terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Waking Up in Reno (2002)

.
Acordar em Reno de Jordan Brady é uma simpática comédia em tons de road movie com a presença de quatro pesos pesados de Hollywood. Temos então os já desaparecidos Patrick Swayze e Natasha Richardson bem como os galardoados com Oscar Charlize Theron e Billy Bob Thornton.
Este filme não tem uma grande história ou enredo. Darlene e Lonnie (Richardson e Thornton) e Roy e Candy (Swayze e Theron), dois casais amigos resolvem fazer uma viagem até Reno para passarem um fim-de-semana de farra. Aquilo que dois deles não sabem é que Lonnie (Thornton) e Candy (Theron) têm um caso que irá mais tarde ameaçar a estabilidade e harmonia do grupo.
Reno, que juntamente com Las Vegas é uma das cidades da perdição e do jogo dos Estados Unidos, aqui vai funcionar com a cidade da redenção e do auto-estima para aqueles que até então haviam sendo enganados pelos seus parceiros.
E pronto, este filme fica resumido a isto. Pouco mais há a acrescentar. Trata-se apenas e só de uma pequena e simpática comédia sem grandes ambições que funciona graças ao seu reputado elenco e que a nós enquanto espectadores nos distrai durante pouco mais de hora e meia.
Não se trata de uma comédia inteligente... com grandes cómicos de situação ou piadolas fáceis. Em muitos momentos funciona até como um relato de quatro vidas trágicas que, bem analisadas, não passam de quatro pessoas que vivendo no meio de tantas outros são, basicamente, solitárias.
Funciona também como um dos últimos filmes de maior "destaque" que tanto Patrick Swayze e Natasha Richardson tiveram antes de falecer e, também por isso, desperta alguma curiosidade para os fãs destes actores.
.

.
6 / 10
.

Prémio Autores 2011: Autor Internacional

.
Patrice Chéreau
.

Prémio Autores 2011: Programa de Ficção - Televisão

.
Noite Sangrenta
.
Frederico Serra
Tiago Guedes
.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Prémio Autores 2011: Filme

.
Filme do Desassossego
.
João Botelho
.

Prémio Autores 2011: Actor

.
Cláudio da Silva
.
Filme do Desassossego
.

Prémio Autores 2011: Actriz

.
Beatriz Batarda
.
Duas Mulheres
.

Prémio Autores 2011: Argumento

.
Mistérios de Lisboa
.
Carlos Saboga
.

L'Esquive (2003)

