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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Vitae (2020)

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Vitae de Jaime Fidalgo (Espanha/México) é a nova curta-metragem do realizador de Pico de Orizaba (2017) aqui numa história totalmente diferente onde não existe o confronto emocional entre dois homens mas sim entre o Homem e o Mundo que o rodeia ou, pelo menos, aquilo que dele resta.
Um homem (Raúl Insa) acorda num campo deserto. À sua volta todo um conjunto de papéis. Onde estará? O que o espera? Descobre-o quando encontra uma misteriosa caixa...
Esta breve curta-metragem - pouco excede os quatro minutos de duração - prima pela forma como se insere uma personagem da qual o espectador nada conhece, num espaço temporal desconhecido para o espectador. Primeiro, pela forte presença "física" de uma direcção que aproxima a câmara da personagem e esta, por sua vez, do espectador que o acompanha de muito perto, permitindo assim que todos os actos de "Raúl" sejam acompanhados ao milímetro mas, ao mesmo tempo, não conferindo qualquer elemento sobre "tempo" físico e emocional que o levou até àquele momento. Em segundo lugar porque o próprio espectador desconhece se aquele momento é uma realidade para o protagonista ou mesmo uma dimensão diferente que o isola dos acontecimentos que estão, de facto, a ocorrer pela presença numa vila que se assemelha a um espaço fantasma abandonado por qualquer forma de vida há largos anos.
É, no entanto, quando "Raúl" encontra uma misteriosa caixa no chão em condições que parecem confirmar que ali está apenas e só para ele - e estava - que o espectador compreende que o desígnio maior desta história se prende não com o espaço em que se encontra o protagonista mas sim com algo que (aparentemente) o mesmo havia esquecido algures no seu percurso. É esta confirmação - ainda que subtil - que virá segundos depois a ser corroborada por uma breve legenda moral que determina o fim de uma história que se quer inicialmente enigmática mas, finalmente, espontânea pela sua sinceridade.
Sempre acompanhado por uma música adaptada à mensagem principal desta história, Vitae é o recordar de pequenos elementos, histórias, sonhos, desejos e pensamentos que o protagonista - "Raúl" ou qualquer um de nós - construíram ao longo de uma vida e que tantas vezes permanecem encerrados numa caixa apenas para serem descobertos num momento de crise, de estagnação, de procura pelo "eu" mais íntimo ou até mesmo de incerteza quanto ao próximo passo que está por ser, num devir mais ou menos próximo, dado. Os tais "sinais" que são tão subtilmente colocados no caminho de todos nós e que são tantas vezes esquecidos quando decidimos inconscientemente olhar e procurar "no outro lado".
Sensível, pecando apenas por uma curtíssima duração que poderia na sua exploração ter desenvolvido mais o sentido enigmático que o espaço abandonado poderia ter proporcionado, e num registo que poderá ser um potencial desabafo pessoal do realizador face ao mundo ou a si próprio e aos desenhos que eventualmente também o próprio deixou no seu passado - a tal caixa que todos nós guardamos -, Vitae é, para lá de um registo de sonhos, a imagem daquilo que poderia ter sido.
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6 / 10
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

A Viagem (2019)

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A Viagem de Henrique Lopes (Portugal) foi a curta-metragem vencedora do Sophia Estudante na categoria Experimental que relata, na primeira pessoa, um suicídio consumado de um jovem que cedeu às pressões de uma sociedade moderna. "Já te suicidaste? Não! Eu já!"... assim se dá início a este inesperado e turbulento relato que ocorre na mente de um jovem com todo um percurso por fazer.
O seu caminhar, agora em espírito, pelo seio de todo um conjunto de jovens que revelam ter ignorado a sua presença em vida tal como a ignoram agora que ele já não se encontra entre eles - subjacente o princípio da depressão alcançado pelo sentimento de invisibilidade que lhe foi atribuído -, denotam uma angústia escondida e que lentamente consumiu o seu pensamento e a sua certeza de que em morte lhes foi tão indiferente como em vida.
Nesta sua breve passagem para um qualquer "outro lado", o espectador compreende não só a angústia deste jovem como a incapacidade de ser (ou ter) qualquer tipo de presença junto dos seus pares que vivem uma vida depressa demais onde tudo pertence ao instante... as conquistas, os amores, as paixões, as amizades e até mesmo a vida que é, nesta perspectiva, tão ilusória como qualquer outro momento, sentimento ou elo de ligação àqueles e àquilo que os rodeia. Neste momento levanta-se a grande questão quando aquele jovem questiona, de certa forma, quem é (foi!) ele verdadeiramente se ninguém deu pela sua falta ou pior... pela sua presença?! Terá ele realmente existido quando ninguém parece ter dado pela sua presença física?
Ainda que A Viagem se fala "sentir" por uma mensagem de cariz social que expõe a vivência de uma depressão por um "eu" que procura um lugar no mundo, sente-se também que o argumento desta curta-metragem reflecte ainda o pensamento de um jovem necessitando de um amadurecimento que apenas a idade - e as experiências - podem conferir ao mesmo. Sentido pela sua honestidade e alma que lhe são conferidos, esta curta-metragem surge como um interessante alerta para uma doença vivida apenas em comunhão com a dor e tantas vezes ignorada especialmente em jovens cuja incerteza do seu lugar no mundo os coloca numa involuntária fragilidade, a qual apenas se compreende quando a tragédia "bate à porta".
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6 / 10
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quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Violence (2019)

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Violence de Christian Meola (EUA) presente na décima edição do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta é, possivelmente, o filme que melhor encarna o espírito do terror moderno sentido e vivido na sociedade urbana na actualidade.
Acompanhamos aquilo que parecem ser vulgares polaroids de uma casa nos subúrbios de uma qualquer cidade norte-americana. Uma mulher no supermercado encontra uma polaroid perdida pelos corredores. A foto deixa-a em sobressalto.
As câmaras. A vigilância constante. Mas, estaremos nós a salvo nesta sociedade moderna onde tudo é observado a todos os instantes? Esta é a grande questão aqui levantada pelo realizador Christian Meola naquela que será muito possivelmente a mais terrorífica curta-metragem a passar pelo BAFF. Esqueçamos os filmes curtos onde o terror chega pela forma sobrenatural, pelos instintos assassinos ou mesmo por um qualquer elemento fantástico que insiste povoar o nosso imaginário colectivo. É um facto que todos nós temos medo do desconhecido, do irreal, das sombras e até mesmo de algumas daquelas histórias que permanecem na nossa mente desde crianças. Mas, o que acontece quando encontramos o terror literalmente no nosso caminho? Não um terror qualquer mas aquele que escutamos tantas e tantas vezes através de um qualquer relato de notícias ou mesmo pelo imaginário desse terror urbano onde a criminalidade parece tomar conta das ruas.
Meola consegue, nos escassos cinco ou seis minutos em que esta curta-metragem decorre, criar esse terror. O medo do desconhecido através daquilo que todos nós conhecemos. Um passeio pela rua... uma ida ao supermercado. Tudo é vigiado constantemente e nada parece ser deixado ao acaso ou fruto de uma qualquer distracção que se aproveitou da inocência alheia para marcar a sua presença. Violence é, para lá do prenúncio de uma qualquer violência física ou psicológica - que cedo se anuncia sob as duas formas -, um conto de terror que nos amedronta não pela impossibilidade do imaginado mas sim pelas possibilidades do real que lhe são conferidas pela violência urbana que se esconde atrás de um qualquer rosto que não será assim tão inocente como se adivinha.
Tudo é captado para o registo posterior mas, no entanto, todas as imagens caem no esquecimento pela incapacidade de realmente olhar para o que nos é fornecido. Aquilo que se transforma em comuns e banais elementos da nossa vida em sociedade - uma ida a um supermercado ou o registo fotográfico de elementos e momentos que nos são especiais - ganha novos contornos quando eles parecer ser uma espécie de aviso ou de indício de que algo está para acontecer (ou já terá acontecido) quando a realidade das imagens passam para lá daquilo que a nossa existência pacífica parece querer adivinhar. E, é quando aquela mulher apanhada de surpresa na sua realidade, encontra uma foto "inocentemente" perdida que o seu mundo se altera imediatamente... uma outra mulher atada. Presa numa qualquer divisão de uma casa que ninguém saberá onde é. Ou quando foi registada. Mas que nela se encontra um eventual destino de tortura que a deixou em condições não imaginadas mas compreendidas como de um extermínio registado. Aquele destino poderia ser desta outra pessoa que ali encontrou aquela fotografia. Num local comum... insuspeito... que todos frequentamos. E aqui é encontrado aquele que será o elemento mais medonho deste filme curto. Até que ponto poderá qualquer um de nós viver em tranquilidade depois de assistir a uma imagem tão perturbadora como aquela que ali foi deixada?!
O sentimento de perseguição e de tormento originado não só a partir deste instante mas, na realidade, desde que o primeiro registo fotográfico foi iniciado é, assumidamente, avassalador. O espectador compreende que nada é feito ao acaso e que se prepara para testemunhar um acto hediondo. Seja público ou privado - mais provavelmente -, nada é anunciado como podendo ter um final feliz e o jogo do gato e do rato teve o seu início e a sensação de prisioneira sentido por esta última mulher deixa-a inquieta e instável. Observada sem saber por quem. Incapaz de fazer frente a algo que desconhece mas que compreende ser propositado para ela.
O medo e a impossibilidade de reagir ao desconhecido. A certeza da vivência num mundo em que tudo é registado. O claustro público. A perseguição silenciosa. O medo do real e, finalmente a instalação do caos que precede o medo. Violence regista todos em breves instantes criando, ao mesmo tempo, aquela psicose que Amenábar conseguiu com Tesis (1996) ao deixar o espectador cúmplice deste registo macabro querendo observar todo e qualquer instante que lhe suceda mas sendo impossibilitado de registar esse horror no instante em que ele se irá confirmar.
Numa brevíssima descrição... Meola cria uma curta-metragem simplesmente brilhante e avassaladoramente assustadora que se doseia na duração perfeita para o registo do mal dando-lhe corpo, forma, tempo e espaço.
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9 / 10
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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Le Vent Tourne (2018)

