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sexta-feira, 22 de março de 2024

The Sky (2020)

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The Sky de Matt Sears (Reino Unido) revela uma estranha atmosfera onde duas amigas, Ellie (Chloe Fox) e Victoria (Charlotte Christof) falam sobre um aparente momento final. Quando tudo parece encaminhado eis que Ellie se questiona se terá a seu lado a melhor companhia para um aparente fim.
Num cenário que inicialmente remete o espectador para um qualquer final de tarde no qual duas amigas celebram a sua amizade, o argumento desta curta-metragem - cuja autoria é de Ryan Grundy - explora, afinal, aquilo que poderá ser sim o final de tudo e não só daquela específica tarde. As experiências das duas adolescentes são colocadas à prova com um inocente jogo onde se confessa o inconfessável ou se tentam descobrir pequenos segredos nunca antes revelados. No entanto, é quando se perde a noção do limite, eventualmente inexistente neste aparente fim, que "Ellie" percebe que provavelmente aquele não é o melhor local (ou companhia) para ela uma vez que neste "fim" o que importa é atravessá-lo com alguém que tenha realmente algum significado para ela. Mas... será a mãe que a espera a sua melhor testemunha neste fim inevitável? Existirá entre elas alguma relação que justifique uma última preocupação?
Lentamente através das estranhas manifestações celestiais que "espreitam" ao fundo, o espectador compreende que este final não é o de uma relação familiar ou de amizade. Que não é o final de uma  qualquer relação amorosa mas sim o fim de tudo tal como o conhecemos. Mais, este fim chega pela aparentemente inevitável destruição de tudo. Não compreendendo qual o fenómeno que nos aguarda . talvez nem o testemunhemos nós -, The Sky pondera a escolha para o "nosso" fim. Qual será esse final "perfeito" perante a inevitabilidade de tudo incluindo o certo desaparecimento e esquecimento de que alguma vez "nós" fizemos parte de uma certa realidade! Esperar um "fim" quando nada mais existirá para lá do mesmo... existirá algum tipo de "final feliz" capaz de nos recordar para lá de "nós"? Qual será o apaziguamento de uma consciência individual ou colectiva quando "depois" nada mais irá existir?
Todas estas questões poderiam ter uma única explicação que se prende única e exclusivamente com a necessidade de "partir" mais tranquilamente sem que esse dito fim seja vivido com uma expectativa e tormento que o marquem como um acontecimento mau. Todos sabem que o será mas até que ponto isso é importante quando se compreende também que nada mais existirá "para lá" da realidade como o fora até então?
The Sky tem todo um conjunto de questões existenciais que são, em certa medida, interessantes e dignas de uma reflexão sobre o "fim" (assuma ele que forma assumir) mas, no entanto, a construção desta curta-metragem falha no momento em que mais de metade da sua narrativa se perde na exploração da relação entre as duas protagonistas que nunca aparenta querer ser concretizada. Compreendemos que são amigas e que podem ser até as maiores confidentes mas, no entanto, para lá de não quererem estar sozinhas neste fim que se aproxima, falha ao espectador uma dramatização convincente dos seus medos que, sejamos realistas, estariam na mente de todos e não seria levado com tanta ligeireza como aqui o aparenta ficando apenas por celebrar a atmosfera envolvente que é dinâmica e bem construída para o género "fim do mundo" mas que não se concretiza no seu todo por não conseguir consolidar, e convencer, na relação entre as duas jovens actrizes.
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6 / 10
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quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Super Mario: Underworld (2016)

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Super Mario: Underworld de Andrew McMurry (EUA) recupera o universo dos jogos de consola para uma curta-metragem onde se explora uma inesperada mas interessante premissa... o que acontece a Mario quando falha uma das suas missões?
McMurry, um claro apaixonado de videojogos basta pensarmos no conjunto das curtas-metragens que já realizou, cria uma inteligente obra na medida em que encontra um universo ainda não explorado... se considerarmos que todas as personagens criadas e filmadas têm uma "vida" própria, porque não questionar o que poderá acontecer a todas aquelas que, falhando nas missões dessa sua vida, encontram o "além" sob uma perspectiva que ainda não a havíamos visto? Será que o "Super Mario" resiste para lá daquilo que conhecemos? Existirá uma vida para lá da morte para esta carismática personagem de animação? Mas que tipo de vida? Ou, neste perspectiva, que tipo de morte o espera quando falha as suas missões? A resposta, que McMurry nos dá, é simples... existe... e não é bonita nem cheia de floreados como o jogo e a longa-metragem já nos havia presenteado.
Para McMurry o além de "Mario" - aquele dos vários "Marios" que por todo o mundo falharam as suas missões - é negro e cheio de problemas e zombies. Todos os "Marios" do mundo esperam sob a forma de zombie aquele que, tal como eles, não irá resistir à missão seguinte... encontrando no mundo alternativo (do seu mundo alternativo) um purgatório que é, por si só, uma missão perigosa considerando que todos os demais iguais a ele o esperam... para o perseguir e devorar. Incluindo o seu fiel amigo "Luigi".
Francamente inteligente e honestamente inovadora e perspicaz na abordagem que faz da vida para além da vida nesta que é o mundo e o imaginário das personagens dos video-jogos, Super Mario: Underworld assume-se como o verdadeiro salve-se quem puder conferindo a esta enigmática e carismática personagem uma nova fronteira que é quebrada e apenas "falhando" na limitação temporal que esta curta-metragem tem e que, mais duradoura, poderia ser transformada numa longa-metragem de género referência para os amantes da franquia e do género cinematográfico em questão.
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6 / 10
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sexta-feira, 10 de julho de 2020

Soccer Boys (2018)

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Soccer Boys de Carlos Guilherme Vogel (Brasil) é uma das curtas-metragens presentes na secção competitiva oficial na área de Documentário que aqui faz uma breve apresentação da primeira equipa de futebol do Rio de Janeiro cujos jogadores são exclusivamente homossexuais.
Numa altura em que o debate sobre a representatividade das minorias nas mais diversas áreas da sociedade está em cima da mesa, esta curta-metragem surge como uma ligeira e introdutória abordagem à questão de sexualidade e da sua expressão em actividades que são, ainda hoje, consideradas tabu como o é, neste caso, o desporto e o futebol mais concretamente.
Quase que "deslocados" do futebol enquanto desporto por um certo sentimento de falta de pertença originado por uma "heteronormatividade" que o mesmo "impõe", este grupo de homens fundou e participa na primeira equipa do "desporto rei", o Bees Cate Soccer Boys, podendo desta forma não só partilhar a paixão pela prática comum de um desporto, consciencializar a sociedade sobre problemáticas relativas à sexualidade e ainda debater esse estabelecido tabu tentando, dessa forma, desmistificar o eterno paradigma de homossexualidade versus futebol.
Com a fundação desta equipa, os membros do Bees Cate Soccer Boys criam, ao mesmo tempo, um esperado sentimento de pertença, de grupo e de inserção que, até então, não haviam sentido noutras actividades ou das quais haviam testemunhado na primeira mão a exclusão ou falta de representatividade. De algo que começou como uma paixão de grupo cedo se transformou numa "liga" de equipas com os mesmos princípios e fundamentos, livre e ausente de estigma ou preconceito possibilitando assim não só a "formação" da comunidade de uma forma geral como principalmente abrindo portas àqueles que sentem uma igual necessidade de se enquadrarem numa sociedade nem sempre fraterna.
Importante enquanto testemunho que quebra o tabu e possibilita o debate em torno do eterno, e já mencionado, paradigma, Soccer Boys assume-se como uma documentário ligeiro mas ao mesmo tempo intenso pela forma como apresenta a sua mensagem e relevante para os dias que hoje vivemos nunca esquecendo um factor humano - e humanizador - que expõe de forma clara questões que (pensamos) não existirem em sociedade.
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7 / 10
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segunda-feira, 18 de maio de 2020

Shift (2018)

