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sexta-feira, 19 de maio de 2023

Yizhachok (2023)

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Yizhachok de D. Mitry (EUA) é uma das curtas-metragens presentes na competição Internacional da décima-terceira edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos a decorrer na Cantábria, em Espanha.
Começa a guerra na Ucrânia fruto da invasão russa e Nina (Emma Pearson) é enviada para casa dos avós numa aldeia remota afastada dos bombardeamentos na grande cidade. Um dia, e depois de suspeitar das visitas da avó a uma barraca na propriedade, decide investigar descobrindo por lá um soldado russo que se encontra ferido.
Mais como um filme dramático do que propriamente o típico filme de guerra, este Yizhachok impressiona o espectador desde logo graças à infeliz actualidade da sua temática que todos mantêm presente na memória. A imagem da guerra está presente desde os primeiros instantes graças aos ruídos de bombardeamos que escutamos à distância compreendendo que rapidamente podem estar ali junto àquela família afastada pela força do próprio conflito. Com comunicações cortadas entre os membros da família que se vêem forçados a um distanciamento físico, a mesma procurou a sobrevivência e segurança dos mais novos aqui representados pela filha "Nina" que, mesmo com uma jovem idade, compreende que os momentos são de uma separação que pode ser maior do que aquela que poderiam imaginar. A mesma comunicação "cortada" com a realidade bélica mais ou menos distante e que apenas garante escassas notícias via rádio que se escuta num silêncio cortante como que um sinal de esperança de que aquilo que sabem estar a acontecer se consiga manter a uma distância ainda maior do que aquela que separa famílias.
A avó tenta esconder alguma dessa trágica realidade da neta garantindo-lhe que os ruídos que escuta são trovões à distância e que ela não precisa recear nada do que está para lá do seu horizonte. Mas, no entanto, se ela nada deve recear desse "além", é a curiosidade inerente a uma jovem criança que desperta ao observar os gestos e hábitos repetitivos da avó que oculta o que faz dentro de um barracão na sua propriedade. O que poderá ela fazer todos os dias ao entrar naquele espaço que, aparentemente, nada tem ou guarda?! São pequenos os sinais, talvez até triviais, mas suficientemente presentes para que ela sinta a necessidade de descobrir o que está ali dentro daquele espaço proibido e no qual, noutras circunstâncias em que poderia ter mais com que se ocupar ou distrair, jamais ousaria desafiar ou tentaria revelar.
Um segundo momento desta curta-metragem surge imediatamente após a curiosidade de "Nina" a ter levado ao misterioso barracão onde descobre que "o outro lado" do conflito encontrou um lugar seguro e que, tal como ela, fugiu de um conflito que pouco o representa. Ao conhecer "Yuri", o soldado russo que ali se encontra a recuperar de um ferimento provocado por uma guerra indesejada (não o serão todas?!), a empatia entre ambos é imediata. Nada, a não ser o absurdo da guerra, justificaria o afastamento que existe entre eles mas é a inocência da jovem criança que os aproxima pela compreensão de que não são tão diferentes como um qualquer político sedento de poder os poderia ter feito crer. Os gestos de amizade entre ambos surgem naturalmente... uma bola... um peluche que se partilha e, também eles, com o devido simbolismo que se lhes confere... a primeira numa eventual representação de um espaço sem pontas ou cantos, algo uno como só uma esfera espelha na perfeição (afinal não habitamos nós uma?!) e que para lá de representar qualquer diferença entre eles, reflecte sim esse espaço comum que ignoramos ser de todos e não apenas de alguns... Finalmente o peluche... um ouriço... o mesmo que está na génese da ideia desta curta-metragem pelo seu próprio título (os ouriços  metálicos que protegem as estradas e as cidades da invasão), e agora este peluche que aproxima a jovem "Nina" da ideia de juventude e de inocência que lhe foram privadas com o despoletar deste conflito. Ao mesmo tempo a simbologia não termina por aqui pois representam também as imagens que ela recorda dua sua vida "anterior" e que tão bem retrata nos seus desenhos daquilo que recorda da cidade em que vivera. As memórias ganham assim uma inesperada importância na medida em que ainda que tudo seja tão próximo e recente não deixa, ao mesmo tempo, de ser a imagem de um passado que poderá não voltar a ser vivido. "Nina" deixou tudo para trás... a sua casa, os seus brinquedos, a sua escola e os seus amigos... o pai e a mãe que não sabe quando e se voltará a ver. Tudo isto são imagens e pensamentos que a ela eventualmente não a perturbarão mas a nós, espectadores desta curta-metragem que nos deixamos levar por uma realidade que se tem mantido presente apenas e só naquilo que observámos pelos inúmeros retratos do início dessa guerra, estão vivas e são reais... ainda que em medida diferente por nos mantermos geograficamente distante da mesma.
A guerra é então uma realidade presente. Algo físico. Algo emocional. O conflito ganhou com esta relação entre "Nina" e "Yuri" um rosto. Como se define o inimigo quando ele é, no fundo, alguém igual a nós. Alguém que agora está ali refugiado... escondido... perdido e também ele afastado da sua realidade? O que é afinal a realidade? O rosto do conflito ou a vida como até então se conhecera? Será aquela pessoa um inimigo considerando que também alis e esconde do que está para lá das árvores daquela floresta?! Ou, por outro lado, é apenas inimigo porque também ele pode representar a "minha" perda e o afastamento daquilo que era "meu"? Existirá a possibilidade de alguma lucidez e bom senso quando tudo parece desmoronar e onde a perda, manifeste-se ela de que forma fôr, é a verdadeira realidade com que todos podem contar? Esta resposta surge nos instantes finais desta curta-metragem quando ao espectador são fornecidos importantes detalhes, e inadvertidamente esperados, dos efeitos desta guerra... a perda... a perda de alguém. Alguém que não voltaremos a ver. Será este o momento em que "Nina" irá finalmente descobrir o verdadeiro "rosto" da guerra ou manifestar-se-à como uma sua forte opositora não permitindo que a referida perda se materialize em ódio?
Subtilmente intensa e dramática sem nunca ceder ao sentimentalismo melancólico, Yizhachok (o ouriço agreste mas doce protector que surge tanto como símbolo de defesa mas também como um de amizade) é o cru registo de um - mais um - conflito sem lei ou ordem onde todos perdem ainda quando pensam vencer e no qual só irão permanecer não só as tradicionais esquizofrenias de um conflito armado como os ressentimentos entre aqueles que outrora foram amigos e familiares e agora mais não são do que o rosto de um inimigo que poucos ousam encarar. Ou talvez não... Talvez quando a inocência de alguém puro que compreende - mesmo que em silêncio - que perdeu algo maior (tanto "Nina" como "Yuri" o compreendem, uma ao exibir os desenhos das suas memórias e o outro ao guardar um peluche que claramente representa um filho que deixou para trás...), o mundo possa olhar para lá de diferenças e encará-las como uma parte original de um todo diverso.
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9 / 10
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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Y Yo a Tí (2016)