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O Vento que Sopra de Bettina Oberli (Suíça/França) é uma das longas-metragens exibidas em Antestreia na décima-nona edição da Festa do Cinema Francês a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa até ao próximo dia 14 de Outubro.
Pauline (Mélanie Thierry) vive isolada nos Alpes Suíços com Alex (Pierre Deladonchamps). Enquanto tentam subsistir com o rendimento natural que os animais lhe providenciam, o casal recebe na sua propriedade uma jovem oriunda de Pripyat na tentativa de lhe proporcionar um melhor nível de vida... Mas é a chegada de Samuel (Nuno Lopes) à quinta que desperta nela um sentimento até então nunca sentido.
Bettina Oberli dá vida a um argumento do qual também é autora em colaboração com Antoine Jaccoud, Thomas Ritter e Céline Sciamma que apresenta uma aparente comunidade idílica no qual um jovem casal se pretende distanciar desse admirável mundo novo dominado pelas modernidades que as novas tecnologias - e até mesmo as "velhas" - lhes podem proporcionar. Independentes de qualquer aparenta regra desse mundo "lá fora", tanto "Pauline" como "Alex" estão refugiados dos ventos do século XXI graças às planícies escondidas pelos Alpes até ao momento em que finalmente se deixam levar por um dos engenhos que lhes poderão facultar luz e, como tal, uma maior autonomia laboral. Isentos dessa "mão moderna" no seu espaço, o casal parece querer estabelecer-se como uma nova comunidade hippie ao recusar a vacinação dos seus animais, não possuir rádio, televisão ou qualquer tipo de contacto com o mundo exterior para lá do estritamente necessário. No entanto, é com a chegada primeiro de "Galina" (Anastasia Shevtsova) à procura de um melhor ambiente natural que ajude a melhorar os eu estado de saúde e depois de "Samuel" por quem "Pauline" desenvolve uma imediata repulsa transformada posteriormente em atracção, que a sua vida com "Alex" se desmorona primeiro na sua relação enquanto casal, depois na sua cumplicidade e finalmente na vontade de continuarem pelo mesmo caminho de confiança.
O poder transformador de uma nova sociedade isenta da interferência alheia, resultou para o jovem casal na medida em que se refugiavam do mundo exterior nas suas vertentes mais básicas... Alheios a notícias, às inovações, à interferência de estranhos (todos aqueles que não habitavam no mesmo espaço que eles) e até mesmo a cuidados médicos para com os seus animais, confiantes que estavam do poder de uma Terra rejuvenescedora, tanto "Pauline" como "Alex" pretendiam transformar o seu espaço num novo mundo incapaz de, no entanto, conseguir satisfazer qualquer uma das suas necessidades... até mesmo as físicas e sentimentais. Mas seria, afinal, esse desejo partilhado? A chegada de "Galina" parece transformar "Pauline" numa mulher que o espectador não conhecia dando asas à sua jovialidade e a uma vontade de experimentar o mundo e aquilo que lhe pode ser proporcionado... primeiro sob a forma de uma nova amizade com a jovem com quem dificilmente comunica mas que lhe mostra a possibilidade de ser alguém, não diferente, mas mais receptivo àquilo que do outro lado da montanha a espera... e finalmente, com a chegada de "Samuel", a personagem de Mélanie Thierry conhece o desejo ardente de uma paixão sentida, de uma entrega física e psicológica capaz de a fazer compreender que ainda está viva e entregue a um mundo que, afinal, poderá não ser o seu ou para o qual não estaria tão direccionada como poderia pensar.
Se a estabilidade emocional de "Pauline" parece ser alterada na medida em que tem a sua "primeira" amizade, o seu "primeiro" grande amor e a sua "primeira grande revelação para com o mundo exterior - um paradoxo se o espectador pensar que se encontra num espaço sem barreiras, cancelas, fronteiras ou obstáculos que a permitem andar livremente por todo o lado -, estes funcionam como o seu despertar para uma realidade (in)conscientemente desejada e para a qual está disposta a lutar como a sua aparente nova realidade. O mundo tal como o conhecera até então já não a seduz ou tão pouco parece fazer sentido e, da mesma forma que os animais dos quais trata são abatidos, também o seu lado mais primitivo e consequentemente também irracional parece morrer e dar forma a uma nova e inesperada realidade... aquela de que o mundo "lá fora" poderá não ser tão nocivo quanto pensaria ou, pelo menos, tanto quanto aquele que defendera até então e no qual se sentia inserida como um dos seus elementos.
É esta percepção de "Pauline", bem como da sua nova realidade que a leva a querer expandir os seus conhecimentos - e potencialmente viagens - por todo esse mundo novo que, sabendo da sua existência, ignora como sendo uma possibilidade. Um mundo onde agora sente poder viver e crescer enquanto pessoa e talvez alcançar novos objectivos e metas que a sua clausura a céu aberto nas montanhas do Jura suíço lhe revelavam ser impossíveis... é apenas a compreensão de que aquele imenso mundo agora tornado pequeno onde tudo o que conhecera parece desaparecer lentamente - tal como a sua sensação de conforto e segurança - não lhe confere a concretização dos seus sonhos que a leva a desejar o desconhecido como o seu novo "limite" ou, pelo menos, a sua nova e (in)esperada realidade.
Com uma belíssima interpretação de Thierry - magnífica a sua iniciação à libertação na discoteca enquanto dança - secundada pelos belíssimos e convictos Deladonchamps e Lopes a funcionarem como os dois pesos da sua nova balança e uma imponente Shevtsova que liga essa ignição que a prepara para uma nova concepção de mundo, Le Vent Tourne será assim um esperado hino à liberdade de uma nova geração privada da possibilidade do "sonho" mesmo residindo num espaço onde tudo parece possível... mesmo o desejo de um mundo mais limpo e mais saudável que, no entanto, (n)os priva de saborear todas as possibilidades e, desse modo, conservador e proibitivo em toda a sua génese.
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7 / 10
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terça-feira, 24 de julho de 2018

Victoria (2016)

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Na Cama com Victoria de Justine Triet (França) que relata um momento da vida de Victoria (Virginie Efira), uma advogada na casa dos trinta anos de idade que procura o amor e a estabilidade sentimental enquanto tenta destacar-se na sua carreira profissional.
Num momento de mudança repentina e inesperada, Victoria vê-se envolvida num caso de agressão sentimental no qual está envolvido Vincent (Melvil Poupaud), um seu amigo e na companhia de Samuel (Vincent Lacoste), um novo assistente.
A realizadora em colaboração com Thomas Lévy-Lasne escrevem um argumento que pretende de forma realista revelar o mundo de uma mulher com uma carreira profissional intensa que, no entanto, não está disposta nem a abdicar do seu lado sentimental nem tão pouco da sua vida familiar como mãe. Mas, se esta tentativa parece honesta na sua concepção e, no fundo, na forma como pretende ilustrar o drama de tantas mulheres deste século XXI, a realidade é que a realizadora e argumentista transforma esta história num relato frenético de uma mulher que se assume desesperada e até mesmo descontrolada na sua vontade em equilibrar e conciliar todas as suas vertentes enquanto uma mulher destes tempos. Ou seja, se por um lado conhecemos "Victoria" como alguém que procura uma vida profissional estável, um casamento harmonioso e também um pai para os seus filhos por outro, aquilo em que ela se transforma está longe de ser ou ter qualquer tipo de estabilidade mas sim reflecte um total e completo descontrolo dela enquanto mulher, profissional e até mesmo mãe. Se a vontade era em revelar ao espectador alguém com objectivos, aquilo que chegou foi uma mulher incapaz de se manter coerente na concretização dos seus desejos.
Convincente a certo ponto, instável no momento seguinte, alegre e triste, segura e insegura, todos os estados de ânimo de alguém passam pela interpretação de Virginie Efira que, no entanto, não consegue dosear correctamente cada um desses momentos para que o espectador consiga encontrar credibilidade em cada um deles... Se de repente a encontramos como uma forte mulher e advogada com convicções muito próprias do mundo que a rodeia, é no momento seguinte que facilmente a vemos cair nos lugares comuns em que muitos a colocam... se é mulher... é frágil... se deseja uma vida sentimental e sexual... é leviana... se quer ser mãe... então que fique em casa não deixando a sua personagem assumir sim cada uma destas perspectivas mantendo-se fiel e coerente ao que cada uma deles representa para si e para o dito papel social que a mesma deve(ria) representar para tantas mulheres que poderiam - a seu tempo - encontrar nesta sua criação pontos de semelhança. Aqui não... tudo aquilo que se espera que a sua personagem não represente... facilmente se transforma numa bandeira caindo a mesma nos espaços que desejava nunca ter conhecido. Efira, por muito que tente distanciar-se dessa mesma noção pré-concebida, acaba por dela não conseguir sair, e o espectador aborrecido com algo que soa a pré-conceito desinteressa-se pelos caminhos pouco tortuosos de uma vida dita moderna.
Espectador esse que acompanha as várias dinâmicas desta mulher... conhece-a num casamento que desejava poder ser o seu... vê-mo-la num tribunal onde deveria ser coerente... mas encontra-mo-la a defender o indefensável com o recurso à "prova" absurda. Vê-mo-la no campo afectivo que tanto deseja... mas com recurso às novas tecnologias onde qualquer um pode abrilhantar aquilo que não é... Qualquer um que recebe em casa ao mesmo tempo que os seus filhos lá tem, falhando também aqui como exemplo parental. O espectador, que tenta não tecer qualquer conjunto de juízos de valor ou reprimendas morais para com uma personagem com quem até pretende criar laços de empatia e compreensão, definha com a incapacidade que sente em compreender uma mulher que parece ter parado numa adolescência não reconhecida tendo, no entanto, todo um conjunto de novas realidades que parece ainda não compreender.
No final surge então o único momento com o qual o espectador poderá criar uma empatia na medida em que é apenas quando perde aquele que sempre esteve ao seu lado, que se concretiza no seu pensamento de que a felicidade (a sua) esteve afinal por perto. Por perto mas tida como algo garantido que lhe escapou por entre os dedos pela falta de reconhecimento em lhe dar crédito e valor. Efira, possivelmente tão perdida quanto a sua "Victoria", divaga desta forma por um filme do qual teve todas as oportunidades para dominar mas que esqueceu controlar, deixando a sua personagem vaguear pela incerteza de alguém que ainda não descobriu onde queria estar... nem tão pouco com quem.
Victoria - Na Cama com - talvez só mesmo hipoteticamente ou pela noção da representação da condição da mulher numa sociedade moderna... Nunca por nunca pela realidade aqui pretendida, nem tão pouco pela imagem da mulher que se pretende séria e profissional, sentimental mas aguerrida mas que, no final, se revela um desastre ambulante sem qualquer noção de onde vem, onde está ou tão pouco para onde quer seguir. E para tudo isto comprovar... que se chame um cão a tribunal... talvez ele consiga ser de facto mais coerente do que esta "Victoria" em rota de colisão com uma ideia ficcionada de que a mulher (apenas por o ser) não é capaz de... simplesmente ser (algo... ou tudo).
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3 / 10
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sábado, 21 de julho de 2018

