Unexpected de Daniele Guerra (Reino Unido) é uma brevíssima curta-metragem que se centra no encontro ocasional entre dois homens numa rua deserta. Olham-se, brevemente, até que um segue o seu caminho e o outro decide segui-lo... com que fim? Os encontros ocasionais e os acasos que de tão esporádicos serem raramente primam pela capacidade de estabelecer algo concreto ou minimamente seguro, aqui encontram a casualidade de ser tão marcante (para uma das personagens) que a "perseguição" - que por momentos parece ter sido em vão - vale pela possibilidade de um resultado positivo. Mas... será esta perseguição assim tão inocente? Terá o perseguido compreendido que a sua vida poderia estar em risco ou, por sua vez, nem todos os desfechos podem ser tão felizes que a sua ocasionalidade apenas confirma que o perigo pode espreitar por detrás de toda e qualquer "porta"? Pelo meio de ruas e ruelas escondidas pelas quais poucos se atreveriam a passar surge uma história. Uma história que esta curta-metragem bem explicita - os parabéns ao seu realizador - mas que, ao mesmo tempo, corta o objectivo principal ao não ser extensa o suficiente para lhe conferir ou um merecido final ou a eventualidade da possibilidade que o seu término promete entregando, às duas personagens, uma qualquer realidade que ultrapasse a casualidade e confirme os fins de cada um deles. Uma história cujo único aparente ponto menos positivo acaba por ser a sua excessivamente curta duração que impossibilita, como já referi, a devida exploração das personagens, os seus objectivos finais para lá de uma aparente vertente do "imediato", de certa forma desmistificada com as acções de um dos intervenientes, mas que ainda assim teria sido agradável perceber o "e depois" de ambos. Assim, e sendo fiel ao estilo fugindo, no entanto, ao esperado naquilo que o argumento desvenda, e sendo também bem executada esta Unexpected deixa a possibilidade em aberto e a curiosidade a descoberto.
Un Parell de Cançons Després de Jaume Carrió (Espanha) revela uma inesperada história onde duas vidas se cruzam na imprevisibilidade dos actos que cada uma delas tem. Um artista pinta um gigantesco mural de 500 metros quadrados que, ao mesmo tempo, inspira uma autora de canções em plena crise criativa. Num bairro e sem se conhecerem, os dois artistas criam e tentam a sua inspiração para que a sua arte não páre e flua. Mas criar para quê? Para quem? Com que propósito? De onde surge essa inspiração (quando surge) e que mensagem se pretende transmitir àqueles que admiram o que cada um deles cria? No seio de uma solidão latente entre ambos - ele enquanto pinta a metros de altura encontra-se totalmente só contemplando, muitas vezes, o espaço que o rodeia -, o desconhecimento de que cada um deles existe é total. A presença dele assume-se (para ela e para o bairro) apenas porque a sua obra gigantesca vai ganhando forma com o tempo e torna-se impossível de não admirar a sua presença que se revela como "algo" do bairro. Já ela mantém-se quase anónima e apenas "ganha forma" quando canta as suas próprias canções. Estes dois artistas feitos por mão própria revelam, no entanto, um elemento que nos une na sua distância... a sua solidão. Vivem nos espaços sempre rodeados de pessoas - o bairro... os espaços que frequentam... os sítios onde criam e onde cantam - mas, ao mesmo tempo, estão permanentemente solitários face a todos os demais que gravitam perto de ambos mas com os quais não existe qualquer tipo de relação para lá das estritamente indispensáveis. Por opção ou não... a solidão é uma certeza. Esta simbiose de vidas e de percursos revela ao espectador uma quase "certeza" (para eles enquanto personagens) de que a solidão surge pela forma como a dedicação às respectivas artes se manifesta mais acentuada. Ambos querem criar... ambos querem ser "nome" adquirido naquilo que fazem... ambos não desistem do processo criativo... ambos são párias dentro de uma sociedade... Ambos vivem em solidão nomeio de tanta gente. Este passo lento, extremamente lento por vezes, consegue para lá de garantir uma perspectiva (real ou não... é a escolhida) do processo criativo versus dedicação e, ao mesmo tempo que não se assume para lá do óbvio, criar uma certa saturação no espectador que parece não conseguir retirar um propósito deste obra para lá dessa mesma constatação. Criar arte de forma solitário tendo, no entanto, todo o ambiente envolvente como uma fonte de inspiração para esse processo. Enquanto espectador, a mensagem mesmo que compreendida, existe uma alienação para com a dinâmica desta história que se prolonga no tempo para lá do desejado... há uma compreensão de que nunca vamos sair daquela realidade pretendida pelo realizador e que, desse modo, tarda em criar (se é que o consegue) qualquer tipo de empatia para com a realidade que estas duas almas aqui retratam. Há, desde cedo, uma desconexão com o real (deles) ficcionado (para nós) transformando o que se espera desta história em algo que, a bom tempo, pouco nos interessa. Moroso e sem um clímax existencial... um par de canções depois... pouco nos importa aquilo que tenham para nos dizer... mesmo que a execução desta curta-metragem enquanto tal esteja longe de qualquer reprimenda. .
El Último Vals (de J.S) de Sergio Garai (Espanha) é uma das curtas-metragens presentes na secção Cantábria da décima-terceira edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos a decorrer na Cantábria até ao próximo Sábado dia 20 de Maio. A vida tranquila de Manuel (Manuel Pizarro), um rocker veterano e autor de um programa de rádio, é subitamente abalada quando recebe a visita de Elena, filha de um velho amigo gravemente doente. Esta visita, na qual Elena lhe pede um favor, vai desenterrar velhos fantasmas do passado. É impossível visionar esta curta-metragem sem nos recordarmos de imediato do já clássico Trainspotting, de Danny Boyle (1996) encontrando, entre ambos, diversas semelhanças começando pelo próprio ambiente aqui recriado que oscila entre o marginal e aquele que as velhas "lendas" ou nomes sonantes e de respeito lá do "bairro" de repente encontram o lado mais escuro da idade adulta onde nenhum acabou por ser aquilo que em tempos (de juventude) ambicionara ser. Se a isto acrescentarmos toda a dinâmica de um certo misto de droga (e rock'n'roll) que rapidamente compreendemos que aqui se desenha e um muito sugestivo momento que é uma "cópia" fiel da referida obra de Boyle então... estamos perante o verdadeiro universo rockeiro que deduzo tenha sido a ambição do realizador recriar. O mais marcante neste curta-metragem é, desde cedo, a realidade que o espectador compreende como sendo o tão esperado reencontro entre dois amigos que se perderam no tempo. Não chegamos bem a perceber o porquê e os motivos que os levaram em tempos a seguir caminhos diferentes, em boa medida também pouco importa, mas ao descobrir que um desses amigos se viu forçado a apelar à sua filha para que recorresse ao amigo dos bons velhos tempos para lhe conferir um último minuto de prazer alucinogéneo, descobrimos que a amizade pode ter estado adormecido mas só entre pares se pode pedir o inimaginável ou mesmo aquilo que para todos os demais parece difícil demais de obter. Porque não conferir um último momento de prazer a quem, na realidade, parece já não ter muitos mais momentos pelos quais viver?! É então que nesta busca pela droga perdida (não tão perdida mas os meandros são, compreendemos, bem diferentes daqueles que na sua juventude haviam encontrado), o espectador se depara com o tal imaginário da obra de Boyle que é aqui claramente replicado - ainda que adaptado a esta realidade concreta - mas as referências são por demais evidentes para não o compreendermos com a sua fonte de inspiração... A droga... a sanita (momento literalmente reproduzido)... o roubo... a fuga... e finalmente o reencontro entre dois amigos que o tempo separou mas que não esqueceram como se "reencontrar" num universo só deles... muito próprio e que ambos acabam por utilizar como forma de uma despedida que ao espectador não interessa ver. Não é tenso nem tão pouco um daqueles filmes com uma mensagem etérea ou fora do normal que nos leva a recordá-lo como uma obra maior do género mas, no entanto, consegue ser um daqueles filmes capazes e bem dirigidos - mesmo que com alguma óbvia inspiração noutras obras -, que essencialmente transmitem ao espectador uma certa ideia de juventude perdida... de uma realidade que tem de ser finalmente abraçada e compreendida como aquilo que existe, ou melhor até, como aquilo que resta... não querendo também eu ser um replicador de inspirações mas não poderia encontrar melhor descrição para este filme ao utilizar o título de um outro (sem que entre eles exista qualquer tipo de relação)... El Último Vals (de J. S) é, no fundo, o espelhar do "tempo que resta"...
