domingo, 23 de setembro de 2018

Manuela "Manecas" Novais

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1941 - 2018
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sábado, 22 de setembro de 2018

Queer Lisboa - Festival Internacional de Cinema Queer 2018: os vencedores

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Terminou hoje a vigésima-segunda edição do Queer Lisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorreu desde o passado dia 14 de Setembro no Cinema São Jorge, em Lisboa.
São os vencedores:
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Competição de Longas-Metragens
Longa-Metragem: Marilyn, de Martín Rodríguez Redondo

Menção Especial: Tinta Bruta, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon
Prémio do Público: Girl, de Lukas Dhont
Actor: Victor Polster, Girl
Actriz: Kristín Thóra Haraldsdóttir, And Breathe Normally
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Competição de Documentários
Documentário: Room for a Man, de Anthony Chidiac
Menção Especial: Cartas para um Ladrão de Livros, de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros
Prémio do Público: Lunàdigas - Ovvero Delle Donne Senza Figli, de Nicoletta Nesler e Marilisa Piga
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Competição de Curtas-Metragens
Curta-Metragem: Would You Look At Her, de Goran Stolevski
Menção Especial: O Órfão, de Carolina Markowicz
Prémio do Público: O Órfão, de Carolina Markowicz
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Competição In My Shorts
Curta-Metragem de Escola: Mathias, de Clara Stern
Menção Especial do Júri: Three Centimetres, de Lara Zeidan
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Competição Queer Art
Filme: Inferninho, de Guto Parente e Pedro Diogenes
Menção Especial: Martyr, de Mazen Khaled
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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

A Moça do Calendário (2017)

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A Moça do Calendário de Helena Ignez (Brasil) é uma das longa-metragens em competição na secção Queer Art da vigésima-segunda edição do Queer Lisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que termina amanhã no Cinema São Jorge.
Esta longa-metragem conta a história de Inácio (André Guerreiro Lopes), um homem de quarenta anos, mecânico e bailarino em part-time, casado mas pouco dado a laços mais estreitos quer profissional quer sentimentalmente que sonha acordado com a Moça do Calendário (Djin Sganzerla) desconhecendo que ela é militante do Movimento Sem Terra.
A realizadora adapta ao cinema o argumento de Rogério Sganzerla num relato que pretende caracterizar o Brasil dos nossos dias expondo, dessa forma, que passado e presente não estão tão distantes como poderíamos pensar. Tendo como ponto de partida as desventuras pela cidade de São Paulo de um "Rogério" visivelmente pouco preocupado com o mundo que o rodeia, confiante pela sua condição masculina privilegiada - assim o saberemos mais tarde - e que, na prática, nunca abandonou uma juventude que o seu conforto económico lhe possibilitam, vemos o Brasil através dos seus olhos... indiferente, casual, masculino, potencialmente viril e onde a mulher se resume, em certa medida, a um elemento apêndice do homem... mas, nas sombras desta abordagem meramente ligeira, encontramos mulheres em pano de fundo que reclamam direitos e condições de igualdade que, não sendo anónimas, são abafadas por um ruído bem presente.
Vários são os momentos em que o espectador (re)conhece diálogos, discursos ou monólogos femininos que reclamam não só dos direitos tardios da mulher como daqueles que parecem ser dados como uma mera casualidade do seu género e não algo conferido como m (não tão) simples direito como seria de esperar. A mulher, nesta sociedade que se afirma multicultural e diversa, acaba por se revelar como um ser ainda não de plenos direitos e em igualdade de oportunidades mas sim alguém que surge como uma "consequência" de algo que... "sobrou".
É, para este "Rogério", homem branco, heterossexual e privilegiado, uma certeza que o mundo está de portas abertas para o receber... que as suas preocupações, desejos - económicos, sociais e sexuais -, são confirmados, reconhecidos e satisfeitos quando o mesmo deseja.. quando ele espera... quando ele quer... mas do outro lado da barricada encontra-se uma mulher (a sua), que o próprio considera como o tal móvel "lá de casa" que satisfaz as suas necessidades imediatas... tal como um electrodoméstico, um sofá ou mesmo uma cama... tudo tem uma função ao seu redor... também assim a (sua) mulher. Tal esta funcionalidade da mulher que "Rogério" sonha - e não só quando dorme - com a eterna "Moça do Calendário", que povoa o seu imaginário de desejo sexual e a qual reconhece como "a mulher" para a qual ele é capaz de reconhecer existência.
No misto desta sua desventura pela cidade, onde revisita velhos amigos e companheiros de trabalho, onde descobre um Brasil atormentado por uma crise económica e social no qual nem todos os direitos são direitos de todos, onde a educação é cada vez mais um privilégio de poucos, onde a mulher é uma parte da sociedade sem direitos igualitários, onde a cor define oportunidades e onde o dinheiro e a luta de classes ainda se impõem como uma pérfida realidade neste mundo que se diz moderno, o espectador conhece ainda esse tal Brasil em busca de uma identidade - individual e colectiva - interna e externamente que o possibilite de encontrar o seu devido lugar... não basta apregoar diversidade e encantos mil... há que saber reconhecê-los e integrá-los como uma parte inquestionável da sua própria realidade... se este "Rogério" está perdido pelas ruas e no seu propósito existencial... assim também o está este Brasil de 2017/18.
Mas se o dilema de busca de identidade está tão real para a personagem principal como para o país em si, não deixa de ser verdade que A Moça do Calendário enquanto longa-metragem se debate com a eterna questão do conseguir encontrar respostas - ou pelo menos facultar vias para se chegar a elas - para a perfeita harmonização entre ficção e documentário (aqui poderemos encontrar referências para ambos) sem, no entanto, estabelecer lugares comuns para o papel social do homem e da mulher... se no caso masculino a realizadora e argumentista encontram estes lugares comuns um pouco por todo o lado desde a indiferença que "Rogério" perpetua para com a sua mulher até ao momento em que ele, enquanto criança adulta está automaticamente a ser julgado pelo simples facto de ser homem - ainda que compreensível em certa medida a utilização desta abordagem depois da mulher ter sido (e ainda ser) alvo do mesmo julgamento unicamente por ser mulher -, não deixa de ser visível que a mulher aqui é retratada como activista, social e politicamente preocupada com a sua condição e do país mas, ao mesmo tempo, também retratada como uma perigosa predadora quando se mascara de rosto do crime perpetuado de um país visivelmente à beira da ruptura.
Se a realizadora pretende oscilar os dois géneros - ficção e documentário - numa única longa-metragem, o espectador compreende-lhe não só a vontade como a intenção na medida em que consegue identificar os momentos em que ambos são utilizados primeiro pela inserção da perspectiva masculina do mundo quase como um documentário sobre a realidade do país e, finalmente, a do sonho (o potencial documentário) onde são expostos os desejos de uma mulher viril, forte, emancipada, consciente e determinada capaz de tomar o destino pelo seu próprio pulso mas que, tal como nos revela "Rogério", esta parece não mais do que um seu constante sonho... ou será que esta figura não mítica está apenas a passos de distância do seu universo?!
Compreensivelmente com uma necessidade feminista - infelizmente ainda nos encontramos numa era em que existe a pertinência de reclamar por direitos igualitários para as mulheres, um século depois destes terem sido... "conferidos" -, A Moça do Calendário tem, no entanto, certos tiques e lugares comuns que fazem do homem um bicho inconsciente para a realidade feminina. O homem como o tal animal de interesses primários que utiliza a mulher para uma satisfação imediata... comer... tarefas domésticas... sexo... comer... tarefas domésticas... sexo... num ciclo perpétuo não conseguindo (ou querendo) reconhecê-la como outro ser social de idêntica capacidade cognitiva - o segmento em que a mulher de "Rogério" fala de direitos tardios e cujo monólogo é ligeiramente abafado pelo som da televisão... é disso exemplo -, transformando-se por momentos num filme manifesto mas, ao mesmo tempo, criando uma certa abordagem de machismo de saias elucidando(-se) o espectador de que tanto feminismo como machismo podem existir em ambos os géneros não sendo este exclusivos de cada um deles especificamente. Existe quem lute e reconheça a igualdade entre ambos e, de igual forma, quem manifeste a sua misoginia ou misandria... nem tudo é cem por cento limpo... ou cem por cento insípido...
Facilmente perceptível a componente que tenta caracterizar o Brasil de 2018... e um pouco do mundo moderno tal como o vamos conhecendo, A Moça do Calendário não é necessariamente o retrato fiel do bicho homem que martiriza a mulher mas sim a de um homem que ignora aquela que tem a seu lado... Da mesma forma que muitas mulheres foram, felizmente, percursoras do movimento feminista que lhes granjeou com todo o direito os seus Direitos... não poderemos esquecer que alguns homens também lutaram a seu lado... mesmo nos dias que hoje correm. Reduzir todo um género a uma condição de "castrador"... é o lugar comum mais fácil e mais propício para não conseguir criar empatia num público que não é só feminino. Nem tudo é teatro... nem tudo é cinema... e este foi buscar muitos dos seus fundamentos ao primeiro vivendo hoje uma harmoniosa relação e reconhecimento de inspiração...
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4 / 10
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António Escudeiro

