando por aquele que está prestes a fazê-lo e pensa demais no seu futuro e terminando naquele que possivelmente nunca o irá fazer e temos também presente aquele que sem estabelecer qualquer tipo de laços afectivos se concentrou numa dinâmica profissional que, na prática, nunca foi completada com sucesso e claro, as mulheres que suportam todos os caprichos e devaneios de adultos-criança num quase total silêncio vivendo elas infelizes para que eles nunca o sejam... temos assim um pouco de tudo. No entanto se isto é verdade, também não o deixa de ser que as interpretações de Tom Waits como o excêntrico "Monte" ou a tentadora Jamie Lee Curtis como a solicita "Grace" são meramente decorativas e pouco contribuem para uma trama que já fala e bem por si, e se por um lado Fiorentino e Webb encarnam a dupla "adulta" do elenco, com reflexões sentidas sobre a possibilidade de abdicar da sua própria felicidade em nome daquele dos homens que amam, não é menos verdade que Bacon, Mantegna, Malkovich e Olin compõem com os seus "comportamentos" um homem adulto no seu todo, ainda que com algumas infantilidades que são esquecidas à medida que o final de aproxima.
Assim, este Queens Logic, que supõe uma dinâmica bairrista da qual ninguém escapa por muito longe que se afaste do bairro de Nova-York, mais não é do que um "despertar" para uma idade adulta daqueles que na prática já o são, sendo bem sucedido na química e nas dinâmicas que são estabelecidas pelo conjunto de actores mas um pouco visto para os dias que hoje atravessamos. Vale pelo conjunto de actores que qualquer bomcinéfilo reconhece de inúmeras interpretações que tem visto ao longo dos anos mas não é aquele grande filme que poderíamos esperar deles ou, pelo menos, não o é para os nossos dias onde já vimos inúmeras histórias que versam sobre a mesma temática.
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6 / 10
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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Le Queloune (2008)

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O Palhaço de Patrick Boivin é uma simpática mas estranha curta-metragem canadiana onde graças aos poderes milagrosos da coca-cola misturada com aspirinas fazem os mortos regressar à vida.
É o que acontece com o mais famoso palhaço que depois de ser "baptizado" com a estranha bebida, regressa à vida para aterrorizar uma jovem inocente que vivia por ali perto.
Com pouco argumento que vá para além disto, restam-nos os simpáticos momentos de comédia que povoam esta curta-metragem que começam logo pela original forma dos mortos regressarem à vida e que passa pela ainda mais estranha forma com que este palhaço descobre que afinal gosta e tem apetite por carne humana ou até pelo momento em que este morto-vivo, talvez fruto do humor que em vida provocava, resolve ele próprio fazer uma operação cosmética-plástica para "melhorar" a sua aparência. Pessoalmente não sei o que será pior... imaginá-lo um palhaço zombie ou um morto-vivo "transformado".
A dar vida, literalmente falando, a este palhaço temos o actor francês Dominique Pinon, já ele próprio uma figura capaz de dar alma às mais bizarras personagens e que aqui volta a acertar numa, poderei dizer, icónica personagem que se percebe lhe estar mais do que indicada... está perfeita.
Sem grandes momentos de terror, centrando-se claramente mais na comédia, esta curta-metragem consegue destacar-se por alguns elementos originais que lhe dão uma certa vida e cor próprias, e por isso vale a pena ser vista mas, também é certo, que no final esperamos que ela pudesse ser de mais longa duração.
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6 / 10
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terça-feira, 31 de julho de 2012

Quarantine (2008)

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Quarentena de John Erick Dowdle é o remake norte-americano do filme espanhol [REC] de Jaume Balagueró e Paco Plaza, onde um grupo de indíviduos fica retido num prédio de Los Angeles depois de um misterioso surto epidémico infectar alguns dos seus habitantes.
Na mesma noite uma equipa de jornalista efectua uma reportagem sobre o trabalho nocturno de um conjunto de bombeiros que, numa chamada de emergência são levados àquele prédio e ali encerrados com os seus moradores. Sem saberem do perigo que os espera são ali todos encerrados naquela que será uma turbulenta e muito sangrenta noite.
Isto é o melhor e a mais correcta descrição que consigo fazer sobre este filme. O efeito surpresa em relação ao filme original já não é nenhum e sabemos perfeitamente quando vai acontecer o quê. A única diferença em relação em prédio em Barcelona centra-se precisamente no facto de aqui os moradores terem de pertencer quase obrigatoriamente a um conjunto variado de étnias e nacionalidades que retratem um universo variado de populações que povoam os Estados Unidos e fazendo assim com que a audiência nas salas de cinema possa ser um pouco mais alargada. Temos hispânicos, afro-americanos, europeus de leste e os de origem europeia nórdica dando assim um mosaico "perfeito" que vá agradar a gregos e a troianos.
O desenrolar do filme, para quem viu [REC] torna-se, em muitos momentos, bastante aborrecido. Temos os acontecimentos a decorrem ao mesmo ritmo, com os mesmos sustos apenas inovados com a presença de um cão que está tão infectado como a menina de Medeiros do filme original e que potencia um momento que poderia ser interessante mas que acaba abafado e sem qualquer interesse. Já sabemos como é o público norte-americano sempre sensível a excessos de violência que mostrem muito sangue... pelo menos para com alguns filmes.
No entanto, e a estragar em doses industriais o suposto suspense que este filme deveria ter, aqui os infectados são do mais mal pensados e caracterizados possível. Não só parecem em diversas ocasiões terem uma máscara colocada na cara em vez de uma caracterização que os torne realmente medonhos, como ainda por cima quando presos dentro de um apartamento parece que andam a saltitar por cima dos móveis como se de macaquitos charrados se tratassem. Enquanto que na história de Balagueró e Plaza os infectados metem realmente medo, aqui quase que damos por nós a rir com os berros histéricos que dão a fingir que nos querem meter medo.
O mesmo acontece com Jennifer Carpenter que nesse grande O Exorcismo de Emily Rose tanto impressionou mas que aqui mais parece uma amadora que não sabe para onde se virar. Muito sem sal e sem qualquer tipo de protagonismo como aquele alcançado por Manuela Velasco, não só Carpenter é abafada por um filme mau como todo o elenco não consegue ter uma interpretação que se consiga destacar em todo o filme.
Como uma clara vontade de se destacar da película espanhola este Quarentena não só não o consegue como acaba por repetir tudo aquilo que já vimos, mostrando assim que só existe para tentar criar um filme tão rentável nos Estados Unidos como o [REC] havia sido em Espanha, perdendo não só toda a originalidade como o suspense e o efeito surpresa.
É, em suma, um filme que nos distrai mas que não tem qualquer interesse.
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3 / 10
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