sábado, 6 de agosto de 2016

Star Trek Beyond (2016)

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Star Trek: Além do Universo de Justin Lin é o mais recente título da respectiva saga e aquele que serve - de certa forma - como uma despedida ao recentemente desaparecido actor Anton Yelchin.
Num dilema existencial sobre os primeiros tempos a liderar a USS Enterprise, o Capitão Kirk (Chris Pine) questiona-se sobre a passagem do tempo e como está a sua vida a ser marcada por uma rotina que o impede de aprofundar outros aspectos da mesma. No entanto, quando tudo parecia não evidenciar qualquer tipo de mudança, Kirk e a demais tripulação da Enterprise envolvem-se na missão mais perigosa das suas vidas e quando se vêem num planeta não registado e sem possibilidade de comunicarem com a Terra, o seu regresso fica cada vez mais ameaçado quando se deparam com uma nova ameaça.
Simon Pegg - que também interpreta "Scotty Scott" - e Doug Jung assinam o argumento de mais uma das muitas aventuras da Enterprise apresentando na mesma não só os diversos dilemas de uma tripulação que não só se ajusta aos demais como a si próprios, aos seus desejos, os compromissos e cedências estabelecidos para uma vida de missão interplanetária bem como pelos diversos universos explorados e não como, ao mesmo tempo, consegue transformar-se num bem sucedido filme de acção e aventura que deixará satisfeito o espectador e o fã mais devotos da mesma.
Num primeiro segmento de Star Trek Beyond, o espectador é transportado para um conjunto de momentos assumidamente reflexivos onde são questionados os propósitos de cada um, as já referidas cedências com que os mesmos se auto-comprometem para encetar uma vida que, não sendo militar, é de exploração do mundo desconhecido aproximando as diversas espécies e raças que os universos mais ou menos desconhecidos escondem. Num segundo momento e, no fundo, aquele que se insere mais na temática e na dinâmica desta saga, os tripulantes da Enterprise não só enfrentam um perigoso e mortal inimigo como também reencontram um pedaço da História das missões espaciais que irá, de certa forma, explicar a existência dessa mesma ameaça.
Como seu ponto forte, e de certa forma esperado, Star Trek Beyond denota a sua excelência em aspectos óbvios como o são os efeitos especiais visuais que nos levam a outros e inesperados mundos assim como o seu guarda-roupa - já uma imagem de marca da saga Star Trek - e a caracterização das mais variadas e surreais personagens/espécies que a mesma sempre tende a apresentar.
No entanto, é o já referido argumento e a sua narrativa que deixam as maiores reservas e expectativas por cumprir. Assumindo que é uma interessante e bem construída longa-metragem de acção, Star Trek Beyond é persistente na ideia de que este é apenas "mais um" dos muitos títulos que ainda irão surgir desta saga, estabelecendo portanto aquilo que é já comum nas diversas obras que a compõem, ou seja, a existência de uma história linear e sem grandes fugas de narrativa que não só possibilite que esta história se inicie e termine neste mesmo filme, como também dá o mote para a próxima entrega onde o espectador já conhece os dilemas morais de algumas personagens - sempre em crescimento - e também percebe toda a anterior conjuntura que os fez chegar até àquele preciso momento, as aventuras bem como os elos que foram criados no seu percurso.
As personagens são, também elas, lineares. Não fugindo ao esperado, o seu desenvolvimento individual acaba por estar directamente condicionado pelos demais - e suas respectivas atitudes - bem como pela própria continuidade desta saga que, lentamente, apresenta mais um elemento que as compõe até ao momento em que os conhecemos... de todos aqueles títulos passados que já conhecemos.
Dinâmico na acção que visa e pretende mostrar, a Star Trek Beyond falta o tal "para além de..." que poderia existir nos meandros dessa acção desenvolvendo uma maior dramatização das suas personagens. Se começou por fazê-lo mostrando o lado humano e não aventureiro de "Kirk" (por exemplo), poderia tê-lo aprofundado para o humanizar para lá do homem firme e destemido que conhecemos. Excluindo este elemento... é certamente uma história que irá despertar não só a curiosidade como satisfazer as expectativas daqueles que o irão ver.
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"Spock: Fear of death is illogical. 
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Bones: Fear of death is what keeps us alive."
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7 / 10
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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Experimenter: The Stanley Milgram Story (2015)

