Guerra dos Mundos: Extinção de Christopher Ray (EUA) surge como a sequela - mais ou menos coordenada - de War of the Worlds: Annihilation, de Maximilian Elfeldt onde o General Skuller (William Baldwin) do planeta Emios ataca o planeta Terra após uma invasão da população deste último ao seu planeta. Nesta dinâmica, um grupo de arqueólogos tenta descobrir três chaves para um artefacto que tem o poder de lançar vagas de destruição à Terra eliminado assim toda a sua população ocultando-as do General determinado em terminar pela força todo o conflito gerado. Como todos as longas-metragens produzidas pela Asylum, altamente carregadas de efeitos CGI, com argumentos por demais simplistas e elementos artísticos que se resumem quase sempre a salas sem luz natural, repletas de apetrechos electrónicos que se repetem de filme para filme e um conjunto de actores outrora mediáticos e agora caídos no esquecimento, este War of the Worlds: Extinction perpetua o legado da produtora entregando aqui mais uma história que é, dando cor à expressão bem portuguesa, "mais do mesmo". Desde os instantes iniciais desta história que o espectador compreende que aquilo a que se propôs assistir não o irá, em abono da verdade, satisfaze enquanto uma obra cinematográfica per si, remetendo-se única e exclusivamente para um bom momento em que o cérebro se pode desligar dos problemas diários e assistir a uma sucessão de imagens quase sempre sem nexo, sem credibilidade e que são na sua maioria expectáveis e fundamentalmente básicas. Das actuações aos efeitos, do argumento à decoração sem esquecer todo e mais algum lugar comum que estas obras - esta em particular - entregam são assumidamente mais e, o mais curioso, é que não existe qualquer pudor em assumir que aquilo que se faz é apenas para levantar o cheque ao final do mês e entregar (mais( um filme que cairá no esquecimento no exacto momento em que o espectador mais paciente aguentar vê-la até ao início dos créditos finais. E é válido. É válido assumir-se como má e descomprometer-se com a vontade de criar uma obra cinematográfica aceitável e razoável que pudesse ser um bom elemento de distração cinematográfica querendo, apenas e só, preencher uma estante de obras criadas geralmente com os mesmos actores - o já mencionado Baldwin, Dominique Swain, Michael Paré, entre outros - que em tempos granjearam o ecrã com obras memoráveis e que os colocaram nos olhares do grande público mas que por uma sucessão de más escolhas ficaram agora remetidos a estas obras que lhe vão dando um salário mas que na prática nada de benéfico podem trazer para as suas carreiras e percursos enquanto intérpretes. Repleto de efeitos especiais CGI nada credíveis e que em nada contribuem para a dramatização de uma história que se pressupõe ser sobre um potencial fim, War of the Worlds: Extinction envergonha até o espectador mais desatento que com um olhar destreinado compreende que aquilo que ali está é uma obra amadora sem qualquer empenho ou brio apenas manobradas para criar o pretenso ambiente da história mas que qualquer criança com um computador em mãos teria feito igual... ou até melhor. Com uma sucessão quase drástica de momentos mal conseguidos, interpretações fúteis, desinteressantes e essencialmente amadoras, um argumento instável, inseguro e descoordenado e uma dinâmica que mais parece ser uma manta de retalhos mais unidos esta longa-metragem, se algo de bom pode ser dito sobre ela, é que é essencialmente um bom momento para se poder desligar o cérebro, deixar passar o tempo e, de olhos abertos, não pensar no mundo que nos rodeia.
Whirlpool 3933, de José Luís Santos Pérez (Espanha) é uma das curtas-metragens presentes na competição oficial da secção Cantábria da edição deste ano do Festival Internacional de Cine de Piélagos. Txema (Mariano Venancio) cuida sózinho da mulher incapacitada sem nunca ter recebido qualquer resposta dos serviços sociais. Mas um dia, quando já é tarde demais, Txema recebe finalmente a ajuda de que tanto esperava... mas para lhe poder dar uso irá precisar da ajuda de Carlos (Carlos Kaniowsky), o dono da mercearia local. À semelhança do que já acontecera com Le Vivre Ensemble (2017) pelo qual venceu o troféu de Melhor Curta-Metragem da Cantábria, o realizador José Luís Santos Pérez regressa com mais uma história de cariz amplamente social e actual. Se na obra anteriormente mencionada o espectador observava as não tão subtis transformações de segurança nas escolas onde às crianças era ensinado como sobreviver num mundo novo onde os seus lugares primários poderiam ser alvo de atentados terroristas, aqui com este Whirpool 3933 estamos perante uma nova realidade que se prende directamente com alguns falhanços do estado social tal como o conhecemos e à sua incapacidade de assistência e apoio técnico e domiciliário àqueles que dele necessitam. "Txema" vive num bairro que o espectador compreende como um espaço onde as carências provocadas pelas sucessivas crises económicas já há muito que afectaram uma boa parte da população que tenta sobreviver - novamente a temática da sobrevivência - conforme podem. Seja pelo assistência comunitária, seja pelo recorrer ao empréstimo fiado de bens essenciais ou mesmo pelo sem número de "favores" que a boa vizinhança acaba por prestar, mas ali ninguém parece imune à passagem desses tempos difíceis que todos sentem. Num ambiente adverso e onde a crise afecta o mais prevenido, conhecemos também aqueles que vindos de outras paragens enquanto refugiados sentem todas estas carências com a agravante de se encontrarem num local estranho, com outra língua e costumes que aprender e ainda com a questão de terem de subsistir às intentonas alheias sobre o facto do "estrangeiro tudo ter" quando aos "nacionais tudo falta"... esquecendo estes últimos que os anteriores... já nada têm e tudo perderam. Neste ambiente começa o mais ou menos inesperado segundo drama de "Txema" que depois de dois anos a tratar de uma mulher inválida e sem reacção sem qualquer apoio se vê agora a braços com a sua repentina morte... no exacto momento em que a assistência social lhe garante o apoio de que tanto esperava... Mas... e agora o que fazer? Denunciá-lo como desnecessário ou reclamá-lo como algo que lhe é devido?! Num momento em que a ajuda "oficial" lhe bate à porta, "Txema" precisa sim da ajuda dos vizinhos que por uma chantagem típica de quem quer sobreviver àquela dos que também querer tirar um pouco do ouro do pote, embarcam numa viagem de extorsão e "mãos limpas" que a todos parece garantir uma vida e um dia-a-dia um pouco melhor. Afinal, não estarão todos eles a viver no tal limite? Da pobreza à doença passando pela guerra e pelo drama dos refugiados sem esquecer o desgaste físico e emocional que a agora falecida mulher de "Txema" lhe havia provocado, encontramos aqui um conjunto de todos os marginalizados que a sociedade tende (in)voluntariamente a esquecer porque estáo do lado de lá dessa margem que tão dificilmente alguém ousa ultrapassar. Dito isto, porque não aproveitar um pouco do tal pote para lá do arco-iris se ele está agora ali... a um pequeno passo de todos?! De acordo em acordo onde todos, inspector incluído, encontram uma forma de encher um pouco mais os bolsos, esta curta-metragem que se quer trágica assume contornos de uma comédia mordaz e socialmente inquietante que desarma não pelo seu humor ponderado e bem pensado mas sim pela tal tragédia que, tal como muitas das suas personagens tentam, tende a ser escondida porque se assume como uma vergonha que ninguém quer assumir. E nós, espectadores mais ou menos preparados para aquilo que um brilhante argumento da autoria do realizador, sorrimos com alguma tristeza porque compreendemos que aqueles também poderemos - e somos - ser nós num outro contexto... num outro cenário... num outro bairro... mas ali estamos todos nós. Mordaz e desafiante oscilando entre o humor e a dramatização moderada da dita tragédia, Whirpool 3933 consegue ainda por momentos recriar um ambiente de terror moderno. Não existem ali fantasmas, espíritos ou monstros para lá daqueles que, na realidade, todos nós acabamos por conhecer das nossas próprias realidades... o "fantasma" da miséria... o "espírito" da incapacidade... o "monstro" da perda e da solidão... todos estão ali calma e convenientemente sentados à espera da próxima vítima que se manifeste e lhes tente dar luta... umas vezes sobrevivendo-lhes... outras cedendo às suas pressões... mas todos estão ali tranquilamente à espera que os olhemos nos olhos e os chamemos para mais um desafio. José Luís Santos Pérez consegue assim, uma vez mais, desarmar o espectador para a tragédia de uma amarga realidade forçando-o a compreender que aquelas vidas podem estar ali... já ao virar de uma esquina e, muitas vezes, sem que nós demos conta que elas ali estão. Ou mesmo... que poderemos ser nós a vivê-las e a compreendê-las na primeira pessoa. .