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1933 - 2018
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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Anjo (2018)

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Anjo de Miguel Nunes (Portugal) - também argumentista e intérprete protagonista - é uma das curtas-metragens presentes na secção Panorama da vigésima-segunda edição do Queer Lisboa - Festival Internacional de Cinema Queer a decorrer no Cinema São Jorge e que revela uma Lisboa estival testemunha de uma paixão abruptamente interrompida.
Miguel (Nunes) encontra-se numa entrevista para entrada nos Estados Unidos. Pretende encontrar um amigo. Revela a sua paixão. De seguida encontramos o seu apartamento onde, compreendemos, sucedem-se as festas, as reuniões de amigos e a presença d'Ele (Edgar Morais), com quem vive momentos de entrega, cumplicidade e paixão, faz-se sentir na sua memória e nos seus pensamentos.
Da curta-metragem de Miguel Nunes surgem de imediato não só o seu nome enquanto realizador, argumentista, actor e produtor da mesma como também a presença de Joana de Verona e Edgar Morais como seus actores e rostos de uma nova geração de intérpretes portugueses com um percurso cinematográfico já confirmado para conquistarem um novo público para as salas. Se este elemento não fosse por si já suficiente, eis que o espectador encontra na sinopse aquele que poderá ser uma história de amor numa Lisboa contemporânea onde esta nova geração dos 30's ruma sem um destino certo ou vínculos firmes para lá daqueles que são firmados pela lealdade para com a tribo.
Seja nos palcos de um qualquer festival de cinema, nos telhados vizinhos observando uma Lisboa nocturna ou nas inúmeras festas que, não observadas, ocupam longas madrugadas, Anjo centra-se numa dessas figuras... a de "Miguel". Tudo começa com uma entrevista de entrada nos Estados Unidos onde ficamos a saber que ele pretende passar duas semanas da sua vida à procura de um amigo... de uma paixão. A tal paixão estival que lhe ficou na memória e que, por motivos que o espectador desconhece, terminou repentinamente. "Ele" (Edgar Morais) partiu. Os breves momentos que passam juntos são de paixão intensa, de entrega e de cumplicidade. De olhares e pequenas conversas banais entre quem, compreendemos, já se conhece ao ponto de tudo se poder dizer através do nada. Dos passeios pelas ruas aos pequenos silêncios que se partilham, "Ele" e "Miguel" entregam-se nos braços um do outro. Instala-se então a dúvida no espectador que se questiona sobre os porquês desta separação. Não terá sido nada de tão importante como aparentava? Terá "Miguel" sentido algo mais que na realidade nunca existira? Porque se terá confirmado esta distanciamento? Existe um endereço do outro lado do Atlântico mas... será que ainda permanece a tal cumplicidade?!
Interessante do ponto de vista dos tais "ses" que se instalam e mantêm na mente do espectador, a Anjo falta, no entanto, o tal aproveitamento da intenção narrativa para transformar o tal sofrimento da paixão distante, a dinâmica da proximidade dos amigos e o sentimento de busca pelo que já não lhe (a "Miguel") lhe pertence - ou possui - e transformá-lo num drama moderno sobre a procura do amor nesta geração dos 30's ainda tão pouco explorada em cinema. Habituados que estamos a encontrar filmes mais juvenis que exploram a temática do amor - não de forma condescendente mas sobre a tal geração ainda livre de grandes responsabilidades que estejam para lá de aproveitarem a respectiva juventude -, Anjo (tal como Verão Danado (2017), de Pedro Cabeleira que é, curiosamente, da mesma produtora ou mesmo Uma Rapariga da sua Idade (2015), de Márcio Laranjeira) tem todo o potencial para explorar esta dinâmica de uma geração que ainda procura o seu lugar num mundo que parece ter fechado a porta na altura em que a mesma se preparava para sair "de casa" mas, ao mesmo tempo, privou-se de o fazer deixando o espectador com uma mão cheia de incertezas, questões, dúvidas e pensamentos sobre a (não) concretização dessa busca... terá "Miguel" ido para os Estados Unidos... terá "Ele" (Morais) ainda correspondido à tal paixão? Pergunta que é, aliás, levantada pela entrevistadora (deduzimos que na Embaixada) quando "Miguel" revela que não sabe ao certo onde o amigo vive... Ou será que tudo mais não é do que uma reflexão tardia sobre uma busca e um amor que, não tendo sido correspondido, permanece como algo bonito e inalterado na mente daquele que realmente amou?!
Inteligente e perspicaz pela forma como filma esta (já não tão nova) geração que parece procurar, acima de uma estabilidade financeira, uma que também seja emocional, Anjo é, para lá de uma simpática estreia do actor enquanto realizador, um filme ensaio com potencial suficiente para explorar todas as dinâmicas da vida (apresentada) de "Miguel" - com os amigos, com o amor, com a vida de uma forma geral - sob a forma de ma longa-metragem... talvez com um resultado (sobre essa mesma geração) emocionalmente não tão feliz... mas real, crua e ligeiramente esperançosa sobre o tal "dia de amanhã" que a sua personagem aqui aparenta procurar.
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6 / 10
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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Disobedience (2017)