Valis (2018)

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Valis de Adrián Adamec (Eslováquia) remete o espectador para uma Europa em 2017 onde a sociedade já não é como inicialmente fora idealizada. Num espaço onde se pedia a comunhão de valores sociais igualitários, os tempos proporcionaram uma inesperada divisão onde a máquina controla o Homem. Poderá existir alguma salvação e regresso a um tempo onde a liberdade exista tal como fora imaginada?
Vast Active Living Inteligent System - VALIS... assim foi apelidada a primeira "forma de vida" que surgira através da intleigência artificial criada como forma a proteger a vida humana sempre em risco numa sociedade cada vez mais violenta. O argumento da autoria do realizador foca-se portanto no início destes tempos perturbados como uma abordagem a uma nova realidade onde o Homem tenta sobreviver numa vida social onde é dominado por esta nova forma de vida capaz de tudo dominar e impôr-se como o topo de uma pirâmide onde se assume como o mais apto para a dita sobrevivência.
Com o recurso a uma certa realidade social que lentamente se impõe nos nossos dias e a dramatização dos acontecimentos resultante também de uma certa adaptação da evolução tecnológica dos nossos tempos, Valis cria toda a sua estrutura a partir do pressuposto de que o Homem - de uma forma geral - abdica quase inconscientemente do seu papel numa sociedade em completa transformação para dar lugar à "máquina" que actua como o seu intermediário nas relações bi-dimensionais. Quando o perigo espreita ao virar da esquina, que outra forma de sobreviver senão criar uma manobra de interagir sem que a mesma exista na realidade?!
No entanto, cedo chega a questão que se impõe... até que ponto poderá o Homem manter-se no topo da já referida pirâmide quanto aos poucos, e com o passar inconsciente do tempo, abdica de todo o seu poder de actuação num mundo cujos riscos são cada vez maiores? Até que ponto poderá recuperar o seu próprio espaço quando tudo manobrou para que o perde-se?
Inteligente e por demais pertinente, Valis peca apenas pela sua escassa duração centrada quase exclusivamente na justificação desta "nova realidade social", e na forma (ou solução) encontrada pelo Homem para sobreviver na mesma primeiro tentando combater um mal que emerge pela sua própria mão, depois adaptando-se à sua mútua convivência e finalmente tentando-lhe sobreviver ocupando um lugar "na sombra", fugindo e recorrendo a uma forma de silenciosa resistência que espreita - agora - para tentar voltar ao seu lugar tido como "inato". Talvez um dia mais tarde surja a pertinente e esperada longa-metragem onde sejam exploradas mais vertentes da dinâmica Máquina versus Homem... ou Máquina versus Planeta... de que forma poderia esta sobreviver num globo que não foi feito... à sua medida?!
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7 / 10
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segunda-feira, 11 de junho de 2018

Vinterbrødre (2017)

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Vinterbrødre de Hlynur Palmason (Dinamarca/Islândia) é uma das longas-metragens presentes na Competição Oficial pelo Lince de Ouro do FEST - New Directors New Films Festival a decorrer em Espinho entre os próximos dias 18 e 25 de Junho.
Dois irmãos num mesmo ambiente de trabalho. Emil (Elliott Crosset Hove) e Johan (Simon Sears) fundem-se num conjunto de hábitos e rotinas que diariamente interpretam enquanto que, no seu seio, se fomenta não só uma violenta divisão quando disputam o amor da mesma mulher mas também entre eles e outra família após Emil ser responsabilizado e ostracizado pela morte de um dos seus.
O realizador e argumentista Hlynur Palmason recria neste conto de pouco mais de oitenta minutos a eterna história de disputa de irmãos e, ao mesmo tempo, a luta entre feudos opostos que pretendem estabelecer um qualquer domínio nas suas paragens afinal, não há tempo para medições fálicas que, curiosamente, são também aqui ligeiramente adaptadas à sua dinâmica. Tal como todas as tradicionais histórias nórdicas, também Vinterbrødre é um conto centrado num meio hostil inicialmente pelo próprio espaço gélido e enterrado num rigoroso Inverno como também pela própria dinâmica entre as diversas personagens que lentamente se revela tão gélida quanto a temperatura que se faz sentir "lá fora".
Tendo como pano de fundo uma atmosfera mineira e altamente masculinizada remetida para um espaço que aparenta distanciar-se da civilização tal como a conhecemos, os comportamentos entre as diversas personagens rapidamente se assumem de controlo, francamente físicas e com a presente tentativa de delimitação de território tal como presenciamos em breves mas distintos momentos onde o território é, literalmente, "marcado". Se a este conjunto de elementos juntar-se o facto de apenas termos uma única personagem feminina que é disputada dentro das mesmas quatro paredes, então aquilo que cedo podemos compreender desta história é que a ruptura entre os seus diversos intervenientes está prestes a acontecer e de forma relativamente violenta especialmente quando entende o espectador que tanto hormonas como testosterona colidem com os interesses individuais de cada um destes homens.
A união estabelecida entre este conjunto de homens, sendo ou não membros do mesmo grupo familiar, acaba por se transformar numa relação fraterna na medida em que convivem durante este longo período de tempo num mesmo espaço. Nenhum deles sai daquela comunidade para regressar à sua família - se é que a têm -, e todos confraternizam nos mesmos locais, entre si, conhecendo-se minuciosamente ao ponto de se amarem e odiarem em igual medida. Entre todos, é "Emil" que se destaca como o elemento marginal de todo este grupo não só porque parece ser aquele que desespera por uma vida diferente - concretize-se ela de que forma seja -, que (des)espera por alguém que o ame vendo essa possibilidade ser-lhe retirada quando o seu irmão se manifesta interessado na mesma mulher que ele e, finalmente, quando se incompatibiliza no local de trabalho com patrão e colegas que rapidamente o colocam como o elemento indesejado naquele espaço e, futuramente, também ao próprio irmão.
É então esta vontade de ser (ou ter) algo mais manifestada por "Emil" que o lança na sua própria espiral de decadência - principalmente psicológica -, tornando-se mais violento no seu habitat para com todos aqueles com quem convive e principalmente com o seu "eu" ao revelar-se incapaz de se manter tranquilo num espaço e incompatibilizando-se com tudo ao seu redor evidenciando, ao mesmo tempo, todo um comportamento para-militarizado como a única forma de se impôr e afirmar num ambiente que lhe é cada vez mais adverso. No entanto, é a execução dramática de Vinterbrødre que poderá afastar o espectador da sua história, centrando-se mais na capacidade de tentar relacionar-se com as suas personagens (nem sempre fácil) e observando com mais detalhe o ambiente em que se encontram perdendo-se, dessa forma, daquilo que acontece com as mesmas.
Assim, estes "irmãos de Inverno" - tradução literal do título desta longa-metragem numa clara alusão a esta irmandade temporária que ali se forma -, centra-se portanto na dinâmica de um elemento com o seu grupo primário e com a comunidade em que se encontra "inserido" (nunca totalmente), esquecendo - o argumento - a profundidade desta personagem lançando-a numa nem sempre justa avaliação por parte do espectador que observa as suas acções individuais e em grupo distanciando-se da sua aparente perda de noção e de consciência que rapidamente considera como fruto de alguém prepotente, individualista e até mimado não querendo preocupar-se com aquilo que (talvez) está inerente nas mesmas, ou seja, um crescente desespero por ser alguém dentro desse grupo e não apenas um dos seus membros que, sem essa loucura, seria anónimo para o mesmo e principalmente em relação àquele com quem mantém o maior conflito pessoal... o seu irmão.
Interessante se o espectador se preocupar em aprofundar mais para além daquilo que é oferecido - afinal, é nos pequenos e subtis detalhes que se encontra toda uma história por explorar - e pela sua belíssima direcção de fotografia da autoria de Maria von Hausswolff que capta toda uma luminosidade própria de um Inverno solitário mas, pelo já mencionado, Vinterbrødre é uma daquelas longas-metragens difíceis de criar uma certa empatia logo de início e que poderá distanciar o espectador menos paciente.
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6 / 10
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quinta-feira, 17 de maio de 2018

Venux (2017)

