sábado, 24 de setembro de 2016

QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer 2016: os vencedores

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Competição de Longas-Metragens
Longa-Metragem: Antes o Tempo Não Acabava, de Sérgio Andrade e Fábio Baldo

Prémio do Público: Rara, de Pepa San Martín
Actor: Anderson Tikuna, Antes o Tempo Não Acabava
Actriz: Julia Lübbert, Rara
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Competição de Documentários
Documentário: Irrawaddy Mon Amour, de Valeria Testagrossa, Nicola Grignani e Andrea Zambelli
Menção Especial do Júri: Coming Out, de Alden Peters
Prémio do Público: Waiting for B., de Paulo César Toledo e Abigail Spindel
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Competição de Curtas-Metragens
Curta-Metragem: 1992, de Anthony Doncque
Menção Especial do Júri: Como en Arcadia, de Jordi Estrada
Prémio do Público: Pink Boy, de Erick Rockey

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Competição In My Shorts
Prémio Melhor Curta-Metragem de Escola: Children, Madonna and Child, Death and Transfiguration, de Ricardo Vieira Lisboa
Menção Especial do Júri: Climax, de Fulvio Balmer Rebullida e La Tana, de Lorenzo Caproni
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Competição Queer Art
Filme: A Paixão de JL, de Carlos Nader
Menção Especial do Júri: Trilogie de Nos Vies Défaites, de Vincent Dieutre

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Bill Nunn

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1953 - 2016
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Zinemaldia - Festival Internacional de Cine de Donostia/San Sebastian 2016: os vencedores

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Prémios Oficiais
Concha de Oro: Wo Bu Shi Pan Jinlian, de Xiaogang Feng
Prémio Especial do Júri: El Invierno, de Emiliano Torres e Jätten, de Johannes Nyholm
Concha de Plata - Realizador: Hong Sangsoo, Dangsinjasingwa Dangsinui Geot
Concha de Plata - Actor: Eduard Fernández, El Hombre de las Mil Caras
Concha de Plata - Actriz: Fan Bingbing, Wo Bu Shi Pan Junlian
Prémio do Júri - Argumento: Isabel Peña e Rodrigo Sorogoyen, Que Dios nos Perdone
Prémio do Júri - Fotografia: Ramiro Civita, El Invierno
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Outros Prémios Oficiais
Prémio Kutxabanl - Nov@s Realizador@s: Sofia Exarchou, Park
Menção Especial: Morgan Simon, Compte tes Blessures
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Prémio Horizontes: Rara, de Pepa San Martín
Menção Especial: Alba, de Ana Cristina Barragán
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Prémio Zabaltegi-Tabakalera: Eat That Question: Frank Zappa in his own Words, de Thorsten Schüte
Menção Especial: La Disco Resplandece, de Chema García Ibarra
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Prémio do Público Donostia/San Sebastian 2016 - Capital Europeia da Cultura: I, Daniel Blake, de Ken Loach
Prémio Film Europeu: Ma Vie de Courgette, de Claude Barras
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Prémio Irizar Cinema Basco: Pedaló, de Juan Palacios
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Prémio EROSKI da Juventude: Bar Bahar, de Maysaloun Hamoud
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Prémios do V Fórum de Co-Produção Europa-América Latina
Prémio ao Melhor Projecto: 7:35AM, de Javier van de Couter
Menção Especial: Hogar, de Maura Delpero
Prémio EFADs-CACI: Los Días Según Ellos, de Juan Pablo Félix
Prémio ARTE International: Hogar, de Maura Delpero
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Prémios Cine en Construcción 30
Prémio de la Indústria: La Educación del Rey, de Santiago Esteves
Prémio CACI/Ibermedia: La Educación del Rey, de Santiago Esteves
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Prémios XV Encontro Internacional de Estudantes de Cinema
Prémio PANAVISION: Étage X, de Francy Fabritz
Prémio PANAVISION - Menção Nominal: Umpire, de Leonardo van Dijl
Prémio Orona: 24º 51' Latitud Norte, de Carlos Lenin Treviño
Prémio Orona - Menção Especial Nominal: A Quien Corresponda, de Valeria Fernández
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Outros Prémios
Prémio TVE - Otra Mirada: Bar Bahar, de Maysaloun Hamoud
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Prémio Cooperação Espanhola: Oscuro Animal, de Felipe Guerrero
Menção Especial: Viejo Calavera, de Kiro Russo e Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé
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Prémio Tokyo Gohan: Theater of Life, de Peter Svatek
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Prémios Paralelos
Prémio FIPRESCI: Lady Macbeth, de William Oldroyd
Prémio Feroz Zinemaldia: El Hombre de las Mil Caras, de Alberto Rodríguez
Prémio Argumento Basco: Mikel Rueda, Nueva York, Quinta Planta
Prémio Lurra - Greenpeace: L'Odyssée, de Jérôme Salle
Prémio SIGNIS: Nocturama, de Bertrand Bonello
Prémio SIGNIS - Menção Especial: A Monster Calls, de Juan Antonio Bayona
Prémio da Associação de Doadores de Sangue de Gipuzkoa à Solidariedade / Elkartasun Saria: La Fille de Brest, de Emmanuelle Bercot
Prémio Sebastiane: Bar Bahar, de Maysaloun Hamoud
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Prémios Honorários
Prémios Donostia: Ethan Hawke e Sigourney Weaver
Prémio Jaeger-Lecoultre ao Cinema Latino: Gael García Bernal
Prémio Zinemira: Ramón Barea
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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A Seita (2015)