The Winter Hunger de Álvaro García (Espanha) é uma das mais recentes longas-metragens espanholas de terror que recupera o imaginário e universo zombie no seio de uma pandemia global que propagou um novo e sinistro vírus que transforma a Humanidade em seres sedentos de sangue e carne humana. Um grupo de cinco sobreviventes unem-se numa fuga através de uma cidade devastada. Ao refugiarem-se numa pequena povoação percebem que o perigo não está só para lá das paredes que os protegem mas também por detrás das mesmas que escondem um perigo tão grande ou maior do que aquele do qual tentam escapar. Raiva, horde zombie, vírus mortal... eis os ingredientes que numa pandemia - durante ou pós -, podem transformar uma história de sobrevivência num apelativo filme do género de terror especialmente se pensarmos nele como uma obra executada ao longo dos últimos anos e com o apoio de um conjunto de profissionais que pretenderam, acima de tudo, executar uma longa-metragem pela paixão à mesma. Nesta história, que começa com a propagação a nível mundial de uma mutação de um vírus de raiva que colhe boa parte da população, não são esquecidos os escassos sobreviventes isolados nos mais remotos cantos do globo tentando escapar não só deste mesmo vírus como também dos infectados que percorrem as ruas e também daqueles que, sendo sobreviventes, pretendem dominar um espaço destruído pela morte, pelos conflitos, pelo isolamento e sobretudo pelo esquecimento. Os elementos que aqui encontramos, e que não poderiam ser mais actuais dada a situação de crise sanitária provocada pela COVID-19, remetem-nos para uma realidade que, não tendo ninguém a fugir de perigosos infectados, nos é de certa forma familiar na medida em que encontramos transformações na mente e nos comportamentos humanos que são presentes na nossa realidade. "Vamos ficar todos bem" dizia-se no início da nossa pandemia real e aquilo que encontramos em The Winter Hunger é a ficção desta expressão no seu melhor expoente. Como em qualquer crise são conhecidos os limites da integridade humana, aquilo que de bom e mau conseguimos fazer pelo nosso semelhante... Até onde vamos pela sobrevivência daqueles que outrora foram pessoas que vimos passar na rua, observámos num qualquer transporte público e que, em boa medida, poderão também eles contribuir para a nossa sobrevivência... No entanto, aquilo que aqui voltamos a confirmar, como em muitas obras desta natureza apocalíptica, é que a Humanidade tende desesperadamente a caminhar para a sua própria extinção não necessitando necessariamente de nenhuma epidemia que dê "conta do recado". Aquilo que compreendemos muito rapidamente em The Winter Hunger é que a Humanidade não está preparada para uma qualquer provação maior onde a sua sobrevivência é colocada em causa. Sem comunicações, nem acesso à informação, sem acesso a cuidados médicos, água ou alimentação, a última pergunta é... até onde é que se diferenciam os "infectados" daqueles que não o são considerando que muitos destes últimos têm e denotam comportamentos semelhantes aos que já atravessaram a tal "fronteira" podendo, mas nunca o fazendo, escolher optar pela mútua colaboração e sobreviver a um mal que espreita lá fora. Essencialmente The Winter Hunger é uma obra que explora de forma muito inteligente os limites, ou falta deles, da sobrevivência humana numa situação de crise extrema. Até onde vamos quando está em causa a permanência no mundo durante mais um dia? Mais um dia de cada vez onde nada é garantido e onde tudo, a dado momento, é uma potencial ameaça para que esse dia se cumpra... Esta longa-metragem espanhola, facilmente classificada numa série B trazendo à memória obras de culto como as de George Romero (as referências por exemplo ao centro comercial abandonado ou uma casa abandonada no meio do nada como a observamos em Night of the Living Dead - sem esquecer 28 Days Later, de Danny Boyle (vírus da raiva em vez de um regresso dos mortos a uma pós-vida) ou mesmo a série The Walking Dead, de Greg Nicotero -, e na qual todas as personagens podem ainda ter toda uma exploração sobre o seu passado e presente (ainda que mais claro neste domínio) deixando muitas delas uma grande curiosidade sobre os acontecimentos que os levaram àquele momento específico nomeadamente às interacções criadas entre si. The Winter Hunger destaca-se ainda pela reconstituição de um cenário pós-apocalíptico em excelência utilizando não só espaços naturais como lugares (des)humanizados da região espanhola em que foi filmado, esta longa-metragem é ainda enriquecida como uma brilhante direcção de fotografia da autoria de Pedro García que transforma todo o ambiente numa atmosfera fria que relembra um inverno nuclear onde a esperança de vida é algo difícil e muito ténue deixando para os interiores um clima de sufoco labiríntico que prende os intervenientes em vez de os libertar para uma sobrevivência. The Winter Hunger é assim uma obra que levanta as tradicionais questões morais e éticas de sobrevivência das obras do género e que, não esquecendo a devida homenagem ao mesmo e aos seus mestres, se distancia e torna independente pelas diferentes dinâmicas que cria com os espaços (exteriores), com as dinâmicas das personagens com os mesmos e entre si - compreendemos que existem relações entre algumas das personagens que nos deixam curiosidade sobre o passado comum e partilhado -, e sobretudo pela forma como (re)cria um final que mistura esperança e desilusão criando, ele próprio, uma dinâmica interessante e muito própria para o "e depois" dos destinos e do que estará "para lá" daquilo que podemos e conseguimos observar. Quando pensamos que tudo poderá estar, finalmente, a salvo... eis que a surpresa mina as nossas esperanças...
When I Write It de Nico Opper e Shannon St. Aubin (EUA) é um documentário em formato de curta-metragem presente nesta primeira edição do We Are One - A Global Film Festival que decorre na plataforma online do mesmo e que apresenta a história de dois jovens afro-americanos de Oakland - Leila e Ajai - e os seus pensamentos sobre o que é ser jovem na América do presente enquanto tentam, ao mesmo tempo, desenvolver e vincar a sua arte na cidade em constante transformação. Este documentário breve que mistura as ansiedades de dois jovens americanos com as transformações tidos numa sociedade em constante mutação, revela as expectativas destes dois jovens não só numa fase em que claramente estão numa transição de adolescentes para jovens adultos como também fazem chegar ao espectador as suas opiniões sobre um mundo que aparenta nem sempre estar preparado para novas abordagens ao mesmo ou, por outro lado, as perspectivas do próprio sobre uma sociedade em que comentam "serem escassas as oportunidades". Num momento em que se preparam para um concerto num dos espaços locais que lhes abre a porta, ambos falam sobre os livros que lêem ou as músicas que escutam e querem criar e as perspectivas que estes lhes conferem destes e de outros tempos levando-os a um pensamento não só pertinente como actual... o que é ser um jovem negro na América de hoje?! Ou, numa perspectiva ainda mais chocante, Ajai deixa-nos o intrigante pensamento sobre que sente não lhe ser permitido ser uma pessoa na América que, agora, conhece. O espectador, mais ou menos conhecedor da realidade norte-americana do momento, questiona-se (também ele) sobre estes anos '20 e nas intensas disparidades sentidas por uma camada etária, étnica e social da população que percepciona não ter o seu lugar não só nesta sociedade como principalmente no mundo enquanto indivíduo que é. Ainda que pertinente pelas questões aqui levantadas, este When I Write It peca pela escassa duração oferecida a estas temáticas e pela exploração do "eu" - neste caso destes dois adolescentes ou jovens adultos - que poderiam ser não só mais intensas sob a sua potencial disseminação e compreensão como também seria útil compreender, de facto, as realidade e os mundos locais de onde eles provêm conferindo, dessa forma, uma abordagem mais alargada e não apenas a menção de que as dificuldades de ser jovem e negro nos Estados Unidos são imensas... facto que qualquer um de nós facilmente identifica ao escutar um qualquer noticiário. Pertinente ao ponto de compreendermos que está na mão de cada um "escrever" o seu próprio destino mas, ao mesmo tempo, compreender também que por muito que se o queira escrever existem todo um conjunto de "estradas" que estão imediatamente fechadas logo que alguém as tenta atravessar.
White Echo de Chloë Sevigny (EUA) é mais uma das curtas-metragens presentes na edição única do WAO:GFF - We Are One - A Global Film Festival que decorre no seguimento do cancelamento de muitos dos festivais de cinema deste ano devido à crise de emergência sanitária provocada pela pandemia da COVID-19. Carla vive num dilema e conflito para com o seu íntimo e os seu poder. Depois de uma sessão de Ouija com as suas amigas, Carla começa a sentir uma estranha presença que a acompanha e questiona-se se terá despertado algo durante a sessão. Numa clara alusão ao poder feminino com território ainda por cumprir e um poder sobrenatural que impede a protagonista de assumir o seu verdadeiro lugar no mundo, a realizadora e actriz Chloë Sevigny acaba por criar uma história que falha ao assumir-se uma obra de referência de género - terror ou feminista - misturando duas vertentes e nunca conseguindo dar termo a nenhum dos dois. Se por um lado encontramos uma mulher confusa sobre o seu espaço no mundo e que encontra nesta invulgar reunião uma forma de poder contactar algo "do outro lado" - na prática todas o procuram -, White Echo não consegue afirmar-se como um conto de terror na medida em que todos os parcos elementos que apresenta do mesmo se limitam a momentos já conhecidos e explorados em tantas outras histórias do género... o contacto com o sobrenatural... os aparentes sinais de "algo" porvir... a suspeita de nunca se encontrar solitária e, até mesmo, uma forma que paira e a acompanha de perto preparando-a para uma simbiose mais ou menos desejada. Por outro, se analisarmos esta curta-metragem como uma história pós-feminista também nos deparamos com os lugares comuns já explorados de um grupo de mulheres que reclama "algo" sem que o mesmo se manifesta concretamente para lá da insatisfação deste grupo de mulheres para com uma realidade que vá mais além daquela que, na prática, todos nós sabemos existir. Por momentos o espectador entusiasma-se quando White Echo parece querer explorar o género terror sobrenatural conferindo à história toda uma dinâmica da simbologia do género levando-o a questionar-se sobre os pequenos sinais que a personagem recebe de "algo" desconhecido para o dito bom senso comum. No entanto, existe toda uma dinâmica que, ao mesmo tempo, transforma esses elementos querendo dar-lhe uma aparente comparação para a dinâmica da mulher no mundo questionando-a (e a nós) sobre as aparentes realidades que nenhum de nós deseja ou pretende ver. Sabemos que existe desigualdade mas... queremos realmente saber dela?! Assim, a tentativa de transformar esta história num conto dual transforma esta curta-metragem não lhe conferindo credibilidade mas sim uma dispersão narrativa que não a enquadra em nenhum género específico deixando-a, tal como à entidade que por momentos se observa, a pairar sobre dois universos que apenas a psique do espectador terá (ou não) coragem de enquadrar. Poderia ter sido destemida mas falha na capacidade de convencer o espectador apesar de uma coerente execução técnica, talvez aqui, o único elemento desta curta-metragem que na realidade possa revelar alguma consistência.