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Shift de Brent S. Duncan (EUA) é uma das curtas-metragens na competição oficial do Trapped Film Festival dedicado ao cinema fantástico e de terror que, nesta trama da autoria do próprio realizador, transporta o espectador para uma viagem temporal em que Shane (Brandon Rumfelt) é o inesperado herói que vê a sua vida ser totalmente transformada pela chegada de um conjunto de misteriosos homens de negro.
A premissa da viagem temporal onde os factos passados podem ser alterados em nome de um futuro melhor - pelo menos para aquele que o tempo mudar -, ou aquelas em que o passado é reescrito ignorando todo um passado diferente daquele que conhecemos... já não é nova. A história tentada vezes sem conta tanto no formato longo como no curto com maior ou menor qualidade e empenho não é desconhecida do espectador mais atento que facilmente consegue encontrar não só as referências ao género como todo um conjunto de lugares comuns mais ou menos indispensáveis para que uma história deste género possa... "resultar". Mas... o que falha nas mesmas ou, mais concretamente, em Shift? A resposta a esta pergunta... é tão óbvia como as falhas que se prendem com a sua execução...
Não é estranho que a vontade de mostrar um passado - presente - futuro diferente daquele que conhecemos é um dos pontos "altos" do cinema. É tentado, é filmado... é escrito e reescrito vezes sem conta tentando até, em diversos momentos, expôr uma qualquer ligação e união entre estas histórias que transforme a ideia de futuro em algo mais apetecível, e quanto baste tranquilo, para aqueles que de nós lá chegarmos. Mas... como em tudo na vida há um "mas"... estas histórias tendem tradicionalmente a cair no mesmo conjunto de erros. Quando não é um argumento mais falível é um conjunto de interpretações menos dinâmicos e, quando estas lá aguentam a pressão de um esperado argumento mais intenso eis que surgem a banda-sonora apocalíptica que lança tudo e todos (espectadores incluídos) numa correria sem fim incapaz de prestar atenção aos detalhes que - se espera - sejam aqueles que ligam todos os pontos e que encontrem a coesão numa história que pode, por si só, falhar e transformar tudo numa simples anedota. Aqui nos encontramos em Shift...
Se esta curta-metragem é, no que a direcção diz respeito, uma história com alguma coerência que coloca o nosso protagonista numa espiral de enredos políticos até credíveis para o espectador sedento da trama política e internacional... eis que surge toda uma banda-sonora atípica e descoordenada que o lança numa correria tão grande como a do protagonista transformando tudo numa impossibilidade enquanto história onde as viagens temporais são uma constante. Se o argumento até pode ser apelativo... a sua transformação em imagem real repleta de alicerces desnecessários lança o caos do qual é impossível escapar.
Visualmente apelativo e tecnicamente bem construída e filmada, Shift acaba por encontrar no seu título um pouco da sua realidade... um turno incapaz de ser completo e uma história que tenta sobreviver pela sua premissa e não tanto pela sua coordenada execução onde os detalhes são importantes e os artifícios completamente desnecessários.
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4 / 10
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domingo, 30 de junho de 2019

San Andreas Mega Quake (2019)

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San Andreas Mega Quake de H. M. Coakley (EUA) relata a história ficcionada de um conjunto de cientistas que descobrem estar prestes a ocorrer na California o tal "Big One", um terremoto de grandes dimensões que irá lançar parte do território para o fundo do mar transformando o restante numa ilha separada do continente. No entanto, os seus estudos revelam que "despertando" um vulcão adormecido poderá ser a solução para desviar a energia provocada pelo terremoto evitando as suas devastadoras consequências.
Desengane-se o espectador que julga assistir a uma qualquer produção mais ou menos equilibrada dos tradicionais filmes-catástrofe que tão oportunamente povoam os nossos ecrãs revelando uma corrida sem fim à mais espectacular destruição do espaço, das infraestruturas e, claro, da própria vida humana. San Andreas Mega Quake é, para além de um filme que pretende ser do género, uma verdadeira ode ao desastre sim... mas àquele provocado com toda a amadora e mal executada produção desta longa-metragem que para lá dos lugares comuns que este tipo de cinema normalmente tende a criar é de verdade... uma catástrofe de proporções bíblicas ao mau gosto.
A longa-metragem de Coakley - claro fã do estilo que se propõe a filmar e do qual conhece todos os pequenos e habituais lugares comuns - e com argumento de Ryan Ebert e Geoff Meed (também eles conhecedores do género), é uma cópia fiel, barata e sem grande paixão de obras semelhantes que bateram records de bilheteira... aqui lançado (muito provavelmente) directamente para televisão e com um apurado gosto para tornar reais todos os momentos do mau gosto. Começamos pelo tradicional dilema da família destruída pelas agruras de uma vida profissional mal resolvida em que o casal - apaixonado mas impossibilitado de manter uma vida em comum porque um deles traiu o espírito do casal com a profissão - se mantém em lados opostos do que é "correcto" mas que o temido evento natural irá agora forçosamente aproximar não sem antes arruinar um novo potencial romance amoroso de um dos seus que... mais não é do que um flirt sexual ocasional e sem qualquer consequência real... Daqui passamos pelo afastamento da prole do casal - filha quase da mesma idade da mãe num igualmente pobre casting de actores que escolheu aqueles com melhor "aspecto" que fizesse o espectador esquecer que os textos não devem muito à inteligência -, que se debate com a sua potencial morte numa cidade arrasada não só pelos abalos sísmicos como também pelo drama de salvar alguém que "curiosamente" se encontrava num prédio em ruínas numa cidade agora deserta e claro... passando pelos (não tão) elaborados efeitos especiais que colocam o espectador a observar um helicóptero telecomando a passar por um real e militar com a credibilidade zero que qualquer um de nós confere aos modelos de aeromodelismo que encontramos num qualquer jardim das nossas cidades, aqui filmados como um elaborado efeito visual que esta pobre "obra" ousou criar. Daqui a um canhão capaz de provocar ondas de energia capazes de eliminar a dita gerada pelo sismo... é um pequeno passo que apenas uma mente fértil mas pouco inspirada conseguiria dar vida.
Os diálogos que oscilam entre a redenção familiar, as frases debitadas ao vento sem qualquer credibilidade sentimental que os laços familiares poderiam fazer adivinhar ou mesmo o desinteresse com que se atribui a (falta de...) alma às personagens, fazem de todo este filme uma experiência bizarra que lança o espectador num misto de incerteza sobre o facto de estar (ou não) apreensivo com as verdadeiras intensas dos criadores desta obra. Por momentos, e ainda que pareça trágica, o espectador dá por si a esperar que o "Big One" realmente ocorra e que todo aquele desastre acabe... de vez! Os dramas parecem não acabar e as ocorrências e eventualidades surgem literalmente ao virar da esquina onde, quando tudo parece estar prestes a terminar e, de repente, surge um último e elaborado salvamento que afinal resgata os protagonistas da sua iminente morte. Porquê ó Deus... porquê?!!!
San Andreas Mega Quake não falha na sua pretensão de criar um filme-catástrofe mas sim na capacidade de transformar o filme, e não o evento, na verdadeira tragédia. Não consegue o empenho de The Day After Tomorrow (2004), de 2012 (2009) ou tão pouco do recente How It Ends (2018), de David M. Rosenthal que mesmo sem muito revelar ao longo de toda a obra consegue, no entanto, expôr toda uma atmosfera de tensão que faz o espectador adivinhar que "do outro lado" pouco ou nada daquilo que conhecera ainda existe. Aqui, e correndo o risco de permanecer apenas mórbido, o espectador ri-se sim da desgraça... mas daquela provocada por todos os absurdos pouco comuns de alguém que atravessa uma tragédia... aquela em que este filme coloca não as suas personagens mas sim todo e qualquer um de nós que arrisca ver... "isto".
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segunda-feira, 29 de abril de 2019

A Sombra Interior (2018)