Under the Moonlight de Cristiana Béjinha e Ana Machado (Portugal) é uma das curtas-metragens em competição na oitava edição do Leiria Film Fest na secção de Filmes de Leiria e mais uma das obras de animação em exibição. Uma mãe e a sua filha numa floresta. Um vulto que se aproxima. A incerteza do que está para lá das sombras. Existe toda uma intenção de passar um "testemunho" sobre o poder do tempo. Sobre a ligação que existe entre pessoas de diferentes eras ou gerações como que umas perpetuando as do passado já não presentes fisicamente mas que ainda pairam sobre as acções e o pensamento daqueles que num "agora" povoam espaços semelhantes. Existe também a vontade de revelar o poder familiar e inter-geracional que resiste passados anos, décadas sem fim e que faz do "eu" actual alguém que está indubitavelmente unido àqueles outros "eu" que estiveram antes de "mim". Pequenos tributos, pequenos troféus ou mesmo objectos do passado resistiram e encontram espaço para marcar presença para lá do seu próprio tempo funcionando como testemunhos desse passado que se formou e dissipou. Tecnicamente interessante pela forma como tenta passar para a imagem o poder do tempo, e das relações inter-pessoais e familiares, mas Under the Moonlight perde-se sobretudo pela sua brevíssima duração que não permite ir além de uma ideia pré concebida que qualquer espectador tem sobre esse "tempo" tão presente mas tão invisível que se manifesta pelas marcas e pelas memórias que conseguem subsistir. O tempo existe, marca, transforma, revela e faz desaparecer... a grande questão que se tenta então levantar é... o que sobra de nós, ou do espaço, para lá daquilo que ao mesmo resiste?
Unholy 'Mole de David Bornstein (EUA) presente na décima edição do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta até ao próximo dia 16 de Novembro, é a típica história onde terror e comédia se cruzam de forma harmoniosamente diabólica.
Godrick (R. D. Mower) sente desejos incontroláveis pelo guacamole da sua mulher Jennifer (Rachel Leigh Moore). No entanto, desde o início da gravidez que ela se sente cada vez mais cansada e incapaz de saciar o seu desejo. Poderá um inesperado pacto resolver a situação?
Nada mais esperado de um filme que cruza o terror grotesco com a comédia do que uma história que transforma os vilões em vítimas e o inesperado no original. E quem melhor para lhe dar corpo do que o próprio Diabo em pessoa?! Salvo seja...
Os desejos - é já a segunda curta-metragem do BAFF que os aborda de forma tão grotesca... e repito a palavra porque não existe melhor para o caracterizar -, são aqui transportados para o cenário do sobrenatural que se aproveita da mais elementar condição humana que tolda os sentidos e transforma o Homem numa criatura sedenta de algo e incapaz de reconhecer aqueles que lhe são mais próximos (incluindo aqui aqueles que ajudou a gerar). Desejos esses que podem ir do objecto mais rudimentar ao mais comum e que nesta curta-metragem surgem, novamente, sob a forma alimentícia. O desejo por algo que se quer e que sacia aqueles pensamentos pecaminosos - gula a quanto obrigas - e que dão ao Homem uma componente tão selvagem como aquela tida pelos animais ditos irracionais.
Do desejo ao pacto sobrenatural com uma entidade que parece espreitar a cada esquina faz de Unholy 'Mole um passo muito pequeno. Mas, no entanto, ao contrário de Five Course Meal em que os intervenientes comem até rebentar, em Unholy 'Mole o protagonista é devorado não pelos alimentos (seria óbvio demais) mas sim por aquele que traiu e que se revelou, afinal, como o elemento mais forte de uma cadeia alimentar... do Inferno.
Mas, se esta curta-metragem começa de forma relativamente mediana não parecendo querer desenvolver a sua dinâmica, é já a meio caminho andado que se apresenta reveladora de alguma originalidade ao transformar o "senhor do submundo" numa elaborada animação cruzada com a ficção e que é estabelecido o inesperado pacto que cede a este último a alma de um humano puro para encarnar o Diabo em pessoa... literalmente. É com esta revelação que finalmente o pacto ganha forma, que o Diabo se revela e que o prazer de "Godrick" parece não ter fim... ou, pelo menos, que os seus limites apenas poderiam ser ultrapassados pela nova forma humana que habita aquela casa com todo o amor de "Jennifer" que substitui muito rapidamente um marido egocêntrico que comeu até morrer...
Quase como um cómico de situação, Unholy 'Mole prende o espectador primeiro pela sua premissa quase disparatada mas sobretudo pelo seu desfecho glorioso - dentro do género e de fazer inveja à Linda Blair - e pela caracterização quase real de um novo ser... vendido ao submundo por um guacamole mais ou menos saboroso e que brota de onde menos se espera como se de uma fonte da juventude se tratasse. Quem pense que os alimentos não podem matar - e não me refiro em termos de obesidade -, terá definitivamente de ver esta curta-metragem... e não estabelecer qualquer tipo de pacto... sobrenatural!
Um Punk Chamado Ribas de Paulo Antunes (Portugal) é um dos documentários presentes no IndieMusic da décima-sexta edição do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema de Lisboa a decorrer até ao próximo dia 12 de Maio em diversas salas de cinema da capital.
Nascia neste dia, em 1965, João Ribas, músico, cantor, compositor e letrista do punk português e membro fundador das bandas Ku de Judas, Censurados e Tara Perdida. Da sua influência para outros músicos ao seu carácter genuíno enquanto artista e idealista, vários são os testemunhos que passam por este documentário que nos dão a conhecer um pouco mais do homem por detrás da lenda.
Por entre um conjunto de observações sobre João Ribas, o primeiro de todos é efectuado pela irmã Isabel, que o caracteriza como alguém diferente à primeira vista mas que, depois de alguém privar com ele encontrava uma pessoa afável e dócil capaz de seduzir pela sua simpatia. De um início profissional no teatro à música, a sua grande paixão e à qual se entregou de alma e coração, Ribas transformara-se no mito incontornável no panorama musical português principalmente ao longo da década de '80.
Os testemunhos sucedem-se na primeira pessoa passando por João Pedro Almendra (Despe & Siga), Miguel Newton (Mata Ratos), Eduardo Pinela (Capitão Fantasma), Aurora Pinheiro que fora sua manager, Rui Costa (Tara Perdida), diversas amigas e também pelo sobrinho João Diogo Ribas de quem saem algumas das mais emocionadas palavras sobre o tio e sobre a influência e amizade que lhe reconhece.
Um Punk Chamado Ribas é assim um documentário que se apresenta, em diversos momentos, como um documento pessoal onde o espectador conhece, para lá da lenda musical, o homem e uma boa parte da sua personalidade - pelo menos aquela que nos é facultada pelos entrevistados -, e descobre alguém com uma sensibilidade francamente diferente do que aquela que se poderia adivinhar através da sua imagem de palco forte, aguerrida e dominante. Várias são as fotografias que são partilhadas bem como aquele que seria possivelmente o lugar mais mítico de Ribas e daqueles que o conheceram... o seu quarto que servia de sala de ensaios e de reuniões de e com as dezenas de pessoas que conhecera. Para lá de um simples local de prática, o seu quarto foi o verdadeiro estúdio de ensaio e improviso, de criação e inspiração (sua e das bandas a que pertencera), fazendo do mesmo uma espécie de lugar de culto. Das histórias com a vizinhança que nunca interferira, e para quem o "barulho" nunca foi um incómodo (pelo menos não um que fosse verbalizado), João Ribas chega mesmo a ser caracterizado com um elemento fundamental - senão o principal - de toda uma geração que encontrou na música um espaço não só de rebeldia como também de denuncia e do próprio direito à diferença que tanto, e tantas vezes, se reclama e se pretende conquistar. Símbolo de uma geração em que a imagem da noite, da droga e da violência urbana caracterizaram a própria e, até mesmo, uma Lisboa que se dividia (e assumia) nas diferenças evidentes dos bairros e dos seus habitantes desejando, o próprio ainda que inconscientemente, que a aceitação por esse referida diferença fosse uma marca do seu tempo como que de um legado se tratasse.
Com o recurso a muitas imagens de arquivo como um competente documento histórico, Um Punk hamado Ribas é igualmente um testemunho, súbtil e livre de preconceito, da transformação do homem e das suas diversas etapas que, sendo elas de maior ou menor êxtase e excessos, nunca julgou ou condenou prestando-se sempre a uma aceitação do outro e do seu contributo para a arte que com ele poderiam partilhar.
Evidente em todos aqueles que partilharam aqui os seus testemunhos está a constante comoção e emoção ao falarem no amigo que conheceram... aquele alguém que decidiram partilhar com o mundo mesmo sendo alguém só "seu"... alguém de quem ainda lhes custa falar apesar do imenso prazer que têm em recordar todos os momentos mais ou menos privados que partilharam... alguém a quem reconhecem uma educação extrema e memória exemplar mesmo que tenham sido dezenas, centenas ou até mesmo milhares aqueles com quem se havia cruzado... alguém dado ao mundo, à cidade, ao seu bairro e a todos aqueles que resolviam "perder" alguns minutos de conversa... um "punk diplomático" como é caracterizado pelo seu sobrinho.