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Venux de Emanuele Chianelle (Espanha/Itália) é uma curta-metragem que revela ao espectador Laura (Verónica Morales) que se atrasa para o aniversário de Leo (José Manuel Poga), o seu namorado. Este acto involuntário que tudo pode colocar em risco, cedo se transforma no momento em que Laura consegue salvar a dinâmica do casal... mas, a que custo?
O realizador e Juanma Cabañas Santo escrevem o argumento de uma história que surpreende não pelo seu conteúdo inicial mas sim pela forma como dele se aproveita para no final, prender o espectador com a sua originalidade. Ao espectador são reveladas duas personagens... A primeira é "Laura", uma mulher centrada em "algo" que  o espectador desconhece mas que compreende ser determinada e centrada num qualquer propósito que defende... Indiferente para com a dinâmica com um namorado que aparenta ter "controlado", as pequenas coisas que os transformam enquanto casal parecem momentaneamente ameaçadas pela falta de vontade em comunicar com "Leo" - a outra personagem. Este, relativamente mais centrado na sua relação e firmemente preocupado com a ausência sentimental - e psicológica - da sua namorada, revela-se como um homem potencialmente possessivo mas que, afinal, apenas pretende manter viva a tal chama que dê sentido e continuidade a uma relação a dois. Preocupado em tudo saber sobre os passos de "Laura", poderá "Leo" afinal controlar o seu impulso?!
Num universo no qual se confunde a dinâmica da relação sentimental com aquela que é potencialmente mais intensa - sexualmente falando -, ao espectador são revelados pequenos elementos que afastam a história de Venux de um qualquer conto sobre as relações amorosas modernas deixando-a, no entanto, mais exposta a uma dinâmica de "filme dentro do filme" que não é necessariamente o seu ponto mais forte apesar de manter a sua originalidade graças a este factor.
Se surpreende no final? Surpreende... se o espectador compreende algumas das inseguranças até então apresentadas? Claro que sim. No entanto, são estas que fazem com que o espectador perca a dinâmica ou a empatia estabelecida com esta história, compreendendo o seu significado mas tarde demais para que este filme curto seja, mais tarde, recordado.
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5 / 10
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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Le Vivre Ensemble (2017)

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Le Vivre Ensemble de José Luis Santos (Espanha) é uma das curtas-metragens presentes na secção oficial Cantábria da nona edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos que amanhã termina na referida região espanhola.
Julien dirige uma escola nos arredores de Paris. Depois do atentado ao Bataclan, recebe do Ministério as novas directrizes face às ameaças com que agora se deparam e, entre elas, a obrigatoriedade de efectuar simulacros com as crianças dos 3 aos 11 anos de idade. Num momento em que tudo está em risco, Julien tem de decidir entre preservar as duas vidas ou a sua inocência...
A brilhante curta-metragem Le Vivre Ensemble, cujo argumento é também da autoria do realizador José Luis Santos, é um daqueles filmes que apanha e prende o espectador num estado de perfeito suspenso. Num mundo em que as histórias de amor já não são o que eram e onde todos os riscos de uma sociedade moderna estão invariavelmente ao "lado" de todos nós, aquilo que seria inqualificável é, nestes dias, a mais triste e dura realidade... Assim, num mundo onde os conflitos eram coisa de "adultos", como equacionar que a até então inocência das crianças seja agora ameaçada pela extrema necessidade de lhes ensinar que o "lobo mau" existe de facto... e que pode atacar a qualquer momento?
Le Vivre Ensemble é portanto aquela curta-metragem que tem como ponto de partida os trágicos acontecimentos dos atentados terroristas de Paris e que os exporta para esse imaginário infantil da forma mais crua e dura imaginada. Quando todos nós imaginamos que o perigo está lá longe do outro lado do mundo, eis que ele espreita e revela que pode estar aqui na porta ao lado... assim, como fazer destas tão jovens crianças elementos fundamentais de uma história que pode ser trágica mas da qual se necessita que retirem lições de vida que, um dia podem de facto salvá-la?!
A dureza dos momentos a que o espectador assiste não estão necessariamente num qualquer massacre pois este está - para todos nós - como uma peça fundamental de um passado ao qual não se assiste. No entanto, quando no reboliço de uma Paris ferida de morte se tentam capturar criminosos que se aproveitam da vida comum e diária de todos nós para espalhar o terror, eis que surge a necessidade de resguardar e proteger aqueles que são mais frágeis, inocentes e incapazes de se defender... as crianças. Crianças que se encontram em espaços públicos como o são as escolas e que pela política de "porta aberta" são um alvo fácil para aqueles que pretendem espalhar esse (que lhes é) tão desejado terror. O terror com rosto humano, tão difícil de ser identificado, mas que pode entrar sem ser anunciado e ameaçar a existência dos mais inocentes como forma de afectar adultos. O terror pela eliminação das gerações futuras que perpetuarão aquilo que (para o terror) é considerado um modo de vida corrompido e indesejado mas que se estabelece nos princípios de uma igualdade inata entre todos. Esta inocência que poderá deixar de o ser (ou ter) quando confrontada com os malefícios de políticas fundamentalistas daqueles que não desejam a comunhão igualitária e que definem fronteiras e leis ditas "sagradas" como a única forma de vida que pode existir.
Neste Le Vivre Ensemble o espectador assiste portanto a um conjunto de momentos que, de forma súbtil e bem encenada, se apresentam como as novas normas de seguranças e principalmente de sobrevivência numa sociedade já ameaçada e ferida pelo terror daqueles que procuram a desordem e o caos. Mas estas novas regras de ensino são levadas às crianças não como um alerta sobre o medo que espreita mas sim de forma a que estas possam aprender, através de velhos fantasmas das histórias infantis, como sobreviver sem perderem aquilo que mais as caracteriza na sua jovem idade... a sua inocência. Num mundo dramaticamente alterado, a vontade de preservar uma inocência que se desvanece de dia para dia é, em certa medida, uma necessidade tão grande como aprender a ler, escrever e contar...
Assim, e por entre esta nova forma de viver, de ensinar, de aprender e até mesmo de sobreviver... o "lobo" do qual tantas histórias infantis falavam não é apenas uma figura mitológica representativa de um mal etéreo e simbólico mas sim uma figura real e possivelmente tão mais ameaçadora ao poder surgir sob a forma de alguém que é, na prática, tão igual a estas crianças às quais se tenta preservar a sua inocência não sem antes as fazer entender que esse perigo existe... e pode estar mais próximo do que aquilo que qualquer um de nós imagina. No final o espectador questiona-se... o que fazer se o tal "lobo" aparecer?! A resposta não poderia ser tão ou mais assustadora como a própria pergunta em si...
Drástica e compulsivamente emocionante, Le Vivre Ensemble é seguramente um dos mais intensos e fortes "guias" dramáticos para a triste realidade em que este nosso novo mundo se encontra, fazendo dos antigos contos infantis uma inesperada realidade e da sobrevivência uma constante necessidade... mesmo que para tal tenhamos de, finalmente, compreender que o tal "lobo mau" existe de facto.
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domingo, 4 de março de 2018

Vazante (2017)

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Vazante de Daniela Thomas (Portugal/Brasil) presente na secção competitiva do FESTIn - Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa que leva o espectador a uma viagem ao Brasil de 1821 - pré-independência - onde António (Adriano Carvalho), um rico fazendeiro descobre que a sua mulher morrera durante o parto aquando da sua ausência. Na sua propriedade reside com diversos escravos africanos e António, agora viúvo, vê em Beatriz (Luana Nastas), sobrinha da sua mulher a oportunidade de recomeçar uma nova família.
Num mundo que se encontra numa desconhecida transformação, conseguirá António resistir-lhes ou terá de se adaptar àquilo que é inevitável?!
A realizadora e Beto Amaral assinam um argumento que não poderia ser mais actual. No entanto, começando pelo princípio, aquilo que o espectador aqui recebe é um breve mas intenso relato sobre os últimos momentos de um Brasil colonial onde a vontade dos velhos costumes de uma comunidade portuguesa habituada a esse passado se imiscuía com os desejos, vontades e até certo ponto costumes de uma comunidade também ali "estrangeira" que esperava por novos ventos que apenas aos olhos da actualidade se sabiam próximos. "António", rosto desse passado colonial é um homem enriquecido. O espectador desconhece quais as formas pelas quais obteve os seus dividendos mas percebemos que recorre à mão-de-obra escrava, barata, cativa e, como tal, forçada para os obter. Encontramo-nos num Brasil profundo distante de todas as grandes cidades e a viagem para ali chegar - compreende-se - leva vários dias. A comunidade, ainda que próxima em termos geográficos, delimita-se pelo espaço em que cada um dos seus membros vive; "António" num casarão semi-abandonado, o seu cunhado e mulher num espaço mais pequeno e finalmente os escravos na área limítrofe da propriedade onde, ao estilo de uma avenida principal, determinam os seus dias num silêncio quase invisível tal como a sua própria existência.
Assim, e condicionados pela sua existência em comunidade num espaço distante de toda a réstia de civilização - ainda que esta ensombrada pelos ditames violentos de um reino em plena decadência onde a escravatura é um modo de vida e de enriquecimento -, toda a propriedade de "António" é o fruto não só da sua própria lei - não controlada por ninguém - e da sua vontade enquanto dono e senhor. Mas a hipocrisia desta suposta "lei" não termina quando o espectador conhece a forma de estar de um proprietário e senhor que abomina os costumes dos seus escravos mas, no entanto, não só os utiliza para o seu enriquecimento como principalmente para saciar os seus prazeres carnais. "Feliciana" (Jai Baptista) é uma das suas escravas. A sua (silenciosamente) predilecta e que o acompanha quando nada mais existe. "Feliciana" é mãe de "Virgílio" (Vinicius dos Anjos) e, com o decorrer desta história, o espectador desconhece se não será ele o fruto de uma relação entre patrão e escrava que nunca poderia ser reconhecida. Aliás, é depois do casamento entre "António" e a sobrinha "Beatriz" que o espectador compreende que tanto a nova "senhora" como a sua escrava estão ambas grávidas... supostamente do mesmo homem. Ou será que uma latente paixão entre "Beatriz" e "Virgílio" já deu os seus próprios frutos? Poderá "António" ser avô de um filho de "Virgílio" com a sua própria mulher?
Estas questões, que nunca serão respondidas em Vazante mas apenas fruto das conjecturas dos espectadores mais ávidos de uma teoria da conspiração, ecoam ao longo desta história centrada sim nas condições desumanas da escravatura mas principalmente, na loucura de um colonialismo que impunha uma ordem moral que o próprio não respeita ou ao qual dá contas e sim na disputa de um poder que eventualmente se compreendia perdido - ou ameaçado - explícito essencialmente nos segmentos finais onde para impôr uma certa força, o esclavagista "António" assassina não só o recém nascido filho da sua mulher - que sabemos ser filho de "Virgílio" -, com o próprio rapaz (talvez seu filho) e ainda "Feliciana", a sua escrava preferida como marca última dessa demonstração de poder.
De forma arcaica e marcadamente violenta, "António" surge portanto como o último marco da escravatura presente nesse Brasil profundo, na medida em que os seus comportamentos espelham essa prática mas também pela forma como nunca conseguira "domar" (tal como pretendia) uma jovem mulher que perdida na loucura do espaço comunitário se assume como o rosto desse novo (porvir) país ao abraçar o jovem filho de "Feliciana" (e de "António") como aquele que viria a substituir seu... morto por um homem perdido na sua incontrolável raiva ao qual decidiu dar o nome de traição.
Vazante - município no Estado de Minas Gerais -, é assim o rosto daqueles instantes finais de uma certa loucura e decadência do Império. Retrato de um poder extremista e extremado que tenta impôr pela força, pela repressão, pela humilhação e pela simples vontade de poder mandar. Aquele poder que decide entre a vida e a morte. Entre a permissão e o proibido. Entre a liberdade (inexistente) e a transgressão. E é aqui que entra a inicialmente referida menção à actualidade. Neste mundo industrializado, supostamente informado e cada vez mais livre e democrático, como não estabelecer próximas relações para com este Brasil agora a braços com restrições de liberdades e com graves choques de classes que opõem uma grande maioria cada vez mais pobre a uma "elite" conservadora e para quem os direitos parecem estar garantidos de berço?
Com uma magnífica interpretação de Adriano Carvalho que se impõe nesta longa-metragem como o tranquilo rosto de um mal presente, e dotado de um ritmo muito próprio típico de todos os filmes de época, Vazante brilha não só por essa reconstituição histórica mas também, e sobretudo, pela forma como Daniela Thomas filma essa espiral de violência decadente e louca tradicional de todos os fins... mas principalmente esperada para todos os novos começos como aqui o era para este novo (então) Brasil.
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sábado, 2 de dezembro de 2017