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A Sombra Interior de Diego Tafarel (Brasil) é uma das curtas-metragens presentes na Competição Internacional da décima edição do FICPI - Festival Internacional de Cine de Piélagos que decorre na Cantábria, em Espanha, até ao próximo dia 4 de Maio.
No Brasil rural uma criança (Rafael Schaefer) deseja a companhia de um pai (Frederico Vittola) relativamente ausente preocupado com o trabalho no campo. Insatisfeito com o seu afastamento, a jovem criança segue o pai onde faz uma devastadora descoberta para o seu imaginário.
O argumento da autoria do próprio realizador emerge o espectador na realidade de um Brasil rural... uma sociedade patriarcal onde a imagem de um pai forte e fisicamente musculado se confunde com o exercício de uma forma de poder que é implementado na mente de todos desde o seu nascimento. A principal forma de subsistência de todas estas personagens prende-se, portanto, com essa vida de campo onde o trabalho físico de sol a sol se impõe como uma realidade presente. Tendo esta noção de ordem e estratificação social em mente, as personagens desta curta-metragem correspondem, todas elas, as papéis sociais que delas esperamos... Uma mãe dona-de-casa, um pai que coordena o trabalho da fazenda tendo ao seu encargo diversos trabalhadores e uma criança que vê neste último a sua fonte de inspiração e à semelhança da qual quer definir a sua imagem. Mas, por outro lado, o que acontece à dinâmica afectiva?
Na profunda realidade de um país que está longe de ter o impacto dinâmico e cosmopolita das grandes metrópoles como o são Rio de Janeiro ou São Paulo, ou a força política de Brasília, ali o que define a realidade de todos e cada um é sim o quão fiéis estão para os já referidos papéis sociais. Nesta perspectiva, a esperada afectividade entre o casal e destes para com o seu filho limita-se à estritamente necessária para o seu inicial desenvolvimento deixando toda a demais aprendizagem ao "sabor" daquilo que se espera de um círculo fechado, conservador e onde não há tempo para o desenvolvimento emocional de ninguém. Mas, o que acontece quando algo se esconde para lá daquilo que os olhares mais distraídos não captam? Quem serão, na realidade, estas três pessoas que se constituem como família num local que parece ter sido abandonado pelo tempo?
Por um lado encontramos uma "Mãe" (interpretada por Carina Dias), apagada por uma vida que potencialmente não a representa mas que sustenta por uma qualquer conveniência que é alheia ao espectador. Distante do marido e do filho que parece acompanhar apenas pela inevitável consequência que a vida lhe proporcionou, o distanciamento deste último resulta - talvez a médio prazo - como o espelho de uma maternidade que não desejou. O "Filho" (Schaefer) é o resultado de uma família disfuncional e na qual parece ter sido largado como o resultado de algo que teria de acontecer mas que não fora necessariamente desejado por nenhum dos seus progenitores sendo, dessa forma, tudo aquilo que eventualmente consegue dinamizar para o seu bem e revendo-se no homem adulto que espontaneamente admira como um potencial "modelo" para a vida que o espera. O "Pai" (Vittola), por sua vez, é a representação dessa já referida sociedade patriarcal onde o "Homem" é a força de trabalho, o sustento de uma família, a força moral educadora dos mais novos mas, ao mesmo tempo, são as revelações proporcionadas ao seu jovem filho - e ao espectador - que demonstram que nem tudo é tão moralizador como aparentemente se desenha nem tão pouco a vida perfeita no sertão brasileiro é representativa de um qualquer idealismo moral que se faz anunciar.
Quando a jovem criança descobre que, afinal, o seu pai mantém uma relação extra-conjugal não com outra mulher mas sim com um dos seus funcionários com o qual desaparece nas quentes tardes brasileiras e se deixa levar pelos prazeres carnais que não consegue fazer cumprir com a sua mulher - e mãe do filho -, é o jovem de Schaefer que se ressente com o mais choque da sua vida... primeiro por compreender que o distanciamento sentido em casa entre os seus progenitores mais não é do que o resultado desta falta de afectividade e cumplicidade entre ambos, depois porque se assume como o eventual resultado de uma relação de conveniência e, finalmente, porque o único modelo de masculinidade que aparentava ter numa altura em que as suas próprias hormonas dão os primeiros sinais de vida, resulta como um sentido (por si) embuste que a partir daquele exacto momento não tem qualquer resultado prático enquanto educador por (o) ter presenciado num momento de maior fragilidade física e carnal. Todos os comportamentos entre pai e filho são, a partir desse momento, o resultado de um inevitável confronto do qual ambos sairão fragilizados como que duas vítimas de uma relação agora abalada e onde o respeito e admiração se esvaíram. A tragédia que daí resulta não é só esperada como inevitável e assumidamente transformadora de uma virilidade que agora... ninguém reconhece.
Intensa e até crua pela forma como espelha a desmistificação do papel social da família numa comunidade onde esta representa o pilar moral dos membros que a compõem, A Sombra Interior é, acima de tudo isso, o rosto de um segredo inconfessável que define não só todos aqueles que o vivem como sobretudo a forma como estes encaram o tal mundo (não tão) perfeito como anteriormente o assumiam. Com duas sólidas e interpretações de Schaefer e Vittola, esta curta-metragem brasileira assume-se como o rosto de um novo cinema brasileiro capaz de contar histórias que se situam longe das metrópoles mas igualmente importantes pela forma como desconstroem velhas noções de família, sexualidade, moral e papéis sociais sempre em constante transformação.
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quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Soldado Milhões (2018)

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Soldado Milhões de Gonçalo Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa (Portugal) presente na competição oficial da XXIVª edição dos Caminhos do Cinema Português a decorrer no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra chega como a obra que marca o centenário do final da Grande Guerra Mundial.
Aníbal Augusto Milhais é um dos muitos soldados portugueses que, em 1918, parte para a Flandres onde irá combater em La Lys. Em 1943, em Portugal prestes a ser alvo de mais uma homenagem, Milhais - agora Milhões - recorda os idos tempos quando, em 1918, se transformou num herói de guerra português.
Mário Botequilha e Jorge Paixão da Costa assinam o argumento desta longa-metragem num momento que, para lá de pertinente dado o centenário do final deste conflito revela, tal como então, uma época que se adivinhava de extremismos, nacionalismos e fundamentalismos numa Europa que ciclicamente se vê em convulsão. Mas, para lá do contexto histórico que estranha e ciclicamente se repete, é esta longa-metragem da dupla de realizadores que se tende a analisar. Num estilo muito próprio, e que nem é tanto sobre o conflito em si mas sobre a forma como um homem já distante do mesmo tende a sobreviver numa época em que o seu isolamento e prisão a uma imagem criada noutros tempos - e noutros contextos - o transformam psicologicamente num indivíduo diferente daquele que provavelmente imaginou ser.
Dividido em dois segmentos muito específicos - 1918 e 1943 onde, curiosamente, ambos se situam em períodos de dois conflitos mundiais -, Soldado Milhões apresenta primeiro um "Milhões" (Miguel Borges) perdido no seu tempo. Um homem que serve de coqueluche de um regime que pontualmente o apresenta como a imagem de um país heróico e oriundo de umas quaisquer cinzas onde, renascido, é utilizado para uma propaganda típica do sistema de então. Por outro, e como paralelo, encontramos "Milhais" - antes de ser "Milhões" - (João Arrais) como o jovem transformado em adulto graças ao conflito em que participa e ele, tal como todos os demais que o acompanham, homens antes do seu próprio tempo, são agora meras barreiras no avançar de uma ofensiva alemã que não parece poder ser travada. É então que o jovem (agora homem) por sorte ou mero acaso mais do que qualquer perícia, consegue sobreviver e eliminar um conjunto de soldados inimigos transformando-se assim no herói nacional do qual a História reza. Em 1918, tal como em 1943, este jovem/homem encontra-se condicionado a uma vida que não deseja e a um conjunto de obrigações que fazem dele mais um instrumento de uma qualquer agenda política do que propriamente o homem senhor de si próprio que vive (ou sobrevive) face às constantes provações alheias que são colocadas no seu caminho. Para lá de qualquer questão existencial levanta-se sim uma problemática moral... quem é "Milhões"? Ou, por outro lado, em quem se transformou "Milhais"?!
Se o argumento permite a interpretação desta problemática - por um lado analisar o homem e o seu tempo e, por outro, a instrumentalização de um acaso em favor de um regime -, são principalmente as interpretações desta longa-metragem que deixam uma certa curiosidade não só naquilo que foi construído como principalmente naquilo que elas poderiam ter sido com uma maior e mais dinâmica incursão nas mesmas... senão, vejamos... Encontramos um sempre intenso João Arrais enquanto protagonista mas a sua interpretação em Soldado Milhões limita-se a uma interpretação histórica da "lenda" e não tanto do jovem homem e de todos os seus dilemas e conflitos morais, afinal, lembremo-nos apenas na idade do mesmo para perceber que muitos deveriam ser os seus pensamentos, e o mesmo se adequa a todos os demais jovens actores como Isac Graça ou Tiago Teotónio Pereira cuja capacidade de dar cor às suas personagens está mais do que provada mas que aqui se limitam a ser breves secundários que, para o espectador, apenas salientam o óbvio... "Milhais" tinha os seus companheiros e amigos... algo não difícil de imaginar dadas as circunstâncias. De destacar, no entanto, encontramos Raimundo Cosme e o seu "Malha Vacas", a única potencialmente grande surpresa que esta longa-metragem entrega a nível de interpretações ao criar com o mesmo aquele que sofre o único e verdadeiro dilema moral, o que assiste não só ao desmoronar no do mundo "lá fora" como principalmente no seu pensamento que enfrenta e vê todo um conjunto de realidades que o seu Portugal nunca lhe permitira ousar pensar. Cosme faz do seu "Malha Vacas" um homem, inicialmente alegre mas no, e para o qual, tudo termina quando a realidade da guerra finalmente se faz mostrar. E tudo isto sem esquecer os demais secundários nos quais se destacam os nomes de Nuno Pardal, Ivo Canelas, Lúcia Moniz, Graciano Dias ou António Pedro Cerdeira que são quase "elementos decorativos" não deixando o argumento que as suas personagens pudessem ter um momento marcante nesta longa-metragem ou, pelo menos, que deixassem a sua real influência nos demais, na história ou mesmo no espectador.
Tecnicamente, quer a nível de som, caracterização, direcção artística e guarda-roupa, a longa-metragem da dupla Galvão Teles e Paixão da Costa é fiel não só ao género como à reconstituição de época que se espera - melhor nos anos do conflito do que propriamente na recriação do Portugal de '43 -, fazendo da mesma um interessante exemplar do género (tão raro no no nosso cinema independentemente das inúmeras histórias que poderão existir por contar) mas, ao mesmo tempo, não aquele que o espectador poderá recordar por muito tempo. Soldado Milhões tem todo o potencial e interesse histórico que uma história tão pouco contada da nossa História tem mas, ao mesmo tempo, esta longa-metragem é breve demais para que o espectador se deixe seduzir por ela por inteiro... Talvez pela dinâmica dos dois momentos temporais que poderiam até dar origem a duas longas-metragens e que, na realidade, não se enquadram na totalidade ou até pela forma como ambos são "colados" sem fazer real ligação entre ambos tenha sido o principal factor de não transformar este Soldado Milhões num verdadeiro milionário não deixando, no entanto, de ser uma obra importante no contexto de revisitação à nossa História... isso, por si só, já é alvo de um apontamento positivo para os realizadores.
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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Sombra Luminosa (2018)