.
A Esquiva de Abdellatif Kechiche, filme vencedor dos Cesar de Melhor Filme, Realizador, Argumento e Actriz Revelação era, já há algum tempo, uma curiosidade que tinha.
Há algo nestes filmes "sensação" que me desperta logo o interesse... Não sei se por serem muito falados ou se pelo facto da crítica os colocar no topo da glória, ou até mesmo por ser multi-premiados que me deixa imediatamente a pensar "ou é muito bom ou não vale nada".
A história deste filme que gira em torno de um conjunto de adolescentes maioritariamente filhos de imigrantes, de um qualquer subúrbio Parisiense, retrata-nos o seu dia-a-dia quer na escola onde ensaiam uma peça de teatro quer no seu bairro onde convivem e discutem os seus diversos problemas no que a relações diz respeito.
Krimo (Osman Elkharraz) apaixona-se por Lydia (Sara Forestier), e como tal faz por se juntar à peça de teatro em que esta participa e assim declarar-lhe o seu amor. Mal sabia Krimo que este seu comportamento iria despertar a intromissão nos seus assuntos por parte do seu melhor amigo e da sua ex-namorada que o havia deixado, originando assim uma série de acontecimentos que nenhum deles esperava.
A premissa do filme, que capta de certa forma a ideia já usada em Cyrano de Bergerac, em que um indivíduo apaixonado usa as palavras de outro para se declarar, sendo que aqui é mesmo através de uma peça de teatro que se tenta montar, até consegue ser interessante.
Interessante é também o retrato desta nova geração de franceses que vindos de diversos passados culturais conseguem, de certa forma, enquadrar-se e unir-se numa França do século XXI, independentemente de termos de pensar que o seu meio envolvente não é propriamente o mais acolhedor, quer por parte do próprio espaço em si bem como da população nativa.
No entanto algo de maior incomodou-me neste filme... As interpretações dos jovens actores. De todos, Osman Elkharraz consegue ser de longe o mais forte. No meio do seu silêncio e de muita da sua inactividade ao longo do filme, mostra-nos nada mais do que um jovem que está de certa forma inadequado no espaço em que se encontra. Muitos amigos que acabam por não passar de meros conhecidos e com quem não se sente confortável para falar da sua vida, professores que tanto têm de (in)tolerância como de falta de paciência e um ambiente familiar destruído com um pai ausente que se encontra na prisão. De todos, a dele consegue ser a interpretação mais credível.
Quanto aos demais, incluindo Sara Forestier que venceu o Cesar de Actriz Revelação, conseguem ser francamente desgastantes. E porquê? Bom... Passam, na sua maior parte do tempo, a verbalizar todos os seus discursos... aos gritos! Momentos há em que é perfeitamente insuportável sequer ter o som da televisão num som dito "normal" pois, se o tivermos, corremos sérios riscos de ensurdecer com tão insuportável gritaria. Outros temos que, ou pela falta ou pelo excesso de protagonismo, conseguem ser francamente irritantes e comportar-se como se fossem vítimas e alvos de todo o mal do mundo e que, como tal, têm o direito de "mandar vir" com quem lhes aparece pela frente.
E são estes mesmos comportamentos que a mim me incomodam. Credíveis ou não... Reais ou não... o que é certo é que assistir a um filme em que parece que nós enquanto espectadores somos tão ou mais insultados do que as próprias personagens torna-se., para mim, francamente desgastante. Bem sei que a realidade acaba por ser esta na prática, mas ao mesmo tempo também sei que mesmo sendo a realidade ela pode-nos ser apresentada de uma forma que não nos massacre o cérebro durante quase duas horas pois, para isso, basta-nos ligar um qualquer televisor no noticiário e é isso que temos.
Vence enquanto o conteúdo e a mensagem que pretende transmitir mas, no entanto, consegue ser uma experiência cansativa e desgastante ao fim de muito pouco tempo de visionamento.
É um filme que tem algum potencial... mas falha redondamente, e considerando as nomeações (e prémios) que recebeu na cerimónia dos Cesar do seu ano, constata-se facilmente que havia candidatos superiores a este.
.

.
3 / 10
.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Sid and Nancy (1986)

.
Sid & Nancy de Alex Cox conta-nos a história de Sid Vicious, baixo do grupo Sex Pistols que no auge de uma carreira decadente e de uma vida carregada de consumo de droga mata Nancy, a sua companheira.
A dar corpo a Sid temos um fenomenal Gary Oldman que reparte o protagonismo do filme com Chloe Webb, naquela que será possivelmente a sua mais forte interpretação de toda a sua carreira.
Neste filme acompanhamos uma pequena parte daquilo que eram os desastrosos e violentos concertos do grupo, mas essencialmente aquilo a que assistimos é a relação entre estas duas pessoas que se começa já negativamente, os dias e meses seguintes mostram a total entrada na decadência através do alcoól, das drogas e de uma vivência que não respeita nada nem ninguém.
Este filme, muito honestamente, não me impressionou grandemente. Sim, é um relato fiel de uma época e de um conjunto de pessoas que dada a sua notoriedade à época pode interessar a alguns, mas se o analisarmos bem não passa de um breve relato de um conjunto de vidas desligadas e desprendidas que mais não fazem do que beber até cair para o lado e drogarem-se para não pensarem em nada.
Resumidamente... um conjunto de vidas levadas ao limite que tudo faziam para se abstraírem da realidade que os rodeava.
Tem o seu interesse sim para aqueles que poderiam ser apreciadores dos Sex Pistols mas, fora isso, o alcance deste filme acaba por ser mínimo, ou até mesmo nulo, atingindo aqueles que, como eu, têm interesse em ver uma obra mais antiga de Gary Oldman.
Ponto alto do filme... Bom, para mim houve um... O segmento em que Sid Vicious faz uma adaptação moderna da música "My Way" é, de longe, o momento mais estrondoso, diria quase tão grande como nos melhores musicais, de todo o filme que não passa de um nível morno.
.