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A Seita de André Antônio é uma longa-metragem brasileira presente na Competição Queer Art da vigésima edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre até amanhã no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Recife, 2040. Uma cidade deserto após um abandono que levou a população a emigrar para as colónias espaciais. Um dos seus antigos moradores decide, um dia, regressar à cidade e à casa onde nascera na qual passa o seu tempo a ler, passear pelas ruas desertas e envolver-se sexualmente com vários homens. Um dia descobre "A Seita" que povoa o submundo da cidade.
Com argumento também da autoria do realizador, A Seita inicia a sua viagem com uma premissa interessante sobre um imaginário de um futuro já não tão distante. Desde o que que levou a população a abandonar o planeta ou o estado em que este ficou com cidades agora fantasmas de uma memória passada sem esquecer aqueles que podem ter permanecido na mesma como que se de uma resistência se tratasse fazem o espectador ansiar por acontecimentos que expliquem os porquês de uma sociedade no futuro que, no entanto, poucos sinais do mesmo exibe. Pelo contrário, em A Seita aquilo que o espectador confirma é o facto desse mesmo futuro ser não só desolador pela aparente extinção de boa parte da vida citadina como pelo próprio ruir das suas estruturas que aqui são meros sinais decadentes de um passado eventualmente próspero.
Eis que chegamos então à nossa personagem principal... Um jovem regressado das colónias espaciais onde vive boa parte de uma população com recursos para ter abandonado a degradação terrestre, e que aqui se presta a uma vida de uma decadência social apenas comparável - na nossa actualidade - a uma anunciada colonização onde colonizador "testa" os nativos para uma vida de ascenção social que, no entanto, não poderão manter. Este jovem, dotado de uma soberba sem paralelo, recupera a sua antiga casa para um ambiente senhorial, com finas e trabalhadas porcelanas, cortinas de veludo, arte e livros... muitos livros que cuidadosamente estão dispersados pelo apartamento e que ele exibe com orgulho como explicativo da sua condição social... quanto mais livros... mais culto é (será?).
É neste mesmo apartamento que ele tece frívolos diálogos com os homens que atrai para a sua casa, na qual se deleita pelos prazeres da carne mas com os quais nunca estabelece qualquer tipo de empatia para lá da frivolidade necessária para se exibir e ali os atrair como que uma aranha que aguarda a sua próxima presa. Numas ruínas - que julgamos fazer parte da cidade do Recife - este jovem passeia-se sem qualquer preocupação a escolher a "vítima" para uma nova noite sem nunca repetir... tal a sua aparente indiferença face a uma necessidade carnal que precisa saciar.
As ruas - escutamos por breves momentos - são inseguras. As pessoas desaparecem e apesar da sua aparente tranquilidade, percebemos que existe um desconforto e sobressalto com as ocasionais sirenes da polícia que se fazem ouvir. Os edifícios estão, também eles, desertos e a vida humana da cidade parece apenas residir em espaços como as ruínas onde ele engata... Por medo, vergonha, receio ou incerteza, todos parecem habitar os meandros mais escuros de uma cidade repleta de luz. Não existe população mais velha. Não existe nenhuma lei aparente. Existem encontros casuais, de circunstância e a sombra de uma seita que governa o lado oculto de uma cidade decadente e em ruínas.