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Experimenter: Stanley Milgram, O Psicólogo que Abalou a América de Michael Almereyda é uma longa-metragem norte-americana baseada nos acontecimentos verídicos ocorridos no início da década de 60 na qual o psicólogo em questão efectuou experiências comportamentais sobre a cumplicidade silenciosa de um cidadão comum obedecer à ordem autoritária.
Apesar de um registo assumidamente documental - que a ficção apenas ligeiramente dramatiza - Experimenter: The Stanley Milgram Story concentra-se fundamentalmente num registo monocórdico e de explanação dos acontecimentos que, portanto, fazem por momentos perder a realidade por detrás dos factos. Com uma acentuada vontade de expôr um registo factual dos estudos e experiências efectuados por Stanley Milgram - norte-americano de origem romena e húngaro de pais judeus fugidos da Europa de Leste -, Michael Almereyda quase que transforma os seus actores em meros veículos de transmissão de informação (em alguns segmentos quase robóticos) que se esquecem de um eventual lado humano das pessoas em cujos factos este filme se baseia ou mesmo na transmissão dos seus propósitos e objectivos com a elaboração deste estudo. Por outras palavras, ainda que o espectador compreenda os seus fundamentos e necessidade, as interpretações tanto de Peter Sarsgaard como de uma muito desaparecida Winona Ryder são francamente mecânicas e pouco abençoadas do lado humanos daqueles que representam.
Também a prejudicar a pretensa dramatização dos acontecimentos retratados em Experimenter: The Stanley Milgram Story estão os cenários "não naturais" desta longa-metragem que claramente apontam o espectador para interiores pouco humanizados como se estivesse a assistir a uma peça de teatro que é, ocasionalmente, narrada por Sarsgaard - que aqui interpreta Stanley Milgram - como se o espectador necessitasse de uma explicação adicional para aquilo que está a assistir explícito através da comunicação directa que com ele estabelece.
No entanto, aquilo que importa em toda esta longa-metragem é, essencialmente, a mensagem que tenta retratar e transmitir ao seu espectador e que se prende com uma simples questão: Como aprende a Humanidade? Será pela recompensa... pelo castigo... pelo altruísmo... pela expressão da sua individualidade ou, por sua vez, pela ordem... ou pela submissão?! Na experiência levada a cabo por Milgram, este expunha dois perfeitos desconhecidos... Um professor e um aluno que, através de um conjunto de questões, determinavam que a forma de penalização seria a única passível de transmitir uma regra, uma disciplina e, finalmente, uma ordem. No entanto, o que acontece quando um destes intervenientes está de conluio com quem efectua a experiência e, como tal, conduz também ele, toda a entrevista/questionário num único sentido, ou seja, aquele de perceber se quem está do outro lado obedece de forma cega uma ordem ou se a ela se opõe fazendo denotar o seu lado mais humano e desafiador - mais ou menos consciente - de uma ordem e de uma potencial barbárie? O que acontece quando indivíduos perfeitamente inseridos numa sociedade dita livre e igualitária se vêem a braços com uma inconsciente normalização da penalização? Da dor? Do sofrimento? Da morte?! Serão capazes de se opôr à pressão de grupo e à institucionalização do mal ou ceder à maioria deixando o mal proliferar?
Num percurso onde quem aprende - professor versus aluno - não tem escolha e é instruído de acordo com uma norma pré-estabelecida, esta experiência gera uma outra questão... porque se escuta quem dá uma ordem e não aquele que fica ferido pelo seu cumprimento? Que "mecanismo" mental pressupõe a vontade de infligir dor no "outro"? Enquadrando o julgamento e condenação de Eichmann, Experimenter: The Stanley Milgram Story reflecte, ainda que timidamente, sobre as suas acções aquando da solução final durante a Segunda Guerra Mundial lançando a questão (silenciada) sobre o poder de dizer "não". Dito isto, como se institucionaliza a obediência (cega) mesmo que se perceba - do outro lado - o sofrimento banalizando dessa forma o mal e a sua proliferação?
Com uma interpretação assumidamente monocórdica de Peter Sarsgaard que pouco se desliga do desfazamento da realidade que o rodeia, Experimenter: The Stanley Milgram Story é sustentado por uma tímida mas bem aparecida interpretação de Winona Ryder tão desaparecida do grande ecrã e que tenta - muito ligeiramente - ser o lado mais humano de um homem excessivamente concentrado na sua carreira profissional que aparentemente esqueceu o seu lado humano. No fundo, e sob uma perspectiva diferente, o seu "Stanley Milgram" é, também ele, alguém que cedeu à ditadura de uma investigação e de uma experiência que comandou toda a sua vida... primeiro por necessidade, depois por dependência e finalmente por ser ela o seu único vinculo com uma realidade exterior que pouco conheceu.
Interessante do ponto de vista histórico e factual, Experimenter: The Stanley Milgram Story será, em última análise, uma longa-metragem que dificilmente chegará a todos os espectadores concentrando-se, quase exclusivamente, naqueles que têm interesse não só neste período histórico como essencialmente naqueles que conhecem parte ou a totalidade destes factos.
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"Stanley Milgram: (...) our awareness is the first step in our liberation."
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6 / 10
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Mau Olhado (2016)

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Mau Olhado de Aloísio Araújo é uma curta-metragem brasileira de ficção presente na competição oficial do Shortcutz Rio de Janeiro no passado mês de Julho.
Elaine (Daniela Girão) faz pequenas "amarrações" em casa. Um dia encontra o brinco de uma mulher em sua casa e as suspeitas das traições do seu marido começam. Em desespero lança um dos seus "encantamentos" sobre a sua cara metade. Mas será que a traição que ela imagina é aquela que realmente ocorre longe dos seus olhares?!
Também autor do argumento de Mau Olhado, o realizador Aloísio Araújo cria uma história repleta de pequenos e enriquecedores elementos que caracterizam não só uma história de mistério como também uma em que o drama conjugal está em evidência. No seio de um insuspeito lar como tantos outros, que pequenos grandes segredos podem ocorrer entre um aparentemente feliz casal? Na realidade, aquilo que o espectador questiona depois de observar os seus comportamentos é se essa felicidade realmente existe ou mais não é do que o fruto de uma mente (des)ocupada como o é a de "Elaine"... uma dona-de-casa que ganha uns dinheiros extra com pequenos feitiços e encantamentos às demais mulheres do bairro que a ela recorrem para afastarem olhares alheios dos seus maridos.
Num momento que é de puro delírio de "Elaine" que observa em todas as mulheres que a rodeiam um potencial perigo e a eventual dona do brinco que encontrou em sua casa, ela pretende levar todos os seus ensinamentos mais além e exercer a mais forte "amarração" naquele com quem partilha casa. Mas será que "Renato" (Maurício Agrella) está realmente a traí-la com outra mulher ou será que a misteriosa figura (Renan Bleastè) à beira estrada tem mais por revelar dos reais comportamentos do marido de "Elaine"?! No seio de um jogo místico onde os comportamentos parecem comprometidos logo desde o primeiro instante, aquilo que o espectador observa é para além da desconfiança marital, todo um enredo de superstição e de loucura que condicional e moldam uma realidade marital.
Dotado de um enredo onde a superstição popular dominam os actos das suas personagens, Mau Olhado versa ainda sobre uma temática que, não sendo explícita, deixa a suspeita comandar a percepção do espectador que num primeiro momento se questiona sobre a eventual possibilidade de o feitiço virar-se contra o feiticeiro - o que de certa forma acontece - como depois se depara com a tal realidade alternativa onde o casal não é assim tão feliz (ou dentro das "normas") levando um dos seus membros - o marido - a recorrer a uma felicidade paralela junto de um prostituto masculino. No fundo, aquilo que acaba por se tornar não direi óbvio mas sim curioso, é o facto de perto do final, o espectador se questionar sobre onde residirá a verdadeira felicidade por detrás das inúmeras paredes - físicas e psicológicas - que escondem a mais íntima e desconhecida privacidade alheia para além de levantar o véu sobre a forma como a superstição popular está intimamente ligada ao desconforto social, à ignorância e, de certa forma, como esta se aproveita da mente pouco tranquila para proliferar e dela tirar o seu próprio usufruto...
Como em terra de cego quem tem olho que vê é rei, Mau Olhado - numa interessante analogia - acaba por ser, como aqui já referi, a verdadeira história de como o feitiço lançado consegue - um dia - regressa àquele que o lançou deixando o aparentemente mais feliz dos lares como aquele onde, afinal, sempre reinou a insatisfação (profissional, sentimental, sexual (...). Interessante, contemporâneo e com um portento mordaz, Mau Olhado peca - salva seja - por uma mais frágil exploração dos domínios mentais de uma "Elaine" visivelmente afectada por aquilo que ela própria desconhece.
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7 / 10
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Fantasia Improviso - Primeiro Movimento (2016)