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Disobedience de Sebastián Lelio (Reino Unido/Irlanda/EUA) exibido na secção Panorama da vigésima-segunda edição do Queer Lisboa - Festival Internacional de Cinema Queer a decorrer no Cinema São Jorge centra-se na história de Ronit (Rachel Weisz), uma mulher que regressa à sua Londres natal para o funeral do seu pai rabi, depois de décadas de ostracização pela sua comunidade ortodoxa ao ter sido descoberta a sua relação com Esti (Rachel McAdams), agora casada com o seu amigo de infância Dovid (Alessandro Nivola).
Se há uma palavra que imediatamente surge na mente do espectador ao assistir a esta longa-metragem de Sebastián Lelio, ela é imediatamente "solidão". Os instantes iniciais revelam uma "Ronit" - "Ronnie" nos Estados Unidos - como uma fotógrafa reputada mas cuja vida pós-laboral se mantém isolada num qualquer canto de um bar que lhe serve exclusivamente para os seus encontros sexuais fortuitos e assim conseguir preencher com alguma falsa noção de sentimento (sexual) o vazio no qual sente a sua vida. Na cidade que nunca dorme, "Ronit" é então o protótipo de alguém que está literalmente sózinha numa cidade com milhões de pessoas que circulam diariamente à sua volta sem que, na realidade, se apercebam que ela ali está.
Esta sua noção de solidão é imediatamente interrompida quando subitamente recebe notícias de um pai recentemente falecido. O mesmo pai que pactuou com o afastamento das pessoas que conhecia, da sua comunidade, da sua cidade e mesmo da sua vida. É neste contexto que o espectador é imediatamente assombrado com outra dinâmica relacionada com o poder e a influência de uma comunidade mais reclusa e ortodoxa que se fecham nos seus hábitos e costumes impondo a obrigado e o dever como derivados directos um do outro e que pré-estabeleceu "papéis sociais" para cada um dos seus membros. Homens e mulheres devem ter relações meramente cordiais... homem deve casar com mulher... mulher deve ser submissa, boa esposa e boa mãe... homem garante o sustento para o seu lar.
É nesta dinâmica que encontramos "Esti" e "Dovid", amigos de "Ronit" desde infância e que se juntaram como um casal primeiro por um conhecimento comum e próximo e depois porque era o que deles se esperava. Distantes de uma qualquer noção de cumplicidade e amor, foi a amizade que os juntou e, ao mesmo tempo, a mesma que com o decorrer dos anos acabou por separá-los emocionalmente. A sua relação e casamento, agora uma obrigação social, desgastou-se pela imagem perdida de uma amiga distante - "Ronit" - e paixão (eventualmente comum) mas apenas correspondida para com "Esti". "Ronit", chega a uma Londres que parece ainda mais fria dentro de portas familiares, abalando todas as estruturas sociais que a encontram... a da família, a dos amigos e mesmo a de conhecidos que, conhecendo ou não o motivo do seu afastamento, a julgam como uma forasteira muito pouco desejada.
No entanto, é a dinâmica estabelecida entre o trio protagonista que cativa o espectador desde o primeiro instante. Se a dinâmica entre a personagem de Wiesz e a de Nivola parece amistosa, franca e em certa medida cúmplice, cedo se revela como tensa e indiferente. O "Dovit" de Nivola, fervoroso judeu ortodoxo cujos valores não tendem a ser abalados, encara a chegada de "Ronit" como a da amiga desaparecida (e não convocada) como um estorvo que pode ser contido e se inicialmente a convida para dentro da sua casa, cedo compreende que a família que tende a construir com "Esti" pode ser abalada com esta presença. É, por outro lado, a relação entre as duas mulheres aquela que acaba por se revelar como a mais intensa, cúmplice e a que poderá dar mais frutos quando se compreende que o amor que as separou fisicamente nunca deixou de existir nem no seu pensamento nem naquele desejo pensado extinto. "Ronit" e "Esti" são, afinal uma única alma dividida em dois corpos que se completam, desejam, amam e anseiam... mas o meio ao seu redor, ultra-conservador e religioso, não as permite consumar esse amor.
Se a "Ronit" de Weisz se revela como uma mulher segura psicologicamente, mas ao mesmo tempo frágil emocionalmente - ainda que firma nas suas convicções sobre o seu "papel" (a existir um) no mundo - pela descoberta de um pai que, de facto, não queria saber dela, e a "Esti" de McAdams como aquela que acabou por sempre a amar em segredo limitando-se a um papel de esposa devota e cumprida das suas "obrigações" matrimoniais é, no entanto, no "Dovid" de Alessandro Nivola que o espectador sente o maior e mais intenso conflito emocional na medida em que os seus momentos no ecrã se preenchem de pequenos elementos contraditórios à espera do seu próprio clímax. Nivola compõe uma personagem que se altera com o decorrer dos minutos... de um inicial homem seguro e confiante prestes a transformar-se no pilar de uma comunidade que o respeita - muito por ser o discípulo preferido do pai de "Ronit" -, o seu "Dovid" transforma-se num homem que vê a sua posição na comunidade ser ameaçada pela presença de um elemento por todos indesejado mas que, ao mesmo tempo, tenta conciliar para o bem de todos (e das aparências), respeitando a memória do homem que, no fundo, todos respeitam. É com a descoberta de um cada vez mais desinteresse da sua esposa "Esti" que "Dovid" se expõe como um homem aparentemente violento - não fisicamente mas psicologicamente e para si pela compreensão de que o seu ideal de família está prestes a terminar -, comprometendo não só a sua posição dentro do seu lar, como na comunidade e, sobretudo, perante os demais líderes que o escolheram para os liderar.
Expondo estas três personagens - co-protagonistas que ocupam, cada uma delas, a sua própria dinâmica na construção desta intensa história -, questiona-se o espectador sobre a origem desta "desobediência" ainda não confirmada... Se facilmente a poderíamos associar à personagem de Weisz na medida em que esta, expulsa do seu grupo primário, conseguiu construir toda uma nova realidade onde pode viver uma vida mais ou menos livre (pelo menos psicologicamente) dos padrões de "sociedade" a que estaria exposta na sua Londres ou, mais ainda, a poderíamos observar nos comportamentos transgressores - novamente para a referida comunidade - da "Esti" de McAdams, a realidade é que esta desobediência firma-se convictamente nos comportamentos do "Dovid" de Nivola... o aparentemente afável anfitrião... o violentamente instável marido... o receoso futuro pai...e, finalmente, o compreensível, empático e humano amigo, cúmplice e confidente que, incerto do seu papel no ideal de mundo que havia criado, compreende realmente que a tal palavra de Deus que passara anos a apregoar está finalmente na aceitação do "outro", da sua diferença e sobretudo da forma como esta não ameaça em nada aquilo que ele próprio representa mas sim expande os seus próprios horizontes a uma nova descoberta desse mesmo mundo em seu redor... Não será a verdadeira palavra de Deus a capacidade que "nos" conferiu, pelo livre arbítrio, de poder escolher quem amar, com quem formar amizade, a possibilidade de respeitar, de honrar e de conhecer tudo o todos os que nos rodeiam não vendo neles rótulos pré-definidos pela sociedade ou comunidade em que nos encontramos?!
Disobedience será assim inicialmente uma história de solidão... mas também uma história de busca pelo reconhecimento, pela aceitação, pela compreensão, pelo amor, pela família, pela redenção e até mesmo pela tradição - não nos poderemos esquecer que "Ronit" também regressa e apenas leva com ela aquilo que a mãe lhe havia destinado perdendo todos os demais valores de família - e o verdadeiro acto de desobediência, presente em cada uma destas personagens co-protagonistas, está na sua capacidade de, em bom tempo, compreender que todos podem ser felizes, juntos ou separados, se conseguirem respeitar as vontades individuais... tal como a palavra de Deus tinha, nos princípio dos tempos, estabelecido como uma sua vontade.
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"Rav: (...) what is this thing? Man? Woman? It is a being with the power to disobey."
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9 / 10
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terça-feira, 18 de setembro de 2018

Marceline Loridan Ivens

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1928 - 2018
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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Sewing Borders (2018)

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Sewing Borders de Mohamad Hafada (Líbano) presente na secção Panorama Special Focus dedicada à temática das migrações da vigésima-segunda edição do Queer Lisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre no Cinema São Jorge até ao próximo dia 22 de Setembro, é uma curta-metragem centrada na região do Médio Oriente - mais concretamente na cidade de Beirute - e nas diferentes "fronteiras" do território quer sejam elas sociais, culturais, políticas ou geográficas bem como sobre as decorrentes movimentações populacionais decorrentes ao longo das últimas décadas.
Partindo de uma simples premissa, Sewing Borders possibilita ao seus protagonistas nunca devidamente identificados, a oportunidade de, através de uma mapa da capital libanesa, poder estabelecer as suas fronteiras (ou aquelas que o seu imaginário permite), da cidade tal como dela se recordam. Dispersos ao longo das décadas por diversos locais que passaram por campos de refugiados na Síria ou na Turquia devidas às guerras civis e instabilidade sentida no país, estes entrevistados recuperam a "sua" cidade de Beirute, os locais que frequentavam então e aqueles espaços onde as suas casas se encontravam. Numa recuperação já perdida da memória histórica da cidade, Sewing Borders possibilita aos intervenientes através das suas capacidades e conhecimentos de costura, criar as suas fronteiras internas numa reflexão sobre o tempo e a História assim como sobre as suas memórias individuais.
Sem nunca conhecer quem está a narrar os seus conhecimentos da História, esta curta-metragem libanesa tem, como sua personagem principal, diferentes mapas da cidade, do país e da região sujeitas a uma "intervenção cirúrgica" por parte de uma máquina de costura que estabelece os seus limites. Num irónico e inesperado paralelismo com a realidade, o espectador consciencializa-se da comparação entre a realidade Histórica e aquela com que o realizador prestou ao título da sua obra ao estabelecer que tanto estas como as fronteiras reais mais não foram do que meros acasos estabelecidos por aqueles que, sentados à mesa com os mapas de então, resolveram dividir territórios, povos, espaços e uma mesma comum cultura.
Ainda que com todo um potencial maior por explorar, mas sempre acompanhada da memória oralizada e de alguns documentos históricos, Sewing Borders encontra uma forma simples mas eficaz de se expôr enquanto representação fílmica de um contexto histórico tantas vezes explorado e tão poucas vezes (tentado ser) compreendido.
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6 / 10
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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Zienia Merton