Ao contrário das colónias espaciais, no Recife todos dormem. Todos sonham. Todos vivem tranquilos na sua incerteza. Divertem-se de noite num clube e a vida que em tempos predominava é agora - para eles - o único conforto que os faz distanciar-se de uma população mais velha com o peso de uma qualquer responsabilidade. Incerto, o espectador, vislumbra todo este cenário pouco apelativo com a esperança de poder enfrentar aquilo que se avizinha... sem saber o quê...
Perdido numa vaga de momentos pseudo-intelectuais que teorizam sobre uma sociedade superior embelezada com elementos do passado - a arte, as xícaras, os comportamentos trabalhados e os livros como mostra de uma qualquer intelectualidade - fazem de A Seita uma longa-metragem à qual o espectador se sente indeciso sobre uma de duas possibilidades... a primeira, e mais simplista, é sobre uma qualquer mensagem que se pretendeu transmitir sobre uma sociedade de falsas aparências na qual todos levam uma vida dupla... aquela que durante o dia é minimamente aceite aos olhares exteriores mas que, durante a noite, se catapulta para uma estranha boémia onde - finalmente - todos os sentidos ficam apurados para os prazeres reais. A segunda interpretação - e aparentemente aquela que consegue fazer mais sentido no imediato (e não só) - que leva o espectador a reflectir sobre a presunção do argumentista e realizador face a uma obra que tenta ser intelectual e metafórica mas que, na realidade, não ultrapassa essa pseudo-intelecutalidade mergulhando em lugares comuns - mais banais - sem eira nem beira, sentido ou mensagem encriptada, tornando-se facilmente ridicularizada, propositadamente ofensiva e altamente aborrecida. Não sou de adormecer na exibição de um filme mas... que escutei bocejos... escutei.
A Seita vive de uma premissa desafiadora. De um objectivo comprometido com uma mensagem vinda de um eventual futuro e até de uma tentativa de teorizar sobre uma potencial questão ambiental que fez o Homem abandonar o seu espaço natural... mas perde-se com a frivolidade, com a mediocridade e com o fraco savoir faire que se espera de uma obra ambiciosa na sua mensagem e que poderia ser competente mesmo com os eventuais parcos recursos que estariam disponíveis para a mesma e que não definiriam a sua limitação.
Com personagens pouco empáticas e - também elas - a exalar comportamentos que mesclam o banal, o ridículo e o preconceito (ou pré-conceito), A Seita é - à data - o filme mais dispensável e com menor qualidade que o QueerLisboa exibiu em qualquer uma das suas secções... o mesmo filme do qual o público saiu com sorrisos esboçados sobre a sua mediocridade... ou atónito pelo non sense que muitas das suas personagens recriaram... com aparente prazer.
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1 / 10
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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Gian Luigi Rondi