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Y Yo a Tí de Oliver Rondon (Venezuela) é uma curta-metragem que celebra o poder de uma amizade. Uma amizade intemporal e que não se prende por barreiras ou obstáculos... terrenos ou não.
Dois amigos conversam. A relação que têm é próxima e íntima. No entanto, de repente compreende-se uma distância entre ambos. Terá esta relação terminado?!
O realizador, e também um dos protagonistas Oliver Rondon, celebra com esta sua curta-metragem o poder de uma relação de amizade fraterna que o espectador pode facilmente confundir como algo sentimental e amoroso. A conversa encetada pelos dois actores revela para o espectador uma proximidade entre eles que fora temporariamente interrompida. Não sabemos nem compreendemos por ou a que motivos se deve esta separação até que o espaço envolvente se vai lentamente revelando e, como tal, denunciando as causas da mesma.
É pela simplicidade e principalmente pela cumplicidade das palavras que esta relação se denuncia, elucidando o espectador sobre os porquês de uma abrupta separação. O espectador compreende que esta será algo breve - pelo menos no espaço "temporal" em que um deles se encontra -, mas que para o outro esta será (foi) a perda mais significativa da sua vida encontrando-se, nesse momento, num impasse sobre a sua própria evolução e questionando-se sobre o que fazer "depois" daquela despedida que se anuncia. O que facilmente pode ser confundido com uma relação amorosa... é de facto... mas talvez não sob a forma como inicialmente o espectador pode ser conduzido a pensar.
Ainda que Y Yo a Tí possa parecer algo fragilizada pela sua construção aparentemente mais "amadora", é a sensibilidade depositada na mensagem desta curta-metragem que leva o espectador a ignorar pequenos detalhes da mesma e reflectir sobre o poder das palavras, dos gestos e de pequenos olhares que a transformam numa história sobre o poder da amizade e nas consequências de quando esta pode ser perdida... ainda que temporariamente.
Interessante pela sua mensagem e pela sensibilidade depositada no poder das palavras, Y Yo a Tí marca também pela interpretação sentida dos dois actores (realizador incluído) que prima pela celebração da amizade... surja ela sobre as mais diversas formas.
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6 / 10
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sábado, 30 de junho de 2018

Yellow Case (2012)

Yellow Case de theKGB65 - assim identificado no seu canal no Youtube - (EUA) é uma extremamente fragilizada curta-metragem que se apresenta no domínio do género pós-apocalipse mas que revela todos os pequenos vícios de alguém que sim... pode ser um fã do mesmo mas que parece apenas preocupado em revelar pequenos momentos da vida de um sobrevivente centrado na captura de armamento e não do seu anonimato num mundo que desconhece (o espectador) sobre até que ponto poderá ser seguro.
Entre comer o que lhe sobra e procurar absolutamente nada numa existência onde a arma e a única munição que lhe resta são mais importantes do que o ambiente ao seu redor, um homem - que se presume e sabe ser o próprio realizador pela evidência do seu pontual e pouco oportuno posicionamento de câmara -, encontra junto a um lago uma mala amarela que o deixa curioso. Sem vida em seu redor e num espaço que poderá (nunca saberemos) estar desertificado de vida humana, o surgimento desta mala parecem ser o culminar de um conjunto de dias - meses...anos?! - de inactividade. A curiosidade do recheio dessa mala - que não revelarei para que o interesse do espectador se mantenha -, preenche o restante momento desta breve e relativamente opaca curta-metragem onde pouco (se é que algo) acontece.
Com uma captação de som que se mantém deficitária desde o primeiro instante e o recorrer aos lugares comuns (literalmente) de um filme do género, Yellow Case não é capaz de ser dinâmica ao ponto do protagonista e único actor ter de explicar a pouca acção que caracteriza todo o seu desempenho. É quando chega a felicidade pela posse de uma arma - momento que parece fazer completar o seu dia - que o espectador compreende que esta curta-metragem mais não foi do que um exercício de câmara e um inesperado elogio ao armamento (podem não existir mantimentos mas sim a protecção de ouvido para fazer esbater o som de um disparo) que garante a sobrevivência num espaço onde nada, absolutamente nada, acontece e onde o perigo já não reside - se é que alguma vez lá esteve presente - e assume que esta curta-metragem foi um exercício sim... mas tão negligente como aquelas personagens que se deixam morrer quanto o perigo é mais do que óbvio.
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1 / 10
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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Yo No He Sido (2016)

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Yo No He Sido de Ángel Ripalda é uma curta-metragem espanhola de ficção e um intenso thriller psicológico centrado na figura de David, uma jovem criança que aos poucos revela uma personalidade afectada e potencialmente esquizofrénica e a sua relação com Alba, uma enfermeira contratada pelo seu pai para cuidar das suas necessidades físicas e psicológicas mais directas.
Antiago Taboada, o argumentista, revela através do thriller, do suspense e até mesmo do terror com este Yo No He Sido, uma realidade escondida por detrás da doença psicológica que afecta uma criança. Vulgarmente associadas a indivíduos de maior idade, como explicar o vazio que surge quando é uma criança de tão jovem idade que se vê afectada com doenças do foro psicológico? Como reagir? Como actuar? Que precauções ter e também como conseguir diagnosticar o perigo por detrás de um rosto potencialmente normalizado face a tantos outros?
Os pequenos detalhes que vão sendo lançados ao espectador denunciam de imediato aquilo que esperar do jovem "David". Enquanto uma típica criança sem qualquer preocupação parece caminhar ou correr por um qualquer jardim, aqui "David" parece lentamente caminhar pelo espaço com se analisando e preparando uma rota de fuga para longe das suas acções. Os gestos e os actos aparentemente planeados e meticulosamente delineados à vista - quase invisível - de todos, denunciam-no como um silencioso prevaricador para quem se olha apenas depois de "algo" acontecer. "David" planeia meticulosamente cada acto, cada momento e cada acção como se se tratasse de um adulto cuja inteligência emocional já esteja suficientemente desenvolvida para que possa medir todas as suas acções O reflexo do espelho assusta-o (diz a certa altura) e tudo o que consegue confessar a "Alba" é imediatamente  analisado como algo por explicar ou cuja explicação está de difícil acesso para aqueles que o rodeiam.
Mas, no entanto, e se esse espelho que surge como uma metáfora do seu "eu" que "David" não consegue enfrentar, mais não fosse do que uma mera imagem que corresponde a um outro "ele" que se esconde na sombra... no tal reflexo... e na possibilidade de algo porvir?! E se o espelho mais não fôr do que um inconfessado reflexo de um "mal" oculto e ancestral que assume a forma daqueles que nele se espelham para poder sair da sua sombra e cometer tudo aquilo que pretende sem que existam culpados para lá do que ali fora reflectido?!
Num misto de história de terror versus drama psicológico e familiar, Yo No He Sido apresenta-se como uma inesperada curta-metragem sobrenatural com contornos de suspense e uma intensa e original história que ganha corpo e alma através das interpretações de Juan del Pozo, Jesús del Pozo, Raúl del Pozo e uma magnífica Elena Furiase.
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7 / 10
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Yo Soy Metástasis (2016)

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Yo Soy Metástasis de Sergio M. Sánchez é uma curta-metragem espanhola onde a ficção ilustra um momento na vida social actual que não está tão distante da realidade.
Um homem e uma mulher. Ele faz zapping na televisão enquanto ela se perde pelos caminhos das redes sociais. A evolução, ou aquilo que a define no presente, é uma mutação das relações sociais para dar corpo a um ser social maior... o ciberespaço. Estará a humanidade preparada para enfrentar as suas consequências.
Yo Soy Metástasis é assim a reflexão sobre a criação deste "super ser" online que todos engloba e onde todos se "conhecem". Um espaço no qual tudo se sabe, tudo se discute e tudo se comenta renegando para uma quase inexistências as verdadeiras e reais relações humanas, no qual a liberdade ultrapassa os limites de qualquer regulamentação e onde tudo se desenvolve selvaticamente.
Dito de outra forma, o que é afinal o sentido desta curta-metragem? Uma crítica social aos comportamentos de uma comunidade auto-privada de relações de interacção e convivência? À forma como todos os indivíduos se privam de sair, conviver e conhecer o mundo tal como ele é, na esperança de poder vê-lo através de um computador que regista imagens que já ninguém pára para apreciar? No fundo, Yo Soy Metástasis é um pouco de tudo isto sem, no entanto, esquecer a sua própria caracterização ao Homem... um bicho cada vez mais indiferente, apático e anti-social que aos poucos se transforma num ser selvagem, mesquinho e sem qualquer sentido de empatia ou solidariedade. Quando tudo não passa de uma imagem num ecrã e não uma experiência sentida e vivida... existirá espaço para saber como é, de facto, o mundo em que vivemos?
No entanto, e se a linha narrativa que conduz esta história é apelativa ao ponto do espectador perceber que está ali perante uma crítica que é, de certa forma, feita contra si, Yo Soy Metástasis fragiliza quando se a analisa pela sua componente de execução técnica - relativamente amadora ou pouco trabalhada - ou mesmo pela disponibilidade dos seus actores que poderiam aparentar estar tão selvagens quanto as suas personagens pedem mas que, na realidade, parecem desligados desta mensagem tentada que a curta-metragem e o seu realizador se propuseram transmitir. No final, se esta é interessante pela forma como expõe o Homem... é também o mesmo que se desliga da tal mensagem que quis filmar remetendo todo o resultado final para um filme curto que, de forma geral, não será lembrado.
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2 / 10
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domingo, 14 de agosto de 2016