Desaparecido a 23 de Março de 2014, João Ribas fica não só com o nome marcado ao movimento do rock punk português como também como um, arriscarei dizer, humanista pela forma como encarava o "outro" tão bem caracterizado pelos seus amigos, sempre disponível para uma palavra a toda a gente e também como um vulto maior do panorama musical nacional mesmo com todos os potenciais altos e baixos da vida... característicos de qualquer um de nós... transformando este sentido documentário numa importante peça do cinema português do género e num documento imprescindível para a contextualização não só do homem mas também da música para a qual deixou uma importante marca e parte de si.
Untitled Film #1 de Araque Blanco (Espanha/República Checa) é uma curta-metragem que revela a história de duas amigas - Lucy (Lucy Hadfield e María (María Giaever) - que se cruzam na cidade de Praga, na República Checa formando uma imediata amizade e um laço de cumplicidade que dará forma a toda a sua criatividade.
O realizador e Elpídio del Campo escrevem este argumento criando um universo de cumplicidade entre duas personagens estrangeiras numa terra que se quer de criatividade, criação e uma extrema expressão de sentimentos e emoções em relação àquilo que criam. Das conversas banais que revelam uma certa formação de carácter às pequenas cumplicidades e momentos em que a amizade ganha corpo, estas duas (recentes) amigas perdem-se pelas banalidades da vivência numa cidade diferente e onde ambas são o elemento "extra" influenciando - e deixando-se influenciar - pelos locais, pelas pessoas com quem se cruzam e pela forma como ambas experimentam toda esta nova realidade na definição e formação do seu próprio comportamento.
Como duas inesperadas exploradoras modernas, "Lucy" e "María" encontram neste lugar desconhecido a fonte de uma esperada criatividade buscando inspiração naqueles pequenos elementos - da cidade e das pessoas - excêntricos que as motivem para a criação. Num percurso de descoberta do espaço, das pessoas, da relação que mutuamente criam e principalmente delas próprias, poderá este ser o início de uma amizade duradoura ou apenas o motivo ou meio que encontram para unir esforços num espaço, não adverso, mas desconhecido para ambas?
Untitled Film #1 centra-se essencialmente na dinâmica da descoberta. Quer seja do espaço, das pessoas, das relações ou até mesmo dessa já referida e ausente inspiração como mote para a criatividade, as duas jovens são aqui um veículo para a alcançar. Uma descoberta que passa também, senão principalmente, pela forma como cada um se relaciona numa sociedade diferente e pela ideia que cada um modela (lentamente) através desta descoberta que influencia sobretudo a sua própria individualidade e independência. Quem somos nós no mundo a uma dada altura e como todos esses elementos externos influenciam o "eu" que se perfila no futuro?!
Numa esperança de conferir a esta curta-metragem uma modernidade realista, o realizador brinca o espectador com uma constante sensação de "câmara na mão", onde tudo é filmado na primeira pessoa como que este último seja um observador participante e relativamente activo na consciencialização das experiências que as duas protagonistas vivem. No entanto, se esta difícil experiência poderá retirar positivos contributos ao imiscuir o espectador na obra, não deixa de ser uma realidade que, ao mesmo tempo, pode também ser uma experiência cansativa para o espectador mais impaciente que vê nesta constante movimentação um atributo menos positivo e mais concentrador de uma dispersão - quase uma contradição - intelectual da obra.
Potencialmente interessante na sua forma e na sua origem pelo contributo e pela abordagem à ideia de "estranhos em terra estranha" e do inegável elo que se cria naqueles que partilham a mesma condição assim como pela forma como é nesta união que se pode criar não só uma amizade como principalmente uma forma detentora de uma potencial criatividade - diz-se que todos os artistas criam mais (ou talvez melhor (?!)) quando sob pressão ou em ambiente adversos -, Untitled Film #1 não consegue, apesar da sua premissa, criar uma imediata empatia com o espectador mais sedento de respostas que cheguem de forma mais directa e menos lírica. Enquanto um potencial filme curto artístico, a obra de Araque Blanco poderá figurar entre as mais dinâmicas e interessantes mas, no entanto, enquanto obra capaz de dinamizar a atenção do público... transforma-se num imediato filme mais fragilizado e menos capaz de o prender desde o primeiro instante.
Uma Vida Sublime de Luís Diogo é uma longa-metragem portuguesa em competição no FESTin - Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa que explora a acção de Ivan (Eric da Silva), um médico concentrado em eliminar os efeitos da infelicidade com duas curas "milagrosas"... primeiro com o falso diagnóstico de doenças oncológicas aos seus pacientes seguido de uma terapia radical de eliminação dos cinco sentidos que, no entanto, poderá vir a provocar terríveis "efeitos secundários".
Depois de Pecado Fatal (2013), o realizador e argumentista Luís Diogo regressa com uma história que se divide em dois momentos específicos sendo o primeiro deles a já referida história de "Ivan", um médico centrado num alheamento familiar que não chega a ser totalmente explorado - para lá da sua relação amorosa apenas conhecemos um seu apontamento familiar e, por outro, observamos o seu trabalho enquanto um "descobridor" dos factores que inibem a felicidade nos seus pacientes e, como tal, pretenso investigador de terapias que a possam potencializar nos mesmos.
Se do primeiro destes momentos registamos que a vida familiar de "Ivan" terminou com a perda de um irmão que idolatrava - primeiro pelos sonhos deste e depois como o nascimento de um sobrinho para com quem é convenientemente amistoso mas que culpa pela morte do pai - e que apenas mantém algo semelhante a essa vida com a relação sentimental que mantém com a sua namorada mas que não pretende consumar com o nascimento de um filho desejado, do segundo momento apenas registamos as suas auto-denominadas "terapias da tortura" ao explorar os medos e as ânsias dos seus pacientes como forma a garantir-lhes que a sua infelicidade - fruto das perdas do passado - tem de ser interrompida pelo cumprimento de sonhos e desejos porvir que estabeleçam a satisfação de uma vida considerada "bem vivida". Como forma de acabar com esse "compromisso" com uma vida "adulta", "Ivan" pretende então que as suas vítimas sejam privadas daquilo que de pouco mantêm de saudável no mundo... os seus sentido. Assim, e para responder à sua principal questão... quais os sentidos que estes pacientes consideram dispensáveis?!
Perdido numa ideia de felicidade que não deixa cumprir - afinal, o seu desejo de ser feliz incompatibiliza-se com o da sua namorada que de tudo abdica para estar ao seu lado (até da maternidade) - "Ivan" lança-se num mundo paralelo que ele próprio criou ao explorar os medos, os desejos perdidos e as ambições não cumpridas daqueles que prometera "curar" de uma doença que, afinal, será mais psicológica do que física esquecendo que poderá não estar a cumprir os desejos daqueles que tem mais perto... a sua família e a namorada.
Se este argumento tem um interessante potencial na exploração da ideia dos sonhos perdidos no tempo e nos desejos ou ambições que em tempos fizeram cumprir o ideal de uma certa juventude que entretanto se perdera ou conformara com a inevitabilidade ou com as exigências de uma sociedade pré-formatada com o culturalmente aceitável, não será menos real perceber que a execução destas ideias se perde num certo incumprimento do nível mais elevado já deixado pelo realizador com o já referido Pecado Fatal ou mesmo com a sua participação no argumento da longa-metragem da dupla Galvão Teles, Gelo (2016). A divisão desta longa-metragem em dois momentos específicos que se cruzam - do passado ao presente do protagonista - não são assumidamente claros em nenhum momento deixando ao espectador a ilusão de que deverá percebê-los sem uma real conexão entre os mesmos. Ainda, se "Ivan" tem um aspecto credível enquanto médico em ascensão, o mesmo não se verifica quando adopta o seu alter-ego e dá corpo a uma bizarra figura com barba e cabelo assumidamente postiços dando-lhe (e à sua personagem) um ar plástico e pouco credível que não amedrontam ou desfiguram a sua mente relativamente perturbada criando antes a noção de um novo tipo de vilão risível e até mesmo absurdo.
Ainda que esta relativa dispersão de argumento seja notória e prejudicial para a longa-metragem em si e que a caracterização da personagem principal seja um franco desastre - e o mais frágil ou negativo de todo o filme -, é a interpretação de Eric da Silva que se mantém relativamente coesa ao longo de toda a trama ao assumir-se inicialmente como um homem desligado de uma vida perfeita fruto de um passado traumático e onde o próprio experimentou a sua própria perda como, de seguida, se transforma num inesperado vilão e finalmente no receptor da real perda - da vida, da família e da mulher que o amara - graças a um desenrolar de acontecimentos e emoções que o expõem não só ao resultado das suas escolhas como principalmente aos efeitos que estas tiveram nos demais. Coerente nas suas motivações mas pouco expansivo graças a uma história que não se mantêm dinâmica do princípio ao final, a Eric da Silva junta-se uma interpretação secundária mas igualmente presente nos seus breves minutos de Paulo Calatré como "Gaspar", uma das experiências do "Dr. Ivan" que... não correu bem... Perdido nos seus pensamentos atormentados por um médico que o levou a perder tudo... a personagem de Calatré dinamiza os breves instantes do seu "Gaspar" em pleno modo de destruição... própria, de "Ivan" e de "Andreia" (Susie Filipe) ao expôr aquilo que a todos atormenta... os seus próprios pecados.