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Sombra Luminosa de Francisco Queimadela e Mariana Caló (Portugal) é uma das curtas-metragens na secção competitiva dos Caminhos do Cinema Português e uma das obras experimentais presentes na mesma.
Através de uma sucessão de imagens de estatuetas tribais, a narração questiona(-se) sobre o papel que elas representa na questão de identidade de grupo demonstrando, através de digitalização das mesmas, o que se esconde por detrás da sua representação - e representatividade - revelando a imagem por detrás da "imagem" e fazendo desta última uma espécie de alter-ego que é, na realidade, a verdadeira essência desse "eu" representado.
Assim, através da construção de um património museológico digitalizado e esperado para a consulta de um público mais vasto, também como forma de criar uma identidade própria através daqueles que o procuram, Sombra Luminosa acaba por reflectir este processo de construção como parte da criação de um projecto identitário para dentro (na medida em que se torna de acesso público um acervo museológico) e para fora ao tornar disponível para esse mesmo público aquilo que fora outrora individual.
Ainda que com um conjunto interessante e pertinente de ideias sobre a identidade, é a sua execução enquanto projecto experimental que torna e transforma esta curta-metragem numa obra cinematográfica muito particular e de difícil proximidade para com o público que não consegue aderir à sucessão aleatória de imagens concentrando-se apenas na sua mensagem que, mesmo encontrando o seu espaço num mundo esvaziado de valores, nem sempre se torna cativante para o espectador de uma forma geral. Assim, e mesmo que actual... a sua mensagem dilui-se ao não conquistar um público mais vasto... se é que algum.
Pertinente apenas pela mensagem, esta curta-metragem esvai-se... tal como uma sombra... com pouca luz ou brilho próprio.
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sábado, 24 de novembro de 2018

O Segredo da Casa Fechada (2018)

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O Segredo da Casa Fechada de Teresa Garcia (Portugal) é a última das curtas-metragens apresentadas no Teatro Académico Gil Vicente no primeiro dia do Caminhos do Cinema Português, numa história onde, junto a um cais, duas irmãs observam as misteriosas luzes que todas as noites observam na casa abandonada em frente à sua. Existirão fantasmas que se manifestam naquela casa a querer comunicar com quem os observa?
Na pacatez de um qualquer meio marítimo que mais parece esquecido pelo tempo e pelas próprias pessoas que nele habitam, a vida deve-se apenas à imaginação de duas crianças cuja curiosidade não as faz ignorar os pequenos fenómenos que ocorrem mesmo "ali ao lado". "Ana" e "Matilde" transformam-se assim - graças ao argumento também escrito pela própria realizadora -, nas inesperadas aventureiras dentro de um mundo de adultos que parecem não existir. Serão elas os fantasmas, pergunta-se frequentemente o espectador que vai habitando neste limbo de incertezas apenas quebrados uma única vez quando se vislumbra um adulto capaz de responder às suas (e nossas) questões que se acumulam como todas as incertezas típicas de duas crianças cuja tutela... nunca se conhece.
A certa altura a realizadora transforma esta história num conto assombroso... dos vultos à potencial residência de criminosos que se escondem das mãos da lei passando pela simples imaginação que tantas vezes dá frutos para lá do esperado, não só a casa parece "respirar" e ter uma alma que tarda em se fazer notar como também a direcção de fotografia de Acácio de Almeida contribui para esta dinâmica de incertezas ao dar relevo às sombras e às luzes dispersas de uma casa que... ninguém sabe o que esconde.
Cativante pela dinâmica de incertezas que consegue criar desde cedo, a curta-metragem de Teresa Garcia perde-se um pouco pela lenta exposição de uma história que poderia ter sido resolvida mais cedo ou, por outro lado, dar origem a um conto mais extenso onde os fenómenos pudessem ser explorados, mistificados e até mesmo desvendados na medida da manutenção da incerteza - palavra-chave deste conto - da vida para lá da vida. Desconhecedor do que se passa numa história que vive da dinâmica das duas irmãs com o espaço, é o próprio que se manifesta como um elemento fundamental desta dinamização obrigando esse espectador a recordar a sua própria infância e equacionar todos os pequenos grandes locais que lhe pareciam (então) como detentores de mistérios nunca decifrados. No entanto, nada como um bom mistério... mas um que aqui se pudesse desvendar para lá do óbvio que todos os filmes do género frequentemente apresentam... já o observámos em Los Otros (2001), de Alejandro Amenábar e aí a surpresa resultou na perfeição... O Segredo da Casa Fechada demonstra esse potencial nunca chegando, no entanto, a concretizá-lo.
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sexta-feira, 16 de novembro de 2018

The Sisters Brothers (2018)

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Os Irmãos Sisters de Jacques Audiard (França/Espanha/Roménia/EUA/Bélgica) foi a longa-metragem escolhida para a sessão de abertura da décima-segunda edição do LEFFEST - Lisbon & Sintra Film Festival que decorre, na vila estremenha, no Centro Cultural Olga de Cadaval.
1850. Hermann Kermit Warm (Riz Ahmed) percorre o Oeste norte-americano do Oregon a San Francisco para aí se dedicar à prospecção de ouro. Nesta viagem, acompanhado por John Morris (Jake Gyllenhall), Warm é perseguido por Eli (John C. Reilly) e Charlie (Joaquin Phoenix), os reputados irmãos Sisters.
Se inicialmente esta viagem se apresenta como um relato de fuga e perseguição, é quando os quatro homens se confrontam e conhecem que finalmente se descobrem os dilemas morais com que cada um vive.
Thomas Bidegain e Jacques Audiard adaptam a obra de Patrick DeWitt revelando aqui, para o espectador, um não tão tradicional western ou, pelo menos, um que não se resume a uma eterna caça ao homem cujo propósito único e último é a vingança e a morte. Não, Audiard, mestre na arte de contar histórias trágicas nas quais se procura a redenção das suas personagens para com a vida e um auto-perdão num mundo para o qual parecem ter sonhos e esperanças nem sempre concretizáveis, encontra em The Sisters Brothers o seu mais recente veículo para a continuidade desta vertente da sua obra. No entanto, nem tudo permanece tão linear quanto inicialmente o espectador poderia pensar. Contrariamente ao que encontramos em Sur mes Lèvres (2001), De Battre mon Coeur s'est Arrêté (2005), Un Prophète (2009) ou mais recentemente com De Rouille et d'Os (2012), The Sisters Brothers apresenta sim essa redenção, também pela tragédia, mas esta não se manifesta necessariamente como o veículo condutor da história mas sim como um resultado ou consequência do destino das suas personagens. Por outras palavras, se as obras anteriormente mencionadas exibem um conjunto de personagens que se interligam pela sua aparente aptência para a desgraça, em The Sisters Brothers esta união existe entre, por exemplo, a dupla de irmãos pelos seus laços de protecção e afectividade bem como entre a personagem de Gyllenhall e de Ahmed como o resultado da compreensão de que o mundo pode, de facto, ser diferente se naquele preciso momento em que o pensam encontram a solução comum para os seus destinos não se deixando consumir pela sede de uma qualquer vingança.
Não é desconhecido do espectador desde cedo que o passado dos irmãos Sisters os moldou para esse futuro que agora vivem. No entanto, a dinâmica dos dois irmãos é não só cúmplice como inesperadamente pertença de um registo cómico que os entrega ao espectador de forma cativante e até mesmo familiar, revelando que estes dois traçaram desde cedo um caminho do qual aparentam não querer distanciar-se... até se cruzarem com a dinâmica de "Warm", um homem que afirma ser possível um mundo diferente... para si... para eles. É com esta possibilidade e com as oportunidades que a própria hipótese levanta, que não só o seu passado parece ser, não direi branqueado mas pelo menos amenizado, transformando a continuidade dos seus destinos numa aparente miragem... Afinal, não será bom provar o outro lado do crime? Encontrar uma tranquilidade que nunca conheceram? É neste constante crescente que o espectador observa a respeito das suas personagens e na dinâmica de influência do passado sobre a situação em que se encontram que o espectador lentamente reconhece e observa a transformação. Primeiro adversos à mesma e finalmente receptivos à mera possibilidade, toda a primeira metade desta história se insere num registo de descoberta e comédia (mesmo que ligeira) que colocam o espectador numa posição de simpatia para com os dois irmãos cúmplices e parceiros mas que, ao mesmo tempo, se encontram nos antípodas do desenvolvimento emocional um do outro. Se "Eli" se revela como aquele disposto a aceitar outra hipótese de vida - incerto de onde e como concretizá-lo -, é a fiel "obediência" ao laço de fraternidade que tem tornado impossível essa vontade. E se "Charlie" se revela como o moralmente mais adverso à mesma, é aquele que sai mais transformado quando compreende que esse novo rumo é possível mesmo que fruto de um acto bárbaro... tido pelas suas próprias mãos.
Nesta medida, Ahmed e o seu "Warm" é esse factor motor da mudança. É a certeza que a sua voz tranquila transmite que deixa a dupla de irmãos instável no seu discernimento... e se foi a ganância que os juntou ("Sisters" e "Warm"), foi a tragédia que os fez compreender que um novo rumo seria possível desde que encontrassem forma de se render ao seu passado... este pode transformá-los... mas será apenas a aceitação do que se passou, a fórmula para o descanso - físico e mental - fosse alcançado... num momento que facilmente poderia ser equiparado à rendição de "Kane" para com o seu "Rosebud" de Citizen Kane (1941), de Orson Welles. O passado pode limitá-los... até ao momento em que decidem aceitá-lo como aquilo que ele é... passado.
Com os tradicionais elementos que caracterizam o género em questão, The Sisters Brothers é um inesperado western sentimental e fraterno sobre a hipótese de um novo futuro onde encontramos as áridas planícies, os elementos de vingança, as cidades perdidas de um interior e ainda despovoado Oeste americano - que, na realidade, nem se encontra na área geográfica em questão - e toda uma componente técnica que passa do guarda-roupa à direcção artística e caracterização que facilmente nos remetem para o desejado imaginário. Mas, se tecnicamente The Sisters Brothers está irrepreensível (e não se poderia esperar algo diferente aos mãos de Audiard) são, no entanto, as interpretações que dão uma esperada cor a uma história que poderia estar apenas tingida pelo vermelho de vingança... de um John C. Reilly como a força moral de uma história que nunca perde o seu fio condutor a um Joaquin Phoenix como a chamada "wild card" onde reina a sua instabilidade psicológica e o desejo de uma vingança sistemática para com tudo o que o rodeia que contrastam - ou encontram os seus pares - com a inteligência moral que as interpretações de Ahmed e Gyllenhall fazem transparecer, entregando a esta história uma permanente duplicidade que resulta como o esperado equilíbrio que "cola" esta longa-metragem, os destinos das suas personagens e que resulta não num fim feliz para todos - afinal, nunca o é no verdadeiro western -, mas sim na possibilidade que aqueles que viveram nas margens encontraram para, finalmente, terem o seu descanso.
Potencialmente diferente do western tradicional reinando - aqui - uma subtil comédia de ocasião, The Sisters Brothers sai vencedor ao revelar a hipótese das oportunidades que se "agarram" como também pela forma como transmite ao espectador a capacidade da esperança surgir mesmo no meio de uma tragédia sem limites... ou como para "eu" encontrar o meu caminho tenho de primeiro eliminar todos os obstáculos... mesmo aqueles que mo revelaram... no final permanece aquele frase popularizada com The Wizard of Oz (1940), de Victor Fleming... there's no place like home...
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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Sewing Borders (2018)