.
5 / 10
.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Boy Meets Girl (1984)

.
Paixões Cruzadas de Leos Carax (nomeado ao César de Melhor Primeira-Obra), foi-me apresentado como sendo um filme revolucionário e que quebrou fronteiras. Um filme que trazia recordações não só deste e daquele realizador conceituado mas também um elogio ao cinema mudo, há tanto desaparecido.
Com tantos e tantos elogios que me foram feitos sobre este filme, ao vê-lo a um preço tão acessível comprei-o sem pensar uma segunda vez.
No entanto, como nem tudo é tão perfeito como aparentemente deveria ser, mal começo a visionar este filme pensei imediatamente "isto vai ser uma dose bem pesada".
O porquê de pensar isto... Bom... Não retirando o mérito nem o valor do trabalho do realizador, longe disso, mas o facto de assistir a um filme que de tempos a tempos encerra os planos sem um desfecho da acção decorrente é algo que, para mim, é complicado de digerir quando se quer manter atenção ao conteúdo e possível mensagem da obra a que assisto.
A própria história é também por si algo dispersa. Não há um seguimento lógico nas imagens e acabamos por ter um conjunto de situações e de personagens a cruzar o ecrã, e cada uma delas com um conjunto de frustrações nunca resolvidas. Contam-nos o que se passou e tal... o apego que têm com um conjunto de objectos ou de recordações que os marcaram ao longo da sua vida mas.... acaba por ali... mais um plano cortado... mais uma história por terminar... mais um final sem fim.
O trabalho de fotografia de Jean-Yves Escoffier é bom. Apesar de ser um filme filmado a preto e branco, não é daqueles que quase nos custa a ver o que se passa ou que é apenas formado por um conjunto de sombras que insinuam o que decorre mas... ao mesmo tempo, este trabalho quase é arruínado pelas interpretações do par principal que roçam muito de perto o maníaco. Denis Lavant (Alex) e Mireille Perrier (Mireille) tem desempenhos que consegue não só assustar com enfadar e testar a paciência de qualquer um.
Não é de longe um filme que recomende, mas claro, para os curiosos fica sempre a liberdade de testarem os seus limites com este filme que não consegue cativar qualquer um. Por mim falo, e não consigo ter qualquer tipo de empatia para com ele.
.
2 / 10
.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Umberto D. (1952)

.
Umberto D. de Vittorio De Sica era para mim um filme completamente desconhecido até o ter visto perdido numa qualquer prateleira dessas superfícies comerciais. Duas coisas despertaram imediatamente o meu interesse... A primeira ter no cartaz o nome De Sica, um dos grandes mestres do cinema mundial. O outro, e o mais óbvio para quem já sabe dos meus interesses cinematográficos, foi o facto de ser um exemplar do cinema italiano, aquele que eu prefiro entre todos, não só pelo seu realismo como também pela sua imensa expressão dramática capaz de emocionar o mais insensível dos seres.
Este filme abre com uma manifestação de pensionistas numa Roma pós-guerra, onde as dificuldades económicas eram o dia-a-dia de toda a população. No meio desta manifestação encontramos Umberto Domenico Ferrari, Umberto D. que, como tantos outros reclama por um aumento na sua pensão como forma de poder (sobre)viver no meio de tantas dificuldades e dívidas.
Umberto, que vive num quarto alugado por uma senhoria tirana e que só quer ver a cor do dinheiro, tem a companhia do seu melhor amigo... o seu cão. Tem ainda a simpatia da empregada da casa que é a única pessoa que aparentemente se preocupa com ele.
Quer esteja bem, com ou sem dificuldades, com tristezas e alegrias, Umberto encontra-se essencialmente só. Só no mundo, e só para poder partilhar seja qual fôr o seu estado. Ele é essencialmente o retrato de uma população que viveu uma guerra e que agora tenta viver, e especialmente sobreviver, a todas as adversidades que então se apresentavam.
Umberto D. personifica a imagem da própria Itália. Doente, velha, pobre, endividada e explorada. A Itália saída derrotada de uma guerra que a consumiu e dividiu.
Carlo Battisti que aqui dá vida a Umberto D.,  tem uma francamente forte e poderosa interpretação, especialmente se considerarmos que este foi o único filme que fez como actor. O seu retrato como um homem de idade abandonado num mundo em transformação mas que não dá qualquer atenção àqueles que mais carência têm é, de longe, credível e muito bem interpretada, mesmo que ao longo do filme notemos algumas pequenas falhas que até nos passam ao lado.
Emocionante, se nos lembrarmos das sequências em que o seu cão ganha vida própria no filme e juntamente com Umberto D., interpreta alguns dos segmentos mais comoventes da história, e ao mesmo tempo deixamos uma réstia de esperança através do seu desconhecido final que nos consegue remeter para uma dimensão em que sonhamos, e esperamos, que afinal tudo lhe poderá ir correr bem... mesmo que pensemos que naquele momento ele está, como tantos outros, sem-abrigo.
Mais uma vez se confirma e prova que o cinema transalpino, através dos seus mestres e dos seus magníficos actores, nos entrega dos maiores testemunhos de sobrevivência... da realidade... de emoção e especialmente de esperança. Simplesmente imperdível.
.
8 / 10
.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Silver Road (2006)