Consumível enquanto obra que explora aquilo que o cinema independente pode - e tem por - oferecer, Uma Vida Sublime não consegue ultrapassar a obra anterior de Luís Diogo que, com todas as suas fragilidades, se consegue manter mais coerente e fiel a uma linha narrativa que aqui se perde com os vários inuendos e caminhos tortuosos que nem uma simpática direcção de fotografia consegue fazer expiar. Assim, e ainda que longe de grande palmarés, esta Vida pode existir mas distancia-se de qualquer efeito mais Sublime mantendo apenas um apetite pelos destinos de um incerto "Dr. Ivan" que desaparece num mundo que continuará a ser de sonhos perdidos e por cumprir de uma sociedade que irá para sempre ser infeliz.
Un Bacio de Ivan Cotroneo é uma longa-metragem italiana e uma das presentes na décima edição da Festa do Cinema Italiano que decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa até ao próximo dia 13 de Abril.
Blu (Valentina Romani), Antonio (Leonardo Pazzagli) e Lorenzo (Rimau Ritzberger Grillo), são três jovens adolescentes com um passado atribulado. Rejeitados pelos colegas da mesma escola desenvolvem uma amizade que os leva a partilhar um mesmo caminho e, possivelmente, encontrar um dia melhor numa escola onde não se sentem inseridos.
Num mundo adolescente sempre em convulsão, conseguirá esta amizade sobreviver aos preconceitos que espreitam de todos as esquinas?
O realizador e também argumentista em parceira com Monica Rametta, apresenta ao espectador uma história que tem os lugares comuns habituais e não é necessariamente uma história original ou que já não tenha sido filmada. Pelo contrário, Un Bacio é uma simpática "cópia" de tantas outras longa-metragens que nos chegam em quantidades industriais vindas do outro lado do Atlântico e que ganham muito mais mediatismo do que esta alguma vez conseguirá. No entanto, o não ser assumidamente original não é um defeito que prejudique a sua narrativa ou mensagem. Pelo contrário, o espectador ao constatar que aqui está "mais um" história sobre a "sobrevivência" adolescente no terrível e pesado ambiente estudantil é motivo o suficiente para perceber que algo está - continua ?! - mal para ainda serem necessárias estas histórias que esperam servir de retrato (e modelo) para aquilo que não deveria acontecer.
Todos eles com um ambiente familiar relativamente saudável - afinal, qual é a família que seja assumidamente funcional??? - "Blu", "Lorenzo" e "Antonio" são o retrato de famílias que poderiam ser desfeitas com a maior das facilidades. Se "Blu" vive com o rótulo de oferecida e "Lorenzo" com o de homossexual ambos alvo das piadas e chacota dos colegas, "Antonio" não escapa à imagem de um pobre inadaptado irmão de alguém popular que ele nunca conseguirá igualar. No seio de uma escola que espreita para destruir o próximo indefeso, é a mais ou menos improvável união destes três adolescentes que, de certa forma, os irá fazer recordar num futuro que afinal os anos de "secundária" não foram assim tão maus como tantos os pintam.
No entanto, há sempre algo que fica para trás... por dizer... por exprimir... "Blu" é uma jovem que, para lá da sua aparente agressividade, se apaixonou por um rapaz mais velho que, juntamente com amigos, a forçou sem o seu conhecimento a um vídeo que a compromete. "Antonio" vive perdido no seu aparente anonimato à sombra da imagem de um irmão que todos adoravam e que é, para ele, o único conselheiro que todas as noites o "visita" no seu quarto como que uma voz da consciência que ele perdeu... e de certa forma, o primeiro sinal de um atrofio mental que passa despercebido a todos, levando o espectador a questionar-se sobre a velha questão... quando morre um filho e toda a atenção é direccionada para os pais que não têm consolo... será que alguém se lembra dos demais filhos que, também eles, perderam uma parte de si? E finalmente temos "Lorenzo"... jovem adoptado a quem a sua sexualidade é - para os demais - o principal rótulo que facilmente lhe colocam. Para lá de o conhecerem e perceberem a pessoa fantástica (ou não) que é, apenas é voluntariamente visível o tal "rótulo" do qual se servem para uma marginalização e ostracização social que tanto lhes é conveniente.
É este improvável trio que se une e, para lá de uma amizade, desenvolve uma admiração e paixão de adolescência que poderia (poderá...) cair num potencial afastamento... Se "Lorenzo" ama "Antonio"... este ama "Blu" que por sua vez vive "enfeitiçada" por um tipo mais velho que pouco quer saber dela. Quando os sentimentos afectivos se tornam mais importantes, ou pelo menos mais evidentes, do que aqueles tidos enquanto amigos e companheiros apenas uma compreensão e aceitação própria poderá evitar que os mal-entendidos surjam e corrompam aquilo que fora, até então, construído.
Do preconceito social passado de geração em geração sem ser quebrado ou "educado", àquele tido pela pressão dos pares ou até mesmo auto-imposto como mecanismo de defesa perante um pensamento sobre o que os demais poderão achar, Un Bacio "resume-se" a isso mesmo... um beijo. Um acto irreflectido de um sentimento latente que é, pelo "outro" julgado como um afecto impossível (por vezes até sentido), mas proibido numa sociedade que considera apenas o dito "normal" como aceitável e o convencional como próprio. Uma sociedade que utiliza e manipula as fragilidades alheias para proveito próprio, ignorando propositadamente que por detrás de um rosto mais "rude" pode estar uma alma mais frágil disposta e disponível a sentir algo mais do que a conclusão imediata de um sentimento expresso em tão jovem idade.
Dos já conhecidos estereótipos aos julgamentos sem fundamento ou simplesmente da vontade de humilhar criando uma pirâmide "social" na mais elementar das estruturas pós-família como o é a da escola, Un Bacio retrata a vida para lá de quatro paredes de um conjunto de jovens que tem tudo para que os demais possam gostar deles mas que, por sua vez, quer pela sua diferença quer pela expressão de individualidade num grupo que se quer homogéneo são considerados apátridas sobre os quais se "deve" continuar a exercer a tal marginalização. E quando se diz que esta provém apenas dos pares... esquece o espectador também quanta ostracização não poderá chegar daqueles que todos os dias privam de mais perto com os alunos... os professores... também (muitos) eles emissários de uma normalização que deve ser acarinhada e difundida matando, quanto baste, a tal projecção de um "eu" que caracteriza cada um de "nós".
De um preconceito existente apenas nos olhos de quem vê (?) àquele que é disseminado em sociedade pelo "bom nome" de uma normalização a uma potencial surpresa que pode deixar o espectador perante os dois caminhos de "um momento", Un Bacio pode não ser a tal obra original dentro do género - poderá ainda haver alguma que o seja?! - mas, ainda assim, consegue ser um interessante espelho de uma sociedade que se diz - e pensa - ter evoluído mas que, no fundo, continua ainda presa a velhos preconceitos, velhas ideias de uma normalidade aceitável e pouco problemática e, na sua essência, apenas corrompe e destrói espíritos livres, independentes com potencial para viajar e voar mais alto... e para mais longe.
Com três interpretações co-protagonistas nesta história sobre a sobrevivência dentro e fora da escola, ou melhor, auto-sobrevivência num mundo que ultrapassa as paredes da referida escola - desde a família aos pares sem esquecer toda a sociedade "lá fora" que os espera - Un Bacio consegue equilibrar os seus momentos mais dramáticas com simpáticos segmentos musicias - a música sempre uma eterna companheira daqueles que nas suas letras revêem as suas vidas - e deixar o espectador a penas (espera-se) sobre os seus idos tempos de "escola" e todos aqueles que, à sua época eram, também eles, "diferentes" e capazes de ser originais.
Última Chamada de Sara Barbas é uma curta-metragem de animação e uma das quatro nomeadas ao Sophia da Academia Portuguesa de Cinema na respectiva categoria.
Num aeroporto Catarina Gato (voz de Joana Mendes) encontra Diogo Cão (Richard Browne). Partem em destinos opostos mas o inesperado reencontro fá-los reviver um passado em comum. Será este local de partida aquele no qual as suas vidas cruzam o mesmo caminho?
A realizadora e também argumentista cria com Última Chamada uma simpatia e emotiva história sobre os encontros e desencontros da vida. De um passado jovem e liberto de preconceitos (não humanos) a um presente profissionalmente estabelecido mas que os distanciou de uma vida sentimental completa, os dois protagonistas desta história expõem um percurso feito individualmente que os preenche - a certo nível - revelando, ao mesmo tempo, uma certa nostalgia sobre algo ainda por cumprir.