The War of the Worlds de Manuel Brito (Portugal) é uma curta-metragem de animação que recupera no estilo muito próprio de colagem de imagens a famosa emissão radiofónica d'A Guerra dos Mundos de Orson Welles.
Fugindo à tradição da animação tradicional, Manuel Brito recria através de um conjunto de colagens de imagem real o ideal de uma guerra ficcionada revelando através das mesmas aquilo que será o imaginário de uma potencial invasão e do conflito armado que dela derivou. Desprovido de uma real ligação entre imagem e contexto, esta curta-metragem consegue ilustrar todo o pânico e incerteza de um conflito militar entre o que conhecemos e aquilo que imaginamos que a emissão radiofónica nos transmite, colocado o espectador num emocionante e original impasse até agora desconhecido.
Longe dos artifícios, hoje datados, da obra original ou do sucesso que os efeitos especiais conferiram à obra de Steven Spielberg, The War of the Worlds de Manuel Brito capta o essencial quer do conto quer do pânico que este gerou assim como inova o género de animação centrando-se num misto desta para com a ficção sem que, no entanto, perca o essencial da sua narrativa ou disperse para um qualquer lugar comum que o espectador pudesse equacionar ao pensar que "já vira algo do género" para, já no final, se deparar com um cenário desolado fruto de um conflito armado que para lá de civilizações opôs dois universos distintos.
Inovador, original e francamente bem estruturado dentro de toda a sua genial loucura, esta curta-metragem de Manuel Brito coloca-o no centro de um interessante criador cinematográfico como, ao mesmo tempo, num artista plástico sob observação ao conseguir criar todo um universo conhecido do espectador cinéfilo mais atento, através de imagens "coladas" que provêm de contextos potencialmente desconhecidos ou menos mediáticos.
Waking Up de Alex Kolman (EUA) é uma curta-metragem de ficção que apresenta a história de um homem que acorda repentinamente para se ver detido por outros indivíduos de máscara sem aparente razão. Ao escapar vai dar a uma pequena cidade onde encontra folhetos informativos que mencionam uma estranha nuvem de gás. Num momento de incerteza até onde poderá ir a sua fuga? Ainda que assumidamente seja uma curta-metragem que tem inúmeras falhas que muito se aproximam de algum amadorismo ou, de forma mais simpática, feita por alguém que pretende contar a sua história, este Waking Up parece passar todo a sua curta duração primeiro à volta da fuga já mencionada e depois de um conjunto de banalidades que não proporcionam um justo desfecho da história que se pretende contar. Como uma história do género fantástico/dias do fim em que facilmente o espectador a coloca, esta curta-metragem tem a falha crucial apresentada por muitas histórias semelhantes. Existe claramente uma grande vontade de contar a sua própria visão desse fim do mundo mas, ao mesmo tempo, a vontade atropela-se com todo um conjunto de elementos que fazem a mesma rodopiar sem fim à vontade de "nada" que atrapalha o seu desenvolvimento principalmente por não lhe atribuir um rumo coerente. As personagens nunca são desenvolvidas, a história não parece ter um fim coerente nem tão pouco um princípio que se auto.justifique e coloque o espectador no espaço e no tempo deixando-se apenas fazer valer pela ideia do próprio género em que se insere - fazendo o espectador crer que estamos perante o tal fim do mundo - colocando apenas elementos terminais - um gás, um vírus, uma guerra (,,,) - que lhe apontam para onde está sem nunca esclarecer nem como, nem quando ou tão sequer um porquê. Assim, pode valer apenas e só pela intenção do realizador em apresentar a sua visão sobre esse fim mas isso como único elemento não chega para apresentar uma história coerente ou tão pouco que marque e se diferencie no género. Já todos nós "aqui" estivemos ao visionar um destes filmes mas certamente amanhã já todos nós esquecemos que o mesmo existe.
Waltzing Tilda de Jonathan Wilhelmsson (Austrália) é uma curta-metragem de ficção centrado num universo pós-apocalíptico onde toda a Humanidade desapareceu... à excepção de Tilda (Holly Fraser), uma jovem aparentemente rebelde que está saturada de tudo e todos à sua volta reagindo com apatia aos pequenos momentos do seu dia-a-dia. Até ao dia seguinte, em que acorda e percebe que está sozinha no mundo. Esta curiosa incursão no género é, ao mesmo tempo, uma inovação no mesmo uma vez que aqui o tal "fim do mundo" não se deve, pelo menos aparentemente, a um qualquer cataclismo no mundo que desse lugar a um extermínio da população tal como a conhecemos. Nada ruiu, pelo menos não até à intervenção da jovem "Tilda", não há quaisquer sinais de destruição ou devastação e não existem mortos-vivos a percorrer as ruas de Sydney. Nada. Nada existe de vida - humana ou animal - à excepção da jovem e do seu companheiro coelho que assume uma personalidade própria e com o qual são estabelecidos alguns diálogos mais ou menos "reais". Num universo onde todos desapareceram e não existem nem regras nem leis ou "adultos" capazes de impôr limites, o que esperar de uma jovem que agora tem toda uma cidade às suas mãos? Comportamentos inerentes a uma súbita liberdade que faz ruir a cidade ao sabor dos limites do seu humor que, assumidamente, são poucos neste momento. Com esta imagem em mente, o que Waltzing Tilda - numa clara referência à cultura tradicional australiana - oferece ao espectador não é tanto uma reflexão sobre o fim dos tempos mas sim uma sobre a mente de um jovem que tenta sobreviver ao fim abstraindo-se do mesmo e dando corpo aos seus desejos de jovem adolescente que faz tudo aquilo que em circunstâncias normais, com o medo da reprovação, não fariam. Mas, como em tudo na vida, os bons momentos não duram para sempre e a nostalgia daquilo que "foi" (mesmo com todos os dramas existenciais de uma sociedade moderna) surgem de novo na mente da nossa protagonista, todos os momentos menos bons tidos outrora parecem cenários paradisíacos nesta sua nova realidade onde, afinal, toda a solidão não compensa pois não existe ninguém a quem recorrer e onde os sons do passado parecem ser raios de esperança então tratados com indiferença. Os limites do "agora" face à falta deles nesse passado cada vez mais distante assumem-se como mais desesperantes do que toda a falta de valores, de moral ou de empatia que caracterizavam a sociedade em que ela vivia e que, no fundo, caracterizam toda a contemporaneidade tal como a conhecemos. Uma nota positiva a esta curta-metragem e ao seu realizador e argumentista que consegue dirigir um filme coerente não só para o género mas enquanto um filme que aborda o fim em diversos parâmetros, da perda pessoal à emocional, do fim da sociedade e da comunidade, da solidão per si como aquela sentida quando todo o mundo "nos" rodeia sem esquecer a compreensão de que tudo pode transformar-se em pior do que o suposto "mau" que temos à nossa frente. Nem sempre a solidão existe quando pensamos que a vivemos. Esta pode manifestar-se de uma forma mais presente e esmagadora mesmo que, a seu tempo, se queira revelar como um bem que chega disfarçado de uma solução para todos os males deixando, ao mesmo tempo, uma vontade em perceber o que poderia estar para lá deste fim pela cidade de Sydney - usada como uma homenagem à mesma -, ainda que o seu término seja revelador de uma que uma continuação não seria possível. Para um filme académico filmado em dez dias o resultado não poderia ter sido melhor.
Woodgreen de Welket Bungué é uma curta-metragem de ficção de co-produção brasileira e britânica que relata a viagem de Soho N'a (Bungué), um emigrante guineense residente em Londres que embarca numa viagem para o Brasil aquando de uma crise matrimonial. Chegado a terras de Vera Cruz, fica perdido numa ilha durante dez dias e ao regressar, decide gravar a sua viagem de volta a Londres com a câmara do telemóvel apenas para perceber que o espaço tal como o conhecia... já não parece ser o mesmo.
Com argumento também da autoria de Welket Bungué, Woodgreen regista três momentos distintos... Do primeiro em que atravessa os locais de uma folia carnavalesca num Brasil distante a um segundo que capta uma Londres intensa mas indiferenciada onde todos caminham sem ninguém se olhar numa clara dicotomia calor versus frio que opõem as sociedades Sul-Americanas e Europeias. Numa espera-o uma vida de indiferença e distanciamento que lhe recordam tudo o que perdeu... casa, mulher e cão. Na outra a ideia de uma vida diferente, talvez melhor, onde a mudança lhe confere uma réstia de oportunidade.