Year Six (2014)

Year Six de Austin Barbetto é uma curta-metragem norte-americana de ficção que se insere no sub-género filme pós-apocalíptico aqui filmado enquanto projecto de final de curso.
Ele (Mark Boucher) procura desesperadamente pela sua namorada Alice. Ao longo do seu caminho por um mundo posterior a um apocalipse que nunca conhecemos, encontra pequenas mensagens que ela lhe foi deixando com o tempo. Seis anos depois, poderá ele encontrar aquele que foi o amor da sua vida?
O realizador Austin Barbetto em colaboração com Mark Boucher escreveram o argumento desta curta-metragem que, inserindo-se num rico e prolífero género que sendo muito explorado não deixa de apresentar interessantes e enigmáticas histórias que permitem ao espectador deixar-se levar pelos recantos mais sombrios da sua imaginação exibe, no entanto, pequenas falhas que se compreendem pela falta de tempo, recursos e uma história... inacabada.
Recorrendo quase exclusivamente a espaços abandonados que recriam o ambiente de um território desolado por um qualquer cataclismo que nunca foi revelado - apesar de um breve tocar de sirenes que o nosso protagonista sonha num momento específico - e a uma planeada filmagem que tem apenas no seu protagonista o "único" interveniente a tempo inteiro, Year Six deixa, ao longo dos seus quase sessenta minutos de duração - a sensação de que este poderia ter sido mais... durante mais tempo.
Sem menosprezar o trabalho daqueles que não sendo profissionais depositam nesta história, esta curta-metragem (quase longa sem o saber) inicia a sua "kilometragem" de uma forma interessante ao revelar um protagonista solitário por um espaço inóspito - brilhantemente aproveitado os momentos de um eventual Outono mais "apagado" - que tem uma missão não tão misteriosa mas invulgar no género, ou seja, procurar o (seu) amor num momento em que tudo parece apontar para uma desistência (in)esperada. Os perigos não sentidos nos primeiros instantes, começam lentamente a revelar-se como uma constante... Afinal, é nos momentos de crise extrema que o verdadeiro carácter de cada um se manifesta, e numa época em que tudo aparenta ter terminado... o lado selvagem e desumano do Homem revela-se como que de um coma despertado. Cada um sobrevive como pode... e aqueles que (des)esperam na sua solidão são os mesmos que se tornam ainda mais selvagens, mais rudes, mais impiedosos e, como tal, os verdadeiros sobreviventes de um mundo que já não o é.
A dinâmica - de história e de espaço - de Year Six consegue aguentar-se intacta durante muito tempo mas são aqueles pequenos detalhes que, no entanto, parecem minar a confiança que o espectador deposita na história nomeadamente uma banda-sonora desajustada para a tensão dramática que se fazia esperar - estamos afinal num fim dos tempos e não num passeio pelo parque onde pensamos na vida... bom, esta última parte talvez até seja verdade - que apenas se agudiza com algumas interpretações secundárias que não fogem ao tido como normalizado no género e, como tal, tendem a banalizar as suas acções e os seus propósitos... se é que alguns.
A própria descrição desta curta-metragem como "uma longa que não o chegou a ser", não só condiciona a certo nível a opinião global do espectador como faz, ao mesmo tempo, compreender o porquê de tantos momentos que poderiam - deveriam - ter sido explicados e que se espera o teriam sido caso este projecto tivesse sido terminado como o realizador e restante equipa esperavam - a referida longa - e, se compreendemos os porquês dessas lacunas, não deixa de ser também uma realidade que Year Six perde um tanto a sua dinâmica e propósito se pensarmos que estamos perante um filme... que não o foi mesmo que não propositadamente.
Assim, e com a devida ressalva para os locais escolhidos para as filmagens que dinamizam e bem a acção e a direcção de fotografia da autoria do própria realizador, as interpretações fragilizadas por uma não conclusão da história, o já referido argumento relativamente linear para o género em questão e uma escolha musical bastante frágil, prejudicam o resultado final não deixando, no entanto, de ser uma simpática curta-metragem quase experimental - pela vontade expressa em contar uma história que não termina nem sequer dá lugar ao livre arbítrio do espectador - que fica, no entanto, num limbo por se perceber que os eu desfecho... não estará para chegar.
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4 / 10
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Yao a Yao, Yao Dao Wai Po Qiao (1995)