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Fantasia Improviso - Primeiro Movimento de Duda Gorter é uma curta-metragem brasileira que esteve no passado mês de Julho em competição no Shortcutz Rio de Janeiro.
Nesta curta-metragem encontramos Laura (Gisele Fróes), uma mulher que parece encontrar-se num daqueles momentos da vida em que tudo é questionado. Silenciosa e metido para com os seus pensamentos, Laura reflecte sobre os seus espaços, momentos e paixões.
Aquilo que ressalta de imediato com esta curta-metragem é o aparente "ponto de situação" que uma (des)preocupada "Laura" analisa. Nesse momento da sua vida em que se questiona - e coloca - sobre quem é, o que faz e - correndo o risco de versar sobre os lugares comuns da vida - para onde vai.
Os primeiros indícios desta reflexão começam logo desde os primeiros instantes desta obra quando "Laura" observa uma jovem menina - o elemento feminino é aqui uma constante - que, inconsciente de ter toda a sua vida pela frente, se debate com os pequenos gostos e não gostos de uma vida na qual nada precisa ser pensado para, de seguida, encontrarmos outra mulher mais idosa que, frente a uma plateia esgotada, dá um recital marcando a presença de uma vida plena e caracterizada pelo exercício de um sonho e de uma paixão: a música.
Música essa que "Laura" parece timidamente abraçar, deixando-se levar pelas jovens promessas com que se cruza, com aqueles que, como ela noutros tempos, se deixam motivar pela hipótese de um sonho, de um desejo e de uma paixão. No entanto, e com a observação de momentos e situações que parecem poder completá-la, "Laura" parece residir num constante estado de insatisfação, desligada e distante dos que a rodeiam tanto psicológica como emocionalmente e num instante em que parece ter tudo e nada, apenas permanece uma pequena e muito breve pista sobre este seu estado incompleto... a maternidade!
No seio de um casamento que poderá (poderia) ser feliz, com uma casa abastada e com uma vida profissional plena de momentos que a completam, "Laura" é essencialmente uma mulher infeliz presa a uma "falta" que a marca agora que se aproxima de uma fase diferente da sua vida. O que restará depois dela? Como poderá ela ser feliz quando sente essa precisa falta? O que há para deixar àqueles que a deveriam rodear?
Com um foco que recai sobre as diferentes etapas da vida onde sonhos e expectativas divergem de forma abismal - do sonho à concretização e desta ao legado - Fantasia Improviso - Primeiro Movimento apresenta-se sobretudo como aquele momento na vida em que o seu principal interveniente se questiona se aquilo que tem e fez merece(u) o esforço de toda uma vida... mesmo quando se sacrificaram aqueles que estiveram por perto.
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6 / 10
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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Ghostbusters (2016)

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Caça Fantasmas de Paul Feig é a mais recente incursão no campo dos remakes de grandes clássicos de décadas passadas - Ghostbusters (1984), de Ivan Reitman - e uma das comédias mais aguardadas deste ano cinematográfico que agora vai a meio.
Erin Gilbert (Kristen Wiig) e Abby Yates (Melissa McCarthy) eram as duas maiores entusiastas estudiosas da actividade paranormal até que a primeira decidiu levar uma vida "mais séria".
No entanto, é quando Manhattan é ameaçada por uma invasão de seres paranormais que, unidas à engenheira nuclear Jillian Holtzmann (Kate McKinnon) e à funcionário do metro Patty Tolan (Leslie Jones) que irão tentar salvar a cidade e, com ela, toda a Humanidade.
A antecipação com que qualquer entusiasta desta saga dos anos 80 - Ghostbusters II (1989) - foi notória pelas diversas redes sociais onde todos comentaram a vinda de um novo título neste Verão. Estariam de volta os eternos "Venkman" (Bill Murray), "Winston" (Ernie Hudson), "Ray" (Dan Aykroyd) - com a sentida falta de "Egon" (Harold Ramis) - e "Dana Barrett" (Sigourney Weaver), o eterno amor do primeiro? Seria um voltar a ver a equipa reunida a combater as estranhas e misteriosas forças do sobrenatural que ameaçavam a segurança de toda a espécie humana? Seria a sua passagem de testemunho após anos de ausência que o peso da idade não perdoou? Não... nada disso. Ghostbusters, de Paul Feig veio apenas - e digo isto com alguma condescendência e mágoa - revitalizar o sucesso da década de 80 com alguns elementos que são (agora) politicamente correctos numa sociedade que se quer igualitária (felizmente no que ao real diz respeito).
Seria hipócrita para qualquer um de nós fãs daquilo que assistimos e que foi, em suma, uma "escola" de diversão e bom humor, não admitir agora que queríamos voltar a ver todas aquelas personagens que fizeram parte da nossa infância. Há excepção de todas as demais interpretações, foi com estas personagens que estes actores conquistaram muito do estatuto que obtiveram junto do público dos idos anos 80 e todos nós esperávamos, mesmo que brevemente quase como uma passagem de testemunho, eles regressassem e nos presenteassem com a sua verve. No entanto, este Ghostbusters do século XXI prima por recuperar alguns momentos e segmentos dos títulos anteriores - espíritos presos em quadros, casas e espaços assombrados, um fantasma já nosso conhecido, um Mayor mais preocupado com a sua imagem do que com a sua cidade, o metro assombrado e os fantasmas electrocutados (...) - transformando-os para aquilo que se espera como uma público mais abrangente. No entanto, a realidade é que este Ghostbusters não é mais abrangente do que os originais o foram.
Com alguns apontamentos divertidos que se prendem essencialmente com as personagens secundárias de Leslie Jones e Kate McKinnon como as "caça" mais atrevidas e insinuantes e, como tal, com maior peso cómico e dinâmico nos seus breves apontamentos, e ainda um Chris Hemsworth como o assistente como pouca assistência para dar e que é aqui reduzido à imagem de um "loiro burro" altamente visto como o potencial objecto sexual de "Erin", este Ghostbusters prima pouco por uma originalidade que o faça destacar dos anteriores títulos e nem mesmo o segmento da luta bem versus mal na Times Square de 2016 nos faz esquecer as muito próximas semelhanças que este título tem com, por exemplo, o de 1989, e nem mesmo a recuperação de Bill Murray, Sigourney Weaver, Ernie Hudson e Annie Potts - estrelas dos anteriores filmes - para cameos com novas personagens salva esta longa-metragem de um distanciamento real dos mesmos...  Afinal, se eles participam que fosse com as personagens que imortalizaram e não com parentes pobres que não os dignificam e que mais não servem do que dizer "estivemos lá".
Ghostbusters, de Paul Feig tem os seus momentos, consegue capturar algum humor e deixar uma certa nostalgia não correspondida com aquilo que, certamente, todos nós recordamos. No entanto, considerando as expectativas elevadas que o público em geral tinha, as pouco inspiradas interpretações de Wiig e McCarthy - apesar de sabermos e reconhecermos o seu potencial cómico - e o fraco distanciamento do que já havia sido feito deixando apenas uma breve e ligeira "reformulação" de momentos para este supostamente "novo" título faz com que o espectador abandone a sala de cinema com uma sensação mista... nem é algo novo que fizesse recordar os bons velhos tempos nem tão pouco consegue recuperar o humor corrosivo que se fez no início da década de 80.
Diverte? Diverte um pouco... Ficamos satisfeitos com aquilo que nos é oferecido? Não muito. Continuamos a sonhar com o humor corrosivo de "Venkman", com o charme de "Dana", com a simples inteligência de "Ray" e com os pés bem assentes na terra de "Winston"? Sem dúvida... No final apenas nos resta uma simples mas eternizada questão.... "Who are gonna call?! Ghostbusters..." - 80's style.
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"Patty Tolan: Ah hell naw, the Devil is a liar! Get out of my friend, ghost! The power of Patty compels you!"
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6 / 10
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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Fernanda Silva