Do desespero de um homem à sua viagem pela busca de uma nova oportunidade, Woodgreen reflecte sobre as oportunidades e escolhas - quando as pode fazer - de um homem deslocado da sua terra que tenta encontrar um espaço - novo e seu - ultrapassando barreiras e obstáculos que surgem pela confiança e inexperiência que tudo o que se apresenta como "novo" lhe colocam.
Num registo semi-documental onde este e a ficção se confundem, esta curta-metragem filmada na primeira pessoa como que de um registo de viagem se tratasse explora a solidão do Homem em breves minutos que deixam no espectador a vontade de conhecer um pouco mais - dele e da sua viagem - para lá dos breves apontamentos situacionais que nos são fornecidos em legendas. Interessante pela ideia de exploração do desconhecido como caminho possível para essa tal nova oportunidade, Woodgreen apenas "falha" pela sua (infelizmente) curta duração.
Mulher-Maravilha de Patty Jenkins é uma longa-metragem norte-americana que se insere na lista de obas e figuras da Marvel adaptadas ao cinema, desta vez, sobre as origens de Diana - a Mulher-Maravilha - e os seus destinos junto daqueles que jurou defender... a Humanidade.
Depois do piloto Steve Trevor (Chris Pine) se despenhar nas águas junto à sua ilha, Diana (Gal Gadot), uma guerreira amazónica, descobre que o mundo para lá das suas fronteiras se encontra em guerra. Com o intuito de destruir o poderoso deus Ares, Diana embarca numa viagem por uma Europa devastada pela Primeira Guerra Mundial onde irá desvendar todo o seu potencial enquanto salvadora dos destinos do planeta.
Adaptado da realidade Marvel por Allan Heinberg, Zack Snyder e Jason Fuchs, Wonder Woman é o mais recente título cinematográfico retirado às inúmeras aventuras do referido franchise que o espectador facilmente entende como o primeiro de muitos que irão cruzar vários super-heróis nos mais intensos blockbusters de Verão... E se as dúvidas persistissem, os primeiros instantes de "Diana" no seu trabalho no Louvre da actualidade tudo esclareciam ou não fosse ela receber uma encomenda da já famosa Wayne Enterprises.
Tido essencialmente como um filme de acção e aventura, este Wonder Woman tem o cuidado de se assumir como mais um veículo da acção britânica - e norte-americana - num dos conflitos mundiais que atravessaram a Europa assumindo-se como a tal super-potência dominante num século cheio de crises onde se intensificaram inúmeros confrontos armados mas, ao mesmo tempo, dá um certo toque ao século XXI em que nos encontramos assumindo algumas preocupações actuais. Começando pela principal - e de certa forma como uma incontornável continuação do século passado -, Wonder Woman tem o "cuidado" de alertar o espectador para que "atenção"... não foi só nos idos 1900 que o mundo esteve nesta corrida ao armamento. Pelo contrário, que o espectador mais desatento note... estamos hoje realidade tão ou mais preocupante do que na altura e se dúvidas existissem... bastava ligar a televisão num qualquer noticiário e percebemos onde nos encontramos. Mas, apesar deste soar do alarme anti-bélico, Wonder Woman é acima de tudo um inesperado e algo inexplorado alerta para as questões ambientais que tanto afectam o nosso planeta neste século XXI. Nesta longa-metragem de Patty Jenkins - que alguns acusam de feminista mas eu a tenho como mais pretenso-ecológica - até os vilões são dotados de uma consciência quando querem conquistar não pelo prazer do domínio mas sim com o propósito de livrar o planeta do seu verdadeiro cancro... o Homem. No tempo dos deuses do Olimpo que comandavam os destinos da Humanidade do alto de um monte místico e mítico, toda a Terra era pura e limpa da desertificação e da poluição que ganhou nesse século XX, dimensões para lá de suportáveis. Agora, cem anos depois, encontramos um planeta com os mesmos dramas ecológicos mas potenciados ao seu máximo para níveis incalculáveis. Livrando-se a Terra do Homem... poderá ela finalmente ter uma nova hipótese de sobreviver?!
Assim, e para lá da questão da pegada ecológica - de então mas com um piscar de olho ao nosso presente -, Wonder Woman consegue (tal como anteriormente referi), consciencializar o vilão, ou seja, normalmente associado à destruição pela destruição, pelo comando de um planeta em ruínas e por um poder déspota e livre de responsabilização, aqui o vilão surge como um rosto "armado" (literalmente) de um planeta que lentamente definha e que, desprovido de defensores, nele encontra um justiceiro capaz de tudo para vingar a acção do Homem.
Pelo meio destas pretensas mensagens o que encontramos mais em Wonder Woman? Um bem construído filme de acção e entretenimento cujo propósito é essencialmente deslumbrar pelos seus efeitos especiais e sequências de acção construindo, ao mesmo tempo, uma ponte de ligação a todos os demais contos de super-heróis que povoam o grande ecrã neste época do ano, apresentando mais uma das inúmeras personagens Marvel - esperam-se as novas entregas e o cruzamentos entre todas as histórias de super-heróis e vilões - e. no fundo, entreter o espectador que segue fielmente os mais variados comics em que todos eles se encontram.
Longe de ser a obra referência do momento ou até mesmo deste género, Wonder Woman consegue, por sua vez, levar ao grande ecrã uma super-heroína distanciando o género que coloca o protagonista masculino em primeiro plano remetendo-o aqui para um desempenho quase secundário e de suporte à acção motivada pelo coração da protagonista. Aqui reside - talvez - a única característica dita feminista desta longa-metragem e de uma indústria que já deveria ter compreendido há muito que também uma mulher, uma actriz e até uma personagem feminina central consegue levar espectadores às salas e ganhar dinheiro com esse pseudo-"fenómeno".
Com um conjunto de simpáticos secundários onde se destacam Robin Wright, Connie Nielsen, Danny Huston ou Elena Anaya, este Wonder Woman é essencialmente um objecto de puro entretenimento, divertido e frenético quanto-baste não lhe faltando portanto as batalhas, as lutas pelo poder, as revelações e até mesmo as confirmações (até do próprio amor). Wonder Woman é portanto, o filme de super-heróis (heroína) do ano mas, tal como todos os demais do referido género, está longe de contribuir para se afirmar como uma peça fundamental do mesmo, apenas conseguindo confirmar que abriu a porta ao género agora também liderado (e bem por Gal Gadot) por uma mulher capaz de ser tão "bad ass" como qualquer herói protagonizado por um homem.
What Happens in Your Brain If You See a German Word Like...? de Zora Rux é uma curta-metragem alemã de animação presente na mais recente edição do Córtex - Festival de Curtas-Metragens de Sintra que decorre no Centro Cultural Olga de Cadaval até ao próximo Domingo dia 19 de Fevereiro.
Nesta breve curta-metragem animada o espectador é levado a uma inesperada e assumidamente surreal viagem pela mente humana que tenta decifrar - e pronunciar - uma extremamente longa palavra alemã. Por entre pasmo e dificuldade... fica a sua repetição até à exaustão.
Se esta animação consegue ser interessante de uma perspectiva de ficcão meets animação é, no entanto, a extrema repetição da palavra não só de si difícil de pronunciar como praticamente impossível de tentar pela rápida sucessão em que ela própria assume o estatuto de "personagem" da curta que transformam toda uma original, e por vezes cómica, abordagem num difícil e desinteressante momento.
Do cómico ao monótono... Do impossível de reproduzir ao distanciamento que o mesmo origina, What Happens in Your Brain If You See a German Word Like...? perde-se na falta de empatia que cria com o espectador aturdido com o absurdo de um momento em loop auditivo e imagens surreais que povoam o ecrã nos seus breves cinco minutos de duração. E ainda que a realizadora tenha sido original na forma como parodia a língua alemã, falha na forma como tenta fazer chegar essa mesma comédia de situação para lá das suas próprias fronteiras.
Washakie y el Chico de las Manos Mojadas de Eric Monteagudo e Orió Peñalver é uma curta-metragem espanhola de ficção ambientada no oeste norte-americano durante o século XVIII onde é relatada a viagem de Washakie (Bryan Ostolaza) um nativo americano em busca de água para salvar a vida do pai que, a dada altura da sua viagem, se cruza com um Cowboy (Daniel Horvath) por quem sente uma imediata e estranha atracção.
O argumento de Washakie y el Chico de las Manos Mojadas da autoria de Monteagudo contém interessantes e mordazes detalhes dignos de uma direcção que está, também ela, original, provocadora e extremamente bem sucedida. Num registo inicial, esta curta-metragem espanhola prende o espectador graças a todo um imaginário nativo-americano - a que tão vulgarmente chamamos índio - onde as danças tribais como preparação para as batalhas entre tribos e para com o inimigo "branco" e essas mesmas guerras e lutas cruzam as memórias que todos nós temos das eternas matinées televisivas onde perdíamos horas a testemunhar as mais diversas longas norte-americanas das décadas passadas e delirávamos com as mais diferentes incursões no cinema de género. Para qualquer um de nós que recorde ter vivido esses momentos, Washakie é, desde logo, um ponto positivo na recuperação dos mesmos.