De um passado numa eterna Paris do amor onde os seus percursos em comum ficaram a uma Lisboa da actualidade onde novos rumos podem ser (re)encontrados, Última Chamada assume-se como uma animação fresca pela originalidade das suas personagens e emotiva pela história que revela ter deixado muito ainda por contar.
Com um conjunto de divertidas personagens que trazem ao dito mundo dos humanos todo um reino animal com expressões e sentimentos, Última Chamada é uma agradável surpresa no campo da animação portuguesa e uma merecida nomeada ao prémio máximo do cinema português.
Uma Vida à Espera de Sérgio Graciano é uma longa-metragem portuguesa e o mais recente trabalho do realizador de Assim Assim (2012) e Njinga, Raínha de Angola (2013) presente na competição oficial da XXª edição do Caminhos do Cinema Português onde, este ano, tenho o privilégio de estar presente enquanto membro do júri.
Ele (Miguel Borges) ao sair de casa retira a caixa do correio. Dirige-se a um jardim onde se senta num banco e organiza os seus poucos pertences. Escreve uma carta ao filho. Ali permanece sentado e espera uma resposta durante dias... meses... anos...
Poderá esta resposta chegar ou será este filho uma realidade imaginada? Alguém que ele nunca teve? Os dias passam... os anos chegam. Toda uma vida teve de ficar à espera.
No seio de uma grande cidade é a incomunicabilidade e a solidão que lhe está inerente que, em diversos momentos e situações, marcam ou guiam as relações entre os seus cidadãos. Não será de estranhar que com o crescimento acelerado dessa cidade - ou até de um bairro - que todos se tornem estranho entre si apesar de cruzarem os mesmos espaços diariamente. No entanto, o que acontece quando essa indiferença e ausência surgem dentro de um mesmo apartamento num qualquer bairro dessa mesma cidade? Frederico Pombares, argumentista deste Uma Vida à Espera tenta responder, ou pelo menos levantar algumas questões, sobre esta potencial dinâmica que é tantas vezes ignorada.
Desde os instantes iniciais que o espectador apenas se cruza com a presença de um homem (Borges) aparentemente bem sucedido e com uma vida estável e estabilizada. Dele nada conhecemos ou sabemos para lá de um misterioso comportamento que o leva a abandonar a sua casa apenas na posse de uma caixa de correio e uma pequena mala com aquilo que pensamos ser alguns parcos pertences. "Ele" instala num banco de jardim e espera. Escreve e estabelece pequenas conversas com os poucos vizinhos que, num mundo cada vez mais anónimo, ainda tiram algum do seu tempo para se aproximar daquele homem e questioná-lo. De anónimo passa a conhecido de um grupo de pessoas... De um rapaz (José Afonso Pimentel) que passa... de um sem-abrigo (José Martins) que com ele mete conversa e de uma mulher (Isabel Abreu) que apesar de uma vida aparentemente estabilizada parece sofrer de um mal comum... a solidão.
É no seio desta invulgar nova família que pouco se vai cruzando mas que parecem compreender-se e partilhar um mesmo trágico destino que "Ele" vai adoptando enquanto espera que o "Carteiro" (José Mata) passe e lhe deixe alguma correspondência. Lentamente percebemos que ele espera pela carta de um filho que ninguém conhece ou viu... por notícias de uma vida passada que parece - à altura - ter desprezado. Uma vida da e à qual parece ter sido alheado, desinteressado e indiferente esquecendo aqueles que nela também "habitavam". Atormentado com um passado que não é revelado na sua totalidade, este homem perde-se e degrada-se num espaço que apesar de lhe ser relativamente familiar nada lhe diz ou lhe interessa.
Da culpa sentida a uma nova cumplicidade com "Ela" (Isabel Abreu), "Ele" tem apenas como melhor amigo um cão que não o abandona tendo desligado todos os elos de ligação com uma vida na sociedade que resolveu e escolheu abandonar... Vive a sua penitência naquele jardim e no banco onde dorme e partilha com o seu fiel amigo... o único, e sofre de uma dor que é, em tudo, psicológica e a única forma de sentir "algo" é quando (re)vive uma qualquer dor quer seja ela provocado pela ideia de abandono - d'"Ela" ou do cão - ou quando fisicamente violentado às mãos dos marginais que percorrem o jardim pela noite. A proibição do sentir foi-lhe auto-imposta e a única coisa que deseja - um contacto do filho que desprezou - parece não chegar.
Num cruzamento de sentimentos de amor, solidão e sobretudo arrependimento, Frederico Pombares escreve uma história que poderia ser real ao retratar tantas e tantas pessoas que definham quer física quer psicologicamente por existirem individualmente em vidas solitárias. Indivíduos esses que passam pela vida centrados em pequenos afazeres ignorando os demais que circulam à sua volta e que um dia percebem que os mesmos os abandonaram de forma irreversível. É verdade que este argumento parece querer esconder algo mais a respeito deste afastamento entre pai e filho como que um segredo maior estivesse por detrás do desaparecimento do filho mas, na sua essência, é a invisibilidade que este sentira que o levou a sair do espaço partilhado por um pai que, estando sempre presente, nunca lá estava de facto.
Com um conjunto restrito de actores dos quais se destaca obviamente o grande Miguel Borges com uma - mais uma - intensa composição de um homem como tantos outros com os quais nos cruzamos diariamente na rua e que, tal como ele, o ignoramos por não fazer parte do tal círculo de proximidade (não é segredo para ninguém que estamos perante um dos mais fortes, inteligentes e dinâmicos actores portugueses) mas que, ao mesmo tempo, queremos saber quem ele é, o que o terá levado até àquele mesmo local, o que fez, quem "foi" pois, afinal, ninguém (?!) irá dedicar-se a esta vida de uma mendicidade voluntária se não esconder algo suficientemente grave no seu passado, temos ainda Isabel Abreu como uma mulher que não tendo abandonado a sua vida passada - também ela marcada pela desgraça - tenta desesperadamente encontrar um novo rumo e recomeçar, o "Dr. Ernesto" de José Martins, um sem-abrigo, também ele voluntário, que se aproxima do de Miguel Borges e dois enigmáticos anónimos em José Afonso Pimentel que com ele estabelece a primeira conversa e se torna presente na sua vida e o "Carteiro" de José Mata que todos os dias durante anos com ele se cruza sem nunca lhe dirigir uma palavra.
Depois das já referidas Assim Assim e Njinga, Raínha de Angola, Sérgio Graciano regressa com esta que é a sua terceira longa-metragem - ainda à espera de estreia comercial no país - revelando a sua já conhecida capacidade de dirigir histórias intensas, dramáticas, repletas de inuendos (não tão) banais como aparentam ser e rodeado de um conjunto de actores que de si fazem sair o melhor para dar vida a esse conjunto de vidas anónimas com as quais todos os dias nos cruzamos sem saber o que vivem, como sentem, como superam ou com e por elas se deixam definhar. Uma Vida à Espera leva o espectador a pensar sobre quantas poderão ser as histórias que existem em todas aquelas pessoas que diariamente observamos em silêncio, os seus dramas e razões de existir ou até mesmo os porquês de resistirem nesse tal mundo que insistem em ser rápido e anónimo.
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"Ela: A culpa é o contrário do melhor amigo... está sempre lá quando não é preciso."
A Um Mar de Distância de Pedro Magano é um documentário português presente na Selecção Oficial - Em Competição da XXIIª edição dos Caminhos do Cinema Português que decorrem em Coimbra até ao próximo dia 26 de Novembro.
A história daqueles que ficaram para trás esquecidos por um passado que não está dignificado na História. Quantos pescadores terão morrido em terras longínquas como o Canadá ou a Gronelândia, ou até mesmo aqueles que morreram no mar nunca encontrando na terra o seu descanso eterno.
Abandonados por um país que ora os glorificou e depois os esqueceu, para além da memória pessoal... onde residem os registos destes homens que nunca regressaram ao seu país?
Num registo de entrevista, Pedro Magano aproxima o espectador de alguns dos tripulantes do Santa Maria Manuela que testemunham sobre o seu período mais negro e sobre a morte de um dos seus - Dionísio Esteves - aos vinte e seis anos de idade, esmagado por uma onda tendo sido, posteriormente, enterrado no Canadá em 1966. Com o recurso a imagens de arquivo e histórias na primeira pessoa de alguns dos tripulantes como Manuel Maio ou Celestino Ribeiro com vívidas memórias da época, A Um Mar de Distância reflecte a memória e os sentimentos ainda presentes destes homens que exponenciam o medo sentido desde então de um mar que levava impiedosamente os mais jovens e que impedia que os seus corpos regressassem a um país Natal.