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1945 - 2018
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Academia Argentina de Cinema - Premios Sur 2018: os vencedores

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Foram divulgados ontem, dia 13 de Setembro, os vencedores dos Prémios Sur, entregues anualmente pela Academia Argentina de Cinema, e que declararam Zama, de Lucrecia Martel como o grande vencedor do ano ao arrecadar dez troféus.
São os vencedores:
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Filme: Zama, de Lucrecia Martel
Primeira Obra: El Invierno, de Emiliano Torres
Documentário: Cuatreros, de Albertina Carri
Realização: Lucrecia Martel, Zama
Actor Protagonista: Daniel Giménez Cacho, Zama
Actriz Protagonista: Sofia Gala Castiglione, Alanis
Actor Secundário: Pablo Cedrón, El Otro Hermano
Actriz Secundária: Mara Bestelli, El Invierno
Revelação Masculina: Lautaro Bettoni, Temporada de Caza
Revelação Feminina: Yanina Ávila, Una Especie de Familia
Argumento Original: Diego Lerman e Maria Meira, Una Especie de Família
Argumento Adaptado: Lucrecia Martel, Zama
Montagem: Karen Harley e Miguel Schverdfinger, Zama
Fotografia: Rui Poças, Zama
Música Original: Leo Sujatovich, La Novia del Desierto
Som: Guido Berenblum, Zama
Direcção Artística: Renata Pinheiro, Zama
Guarda-Roupa: Julio Suárez, Zama
Caracterização: Marisa Amenta e Alberto Moccia, Zama
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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Brothers' Nest (2018)

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Brothers' Nest de Clayton Jacobson (Austrália) é uma das longa-metragens exibidas durante a décima-segunda edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que, na passada semana, decorreu no Cinema São Jorge.
Terry (Shane Jacobson) e Jeff (Clayton Jacobson) rumam à casa da mãe e do padrasto numa tentativa de o assassinarem e, dessa forma, evitar que a mãe altere o testamento em seu favor. No entanto, aquilo com que os dois irmãos não contavam era com os momentos em que iriam passar juntos e com as verdades que viriam a ser descobertas.
O primeiro elemento que se destaca nesta longa-metragem australiana é, desde logo, o ambiente isolado e desértico que o imaginário do país faz imediatamente despertar na mente do espectador. Ainda que o país seja dotado de algumas metrópoles entre as quais Sidney, não será menos verdade que rapidamente qualquer um de nós liga o imaginário do país aos seus vastos desertos que a saga Mad Max (1979), de George Miller popularizou ao longo dos últimos quarenta anos. Nesta medida, Brothers' Nest afasta imediatamente o espectador de qual cenário citadino levando-o a um espaço afastado de qualquer cenário de civilização entregando as duas almas a um espaço confinado às quatro paredes de uma casa onde cresceram e onde todas as suas memórias estão guardadas.
Tendo este cenário em mente, aquilo que Brothers' Nest entrega ao espectador é um conto sobre a sede de poder e de posse que rapidamente soltam os uivos de uma vingança desconhecida onde a avareza e a ganância fazem despertar o pior de cada um deles. É na sua estadia naquela casa que o argumento da autoria de Jaime Browne e Chris Pahlow revela dois homens esquecidos por si próprios, que vivem de mentiras e ilusões que revelam como a única forma de satisfazerem um qualquer ego que precisa ser alimentado e que mimam como forma de revelar o melhor de uma vida que, na realidade, não têm. Assim, e por detrás do óbvio saque que querem fazer a vontade de uma mãe moribunda, tanto "Terry" como "Jeff" apenas se concentram num plano meticulosamente elaborado que, no entanto, mais do que revelar a ausência de provas que os incriminem revela, por sua vez, todas as pequenas nuances, dilemas e aspectos de um carácter ferido não só pela vida como, surpreendentemente... pelo seu próprio ego.
Donos de vidas supostamente aceites pela sociedade mas que revelam todos os podres da mesma que se quer rápida, bem sucedida e proeminente, os dois irmãos são, no entanto, o seu oposto. Com famílias destruídas e separadas, com vidas profissionais à beira da ruína e distantes dos valores familiares que muito consistentemente insistem em defender em nome de uma moral paternal, também ela já distante, aquilo que os dois revelam é uma ausência de consciência inicial que os expõe como capazes de tudo para bem suceder neste seu propósito. No entanto, é à medida que o tempo avança que ambos se revelam num patamar distinto de evolução e onde nada é como tenta aparentar. Se "Jeff" se assume como a força bruta para quem, na realidade, nada importa, nem mesmo os tais valores morais de que o património familiar deve ficar nas mãos da família de sangue, é "Terry" que lentamente se revela mais despreocupado com o que lhe sucede preocupando-se, por sua vez, com todas as pequenas memórias que ressurgem com os pequenos passeios que dá pela casa e pela propriedade. "Terry" sente a alma da casa, das paredes, dos objectos e das pequenas lembranças que, sem serem do conhecimento do espectador, se fazem transparecer pelos seus olhares auto-reflexivos e que o levam a equacionar - novamente sem nunca serem revelados mas que se expressam pela sua postura física e psicológica cada vez mais branda - na validade da acção a que se propôs. Será que tudo aquilo valerá a pena ou, por sua vez, irá manchar as memórias de um passado que, afinal, poderá não ter sido tão mau como aquilo que inicialmente julgara?
À medida que a dinâmica entre os dois irmãos se altera, não só entre ambos mas também em relação ao propósito que ali os levou, percebe-se e compreende-se como inevitável a chegada de novas personagens - nomeadamente a mãe e o padrasto - para provocar o esperado clímax nesta história. No entanto, o que poderá acontecer quando a dinâmica dois irmãos para com as suas figuras parentais rapidamente ganha novos contornos alterando a concepção que tinham dos papéis que cada um representou na sua juventude? Será a mãe tão inocente no seu passado? Será o padrasto alguém tão detestável como o haviam imaginado? Poderá esta relação entre irmãos e de filhos para, no fundo, pais sair imaculada depois de um tão grande voto de desdém?! Saber-se-ão verdades julgadas impossíveis e enterradas pelo passado? Irá alguém finalmente compreender o que sempre representou no seio desta família?
Ainda que toda a dinâmica do argumento de Browne e Pahlow seja suficiente para criar uma história não de um terror sobrenatural mas sim daquele que as mentes de duas crianças - agora adultos - criam ao longo dos anos e pelo qual se deixam atormentar como representativo daquele papão debaixo da cama que, na realidade, nunca os abandonou, a realidade é que esta longa-metragem peca um pouco - ao ponto de perder muito da sua verve -, pela excessiva relação entre os dois irmãos que se deixa arrastar ao longo de praticamente sessenta minutos de duração deixando para os instantes finais toda a trágica resolução que se fazia adivinhar para esta família. Não existe grande dinâmica entre as quatro personagens mas sim blocos separados da mesma... primeiro entre os irmãos, destes para com o espaço que os viu crescer, seguido pela que estabelecem com o seu padrasto e, finalmente, com a sua mãe. Se o momento entre os dois irmãos foi demorado ao ponto do espectador compreender que poderia ser editada, é também certo que os momentos estabelecidos com os seus pais pecam por uma conclusão intensa mas apressada ao ponto de nos deixar pouco impressionados enquanto aquele clímax que, na realidade, esperaríamos.
Nota positiva a um brilhante Shane Jacobson que consegue destacar-se no seio desta história como o apontamento moral - ou aquele em que a dita moral mais se manifesta -, pode-se destacar que muito se revela do passado destas quatro personagens quer pelas palavras que trocam quer pelas dinâmicas que são estabelecidas ao longo do tempo mas, ao mesmo tempo, não existem pequenos detalhes que ficam por explorar como, por exemplo, qual a relação que os irmãos tinham com a sua mãe, os vídeos que vêem e como a sua percepção está, afinal, tão distante da realidade ou mesmo o pequeno lembrete que o papel de parede faz despertar a "Terry" de um "algo" que nunca é revelado? Ainda que nunca devidamente explorados ou revelados para lá do essencial, são estes pequenos elementos que deixam uma certa curiosidade no espectador mais atento e que poderiam ter contribuído para melhor a dinâmica destas personagens com o espaço e com elas próprias fazendo, por sua vez, um maior "corte" em momentos de contemplação que, embora importantes, se prolongam para lá do seu tempo. No final, Brothers' Nest expõe muito da comédia negra ou do terror psicológico que algum cinema australiano tão bem tem entregue nas últimas décadas mas, ao mesmo tempo e considerando todos os seus momentos mais intensos, nunca consegue atingir todo o esplendor que poderia ter alcançado se algumas arestas tivessem sido melhor limadas.
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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Frank Serafine

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1953 - 2018
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terça-feira, 11 de setembro de 2018

E o candidato de Portugal é...