.
Silver Road de Bill Taylor é uma muito bem executada curta-metragem de ficção que se desenrola numa pacata localidade do interior do Canadá onde dois amigos de infância se encontram e falam sobre as suas vidas que, deduzimos, terem estado afastadas durante algum tempo.
Aquilo que cedo percebemos é que um deles tem uma paixão secreta pelo outro e que mais cedo ou mais tarde a irá declarar. Será mutua? Irá correr-lhe bem? Sairá a amizade intacta?
História àparte, aquilo que temos nesta curta-metragem são pequenos detalhes técnicos muito bem cuidados e trabalhados e que podemos verificar na brilhante fotografia que cria um ambiente bastante calmo e tranquilo durante toda a narrativa, inclusivé naqueles momentos em que temos uma suposta maior tensão.
Com uma história interessante, mas que poderia ser muito mais trabalhada e desenvolvida para criar um filme com uma maior duração, esta curta não deixa de ser um belíssimo trabalho visual com planos ricos em conteúdo e em sensibilidade.
.
7 / 10
.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Len Lesser

.
1922 - 2011
.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

El Ambidiestro (2010)

.
.
O Ambidestro de Antonio Palomino, que aqui se assina como Nono Palomino, é uma curta-metragem espanhola que entre drama e comédia aborda aquele tão negro período da história de Espanha, ou seja, os anos da Guerra Civil.
Quando um homem (Monti Cruz) acorda no meio de um campo de batalha entre Republicanos e Falangistas, não sabe o que se passa nem a que lado pertence. É aí que o Sargento (Carmelo Crespo) e o Soldado (Andrés Suárez) Republicanos bem como o Sargento (Juan Alberto de Burgos) e o Soldado (Santiago Ruiz) Falangistas decidem que antes de o atacarem devem questioná-lo como se de um concurso de rádio se tratasse para perceber a que lado pertence aquele misterioso homem.
Depois de um conjunto de perguntas completamente surreais que em nada ajudarem para "definir" aquele homem, este consegue escapar do buraco em que se encontra para abraçar uma estranha revelação...
Assim que tomei conhecimento da curta sinopse desta curta não pude deixar de a procurar para ver se seria tão interessante como prometia. Esta temática da Guerra Civil desde sempre me interessou por "abraçar" tão dramáticas e trágicas histórias. Aquilo a que assisti não só é um trabalho muito bem conseguido como revela o absurdo de qualquer guerra que, quase sempre, opõe pessoas pelos motivos mais ridículos e que, por mais trágico que pareça, acabam por ser os mesmos.
Trágico sim, foi o destino daquele homem que só perceberemos já bem perto do final, bem como os motivos que o levaram àquele campo deserto, num acto de Humanidade que em tudo jogou contra ele.
Excelente este argumento também da autoria do próprio realizador que nos relata num registo que tem tanto de trágico como de cómico os caminhos de mais uma guerra absurda que só venceu pelo caos e pela destruição que lançou num país e em milhares dos seus.
Simples e muito eficaz nesta sua mensagem que não deixará ninguém indiferente e a todos consegue alcançar.
.
8 / 10
.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Biutiful (2010)