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1957 - 2016
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Looking: The Movie (2016)

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Looking: The Movie de Andrew Haigh é um telefilme norte-americano que encerra (?) a série de duas temporadas Looking (2014-2015), da autoria de Michael Lannan.
Patrick (Jonathan Groff) regressa a San Francisco para o casamento de Agustín (Frankie J. Alvarez) e Eddie (Daniel Franzese). Na incerteza dos dias seguintes, Patrick procura ainda um sentido para a sua vida sentimental enquanto procura uma resolução - e um fim - com Kevin (Russell Tovey) e com Richie (Raúl Castillo) bem como para com o seu passado.
Num fim-de-semana que se prende com o regresso às origens e aos locais que fizeram a história da convivência entre os três amigos - "Patrick", "Agustín" e "Dom" - Looking: The Movie acaba por se transformar numa história com um fim (ou final) programado na medida em que não desenvolve necessariamente a série que o precede mas sim põe o tal ponto final numa história que foi abruptamente interrompida deixando em aberto diversas questões.
Se por um lado - eventualmente o principal - Looking: The Movie é um relato de um significativo ponto de viragem para "Patrick", também o é para os seus dois amigos de longa data. Por um lado temos "Agustín" que prestes a celebrar um matrimónio agora legal nos Estados Unidos, serve de motor para o regresso de um amigo do qual não sabe grandes novidades. E se inicialmente seria de esperar um afastamento "celebrado" pela distância em si, aquilo que o espectador confirma é que uma amizade - quando verdadeira e cimentada pela confiança - resiste ao tempo, à distância e até a um certo afastamento emocional que acaba por lhe estar inerente. Se as dúvidas existenciais de "Agustín" existiam para com um casamento prestes a acontecer, a realidade é que estas não só se dissipam como - na perspectiva do espectador - acabam por ser quase como um elemento secundário de toda a trama.
Por outro lado temos "Dom"... o elemento mais "velho" e supostamente mais ponderado do grupo que não só termina como um dos elementos mais secundários deste filme como denota que a sua personagem tem ainda muito por contar, principalmente no que ao seu lado emotivo e sentimental diz respeito. Para lá daquilo que diz permanecem todos os silêncios que sem nada revelarem confirmam que existe algo por detrás dos mesmos.
Mas, no final, é sobre o "Patrick" de Jonathan Groff e a sua relação - por confirmar - com o "Richie" de Raúl Castillo que se centra toda a trama de Looking: The Movie. Se desde o primeiro instante em que os seus olhares se cruzam que se consegue confirmar o desejo e a vontade de uma partilha ainda não anunciada, é certo que toda esta história acaba por lentamente desenhar o (in)esperado. De um amor interrompido pela distância ao momento em que essa interrupção se prende com o compromisso de uma das partes, Looking: The Movie centra-se não na auto-descoberta de uma qualquer sexualidade oprimida mas sim numa revelação interior sobre o que se espera - ou na realidade não - de um "amanhã" ainda por vir. No fundo, Looking: The Movie concentra-se sobre a potencialidade desse amanhã não vivido e que, quando questionado, pensado ou equacionado, impede os seus diversos intervenientes de viverem o hoje e os momentos positivos que podem proporcionar esse futuro em comum.
Sem ser um filme de primeira linha ou de uma qualquer reivindicação igualitária, Looking: The Movie prima por esse natural assumir de uma relação que se distancia dos dias de uma desejada igualdade, concentrando-se sim na confirmação dessa mesma igualdade. Aqui não existem momentos de uma descoberta sexual mas sim de uma compreensão interior... do que se deseja para um futuro que se desconhece e que, como tal, se receia. E ao receá-lo... chega a compreensão de que aquilo que se poderia viver de positivo pode, à partida, ficar alheado da vivência e da confirmação da plenitude que se deseja. No fundo, o principal aspecto positivo de Looking: The Movie é a confirmação de que não existe o proibido, o transgressor, o incorrecto ou a manifestação do segredo transformando-se assim numa - mais uma - banal história de amor (por ser possível), e encarada portanto com a normalidade que lhe está inerente, onde os problemas e dúvidas existenciais reais existem independentemente da forma em que se manifeste o casal. Casal esse que pretende ficar junto... sem saber o amanhã... como, no fundo, ninguém sabe.
Ligeiro, simpático e com as esperadas interpretações do trio protagonista - que, no entanto, mereciam melhor tratamento e desenvolvimento - Looking: The Movie assume-se como mais um filme romântico no qual as suas personagens vivem e experimentam o "tal" momento de viragem nas suas vidas que os fará, a partir daquele momento, serem "outros"... Os tais "outros" que eventualmente esse mesmo público irá esperar ver... com mudanças... com vidas mais ou menos atarefadas... com alguns divórcios pelo meio... filhos... e uns quantos anos a mais.
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8 / 10
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terça-feira, 2 de agosto de 2016