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Foi hoje divulgado pela Academia Portuguesa de Cinema a longa-metragem portuguesa seleccionada para concorrer aos Oscars na categoria de Melhor Filme Estrangeiro e aos Goya da Academia Espanhola de Cinema na categoria de Melhor Filme Ibero-Americano.
Peregrinação, de João Botelho, longa-metragem filmada durante quatorze semanas na China, Japão, Índia, Malásia, Vietname e Portugal em Lisboa, Sintra, Vila do Conde, Tomar e Sesimbra, foi a escolhida para representar o país nos dois eventos internacionais que se irão realizar a 2 (Goya) e 24 (Oscars) de Fevereiro de 2019.
A longa-metragem de João Botelho que conta com as interpretações de Cláudio da Silva, Cassiano Carneiro, Pedro Inês, Catarina Wallenstein, José Neto, Maya Booth, Pedro Lacerda, Jani Zhao entre outros, foi nomeada a onze prémios Sophia entregues anualmente pela Academia Portuguesa de Cinema tendo sido vencedora de três nas categorias de Melhor Maquilhagem e Cabelos (Rita de Castro e Filipe Muiron), Melhor Caracterização/Efeitos Especiais (Nuno Esteves) e Melhor Guarda-Roupa (Sílvia Grabowski e Joana Veloso), centra-se a partir de Março de 1537 quando Fernão Mendes Pinto (Cláudio da Silva), fugido da miséria da vida parte para a Índia em busca de fama e fortuna. Peregrinação conta assim a viagem e as desventuras do escritor no decurso dos vinte e um anos que se encontrou no Oriente. De aventureiro a peregrino, penitente, embaixador e soldado, traficante mas também escravo, Mendes Pinto foi um pouco de tudo por onde passou. O livro das suas aventuras publicado trinta anos após a sua morte é o primeiro best-seller da língua portuguesa traduzido e publicado em vários línguas pela Europa.
Peregrinação foi ainda nomeado aos Sophia de Melhor Realização (João Botelho), Melhor Actor (Cláudio da Silva), Melhor Actriz Secundária (Catarina Wallenstein), Melhor Argumento Adaptado (João Botelho), Melhor Montagem (João Braz), Melhor Fotografia (Luís Branquinho), Melhor Música Original (Luís Bragança Gil e Daniel Bernardes) e Melhor Som (Francisco Veloso, Paulo Abelho e Tiago Inuit) nesta que é a terceira representação de João Botelho para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro depois de Tempos Difíceis (em 1988) e Três Palmeiras (em 1994) e a primeira para o Goya de Melhor Filme Ibero-Americano.
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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Peter Donat

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1928 - 2018
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Shortcutz Viseu - Sessão #109

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O Shortcutz Viseu regressa com a Sessão #109 apresentando uma tarde dedicada ao cinema curto de animação num segmento inteiramente dedicado às Curtinhas Vila do Conde na qual serão exibidos alguns dos filmes que passaram pela última edição do festival sendo eles A Caça, de Alexey Alekseev (França), Dois Balões, de Mark Smith (EUA), Dois Eléctricos, de Svetlana Andrianova (Rússia), Formiga, de Julia Ocker (Alemanha) e O Rato da Floresta, de Joroen Jaspaert (Reino Unido).
A Sessão #109 irá decorrer na próxima sexta-feira dia 14 de Setembro pelas 15 horas na Quinta da Cruz - Centro de Arte Contemporânea.
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domingo, 9 de setembro de 2018

MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa 2018: os vencedores

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Terminou a décima-segunda edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que decorreu no Cinema São Jorge desde o passado dia 4 de Setembro.
Hagazussa, de Lukas Feigelfeld foi o grande vencedor desta edição ao arrecadar o troféu de Melhor Longa-Metragem Europeia de Terror sendo assim candidata ao Meliès d'Or.
Foram os vencedores:
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Melhor Longa-Metragem Europeia de Terror: Hagazussa, de Lukas Feigelfeld
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Melhor Curta-Metragem Portuguesa de Terror: A Estranha Casa na Bruma, de Guilherme Daniel
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Menção Honrosa: Agouro, de David Doutel e Vasco Sá
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Foram ainda atribuídas Menções Especiais à Interpretação, sendo elas:
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Celia Williams, Inner Ghosts
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Maria Leite, Mutant Blast
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Alex Lawther, Ghost Stories
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sábado, 8 de setembro de 2018

Festival Internacional de Cinema de Veneza 2018: os vencedores

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Terminou hoje a mais recente edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza anunciando Roma, de Alfonso Cuarón como o grande vencedor da noite ao arrecadar o Leão de Ouro de Melhor Filme em competição.
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Selecção Oficial
Leão de Ouro:
Roma, Alfonso Cuarón
Prémio Especial do Jurado: The Nightingale, de Jennifer Kent
Leão de Prata - Realização: Jacques Audiard, The Sisters Brothers
Coppa Volpi - Actor: Willem Dafoe, At Eternity's Gate
Coppa Volpi - Actriz:
Olivia Colman, The Favourite
Argumento: Joel Coen e Ethan Coen, The Ballad of Buster Scruggs
Prémio Marcello Mastroianni - Jovem Intérprete: Baykali Ganambarr, The Nightingale
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Orizzonti
Filme: Manta Ray, de Phuttiphong Aroonpheng
Prémio Especial do Jurado: Anons, de Mahmut Fazil Coskun
Realização: Emir Baigazin, The River
Curta-Metragem: Kado, de Aditya Ahmad
Actor: Kais Nashif, Tel Aviv on Fire
Actriz: Natalia Kudryashova, A Man Who Surprised Everyone
Argumento: Pema Tseden, Jinpa
Leão do Futuro: The Day I Lost My Shadow, de Soudade Kaadan
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Leão de Ouro - Carreira: Vanessa Redgrave e David Cronenberg
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sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Mac Miller

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1992 - 2018
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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Burt Reynolds

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1936 - 2018
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Mandy (2018)