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A Tríade de Xangai de Zhang Yimou é uma longa-metragem de co-produção franco-chinesa nomeada ao Oscar de Melhor Fotografia em 1996.
Shuisheng (Wang Xiaoxiao) é levado do campo para a Xangai dos anos 30 onde deverá ser o criado de Xiao Jingbao (Gong Li) a nova amante do patrão da mafia local. Ali Shuisheng terá de lidar com as intrigas e transformações de uma sociedade que não parava ao mesmo tempo que lida com o comportamento irascível da sua nova senhora por quem desenvolve uma estranha e inesperada dedicação e devoção.
Aquilo que o argumento de Bi Feyiu baseado no romance de Xiao Li melhor capta é todo um ambiente boémio e nocturno que caracterizava a já então metrópole Xangai numa época em que a mesma era dominada pelas mafias locais centradas no enriquecimento graças ao crime, ao jogo e à droga naquela que era a véspera da Segunda Guerra Mundial que consigo trouxe a ocupação nipónica. Xangai, numa mistura de duas culturas onde o oriente e o ocidente se cruzavam de forma tão impactante como o campo e a cidade, assistia a uma vida transformadora de mentalidades nos frenéticos cabarets onde se desenhavam romances e se planeavam mortes com igual requinte. Ali todos encontravam uma inesperada transformação e perda de inocência. Xangai não dormia e tão pouco permitia que os menos preparados não tivessem uma rápida inserção neste mundo que lhes era - agora - local onde assistiam não só a todos estes jogos de bastidores como os assimilavam como a sua prática corrente.
Mas, para lá da descrição de uma cidade moderna e que poderia facilmente rivalizar com qualquer outra na Europa, Yao a Yao, Yao Dao Wai Po Qiao é sim o meticuloso retrato dos costumes tradicionalistas que não abandonavam as relações entre os indivíduos mesmo que muitos deles tivessem o mesmo percurso e até as mesmas origens. É assim que o espectador entra e observa (n)a improvável e por vezes tempestiva relação entre "Shuisheng" e "Xiao".
Ambos provenientes de um meio rural pouco desenvolvido e onde o mundo é uma miragem daquilo que encontram na grande e poderosa Xangai, tanto "Shuisheng" como "Xiao" têm de se adaptar à mesma para nela sobreviver. Se "Xiao" teve a (des)vantagem de, enquanto mulher, ser considerada "útil" para um mundo do espectáculo onde ela mais não era do que uma mulher-objecto de um rico e poderoso magnata-mafioso tentando fazer dessa condição a vantagem para a sua sobrevivência, já "Shuisheng" é um jovem rapaz em plena adolescência para quem o mundo ganhou toda uma nova dimensão ao chegar a uma cidade e a uma casa onde cabe todo o mundo tal como o conhecera. Ambos são, à sua medida e nas suas respectivas épocas, capturadas e tornados refém de um mundo que não era o seu... nele cresceram, nele se "desenvolveram" e "desenvolverão" e no mesmo irão encontrar o seu fim. Se este último chega mais depressa a "Xiao", é "Shuisheng" que - deduz o espectador - irá encontrá-lo através de uma guerra que se cozinhava e que cedo o iria encontrar numa cidade que ficaria ocupada e onde ninguém - nem mesmo a poderosa e controladora mafia local - conseguirá resistir.
É eventualmente este passado semelhante entre estas duas personagens que as faz criar um misto de dependência (dele) e repúdio (dela) pela compreensão de que o jovem é agora aquilo que "Xiao" fora no passado. De jovem inocente do campo a estrela da vida nocturna de Xangai mas controlada e não livre, sujeita a todo o tipo de caprichos de um homem "dono" que dela faz o que bem entende e a detém num palacete-prisão como uma bonite boneca de porcelana longe dos olhares e vontades de um mundo que a queria espreitar. Quando "Shuisheng" chega e demonstra toda uma curiosidade por um mundo novo que tanto pode ter de belo como de perigoso, "Xiao" observa com o repúdio não por aquilo que ele é mas sim por aquilo que dela (de outros tempos) espelha ... principalmente a sua inocência e incompreensão por esse tal "mundo novo" que (des)espera por capturar uma nova e desprotegida vítima.
Se a relação entre ambos começa por ser tumultuosa, é também verdade que ao regressarem ao campo de onde provêm, fugidos de um potencial atentado, desperta em ambos uma relação de (agora) compreensão e algum respeito que os faz dedicarem-se à ideia daquilo que o outro é (ela) e representa (ele) numa alusão a um passado (ele) e a um futuro (ela) que ambos pode(rá) caracterizar. Afinal, por muitas transformações que o futuro possa consigo trazer, ambos reconhecem que no seu íntimo são ainda um pouco daquilo que outrora saiu daquele meio rural do qual tão desesperadamente quiseram sair e abandonar facto que é, aliás, representado pela nova jovem que irá (pensamos) substituir "Xiao" num futuro muito imediato.
Entre o passado e o presente (com o ideal de um futuro) - tão bem caracteriza a China deste e de outros tempos - e um luxuoso potencial artístico que passa desde o guarda-roupa à já mencionada direcção de fotografia nomeada a Oscar, Yao a Yao, Yao Dao Wai Po Qiao é, no entanto, um filme com o qual o espectador demora a entrosar e criar a tal empatia necessária para se dedicar a esta história com a mesma força natural com que as suas personagens parecem defender (ou repudiar) as suas origens. Visualmente atractivo - não existe um único plano ou segmento com os quais o espectador não fique rendido ou até necessite voltar a trás para ver melhor - Yao a Yao, Yao Dao Wai Po Qiao acaba por ser, em grande parte da sua duração, um quadro em movimento... um momento artístico de grande inspiração por parte do seu realizador mas algo distante da história de vingança ou corrupção que prometia ser pelo potencial do seu argumento.
Com o reconhecido "dedo" de Zhang Yimou, Yao a Yao, Yao Dao Wai Po Qiao assume-se mais como uma história de confronto com um passado (tentado) esquecido do que propriamente a história de mafia e violência que o seu título - pelo menos o português - prometia demonstrar mas, ainda assim, uma importante, interessante e dinâmica reconstituição de época que faz o espectador chegar até um espírito boémio que é aqui bem recriado.
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5 / 10
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terça-feira, 20 de outubro de 2015

Y en el Séptimo Día (2014)

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Y en el Séptimo Día de Michael Raphan é uma curta-metragem de ficção espanhola que leva o espectador a uma enérgica, romântica e por vezes desesperante viagem aos primeiros de um casal enquanto marido e mulher.
A lua-de-mel é suposto ser aquele conjunto de dias em que tudo corre de forma perfeita para um casal que celebra a sua vida em conjunto. Mas, quão fácil será para estas duas pessoas cansarem-se da mútua companhia e de uma perspectiva de "toda a vida"?
Desde o Dia 1 em que tudo é uma novidade e a viagem para o outro lado do mundo constituem a mais recente conquista de um casal que se ama, até ao Dia 7 em que todas as novidades já foram ultrapassadas e onde os silêncios constrangem a harmonia existente entre a dupla especialmente quando parece que são se vão tornar num trio inesperado.
A incerteza de um futuro não planeado e a vontade dele ser - para ela - sempre uma garantia, faz com que ambos se dividam a respeito daquilo que se pode e quer ter... incluindo a eventual maternidade. Assim, o espectador é colocado perante um dilema... sobreviverá este casamento para lá da sua descendência que poderá não chegar neste momento ou, por sua vez, irá ela continuar com um eterno sentimento de rejeição das suas vontades trazendo ao mundo um filho que parece não desejar?
Simpática e reflexiva nos seus breves instantes, Y en el Séptimo Día explana as vontades e desejos não cumpridos de um casal que habituado à mútua convivência esqueceu o significado da partilha e da entrega a favor das suas vontades individuais onde um - aparenta - estar em detrimento em relação ao outro. Quando a aventura e a esperança deram lugar à rotina e ao "habitual", poderá este jovem casal junto desde tempos que já nem os próprios recordam continuar a sua união? Ou será esta lua-de-mel o princípio de um fim já anunciado?
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7 / 10
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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

...Y Emplumaré Mis Alas (2015)

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...Y Emplumaré Mis Alas de Jafet Molina Martínez é uma curta-metragem de animação mexicana que une em breves oito minutos o sagrado e o profano numa curiosa e estranha ambiência.
Uma figura demoníaca curva-se e lamento pelo espaço sombrio em que se encontra... Mas um dia observa um anjo vindo dos céus e dele recolhe uma pena que cai. Poderá ele alguma vez ascender aos céus?
Num registo de animação que vive não só da sua excelentemente executada música que cria um ambiente fiel ao mais digno dos filmes de terror e suspense, ...Y Emplumaré Mis Alas cria uma curioso história que nos deixa na dúvida sobre quem será o verdadeiro receptáculo do mal.
Se não deixa de ser verdade que ...Y Emplumaré Mis Alas nos apresenta uma figura macabra e de forma assustadora, não é menos verdade que cedo percebemos ser um ser sofrido pelas amarguras do local em que se encontra desprovido de qualquer sinal de vida. É quando se curva perante a sua própria desgraça que o espectador percebe que este - outrora - anjo está agora caído em desgraça mantendo a estrutura das suas asas mas estando estas despojadas das penas que o poderiam fazer voar.
Abandonado à sua sorte, é quando uma luz vinda do céu que revela outro ser que poderia eventualmente ser da sua espécie, que ele ganha esperança - curiosa escolha de palavra se pensarmos no local sombrio em que se encontra - e que em clamor dá graças pela figura - feminina - que vislumbra.
É quando uma pena cai e que ele a agarra que os seus sonhos voltam a emergir ao pensar que poderá uma vez mais - deduzimos que seja esse o seu desejo - ascender aos céus de onde foi afastado por uma ou outra circunstância que nunca é revelada ao espectador.
É com o avolumar das penas que emanam luz que consegue finalmente voar mas como tudo o que não é natural... rapidamente se perde. Numa ascenção tão rápida quanto aquela feita por Ícaro - a quem o sol queimou as asas - também este demónio é afastado de um caminho para a glória do céu por lá chegar pela fraude de um conjunto de asas que não são as suas.
Se por um lado o espectador se questiona sobre quem é realmente mau - aquele que tem uma aparência mais disforme ou aquele que confere uma esperança para de seguida a retirar impiedosamente -, por outro fica também a questão sobre o porquê de se encontram naquele espaço desprovido de vida e de glória e o seu aspecto ser tão repelente e diferente daquele que emana luz e vida. A glória não estará ao alcance de todos mas será que aqueles que a têm devem exibi-la e usá-la em desprimor dos demais?
De realização, argumento, animação e música original a cargo de Jafet Molina Martínez, ...Y Emplumaré Mis Alas revela-se como uma curiosa animação que coloca em confronto o bem e o mal mantendo, no entanto, em suspenso sobre qual das duas personagens encarnam os diferentes polos... porque nem sempre o que é belo é bom... nem tão pouco o que aparenta ser hediondo é sinal da encarnação do mal... ou será?
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8 / 10
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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Yulya (2015)