David Huddleston

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1930 - 2016
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sexta-feira, 29 de julho de 2016

MOTELx 2016 - Seleccão Oficial Melhor Curta-Metragem Portuguesa de Terror

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Foram anunciadas as dez curtas-metragens candidatar ao Prémio MOTELx de Melhor Curta-Metragem Portuguesa de Terror para a décima edição do festival que decorre anualmente no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Os nomeados são:
  1. A Caverna, de Edgar Pêra
  2. Dentes e Garras 2, de Francisco Lacerda
  3. JIGGING, de Ramón de los Santos
  4. Na Floresta... Corre!!!, de Nuno Soler e Ruben de Sousa
  5. Oneiros, de Gustavo Silva
  6. Palhaços, de Pedro Crispim
  7. Por Diabos, de Carlos Amaral
  8. Post-Mortem, de Belmiro Ribeiro
  9. Que é Feito dos Dias na Cave, de Rafael Almeida
  10. Retorno, de Manuel Brito
A décima edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa decorrerá entre os dias 6 e 11 de Setembro próximos no Cinema São Jorge, Teatro Tivoli BBVA e na Cinemateca Júnior no Palácio Foz, em Lisboa.
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Halloween Love (2013)

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Halloween Love de Roberto Pérez Toledo é uma curta-metragem de ficção espanhola com a participação de Alejandra Saba e David Mora, um dos actores habituais dos filmes do realizador espanhol.
Ele (Mora) e Ela (Saba) falam sobre o amor, sobre o compromisso e sobre o futuro. Mas... o que há de tão bom no amor quando tudo se rege pela incerteza, pela impossibilidade e pelas incoerências.
O argumento da autoria do próprio Pérez Toledo tece uma diferente abordagem à temática do amor. Se o seu trabalho é tradicionalmente caracterizado pelos encontros amorosos provenientes de um desejo ou empatia comum, em Halloween Love o amor é o mote final receado por "Ela" que pensa em todos os problemas que dele podem surgir e, como tal, evita-o pelo receio do que por ele pode sofrer. Igualá-lo a um filme de terror seria ser generosa... "Ela" teme mais o amor do que os grandes monstros cinematográficos com os quais se poderia cruzar. O amor é medo... receio dos desconhecido e do que o "amanhã" poderá trazer de inesperado.
Assim, e na impossibilidade de amar, "Ela" receia os ciúmes que podem surgir, a vulnerabilidade e a exposição que o amor lhe podem conferir, o pânico que poder deixar de ser amada, a dor no peito com o coração apertado. O amor é, ele sim, o verdadeiro filme de terror. No final, já dispostos a tudo, ambos percebem que viver no terror - talvez nunca concretizado - e ignorando o amor que sentem pode ser, esse sim, o verdadeiro terror. A dor de nunca experimentar e a incerteza do que se pode perder despertam-nos para a realidade do que sentem...
Dos medos nunca conhecidos à confirmação de um desejo sentido, Pérez Toledo volta, uma vez mais, a filmar uma história de amor. Uma que começa por se afirmar pelo medo e pela suspeita - não esqueçamos que estamos aqui na época de Halloween - e que aos poucos se revela comprovando que para lá de um medo incerto, o amor, o desejo e a vontade de o viver afirmam-se com uma convicção que não fala... mas que se sente.
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7 / 10
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Man Under (2015)

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Man Under de Paul Stone é um documentário em formato de curta-metragem norte-americano narrado por Jermaine, um condutor de metro na cidade de Nova York que viveu acontecimentos traumáticos que o marcaram para o futuro.
Desde o seu sonho de criança em tornar-se maquinista até à actualidade, Jermaine fala-nos sobre como a sua vida ficou afectada depois do primeiro acidente mortal em que se viu envolvido. Como o sonho desvanece e os receios deram lugar a alegrias antes vividas, Jermaine e este documentário apresentam toda uma traumática vivência não só deste homem como de toda uma realidade escondida dos olhares daqueles que vivem "lá em cima"... longe dos carris mais ou menos escondidos do metro da cidade que nunca dorme.
Logo os instantes iniciais de Man Under revelam-se como uma estranha bizarria para a qual o espectador parece não estar preparado. O recurso às imagens das câmaras das estações de metro que revelam algumas tentativas de suicídio - algumas, acrescente-se, com um grafismo pouco comum - mostram que para lá do trauma de Jermaine - aqui o rosto de uma depressão colectiva não documentada - existe toda uma comunidade que cedeu a uma desconhecida pressão.
"Suicide doesn't take away the pain. It gives it to someone else" é a frase de abertura de Man Under - 12-9 no código para identificar uma tentativa de suicídio - e todo o documentário não só é uma reflexão sobre a dor psicológica de Jermaine como também abre a porta a conclusões - por parte do espectador - sobre o estado de espírito de uma cidade que desde 2001 vive toda uma nova e diferente realidade (traumática com toda a certeza) como consequência dos atentados terrorista do 11 de Setembro. Ainda que com uma breve mas insuspeita referência ao ano, é de verificar que os estudos efectuados desde então revelam que o suicídio é a maior causa de morte na cidade tendo ultrapassado os homicídios numa escala de 3 para 1.
De uma última necessidade de contacto humano cruzando os olhares de vítima como o inesperado condutor do veículo mortal e a vontade quase escapatória de uma vida que não os deixa viver em tranquilidade, os fantasmas destas pessoas parecem co-habitar neste documentário que para lá dos factos - necessário num registo do género mas ainda assim frios pois esquecem as histórias por detrás dos números - apresenta uma invulgar tensão e um desassossego latente nos seus relatos. Da necessidade de avaliar o stress pós-traumático ao assombro e desconforto provocado por algo que antes o deixara feliz, Jermaine é um rosto marcado por uma dor que não consegue ultrapassar e um sentimento de uma culpa que não consegue controlar, dando a Man Under uma inesperada (des)humanidade que transgride violentamente já não existente tranquilidade de um espectador que se deixa, involuntariamente, absorver por uma mensagem e um conjunto de imagens francamente perturbadoras.
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7 / 10
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quinta-feira, 28 de julho de 2016