Vou-me Despedir do Rio (2017)

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Vou-me Despedir do Rio de Pedro Cruz e David Gomes é um documentário em formato de longa-metragem presente na competição oficial da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra.
Por desconhecidos caminhos de um interior perdido, fotografias de um antigamente são observadas por alguém que delas fez parte. À medida que um homem percorre esses caminhos, depara-se com um entrelaçar de fios que são criados pelas mãos de uma mulher. Ambos, tal como muitos outros, fizeram parte da vida de uma fábrica que aquelas fotos perdidas e lançadas ao rio retratam.
O espectador depreende instantaneamente que a história e a memória retratada naquelas fotografias fazem ambas parte de um percurso colectivo de um povo e de uma região que dependiam directa e economicamente do passado de uma fábrica ali imortalizada.
Desta forma Vou-me Despedir do Rio é um documentário quadro de um passado e de um presente de uma povoação desertificada e abandonada devido à perda de formas de subsistência que faziam sobreviver os destinos da mesma bem como de uma população que envelheceu e que se perdeu por outras paragens à procura de novos destinos.
Algo romantizado por diversos momentos na medida em que explora o lado nostálgico de uma localidade, de uma fábrica e de uma população agora esquecidas, Vou-me Despedir do Rio transforma-se - ao som de cantares populares - um conto sobre o fim dos tempos num determinado local e numa época específica.
Interessante e reflexivo sobre as marcas do passado e os seus efeitos no presente e potencialmente até mesmo no futuro, Vou-me Despedir do Rio é portanto um relato final sobre uma portugalidade já relativamente esquecida quase encarada como um conto fantasioso que todos já desconhecemos.
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6 / 10
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sábado, 4 de novembro de 2017

Victoria and Abdul (2017)

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Vitória & Abdul de Stephen Frears é uma longa-metragem britânica e a directa sequela (sem o ser) de Mrs. Brown (1997) na qual a actriz Judi Dench volta a encarnar a Raínha Victoria.
Se em Mrs. Brown, a Raínha Victoria chorava a recente morte do marido que a levara a afastar-se dos olhares dos seus súbditos encontrando, posteriormente, consolo no seu empregado Brown (Billy Connoly), em Victoria and Abdul o espectador é levado até à comemoração do seu Jubileu onde, para homenagear o seu papel enquanto Imperadora da Índia, Abdul Kareem (Ali Fazal) é enviado para Inglaterra demonstrando dessa forma não só a diversidade do seu Império como também o seu papel enquanto conciliadora de todos os seus habitantes.
Envelhecida e farta do protocolo que a corte pedia, Victoria (Dench) é uma mulher pouco preocupada com as aparências, com as práticas e as normas de um Império que percebe... estar prestes a abandonar... Até chegar Abdul.
O espectador encontra-se em 1887. Da Índia colonial dominado pelo todo poderoso Reino Unido numa sociedade dividida por classes e onde tudo tem forçosamente o seu lugar próprio não podendo existir qualquer tipo de mistura - quer das classes quer das etnias -, Victoria and Abdul é não só o retrato de uma monarca na última etapa da sua vida como principalmente a sua vontade de reerguer-se num mundo onde volta a encontrar o poder de uma amizade fiel e digna livre de constrangimentos e hipocrisias que sentia - até então - por parte de todos aqueles com quem privava mais directamente.
Aquilo que se destaca no imediato para o espectador mais atento é a radical transformação da Raínha entre as duas obras. Separam-nas vinte anos reveladores de uma vida - não só para a actriz como obviamente para a sua personagem - conferindo-lhes (Dench) não só a omnipotência de um vulto real como obviamente aquela de uma actriz enorme como o é actriz britânica. Se em Mrs. Brown a "Raínha Victoria" de Judi Dench era uma mulher marcada pela perda - do marido - neste Victoria and Abdul voltamos a encontrá-la novamente marcada por essa perda mas, no entanto, agora algo mais profundo... não só a solidão que a sua velhice lhe confere mas também o abandono de todos aqueles que sempre amou... um marido, alguns amigos mais próximos, um velho amante e até mesmo alguma presença enquanto monarca absoluta de um Império que agora pouco controla para lá da imagem fugaz e simbólica que representa no e para o mesmo.
Mas, todo este núcleo emocional de e para com ela e o seu meio "natural" e fortemente abalado quando esta mulher é confrontada com a chegada daquilo que qualquer um de nós diria como "ar fresco" que a retiram da sua espiral de decadência entregando-a novamente aos prazeres da curiosidade, do fascínio e da descoberta com a presença de "Abdul" (Ali Fazal), um indiano muçulmano com quem decide não só aprender a sua língua - poluída para os costumes da corte - como alguns dos costumes que iriam abalar a corte ultra-conservadora e que via assim abalada a sua existência por não conseguirem oferecer a esta mulher o conforto e a tranquilidade de espírito que "Abdul" lhe conferia.
A transformação de Dench - ou melhor... de Victoria - é por demais evidente... de um jantar entre monarcas e respectiva corte onde não só ignora todos os convidados à sua volta como também as suas conversas, as suas polidas maneiras e, no fundo, toda uma hipocrisia que já não tende a tolerar e que para lhe escapar... até adormece, para uma descoberta pelo desconhecido que o seu novo hóspede lhe confere ao ponto de se tornarem cúmplices, confidentes e até mesmo travar uma amizade impossível num meio que esperava ansiosamente pela sua morte para poderem fazer girar as influências e uma pirâmide social já estabelecida há muito. Incomodando uma corte podre por dentro e criando inimigos onde nem sequer os imaginava ter, "Abdul" transforma-se assim num estrangeiro não só dentro do palácio como também no país que o acolheu apenas quando possui a sua protectora então desaparecida.
Dench, magnífica desde o primeiro instante não por irradiar toda uma opulência esperada de uma raínha mas sim por dignificar a imagem da mesma com igual pujança como aquela sentida em Mrs. Brown - ainda que marcada pelos já referidos vinte anos de distância transformando-a numa mulher em plena fase de decadência física mas nunca emocional ou psicológica como, a certa altura, a própria faz questão de mencionar - e afirmando-se como a monarca toda poderosa que a própria História recorda, é capaz de entregar ao espectador não só essa magnificência como principalmente toda a sua fragilidade enquanto uma mulher marcada pelos anos, pela História e, sobretudo, pela perda daqueles que mais amou.
"Abdul", curioso mas distante, dedicado mas sempre no seu lado da barricada, desenvolveu um fascínio por esta mulher que nunca abandonou. Ainda que obrigado a estar sempre do seu lado da porta e nunca interferir na presença de outros, a interpretação de Ali Fazal prima não só pela dignificação da sua personagem sempre ao lado não da mulher nem da monarca mas da amiga que conquistou respeitando, mesmo depois da sua morte, a sua memória. Despojado, por ordem do seguinte Rei (filo de Victoria) dos seus bens (em Inglaterra) e da memória que o poderia ter colocado naquele local, "Abdul" manteve a sua integridade e o seu respeito pela amiga e não, tal como ela, por todo o meio repleto de hipocrisia, lutas e jogos pelo poder ou mesmo interesses que em nada o moviam num espaço que, afinal, também não era o seu.
Ainda que repleto de pequenas grandes sequências sobre as intrigas palacianas ou mesmo da revalidação da imagem da mulher-Raínha, Victoria and Abdul não se centra tanto nestes momentos mas sim naqueles em que a monarca, então afastada da vida tal como ela é, ganhou um novo impulso para apreciar os pequenos prazeres que ainda lhe restavam. Uma conversa, uma descoberta, um conhecimento, uma língua nova ou até mesmo um fruto que nunca provara fazem "Victoria" regressar a uma vida que julgava já não ter... ganhar (ou reclamar) mais uns dias e esperar que todo o seu recente sofrimento pudessem ser dissipados com a presença de alguém que, na realidade, a fez voltar a querer viver.
Longe de um drama assolapada pelos feitos de uma monarca cujo reinado foi - até então - o mais longo da História Britânica, Victoria and Abdul é sim uma história que pretende não só fazer justiça a um vulto esquecido da História como também expôr - ainda que de forma pouco acentuada - o equilíbrio encontrado nas diferenças que, em vez de separar e dividir, aproximam as pessoas sedentas de conhecimento, de descobrir e principalmente de fazer renascer a curiosidade de encontrar semelhanças ou pontos de interesse no "outro" pois, afinal, quando analisadas todas características dessa "diferença"... existirão assim tantos opostos ou serão as semelhanças que, no fundo, fazem aproximar e despertar a tolerância?
Mais espaçado no que diz respeito à congruência da história aqui contada como pequenos factos ou relatos dos últimos dias da raínha do que aquilo que se fazia sentir com Mrs. Brown, Victoria and Abdul não deixa de ser mais um estimulante desafio colocado a Judi Dench que, uma vez mais, faz vibrar com a sua presença impondo-se tal como ela é... uma verdadeira lenda que prende o espectador cativando-o desde o primeiro instante. O espectador sente a sua força, a sua determinação e o seu empenho a dignificar um vulto mesmo na sua queda física e, em diversos momentos, até mesmo emocional. Não será a obra mais de Dench... mas mente quem não sente um certo prazer em ver a dramatização da sua personagem e aproximar-se dela nas suas falhas, incertezas e até mesmo defeitos de alguém que sabe já não agradar... não querer agradar... e que simplesmente decidiu que os seus últimos passos serão dados como ela quer... e não como o mundo (neste caso a corte) espera que ela os dê.
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7 / 10
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sábado, 30 de setembro de 2017