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Mandy de Panos Cosmatos (EUA/Bélgica) foi uma das longas-metragens da secção Serviço de Quarto ontem exibidas no decorrer da décima-segunda edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que decorre actualmente no Cinema São Jorge.
1983. Red (Nicolas Cage) e Mandy (Andrea Riseborough) vivem uma pacata existência nas profundezas de uma floresta. Ele é lenhador e ela uma artista gráfica que passa os dias a desenhar e a ler um dos muitos contos de fantasia que lhe dão inspiração. Um dia, durante um passeio pela floresta, Mandy é observada por Jeremiah (Linus Roache), líder de um culto extremista que a deseja ter como uma das suas seguidoras. Depois de planear raptá-la e sodomizá-la, Mandy ridiculariza as pretensões de Jeremiah que a assassina e faz despertar os desejos de uma brutal e sangrenta vingança às mãos de Red.
O realizador e Aaron Stewart-Ahn colaboraram neste argumento repleto de elementos religiosos, místicos e por vezes profanos que, numa América profunda, dão corpo a uma história de vandalismo e vingança onde o néon e uma potente caracterização do espaço e da época fazem relembrar muitas histórias à la The Punisher (1989) no qual se perseguem não os esgotos de uma qualquer cidade mas sim uma floresta onde as almas não adormecidas do passado esperam por reclamar as almas dos desprotegidos inocentes.
Dividido em três distintos momentos, Mandy inicia a sua dinâmica dando corpo àquela que será, provavelmente, a sua principal personagem; a floresta. É através de um extenso vislumbre que ocupa todos os créditos iniciais que o espectador entra, de facto, no seu primeiro segmento que, curiosamente, o situa geograficamente... The Shadow Mountains, local em que ambos vivem e onde se compreende a dinâmica de "Mandy", uma mulher despreocupada e com uma vida relativamente mundana perdida no seu próprio imaginário de fantasia. Com um trabalho de poucas preocupações, "Mandy" passeia pela floresta ao seu redor descobrindo pequenos elementos inspiracionais e que a fascinam, por vezes até de forma mórbida, e que a fazem auto-excluir-se dessa sociedade "lá fora" da qual não parece ter pretensões a pertencer.
Num segundo momento o espectador é transportado para Children of the New Dawn onde se cruza com os elementos deste culto liderado por "Jeremiah" (brilhante interpretação de Linus Roache), centrados no poder supremo de um Deus de vingança e de uma justiça ultra-conservadora - um honesto retrato dessa já referida América profunda centrada em valores que são (para si) impossíveis de questionar -, que usa as suas vítimas (e seguidores) para a satisfação dos seus prazeres carnais não sem antes pedir auxílio da versão gore dos Cavaleiros do Apocalipse aqui intitulados Black Skulls, um grupo de demónios motards com força sobre-humana e capazes de arrasar tudo por onde passam.
Se nestes dois segmentos a presença de Cage é meramente simbólica apenas despertando nos instantes finais deste último, é no desfecho Mandy - segmento homónimo - que o actor ganha todo o seu esplendor, recuperando muita da energia que o espectador lhe conhecera de outras entregas... já bem distantes que o "Red" de Cage se revla primeiro como um homem marcado pela perda, pela revolta, pela compreensão da sua impotência mas, sobretudo, pelo assumido desejo de uma vingança sem limites como um anjo exterminador que terá de pôr fim as intenções finais dos Cavaleiros do Apocalipse. No meio de uma trip de rock psicadélico - se a floresta é uma personagem, a música original de Jóhann Jóhannsson juntamente com a direcção de fotografia de Benjamin Loeb também o são -, com todo um conjunto de referências bíblicas - novamente, a América ultra-conservadora em voga - o cinema que também se poderia intitular de ultra-gore de Panos Cosmatos ganha vida graças a esta inspirada interpretação de Cage que pega naquilo que o seu Ghost Rider (2007) deveria ter sido e o transforma num homem, que poderia ser real e capaz de ter enfrentado uma provação em tudo menos divina, e lhe entrega uma alma perdida e em conflito pelas devidas provações que demónios bem humanos lhe colocaram, envergando toda uma postura de homem disposto a tudo para reclamar justiça para aqueles que (já) não podem e até mesmo para si... demonstrando que a sua então impotência agora será inexistente.
Mas, se esta longa-metragem que se assume sem dificuldade como uma das melhores - até ao momento - desta edição do MOTELx vive muito desta explosão de vigor de Cage no último segmento, não se pode esquecer o empenho que Andrea Riseborough entregou ao primeiro, revelando-se como uma improvável donzela - também marcada - que paira no espaço não deixando nele qualquer tipo de prova da sua existência - afinal a sua vida é quase reclusiva e limitada ao local em que vive e trabalha - mas especialmente a um intenso Linus Roache como o não tão improvável fanático que percorre as ruas desprotegidas dessa América em busca da próxima vítima - ou seguidor - do seu culto que pretende espalhar uma justiça moral (mente corrupta) em nome de Deus (pelo seu olhar cruel e lascivo), e claramente a personagem mais intensa, medonha e provavelmente real - não proliferam estes falsos profetas nas nossas sociedades ainda nos dias de hoje?! -, que domina todo o segmento dedicado ao seu culto e boa parte do último onde o vemos na sua igreja e no seu altar para adoração de algo que compreendemos - já o tínhamos compreendido - não só ser corrupto, imoral, hediondo e francamente perigoso que tudo apregoa menos qualquer tipo de moral... pelo menos moralmente justa.
Com uma atmosfera fantasmagórica que emerge o espectador num espaço que tanto é de fantasia como de terror, de sobrenatural como de espectáculo repleto de néon e brilho onde, no entanto, as sombras ganham uma dimensão muito própria e particular, Mandy é de longe uma das melhores e mais bem sucedidas apostas dos últimos anos do percurso cinematográfico de Nicolas Cage que aqui sim... volta a figurar como um dos mais importantes nomes dessa Hollywood onde, por vezes, os sonhos parecem não querer sair da mente daqueles que os ousam ter.
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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Insanium (2018)

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Insanium de Rui Pedro Sousa (Portugal) é uma das doze curtas-metragens candidatas ao Prémio MOTELx de Melhor Curta-Metragem Portuguesa de Terror da décima-segunda edição do festival.
Ao passearem pela floresta, as inocentes conversas dos irmãos Adam (Sonny Chatters) e Eric (Daniel Stewart) são bruscamente interrompidas quando encontram um corpo e as suas vidas a partir desse momento modificam radicalmente.
Dividido em três distintos segmentos (ou volumes), Insanium dá os primeiros passos através da história escrita por Joey Fidler, Vol 01 - Zombie a qual dá o mote de saída a toda a trama. "Eric" tenta provar os seus conhecimentos e a sua destreza face a "Adam", o irmão mais velho aparentemente pouco crente da sua capacidade enquanto exterminador de zombies. Mas, é no seu breve passeio que o inesperado acontece e que o jovem rapaz se vê confrontado com as suas habilidades. Será ele capaz de responder?
Com a provação final consumada - e a qual só será do conhecimento do espectador após visionar esta belíssima trilogia -, Insanium dá corpo ao seu segundo momento através de Vol 02 - Whispers onde já na casa dos jovens, pequenos murmúrios parecem encher uma casa semi-abandonada onde não conhecemos qualquer poder parental até já bem perto do final e onde os dois jovens parecem fazer aquilo que o seu isolamento lhes permite na ausência de pais por perto. É, no entanto, quando a mãe chega, que o espectador fica a conhecer um pouco mais da realidade desta família privada de um pai, e dos tormentos e receios que parecem ecoar não só nas paredes das casas como principalmente nas suas jovens mentes ainda em formação.
Finalmente, é no seu último segmento intitulado Vol 03 - Awoken (estes dois últimos com argumento da autoria do próprio realizador), que o espectador fica finalmente a conhecer a realidade por detrás dos receios e temores destes dois jovens e daquilo que se esconde por detrás das sombras que invadem lentamente a sua casa.
Funcionando com um crescendo em potência de segmento para segmento, estas três curtas-metragens conseguiriam, em boa medida, funcionar como filmes curtos independentes e isolados mostrando cada um deles os seus aspectos mais positivos e contribuindo para o imaginário mais ou menos perturbado de cada um de nós. Numa arte como a cinematográfica que, tal como a literatura, permite deixar voara imaginação para caminhos desconhecidos onde os respectivos universos são construídos lentamente através daquilo que os contos nos fornecem e como a nossa mente os recebe, Insanium - como um todo - transforma-se no culminar de uma história que funciona não só pelo que é revelado como principalmente graças a todos os pequenos detalhes que são ocultados do espectador mas que, já no final, são subentendidos pelo menos de forma a compôr as ausências dos respectivos segmentos.
Assim, Vol 01 - Zombie é o momento em que se conhecem os medos e a dinâmica cúmplice, mas não assumida, de dois irmãos capazes de tudo para a sua própria protecção. Vol 02 - Whispers assume-se como o momento em que o espectador compreende finalmente que algo de errado se esconde na sua residência e finalmente Vol 03 - Awoken como o segmento em que a "besta" por detrás das sombras e dos murmúrios se revela finalmente. Se Vol 01 - Zombie é técnica e apenas inicialmente o momento mais pueril na medida em que tudo parece uma inocente e por vezes incoerente conversa entre duas crianças revelando o seu clímax no exacto momento final, são os Vol 02 e 03 aqueles que realmente constroem toda uma dinâmica de suspense e terror capaz de figurar entre os melhores exemplares do género. Uma casa assombrada... uma família desfeita... dois jovens atormentados não só pelo passado como por um presente violento... uma mãe semi-ausente... um monstro "debaixo da cama" e tudo isto... com os tradicionais pesadelos que as crianças sentem, fruto de uma qualquer sombra mais duvidosa que a noite aparenta querer esconder. Mas, no final, e se tudo fosse mais do que aquilo que aparenta ser? E se tudo tivesse um fundamento mais violento do que aquele que é revelado ao longo dos três segmentos? E se, no final, se descobrisse que o monstro pode viver dentro de cada um de nós pura e simplesmente porque... "é possível". É possível quebrar barreiras, limites, consciências e, finalmente, libertar de todas as amarras que supostamente nos ligam a uma sociedade de valores. Valores esses que se desprezam e que se menosprezam dando corpo a toda uma onda de violência que, no fundo, caracterizam cada um de "nós". Afinal, poderão as sombras realmente esconder algo de tenebroso ou, por sua vez, essas trevas vivem dentro de cada um de nós disfarçando-se com as máscaras que a sociedade nos impõe desde o momento em que nascemos?!
Mas, se é verdade que estes três volumes podem funcionar como pequenos filmes independentes contando, cada um deles, um momento específico na vida destes jovens e que apesar de interligados não têm uma linha temporal exacta, é também real que é nesta harmoniosa junção das três que funciona um filme curto capaz de criar toda uma muito própria atmosfera de suspense e terror que deixa o espectador naquele limbo, suspenso de encontrar soluções ou explicações imediatas para o que observa mas, ao mesmo tempo, construindo a sua empatia com as personagens que parecem rendidas a um qualquer mal que os espreita à noite. É este ambiente que funciona, que se instala e que é construído desde os primeiros instantes mesmo com as inesperadas surpresas que entregam informação sem que, no entanto, revelem o seu final e que primeiro transformam as suas personagens em vítimas, depois uma casa num labirinto assombrado e onde algo - que o espectador desconhece - parece ganhar forma para um final inesperado mas bem construído.
Da direcção de fotografia de Vittorio Sala que tira partido da luz exterior nos primeiros dois segmentos e que entrega o espectador à escuridão no último, passando pela direcção de arte da Carina Gaspar que transforma uma acolhedora casa britânica num espaço confinado que parece encolher à medida que os minutos passam, sem esquecer a mais uma vez brilhante direcção musical de Alexander Arntzen, Insanium comprova o rigor técnico e narrativo do realizador de Limbo (2016) que já então havia criado uma história de género fantástico aqui repetido esquecendo agora os pequenos detalhes que podem conduzir uma história, apresentando os momentos necessários para que o espectador se mantenha interessado na conclusão da dinâmica entre os dois irmãos, deles com a sua família e de todos numa casa notoriamente marcada por um passado (presente) e talvez futuro violento que transformará para sempre as suas vidas. É, no entanto, já bem perto do final que esta tensão é menorizada quando os dois jovens se riem descontroladamente do seu presente quando... um breve e irónico sorriso teria feito tremer mais todos aqueles que assistem a esta história e lançando na incerteza as convicções que, até então, o público tinha firmado.
Não sendo uma história absolutamente inovadora - pois o espectador consegue (no final e apenas no final) relacioná-la com outros filmes nos quais este género facilmente se insere -, Insanium é um filme curto inteligente do ponto de vista da sua narrativa e da sua composição técnica capaz de sobreviver enquanto filme uno ou como três pequenos filmes independentes - à la trilogia - que deixam o espectador com expectativa sobre o capítulo seguinte, mas também convincente do ponto de vista das suas interpretações apenas "fragilizadas" por aquele breve momento final e por toda uma atmosfera ligeira que, no entanto, se afirma pela qualidade com que constrói todo um espaço de terror numa casa onde, afinal, o espectador pouco vê sobre o terror que se "esconde".
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8 / 10
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Fake Blood (2017)