Fernando Costa

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1937 - 2016
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quarta-feira, 27 de julho de 2016

Jerry Doyle

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1956 - 2016
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El Colchón (2016)

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El Colchón de Roberto Pérez Toledo é uma curta-metragem espanhola de ficção e um dos últimos trabalhos do realizador espanhol que se prepara para estrear brevemente a sua mais recente longa-metragem Como la Espuma.
Luís (Elías González) e Ela (Verónica Moral) pretendem comprar um colchão. O casal parece distante quando, na realidade, procuram algo que os aproxime.
No seguimento de um conjunto de curtas-metragens realizadas no âmbito do dia de São Valentim, Roberto Pérez Toledo dirige este El Colchón, uma história sobre a passagem dos dias na vida de um casal que se ama mas que parece estar perdido no seio de uma rotina que os distancia.
O amor - uma constante na obra de Pérez Toledo - é aqui filmado em pouco menos de três minutos que, no entanto, captam toda a essência de um sentimento puro e presente entre um casal que percebe atravessar uma pequena turbulência que espera ultrapassar.
Um colchão... um dos símbolos de uma vida comum que aqui ganha contornos de uma potencial (in)felicidade transformando-se numa dor de cabeça para aqueles que o pretendem adquirir. Um colchão que representa um espaço comum mas com lugares "marcados" que em vez de aproximar distancia aqueles que nele se deitam. Um colchão que pode, no entanto, voltar a representar a proximidade de um casal que entende ainda ter aquela chama eterna que os impede a estar juntos e partilharem os seus momentos.
O amor filmado em breves instantes mas de uma forma pura e sentida onde os olhares assumem cumplicidades e os momentos representam toda uma vida passada - e futura - entre "Luís" e a sua mulher que precisavam de uma revitalização do seu romance... tal como nos tempos passados.
Duas inspiradas interpretações de Elías González e Verónica Moral, um argumento e uma direcção de actores inspirada que, repetindo aquilo que já referi inúmeras vezes, fazem de Pérez Toledo um realizador maior quando se trata de filmar o amor... as suas origens... os seus dissabores... e principalmente o seu sentido futuro.
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8 / 10
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Demonstración Pública de Afecto (2016)

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Demonstración Pública de Afecto de Roberto Pérez Toledo é uma curta-metragem espanhola de ficção que nos apresenta um casal idoso (Edna Fontana e Txema Blasco) numa grande superfície onde, de repente, Olga (Fontana) observa dois jovens enquanto tiram uma foto e se beijam de forma apaixonada, questionando-se - e ao marido - porque nunca fizeram o mesmo em público.
Não é surpresa para ninguém que por aqui já escrevi sobre muitos das obras cinematográficas de um realizador que considero ser dos grandes nomes de um novo cinema espanhol. Já afasto a questão de ser uma promessa pois a continuidade do seu trabalho revela que temos um realizador e argumentista que se concentra não só num aspecto romântico de uma relação mas também na forte necessidade de fazer chegar ao espectador uma mensagem sempre actual.
Pérez Toledo, prolífero em histórias centradas em pares românticos entre dois jovens adultos bem como em histórias cuja temática LGBT se marca de forma vincada, cria com Demonstración Pública de Afecto uma história romântica onde os protagonistas são tantas vezes esquecidos como o são quando a idade já é mais avançada. Forçando a sua entrada de forma segura pelo campo das relações entre idosos, Pérez Toledo levanta aqui uma quase eterna questão... Como vive a população mais sénior a sua afectividade, o romance e, porque não, a sua própria sexualidade?
Fruto de uma educação diferente daquela que grande parte de nós manifestou e teve, de regimes políticos e de um conservadorismo que - felizmente - muitos de nós não conheceu, como viveram "os nossos avós" a sua intimidade, a sua afectividade e mesmo o seu amor? Pérez Toledo responde a esta questão com mestria ao revelar que essa necessidade de afectividade e carinho existe, que nem sempre foi manifestada e que mais tarde ou mais cedo um dos dois intervenientes nestas relações "mais vividas" sentirá a vontade de os reclamar.
De forma tímida, a intensa Edna Fontana exibe através do seu olhar e de pequenos trejeitos nas suas expressões aquele vazio sentido de uma vida em comum, com respeito, cumplicidade e entrega mas que falhou na expressão do toque, dos afectos "extra o necessário" e de um não tão simples "amo-te" que pode preencher todo um coração. No entanto, é a ainda mais expressiva afectividade de Txema Blasco que de um homem relativamente frio se transforma num coração aberto que tece a mais linda declaração de amor àquela que, finalmente, assume ser o amor de toda a sua vida.
Para lá de um conto sobre o amor e ainda mais forte do que um qualquer cartão de São Valentim, Demonstración Pública de Afecto é um hino a um amor celebrado mas talvez não confirmado e uma segura aposta na abertura e desmistificação de um tabu sobre o afecto e a afectividade entre pessoas com uma idade mais avançada que Pérez Toledo não só escreveu mas ao qual também deu uma alma imensa com duas interpretações soberbas de Fontana e Blasco.
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9 / 10
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Eurofan (2015)

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Eurofan de Roberto Pérez Toledo é uma curta-metragem espanhola de ficção com as interpretações de Sara Sálamo como a Namorada de um fã da Eurovisão (José Sospedra), encontrando-se ela indecisa sobre a verdadeira sexualidade do seu namorado.
Num registo cómico muito específico, Eurofan celebra as expectativas e as diferenças dentro de uma relação cujos dois protagonistas parecem ainda estar a descobrir. De uma atracção física que o espectador nunca chega a presenciar, estes dois namorados acabam, na sua essência, por não se conhecer. Quando depois de uma convivência em comum se descobrem pequenos grandes detalhes que, afinal, marcam a existência de uma suspeita ou de um comportamento que - para ela - é desviante, resta então um inesperado confronto que poderá tudo resolver... ou talvez não!
Sempre com um fundo sério e introspectivo mas com uma comédia apurada por detrás de cada palavra dita e momento vivido, esta curta-metragem de Roberto Pérez Toledo prima por um humor subtil mas também muito vincado numa certa perspectiva de que nunca se conhecem na totalidade as pessoas com quem convivemos, Eurofan deixa o espectador - no final - tal como a sua protagonista... incerto sobre as suas dúvidas e certo de que algo mais existe por contar sobre o "eurofan" e seus amigos "twitterianos"...
Fresco pelo seu humor muito particular e com o potencial suficiente para deixar a curiosidade sobre estas personagens, seus passados e pequenos segredos escondidos, Eurofan é a prova - mais uma - sobre todo um potencial artístico e imaginativo de um realizador e argumentista como o é Pérez Toledo.
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7 / 10
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Como Dos Desconocidos (2016)