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1921 - 2016
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Grandma (2015)

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Grandma de Paul Weitz é uma longa-metragem norte-americana que passou na secção Panorama desta vigésima edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre no Cinema são Jorge, até ao próximo dia 24 de Setembro.
Depois de terminar o seu mais recente relacionamento, Elle (Lily Tomlin) recebe a visita de Sage (Julia Garner) a sua neta adolescente, que lhe revela precisar urgentemente de dinheiro.
A inesperada união destas duas mulheres leva-as a revisitar o passado de Elle enquanto, ao mesmo tempo, ambas estabelecem uma forte e cúmplice ligação fazendo-a abraçar um passado, até então, não lembrado.
A mais recente longa-metragem de Paul Weitz - na qual exerceu funções de produtor, realizador e argumentista - é o grande regresso em força de uma sempre espera Lily Tomlin (figura central de todo o filme), no papel de uma mulher de feitio algo complicado que se encontra num momento de viragem na sua vida. Viúva após a morte da sua companheira de toda uma vida, "Elle" (Tomlin) separa-se da sua mais recente relação com uma mulher mais nova que, segundo ela, não iria garantir-lhe mais do que uns breves momentos de prazer. Neste momento de viragem onde não mantém relações afectivas, de amizade ou mesmo familiares com uma filha que se mantém distante, "Elle" recebe uma jovem neta naquele que é - também ele - um momento da sua vida. Com poucas perspectivas de uma velhice mais descansada, "Elle" decide então encarregar-se da neta que acompanha e protege enquanto revisita todo o seu passado como esperança de poder saldar algumas dívidas... monetárias e sentimentais.
Dividido em seis breves capítulos, o argumento de Paul Weitz inicia a sua narrativa com a concretização de um final - 1."endings" - onde "Elle" encerra a mais recente etapa da sua vida que, por medo da entrega, da cumplicidade ou de voltar a perder o que mais estima, a levam a considerar que a (sua) solidão será mais reconfortante do que a imagem de um futuro incerto. A abrir com uma expressão reveladora de toda a dinâmica de Grandma, "Time passes. That's for sure", o espectador delicia-se com o comportamento irascível de uma mulher que se afirma pelo sua faceta dura e rude que oculta todos os sentimentos sentidos e ignorando a dor que acumula como uma penitência.
Com uma viagem pelo passado em busca do dinheiro perdido e esperado - 2."ink", 3."apes" e 4."The ogre" - são o tal caminho que será necessário percorrer pelos velhos amigos e espaços conhecidos que a poderão salvar de uma situação angustiante e necessariamente transformadora. De todos estes segmentos, e eventualmente de todo o filme, é "The Ogre" aquele que contém a maior carga dramática e emotiva, aquando da visita de "Elle" a "Karl" o seu ex-marido do qual fugiu durante uma noite quando compreendeu a sua verdadeira sexualidade. De uma recepção inicialmente amistosa ao remexer de um passado sofrido que o espectador compreende esconder mais do que um simples sorriso de um inesperado encontro, este segmento termina com o rancor de uma vida interrompida - literalmente - e com a mágoa que tornou duas pessoas aparentemente alegres em amargos e relativamente destruídos num íntimo desconhecido dos demais.
Do ressentimento de uma vida passada àquele tido para com uma filha ausente - 5."kids" -, Grandma revela a relação agreste de "Elle" com "Judy" (Marcia Gay Harden). Mãe e filha distantes pelo viver libertino de uma e o excesso de responsabilidade da outra, encontram agora a aproximação que lhes era necessitada graças a um evento da neta que recorre a uma avó que sente distante mas como o seu único recurso face a uma mãe austera. A morte separa... a morte une... é com base nesta premissa que se pode caracterizar a relação das duas mulheres... de mãe e de filha... e destas para com uma neta que, não sendo descurada é, no entanto, sentimentalmente negligenciada vivendo uma vida que é relativamente livre nos actos mas austera nas consequências encontrando, agora, na presença de uma avó que é assumidamente um poço de alguma sabedoria, irascível mas acolhedora, que as três mulheres acabam por encontrar todo o apoio - por confirmar - que necessitavam.
Finalmente o último segmento - 6."dragonflies" - de Grandma é como que uma reflexão da vida - passada e presente - onde "Elle" percebe finalmente que tem o seu lugar no mundo - e no mundo de alguém - estando, no entanto, solitária num percurso que fora, até então, percorrido a duas mãos e que agora terá de abraçar enquanto um caminho sim... mas o seu... livre e descomprometido, solitário mas com a certeza de que alguém a poderá e estará a esperar no seu final.
Eventualmente o filme mais quente e mais emotivo - à data - desta edição do QueerLisboa, Grandma é um triunfo não só para o realizador que aparentava não ter um filme do mesmo calibre desde o ido About a Boy (2003), mas também para Lily Tomlin que aqui encontra uma personagem à altura da sua qualidade interpretativa, entregando à sua "Elle" uma alma maior, uma personalidade única e um sentimento de um desespero controlado como manifestação face a um mundo que se transformou desde os tempos da sua juventude mais libertina - que nunca chegou a perder - e agora a encontra numa nova experiência mas, no entanto, com um olhar mais fechado e conservador que não faz jus à sua enorme vontade de viver nem tão pouco à sua (des)esperança sentida no(s) - e para com - demais.
Emotivo, divertido, sentido, reflexivo e com uma alma intensamente grande como a de Lily Tomlin, Grandma é aquele pequeno - em duração - grande filme que contém tudo aquilo que o espectador necessita para sair de uma sala de cinema com a percepção de que no final de um caminho tudo parece - estranhamente - terminar tal como devia garantindo a confirmação de uma vida bem vivida... independentemente dos seus percalços.
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"Elle Reid: You need to be able to say 'screw you' sometimes."
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8 / 10
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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