Villaviciosa de al Lado (2016)

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Villaviciosa de al Lado de Nacho G. Velilla é uma longa-metragem espanhola de comédia que conta a história da pequena comunidade de Villaviciosa famosa pelas suas termas que atraíam um elevado número de turistas até ao dia em que um é acidentalmente morto nas mesmas.
Com o encerramento das termas e iminente falência da comunidade, tudo ganha um novo contorno quando Mari (Carmen Machi) a dona do bordel local, ganha o El Gordo.
O realizador em colaboração com Oriol Capel, David S. Olivas e Antonio Sánchez recuperam a tradicional comédia espanhola naquela que é uma ligeira e bem disposta longa-metragem que, sem pretensões a mais, se assume como um simpático momento de descontracção cinematográfica. Num ritmo que faz adivinhar que tudo está prestes a ruir, Villaviciosa de al Lado começa por apresentar aquela que aparenta ser a tranquila e pacífica vida de uma vila interior, até ao momento em que o espectador conhece todos os não tão velhos ressentimentos que povoam as mentes daqueles que nela vivem. Numa comunidade que se crê sacro-santa e onde todos os valores e bons costumes são respeitados, aquilo que emerge é que, no final, todos se respeitam apenas por questões de aparência e não pela crença de que ali... todos são iguais. Nem o padre é moralista, nem todos os casamentos são fiéis ou tão pouco as prostitutas lá da vila são, afinal, bichos imorais e destruidoras de casamentos. Como diz a "Mari" de Machi a seu tempo... "un pueblo no muere de viejo... muere de enfermo".
Os momentos mais interessantes de uma história que é banal, regular e em boa medida esperada pois afinal, vive de um elevado conjunto de lugares comuns, acabam por ser aqueles que se constituem como as maiores concentrações de humor - aquilo que em doses bem contadas -, nomeadamente aqueles (breves) em que o espectador é levado até ao interior da "casa de meninas" - brilhante o segmento de introdução à sexologia - e também às inúmeras desventuras de um conjunto de habitantes que se deixam levar pela agonia de uma sobrevivência que parece ter os seus dias contados.
No entanto, se é real que Villaviciosa de al Lado consegue revelar o lado mais humano de todas estas improváveis personagens, este "real" não vem apenas acompanhado dos seus momentos mais fraternos e altruístas mas também de uma certa cumplicidade com os prazeres mais íntimos da auto-promoção. Afinal, quantos deles esperam realmente o bem da sua pequena comunidade e não um certo enriquecimento que os consiga promover e manter no status que detêm distinguindo-se, dessa forma, de todos os demais que pouco têm e sobre quem eles acham que devem continuar sem ter?! "Mari", uma mulher marcada pela tragédia e acometida pela tragédia mas condenada à opinião alheia, tem agora a sua oportunidade de se distanciar daqueles que lhe apontaram o dedo e fazer justiça numa comunidade que lhe virou as costas mas que, na sombra e no silêncio, continuou a viver com a sua presença e alguns até com os favores e serviços que o seu "negócio" prestava.
Típico retrato de uma qualquer pequena comunidade onde as aparências valem tudo, onde o dinheiro consegue falar mais alto e os desfavorecidos continuam sempre a ser a base de uma pirâmide social que descrimina, Villaviciosa de al Lado destaca-se por simpáticas e interessantes interpretações que espelham os diversos estratos e "postos" de uma vila isolada na sua própria imagem destacando uma imparável María Cruickshank como "Jezabel", uma das prostituas de "Mari" capaz de levar à loucura o mais tímido dos homens.
Com uma certa positividade inerente a todo o seu conteúdo, do argumento às personagens, Villaviciosa de al Lado tenta ser inocentemente moralista - não existe de todo a vontade de pregar moral mas sim revelar que todos podem ser bons e maus dependendo das condições das suas vidas passadas e presentes -, o espectador tem aqui uma história divertida, bem conduzida dentro do género e personagens capazes de realizar o seu próprio filme onde seriam, certamente, estrelas de Hollywood.
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"Mari: Dime algo muy muy sucio!
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Sole: Caca! Caca! Caca!"
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terça-feira, 5 de setembro de 2017

The Void (2016)

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The Void de Jeremy Gillespie e Steven Kostanski foi uma das longas-metragens exibidas na secção Serviço de Quarto no dia de abertura do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que decorre no Cinema São Jorge até ao próximo dia 10 de Setembro.
Numa noite igual a tantas outras Daniel (Aaron Poole), de serviço numa estrada deserta, encontra um homem ferido que decide levar para o hospital mais próximo quase praticamente desactivado depois de um incêndio. Depois de lá chegarem, estranhos acontecimentos começam a tomar forma e o hospital vê-se rodeado de estranhos encapuçados que impedem a saída dos que ali se encontram.
Numa luta contra o tempo e contra a inevitabilidade dos acontecimentos, Daniel terá não só de desvendar o mistério por detrás daqueles estranhos como restabelecer a ligação com a sua mulher desaparecida dentro daquele misterioso local.
Num registo próximo de The Body Snatchers - (1956, 1978 ou 1993) ou de The Invasion (2007), The Void recupera a linha de filmes onde o corpo do Homem mais não é do que um veículo para uma nova forma de vida que se faz anunciar neste sempre tão cobiçado planeta Terra. No entanto, e contrariamente às obras previamente enumeradas, The Void explora uma nova dimensão desta temática questionando o que será esta "invasão" se o invasor não chegar do espaço mas sim do próprio meio mais ou menos terreno que invoca as profundezas por explorar de um submundo que oscila ente o Purgatóio das almas perdidas e um Inferno onde os seus escolhidos foram todos condenados a um suplício constante. No fundo, o que existirá para lá do meio terreno que conhecemos onde "habitam" estranhas criaturas privadas de uma existência dita normal e que agora anseiam por regressar ao espaço que abandonar nas suas novas e disformes existências?!
Com claras referências bíblicas e religiosas - ou pelo menos profanas (não será que se mesclam?!) - que invocam os quatro cavaleiros do Apocalipse preparados para destruir a existência humana tal como a conhecemos através da fome, pestilência, morte e guerra, The Void não esquece ainda um saudoso The Prince of Darkness (1987), de John Carpenter onde pouco - muito pouco - separa o espaço terreno de uma outra existência profana, macabra e anti-natural que se prepara a qualquer momento para ressurgir através da invocação dos seus seguidores (sempre "inocentemente" misturados no meio de todos nós) disposto a implantar a sua nova ordem e uma ausência de lei que separa a vida (no seu sentido alto) da morte, criando uma eternidade (também auto-suficiente) e uma continuidade do seu "eu", onde reina o caos, a desgraça, uma falsa adoração e uma beleza muito alternativa no hediondo que se esconde por detrás dos supostamente mais "puros" garantindo a todos uma falsa sensação de liberdade na ausência da necessidade da carne como veículo para uma alma que, agora, se aparenta desaparecida.
A materialização dessa suposta nova "ordem" será então a existência terrena e real de um Inferno onde todas as criaturas adoradoras desse profano podem então caminhar enquanto iguais numa exibição do seu macabro, do hediondo e especialmente da sua capacidade de enquanto "caídos" poderem então existir entre todos os demais seres... agora uma minoria sem poder que ou se adaptam... ou serem exterminados pela sua outrora qualidade de "escolhidos" para ocupar a Terra. O tal "Vazio" onde todos estes seres se perfilavam, ausentes de um "céu" ou de um "inferno" tentam então ganhar a Terra - como seus novos (e merecedores) ocupantes -, materializando o pesadelo, o macabro e o hediondo como as novas formas de "vida" até então repudiadas e eliminadas da existência.
Com interpretações feitas à medida para o género de filme que The Void representa e onde, infelizmente, nenhuma se destaca pela diferença - regulares todos eles -, esta longa-metragem vale essencialmente pela capacidade de teorizar sobre esse tal submundo que se distancia de céu, de inferno e do purgatório, onde ninguém espera, ninguém está condenado nem tão pouco será representantes dos tais "escolhidos", manifestando-se apenas como os "outros"... perdidos e filhos do improvável que (des)esperam pela sua oportunidade para habitar o espaço que lhes fora proibido. Simpático mas incapaz de criar algum momento de tensão significativo, The Void vale pela perspectiva que "abre" e pela junção de sagrado e profano, bem como pela forma como apresenta o outro lado... não condenado mas inenarrado... Se uns são escolhidos e outros condenados... o que acontece àqueles que apenas estão permitidos a existir quando todos nós dormimos e mais não são do que um vislumbre nos nossos próprios pesadelos?!
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6 / 10
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sábado, 2 de setembro de 2017