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Como Dos Desconocidos de Roberto Pérez Toledo é uma curta-metragem espanhola de ficção que numa breve caminhada por um corredor de um supermercado, Eva (Violeta Orgaz) reencontra o amor da sua vida (Fernando Guallar) de quem recentemente se separou.
Com os sentimentos ainda à flor da pele e uma ruptura que aparentemente não fez esquecer todo o amor, Eva tem uma inesperada surpresa que a faz repensar naquilo que sente por Ele.
Repetindo aquilo que já aqui referi inúmeras vezes, o realizado Roberto Pérez Toledo revela-se a cada uma das suas pequenas curtas-metragens como um mestre na exposição visual dos sentimentos humanos. Em breves momentos - não esquecer que pouco ultrapassa os três minutos de duração - Como Dos Desconocidos é brilhante na forma como expõe uma evidente - mas não observada - separação, o inesperado reencontro no qual o espectador compreende que os sentimentos ainda existem e estão bem vivos e ainda o prenúncio de uma reconciliação que, ainda que tímida, se sente e está bem presente.
Os desencontros amorosos, por motivos que o espectador nunca conhece mas que, na prática, também não interessam, dão lugar ao reencontro, à percepção de um sentimento mútuo e vivo capaz de reconciliar sem grandes palavras - é assim o amor... - e principalmente a um acto de ternura acentuada, mas também um pouco sofrida, que apenas o São Valentim (sempre tão presente) pode confirmar.
Terna e por momentos algo desesperante - o amor declarado e não correspondido de imediato a isso obriga - Como Dos Desconocidos rapidamente se apodera do coração do espectador mais incrédulo.
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8 / 10
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Doce o Trece Tequieros al Mes (2016)

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Doce o Trece Tequieros al Mes de Roberto Pérez Toledo é uma curta-metragem espanhola de ficção onde Ele (Yerai León) e Ela (Elena Martínez) falam sobre o "viver juntos" enquanto estão no supermercado. Enquanto para Ele este será um processo normal da vida a dois... para Ela... a conversa é outra. Poderá este casal resistir ao primeiro prenúncio de um desentendimento?
Pérez Toledo que como já aqui referi anteriormente é um mestre a filmar pequenas e não tão simples histórias de amor, volta a esta temática com Doce o Trece Tequieros al Mes onde sob a perspectiva de um casal, o espectador fica a conhecer as diferentes dinâmicas e pontos de vista sobre o amor, a liberdade e o primeiro e mais importante "passo seguinte": o viver juntos.
Ao contrário das tradicionais histórias sobre relacionamentos onde a mulher encarna o papel daquela que pretende uma relação estável, duradoura e cúmplice sob o mesmo tecto onde a vida se constrói - nada mais, nada menos - a dois, nesta curta-metragem Pérez Toledo reverte os papéis conferindo à personagem interpretada por Elena Martínez, a descrença e desconfiança para um romantismo que, na sua opinião, já não existem. Tudo prova o contrário - afirma algures - e as estatísticas revelam que as relações sob o mesmo tecto têm mais probabilidade de terminar do que aquelas que se têm e vivem a uma distância "saudável" onde persiste a vontade de estar com o outro. Mas será que "Ele" pensa de igual forma?
Num espaço público onde se assistem aos comportamentos dos demais que, de certa forma, comprovam a teoria que "Ela" tem, conseguirá o seu par não formal convencê-la de outra coisa quando nem a um jantar romântico de São Valentim a consegue levar? Poderão eles resistir juntos ao tempo? Às adversidades que, na prática, nunca serão comuns? Ao tempo - esse que tudo confirma ou separa e que segundo "Ela" também irá estabelecer os limites da sua relação?
Num mundo em que tudo parece controlado a um parâmetro de sociabilização aceitável e onde uma mensagem a mais pode significar uma quebra de liberdade para quem a recebe, Doce o Trece Tequieros al Mes tenta - positivamente - quebrar os tabus modernos e estabelecer que o romantismo (quando espontâneo) ainda existe, é recomendado e sobretudo... desejado.
Com todo o fulgor de uma carreira cinematográfica que já confirmou que as relações, a vida a dois - e não só - o sentimento, o amor, o desejo e o sexo são o seu elemento fundamental, Roberto Pérez Toledo assume-se naturalmente como um mestre num novo cinema sentimental... espanhol e não só.
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8 / 10
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segunda-feira, 25 de julho de 2016

El Incendio (2015)