2 Minutos (2016)

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2 Minutos de Afonso Pimentel - também o argumentista - é uma curta-metragem portuguesa de ficção com a interpretação de duas grandes actrizes portuguesas: Alexandra Lencastre e Beatriz Batarda.
Duas mulheres... um instante de uma noite. Uma declaração. Uma separação que parece inevitável. Pelo meio a confirmação de um desejo.
Criada pelo actor e realizador português Afonso Pimentel sob a premissa de "La Nuit" lançada pela Academia Francesa de Cinema, 2 Minutos é o registo de um encontro e de uma separação entre duas mulheres anónimas e amantes que, naquele instante de uma qualquer noite, confirmam o mútuo desejo e efectivam um distanciamento face a algo que aparentemente nunca poderá acontecer.
Uma dessas mulheres - Batarda - afasta-se da outra - Lencastre - que a persegue por desejar aquilo que parece estar a perder. A primeira quer algo mais... quer a presença de alguém que nunca está, que nunca dá notícias e que se afasta deixando um sempre presente desconforto. A que persegue - uma sempre fabulosa Alexandra Lencastre - deseja, seduz, insinua-se, toca, sente e confere à personagem interpretada por Beatriz Batarda aquilo que persegue ser desta uma vontade... o sentimento.
A noite - a tal personagem omnipresente nesta história - tudo esconde e tudo revela. Esconde a proveniência destas duas mulheres, esconde o momento que as trouxe ali, as origens de um problema que, por sua vez, se revela no anonimato de um movimentado Príncipe Real criando uma troca de palavras que tem tanto de sedutor e poético como de despedida e de revolta pela não confirmação de um sentimento - ou desejo - que parece expirar a cada momento que passa. As promessas são vãs... diz a certa altura uma Beatriz Batarda desesperada com a percepção de que o seu sentimento não foi retribuído criando na personagem de Alexandra Lencastre a compreensão de que tudo foi fugaz... sentido enquanto o deteve.. mas irreal numa concretização de facto do sentido e cobiçado. O proibido, o segredo, a sombra que a noite conferiu estão agora revelados debaixo de uma luz artificial que tem a durabilidade de umas poucas e breves horas. O desejo, tal como o momento, passa... deixando o nada.
Em pouco menos de três minutos duas das mais intensas actrizes portuguesas entregam ao espectador um breve mas marcante momento sobre o desejo. Um desejo mútuo mas que não sendo confirmado as obriga a um distanciamento inadiável. A noite revela nos seus rostos as marcas de um sentimento sofrido, constante e dilacerante. O talento destas duas actrizes revela, também ele, que as deveríamos ter mais presentes no nosso cinema... E se Batarda confirma a marca a sua presença de forma regular, a personagem criada por Afonso Pimentel confirma uma ideia que paira no pensamento de muito de nós - no meu, pelo menos, assumo-o sem qualquer reserva - ou seja, porque motivo não temos mais presente uma actriz como Alexandra Lencastre que consegue, de forma "fácil" e - na falta de palavra melhor - marcante, entregar corpo, alma e uma intensidade dramática desarmante às personagens a que dá vida?
Com "corpo" suficientemente interessante para poder dar vida a uma longa-metragem, Afonso Pimentel criou duas intensas personagens - através de duas intensas actrizes - que teriam muito para explorar sobre os seus passados, origens e (des)encontros revelando algo que já havia por estes lados afirmado graças ao seu Noiva Precisa-se (2012), que enquanto realizador teria ainda muito por explorar com qualidade filmica e narrativa dando corpo mas ainda mais alma a personagens que sendo comuns... nada têm de vulgares.
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7 / 10
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terça-feira, 20 de setembro de 2016