Mas o sucesso desta curta-metragem não termina aqui. Toda a sua narração, imersa - a utilização desta palavra não é ao acaso dada a temática inicial da mesma - num misticismo abstracto que priva o espectador de um cenário de opulentas e majestosas paisagens brindando-o apenas com os elementos necessários para compreender que aquela viagem é repleta de perigos não só naturais como principalmente humanos, consegue fazer com que quem assiste a Washakie se preocupe com esses pequenos detalhes que o inserem num espaço normalmente inóspito. Em termos criativos, esta curta-metragem consegue portanto representar o selvagem oeste norte-americano como, ao mesmo tempo, manter a sua própria história e narração mostrando que os actores "em palco" não estão abandonados ou desprovidos de elementos que os transportem - e a nós - àquele lugar.
A água, tão importante então para a sobrevivência de populações que escassamente lhe tinham acesso, é uma constante. No entanto, o espectador é então levado para uma relação ora platónica ora de um intenso desejo entre os dois jovens homens que olham, observam e admiram o corpo do outro como que uma novidade que agora testemunham. Esta admiração que tanto pode ser confundida como a primeira mútua observação de "índio" e "homem branco", pode ser também confundida como uma relação homo-erótica estabelecida entre os dois jovens que não só começam a conhecer o mundo como também despertam para uma sexualidade que - tanto quanto é do conhecimento do espectador - está apenas agora a começar. Esta mútua contemplação - com breves momentos em que o toque e a sensação ganham forma e se assumem como fundamentais para a dinâmica entre ambos (como relação desejada e obviamente proibida) - é, também ela, submergida numa permanente lembrança da missão inicial - a água como elemento de salvação - e na diferença de "raças" (palavra tenebrosa) que então, mais do que nunca, fazia todo o sentido para uma terra que se pretendia conquistar e desbravar de influências indesejadas, ou seja, a sua população indígena.
Se a água é como uma salvação e se brota de um jovem cowboy que é então o "objecto" de admiração de um jovem nativo americano... poderá isto querer significar que a sua eventual relação não é, afinal, tão proibida como se poderia esperar? Ou, por sua vez, não poderá esta salvação de uma comunidade existir graças às "mãos" do outro? Num misticismo permanente que se cruza sem reservas num imaginário erótico, Washakie y el Chico de las Manos Mojadas parece ter brotado dos velhos western norte-americanos onde lendas e superstições cruzavam caminho com grandes batalhas, honra e continuidade de uma comunidade não esquecendo, no entanto, que esta continuidade é aqui vista com um olhar mais subversivo e felizmente pouco conservador que ganha forma graças a duas magníficas interpretações - de certa forma também elas contemplativas de um espaço ausente - de Ostolaza e Orvath, uma magnífica reconstituição histórica presente em detalhes como o guarda-roupa às mãos da dupla de realizadores em colaboração com Ana Peña e da pontual, mas essencial, direcção de arte de Eric Monteagudo, Miguel Monteagudo, Ricardo Ruiz e Gloria Tamarit que faz juz à velha expressão... less is more.
Destaque muito positivo ainda para a direcção de fotografia de Noel Mendez que abstrai o espectador da ausência de um cenário constante, obrigando-o a focar-se nos já referidos pequenos detalhes de construção de toda uma história de época sem que, no entanto, os actores estejam, de facto, lá.
Imaginativa, por vezes a exalar uma sensualidade quase animal e um interessante e mordaz retrato de uma sociedade que, então tal como agora, sobrevive à custa das necessidades maiores daqueles que num momento... nada têm.
Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos de Duncan Jones é uma longa-metragem norte-americana - em co-produção com a China, Canadá e Japão - e a mais recente adaptação cinematográfica de um jogo online seguido por milhões de fãs.
Num mundo em guerra entre Orcs e Humanos, uma horde orc comandada por Gul'dan (Daniel Wu) pretende invadir o planeta Azeroth através de um portal mágico que se alimenta da energia dos prisioneiros que tem em cativeiro.
Numa improvável aliança entre os orcs Durotan (Toby Kebbell), Garona (Paula Patton) com Llane Wrynn (Dominic Cooper), o Rei de Azeroth e o seu cunhado Anduin Lothar (Travis Fimmel), que com o apoio do mago Khadgar (Ben Schnetzer) irá tentar travar a propagação do mal destruindo as pérfidas intenções de Gul'dan e, pelo caminho, pacificar os reinos e os seus diferentes mundos.
Com um argumento da autoria do próprio Duncan Jones em parceria com Charles Leavitt, Warcraft recupera interessantes e bem pensados elementos de obras cinematográficas passadas que aqui encontram uma estranha mas curiosa adaptação. Todo o universo em que o espectador está inserido é uma ambiência familiar de trilogias como The Lord of the Rings (2001, 2002 e 2003) e The Hobbit (2012, 2013 e 2014) onde estranhas criaturas dos mais diversos e profundos mundos se cruzam num mesmo espaço e numa luta pelo poder e controlo dos territórios naquele que, em espaço temporal terrestre, se poderia considerar a Idade Média. A magia e os encantamentos antigos cruzam-se com problemas modernos como a escravatura, o domínio dos mais poderosos em relação aos mais fracos e, de uma forma geral, a corrupção do ser por forças que num lento crescendo ocupam a mente e os corações daqueles que lhes pensam resistir mas que se deixam dominar pelo capricho mais antigo... o próprio poder.
Mas as semelhanças com outras obras cinematográficas não param por aqui. Warcraft recupera ainda uma já conhecida essência de Star Wars - a "fel" que corrompe a "força" do bem - bem como um improvável mas evidente piscar de olho a The Ten Commandments (1956) com a captura do descendente do "traidor" que é, depois deixado escapar elevado por um rio na esperança de que o salvador chegue um dia mais tarde para libertar todos os oprimidos que ousem segui-lo tendo, no fundo, um destino ou propósito comum... a luta do Bem contra o Mal que enquanto dura... perdura.
Tido como o primeiro título de uma saga que poderá ser extensa tal a riqueza das suas personagens, universos e espaços, Warcraft é silenciosamente assumido como o capítulo inicial, ou seja, aquele filme que todo o espectador mais atento percebe ser o primeiro de muitos que irão chegar e que aqui serve quase exclusivamente para a apresentação das suas principais personagens, quais as origens daquilo que ainda irá surgir e, essencialmente, o capítulo que revela as principais premissas base, alianças, rupturas não esquecendo, claro, as relações que irão surgir para lá daquelas traçadas em campo de batalha... Será possível um amor inter-espécies?
Com uma mensagem que acaba por ser eterna e transversal a todos os universos - reais e imaginados -, Warcraft questiona ainda o espectador sobre o que realmente separa diferentes indivíduos? No próprio início da trama uma simples frase esclarece o mais desatento... há anos que se trava uma guerra que ninguém já conhece os seus motivos... No fundo, existirão motivos para uma guerra? Motivos para uma guerra que ninguém entende e cujo único propósito parece ser a aniquilação alheia? No entanto, é também desta guerra sem sentido e sem um propósito explícito para além daquele da tomada do poder, que surge a eterna questão... poderá ser na diferença que reside a salvação de todos os mundos? Poderá ser esta diferença o resultado de uma mútua compreensão e eventual pacificação? Poderá a mesma ser a resposta a uma crescente corrupção e vontade de dominação?! A diferença, tantas vezes tida como objecto de discórdia, acaba por se transformar na resposta para a resolução de todos os problemas... afinal, é na aceitação do próxima e das diferenças/qualidades que o caracterizam que reside uma resposta universal que precede a compreensão de que para mundos diferentes... leis diferentes... com o propósito último do respeito para com todos.
O argumento que visa tocar em todas estas premissas em pouco mais de duas horas de duração acaba, para tristeza do espectador, por abrir vários rumos e caminhos sem que na realidade sejam todos devidamente articulados e encerrados. Em Warcraft aquilo que é evidente, é que ao servir de uma obra introdutória para os futuros e eventuais capítulos, deixa mais perguntas em aberto tentando criar a expectativa do que o que "aí vem" é mais... e melhor. No entanto, sem uma sequela já previamente preparada, o efeito espectacular de Warcraft é toda a sua rica componente técnica que se inicia com os seus efeitos visuais que criam, literalmente, novos mundos para o mundo sem esquecer claro, a magnífica direcção de fotografia de Simon Duggan que leva o espectador a navegar por ricos e verdejantes locais como, de repente, a verdadeiros campos de batalha onde se sentem as cores - ou ausência delas - da morte num misto de exuberantes detalhes que obrigam a mais do que um visionamento. Igualmente exímio o guarda-roupa de Mayes C. Rubeo que, tivesse o filme estreado numa época mais perto do final do ano, seria lembrado na respectiva atribuição de prémios... facto que duvido que se venha a confirmar e a óbvia caracterização fruto da existência de vários mundos e seres distintos.
Com um espírito que se distancia das tradicionais adaptações de videojogos com personagens estereotipadas e ocas - atente-se no potencial dramática que as personagens interpretadas por Paula Patton e Travis Fimmel tem ainda pro entregar não só individualmente mas também em relação à sentida química entre ambos -, Warcraft deixou uma boa sensação como o mais recente filme que mescla aventura, acção e magia mas que, no entanto, precisa desesperadamente que lhe dêem a sua devida continuidade e uma maior exploração e profundidade nas já referidas personagens para que não se transforme de filme sensação em filme desilusão (pela falta dessa mesma continuidade). .
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"Anduin Lothar:
Some see death as having some greater purpose, but when it is one of your own, it is hard to grasp anything good comes from it."