Mas não é apenas sobre esta morte física que A Um Mar de Distância se refere. O documentário de Pedro Magano teoriza ainda sobre outro tipo de "morte"... aquela que não sendo física é psicológica, sentida por parte dos familiares que, privados pela distância, sofrem a ausência de um ente querido desaparecido no mar ou enterrados numa terra distante à qual nunca - ou pelo menos muito dificilmente - poderão ir chorar pelos seus e deixá-los com uma última despedida nunca concretizada. Perdidos mas nunca esquecidos, alguns destes familiares passaram toda uma vida a querer visitar os locais onde os seus se encontram sepultados, por vezes perdidos em extensos cemitérios cuja própria erosão do tempo os faz perderem-se e ficarem irreconhecíveis sem nenhum registo para a memória posterior.
Vidas desfeitas pela separação forçada que o meio físico e climatérico assim decidiu, é no presente que esta memória começa a ser recuperada pelo incansável trabalho de associações que pretendem aproximar estas memórias e que este documentário tão bem regista, como uma expiação que pretende encerrar todo um capítulo na vida dos mesmos. Finalmente, anos e anos depois destas separações forçadas que distanciaram filhos de pais, irmãos, primos e amigos, é aqui registado que se consegue finalmente dar um descanso não só aos desaparecidos que ficaram no outro lado do mundo como principalmente aos seus que viviam eternamente numa angústia pela distância e por nada saberem dos seus desaparecidos - como neste caso - desde a década de 60.
Pessoal e com vários momentos francamente emotivos e, de certa forma, improváveis pela distância de gerações que, fruto do antigo regime ditatorial, estavam impedidos de questionar os "porquês" do seu próprio passado, A Um Mar de Distância transforma-se não só num documentário que elucida - num estilo jornalístico - o espectador de uma parte da sua História que era (é?!) até agora desconhecida, ao mesmo tempo que exerce uma função quase psicológica ao conferir uma possibilidade de descoberta e divulgação - aos familiares como parte interessada - do passado deste país de marinheiros e navegadores às gerações presentes que os sucederam.
Importante enquanto um registo histórico, A Um Mar de Distância surpreende pelo seu registo pessoal e informativo sobre aquela que é uma das actividades mais características de um povo que sempre teve no mar uma fronteira que quis conquistar e ultrapassar.
Undisclosed Recipients de Sandro Aguilar é uma curta-metragem portuguesa que mescla os géneros ficção, documentário e experimental numa simbiose quase perfeita.
Num registo durante o Festival Paredes de Coura, acompanhamos dois momentos. O antes e o depois de um acto afectivo ou de atracção enquanto a música percorre o espaço e os movimentos se confundem por entre a multidão.
Tendo a música como um dos principais intervenientes - personagens - Undisclosed Recipients ficciona uma eventual história entre dois dos espectadores, documenta o concerto em si e, finalmente, sem se assumir como pertença de qualquer um dos género, experimenta e navega por ambos entregando uma história original... mas diferente.
Sobrepostos tal como a música que nunca entoa uma melodia coerente ao ouvido do espectador, Undisclosed Recipients perde-se no registo dos movimentos - nunca perceptíveis - tentando enquadrar todos os actos, acções e comportamentos daqueles que se perdem no meio da multidão e desfrutam do concerto a que assistem. Ao mesmo tempo, e fora do concerto, esta curta-metragem tenta apresentar duas pessoas ao espectador. Dois intervenientes que se encontraram no meio do improvável - dada a multidão - e que se confundem no mesmo com os demais. Num registo de individual versus grupo, Undisclosed Recipients tenta contar uma história de amor (?), paixão (?), cumplicidade (?) quando, na prática, o espectador nunca chega a criar uma empatia nem com a história... nem com os seus intervenientes que são, de certa forma, anónimos tal como todos os demais.
Dotada de uma percepção assumidamente difusa, esta curta-metragem vive quase exclusivamente de uma brilhante direcção de fotografia de Rui Xavier que mescla ordenadamente luzes, sombras, vultos e momentos criando, dessa forma, percepções e potenciais conclusões na mente do espectador que se perde nas mesmas questionando o estado físico e mental das personagens e desafiando aqueles do espectador.
Num registo quase experimental que faz de Undisclosed Recipients uma curta-metragem nem sempre acessível ao espectador não pela falta da sua compreensão mas por se perder em caminhos desse mesmo (tentado) experimentalismo.
Un Día Diferente de José Luis Lozano é uma curta-metragem espanhola de ficção que retrata para o espectador um dia na vida de um sem-abrigo que aqui desperta para mais um conjunto de situações comuns àqueles que vivem sem tecto. Mas, o que aconteceria se este dia não fosse como os demais?
Esta brevíssima curta-metragem - cujo desfecho apesar de anunciado se torna como uma reflexão sobre os dias modernos - poderá ser considerada como uma interessante exercício sobre a condição humana na medida em que reflecte não só sobre as vivências diárias de alguém que não foi bafejado com a sorte da vida mas também sobre aqueles que tendo sido se demonstram como pessoas frias, indiferentes e amargas para com as situações adversas dos demais.
Se considerarmos que aqueles que se encontram na rua são, à partida, pessoas cuja vida se encaminhou para o rumo errado e que, como tal, tiveram de se ver a braços com escolhas complicadas, Un Día Diferente transforma-se assim numa versão alternativa desta escolha onde se descobre esse lado não por uma inevitabilidade mas sim como uma opção didática daqueles que não a tiveram. No fundo, o tal "dia diferente" aqui analisado é não tanto o daqueles que não tiveram escolha mas sim o daqueles que confortavelmente ignoram quem de forma silenciosa e anónima percorre as ruas sem hipótese de escolher.
Quase como uma lição de moral, o espectador é então forçado a ver que a sua existência pode ser má mas outros existem que sofrem não só com as dificuldades económicas e financeiras que os afligem mas também com a indiferença e crueldade que outros decidem de forma fria afectar quem já pouco tem.
Interessante de um ponto de vista social, Un Día Diferente poderia constituir-se como o nosso - do espectador - dia diferente... A questão apenas se coloca se estamos dispostos a aceitá-lo...
Un Par de Ciegos de David Esquivel é uma curta-metragem espanhola de ficção que centra a sua dinâmica na relação entre Ana (Bárbara Muñoz) - de Barcelona - e Simón (Juan Caballero) - de Madrid -, duas pessoas comuns como tantas outras que procuram um caminho que possa ser comum num mundo em que as distâncias podem complicar o seu futuro.
Esquivel brinda o espectador como uma história que se divide em dois distintos segmentos que, no entanto, exercem uma função de complementaridade entre si expondo, numa dualidade simultânea, a impressão de que apesar das duas histórias estarem a decorrer num espaço que, a mesma, se desenlaça com a distância de duas cidades em espaços opostos de um mesmo país. Se o espectador compreende que os protagonistas estão em cidades diferentes e com vidas profissionais já estabelecidas nas mesmas, é certo que esta viagem num local comum aparenta por diversos momentos estar a ocorrer em espaços distintos das suas vidas. Compreendemos a sua dinâmica em comum, os seus espaços e os seus momentos mas, ao mesmo tempo, existe um distanciamento físico entre ambos que se sente como um terceiro elemento não presente mas participante que os condena a um afastamento quase iminente.
Com uma dinâmica oscilante que opõe dois mundos, duas versões, dois pontos de vista e duas experiências a conviver sob o mesmo tecto (?!), o espectador perde-se sim por Un Par de Ciegos, mas sob a intensa história de cumplicidade criada entre "Ana" e "Simón" perdidos entre os seus mundos individuais e a possibilidade de criar um novo onde as suas experiências sejam partilhadas e percorridas sob uma mesma estrada.
Ukhilavi Sivrtseebi de Dea Kulumbegashvili é uma curta-metragem de ficção geórgia já nomeada à Palma de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Cannes na sua respectiva categoria.
Ela (Nino Shengelaia) pretende tirar um curso de contabilidade e assim conseguir mais rendimento para a sua casa. Mas, no seio de uma família tradicional onde o marido e homem religioso (Rati Oneli) ainda impõe as regras ditadas por uma sociedade masculinizada e onde a religião dita muitas leis.
Tudo tem o seu lugar... incluindo a mulher.
O argumento de Ukhilavi Sivrtseebi também da autoria de Dea Kulumbegashvili lança um olhar fortemente melancólico que desarma pela perspectiva de uma sociedade onde a mulher se encontra como um mero "instrumento" secundário sem poder de escolha ou decisão. Tal como o título desta curta-metragem refere, a mulher é aqui o "espaço invisível" que estando presente em todos os momentos das lides domésticas, da educação da filha e até enquanto mulher não toma, no entanto, papel activo nas decisões que são tomadas dentro do lar remetendo-se como um mero utensílio que obedece e pratica aquilo para que é ordenada.