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Sewing Borders de Mohamad Hafada (Líbano) presente na secção Panorama Special Focus dedicada à temática das migrações da vigésima-segunda edição do Queer Lisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre no Cinema São Jorge até ao próximo dia 22 de Setembro, é uma curta-metragem centrada na região do Médio Oriente - mais concretamente na cidade de Beirute - e nas diferentes "fronteiras" do território quer sejam elas sociais, culturais, políticas ou geográficas bem como sobre as decorrentes movimentações populacionais decorrentes ao longo das últimas décadas.
Partindo de uma simples premissa, Sewing Borders possibilita ao seus protagonistas nunca devidamente identificados, a oportunidade de, através de uma mapa da capital libanesa, poder estabelecer as suas fronteiras (ou aquelas que o seu imaginário permite), da cidade tal como dela se recordam. Dispersos ao longo das décadas por diversos locais que passaram por campos de refugiados na Síria ou na Turquia devidas às guerras civis e instabilidade sentida no país, estes entrevistados recuperam a "sua" cidade de Beirute, os locais que frequentavam então e aqueles espaços onde as suas casas se encontravam. Numa recuperação já perdida da memória histórica da cidade, Sewing Borders possibilita aos intervenientes através das suas capacidades e conhecimentos de costura, criar as suas fronteiras internas numa reflexão sobre o tempo e a História assim como sobre as suas memórias individuais.
Sem nunca conhecer quem está a narrar os seus conhecimentos da História, esta curta-metragem libanesa tem, como sua personagem principal, diferentes mapas da cidade, do país e da região sujeitas a uma "intervenção cirúrgica" por parte de uma máquina de costura que estabelece os seus limites. Num irónico e inesperado paralelismo com a realidade, o espectador consciencializa-se da comparação entre a realidade Histórica e aquela com que o realizador prestou ao título da sua obra ao estabelecer que tanto estas como as fronteiras reais mais não foram do que meros acasos estabelecidos por aqueles que, sentados à mesa com os mapas de então, resolveram dividir territórios, povos, espaços e uma mesma comum cultura.
Ainda que com todo um potencial maior por explorar, mas sempre acompanhada da memória oralizada e de alguns documentos históricos, Sewing Borders encontra uma forma simples mas eficaz de se expôr enquanto representação fílmica de um contexto histórico tantas vezes explorado e tão poucas vezes (tentado ser) compreendido.
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6 / 10
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quarta-feira, 13 de junho de 2018

Sand & Blood (2017)

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Sand & Blood de Matthias Krepp e Angelika Spangel (Áustria/Iraque/Síria) é um dos documentários presente na competição oficial pelo Lince de Ouro do FEST - New Directors New Films Festival a decorrer em Espinho a partir da próxima semana.
Este documentário é elaborado com um conjunto de testemunhos de cidadãos sírios e iraquianos presentes em campos de refugiados na Áustria - nunca identificados -, enquanto o espectador visiona, ao mesmo tempo, imagens dos seus países após a ocupação americana do Iraque em 2003 e demais consequências desse acto.
De forma lúcida e acutilante, todos eles reflectem sobre o passado vivido, sobre a sua juventude perdida face às guerras pelas quais os seus países atravessaram e ainda a possibilidade (ou inexistência) de um conjunto de sonhos porvir.
Dividido entre três capítulos e um epílogo, Sand & Blood inicia o seu relato com o segmento Saddam's Long Shadow onde se reflecte sobre a vida antes e depois da regência de Saddam Hussein e de todas as transformações provenientes com a invasão norte-americana do território considerado como o princípio do fim. Invadido que estava o país e dividida a sua população entre aqueles que ansiavam a esperança de uma liberdade desconhecida e os que viam nesta nova forma de vida o fim de uma aparente "tranquilidade" vivida, este segmento é marcado - e recebe o seu título - pelas palavras do ditador sobre o país posterior à sua governação... apenas restaria sangue... e areia. De destaque ainda o surgimento dos primeiros movimentos extremistas, incluindo terroristas, que se fixaram inclusive com o apoio de uma parte da população descontente com a ocupação estrangeira.
O segundo capítulo, God Syria Freedom, refere-se tal como o próprio título indica, na Síria, e tem o seu início em 2011 quando os movimentos emergentes da Primavera Árabe deram lugar a um conflito civil que se alastra até aos nossos dias deixando várias cidades do país completamente destruídas e obrigando a população a uma fuga em massa.
O terceiro e quarto capítulos intitulados The War of Sects e The Path of Jihad referem-se directamente às constantes lutas de poder entre as várias etnias e principalmente entre os diversos grupos terroristas que têm vindo a ocupar as cidades que conquistam em ambos os países - ultimamente menos no Iraque -, evidenciando também as acções de todas as "facções" no recrutamento desde cedo das crianças que endoutrinam nas diversas ideologias de forma a que se sinta sempre presente a constante divisão e a existência de dois "lados" criando, dessa forma, ódios, distanciamentos e a separação daqueles que anteriormente eram considerados amigos ou até mesmo família deixando inclusive, uma forte instabilidade na sociedade, na estrutura das comunidades e ainda na parca formação política que poderá existir.
Finalmente no Epílogo ou Paradise que fica marcado, ainda que por parcas palavras, uma vontade extrema de uma outra vida. Uma em que a família está próxima e não em territórios, ou até mesmo países, distantes. Uma vida em que a juventude pudesse ser vivida como tal e na compreensão de que chegam a um país diferente, num continente diferente com uma população habituada a escutar aquilo que as suas cidades hoje representam e que a imagem criada sobre eles - refugiados - pode não lhes ser totalmente benéfica.
A emotividade de Sand & Blood chega não tanto pelos relatos desencantados destes refugiados que, compreensivelmente, nunca revelam os seus rostos, mas sim pelas imagens não editadas de todo um descalabro de um país e de uma sociedade que saiu forçadamente de um processo de regime ditatorial para um em que os movimentos extremistas se revelaram uma força dominante no mesmo, ou seja, em vez da ditadura de "um" que todos consideravam perigosa encontramos agora a ditadura de "todos" (não uma anarquia mas sim resultante da proliferação dos diversos grupos extremistas que agora co-habitam o país) que foi instaurada como fruto da desordem provocada pela invasão norte-americana (no Iraque) e pela vontade de uma liberdade fruto da Primavera Árabe (na Síria), totalmente desvirtualizada quando deixada nas mãos daqueles que procuram um controlo tão ou mais bárbaro do que os ditadores que ocupam - ou ocupavam - o poder há várias décadas. É através destas imagens que compreendemos toda a decadência de um país e, principalmente, de um povo que se deixou levar pelas boas intenções de uma esperança em liberdade mas que caiu nas malhas de uma perigosa rede sedenta de poder que destruiu todas as suas ambições levando-lhes os seus pertences, essa mesma esperança e sobretudo os seus sonhos e muitos dos seus entes mais próximos. Aí, nesse brevíssimo epílogo residem as verdadeiras emoções de histórias de vidas reais que tudo revelam por poucas palavras que, no entanto, o espectador desejaria ter visto ainda mais exploradas apesar de todo o "acompanhamento" na primeira pessoa ao longo de todo o documentário.
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8 / 10
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terça-feira, 5 de junho de 2018