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Fake Blood de Rob Grant (Canadá) é um documentário presente na secção Serviço de Quarto da décima-segunda edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que ontem começou no Cinema São Jorge.
O realizador Rob Grant e o seu amigo de adolescência Mike Kovac fizeram sucesso no circuito de festivais com os seus filmes violentos. Um dia, Rob recebe um vídeo de fãs que explica como praticariam os seus actos de ficção na vida real. Concentrados em analisar os efeitos da violência no cinema nos espectadores, Rob e Mike acabam por cair numa rede de violência experimentando, na primeira mão, a vivência de verdadeiros criminosos e os efeitos reais nas suas vítimas.
Grant, Kovac e Michael Peterson assinam o argumento deste documentário sobre os efeitos da violência no cinema conseguindo, de forma hábil, inteligente e por vezes emocionalmente cómica embrenhar o espectador na sua história enquanto vítimas daquilo que investigavam. Tudo começa com a simples questão... "estaremos a influenciar pela negativa aqueles que assistem aos nossos filmes?"... Pergunta essa que lentamente acabaria por ser respondida das mais diversas formas sem nunca esquecer, no entanto, que a verdadeira temática desta obra não está naquilo que eles buscam mas sim nos efeitos que essa procura exerceu não só nas suas vidas como principalmente nas suas relações e efeitos de encarar o mundo sob uma perspectiva diferente.
Em Fake Blood, o primeiro momento destina-se a uma exploração sobre o cinema... do grunge ao mais violento, do sangue à consequente morte, levanta-se a questão sobre o que será pior... ter um filme no qual alguém é ferido mortalmente sem nunca exibir sinais de sangue ou, por sua vez, um no qual o espectador compreende que o resultado directo de um acto de violência é o sofrimento de uma vítima? Num mercado cinematográfico rendido às classificações etárias e cauteloso com a violência que exibe, Fake Blood - enquanto documentário - insere uma interessante perspectiva que elucida o espectador mais desatento que está, propositadamente, a assistir a algo que independentemente de ser violento... nunca observa um efeito ou consequência directa da mesma. Há sempre quem sobreviva a tiros, lutas intermináveis das quais ninguém sai, na realidade ileso, ou mesmo mortes que, afinal, não o são.
No entanto, é à medida que Fake Blood leva o espectador a embrenhar-se na dinâmica da violência no cinema que os seus mentores se deixam levar pela própria dinâmica querendo saber mais do que esses ditos efeitos mas sim algo sobre aqueles que voluntariamente são autores de actos de violência de forma a credibilizar o seu trabalho. Da investigação de um crime com o qual deparam durante a sua investigação à dinâmica do medo que daí advém, Rob e Mike transformam-se inesperadamente em vítimas - ou reféns - da sua própria curiosidade. Quando procuram respostas sobre as suas curiosidades como forma de amenizar os supostos efeitos do seu cinema, inesperadamente ambos transformam-se nas mais recentes vítimas de uma violência até então desconhecida que, em boa medida, condena a própria relação até então estabelecida entre ambos.
Com algum humor à mistura, afinal a dinâmica entre os dois amigos é explorada em boa parte da primeira metade deste documentário, é a segunda metade que reflecte sobre a sua deterioração e sobre um inesperado afastamento entre os dois mentores deste projecto. O medo que se instala como consequência de uma qualquer mórbida realidade da qual são desconhecedores mas que voluntariamente procuram, transforma-se na sua alma. Uma alma de e com medo... Medo de um desconhecido que paira sobre os seus actos, medo pela consciencialização de que as suas vidas não voltarão a ser iguais depois dos acontecimentos aqui retratados e, finalmente, medo de uma relação de amizade que termina repentinamente... Diz-se que quem vai a uma guerra e regressa já não é a mesma pessoa... Aqui este ditado aplica-se revelando um Mike Kovac distante de um amigo de longa data e um Rob Grant isolado de um mundo no qual parece estar privado de uma qualquer existência significativa... a não ser dar a conhecer a sua obra...
Não deixando de ter os seus momentos francamente irreais como, por exemplo, o momento em que o realizador entrega a um suspeito e potencial "assassino" o seu cartão de profissional da área ou, numa entrevista telefónica, em que revela conhecer todos os dados do seu passado, Fake Blood é, ainda assim um intrigante documentário pela veracidade que esta história pode - de facto - entregar ao espectador uma perspectiva sobre os limites (inexistentes) do controlo da violência, sobre os efeitos do cinema nos seus espectadores e mesmo das condições de pobreza que delimitam o olhar com que cada um de nós "enfrenta" o meio que nos rodeia, Fake Blood deixa em diversos momentos, no entanto, aquela ligeira sensação de que esta pode(ria) facilmente enquadrar-se no género mockumentary na medida em que tudo parece, em diversos momentos, irreal demais para ser verdade. Mas talvez seja aí que reside a sua essência transformando uma história perturbadora e potencial real num conto de terror moderno recheado de criminosos reais, de perseguições e stalkers que podem co-habitar ao lado de qualquer um de nós - afinal, quem vai imaginar que o vizinho do lado pode ser um criminoso violento?! -, todos enquadrando numa comunidade aparentemente inocente e feliz que esconde, no entanto, todo um conjunto de violentos podres.
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8 / 10
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Beatriz Segall