Curtis Hanson

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1945 - 2016
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Virgindade (2015)

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Virgindade de Chico Lacerda é uma curta-metragem experimental brasileira presente na Competição de Curtas-Metragens desta vigésima edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer a decorrer no Cinema São Jorge até ao próximo dia 24 de Setembro.
Numa sucessão de comentários sobre um passado vivido mas não experimentado, o realizador em voz-off relata e revela momentos da sua infância e adolescência onde se proporcionaram todo um conjunto de momentos onde a experiência sexual poderia ter acontecido mas... por inocência, um certo desconhecimento ou falta de coragem não se concretizaram.
Do fetiche de infância - apenas reconhecido em idade adulta - à curiosidade com todo um universo proibido mas que se encontrava à distância de um pequeno passo, sem esquecer os primeiros contactos com um universo homossexual nos balneários, cinemas e através de revistas da especialidade, ao espectador são ainda fornecidos nus integrais nos mais variados cenários como que uma adulação desse imaginário outrora proibido mas agora vivido como que recuperar o tempo perdido.
Quase como um diário visual, Virgindade é fundamentalmente o registo de toda uma experiência pessoal em forma de testemunho enquanto se vagueia por todo um ambiente citadino e campestre que - deduz o espectador -, fez parte da evolução e crescimento do realizador enquanto indivíduo bem como também funciona enquanto um ensaio exibicionista versus voyeurista que tenta provocar e entusiasmar pela facilidade com que exibe sem preconceitos todo um conjunto de nus.
Funciona enquanto "confessionário" de uma doco-evolução pessoal mas não consegue ser cativante enquanto obra cinematográfica por não criar uma ampla identificação com o espectador que assiste e espera um certo "ponto de situação" com a realidade presente do narrador.
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4 / 10
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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

AWOL (2016)