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Yulya de André Marques é uma curta-metragem de ficção portuguesa que teve a sua estreia Lisboeta ontem na Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema e que é o mais recente trabalho do realizador de Luminita, curta-metragem premiada com o Sophia da Academia Portuguesa de Cinema.
Yulya (Joana de Verona) chega a um espaço desertificado perdido numa qualquer parte do interior de Portugal. A acompanhá-la algumas mulheres amarradas e três homens que as controlam e trancam num palheiro.
Yulya é o rosto anónimo do tráfico humano. Yulya quer fugir.
Depois de Luminita (2013) e O Avô (2014), André Marques produz, realiza e escreve o argumento de Yulya naquela que é eventualmente a sua primeira curta-metragem que deixa o espectador com a leve impressão de que existe um antes e um depois que precisam - e talvez um dia sejam - explorados.
Sem qualquer tipo de diálogos as personagens de Yulya comunicam através de olhares, de expressões, de comportamentos e de alguns ruídos que se tornam imperceptíveis no seio de todo um ambiente (pouco) natural e perdido.
"Yulya" - percebemos - ser uma mulher cujo passado - que desconhecemos na sua totalidade - a levou a uma condição de ser, ela própria, usada para tráfico e exploração sexual. Perdida num ambiente e num país que não são os seus, "Yulya" é o rosto mais ou menos anónimo de um conjunto de pessoas que são (in)voluntariamente desviadas para caminhos turvos e cujo futuro fica condicionado a uma aceitação de tudo o que lhe é imposto correndo o risco, se contrariar, de pagar com a própria vida.
É quando assumido este risco que o espectador é, também ele, direccionado para um percurso que oscila entre o isolamento e a rendição ao tal futuro desconhecido - também ela não na sua totalidade pois a certo momento deixamos de saber o que sucede a esta mulher - levando "Yulya" a, por um lado, experimentar momentos perdida na mata por onde foge e que cruzam a realidade e o sonho e, por outro lado, aceitar a ajuda de uma inesperada alma que, tal como ela, se encontra perdida mas com assumidos superiores recursos.
O tal antes e depois já aqui mencionados são assim todos aqueles momentos e elementos que levaram esta jovem a embarcar numa viagem sem regresso - serão eles de motivo económico ou social, de origem criminosa ou voluntária - que poderiam estabelecer um ponto de partida que esclarecesse o espectador sobre as dúvidas que mantém e, por outro lado, no após a fuga que a "Yulya" de Joana de Verona encarna.
A única certeza - se assim se puder chamar - que o espectador assume é que a sua condição física e psicológica seriam severamente afectadas caso ela não optasse pela fuga. Percebemos que seria obrigado a fazer o que não quer e que a recusa iria certamente pôr um termo à sua vida então pouco segura. Na incerteza do desconhecido ou com a certeza do perigo, é a fuga por um espaço amplo e sem qualquer sombra de destino que a redimem com a sua própria libertação e, até certo ponto, segurança. É também neste processo que "Yulya", perdida numa extensa planície, parece encontrar um qualquer paraíso momentâneo... o segmento com o cavalo que ela parece treinar - teria experiência graças à sua vida passada? - ou mesmo a fuga captada por um plano contínuo que força o espectador a reter o momento graças à sua memória visual - a a uma direcção de fotografia de Paulo Castilho e do próprio André Marques que funcionam como uma terceiro elemento e personagem desta curta-metragem -, parecem inseri-lo numa dinâmica de terreno versus etéreo como que se o primeiro fosse o seu cativeiro e o último o local da sua liberdade e redenção... aquele que lhe confere a oportunidade que o espectador não chega a confirmar.
Como uma total ausência de diálogos ou monólogos, Yulya comunica pela expressividade dos demais sentidos que conseguem de forma muito eficaz e coordenada transmitir ao espectador todos os receios e medos, incertezas e inseguranças de uma jovem mulher que se encontra consciente de que a sua vida se encontra num risco iminente. Os olhares que parecem querer falar, como tão explícito podemos denotar no segmento entre "Yulya" e a "Prostituta" junto à estrada revelam não a limitação da linguagem mas sim a sua universalidade. Poderá apenas uma língua comum estabelecer uma ligação entre os indivíduos ou, por sua vez, poderá a comunicação transcender todas as barreiras e eventuais limitações? "Yulya" comprova que este cruzar de fronteiras é possível e que o cinema tem sim uma dinâmica muito intensa nessa missão ao fazer chega toda uma mensagem sem que uma única palavra seja proferida durante a duração de um filme.
Joana de Verona - dúvidas existissem - comprova uma vez mais toda a dimensão de um talento natural e ligeiro - ligeiro não pela falta de um intenso trabalho mas sim pela forma como o consegue transmitir aos espectadores - humanizando um rosto anónimo e perdido, e agarrando toda a dramatização de uma interessante e enigmática obra - como nota pessoa gostaria realmente de saber mais sobre os antes e os depois - que consegue, ao mesmo tempo, fazer chegar uma importante e sempre actual mensagem social sobre os dramas que "vivem ao lado".
Será Yulya um projecto ou um work in progress para algo mais intenso e desenvolvido? De momento não se poderá responder a esta questão mantendo apenas a certeza de que estamos perante uma significativa obra de cinema curto deste ano e uma - mais uma - que confirma André Marques como um dos mais seguros e confirmados nomes da nova geração de realizadores portugueses.
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9 / 10
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quarta-feira, 14 de maio de 2014

You & Me (2013)

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You & Me de Rafa Russo é uma curta-metragem espanhola de ficção presente na secção Nacional/Internacional da quinta edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu no início de Maio na Cantabria, em Espanha.
Ele (Mark Schardan), com um sério desejo de realizar uma curta-metragem. Ela (Anna Casas) quer uma máquina de lavar loica que lhe facilitará a vida e o trabalho. Ambos colidem com os objectivos que não partilham em comum ao mesmo tempo que se reavivam assuntos do passado que ficaram por resolver.
A principal dinâmica que esta curta-metragem que Rafa Russo escreveu e realizou centra-se na interacção entre o casal interpretado por Schardan e Casas que dão vida e cor aos problemas que um casal que perdeu o rumo e, de certa forma, alguns dos seus objectivos depois daquilo que percebemos ter sido uma vida apaixonada e bem vivida.
Se por um lado vemos que ainda existe amor nesta relação não é menos verdade que também é dado a conhecer ao espectador o desgaste que a mesma teve com o passar dos anos seja através dos objectivos não cumpridos, pela rotina diária que faz dissipar e esquecer muitas das ideias que outrora tiveram ou mesmo por alguma forma maior que os fez anularem-se em nome de uma relação na qual não mantinham nenhuma individualidade.
Schardan e Casas têm uma química imediata com o espectador e apesar de interpretarem uma história com princípio, meio e fim, não é menos verdade que poderíamos assistir a um maior desenvolvimento das suas histórias, dos seus silêncios e principalmente daquilo que sob pressão, e tensão, teriam para dizer mutuamente numa história que, ironicamente, poderia por si só ser o reflexo da curta que "ele" queria fazer deixando o próprio espectador questionar-se sobre o registo "autobiográfico" que a própria história poderá (poderia) ter.
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7 / 10
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domingo, 4 de agosto de 2013

Young People Fucking (2007)