Verão Danado (2017)

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Verão Danado de Pedro Cabeleira é uma longa-metragem portuguesa vencedora de uma Menção Honorsa na última edição do Festival Internacional de Cinema de Locarno cujo argumento, também da autoria do realizador, relata um período na vida de Chico (Pedro Marujo). Das suas tardes de lazer, drogas, desencontros amorosos e muita música tendo como palco a cidade de Lisboa, Chico (re)encontra alguns dos rostos do passado e do presente enquanto vive uma aparente descontracção para com o mundo "do outro lado".
Depois da curta-metragem Estranhamento (2013), Pedro Cabeleira regressa à direcção agora de uma longa-metragem (a sua primeira), numa história que, não querendo assumir-se como o conto de uma geração, lentamente se assume como um marco da mesma ou, neste caso, um retrato daqueles nascidos na já ida década de '90. Do passado de "Chico" o espectador pouco conhece. Aliás, nem interessa para lá de um breve vislumbre sobre os seus dias de uma infância já perdida na "terra" que abandonou para vir estudar para Lisboa. Das tardes passadas com os avós que repete anualmente sempre que chega mais um Verão a um certo ambiente de idílica despreocupação vivida e sentida em Lisboa, "Chico" é aquilo que sempre quis ser ou, por outro lado, aquilo que as oportunidades lhe permitiram ser. E é nesta Lisboa que conhece e que agora é também sua que "Chico" se afirma e perde num caminho sem rumo... talvez por não existir... talvez por não ser procurado ou, até mesmo, por já não querer por ele procurar.
"Chico" passa pelos dias numa aparente rotina possibilidade pela ausência de uma qualquer outra. Se uns poucos - talvez afortunados - se podem preocupar com a firmação de um primeiro trabalho pós período estudantil ou até mesmo pensar naquela carreira para a qual dedicaram toda uma vida de estudo, "Chico" parece já ter ultrapassado a fase do envio sem fim de curriculums que em nada se traduzem para lá da desesperança que aumenta a cada dia que passa. Aumenta ao ponto de se tornar irrelevante, indiferente e naquela única certeza que o assola e a tantas como ele. Afinal, num país aparentemente desinteressado daqueles que tentaram um dia contribuir para o seu melhor nível de vida e que foram esquecidos tal como todas aquelas vãs promessas que foram em tempos feitas... de que serve pensar no "estudem que terão um emprego melhor" quando, na realidade, ou já ninguém se lembra de o ter dito? Porque concentrar todo um esforço diário em algo que, inconscientemente, já se compreendeu não (ir) existir?!
Dos jogos de futebol entre amigos aos ocasionais encontros anónimos em que um grupo de (mais ou menos) estranhos se reúne e come como que uma celebração destes tempos anónimos onde a natural interacção entre as pessoas parece cada vez mais fluir desse mesmo anonimato, "Chico" deambula pela cidade, por esses encontros fortuitos e ocasionais que, na realidade, em pouco ou mesmo nada irão resultar. Das relações ocasionais que apenas servem para se sentir vivo e estimular os seus dotes enquanto ser humano ainda vivo àquelas que estabelece apenas como escape para a sua sexualidade de jovem adulto, "Chico" fica tão indiferente ao (seu) mundo como aquela indiferença que já compreendeu dele receber. Afinal, valerá a pena lutar seja pelo que fôr?!
As (suas) amizades tão efémeras e de circunstância como qualquer outra relação que (se) estabelece neste século XXI, fazem de "Chico" e de todos os seus "amigos" que mais não são do que meros conhecidos, estranhos dos quais pouco ou nada se sabe. O espectador compreende, pelas próprias dinâmicas que são estabelecidas entre eles, que todos se conhecem por já se terem cruzado nalgum momento das suas vidas... tenha sido na universidade, numa qualquer relação de momento, num bar, numa discoteca ou mesmo através de amigos de amigos, todos sabem quem são sem, no entanto, saberem como e onde estão na vida. Por vontade, escolha ou mero desinteresse que é, no fundo, transversal a todas as suas actividades, não importa ou interessa saber mais do que o circunstancial... não interessam os laços, as ligações, as amizades ou o conhecimento do "outro"... tudo deixou de interessar para lá daquilo que satisfaz o momento... o instante... e o imediato.
Dos jantares cujo propósito é o "conhecer pessoas" às festas onde dançam ao som da "Canção do Engate" de António Variações como hino e ode à liberdade mais ou menos escolhida de uma geração sem um rumo aparente - e isto não como um julgamento sobre e para com a mesma - "Chico" e "Maria" (Lia Carvalho) seduzem-se, estimulam-se e satisfazem (uma vez mais) os seus ímpetos sexuais e a sua necessidade de, por breves momentos, estar junto a "alguém"... sem consequências, sem esperanças e até mesmo sem um sentimento maior que os transporte para um mesmo caminho num momento que facilmente identificaríamos como aquele de sedução tido entre "Charlotte" e "Bob" de Scarlett Johansson e Bill Murray em Lost in Translation (2003) quando, perdidos numa cidade que lhes era estranha, a ela se tentam adaptar enquanto se (re)conhecem e identificam como seres que esperam voltar a sentir lgo... por alguém... pelo "outro".
Dos encontros ocasionais aos desencontros confirmados. As personagens passam por Verão Danado de forma fugaz ou sem grande consequência para o argumento ou para a continuidade da história. Todas elas têm a sua importância confirmada mas nenhuma permanece por muito tempo... no fundo como tantas outras relações sentimentais e de amizade que qualquer um de nós (re)conhece na realidade individual de cada um. "Chico" navega por Lisboa numa aparente despreocupação para com o seu futuro... As entrevistas são encaradas como "mais um" momento do qual se sabe pouco sair rentabilizado... para quê preocupar com um potencial trabalho quando já se sabe (ou espera) de antemão não ir resultar em nada? Sem grandes objectivos, propósitos ou preocupações, a certa altura apenas importa o social, as festas, os encontros e conhecer pessoas ainda que dali nenhuma delas poderá resultar em algo que possa criar raízes, Formam-se apenas ocasiões que facultam um necessitado alheamento da realidade tal como ela é, deixando apenas ter importância "o momento" que se espera descontraído, descomprometido e desinibido. Nas festas, tal como em todas as demais circunstâncias da (sua) vida ou nas quais marca presença, ele não é aquilo que aparenta ser opondo o que esperava e queria àquilo que tem e "usa" para (sobre)viver num mundo sem qualquer objectivo. Mas, no fundo, Verão Danado pode ser uma reflexão sobre as aparências, sobre a solidão escolhida ou forçada, sobre a perda de desejos de longo prazo celebrando o imediato... "ninguém é ou não é, aquilo que aparenta ou não ser" como se escuta algures ou, como podemos encontrar na "Canção do Engate" que escutamos, "tu estás livre e eu estou livre" (..) "tu estás só e eu mais só estou" (...) "vem que o amor é o momento em que eu me dou em que te dás" (...) "Tu que buscas companhia, E eu que busco quem quiser"... Uma celebração a essa solidão nem sempre desejada mas que um dia chegou, que se abraçou e confirmou como a opção viável mas que, por breves instantes ao longo desse Verão se pensou como poderia ser quebrada... mas pelo descrédito do "outro" com quem se pensou poder avançar... se remeteu - "Chico" - à mesma indiferença e apatia que reinam nestas relações de circunstância. Tudo (o momento) em Verão Danado se relativiza e esse futuro que há-de chegar é francamente indiferente.
Independentemente de se querer ou não criar uma obra que seja o símbolo de uma geração - e a seu tempo Verão Danado será uma delas -, a longa-metragem de Pedro Cabeleira assume-se naturalmente como uma delas. Não existe nada de redutor neste "carimbo". Pelo contrário! Verão Danado está, tal como O Sítio Onde as Raposas Dizem Boa Noite (2014), de Rui Esperança e Uma Rapariga da sua Idade (2015), de Márcio Laranjeira como um desses filmes. A implícita mensagem sobre a perda de objectivos, ou a sua total isenção ou desconhecimento, sobre gerações de jovens perdidos entre sonhos adiados, perdidos ou ainda por descobrir, amores interrompidos, amores nunca confirmados e até uma apatia sentimental e sexual que a todos afasta de uma vida em tempos sonhada confirma-se nestas obras que reflectem um espaço, um tempo e, como já referido, uma geração. Se aqueles que nos 30's se vêem cada vez mais concentrados na manutenção de um trabalho (quando existe) e distantes de relações sentimentais e afectivas, da parentalidade ou até mesmo da tal casa que sempre se sonhou ter, outros nos 20's distanciam-se do compromisso, da relação, do trabalho que raramente existe e da busca do sonho que, em muitos casos, nem sequer chegou a existir.
O segredo para a interacção com tudo ao seu redor - de "Chico" como personagem principal - reside na abstracção criada, aliás, pela magnífica direcção de fotografia da jovem Leonor Teles - também responsável pelo já mencionado O Sítio Onde as Raposas Dizem Boa Noite - que opõe personagens que privam no mesmo espaço sem na realidade interagirem directamente. Os corpos estão lá mas as almas vagueiam por essa abstracção que comete o erro ou o desejado, o impensado e até o sentido em segredo e Pedro Marujo com o seu "Chico", brilhante nesta abstracção pessoal e social, é a involuntária alma de uma história que persiste e insiste em esconder momentos, sentimentos, sonhos, desejos e até banalidades pela celebração do impessoal criando a mentalidade de que se pode estar em qualquer lugar sem que, na realidade, lá se esteja de facto.
Para lá de uma história que parece, ao primeiro e desarmado visionamento, criada para expôr o "nada", Verão Danado surpreende por contar tanto possibilitando a aproximação e compreensão de um desespero silenciosamente vivido e tido (por alguns) como a única certeza ou conforto que uma vida pode conferir. Num país que arriscasse mais compreender os seus e em que ver cinema falado em português fosse mais do que ver umas quantas comédias sem graça no cinema, Verão Danado seria celebrado como um dos filmes do ano... da década e da tal geração que pretende (ou não) retratar.
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"One night while walking home,
I could not remember where I had been,
I found myself all alone,
With the stain of sadness on my jeans."
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9 / 10
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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Vida en Marte (2016)