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AWOL de Deb Shoval é uma longa-metragem norte-americana presente na Competição de Longas-Metragens da vigésima edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que agora decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Joey (Lola Kirke) vive num subúrbio perdido no interior dos Estados Unidos. Sem grandes objectivos ou propósitos para o seu futuro imediato, Joey pretende seguir uma carreira militar que lhe permita uma entrada mais facilitada na Universidade um dia mais tarde, até que conhece Rayna (Breeda Wool), uma mulher e mãe negligenciada por um marido rude e por quem se apaixona.
Num caminho que a divide entre um futuro mais promissor e um amor até então não sentido, Joey oscila sem conseguir perceber por qual optar. Poderá esta jovem tão perdida quanto o meio de onde provém encontrar o seu destino certo?
Tendo por base a curta-metragem homónina de 2010, Deb Shoval e Karolina Waclawiak escrevem o argumento desta longa-metragem que se centra, logo de imediato, em questões que qualquer espectador mais desatento identifica como uma certa realidade norte-americana prolífera em sonhos grandes demais para o momento imediato. Nesta terra de oportunidades e sonhos - muitos não cumpridos - AWOL retrata a realidade de uma jovem, comum a tantas outras, que se encontra perdida no espaço e divide o seu tempo entre trabalhos menores em feiras locais e um intenso desejo de poder ser alguém "melhor" num futuro que parece não querer chegar. Os planos, que facilmente se confundem com esses ditos sonhos não concretizáveis, perdem-se por entre desejos, ideais e um medo omnipresente sobre o que poderá ser melhor... arriscar o desconhecido ou manter-se fiel às suas raízes sabendo de antemão que o seu destino será ser "mais uma", entre tantas, mulheres que se torna "mulher de" e mãe no espaço de poucos anos sem que esse projecto faça parte do seu próprio imediato.
Com uma realidade que se apresenta cada vez mais limitada no que a escolhas e oportunidades diz respeito, "Joey" depara-se com o impensável... um amor platónico que rapidamente se confirma por outra mulher da sua pequena cidade: "Rayna", exuberante e propositadamente vistosa, consegue a sua atenção, e ambas desenvolvem uma relação tanto sentimental como sexual estando, esta última, já a viver o seu próprio - e aceitável para a sociedade - casamento que revela as suas próprias agruras e infidelidades. Com o sonho de uma família feliz, mas longe daquele espaço constrangedor e manipulador, onde todos se conhecem e onde a felicidade é impossível, a dupla de mulheres encontra a concretização da oportunidade nos braços uma da outra estando, no entanto, todo um outro futuro possível em risco. No limite da fronteira entre aquilo que é aceitável e o conforto de uma realidade que, não sendo boa, é garantida, a questão que o espectador (se) coloca é se existe a possibilidade destas duas mulheres serem algo mais do que um simples e ocasional affair que ambas recordarão como "aquela" oportunidade que em tempos se lhes proporcionou...
Com duas interpretações que estão - assumidamente - nos respectivos antípodas, Lola Kirke encarna a alma e o espírito de alguém que sabe merecer - e querer - algo mais do que as limitações sociais, económicas e sexuais que o seu meio lhe "impôs" estando disposta a lutar contra elas - curiosa a escolha de um eventual futuro militar associado a essa "luta" - e um dia obter a sua própria libertação e futuro... mesmo que para tal se necessite descolar de todo um passado que a marca. No outro lado da barricada encontramos Breeda Wool, uma mulher que abandonou os seus sonhos e se entregou a uma vida controladamente infeliz num relacionamento que não só não o sente como se deixa viver por uma estranha conveniência sob a alçada de um marido a quem ela apenas interessa quando chega a casa vindo de longas temporadas na estrada.
Do vazio de sonhos e desejos à esperança de uma vida melhor, estas duas mulheres caminham num limbo afectivo e sentimental onde "Joey" sonha com um amor e "Rayna" se condiciona com um lado (não) confortável de uma vida à qual se habituou. O espectador, que caminha este limbo com as duas, reconhece que o impossível é apenas e só delimitado por elas, pelos seus entraves psicológicos e pela já referida incerteza que as - mais a "Rayna" - condicionou ao hábito de uma vida (certa) mas infeliz.
Com um retrato fiel - penso - de um interior profundo dos Estados Unidos em que apenas a esperada limitação de uma vida corresponde à certeza de um destino sonhado e perdido, AWOL concentra ainda a tal vontade de viver um profundo e cúmplice amor mesmo que voluntariamente incompreendido ou negado por aqueles que a - a "Joey" - rodeiam. Desejo esse que persiste no seu interior e que quer viver... mesmo que tenha de desafiar todas as regras e compromissos de uma vida que será, a partir de então, perdida. Contido, e raramente exuberante, AWOL revela para lá do acto final cometido por "Joey", o seu sempre presente estado sentimental que longe das expectativas dos demais (cor)responde, única e exclusivamente, ao seu desejo de algo por vezes tão proibido... ser feliz
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7 / 10
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Antes o Tempo Não Acabava (2016)