É este ritmo de frustração a que é sujeita que a leva a lançar-se - também ela - enquanto elemento de poder sobre a única coisa que consegue - no silêncio - controlar, ou seja, "Mariam" (Mariam Dzidzikashvili), a sua filha. No entanto, não é menos verdade afirmar que é quando exerce esta força e este poder sobre a mesma - naquele que é possivelmente o momento mais emocionante desta curta-metragem enquanto ensaia com a sua filha - que esta mulher percebe que está indirectamente a exercer o mesmo tipo de acção que é exercido sobre ela. Ou seja, se por um lado se sente frustrado com a acção dominadora do seu marido que a impossibilita de fazer o que quer limitando assim as suas liberdades e poder de escolha, não é menos verdade que faz o mesmo com "Miriam" tornando a sua inocência e jovialidade de serem vividas com a alegria e a juventude de uma criança.
Ukhilavi Sivrtseebi torna-se assim num relato sobre a prisão. Mas não uma prisão qualquer. É um relato sobre a prisão exercida no espaço de maior conforto de qualquer um de nós... o nosso lar. O mesmo onde se devem viver e experimentar todas as liberdades que contribuem não só para um saudável amadurecimento e educação mas também aquele onde nos são dadas forças e confiança para um dia mais tarde poder ser enfrentado todo um mundo diferente que de si já têm - para connosco - as suas limitações instauradas.
Assim, aquilo que Ukhilavi Sivrtseebi pretende é entregar ao espectador um olhar sobre a forma como em certas sociedades o patriarcado se perpetua de forma assustadora e onde a modernidade chega sob um manto diferente. Tecnicamente todos parecemos ter as mesmas oportunidades, meios e liberdades mas na prática quando observamos certos lugares ou comunidades percebemos que o tempo avançou mas que não foi acompanhado pelas mentes daqueles que as compõem. Lugares esses onde as regras se definem de forma diferente, com hierarquias e rostos que controlam silenciosamente o poder que têm e lhes é conferido, excluindo o seu acesso aos demais esperando que todos se mantenham tranquilos e sem o questionar. Aos poucos os espaços deixam de ser tão invisíveis e a globalização, que tudo aproxima, permite o conhecimento e a informação que, como resultado último, deixam uma simples e pequena questão... "até quando?". Até quando se continuará a viver com uma sociedade hierarquizada com papéis supostamente definidos e com o poder de "um" sobre o "outro" tornando este último numa imagem distorcida e quase imperceptível?
O Último Dia de Um Homem Morto de Joel Rodrigues e André Agostinho é uma curta-metragem portuguesa de ficção na qual Alfredo (José Freixo) surge coberto de sangue e a arrastar o corpo de Joaquim (Joel Rodrigues) por umas escadas. Quando Joaquim desperta e percebe a sua nova condição em cativeiro, o espectador é levado a um passado em que conhece toda uma terrível história de dor física mas principalmente uma dor psicológica que destrói a mente humana.
Joel Rodrigues, André Agostinho, José Freixo e Diogo Silva assinam um argumento que roça os princípios do terror físico na medida em que praticamente toda esta história se desenvolve num espaço onde uma vítima enclausurada é sujeita à mais variada tortura mas, ao mesmo tempo, é também verdade que aos poucos percebemos que esta tortura é mais psicológica quando descobrimos quem é realmente "Alfredo".
A certa altura, e graças a uma sobreposição de imagem, o espectador compreende a complexidade de uma mente perturbada como é a de "Alfredo", um homem atormentado pela sua vida e experiências, que o condicionam a um estado de constante alucinação não distinguindo o "eu" do "outro" e até mesmo mesclá-lo num novo ser que o próprio não reconhece.
Quando a dor provocada pela vida intensifica um sofrimento já de si extremo, a mente, o pensamento e a consciência desligam-se da realidade vivida fazendo-a escapar para uma realidade paralela que o façam ignorar o momento que vive. Assim, num duelo entre o real e o imaginado, a verdade e a mentira, apenas uma alucinação extrema o conseguem fazer sentir-se vivo quando, na realidade, a vida escapa perante os seus dedos sem que disso se dê conta.
Com uma química presente entre os dois actores, Joel Rodrigues dirige-se a si próprio nesta curta-metragem mas, ao mesmo tempo, distancia-se do seu duplo papel para entregar um determinante protagonismo a José Freixo que encarna na perfeição o retrato de um corpo e de uma mente perdidos no seu próprio labirinto de dor que o fazem escapar à sua realidade entrando num domínio onde ele realmente se perde.
O Último Dia de Um Homem Morto é assim uma interessante curta-metragem sobre a dualidade do ser e da mente mas que, ao mesmo tempo, mereceria uma maior exploração das suas personagens, dos seus passados e das suas limitações que os transportaram àquele espaço e àquele local que estranhamente fazem parte do seu ser sem que, os próprios, sejam dali.
Um Rapaz Chamado Jaime de André Marques é uma curta-metragem portuguesa de ficção e o mais recente trabalho do realizador de O Anjo (2013).
O argumento desta curta-metragem, também da autoria do realizador, apresenta-nos Jaime (Henrique de Carvalho), um rapaz para quem a normalidade do seu dia-a-dia reside na violência a que é sujeito às mãos do seu pai.
Incapaz de se relacionar com os outros, Jaime tem uma invulgar forma de interagir com César (Pedro Ó Parente), aquele que parece ser o seu único amigo, e que irá determinar de forma dramático o resto da sua vida.
Num evidente salto qualitativo desde O Anjo, André Marques cria uma interessante história não só pela forma como aborda uma invulgar e escondida dinâmica familiar como, ao mesmo tempo, quebra o - um - silêncio sobre a violência física e sexual no seio da mesma de forma crua e quanto baste explícita. Para lá dos inúmeros relatos informativos dos quais tomamos conhecimento e que tantas vezes preferimos ignorar, em Um Rapaz Chamado Jaime o espectador entre não só dentro da mente perturbada e atormentada de "Jaime" como também dentro daquele que deveria ser o seu porto de abrigo... o seu lar. O que será que realmente acontece na mente daqueles que vêem e vivem no único local do mundo onde qualquer um se deveria sentir protegido e em segurança? O que acontece quando este local se torna naquele que mais atormenta a existência de alguém transformando-o numa zona de tensão e repúdio? E finalmente, o que acontece quando todo um ambiente de tortura física e psicológica são tidos como "normais" transformando toda a interacção humana num único e contínuo acto de violência?
Todas estas questões têm obviamente uma resposta. Uma resposta que não se avizinha desde o primeiro instante como sendo aquela que esperamos para um desfecho feliz - impossível depois de todos os momentos mais ou menos explícitos que presenciamos da "rotina" a que "Jaime" está sujeito mas que, ao mesmo tempo, desencadeiam todo um processo de auto-destruição.
"Jaime" está perdido... apenas ele não consegue ainda perceber isso. Incapaz de se sentir seguro no seu lar ou de estabelecer um qualquer tipo de relações de amizade ou afectivas com outras pessoas - percebemos aliás que boa parte da sua existência foi vivida neste estado de insegurança e com a ausência de uma mãe que fugiu do seu lar -, toda a atracção física se direccionam na imagem de "César" mas puramente num instinto animal que lhe é transmitido como sendo "normal". A afectividade não existe tendo sido destronada pela possessividade e violência e estas a uma manifestação de relação meramente carnal e tida pela força. Quando o afecto é desconhecido e a violência é um estado psicológico "normal" e o único que compreende como o correcto para se relacionar com os demais, o espectador percebe que "Jaime" está a uma curta distância de descarrilar definitivamente.
Com uma interessante direcção de fotografia de Teresa O. Sousa que capta não só uma luz interessante nos exteriores no primeiro segmento da curta-metragem como um ambiente tenso e pesado que parecem transformar aquele apartamento numa câmara de penitências escura e mórbida, Um Rapaz Chamado Jaime destaca-se não só pelo já referido argumento como ainda pela inspirada interpretação de um jovem Henrique de Carvalho como o jovem atormentado e preso dentro de um ambiente tortuoso, inseguro dos seus sentimentos e principalmente de como expressá-los e cuja inaptidão irão, a curto prazo definir o seu destino, no desempenho que o coloca afastado da "escola" que podem ter sido as novelas e no rumo como um potencial e interessante protagonista em cinema.
Um último e igualmente positivo apontamento às interpretações de Pedro Ó Parente que tendo uma interpretação secundária faz dela o ponto de desejo - e sem retorno - desta história, e ainda para Sérgio Mendes como "António", o pai abusador e violento que dá todo um novo rosto àquilo que facilmente poderemos identificar como um predador com o rosto do mal demonstrando que sem qualquer artifício ou caracterização este (mal) pode ter um rosto igual a tantos outros e bem mais próximo do que qualquer um de nós imagina.
Última Sesión de Natxo Fuentes é uma curta-metragem espanhola de ficção onde o cinema e a sua importância para uma comunidade são destacados de uma forma que evidencia a humanidade do espaço como daqueles que nele tiveram especial influência.