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Young People Fucking - Sexo sem Complicações de Martin Gero é uma divertida tentativa de comédia romântica e sexual que nos coloca frente a um grupo de casais que durante uma noite se debatem com as mais variadas concepções de aventuras sexuais.
Matt (Aaron Abrams) e Kris (Carly Pope) , amigos de longa data querem ter uma noite de diversão sem qualquer compromisso. Por sua vez Abby (Kristin Booth) e Andrew (Josh Dean) casados e a celebrar o aniversário dele num misto de pouca comunicação e muito desejo. Mia (Sonja Bennett) e Eric (Josh Cooke) estão separados e fazem de tudo por parecer que já não gostam um do outro. Jaime (Diora Baird) e Ken (Callum Blue) trabalham juntos e estão agora no seu primeiro encontro, e finalmente Inez (Natalie Lisinska) e Gord (Ennis Esmer) convidam Dave (Peter Oldring), o companheiro de quarto deste último, para uma invulgar aventura a três.
O argumento escrito por Aaron Abrams e Martin Gero faz interagir estes invulgares pares, e trio, numa dinâmica que oscila entre o drama e algum sentimento, sem nunca esquecer uma pitada de comédia mordaz que, no final destes pouco habituais encontros, nos faz reflectir sobre as inúmeras e potenciais respostas a um conjunto de questões fundamentais que se prendem na sua maioria com as normais inseguranças que qualquer pessoa pode ter sobre um eventual relacionamento... Pode o sexo ser completamente anónimo e no "dia seguinte" ninguém se preocupar com potenciais sequelas do mesmo? Estará um casal tão aborrecidos com o seu parceiro ao ponto de preferir não comunicar do que questionar os seus desejos por cumprir? Será que alguém diz a verdade ou utiliza mentiras encobertas para ir passando pela vida? Terá um casamento realmente chegado ao fim quando o desejo parece perdurar? Ou tão simplesmente será que fazemos alguém feliz satisfazendo as suas aparentes necessidades?
Assim num misto de comédia que aborda todas estas questões e eventualmente mais algumas que não deixam também elas de ter a sua importância e sentido, este filme cruza as diversas histórias destas personagens sem, no entanto, nunca cruzar as mesmas funcionando cada uma delas como um segmento independente das demais que, alternando entre si, nos deixa com a curiosidade em saber sobre o que virá nos instantes seguintes, evidenciando uma perspicaz edição de Mike Banas que nunca interfere com o normal decorrer da "trama".
A única falha, se assim se poderá chamar, que este filme apresenta reside no facto de não contar no seu elenco com nenhum actor mais mediático que conseguisse apurar a nossa simpatia pelas personagens que são desempenhadas. É um facto que encontramos na sua maioria vários pontos e elos de ligação connosco ou com tantas outras pessoas que eventualmente conhecemos, mas falta aquele elemento "cara conhecida" que pode, por momentos, funcionar contra a dinâmica do filme. Existem empatias, principalmente nas personagens recriadas por Aaron Abrams e Carly Pope, ou o invulgar trio que tem mais que dizer pela estranheza com que encaram a sua sexualidade, mas não deixa de ser verdade que ao longo deste filme pensamos em tantos outros actores que possivelmente nos fariam criar uma empatia mais imediata com as suas histórias e personagens, sendo que aqui nenhum se destaca em relação aos demais. No entanto, é também este aspecto que faz com que o espectador não destaque nenhum momento do filme fazendo com que ele prenda a nossa atenção ao longo do mesmo mas, possivelmente, em doses diferentes dependendo isso da situação que mais se enquadre com a vida pessoas de cada um.
Simpático pelo seu argumento, perspicaz pelo seu olhar corrosivo que consegue tecer sobre a realidade das relações humanas e com a dose certa de comédia que nos faz sorrir (ou rir) do involuntário absurdo em que as relações humanas se podem eventualmente tornar pela falta de comunicação ou de admissão dos próprios sentimentos, o que faz deste filme algo bastante agradável que nos pode fazer pensar, mesmo que isso não se admita, e que apesar de passar ao lado da maioria dos cinéfilos não deixa de constituir uma história coerente, bem disposta, sem o eventual recurso ao banal e que mesmo assim consegue falar de algo supostamente tão informal como o sexo sem ser necessário recorrer aos grotescos e banais clichés a que o género normalmente nos habituou.
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7 / 10
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quinta-feira, 2 de maio de 2013

Yellow Darkness (2013)

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Yellow Darkness de David Zimmermann é uma visualmente rica curta-metragem que nos dá um olhar "interno" sobre o mundo do desporto.
Com imagens que nos remetem para uma jovem atleta de alta competição que luta por ser a melhor na sua área, esta curta-metragem cedo nos apresenta uma outra faceta da mesma atleta mais negra e tenebrosa do que aquilo que se poderia esperar.
Se por um lado temos uma faceta de trabalho, de empenho e dedicação que tem como resultado as vitórias inerentes a uma desportista, é também certo que temos o lado mais negro e obscuro como resultado destes grandes sacrifícios que é tantas vezes esquecido. Assim, se por um lado temos uma atleta triunfante que seria facilmente classificada como um novo exemplo de heroína, é também certo que este factor tem o seu reverso e, como tal, desenvolve também a sua "gémea má" que se apresenta quando o mundo brilhante e de sucesso parece estar momentaneamente "encerrado".
Com uma sentida interpretação de Lea Banasch que encarna por um lado a dedicação de uma profissional da sua área e por outro uma verdadeira descida ao inferno e à loucura, esta curta-metragem tem ainda na sua perspectiva artística um dos seus aspectos mais fortes graças à uma magnífica fotografia de Leif Thomas que consegue recriar um ambiente perfeito nas duas atmosferas em que encontramos a "nossa" atleta. Este é um trabalho forte e ousado que sem dramatismos existenciais exacerbados consegue dar uma interessante, e desconhecida, perspectiva da vida de uma atleta de alta competição.
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8 / 10
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sábado, 30 de março de 2013

Yama No Anata (2011)

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Yama No Anata - Para Além das Montanhas de Aya Koretzky é um documentário português que retrata uma viagem autobiográfica da realizadora e dos seus pais que, no início dos anos 90 do século passado, decidiram abandonar a cosmopolita Tóquio rumo a Coimbra onde passaram a tomar conta de uma quinta num estado de perfeito abandono que, aos poucos, começaram a recuperar.
Este documentário explora através de um conjunto de imagens que invocam o passado da realizadora de forma a compreendermos um pouco das suas origens e de um país tão longínquo como o Japão que, no entanto tem profundos laços históricos com Portugal, naquela que é uma viagem pessoal e intimista às suas recordações e memórias expressas através de vídeos que tem enquanto criança no Japão bem como através de cartas trocadas com alguns amigos e a professora que lhe deu os primeiros passos formativos e educacionais.
É assim que, aos poucos, vamos tendo uma maior percepção desta sua longa viagem de, por um lado separação da sua cultura primária e, por outro, de inserção num meio e cultura completamente diferente como é a portuguesa e europeia, e sempre através de uma narração em voz-off sempre com o intuito de perceber os porquês desta sua viagem para um país tão distante.
Através de uma junção extremamente bem conseguida entre uma fotografia etérea e uma perfeita montagem que selecciona cuidadosamente que momentos incluir e onde, este filme conta-nos uma história pessoal que cruza a memória, a mudança e a força das ligações que unem as pessoas independentemente das distâncias a que se encontrem umas das outras.
Um simpático e intimista documentário que foi vencedor de diversos prémios nomeadamente no DOCLisboa como melhor filme português em competição, bem como no Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira onde foi declarado vencedor absoluto com os prémios de melhor filme, revelação e crítica, e que merece ser visto como uma peça exemplificativa de um nobre sentimento tão português como é a saudade.
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6 / 10
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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Yuki & Nina (2009)