.
Biutiful é um filme do fantástico Alejandro González Iñárritu que mais uma vez nos brinda com um magnífico e estrondoso filme. Desta vez com a participação de um Javier Bardem mais sofrido do que nunca naquela que é seguramente a par de Mar Adentro a sua melhor interpretação em cinema, e que já foi confirmada com um merecidíssimo Goya de Melhor Actor.
Iñárritu depois da fantástica trilogia que todos nós recordamos em que a temática central era a dor, Amor Cão, 21 Gramas e Babel, transporta-nos aqui de volta ao cinema em espanhol e para uma Barcelona alternativa e desconhecida mas bem presente e real, mostrando-nos que afinal a trilogia não estava terminada e que havia ainda espaço para este soberbo filme que arrisco dizer ser uma das estreias maiores de cinema este ano.
Esta história começa com um cenário que sentimos ser tranquilo sem que, no entanto, consigamos perceber o porquê. Nele encontram-se dois homens. Vemos Uxbal (Bardem) que reconhece o outro homem sem que seja claro nesse reconhecimento. É através da sua curta conversa, que mais tarde perceberemos, que eles se identificam.
As imagens que vemos de seguida, no momento desconexas com aquilo que vamos tomando conhecimento do filme, mostram-nos a conversa entre um homem e uma mulher. Sentimos que está estabelecida uma ligação sem saber qual ou o seu porquê.
É depois desta introdução que Biutiful segue o seu rumo a todo o vapor. Um filme calmo mas com uma componente dramática e arrebatadora fortes demais. Uxbal é um homem que consegue estabelecer uma ligação com vidas que terminaram como forma de perceber e contar quais os seus últimos pensamentos ou recados que ficaram por dizer. Esta é a sua essência. Este é o seu propósito. Aquele que faz como forma de tranquilizar e descansar os outros.
Ao mesmo tempo Uxbal é um homem que vive de umas quantas ilegalidades e de negócios menos claros, uns que encontra... outros que arranja com o seu irmão Tito (Eduard Fernández). Uxbal vive também a realidade de um lar desfeito onde trata dos seus dois filhos menores que afastou de Marambra (Maricel Álvarez) a suamulher alcoólica e promíscua.
No entanto todas estas realidades diárias de Uxbal ganham contornos maiores quando descobre que está em fase terminal de um cancro que já dominou o seu corpo. Resta-lhe tentar assegurar um futuro para os seus dois filhos que sabe não terem ninguém de quem depender.
Este filme, mais do que qualquer outro de Iñárritu, assume uma ligação forte demais com a morte não só pela componente já referida da personagem a que Bardem dá um perfeito "corpo", mas também pelas tristes realidades que, durante a sua narrativa, vão surgindo ao nosso olhar.
A imigração ilegal, e as dificuldades que estão inerentes à vida destas pessoas, nomeadamente os riscos e as explorações de que são alvo, são neste filme retratadas de uma forma crua e dura mas que assumem também um lado perturbador para qualquer um de nós que na sua maioria as desconhece. Exemplo perfeito disso é o trágico desfecho dos imigrantes chineses, e como a realidade consegue perturbar aquele que é um cenário idílico para qualquer um de nós... o tranquilo Mediterrâneo.
Mas nem só de tragédias ou dificuldades é feito o cinema de Iñárritu. E como tal, também este filme tem a sua quota parte de esperança, de amor e de redenção. Todos eles fruto da relação que Uxbal tem com os seus filhos. Por eles tudo sacrifica, e para eles quer encontrar o lar perfeito que sabe não ser junto da mãe que irão ter.
Uxbal é, tal como li algures, um herói em queda livre. Um herói trágico. Tenta encontrar algo melhor para os imigrantes que se encontram em situação ilegal e precária... mas falha. Tenta (sobre)viver mais tempo... mas não controla o destino. Tenta ter uma relação normal com a mulher... mas esta não o quer. Tenta dar aos filhos um futuro... mas julga ter falhado.
O que fazer então quando tudo à nossa volta se encontra indisponível? Quando tudo parece não ter solução? Quando todas as portas se fecham? Quando tudo se recusa a colaborar?
Como todas as personagens de Amor Cão... as de Del Toro, Penn e Watts em 21 Gramas, e as de Pitt, Kikuchi e Barraza em Babel, aqui é Bardem a personagem que carrega toda a dor do mundo. Uma dor silenciosa, sentida mas não audível e que por esse mesmo motivo acaba por ser a mais sofrida e a mais ruidosa. Aquela que incomoda. Aquela que se transmite. Aquela que para nós enquantos espectadores, nos podemos identificar com ela. Aquela dor que nos faz pensar no que seria de nós se estivessemos perante os últimos meses de vida. O que fazer com o que vamos deixar para trás... Os nossos poucos pertences... a nossa família... o nosso espaço. Seremos nós recordados depois de partir? Porque motivos seremos recordados? Ou seremos tão simplesmente esquecidos?
Uxbal deixa a sua pequena marca quando passa a noite com o filho, os dois sózinhos em casa... e no final... quando delega o anel de família à sua filha. Deixou aquilo que tinha de melhor. Aquilo que marca a diferença na vida das pessoas.... o amor. O amor que sentimos por aqueles de quem gostamos e a quem queremos bem. Simplesmente o amor...
É por isso que quando parte não receia... Deixa-se simplesmente ir junto daqueles a quem quer e a quem ama. É o amor que o impede, na sua fase final, de sentir ou ter medo.
Iñárritu que através de uma forte e sentida trilogia sobre a dor que marcou qualquer um de nós que a ela assistiu, tem aqui uma obra que não só dá continuidade a essa ideia mas que a leva mais longe às fronteiras da morte mas que é, acima de tudo, um sentido relato sobre o amor. Esse que, acima de qualquer outro sentimento, nos pode fazer inclusive enfrentar a morte sem a recear.
É também de pequenas (grandes) subtilezas que o filme é feito. Basta pensarmos por exemplo no grandioso pôr do sol e na tranquilidade desse intenso Mediterrâneo que apenas são interrompidos pelo horror da morte que se gera numa das praias catalãs... Ou se pensarmos ainda em todo o ambiente circundante a Uxbal, tal como o tecto do seu próprio quarto que se degrada aos poucos, que mais não são do que uma metáfora sobre a sua própria condição física e psicológica que aos poucos se desgasta e consome. Ou mesmo as demais personagens do filme... Vidas duplas, decadentes, deambulantes sem rumo e sem sentido que cruzam Uxbal e que o consomem aos poucos muito lentamente.
Brilhantes... brilhantes são os desempenhos de todo o elenco. Maricel Álvarez, Eduard Fernández, Guillermo Estrella, Hanaa Bouchaib dão vida a opostos bem definidos... Os primeiros entregam um retrato fiel da decadência e da falta de objectivos que apenas sai compensado com a inocente e a vida inerente aos dois últimos. Compõem um elenco secundário forte e perfeito.
E Bardem, magnânimo como sempre, encarna Uxbal da mesma forma que há anos encarnou Ramon Sanpedro... com garra... Com uma tal convicção que o torna assumidamente num dos melhores actores do mundo e num que merecia sem qualquer reserva o Oscar de Melhor Actor deste ano.
Muitos e muitos filmes irão estrear este ano que ainda há pouco começou. No entanto, questiono-me se no final, muitos serão aqueles que deixam uma marca tão forte quanto este. Uma obra prima de eleição que não deveria deixar de ser vista por ninguém e que é ainda mais aperfeiçoada com a banda-sonora daquele que é um imenso compositor... o grande Gustavo Santaolalla.
.