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1926 - 2018
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terça-feira, 4 de setembro de 2018

The Nun (2018)

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The Nun - A Freira Maldita de Corin Hardy (EUA) é a prequela mais que anunciada do franchising The Conjuring (2013) iniciado por James Wan e prolongado  no ano seguinte com Annabelle, de John R. Leonetti levando o espectador às origens de "tudo", quando o Padre Burke (Demián Bichir) e a noviça Irene (Taissa Farmiga) são enviadas pelo Vaticano para a Roménia onde, na companhia de Frenchie (Jonas Bloquet), investigam o estranho suicídio de uma freira.
No Mosteiro, todos encontram não só as mais temidas ameaças de um mundo paralelo que tentam emergir e dominar o mundo que pretendem transformar num paraíso para as trevas como principalmente os seus medos de um passado traumático e ainda não encerrado.
Gary Dauberman escreve o argumento de The Nun a partir de uma história também da autoria de James Wan em que os universos de The Conjuring e de Annabelle encontram aqui as suas origens. Assim, The Nun é a eterna vontade de encontra o princípio de todo o mal - neste caso - encontrando uma forma não só de explicar os acontecimentos já futuramente ocorridos - não esquecer que esta história é cronologicamente anterior àquela das outras obras já mencionadas - como também de prolongar uma história ao ponto do espectador se distanciar da ideia de que o mesmo se baseia em acontecimentos verídicos para aqui encontrar uma mescla sobrenatural que, por vezes, mais roça o mundo da fantasia ou dos medos mais básicos do que propriamente a dinâmica de uma história onde o espectador pense que... isto aconteceu.
Aquilo que fora iniciado com The Conjuring inseria-se muito facilmente naquele imaginário já preenchido com Amityville (1979) ou The Entity (1982) dando corpo a factos documentados sobre a presença de entidades paranormais que ocupam e se instalam num espaço que já não lhes pertence atormentado todos aqueles que estão num mundo terreno. The Nun como seu suposto e imediato predecessor, pretende ocupar aquele lugar de "aqui temos o início de tudo", a razão explicativa de todos os fenómenos paranormais que sucessivamente iam pondo um fim à tranquilidade de meros mortais que não sabem o que acontece à sua volta mas que, no entanto, são por esses acontecimentos atormentados condenando a sua vida a um inesperado mas forçado isolamento... afinal, quem irá acreditar que a sua casa está "possuída"? Mas, o que encontramos realmente aqui?
Independentemente de podermos estar perante uma longa-metragem que retrata essas origens, em que medida é que elas realmente se interligam com as demais histórias que não para lá de uma qualquer menção final que cruza personagens das diversas histórias? Existirá alguma ligação entre as mesmas ou uma mera casualidade que não as transforma nessa "origem" mas talvez sim num "cruzamento" macabro de universos? Poderá o espectador encontrar relação entre esta história e a de Annabelle? Conseguirá, para lá do óbvio, estabelecer uma qualquer ligação com The Conjuring? Talvez com The Conjuring 2 (2016) e, ainda assim, não sabemos em que medida está alterada a dinâmica da primeira obra ou mesmo a necessidade de encontrar forçosamente uma forma de tudo juntar e alargar o já referido franchising para fazer com que o espectador se deixe levar uma vez mais para estes meandros.
Assim, para lá dos sustos ocasionais mais ou menos bem conseguidos e que para os mesmos muito contribui toda a atmosfera recriada de um espaço medieval que, só por si, já reúne todo um imaginário sobrenatural - não se esqueça o espectador que nos encontramos na Roménia - recriada pela direcção de arte de Jennifer Spence, Adrian Curelea, Vraciu Eduard Daniel e Gina Calin, a direcção de fotografia de Maxime Alexandre que utiliza de forma hábil e inteligente a escassa luz e as sombras constantes e claro, não esquecer a música de Abel Korzeniowski que sabe criar toda uma muito própria atmosfera, The Nun é um filme que o espectador já conhece. Conhece os sustos, conhece o inesperado, entende que todos os pequenos detalhes dos quais esta história é construída são devidamente fabricados para proporcionar a espera tensão e é apenas o momento final em que esta história se liga às demais que consegue, de alguma forma, suscitar alguma curiosidade sobre como tudo realmente se conjuga não deixando, no entanto, de ser um legado frágil ainda que minimamente coerente, sobre o passado de uma assombração que insiste em atormentar as vítimas mais sensíveis e que espreita... dos locais onde já é esperado que ele (esse mal) se encontre. No final sobram ao espectador Bichir, Farmiga e Bloquet - não muito bom princípio de carreira norte-americana - muito aquém de todo um potencial dramático que já lhes reconhecemos e aqui em interpretações que tocam, de muito perto, o banal e pouco inspirado servindo apenas de aperitivo a uma qualquer noite de cinema fantástico que, no entanto, poderá ser superado com tantas outras histórias melhor concretizadas.
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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

European Film Awards - People's Choice Award 2018: os nomeados

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Começa hoje a votação para o People's Choice Award entregue anualmente pela Academia Europeia de Cinema. Entre os nomeados encontram-se não só alguns dos títulos mais emblemáticos do cinema europeu do último ano como também longas-metragens premiadas na última edição dos Oscars.
São os nomeados:
  • Aus dem Nichts, de Fatih Akin
  • Borg, de Janus Metz
  • Call Me by Your Name, de Luca Guadagnino
  • Darkest Hour, de Joe Wright
  • The Death of Stalin, de Armando Ianucci
  • Dunkirk, de Christopher Nolan
  • Le Sens de la Fête, de Olivier Nakache e Éric Toledano
  • Valerian and the City of a Thousand Planets, de Luc Besson
  • Victoria & Abdul, de Stephen Frears
A votação, que decorre no site da Academia Europeia de Cinema, decorre a partir de hoje e até ao próximo dia 31 de Outubro. Os vencedores desta e das demais categorias será conhecido na cerimónia a realizar no próximo dia 15 de Dezembro, em Sevilha.
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domingo, 2 de setembro de 2018

Conway Savage

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1960 - 2018
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sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Susan Brown

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1932 - 2018
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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Vanessa Marquez

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1968 - 2018
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terça-feira, 28 de agosto de 2018

Fénix - Premio Iberoamericano de Cine - pré-selecção portuguesa 2018

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Foram hoje anunciados na Cidade do México as longa-metragens e séries da Ibero-América pré-seleccionados para a quinta edição dos Prémios Fénix a decorrer no final do ano na capital mexicana. Entre os pré-seleccionados encontram-se várias longas-metragens representativas de todos os países de língua espanhola e portuguesa entre as quais várias de produção ou co-produção nacional.
São elas:
  • Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza
  • Diamantino, de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt
  • Mariphasa, de Sandro Aguilar
  • Milla, de Valérie Massadian
  • Praça Paris, de Lucía Murat
  • O Termómetro de Galileu, de Teresa Villaverde
  • Zama, de Lucrecia Martel
Os nomeados serão conhecidos no próximo mês de Outubro e os vencedores revelados numa cerimónia a realizar no próximo dia 7 de Novembro, na Cidade do México.
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domingo, 26 de agosto de 2018

Neil Simon

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1927 - 2018
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Shortcutz Viseu - Sessão #108

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A Sessão #108 do Shortcutz Viseu regressa com mais um segmento de Curtas em Competição onde serão apresentados os filmes curtos The Voyager, de João Gonzalez e Snowball, de Tiago Iúri estando ambos presentes na sessão para apresentação dos seus filmes de animação e conversa com o público. 
Ainda na sessão, o segmento Curtas Convidadas apresenta dois filmes curtos do realizador Yuri Alves sendo eles Grind e On the Cusp ambos do género cinema documental de proximidade.
A sessão que voltará a decorrer na Quinta da Cruz - Centro de Arte Contemporânea no próximo dia 31 de Agosto, sexta-feira, a partir das 22 horas.
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