Survive (2016)

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Survive de Richard Rowden (Reino Unido) é uma curta-metragem que recupera - uma vez mais - o género de filme pós-fim do mundo no qual a Humanidade tal como a conhecemos deixara de existir.
Num espaço temporal em que a persistência de uma guerra mantém a escassez dos recursos, Zach (Rowden) e Talib (Chuku Modu), procuram a improvável liberdade numa fuga que parece não ter fim. Resistirá o Homem ou as Máquinas que controlam os indefesos?
Ainda que um género que seduza de imediato o espectador que aprecia o tipo de histórias em que a Humanidade é colocada à prova primeiro face aos seus medos e depois forçada a abraçar o seu semelhante como forma última de uma sobrevivência que parece amaldiçoada, Survive encontra a essência de um universo apocaliptico nas montanhas e nas planícies britânicas para, com o recurso a alguns efeitos especiais visuais e sonoros recriar a ideia de que o mundo "lá fora" está a milhas de distâncias daquilo que qualquer um de nós - deles - alguma vez conhecera.
Intrigante pelo seu majestoso cenário natural capaz de rivalizar com qualquer um fabricado para dar o pontapé de saída a uma qualquer história deste género, a curta-metragem de Richard Rowden perde-se, a seu tempo, num certo misticismo bíblico de fim dos tempos que persuade o espectador a acompanhá-lo numa viagem sem aparente destino deixando, no entanto, muito por cumprir daquilo que havia anunciado. É claro, para o espectador, que nos encontramos numa dessas histórias sobre o já anunciado fim dos tempos mas, ao mesmo tempo, fica incerto o destino que o realizador quis apresentar com Survive deixando ao seu público a certeza de que as suas intenções de retratar esse apocalipse se encontram lá mas sem grandes ambições de revelar o estado ou os efeitos do mundo tal como é neste espaço físico e temporal.
Dinâmico para o género e com um interessante trabalho de fotografia da autoria de Yannick Hausler e da equipa de efeitos especiais, Survive apenas se fragiliza na vontade de uma história sobre um qualquer fim bíblico que, na prática, depois não se concretiza.
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6 / 10
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segunda-feira, 4 de junho de 2018

State Zero (2015)

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State Zero de Andrée Wallin (Suécia) é uma curta-metragem de suspense centrada numa Estocolmo pós-apocalipse deserta e abandonada entregue a uma vegetação que ocupa a cidade a um ritmo galopante. No entanto, estará a cidade realmente desabitada ou, por sua vez, algo se esconde nas sombras?
A curta-metragem escrita e dirigida por Andrée Wallin tem a qualidade de se inserir num género nem sempre fácil e onde os mais elaborados trabalhos podem (ocasionalmente) resultar num conjunto de lugares comuns já conhecidos pelo espectador contribuindo, dessa forma, para uma saturação do género que, no entanto, aqui não se verifica. Daquilo que é um momento inicial muito próximo ao de 28 Days Later... (2002), de Danny Boyle passando por um ritmo ao estilo de I Am Legend (2007), de Francis Lawrence, State Zero consegue recuperar o melhor das duas obras inserindo-o em quinze minutos intensos e comprometidos não só com a respectiva homenagem do género como principalmente na garantia de bom entretenimento para com o espectador.
O argumento de State Zero entrega um pouco de tudo desde a suspeita de experiência médica que corre mal à cidade deserta onde os efeitos de uma imparável Mãe-Natureza não se fazem esperar, sem esquecer a tradicional missão militar que acaba por revelar o início (ou a presença) de algo desconhecido até então e claro... a (não tão) leve confirmação de que isto é apenas uma ligeira introdução para algo maior que se faz anunciar (talvez também nas sombras) e que poderá explicar tudo aquilo que ficou para trás num mundo que era bem diferente do que aquele agora apresentado em State Zero... talvez uma tradução literal faça justiça àquilo que nos espera num Estado agora iniciado a partir do zero...
Intenso, bem construído nos seus efeitos especiais e capaz de denotar todo um trabalho de caracterização ao nível de grandes produções de Hollywood - bastará para sua explicação toda a demais obra do realizador -, State Zero prima principalmente pela vontade que deixa no espectador em que a tal "continuação" chega rapidamente não só sob a forma de uma outra curta-metragem que nos revele o que afinal aconteceu na capital nórdica mas também os porquês das experiências e as consequências que as mesmas tiveram no país e, quem sabe, em todo o demais continente global.
Surpreendentemente bem construída e com um ritmo frenético mesmo nos momentos em que a calma parece ser ameaçada por algo (ainda) desconhecido, State Zero é o exemplo perfeito de que menos pode sempre ser mais em obras deste género e que a capacidade de construção de uma boa história "obriga" (o realizador) a que chegue mais... e muito rapidamente. O espectador assim o exige.
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7 / 10
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domingo, 3 de junho de 2018

The Surface (2015)

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The Surface de Willem Kampenhout (EUA) é uma curta-metragem centrada num cenário pós-apocalíptico onde a Humanidade reside no subsolo escondida de uma nova espécie robótica que povoa o que restou das cidades como as conhecíamos.
Liz (Liz Christensen) tem de arriscar tanto a sua vida como a sua segurança para salvar a vida do filho, aventurando-se na superfície onde os monstros espreitam pelo mínimo deslize depois de terem forçado a Humanidade para os subterrâneos das antigas cidades.
Também autor do argumento, o realizador Willem Kampenhout cria uma história centrada num mundo diferente daquele que conhecemos não através da dinâmica humana onde a solidariedade e compreensão parecem cada vez mais escassas quer pela força do lucro quer pela escassez de bens essenciais que, na realidade, ninguém aparenta ter, mas sim pela percepção (do espectador) que o mundo tal como o conhecera já não existe. No entanto, as necessidades para uma constante sobrevivência... não cessam. É então que começa a aventura por um espaço (des)conhecido - dependendo se se é espectador ou personagem desta história -, lançando-se "Liz" - protagonista - numa perigosa viagem pelo mundo tal como fora tentando dessa forma encontrar uma forma de sobrevivência e subsistência para o seu filho que... precisa de uma diferente fonte de alimentação.
Nestas histórias o elemento predominante é que a Humanidade, ou o que dela resta, já não é aquilo que conhecemos. O mundo destruiu-se e a população teve de encontrar refúgio longe da pouca luz solar que ainda resiste e da sociedade tal como anteriormente a idealizara. No subsolo - parco em elementos que garantam essa sobrevivência - a sociedade é marginal, indiferente e indiferenciada e uma réstia daquilo que em tempos fora limitando-se cada um a conseguir ver o dia seguinte da melhor forma possível. A sobrevivência (a existir) é garantida então pelos poucos aventureiros que se lançam numa caminhada pela superfície habitada por aqueles que chamam de "monstros"... seres humanoides robotizados que se alimentam das mesmas baterias que alguns dos "humanos"... lá em baixo. Assim, e num universo onde todos aprenderam a temer-se e odiar-se, The Surface acaba por transformar-se num relato onde a sobrevivência se define nas margens da confiança (perdida) do antigamente, ou seja, até que ponto poderá existir um novo amanhã quando todos aprenderam (com os erros do passado), a temer a diferença e a outra espécie como a causadora do mal próprio quando, na realidade, todos haviam contribuído para o mal de alguém nesse antigamente agora tão distante.
Os mitos e lendas urbanas de um mundo destruído são assim a principal barreira para que a sociedade e a comunidade diversa e diversificada que habita os dois lados desta nova realidade possa dar o passo em frente para a sua própria regeneração, e apenas a extrema confiança no"outro" por parte daqueles que estão numa situação limite poderá ser esse momento transformador para todos. Apenas quando se compreende a "perda" como uma realidade, poderá esta confiança subsistir. Assim, e numa interessante e não tão bacoca analogia com o nosso presente, poderá o espectador compreender que as ânsias, receios, expectativas e vontade de sobreviver em todos os lugares de um mundo que já não é assim tão distante como se pensa, são idênticas e alimentam-se das mesmas necessidades. Para lá dos lugares comuns... será a vontade de viver tão diferente no local em que o espectador está daquela que outros no extremo oposto do mesmo mundo sente?
Para lá das diferenças é a necessidade de sobreviver e ver o novo amanhã que todos une. É a compreensão de que sózinho nunca se conseguirá sobreviver e que apenas na comunhão de esforços e na noção de que todos somos iguais independentemente das diferenças que o primeiro olhar expõe se obterá a reconstrução do espaço destruído (o que pressupõe futuramente a sua partilha), na qual este The Surface faz centrar a sua principal mensagem, impondo de forma ficcionada a noção de que as diferenças não são assim tão evidentes em espécies supostamente distintas revelando que entre Humanos e Humanoides... as necessidades de energia centram-se nos mesmos elementos.
Ainda que presente na dinâmica habitual das histórias do mesmo género, The Surface distingue-se por uma interessante dinâmica de espaço - urbano e cosmopolita -, e por uma bem sucedida caracterização dos actores que os embrenha na dinâmica de pós-apocalipse ou de um mundo perdido na própria imagem de um passado que já não existe.
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7 / 10
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terça-feira, 22 de maio de 2018

Simbiosis (2017)