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Yuki & Nina de Hippolyte Girardot e Nobuhiro Suwa, que também assinam o argumento, é uma longa-metragem francesa que nos conta a história de duas amigas: Yuki (Noë Sampy) e sempre do seu lado temos Nina (Arielle Moutel). Quando Yuki descobre que os seus pais se estão a separar tenta em vão reunir o casal através dos seus inocentes actos sempre assistidos pela sua amiga.
Quando o mundo dos adultos parece totalmente transformado deixando assim de fazer o pouco sentido que fazia, o melhor escape que estas duas amigas encontram é o refúgio que têm nas suas pequenas brincadeiras e cumplicidades típicas de uma genuína amizade.
Se inicialmente o espectador é surpreendido por uma aparente tranquilidade nos tormentos de uma jovem menina que vê todo o seu mundo abalado pelas atitudes e comportamentos dos adultos que a rodeiam, as pequenas nuances que são fornecidas pelas suas reacções face aos mesmos demonstram que não só tem todo um mundo de sentimentos à flor da pele que só não são imediatamente compreendidos fruto da jovem idade da mesma.
A mudança radical de vida que "Yuki" irá ter fazem-na tentar descobrir um pouco mais sobre o mundo que irá conhecer e que foi, até então, algo distante e longínquo do qual pouco ou nada compreendia para além da língua com a qual mantém alguma proximidade através da sua mãe. A novidade da sua situação é total mas, tendo isso em consideração, a sua jovem idade impedem-na de o ver como algo mau mas sim uma transformação que ainda não compreende para lá daquilo que irá deixar para trás na sua Paris natal.
Com uma dinâmica muito própria, talvez tentada como um reflexo da experiência e da compreensão tida por uma jovem criança da sua nova realidade, Yuki & Nina pouco acrescenta ao espectador que apenas retém um distanciamento de uns pais que parecem apenas pensar na sua liberdade individual enquanto casal que já não partilha destinos e ideais em comum esquecendo, por sua vez, uma jovem filha que não só não parece motivada para aceitar a separação dos seus pais como menos ainda mudar para o outro lado do mundo e abandonar tudo aquilo que conhece.
Simpático e com alguns momentos "familiares" que - esperava - pudessem ter sido mais explorados e que contribuíssem assim para uma maior dinâmica de toda a narrativa, Yuki & Nina não consegue, no entanto, se aquela longa-metragem cativante que explora a transformação de uma jovem criança numa pré-adolescente que percebe que o mundo não é tão cor-de-rosa como até então o idealizara ou, por outras palavras, ser aquele filme sobre a infância que o espectador desejaria ver onde o mundo se revela - finalmente - bem mais distante da inocência com que em criança o pintamos, que não é garantido que todo o amor dure para uma vida ou até mesmo em que medida resistem as (verdadeiras) amizades.
De Yuki & Nina destaca-se evidentemente a interpretação de Nöe Sampy, a jovem actriz que dá corpo e uma estranha alma a "Yuki", a jovem que revela ter o maior desenvolvimento de carácter da sua personagem e que a assume como uma jovem perspicaz e atenta ao desencanto do mundo que se desenvolve não só do outro lado das quatro paredes da sua casa, mas também ali dentro, com os seus pais... aqueles que prometeram de tudo protegê-la mas que agora parecem concentrados na sua própria personalidade enquanto seres "livres" e abertos para uma nova vida. Sampy destaca-se pela sua aparente inocência que se transforma em desilusão, medo que dá lugar à incerteza e finalmente uma esperada aceitação de que a sua realidade será numa sociedade e comunidades mais próximas do seu própria carácter reservado e intuitivo.
Com um ritmo muito próprio e por vezes aquém do esperado desenvolvimento da transformação da vida parisiense para o interior profundo de um Japão conservador, Yuki & Nina cumpre na sentida reflexão sobre o dito "coming of age" de uma jovem menina mas fragiliza-se na revelação das suas consequências bem como na percepção daquilo que permanece para lá da compreensão de que a vida já não será como até então... muda... evolve... desenvolve... mas nada será como até àquele momento.
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6 / 10
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Young Adult (2011)

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Jovem Adulta de Jason Reitman é uma comédia com fortes contornos trágicos que cimenta, uma vez mais, Charlize Theron como uma das mais fortes actrizes da sua geração.
Mavis Gary (Theron) é a argumentista de um outrora popular programa de adolescentes que agora vive a sua própria desgraça pessoal. Recentemente divorciada e com o programa prestes a ser cancelado, Mavis embarca numa viagem que a irá levar de volta à sua terra natal no Minnesota onde planeia reconquistar Buddy (Patrick Wilson), o ex-namorado que é agora casado e pai de uma jovem bébé.
Numa estranha e improvável união com Matt (Patton Oswalt), Mavis irá perceber que existem coisas que simplesmente não lhe estão destinadas... pelo menos não da forma como ela esperava e que o mundo, ao contrário dela, avançou e evoluiu por um caminho que ela simplesmente desconhece.
A já Oscarizada argumentista Diablo Cody volta aqui a escrever uma história em que dá vida a uma personagem principal que é grande demais para o espaço em que se encontra mas que, ao mesmo tempo, por muitas mudanças pessoais e geográficas que tenha feito continua, anos depois, sem conseguir encontrar o seu próprio espaço e local no qual se possa sentir enquadrada, completa ou realizada. No fundo acaba por ser a imagem daquela pessoa que sempre teve sonhos grandes demais para o local em que se encontrava e que sempre desejou, forçosamente, ser alguém um pouco "maior" do que o espaço de onde veio criando assim um constante sentimento de inadaptação que originou numa fuga assim que teve idade para o poder fazer.
As vidas mundanas onde acabar o secundário e encontrar o primeiro trabalho, a criação de família com o primeiro namorado que poderia ter tido mas que nunca teve ambições tão elevadas como as dela tendo por isso que se conformar em ficar para sempre naquela pequena terriola, eram para "Mavis" planos que simplesmente não constavam no seu caminho e que, de certa forma, sempre considerou como inferiores para si própria.
A dar corpo a esta não complexa mas intrigante personagem com o qual tantos se poderão identificar num ou noutro aspecto (mas não na sua essência) temos Charlize Theron que fora inclusive nomeada para um Globo de Ouro de melhor actriz, e que encarna aqui numa quase imaculada perfeição, o rosto desta mulher que pretende acima de tudo estampar nos outros o seu próprio sentimento de insatisfação. No fundo os seus planos eram grandes e ambiciosos e ela estava determinada a consegui-los mas, Theron espelha em cada olhar que muitos poucos, se é que alguns, dos seus objectivos foi realmente alcançado. Na prática casou, mas não com quem queria. Chegou a mudar-se para a "grande" cidade... mas não para a vida que pretendeu ter. Teve a fama na sua profissão... mas temporária. Nada chegou, por um ou outro motivo, a ser realmente concretizado ficando-se na sua maioria apenas a meio caminho, e é esta inadaptação que ela nos transmite em cada olhar, em cada tentativa de nos mostrar (sem sucesso) que a sua vida é perfeita mas, principalmente, pela sua tão grande (des)preocupação e desinteresse para consigo própria através  de alguns tiques nervosos que se foram agudizando, do alcoolismo e até pelo sexo casual que acaba por encontrar em qualquer um que a aborde mesmo que outrora considerasse essa pessoa como um ser "abominável". A sua falta de consideração pelos outros, mas sobretudo por si própria, são transmitidos a todos os minutos por uma interpretação forte e segura de uma actriz que a cada ano que passa mostra sinais de escolher cuidadosamente todas as interpretações e filmes em que participa e aqui foi mais uma aposta vencida de Theron.
Estas esperanças numa vida melhor que estão abafadas pela crueldade da vida, são também brilhantemente encarnadas por Patton Oswalt que aqui dá corpo ao rapaz que foi torturado pelos "porreiraços" do liceu, e que com isso empenharam de forma definitiva todas as suas hipóteses de um dia e futuro melhores. Ali se manteve para sempre sem esperança de poder um dia ser alguém por um acto de barbárie que foi, à altura, considerado apenas como "brincadeiras de liceu".
Estando os dois em polos opostos da inadaptação, um por querer mais do que aquilo que tem e o outro por saber que está culturalmente à frente do local onde se encontra, tanto "Mavis" como "Matt" acabam por se representar os dois adultos que nunca largaram a sua juventude. Um por estar fisicamente impedido de o fazer e como tal nunca abandonar o local que o travava psicologicamente, e a outra por independentemente de ter conseguido sair da sua pequena cidade de interior onde julgava que os seus objectivos nunca seriam cumpridos não conseguiu, no entanto, libertar-se mentalmente daquele espaço.
Jovem Adulta é, acima de tudo, um filme que nos mostra como os lugares onde fomos outrora felizes são a uma dada altura da nossa vida, os mesmos que nos conseguem mostrar de forma crua e dura como as nossas vidas podem não ser tão completas ou realizadas como pensamos e sobretudo que os lugares que escolhemos para nos refugiar das fugas ao passado podem não ser os melhores se não tivermos deixado o passado resolvido, pois este quando ainda tem contas por saldar não há local no mundo que nos possa proteger de um confronto bruto e sem piedade, pois para acordarmos precisamos primeiro de ser bem "abanados" por aquilo que a vida tem realmente para nos mostrar.
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"Mavis Gary: Sometimes in order to heal... a few people have to get hurt."
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8 / 10
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domingo, 17 de junho de 2012