.
10 / 10
.

Sociedade Portuguesa de Autores 2011: nomeados

.
FILME
Filme do Desassossego, João Botelho
José e Pilar, Miguel Gonçalves Mendes
Mistérios de Lisboa, Raúl Ruiz
.
ACTOR
Adriano Luz, Mistérios de Lisboa
Cláudio da Silva, Filme do Desassossego
Virgílio Castelo, Duas Mulheres
.
ACTRIZ
Beatriz Batarda, Duas Mulheres
Maria João Bastos, Mistérios de Lisboa
Soraia Chaves, A Bela e o Paparazzo
.
ARGUMENTO
Duas Mulheres, Rui Cardoso Martins e Tereza Coelho
Filme do Desassossego, João Botelho
Mistérios de Lisboa, Carlos Saboga
.

BAFTA 2011: vencedores

.
Filme: The King's Speech
Filme Inglês: The King's Speech
Actor: Colin Firth, The King's Speech
Actriz: Natalie Portman, Black Swan
Actor Secundário: Geoffrey Rush, The King's Speech
Actriz Secundária: Helena Bonham Carter, The King's Speech
Realizador: David Fincher, The Social Network
Argumento Original: David Seidler, The King's Speech
Argumento Adaptado: Aaron Sorkin, The Social Network
Fotografia: Roger Deakins, True Grit
Montagem: Angus Wall e Kirk Baxter, The Social Network
Design de Produção: Guy Hendrix Dyas, Larry Dias e Douglas A. Mowat, Inception
Guarda-Roupa: Colleen Atwood, Alice in Wonderland
Banda-Sonora: Alexandre Desplat, The King's Speech
Caracterização: Alice in Wonderland
Som: Inception
Efeitos Especiais: Inception
Filme Estrangeiro: Män Som Hatar Kvinnor
Filme Animação: Toy Story 3
Orange Rising Star Award: Tom Hardy
Realizador Revelação: Christopher Morris, Four Lions
Curta Animação: The Eagleman Stag
Curta Ficção: Until the River Runs Red
.

Goya 2011: Filme

.
Pa Negre
.
Isona Passola (prod.)
.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Goya 2011: Realizador

.
Agustí Villaronga
.
Pa Negre
.

Goya 2011: Actriz

.
Nora Navas
.
Pa Negre
.