Uma noite determina o fim de um cinema mítico de uma cidade. Enquanto os silêncios se mesclam com a melancolia, quatro pessoas encontram aquele que pode ser o novo rumo para a sua história e para o seu futuro.
O realizador e também argumentista de Última Sesión cria aquela que pretende ser em primeiro lugar uma história de homenagem à magia do cinema. Mas não um cinema qualquer... Uma homenagem ao cinema enquanto arte e por sua vez, àquelas características salas de cinema de bairro onde tantos dos seus habitantes viram e fizeram a história da própria arte como de tantos filmes com os quais cresceram e viajaram por lugares mais ou menos imaginários e imaginados.
No entanto, Última Sesión transporta-nos ao interior daquela sala - agora relativamente vazia - que anuncia o seu próprio fim. O fim de tantos sonhos e de vidas inteiras que ali se formaram enquanto espectadores, enquanto críticos e enquanto seres que naquelas salas e entre aquelas paredes viram os anos - os seus - passarem com inúmeras histórias e experiências passadas. É aqui que os quatro intervenientes desta história se (re)encontram questionando o que foram as suas vidas - as do projeccionista e a de Enriqueta - e aquilo que poderá ser a benção última de um cinema para o futuro - de Iván e de Nuria - que se espera dê uma continuidade à magia mas agora real. Se por um lado o jovem casal encontra agora um potencial futuro e uma empatia que os faça encontrar a sua própria história, o casal mais velho que dedicara toda a sua vida àquelas paredes e a tantas histórias cinematográficas, encontra agora o motivo para, também eles, poder encontrar o seu caminho junto que fora durante tantos anos ora silenciado ora vivido numa cumplicidade não confirmada mas que agora necessita de ser "aceso".
De tantas histórias de amor viveu aquele espaço que, de certa forma, nunca confirmou aquela do par romântico que agora se vê "obrigado" a confirmar os seus sentimentos numa altura em que tudo parece condenado a um triste e mais ou menos esperado final. Se as histórias de amor foram, até então, no ecrã, é agora altura de as poder viver ao vivo, em carne e osso, com toque, sentimento, desejo, paixão e o dito amor até então não vivido.
O cinema como arte, como espaço físico e como local de experiências e vivências comuns entre aqueles que o amam, o sentem e o respiram é a quinta personagem - silenciosa - desta curta-metragem que vive e respira um património comum entre todos aqueles que fizeram História num espaço pelo qual navegaram e se sentaram na primeira fila e que nele encontram a possibilidade de dar continuidade a um rumo comum construindo, uma vez mais, as suas próprias histórias e aventuras.
Uma Cidade Entre Nós de Maria João Ferreira - também argumentista - é uma longa-metragem portuguesa independente que teve a sua antestreia nos Açores no passado mês de Janeiro e que nos apresenta a história de Joana (Ana Lopes) uma mulher casada com Diogo (Mané Crestejo) mas que se encontra secretamente com Bruno (Salvador Nery) por quem se sente atraída desde os tempos de faculdade.
No entanto, ao contrário do que Joana pensa, Diogo sabe que ela se encontra com alguém, e na relação de (in)dependência sexual que ambos estabelecem para viverem numa coexistência pacífica, ele não está disposto a abdicar do seu papel enquanto marido muito facilmente.
A realizadora e argumentista Maria João Ferreira consegue criar uma história que nos apresenta um curioso conjunto de personagens que se interligam numa rede de desejos e amores não cumpridos e que se completam pela dependência criada entre si. "Não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos", com este pensamento de Anaïs Nin começa Uma Cidade Entre Nós, fazendo adivinhar que todos mais não são do que um reflexo ou imagem daquilo que o próprio deseja que o outro seja... No fundo, neste conjunto de relações atribuladas e praticamente todas não cumpridas, temos um conjunto de personagens que vagueia pela indecisão e (des)compromisso em que reinam as suas vidas. O tempo passa e as pessoas amadurecem ou pelo menos assim gostaríamos de pensar, mas aquilo que a realizadora nos pretende mostrar é que por falta de coragem ou de compromisso, muitos deixam passar as pessoas, as situações e os momentos que, na prática, poderiam ditar - e comprometer - a felicidade de cada um.
No entanto, aquele vão desejo de liberdade que a juventude já passada insiste em manter, desfaz os sonhos de uma relação - uma que seja verdadeira - pois isso pressupõe, no pensamento de alguns, que se abdica automaticamente dessa liberdade e não que se comece uma partilha da mesma. Na prática, não é a falta de desejo em que o "outro" seja um complemento, mas sim o medo que esse assuma a tal perda de liberdade que se apodera destas personagens.
Mas não é tudo... Aos poucos conhecemos "Joana" (Ana Lopes) que vive numa intensa e imaginada independência que, segundo ela, é a condição máxima para gostar de alguém. Essa sua independência em se relacionar com quem deseja sem comprometer o seu casamento com "Diogo" é, ao mesmo tempo, o exacto elemento que a condiciona. Na prática ela deita-se com quem quer mas também não cria nenhum tipo de empatia ou cumplicidade com ninguém pois sabe que o marido a espera... No fundo a tão aclamada "relação aberta" tão na moda onde existe algo... sem existir. Mas "Joana" é uma mulher infeliz. Dividida entre o seu amor dos tempos de estudante e um casamento que apenas aparenta ser sexualmente feliz, ela é uma mulher indecisa e algo frustrada que vive entre alguém que "não tem" mas que ama... e alguém "quem tem" mas com quem apenas existe desejo.
Quer seja por pressão social ou de pares, "Joana" e "Diogo" casaram-se. Construíram as fundações de uma casa sem que, no entanto, dela tenham conseguido construir um lar. Vivem no mesmo espaço mas com vidas separadas e apenas se confirmam enquanto casal pelos momentos que passam juntos na cama excitando-se mutuamente pela provocação e pelo instinto mais selvagem e primário que ambos manifestam... mas que se transforma lentamente num sacrifício que dá lugar ao desprezo e à indiferença. "Diogo" é, por sua vez, o protótipo do yuppie que julga que as suas posses, a sua mulher e no fundo, ele próprio, são um troféu conquistado que precisa ser exibido e que com o qual tudo aquilo que quer pode ter. Não aceita um "não". O mesmo tipo de comportamento que com o passar do tempo faz (fará) dele um homem solitário e amargurado mas que tal como denota no presente... "enquanto pinga... dá para o gasto".
A completar o trio protagonista temos "Bruno" (Salvador Nery), o tipo com uma vida profissional estável mas que vive na sombra de um amor universitário que nunca lhe permitiu avançar para outra. Pacato mas interessado e disposto a lutar por quem quer ter a seu lado, "Bruno" apenas conta com a cumplicidade extrema de "Nuno" (Miguel Coutinho) - uma personagem que deixa a sensação de que teria muito mais para revelar como observador secundário de todas estas relações e dos tempos de estudante -, o amigo leal e confidente que tenta chamá-lo à razão para que avance com a sua vida e não se prenda por algo que nunca irá ter.
Mas não há protagonistas sem secundários que confirmam que uma boa história se completa com um interessante conjunto de personagens que suavizam a mesma com os necessários momentos cómicos. Anna Carvalho como "Zénite" e Luciano Gomes enquanto "Lombardo" cumprem essa missão na perfeição estabelecendo-se como aquelas duas personagens que tendo confirmado o seu espaço em Uma Cidade Entre Nós não têm, no entanto, o devido e merecido destaque que as suas personagens mereciam. E a confirmá-lo temos o final desta longa-metragem que é, nem mais nem menos, com os dois a embarcar para a sua viagem de sonho - e no fundo, aqueles que descobrindo as infidelidades e falta de amor alheios... revelam que o único sólido é o seu. Assim divertidos e com carisma, fica a sensação de que estes dois actores teriam muito mais a entregar às suas personagens.
Ainda que denote alguns elementos menos conseguidos nomeadamente a nível da coesão entre os vários segmentos que se cruzam por vezes abruptamente, o som nem sempre perfeito ou um final abrupto que teria espaço para mais meia hora de filme, Uma Cidade Entre Nós tem um interessante argumento sobre as relações sentimentais - ou sexuais - estabelecidas entre as personagens, e consegue ser uma surpreendente longa-metragem independente ao primar por um conjunto de segmentos que exploram a natureza humana, os seus desejos, a posse e a materialização (ou falta dela) de sentimentos maiores do que apenas alguns ocasionais e passageiros encontros. No fundo Uma Cidade Entre Nós questiona o espectador sobre a necessidade ou vontade de estabelecer uma relação afectiva - e como tal denotar um amadurecimento psicológico - em detrimento de uma ligação meramente sexual que aparenta ser momentaneamente satisfatória mas pouco compensatória a longo prazo. Todos querem sentir-se completos mas... à custa de quê?