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Simbiosis de Luisma Lostal (Espanha) é uma das mais intrigantes (pela negativa) experiências cinematográficas que tive nos últimos anos. Com o pretexto de observar (ter?) uma experiência sensorial, esta não tão breve quanto deveria curta-metragem baseia toda a sua dinâmica, única e exclusivamente, na observação de dois cavaleiros numa praia que cavalgam de um lado... para o outro.
Quer em câmara lenta ou numa dinâmica normal, com imagem mais ou menos desfocada, o espectador observa largos minutos desta divagação sem fim (ou nexo), na esperança de encontrar um qualquer tipo de luz ao fundo do túnel que, na realidade, nunca irá chegar. É no momento em que essa confirmação chega (durante o filme), que o mesmo se pergunta sobre a pertinência - académica ou não - de uma história sem história, de um fim sem argumento ou de uma acção sem motivação desta "conto" (atrevo-me a chamá-lo de... ainda que não o seja...), e do intuito de um realizador que parece perdido na experimentação e não na dinâmica de poder contar uma história que, de facto, o seja.
Se numa única palavra tivesse de descrever esta "experimentação" em formato de curta-metragem, ela seria apenas... vazio. O vazio.
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1 / 10
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quinta-feira, 17 de maio de 2018

Sin Titulo. Segundo Movimiento (2016)

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Sin Titulo. Segundo Movimiento de Ricardo Perea e Julio Lamaña (Espanha/Colômbia) é um breve documentário que recupera a importância da oralidade como parte indissociável da memória histórica. Num universo onde apenas os factos documentados parecem ganhar relevância como registo da História, que lugar permanece "disponível" para a oralidade enquanto "documento" dos factos que marcaram o passado?
Ricardo Perea e Julio Lamaña criam com este Sin Titulo. Segundo Movimiento um interessante registo sobre a importância da oralidade que, através de uma confirmação que passa pela comédia, pela tragédia ou até mesmo pelo inesperado, confirma o desejo de todos os que atravessaram a História, ou seja, a certeza de que o seu ser - mesmo que não presente - se mantém eternamente vivo pela certeza dos outros que confirmam a sua presença numa determinada época espaço-temporal.
A originalidade deste documentário curto chega, no entanto, pelo local em que foi gravado... um cemitério... o espaço onde todos se encontram depois de uma viva vivida e testemunhada por aqueles que nesse ido tempo presenciaram a vida dos que partilham, falando deles como parte integrante da sua própria existência e confirmando ainda a influência que estes exerceram no seu ser, verbalizando as suas últimas mensagens, palavras e, como tal as memórias que eles deixaram naqueles que ficaram e que hoje são parte integrante das suas recordações.
Relevante enquanto documento histórico sobre a importância da memória e da oralidade enquanto seu veículo transmissor, Sin Titulo. Segundo Movimiento sai como um filme determinante pela forma sempre emotiva com que são transmitidas as recordações desse vivido passado deixando o espectador com um inesperado desejo de poder saber mais daquelas vidas que o próprio desconhece mas que ali testemunha como sendo de alguém que, em tempos, lhe fora próximo.
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7 / 10
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sexta-feira, 27 de abril de 2018

Self Destructive Boys (2018)

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Self Destructive Boys de André Santos e Marco Leão é uma curta-metragem portuguesa de ficção da dupla de realizadores de Aula de Condução (2015) e Pedro (2016) presente na Competição Oficial da décima-quinta edição do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema Independente que decorre até ao próximo dia 6 de Maio em várias salas da cidade.
António (Miguel Cunha) Xavier (João Veloso) e Miguel (João Mota) são três jovens adultos na casa dos vinte anos com vidas banais e alguma necessidade de dinheiro. Cada um proveniente de um meio diferente optam por participar em filmes de pornografia homossexual. Se para uns é apenas mais uma forma de trabalho e para outros um teste à sua masculinidade, a realidade é que esta decisão modifica as suas noções sobre as suas próprias certezas.
Depois do drama hiper sexualizado Pedro (2016), a dupla André Santos e Marco Leão, também autores do argumento, regressa com uma história onde a sexualidade está novamente no centro da história mas aqui com doses de um humor descontraído que ameniza todas as grandes questões desta curta-metragem. Se em Pedro encontrávamos um jovem centrado nas suas escapadelas para alguns encontros homossexuais anónimos mantendo assim toda a sua imagem social "incólume", em Self Destructive Boys o trio de jovens reúne-se para aquilo que será a escapatória de uma vida ou sem dinheiro ou sem nada mais para fazer. Se os dois realizadores do porno gay - Victor Gonçalves e Nuno Nolasco - revelam desde cedo que o seu trabalho mais parece auto-satisfatório e uma forma de poder admirar os corpos despidos de jovens adultos a troco de algum dinheiro (sendo a sua própria parte - como cedo é revelado - bem compensatória para ambos), é no trio que encontramos algumas disparidades nas suas intenções. "António" e "Xavier" são a dupla descontraída... O primeiro encontrou a forma de ganhar algum dinheiro extra e o segundo uma forma de preencher os seus tempos mortos - sem esquecer o bom humor que em tudo coloca e, sexualidade à parte (até aqui), é na postura de "Miguel" que encontramos a maior incerteza, reticência e até mesmo um certo prazer escondido e por revelar para quem apenas ali estava para encontrar mais alguns "trocos" para comprar uma mota nova.
Mas... será só isso? Se os dois primeiros parecem algo despreocupados com o que estão predispostos a fazer e encaram tudo como "apenas mais um trabalho", é "Miguel" que se revela preocupado e temeroso sobre as consequências que podem surgir dali para o seu futuro. Afirmativo quanto às suas intenções monetárias e não sexuais, "Miguel" cedo se mostra um pouco mais entusiasmado com os seus propósitos, fugindo para não ter de enfrentar(-se?) as consequências de um aparente ou possível prazer e estímulo sexual.
Tudo num constante tom de humor, ainda que "realizadores" e "Miguel" sejam o centro mais sério deste enredo, é na dupla interpretada por Miguel Cunha e João Veloso que encontramos os desempenhos mais carismáticos desta história. "Habitués" actores - neste filme - de cinema porno gay, a descontracção entregue às suas personagens que tudo encaram como mais um "trabalhinho" que fazem para passar as horas mortas é desarmante transformando toda aquela dinâmica de uma história pseudo-dramática sobre os contornos nem sempre certos ou sérios de um conjunto de jovens adultos em busca de dinheiro, num hilariante e descontraído momento de tranquilidade de alguém que... tão depressa está prestes a fazer um filme pornográfico como, de repente, equacionam sobre onde podem ir comer um hamburguer num segmento de total banalidade cómica entre dois amigos que talvez até nem o sejam mas que se conhecem - literalmente - como se o fossem.
Descontraído e dotado de muito humor, este Self Destructive Boys revela um lado mais humorístico sobre a sexualidade explorada de forma mais séria e dramática pela dupla Santos e Leão em Pedro, conferindo às suas personagens uma ligeireza icónica revelando, ao mesmo tempo, um João Veloso como um jovem e interessante talento em ter em conta nos próximos anos sem esquecer de fazer com que o próprio espectador esqueça os supostos limites da sexualidade existentes entre três jovens adultos que, em toda a (sua) consciência, estão prestes a desafiar os seus próprios limites (se é que alguns), dar corpo aos seus desejos e vontades mas, sobretudo, perceber até onde é que estão dispostos a ir sem que a sua mente encontre os tais bloqueios que a sociedade poderá - em tempos - lhes ter colocado.
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8 / 10
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quarta-feira, 4 de abril de 2018

Sicilian Ghost Story (2017)