Yep, Zombies (2011)

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Yep, Zombies de Kevin M. Kirkpatrick é uma curta-metragem feita no âmbito do 48 Hours Sacramento Film Festival e que teve como base um vulgar filme de zombies.
Apesar das boas intenções e vontade de fazer uma curta original, o que é certo é que aqui se recorre aos tradicionais clichés do género em questão, exagerando-os ao ponto de se tornarem quase absurdos. Temos o tipo com a namorada que é mordida mas não quer acreditar que ela se vai transformar numa morta-viva e que num exagerado acto de bravura acaba, ele próprio, mais morto que os mortos. E temos também a heroína de serviço que mata zombies apenas com os punhos, consegue correr de saltos altos em puro momento de tensão e com umas calças bem apertadas que, numa qualquer situação normal não deixariam ninguém andar.
Se as interpretações já são caem, e bem, para o lado negativo, não deixa de ser uma igual verdade que tecnicamente falando esta curta deixa muito a desejar. Desde o som por vezes imperceptível até à exagerada movimentação da câmara... temos de tudo.
As intenções são boas, é uma verdade, mas nem sempre isso é o suficiente para se conseguir um trabalho razoável. Esta curta é o perfeito exemplo de que nem sempre essas boas intenções resultam.
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1 / 10
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domingo, 22 de abril de 2012

Youth Without Youth (2007)

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Uma Segunda Juventude de Francis Ford Coppola foi um filme muito esperado na edição do Festival Internacional de Cinema de Cannes no seu ano, por pôr um termo a uma longa pausa do realizador (já vencedor do Festival) à frente de uma obra.
Este filme cuja acção se desenrola numa Europa pré-Segunda Guerra Mundial foca a vida de Dominic (Tim Roth), um timído e reservado professor de línguas que já só no mundo só pode aguardar a morte. Quando é atingido por um raio do qual ninguém espera que recupere, Dominic começa estranhamente a rejuvenescer e torna-se alvo das atenção nazis que o procuram para ser cobaia de experiências.
Dominic em fuga encontra uma mulher muito semelhante à que outrora amara (Alexandra Maria Lara na dupla interpretação de "Veronica" e "Laura"), e vê agora nesta sua nova paixão uma potencial "chave" de continuidade de investigação sobre as origens da linguagem.
Não só as expectativas de Cannes eram elevadas como muito possivelmente as de qualquer cinéfilo que aguardava pela nova entrega de Coppola. A antecipação que se gerou à volta deste filme foi de facto muita, e todos nós queriamos saber que nova pérola advinha das mãos do realizador, especialmente se pensarmos que se reune de um igualmente talentoso actor como é o caso de Tim Roth, e de dois outros fortes talentos da cinematografia europeia como é o caso de Bruno Ganz e da já referida Alexandra Maria Lara. No entanto, este filme está longe do fogo que as obras anteriores de Coppola já nos haviam mostrado.
Os actores, principalmente o trio protagonista, não brilham... Pelo menos não o suficiente comparativamente a outros trabalhos onde já os vimos. Tim Roth quase deambula pelo ecrã num misto de "vai acontecer algo" com "afinal o que estive a fazer?!". Alexandra Maria Lara sobrevive igualmente num misto entre "sou bonita e a figura feminina central" e "vou ter uns ataques de verborreia em línguas mortas" que mais atrapalha do que ajuda à fluídez da obra. E Bruno Ganz não chega a ter tempo de antena suficiente para completar a intensidade dramática que se lhe pede seja qual fôr a interpretação que apresente.
O filme, que se quer uma história de amor não cumprido e uma segunda oportunidade de reviver paixões, sentimentos e emoções numa segunda juventude, acaba por se perder muito com o desenrolar da história e os actores acabam por não brilhar nas suas interpretações dada a mensagem quase filosófica que este (o filme) se propõe transmitir, e que a meio gás se torna mais cansativo do que esclarecedor.
Mas nem tudo será negativo. Tecnicamente falando, entre fotografia e os jogos de luzes e sombras que determinam a vivacidade (ou falta dela) das cores e por sua vez dos estados de espírito e da sociedade da autoria de Mihai Malaimare Jr., bem como o guarda-roupa de época com uma execução brilhante pelas mãos de Gloria Papura, são dois dos pontos altos do filme que não se perdem nem ficam por "explicar".
Longe de ser um filme mau, esta Uma Segunda Juventude está longe dos tempos em que Coppola faria arrastar multidões de fãs às salas de cinema com as suas histórias, fossem elas retratos de uma comunidade italo-americana em que a Mafia era dona e senhora, ou retratos de gerações perdidas e desenquadradas da época em que viviam. Aqui, a existir desenquadramento, ele é sentido pela falta de rumo coeso que leve os espectadores a aplaudir de pé.
Eficaz do ponto de vista técnico e com alguns tópicos que poderiam ter sido explorados, nomeadamente a época pré-guerra e o estranho rejuvenescimento da personagem principal que, a abandonar metáforas e significados mais ou menos intelectuais se poderiam tornar em boas linhas condutoras para um filme muito mais interessante.
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5 / 10
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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

You! (2009)

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You! de Joseph Caro é uma curta-metragem de ficção que nos mostra um casal feliz à procura de apartamento para viver. No entanto nem tudo o que parece ser perfeito o é na realidade, e nesta busca de casa nova descobrimos que o noivo esteve sexualmente envolvido com o dono do apartamento que agora visitam.
O problema maior desta curta-metragem prende-se logo de início com o seu fraco e já muito explorado argumento sobre a promiscuidade homossexual e como amor e sexo parecem estar quase sempre confundidos e intimamente ligados a qualquer relação entre pessoas do mesmo sexo.
Se a isto juntarmos uma curta-metragem onde o seu deficitário som dificuldade, quase na íntegra, a compreensão da maioria dos diálogos, então só resta afirmar que de novo nada tem e o pouco que faz é fraco... muito fraco.
Tão depressa se vê como se esquece mas, para os curiosos, aqui fica disponibilizada na íntegra.
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1 / 10
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terça-feira, 3 de maio de 2011

You're My Thrill (2011)

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You're My Thrill de Antonio Calvo é uma simpática curta-metragem espanhola que nos conta como aquilo que começa por ser um encontro entre dois homens que se desejam.
Um está claramente magoado e o outro procura alguém que o ame. Os dois desejam-se mas as circunstâncias acabam por ditar um final diferente daquele que inicialmente esperavam.
Feita quase na sua totalidade dentro de uma única divisão esta curta prima pelo seu simpático argumento e por não cair no comum a muitas destas histórias onde os dois realmente se encontram e acabam metidos na mesma cama.
Simpática, agradável e sentimental, Antonio Calvo entrega-nos um trabalho onde os dramas pessoais e os fantasmas do passado prevalecem.
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7 / 10
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