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Vida en Marte de José Manuel Carrasco é uma curta-metragem espanhola de ficção que proporciona ao espectador vislumbrar uma invulgar entrevista sobre o sentido da vida e o que significa... "ser feliz".
José Manuel Carrasco, também argumentista, proporciona ao espectador uma peculiar e improvável história onde as suas personagens reflectem sobre a felicidade. Mas, contrariamente a um relato sobre a mesma, as suas personagens centram a sua dinâmica na vida depressiva que têm levado, na falta de oportunidades e, essencialmente, em tudo o que representa o seu oposto. Será este o momento para equacionar aquilo que não se tem ou faz como a verdadeira felicidade?!
De personagens como "Luis" (Luis Callejo) que ingerem comprimidos como se não existisse um amanhã - o que, para os mesmos, indica ser esse o propósito da sua "aventura" - a outras como "Ana" (Ana Rayo) que vivem uma intensa depressão, é o futuro que os volta a cruzar vinte anos depois do seu último encontro. O que teriam sido as suas vidas se, algures no tempo, o seu afastamento nunca se tivesse confirmado? E se - eterna condição de incerteza - os seus caminhos se tivessem unido num só e fossem hoje a família que poderiam ter sido?
Num relato sobre emoções, hipóteses, oportunidades perdidas e realidades que apenas eles conhecem, tanto "Luis" como "Ana" são hoje o fruto de uma vida vivida numa margem alheia aos seus desejos, sentimentos ou expressividade. Contentaram-se com  o que lhes foi proporcionado e não com aquilo que queriam transformando-os neste presente um pálido reflexo daquilo que poderiam - e deveriam - ter sido. Ele alcoólico e ela depressiva... uma imagem que confirma as suas realidades e o seu desgosto. No fundo, uma imagem do seu desespero constante. Num mundo em que todos são julgados pelo seu aparente nível de felicidade... aqueles que diferem só podem ser marcianos.
Carrasco cria então o espelho quase perfeito de uma vida - ou geração? - desiludida com a inevitabilidade das escolhas (ou das suas ausências) que se transformam, dessa forma, em pequenos grandes lombas de um passado traumatizado. Imaginaria qualquer uma das suas personagens - ou de qualquer um de nós na realidade - enquanto jovens que hoje, anos passados, estaria no lugar em que se encontra? Poderia esse passado ter sido alterado ou, por sua vez, estaria ele confirmado independentemente daquilo que pudesse ser alterado? No rumo das incertezas e das hipóteses não confirmadas, o espectador reflecte e imagina o seu próprio "eu" - actual e passado - e questiona-se sobre todas as escolhas que tomou e que o direccionaram ao seu presente. Assim, Vida en Marte aborda de forma inteligente o passar dos anos, dos desvios que foi tomando à medida que se lhe foram proporcionados e, da mesma forma, tudo aquilo que fez... ou ficou por fazer. Permanece a pergunta... será (serei) que sou feliz?
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8 / 10
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quinta-feira, 18 de maio de 2017

Viral (2016)

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Viral de Henry Joost e Ariel Schulman é uma longa-metragem norte-americana que ressuscita o género de cinema de terror onde a população do planeta é misteriosamente "ocupada" por estranhos parasitas predadores que tomam conta das suas acções e comportamentos.
Emma (Sofia Black-D'Elia) leva uma vida normal numa pacata e isolada cidade perdida no meio do deserto. Partilha a casa com o pai e com a irmã Stacey (Analeigh Tipton), enquanto a mãe está presa num qualquer aeroporto devido ao surto de um vírus que ninguém parece conseguir controlar. As imagens e vídeos online propagam-se e quando o pai de Emma resolve procurar a mãe, as duas irmãs ficam dependentes uma da outra na esperança de que tudo passe.
No entanto, é quando Stacey fica infectada e Emma tem de tomar conta dela na companhia de Evan (Travis Tope), o rapaz de quem gosta, que os acontecimentos se sucedem naqueles que poderão ser os últimos instantes entre as duas irmãs. Existirá alguma fuga possível?
Barbara Marshall e Christopher Landon criam o argumento de um filme que, em certa medida, é reconhecido pelo espectador desde os primeiros instantes em que se avizinham os rumores de uma estranha e mortal epidemia que teima em isolar cidades e, de seguida, as suas populações. Naquilo que é uma clara alegoria à suspeição de todos sobre tudo, Viral não podia deixar de exibir a eterna e sempre presente crise familiar que divide a família no seio da dita epidemia. Afinal, qualquer filme fiel ao género não poderia deixar de apresentar as múltiplas dinâmicas dentro de uma família nuclear para que, no momento certo, ela se veja isolada e onde cada um tem de depender apenas de si próprio para sobreviver ao perigo que se encontra para lá das suas quatro paredes. No entanto, e talvez como elemento um pouco diferenciador do género, a questão levantada em Viral é essencialmente, o que acontece quando esse mal... está dentro dessas mesmas paredes?
Com cada vez menos conhecimento do mundo "lá fora" e percebendo que os vizinhos e aqueles com quem partilhavam a vida de uma ou outra forma são agora o inimigo a temer, a questão de sobrevivência para estas duas irmãs torna-se cada vez mais a questão do "momento", especialmente quando percebem que o perigo espreita, as persegue e, em última análise, até partilha do mesmo espaço que elas.
Tradicional ou não - acaba por ser sempre neste género -, temos duas irmãs que são a antítese uma da outra. Por um lado encontramos uma "Emma", disciplinada, regular e até mesmo pacata que tem a maior transformação e provação quando se vê obrigada a não só tomar conta de uma irmã que lentamente se vai debilitando, como também é transformada num adulto à força quando tem de sobreviver e proteger-se não só dos infectados como também dos militares que podem, a qualquer momento, dizimar todo o espaço para libertarem o mundo de um perigo desconhecido. Do outro lado encontramos "Stacey", a jovem despreocupada e mais velha para quem a vida tem sido um carrossel cheio de diversões, de altos e baixos mas aliciante na medida em que revela que tudo é possível sem barreiras ou obstáculos... mas também sem perspectivas. Se as duas irmãs se encontram em mundos opostos apesar de terem uma convivência próxima e cúmplice, é "Emma" que se destaca pela sua bravura e determinação - não esquecer o género de filme a que me refiro que impossibilita grandes desempenhos dramáticos que o espectador irá guardar na memória - e pela capacidade de tomar decisões contrariando aquilo que tinha sido até então pela sua conveniência ou pela imposição da vontade dominante de uma família que a via e tinha como a "criança" lá de casa.
Também típico no género é a relação crescente entre dois jovens semelhantes no comportamento e que estão, de certa forma, a vivenciar uma primeira paixão em tempo de crise. Poderá ela sobreviver? A resposta chega através dos pequenos detalhes cúmplices que o espectador observa, pela imposição de uma convivência comum e até mesmo de perceberem que são, neste novo mundo, o último recurso um do outro e compreenderem que são, para lá de todas as comunicações impossibilitadas e que começam a ruir à medida que o tempo avança, a última oportunidade de experimentarem não só o tal amor como a continuidade da sua espécie... afinal, basta presenciarmos aquilo em que o mundo se começa a tornar para ficarmos elucidados sobre aquilo que espera os poucos que permaneçam... "limpos".
Não irá chegar nenhuma redenção - raramente chega - nem tão pouco uma salvação milagrosa que irá transformar todo o mundo naquilo que anteriormente as nossas personagens conheciam enquanto tal. Não, pelo contrário, aquilo que aqui observamos é a emergência de um novo mundo, com um conjunto de novos ocupantes que habilmente se habituaram ao espaço que nós tínhamos e que agora pretendem ocupá-lo como o seu novo topo da pirâmide. Assim, e tendo como fim último a própria perpetuação, "Emma" e "Evan" - qual Adão e Eva - terão não só de confiar um no outro como também na esperança de que no final da estrada que se preparam para percorrer irão encontrar outros que, como eles, pretendem continuar a viver e sentir que o dia de amanhã existe e é uma possibilidade. A grande questão que se lhes coloca é apenas uma... Existirá alguém no final dessa "estrada"?
Entre vírus e apocalipse, fim do mundo e novo começo, sobreviventes e parasitas gone wild, Viral pode não trazer nada de novo para o espectador mas, ainda assim, é aquele filme de sábado à noite a que todos gostamos de assistir, que provoca alguma ligeira tensão e que proporciona um simpático momento na sala de cinema.
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6 / 10
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