Ways de Àlex Lora é uma curta-metragem espanhola de ficção que relata um momento na vida de Alan (Christopher Dylan White), um jovem atormentado com a solidão provocada por um instante traumático na sua vida.
O mais recente trabalho do realizador de Only Solomon Lee (2013) e Godka Cirka (2013), cujo argumento é também da autoria de Àlex Lora em colaboração com David Blaikie e Carmen Vidal, assume-se desde os instantes iniciais como uma história que esconde em pequenas subtilezas os potenciais motivos causadores de uma catástrofe pessoal, neste caso a de "Alan", um jovem isolado nos seus próprios pesadelos de um passado nunca totalmente revelado.
Quando o espectador inicialmente conhece "Alan", este parece uma breve miragem de alguém que em tempos tivera amigos - que o esperam - e uma vida social aparentemente normal. No entanto, essa vivência normal de "Alan" foi não só assombrada pela morte de alguém que lhe era próximo (pensamos que aquela mulher que ele insistentemente vê fosse a sua mãe) como, mais tarde, somos confrontados com a relação que realmente os unia e que o moldou e transformou naquilo em que é numa actualidade nunca situada.
O mesmo "Alan" que em tempos fora - pensamos - um jovem como tantos outros, é agora uma sua sombra vivendo num local onde os receios e os demónios de um passado vivido atormentam a sua existência e que apenas consegue encontrar na violência física a forma de expiar esses mesmos demónios e garantir-lhe uma ilusória noção de afectividade.
Entre as incertezas que a sua mente lhe provoca sobre o que é real e o imaginado, entre o passado traumático (?) e um potencial presente livre de pressões, "Alan" é um jovem perdido nos seus medos, receios e inseguranças que nem aqueles que o tentam acompanhar conseguem libertar.
Com um clima de constante pesadelo que apenas a noite consegue esconder, a perfeita recriação de uma atmosfera tensa e escura pela câmara de Felipe Vara de Rey consegue deixar o espectador de Ways num limbo semelhante ao de "Alan", onde nunca se sabe ao certo nem as causas nem as consequências da sua agitação assumidamente interior.
Destaque ainda para a interpretação de Christopher Dylan White que consegue suportar em doze breves minutos todos os tormentos de uma alma assombrada, conferindo a este jovem todo o peso e dor do mundo, e a confirmação - já óbvia - de Àlex Lora como um dos mais fortes nomes de um novo e sempre intenso cinema espanhol.
A Bruxa de Robert Eggers é uma longa-metragem norte-americana que será exibida na secção Boca do Inferno do IndieLisboa - Festival de Cinema Independente que decorre até ao próximo dia 1 de Maio em várias salas da capital.
William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie) são um casal recentemente chegado da Europa e vivem numa pequena aldeia de New England em meados do século XVII. Cristãos devotos e com uma vida algo segregada da demais comunidade, são convidados a sair ou serem julgados por práticas pouco convencionais.
Quando optam por abandonar a comunidade e abraçar uma nova vida junto da floresta, o casal e os seus cinco filhos esperam uma vida difícil mas segundo os seus propósitos e convicções até que Samuel - o recém nascido - desaparece misteriosamente enquanto à guarda de Thomasin (Anya Taylor-Joy) a filha mais velha prestes a entrar numa idade adulta.
Estará esta família perante um mal maior que se aproxima e testa as suas convicções ou, por sua vez, existirá o próprio mal dentro daquela família disfarçada com rostos inocentes e vindo do mais inesperado dos locais?
Realizador e argumentista de The VVitch: A New-England Folktale, Robert Eggers constrói uma história que tanto pode ter de lenda - pela sua vertente mais mística - como de realidade se analisarmos friamente o que está por detrás deste conto. Recorrendo inicialmente a esta perspectiva, The VVitch: A New-England Folktale é uma história que se centra nos medos mais profundos que se iniciam com as grandes alterações de vida - aqui a emigração - e que se perpetuam com as incertezas inerentes a um novo rumo no desconhecido onde tudo é estranho para quem chega mas, principalmente, quem chega é estranho para tudo o demais que já lá se encontra. Dito isto, esta família chega a um local onde já existem colonos, com leis estipuladas e uma forma de vida dentro das "regras" e normas de procedimento. Na perspectiva de "primeiro que chega é o primeiro que se serve", tudo o que chega em segundo lugar tem, forçosamente, de se formatar a um estilo de vida que já está imposto. Sem que muito seja revelado daquilo que opôs uma comunidade a esta família levando-os a terem de abandonar a comunidade à qual agora deixam de pertencer, as únicas informações que o espectador recebe são que para lá se manterem teriam de "emendar os seus comportamentos" deixando, desde este instante, indicações de que algo já estava errado dentro de uma família aparentemente normal.
É com base nesta perspectiva que podemos, de seguida, juntar alguns elementos que vão sendo lançados com o desenvolvimento desta história e que contrariamente à mudança de grupo se centram exclusivamente na mudança do "eu". Esta mudança, não menos importante e, por vezes, bem mais transformadora sente-se presente em elementos como o fanatismo religioso que os elementos desta família denotam ao considerarem, por exemplo, a sua própria existência como um pecado. Se a sua existência se deve graças a um pecado - sexual - então quem nasce - pais e os cinco irmãos - são todos pecadores pois ali estão como o fruto (ou prova) de que algo aconteceu.
Com a compreensão de que a sua existência se deve graças ao pecado, esta origina igualmente um outro comportamento... a culpa. A culpa de terem abandonado o seu país... a culpa por não serem compreendidos pelos demais... a culpa por serem expulsos... a culpa por desaparecer um filho... a culpa por morrer outro... a culpa pelas colheitas ficarem perdidas... a culpa pela (sua) vida não resultar. A culpa merece um castigo... Uma penalização pela sua existência. A desconfiança instala-se no seio de uma casa onde todos se conhecem mas onde, aparentemente, todos se transformam em estranhos, em raízes de um mal desconhecido e, como tal, algo que tem de ser severamente castigado e punido.
A ansiedade fruto de tudo correr mal gera a mentira - aqui quase sempre contada pela boca de uma criança - e esta, por sua vez, tem como imediata consequência a desconfiança e o medo (num espaço onde só se encontram seis pessoas que desaparecem ou morrer misteriosamente... alguém tem de ser culpado). Finalmente fruto do medo chega uma violência - agora física - onde a punição tem de ser paga através do corpo pois só através desta purga poderá - eventualmente - ser alcançado um bem maior. No final apenas a paranóia parece existir num espaço que está decididamente corrompido.
No entanto, The VVitch: A New-England Folktale entra ainda no campo da fantasia, dos contos populares e da imaginação - ou da incerteza - quando explora a ideia de que existe de facto um "mal", algo desconhecido que se apodera das mentes dos mais fracos, daqueles que cedem mais facilmente fruto de uma mente que se deixa levar pelos contos, pela incerteza do que existe e por lendas e contos místicos que existem "desde sempre". Neste conflito entre Bem e Mal... entre Deus e o Diabo... entre a evolução racional (?) do Homem e a Natureza incólume, encontramos pistas que nos indicam quais poderiam ser os comportamentos desta família e onde se encontra(m) realmente os reais problemas. Aquando da sua saída da comunidade e chegada à floresta, vemos os membros desta família a prestarem culto a uma densa floresta junto da qual começam a construir a sua nova vida e propriedade. Conhecendo (suspeitando) as lendas sobre a existência de uma bruxa... porque motivo se mantêm ali como se nada soubessem? Quando desaparece o jovem "Samuel"... as primeiras indicações para o mesmo foi o poder ter sido levado por um lobo... Elementos estes aos quais se juntam a existência de um coelho que parece transpirar a essência do mal e que indica à família que "têm" de o seguir para se perderem no centro da floresta, o corvo que se alimenta do leite materno - a imoralidade da bestialidade -, a maçã vomitada por "Caleb" como o símbolo máximo do pecado - numa clara referência a Adão e Eva -, as cabras que servem leite como alimento da família, e finalmente a grande surpresa que chega através de "Black Phillip" que lenta e calmamente observa os comportamentos desta família à espera de os comprometer e subjugar aos próprios desejos.
Numa constante subversão do imaginário, The VVitch: A New-England Folktale oscila entre as noções de comunidade, de isolamento, de loucura e de superstição que lentamente apresenta ao espectador o mais puro conto tradicional sobre bruxas, feitiços e morte mas que, no final, explana o mais elementar da Humanidade... todos temos um preço. A única incerteza é saber o quão alto é e o que cada um está disposto a fazer - (in)voluntariamente - para o obter.
The VVitch: A New-England Folktale leva o espectador ao domínio da incerteza durante toda a sua narrativa. (Des)esperamos por compreender se estamos de facto perante uma história sobrenatural ou simplesmente perante uma família que - aos moldes da sociedade do século XXI - seria considerada bizarra pelo seu fanatismo. Quando a revelação chega aquilo que o espectador mais queria era que fossem revelados todos os elementos desse sobrenatural desconhecido e qual o "depois" de uma "ThomaSIN" do qual tanto ficou por dizer e que entrou, ela própria, numa nova fase daquilo a que pode chamar de vida.
Tecnicamente exemplar e com um conjunto de elementos do imaginário do conto popular que o transformar num bem sucedido filme do género, The VVitch: A New-England Folktale apenas não atinge o pleno porque o espectador queria... muito mais. Secretamente... qualquer um de nós acaba por simpatizar - quase em absoluto - com "Black Phillip" que testemunha não só a perda como também a loucura e principalmente a perdição do Homem - a família - subvertendo-os... um a um.