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O Fantasma da Sicília de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza é uma longa-metragem italiana que abriu a décima-primeira edição da Festa do Cinema Italiano a decorrer em Lisboa até ao próximo dia 12 de Abril no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Numa pequena localidade siciliana o jovem Giuseppe (Gaetano Fernandez) de treze anos desaparece. Luna (Julia Jedlikowska), uma colega de escola e sua apaixonada recusa aceitar o estranho silêncio que está em torno deste misterioso desaparecimento. Nunca se resignando com a situação e vivendo o desespero de um primeiro amor desaparecido, Luna deixa-se embrenhar numa aura de conto assombrado que a levará às profundezas da sua alma e da Sicília profunda onde nem tudo é como aparenta.
A dupla Grassadonia e Piazza que também escreveu o argumento deste filme a partir da obra de Marco Mancassola, cria uma história que une inúmeros elementos numa única obra... Do conto fantástico à obra de clássica sem esquecer a caracterização do meio e um relato da vida da ilha mediterrânica e até mesmo aquele de um romance anunciado, Sicilian Ghost Story é uma surpreendente história que cativa o espectador não só pela incerteza do seu desfecho como também pela própria capacidade de misturar géneros e pequenos elementos que o fazem supôr estar perante uma obra mística e, ao mesmo tempo, assombrosa.
Tudo começa com a imagem de uma vida aparentemente banal de duas crianças que, na pré-adolescência, descobrem o primeiro amor romântico muito ao estilo de um Romeu e Julieta shakespearianos incluindo a própria disputa familiar. No entanto, aqui não temos nem Montesquio's nem Capuletto's mas sim o panorama de uma Sicília adormecida pelas investidas da Mafia que cobra as suas dívidas quer seja com dinheiro ou até mesmo com as vidas humanas daqueles que interferem no seu caminho. Ao estilo de fábula mitológica - onde os animais têm toda uma muito própria simbologia -, Sicilian Ghost Story não se esquece de pequenos elementos dos contos Grimm entregando toda a dinâmica desta narrativa a espaços exímios como uma gruta (aqui "encorpadas" pela cave da casa de "Luna" como também pelo casebre em que "Giuseppe" está detido) e também à floresta, elemento fulcral das histórias dos irmãos germânicos e aqui centro de toda um conto que não cabe apenas à imaginação de um qualquer contador de histórias. A floresta, ponto de encontro entre os dois jovens, centro do seu desaparecimento e de igual rendição da jovem "Luna" que nela encontra não só a forma de expiar os seus pensamentos como também de forma primordial de voltar a encontrar o seu amor, acaba por se transformar num terceiro elemento "vivo" de uma história que anuncia um fim indesejado. A floresta é, aliás, o habitat que irá "prender" o jovem assim como aquele em que inicialmente o espectador compreende que ambos estão a ser observados e no qual encontram o seu primeiro "lobo" na imagem de um perigoso cão que, mais tarde na acção, irá revelar não tê-los encontrado... por acaso.
Mais, os dois jovens que experimentam por um breve período um amor que parece não ser desejado pela comunidade familiar, encontram nos mesmos os seus mais fortes opositores (na mãe de "Luna" e no pai de "Giuseppe"), que preferem proibir a relação, negar os acontecimentos e ocultar as falhas e as ausências em nome de uma tranquilidade que não só não vivem como toda a comunidade sente involuntariamente ameaçada quando se percebe (no silêncio) que tudo pode voltar a acontecer... a qualquer um. Mas, como todos os amores proibidos, também o de "Luna" e de "Giuseppe" irá resistir contra as adversidades e mesmo não tendo o final esperado - para o espectador -, existe sempre a certeza de que perdura algo na sua memória (e daqueles que lhe sobrevivem) a certeza de que o seu mundo, ou a imagem de que dele tinham, irá ser radicalmente diferente do que aquela tida antes do seu universo ser danificado.
Sem nunca revelar nada dos seus pequenos mundos - conto, mitologia, realidade e mesmo romance - Sicilian Ghost Story consegue cativar pela mescla destes ambientes e a dupla Grassadonia e Piazza nunca declaram abertamente qual o estilo em que esta se pretende inserir deixando ao espectador a liberdade de se identificar com esta história através de qualquer uma destas realidades. Existirão aqueles que olham para esta história como uma história de amor não cumprido (tal como a já referida obra de Shakespeare), outros que a irão acompanhar como um relato escondido de uma realidade siciliana aqui vivida pela experiência de duas crianças que, no fundo, chegam à idade adulta cedo demais (ou talvez não), e outros ainda que se irão concentrar na simbologia, mitologia e dinâmica de conto popular presente ao longo deste conto moderno.
Sicilian Ghost Story é assim uma experiência vivida de diversas formas independentes apenas adequadas à realidade de cada um dos seus espectadores. No entanto, a realidade escondida por detrás de todas estas vertentes é apenas uma... a história de uma perda onde todos os intervenientes são vítimas de uma vida colhida por uma realidade criminal longe de ser extinta... A histórias de dois jovens que não podem ver o seu primeiro amor cumprido, de pais incapazes de amar uma filha e de outros que não podem chorar e fazer o luto dos seus abertamente sem esquecer que o suposto lado "correcto" da lei está, também ele, preso a dilemas e dicotomias de poder que os impedem de fazer o tal braço da lei agir em conformidade com as situações mantendo-se, de uma forma geral, como um mero fantoche de uma realidade que os ultrapassa. Mas, se todos estes elementos cativam o espectador que olha para esta longa-metragem como um objecto artístico diferente do normal - na medida em que todos estes elementos não estão, regra geral, uniformizados numa única história -, é toda a sua vertente mística que acaba por prevalecer. De um lado temos todo o ambiente negro dessa suposta passagem para a adolescência incorporada por um elemento natural (a floresta), que poderia representar o seu amor proibido (pela forma como se apresenta assustadora) mas, no entanto, cedo o espectador irá perceber que este é um símbolo sim, mas da interrupção desse amor (realidade) na medida em que toda a sua convivência está a ser observada e ameaçada por elementos exteriores e muito maiores do que aquilo que eles poderiam suspeitar. Assim, é toda esta atmosfera natural, na qual se inserem os próprios animais... o cão como um lobo predador ou mocho como o símbolo de uma revelação intelectual superior..., que se destaca em Sicilian Ghost Story... uma história siciliana (de facto) onde os fantasmas são representados pelos medos, pelas incertezas e pelos silêncios que perduram e persistem nas vidas de uma comunidade que não ousa passar para lá de um limite que lhes fora imposto mantendo-se subserviente a uma realidade que está instalada e da qual se ousa obter uma liberdade apenas em pensamento... e mesmo esse, pode trazer os seus riscos.
Com uma fenomenal direcção de fotografia de Luca Bigazzi - nomeada ao David da Academia Italiana de Cinema -, Sicilian Ghost Story poderá facilmente ser o mais bem sucedido representante de conto gótico moderno que se afirma pelas suas sombras, inuendos e contornos agrestes ilustrativos de uma sociedade (e comunidade) fechada sobre si próprio e ausente dessa tal liberdade que perspectiva outros mundos e realidades mas que, pelo poder de uma imaginação, e aqui do amor de duas crianças, pode encontrar essa forma de escapar conferindo-lhes, ainda que timidamente, uma esperança que poucos ousam alcançar.
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quarta-feira, 21 de março de 2018

Sonhar Portukália (2017)

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Sonhar Portukália de António Bento Palma é uma longa-metragem portuguesa independente cujo argumento da autoria de Carlos Carvalheiro - também um dos actores protagonistas da mesma - se centra numa viagem do leste ao ocidente Europeu, mais concretamente da Bulgária a Portugal, em busca do eterno sonho do el-dorado numa Europa em constante ebulição... Tudo isto seria muito interessante de analisar não fosse o permanente desastre que Sonhar Portukália viria, muito rapidamente, a confirmar.
Numa viagem entre a Bulgária mais rural e o Portugal das supostas oportunidades, um Mestre-Escola recentemente dispensado (Carlos Carvalheiro) mais o seu primo mecânico (Paulo Mora), percorrem distâncias não imaginadas por uma Europa ocidental onde esperam poder encontrar uma vida melhor. No entanto, é nessa mesma viagem que não só compreendem as suas vulnerabilidades (monetárias) bem como aquelas sentimentais que os afastam cada vez mais do seu espaço natural.
De uma forma muito resumida, Sonhar Portukália resulta quando o espectador lê apenas a sua sinopse ignorando, voluntariamente, o filme por si. Ou seja, se a temática aqui abordada pode despertar interesse por ser algo inesperado no cinema nacional, o facto é que quando as palavras ganham forma e vida através desta longa-metragem tudo soa imediatamente como um completo e perfeito desastre. Mas o pior estaria por chegar...
Sonhar Portukália assume o mais básico e elementar de todos os preconceitos possíveis e existentes transformando a sobrevivência de quem emigra em aventuras de trapaças e esquemas mais ou menos absurdas onde o engano é a forma de estar e viver destas pessoas que apenas desejam um bem estar económico que não encontram no seu país. Aqui, tudo e todos são rudes, pouco formados e ainda menos educados e os lugares comuns sobre alcoól versus emigrante de leste abundam a níveis astronómicos. Se o lugar comum não chegasse para comprovar que toda esta longa-metragem é do mais amador mau gosto e mal pensado na sua concretização, eis que chegamos ao nível das interpretações destes actores que transformam esses mesmos clichés e preconceitos sobre o "outro" em verdadeiros momentos pouco cómicos nos quais se atropelam as boas maneiras e mesmo o respeito pela diferença e pela comunidade emigrante em causa.
Não existe muito mais para dizer sobre Sonhar Portukália... Do péssimo argumento às horrendas interpretações passando pelo circo de preconceitos aqui criados e a tentativa frustrada de criar segmentos de comédia que resultam em perfeitas banalidades melhor conseguidas em longas-metragens B norte-americanas, transforma esta "peça" num perfeito desperdício de tempo do espectador que, se aguentar até ao final merece, ele próprio, uma distinção de bravura. Assim, e se é de louvar todo o empenho e coragem daqueles que levam a cabo a execução de uma obra independente livre de apoios e de cedência ou compromissos, não é menos válido exigir dos mesmos a capacidade de entregar o seu público um filme que pode sim ser mais frágil a nível técnico mas do qual se exige a excelência narrativa e interpretativa que aqui... falhou em todas as frentes.
A sobreviver de "algo"... Sonhar Portukália fá-lo do preconceito, do lugar comum, da comédia sem graça e da ineficácia em contar uma história... História essa que poderia ser sobre a sobrevivência, sobre a emigração ou até mesmo sobre a saudade - tão portuguesa - ou o amor que, todos eles com a sua nobreza aqui vilipendiada sem pudor em nome de algo que o tempo justamente também não irá respeitar.
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