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O Incêndio de Juan Schnitman é uma longa-metragem argentina recentemente estreada em Portugal centrada nas vinte e quatro horas anteriores à escritura de compra de casa de Lucía (Pilar Gamboa) e Marcelo (Juan Barberini). Mas ao dirigirem-se para finalizarem a compra, esta é adiada para o dia seguinte. A frustração dá lugar a momentos de tensão colocando à prova toda uma relação de cumplicidade e afectividade que até então parecia abalada.
Desde os primeiros instantes que o argumento de Agustina Liendo torna perceptível para o espectador que a relação deste casal se fundamenta numa tensão recalcada que ambos tendem a esconder. A falta de vontade em acordarem para um novo dia ou mesmo a incerteza face a sentimentos e vontades de estarem juntos cuja pressão é negociada para "momentos mais tarde", fazem o espectador compreender que existe algo para lá de simples momentos de uma vida e convivência em comum. Algo atormenta as suas existências e esta partilha de momentos, as suas vontades e principalmente uma relação que parece ter tudo para iniciar um caminho comum. Os silêncio que agora começam descontroladamente a assumir o lugar de uma violência contida e que, de certa forma, resume não só aquilo que ambos reservaram para si em nome de uma relação mas também as frustrações acumuladas de uma vida que sentem não estar completa.
É esta violência que, aliás, caracteriza as suas vidas de uma forma geral. Por um lado percebemos que "Marcelo" se sente diminuído não só num trabalho como professor de jovens desprivilegiados onde a defesa pessoal é confundida com agressividade, como também por parte do dinheiro que servirá para comprar a casa juntamente com "Lucía" ter vindo das mãos do seu sogro que (nunca confirmado) vê nele um incapaz de sustentar a mulher. Violência esta que se manifesta também numa vontade cada vez maior que "Lucía" sente de se distanciar dele primeiro recusando qualquer contacto sexual e de seguida privando-o de uma afectividade que, em tempos, tinha caracterizada a relação de ambos e notada pelos parcos comentários que os amigos lhes tecem. O mesmo ambiente de pressão e agressão que oscila entre o física e a verbal é também sentida por ela ao ponto de começar a sentir os seus efeitos num estado de saúde que parece deteriorar-se lentamente.
Se é certo que a convivência de ambos denota alguma agressividade, distanciamento e tensão, não é menos verdade que ao mesmo tempo se sente um estranho receio de algo... O espectador percebe-os comprometidos com algo que não assume uma forma física ou material mas que, no entanto, paira no ar assombrando aquilo que em tempos parece ter sido perfeito e a confiança outrora sentida parece agora estar, também ela, comprometida dando lugar a comportamentos semi-selvagens, quase animalescos, e tal como dois animais em estado livre amam-se e odeiam-se em igual intensidade não conseguindo demonstrar qualquer tipo de afectividade para lá daquela onde a força física esteja envolvida.
"Marcelo" e "Lucía" são assim o espelho de uma sociedade que não pára. Uma sociedade que não joga pelas mesmas regras naturais e de lealdade e que destrói com mais rapidez e assertividade do que aquela com que constrói e num mundo em que um elemento começa a sentir privação de concretização dos seus objectivos, as muralhas de auto-preservação em tempos construídas começam lentamente a abrir uma brecha e a sua ruína anuncia-se para breve.
O conflito - que precede o "incêndio" - vive-se pelos seus silêncios, pela impossibilidade ou pouca vontade de os quebrar e que, como tal, dão lugar a um constante e crescente desconforto, desconfiança, indiferença, asco e até ódios que, todos eles, não só contribuem e agravam aqueles demais problemas com os quais têm de lidar e que se agravam com a natural pressão social e dos pares, como apenas serão resolvidos com a instigação de uma violência inerente a qualquer animal que, sentindo-se encurralado, se quer libertar.
Com duas interpretações violentamente inspiradas de Pilar Gamboa e de Juan Barnerini que no fundo mais não são do que um retrato ferido de uma geração agora nos trinta com poucas perspectivas de sonhos outrora sonhados, El Incendio primeiro corrompe a alma para depois deixá-la com o único recurso possível... o de um silêncio posterior a uma violência interior onde o "eu" percebe que nada poderá ser igual ao que se teve... mesmo quando uma casa nova pode (poderia) representar todo um novo começo.
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7 / 10
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Hola, Mamá, Hola, Papá (2016)

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Hola, Mamá, Hola, Papá, de Roberto Pérez Toledo é uma curta-metragem espanhola de ficção e o mais recente trabalho do realizador espanhol que se prepara para lançar Como la Espuma, a sua terceira longa-metragem - quarta se contarmos com o seu segmento de Al Final Todos Mueren (2013).
Ele (Daniel de Llano) viajou até Madrid para a exibição de um musical e, no quarto de hotel, grava uma mensagem em vídeo com todos os seus planos para poder enviar aos pais... Na capital espanhola decorre o Orgullo Gay e Ele não se encontra sózinho.
Em breves minutos Roberto Pérez Toledo consegue, uma vez mais, entregar uma curta-metragem que não só denota as habituais característica do seu trabalho no qual exibe com extrema sensibilidade a emotividade e o sentimentalismo de uma relação afectiva como, ao mesmo tempo, também retira dos seus actores sentidas e honestas interpretações que os faz "viver" momentos dramáticos e reveladores com a convicção de que o "amanhã" será sempre melhor.
A personagem interpretada por Daniel de Llano - perfeito no seu desempenho - é um jovem homossexual que vive na sombra do segredo que tem, até então, moldado a sua liberdade à boa convivência com os demais. Naqueles instantes e naquele quarto de hotel, "Ele" é um jovem que tenta suavizar todo o ambiente em que se encontra de forma a que aquilo que precisa e tem de dizer saia de forma menos assustadora - para ele e para aqueles a quem envia o vídeo - e o seu coração está (eventualmente) tão grande como aquele pequeno quarto de hotel. Num misto de confiança e insegurança, "Ele", firme do seu momento revela-se para uma câmara e apresenta "Mário" (Miguel Ángel Bellido), o seu namorado que conhecera meses antes e com quem agora se prepara para viver um momento... o seu.
O estilo de vídeo confessionário termina quando a gravação chega a um fim e num segundo momento desta curta-metragem - agora entre "Ele" e "Mário" - debate-se se poderá ou não enviar a mensagem que irá mudar radicalmente a sua vida. Decidido que está o espectador a presenciar os resultados desta mensagem de vídeo, o desfecho pode não ser aquele que espera mas, no entanto, não querendo isto dizer que se prepara para um drama existencial - esse sim vivido com o segredo que guardou durante anos - que possivelmente termina ali, mas sim pelo facto de Pérez Toledo não "permitir" ao espectador presenciar esse mesmo final que se espera... Afinal, há momentos que apenas estão reservados àqueles que realmente interessam e, neste caso - apesar da ficção -, esses são entre a família que se depara agora com uma revelação/confissão transformadora e que permitirá conhecerem-se uma vez mais... e melhor.
Como já referi - aqui e noutros comentários já efectuados à obra de Pérez Toledo - este realizador espanhol é não só do mais prolífero na entrega de sucessivos e brilhantes registos sentimentais e das relações afectivas entre amantes ou namorados e amigos conseguindo, normalmente em breves instantes, retirar uma intensidade e carga dramática desarmantes das suas personagens e dos seus actores (também eles do melhor que o país vizinho tem para oferecer) e com isso conquistar toda uma legião de seguidores confirmando - com segurança - que a sua obra irá resistir não só no tempo como naqueles que o irão acompanhar (serei seguramente um deles...).
Com um pulso firme, uma emotividade exemplar, um argumento irrepreensível e duas sólidas interpretações que cativam o espectador, Hola, Mamá, Hola, Papá e Pérez Toledo estão, sem sombra de dúvidas, em estado de graça.
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