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"Black Phillip:
Wouldst thou like to live deliciously?"
The Weather Report de Paul Murphy é uma curta-metragem irlandesa de ficção com um contexto histórico verídico.
Blacksod Lighthouse, Irlanda 1944. Ted Sweeney (Edward MacLiam) é o responsável por enviar os boletins meteorológicos a partir de Mayo. Maureen (Marie Ruane), a sua mulher, recebe misteriosos telefonemas para que o relatório do estado do tempo seja, uma vez mais, enviado com dados actualizados.
Incerta sobre o porquê desta insistência, Maureen questiona(-se) Ted sobre o que se estará a passar por detrás daquele telefonema enquanto os bombardeiros continuam a atravessar os céus.
O espectador cedo percebe que está perante uma história que tem como pano de fundo um qualquer acontecimento ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial estando, no entanto, incerto sobre se aquele faroleiro estará do lado Aliado ou a encobrir alguma missão ou ofensiva inimiga nas águas territoriais irlandesas. Em cinco breves minutos de duração desta curta-metragem, conhecemos portanto as origens de um dos mais importantes e emblemáticos momentos de todo o conflito... aquele que deu origem ao Dia D a 6 de Junho de 1944 que graças aos boletins meteorológicos de "Ted" não ocorreu um dia antes, determinando assim o início do fim da guerra.
Tendo ainda como apontamento histórico o facto de Vincent - filho de Ted e Maureen - manter ainda os destinos de Blacksod, The Weather Report consegue graças a um cativante argumento de Paul Murphy, manter o espectador em suspenso e na incerteza, sobre o que estará realmente por detrás de misteriosos telefonemas sendo, ao mesmo tempo, um pequeno mas importante elemento histórico do mais sangrento conflito mundial do século passado.
White Lock de Mark Datuin - também argumentista - é uma curta-metragem de ficção canadiana que nos remete para um pequeno grupo de pessoas atormentados por uma tragédia e pelas consequências que daí surgem.
Drew (Brandon James Sim) perde a sua bolsa de estudos enquanto Dulce (Savannah Basley) tem a hipótese de continuar os seus. No entanto, enquanto tenta manter a relação com Keemo (Andre Guantanamo) que está envolvido num problema judicial.
Valerio (David Emanuel) escuta até à saturação os comentários de uma outrora atencionsa Sharon (Annie Fairfoul) que agora parece desesperada por atenção, enquanto ele próprio olha para um casal que parecia irradiar o significado daquilo que é o amor.
As vidas de todos eles estão interligadas através de um trágico acontecimento do qual se tornam apenas uma breve e instantânea memória... conseguirá algum deles sobreviver?
Num argumento que cruza e interliga um conjunto de histórias sobre a perda e o desamor, Mark Datuin reflecte sobre a momentânea felicidade de uns pode estar directamente relacionada com a tristeza de outros numa sociedade que parece não perdoar as falhas alheias e que as penaliza sem olhar a rostos e a casos mas sim às ditaduras dos números e do desumanismo. Enquanto esta é a premissa principal de White Lock, não deixa de ser verdade que ao mesmo tempo centra a sua atenção sobre um conjunto de personagens que de imediato parecem - aos olhos do espectador - como sendo disfuncionais a viver num universo paralelo difícil de compreender e onde os seus problemas os vão consumindo de forma lenta e desgastante. É apenas quando o espectador percebe a real dimensão da ligação entre "Valerio" - por um lado - e "Keemo", "Drew" e "Sharon" - por outro - que se entende como as vidas destas quatro personagens estão interligadas de forma absoluta.
A tragédia pode criar elos e ligações difíceis de compreender ou até mesmo aceitar, mas não deixa de ser verdade que uma vez criados jamais poderão ser quebrados modificando radicalmente as vidas daqueles que por ela são afectados. De sonhos de sucesso e aplausos, aos da manutenção de um grande amor sem esquecer aqueles desejos de uma carreira académica de excelência para a qual tanto se lutou, apenas algo grave demais poderia impedir qualquer um de os concretizar. E uma vez não conseguida essa concretização, a alma vive num limbo ou num purgatório convencida de que os irá ter mas sem ter modo de lutar pelos mesmos como se de uma pena sem fim se tratasse.
Ainda que o argumento de Mark Datuin introduza ao espectador um elevado número de personagens que exigem a sua máxima atenção para entender desde o início a sua real ligação, não é menos verdade que é no final que todas as dúvidas se dissipam e o espectador compreende todos os pequenos enredos e elos que se criam. Enredo esse que é apimentado por uma direcção de fotografia de Matvey Stavitsky que os coloca a todos - personagens e espectador - num plano mais etéreo e transcendente.
Simpática e com um conjunto de personagens que oscilam entre o "fora deste mundo" e aqueles que nele têm os pés bem assentes, White Lock tece uma reflexão sobre as escolhas que fazemos, as oportunidades que temos e as barreiras que pelo caminho são colocadas.
Wut de Sergi Marti - também o autor do argumento - é uma curta-metragem de ficção espanhola e uma interessante surpresa no seu género enquanto thriller dramático.
Wut é um rottweiler pertença de um soldado nazi alemão (Luka Peros) destacado na França ocupada durante a Segunda Guerra Mundial. Perdido numa floresta, o soldado parece perseguir alguém e depois de uma breve pausa percebe que o seu comer desapareceu. Com a percepção de que não se encontra sózinho, este soldado envia Wut à procura do misterioso invasor para aquilo que será uma estranha e invulgar revelação que colocará a sua (des)humanidade às claras.
Numa inovadora concepção enquanto filme de guerra, Wut surpreende de imediato o espectador por apresentar toda uma história dramática de um dos mais negros períodos da História Europeia sem que sejam necessários grandes diálogos ou narrações para explicitar aquilo que temos diante dos nossos olhos.
Esta história que envolve não só o drama de guerra mas sim o drama humanitário que lhe está inerente, consegue cativar pelo clima de mistério criado não só pelo ambiente geográfico em que se desenrola e que faz adivinhar algo de macabro escondido para lá daquilo que a vista alcança, mas também pelo imaginário colectivo que está imediatamente conotado pelo período histórico em que se sucede. A presença de um soldado nazi que persegue algo como se de um caçador se tratasse lança de imediato o espectador numa tensão latente que pressupõe que a tragédia está prestes a acontecer. E acontece... mas não como inicialmente a poderíamos pensar. "Wut" - o cão - é transportado para o centro desta história quando o seu dono faz dele a potencial máquina assassina que irá eliminar a "presa". Uma presa que é não só mais frágil perante "Wut" como também perante o "Soldado" que além de uma figura fisicamente mais forte é também um elemento armado e símbolo de um regime opressor. Mas, o que acontece quando aquele que supostamente deveria mostrar e revelar a sua humanidade se perde nos caminhos do mal e aquele que poderia estar dotado de uma ausência de moralidade se revela como um estranho e impávido observador da destruição dessa mesma "Humanidade"?
Mas Wut vai ainda mais longe ao mostrar que o íntimo de cada um está para lá da sua aparência física exterior e que aquilo que mais medo provoca em muitos de nós pode, por sua vez, ser aquele que mais complacência e compreensão mostra. Afinal, não procuram "vítima" e "caçador" algo em comum: saciar a sua fome? Enquanto "Wut" mostra não só piedade como solidariedade para com aqueles que fogem é, no entanto, o "Soldado" que mostra ser o lado brutal de uma dupla e enquanto ser pensante aquele que poderia ser empatia para com quem precisa de (sobre)viver mas que opta por seguir uma ideologia e um regime assassino mesmo num local como aquela floresta onde apenas ele poderia relatar o que se havia passado. Assim, ainda que voluntariamente entregue às suas próprias escolhas, este homem opta por ignorar o seu poder - o seu real poder - limitando-se ao preconceito e à desumanidade que lhe incutiram como "valores".
Sergi Marti contrói assim uma forte e intensa curta-metragem cuja história é essencialmente narrada através dos sentidos - visual e auditivo - na medida em que está praticamente desprovida de diálogos e falas remetendo o espectador para a observação do espaço em que as personagens se encontram - primorada direcção de fotografia de Anna Molins que leva o espectador a concentrar-se no essencial não esquecendo todos os detalhes que compõem o meio - e amenizando ou intensificando o momento através da música original de Luís Ivars que se assume como a verdadeira narração desta história (des)humana.
O Que Fazemos nas Sombras de Taika Waititi e Jemaine Clement é uma longa-metragem neo-zelandesa presente na secção Serviço de Quarto da nona edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa a decorrer no Cinema São Jorge até ao próximo dia 13 de Setembro.
Viago (Taika Waititi), Deacon (Jonathan Brugh) e Vladislav (Jemaine Clement) são três vampiros não tão modernos que partilham casa e tentam sobreviver na sociedade dos nossos dias onde enfrentam problemas normais como o pagar a renda da casa, mantê-la limpa e ainda conseguirem ser convidados para as diversas discotecas e terem assim uma vida social igual à de tantos outros jovens... que eles já não são.
Quando Petyr (Ben Fransham), o outro vampiro da casa já com mais de oito mil anos morde Nick (Cori Gonzalez-Macuer), o trio de vampiros vê a sua vida completamente alterada ao entrarem realmente num circuito social que não conheciam e obter novos conhecimentos que os inserem em plenos século XXI.
Num claro trunfo da programação do MOTELx deste ano, What We Do in the Shadows é um dos mais originais e hilariantes filmes do último ano - e seguramente aquele pelo qual a edição deste ano ficará recordada - e num estilo de mockumentary muito próprio consegue unir terror - light - e comédia que recupera não só o imaginário vampiro como também o dos lobisomens, zombies e demais criaturas que a noite tenta esconder.
Os dois realizadores, intérpretes e argumentistas desta longa-metragem neo-zelandesa constroem uma história com a qual o espectador cria uma imediata afinidade e pensa nos seus protagonistas como aqueles amigos realmente "na moda" que todos tentam e esperam ter. Percebemos que com eles a noite - mesmo com os seus evidentes perigos - será um triunfo. Cada um com a sua vincada personalidade, estes três amigos complementam-se naquilo que a certa altura se assume como a forma de sobreviverem a um mundo que, ao contrário deles, se transformou a uma velocidade alucinante. Se "Deacon" é o mais novo e rebelde de todos e ainda assim já conta com 183 anos - mordido por "Petyr" - não é menos verdade que é tão inadaptado quanto "Viago" de 379 anos - e aquele que assume o relato das suas vivências para o documentário a ser elaborado sobre as suas vidas - que receia aquela hora do dia em que desconhece se o sol já se pôs ou não e que se mudou para o país por amor, ou "Vladislav" de 862 anos e aquele que é já de uma velha guarda vampírica que merece o seu "respeito" e que é assumidamente um pervertido favorável à escravatura. E tudo isto sem esquecer o envelhecido "Petyr" que com os seus mais de oito mil anos se distancia de todas as querelas dos seus parceiros de casa.
Se esta história tinha tudo para ser um sucesso mostrando apenas as desventuras deste trio mais um, não é menos verdade que consegue ganhar uma nova e interessante dinâmica ao inserir no grupo "Nick", um potencial petisco do grupo que é acidentalmente - ou talvez não - transformado e que lhes confere aquele toque de realidade aos tempos modernos que tanto necessitavam mas que é, ao mesmo tempo, um risco para o anonimato que todos pretendem manter. E se a esta já de si confusa união de várias personagens dinamiza esta longa-metragem de tal forma que o espectador sente não poder perder momento algum, o que pensar quando aos mesmos são alicerçados zombies e lobisomens presentes na festa mais "in" do ano... The Unholy Masquerade a 6 de Junho pelas seis horas... que é como quem diz (06.06.06!)?
Dito isto, temos uma história repleta de humor negro, de comportamentos desviantes e de criaturas sobrenaturais que, muitos assumem, não se sentir ainda perfeitos dentro da sua pele vivendo com verdadeiras crises de identidade e com problemas existenciais quando procuram encontrar mulheres para saciar os seus desejos carnais e criminosos de todas as "estirpes" para saciar a sua fome, e tudo isto sem esquecer que têm uma casa que precisa ser governada e para a qual nenhum tem especial vocação. Corpos antigos... problemas eternos... e modernos.
Como forma de provar que todas as diferenças podem afinal encontrar um terreno comum onde interagir, e que nem tudo o que parece perigoso afinal o é - que o comprovem os momentos em que "Nick" tenta em vão fugir da caça vampírica - What We Do in the Shadows celebra a diferença, o escárnio, a aproximação das espécies e a amizade que dela pode surgir, a incompetência daqueles que supostamente têm como missão proteger-nos - a todos nós - e especialmente o amor... considerando que foi por ele que muitos dos nossos protagonistas se movimentaram... cada um à sua especial maneira.
Ainda que uma aposta que não celebra propriamente o terror - apesar dele se sentir presente não só pelo ambiente sinistro que a casa dos nossos vampiros apresenta ou até mesmo pelo incansável e sempre presente "cheiro" a sangue que paira no ar, What We Do in the Shadows destaca-se claramente pelo seu humor negro e divertimento nonsense e nem sempre politicamente correcto com que se movimentam as personagens que aqui ganham vida. No fundo, aquilo que fica implícito com esta longa-metragem é que todos - humanos ou não - procuram desesperadamente um lugar onde se inserir e onde a sua diferença particular - em relação às demais - não seja apontada mas sim celebrada... e que no final, por muito diferente que alguém possa ser dos demais existe sempre esse tal "grupo" onde o seu (nosso) lugar é desejado e indispensável para a sua manutenção. Que se celebrem as diferenças... são elas, afinal, que nos definem e caracterizam... E o nosso grupo de vampiros assim o faz notar.
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. "Deacon:
When you are a vampire you become very... sexy!" .
Welp de Jonas Govaerts é uma longa-metragem belga exibida na secção Serviço de Quarto da nona edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa a decorrer até ao próximo dia 13 no Cinema São Jorge e que leva o espectador a uma interessante incursão no cinema de terror feito por crianças.
Sam (Maurice Luijten) é um solitário rapaz de 12 anos que parte para um acampamento de escuteiros. Depois de algumas histórias sobre um rapaz perdido meio homem meio lobo de seu nome Kai, Sam encontra na floresta uma casa na árvore e um rapaz com uma estranha máscara.
Será Kai apenas um fruto da imaginação perturbada de Sam ou existirá realmente algo mais que os olhares mais desatentos não conseguem ver naquela floresta?
Um dos filmes que mais antecipava do MOTELx e cujo argumento de Govaerts e Roel Mondelaers reunia um conjunto de elementos que qualquer fã do género considera interessantes de imediato, confirma, no final, as expectativas que nele depositava ao revelar-se como um filme bem sucedido especialmente se considerarmos que estamos perante um género que pode ser prolífero no cinema norte-americano mas atípico para o cinema europeu.
Se este filme começa com um momento violento e que fazem o espectador adivinhar aquilo que o espera, não é menos verdade que Welp é, desde o primeiro momento, um filme cuja história está repleta de uma violência que impera de uma ou outra forma. Quer seja no grupo em que "Sam" se "insere" e que não parece muito receptivo à sua presença ou até mesmo daqueles que são considerados como os mais frágeis no grupo por não alinharem em todo o tipo de actividades que são propostas, ou até mesmo nos ocasionais arruaceiros "filhos-da-terra" que parecem não faltar nas localidades mais pequenas e remotas e que de certa forma lançam o "tom" de todos os acontecimentos por vir. Estarão todas as irmandades sujeitas a uma violência vs. aceitação? Estaremos perante um meio - pouco natural - onde a única forma de interacção e formação de grupo se desenvolve para lá de uma violência física que determina se "estás" ou não apto para o mesmo?
É neste ambiente restrito pouco dado ao humanismo ou tão pouco à camaradagem que tem no "Sam" de Maurice Luijten o rosto e a história perfeitos para nos centrarmos nele e nos seus movimentos... De aspecto frágil num grupo que se assume como rude, com um passado pouco claro no que diz respeito às suas origens e que o colocam até certo ponto como um marginal que ninguém aceita ele é o veículo perfeito para tudo aquilo que iremos presencial e confirmar como o "aluno" perfeito de algo que está por chegar. Incapaz de formar grandes amizade, "Sam" encontra em "Kai" - outro marginal e selvagem - o amigo que não conseguiu ter em espaços ou ambientes mais saudáveis e socialmente aceites para o seu normal desenvolvimento. "Kai" é assim alguém capaz de o entender e partilhar dessa marginalidade em relação à sociedade que lançam o mote àquilo que os poderá unir mas que acaba, também ela (relação), por se estabelecer com a prática de um acto violento e que irá desencadear todos os demais acontecimentos. Welp torna-se assim num filme sobre a interacção social e as relações - ou falta delas - humanas, nas quais vence quem mais e melhor se adapta ao meio em que vive - independentemente da violência que lhe está inerente - e onde todos acabam por ser o fruto desse meio corrompido pela violência que cria e gera num ciclo interminável. Como elemento secundário - ou não - temos então a presença de um assassino psicopata - anónimo - que o espectador apenas pode associar ao espaço em que se insere - uma aldeia abandonada - onde residiam antigos trabalhadores da indústria que ali se fixava e que por uma ou outra circunstância da mudança e evolução dos tempos deixou de existir. Alguém que ficou para trás, esquecido... perdido. Alguém que encontrou uma nova forma de viver - a caça. Se anteriormente essa caça era feita para subsistir, agora é praticada como um desporto que elimina todos os elementos indesejados do meio, que é como quem diz, todos aqueles que ousam entrar naquela floresta. "Kai" era uma cria do sistema (do assassino)... mas o que acontece quando outra potencial - "Sam" - chega ao meio? Podem as duas crias subsistir no mesmo espaço ou existe apenas lugar para uma? Numa perpetuação da sobrevivência dos mais aptos, "Kai" e "Sam" têm de lutar por um lugar que necessita ser preenchido e que nenhum tem como garantido e que transformam esta história e este filme num conto não tão moderno sobre a violência - sob as suas mais diversas formas - e sobre aqueles que a ela se adaptam... ou morrem.
Com o ambiente a ser aperfeiçoado com a música original de Steve Moore e a direcção de fotografia de Nicolas Karakatsanis que transformam aquela floresta num labirinto em potência, Welp recupera o género do filme de escuteiros perdidos na floresta de forma gloriosa e sem pudor de transformar alguns dos pequenos "humanistas" nos rostos não tão inocentes de uma violência que se assume e revela lentamente.