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Antes o Tempo Não Acabava de Sérgio Andrade e Fábio Baldo é uma longa-metragem brasileira presente na Competição de Longas-Metragens da vigésima edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que agora decorre no Cinema São Jorge até ao próximo dia 24 de Setembro.
Anderson (Anderson Tikuna) é um jovem indígena que vive numa pequena comunidade nos arredores de Manaus. No seio de um conflito interno que o colocam em primeiro lugar resistente aos hábitos da sua comunidade e, de seguida, numa luta pela sua auto-afirmação, Anderson decide partir para a grande cidade e conhecer todo um novo conjunto de sentimentos e sensações aos quais estava, até então, privado.
A dupla de realizadores e também argumentistas de Antes o Tempo Não Acabava, apresenta com esta obra, um conjunto de elementos curiosos que passam desde a sexualidade pela dicotomia campo versus cidade sem, no entanto, esquecer o poder da tradição, da passagem do tempo e, acima de tudo o demais, a vontade explícita de uma auto-afirmação que parece não querer chegar.
"Anderson" é um jovem nativo que se vê a braços com o poder dos hábitos e tradições de uma comunidade em que nasceu onde os ritos de passagem são uma etapa determinante para o nascimento, crescimento e desenvolvimento de qualquer jovem. Tendo em mente uma primeira iniciação que o traumatiza pela agressividade da "prova" com que se depara, "Anderson" regista em jovem idade que os costumes que fazem parte da sua História enquanto membro de um clã mais não são do que uma violência da qual se quer distanciar. Ao mesmo tempo que atravessa esta etapa, o jovem começa ainda a descobrir a sua própria sexualidade, aquilo que cobiça e deseja e, no fundo, a sua forma pessoal de expressar os sentimentos que mais não são do que um aparente tabu numa comunidade fechada em si mesma. Com um trabalho "europeízado" mas que, no entanto, lhe possibilita comprar os poucos alimentos que tem, "Anderson" deseja aquilo que na sua perspectiva poderá conferir-lhe uma vida "de branco", longe das superstições e rituais que o marcaram de forma tão negativa... um nome não tribal.
Desesperado por sair da sua comunidade afectada pelo esquecimento e pela escassez - a todos os níveis - "Anderson" embarca numa viagem pela grande cidade, pelo conhecimento de novas músicas, novas pessoas e encontros sexuais fortuitos tanto com homens como com mulheres que possam, eventualmente, conferir-lhe uma percepção mais real daquilo que é, sente e que emana numa - e para uma - sociedade que é mais do que os pequenos rituais de transição que em tempos o marcaram pela força de uma brutalidade que não regista como sua.
O elemento queer de Antes o Tempo Não Acabava acaba por centrar-se nestes mesmos elementos, ou seja, na diferenciação de um estilo e modo de vida do campo que, no fundo, está às portas de uma cidade onde tudo existe e acontece, no fosso abismal que separa uma vida ocidentalizada dos costumes, rituais e tradições de uma comunidade fechada na vontade extrema de auto-preservação e sobrevivência de uma História milenar que aqui parece prestes a diluir-se pela força da tal "modernidade" e claro, como de sentimentos também se fala, na busca incessante de uma identificação de género - inicialmente "Anderson" parece denotar alguns elementos transgénero pela incerteza da sua sexualidade - e depois com uma aparente bissexualidade que o completam num mundo que está, no fundo, também ele em constante transformação e incerteza.
Antes o Tempo Não Acabava acaba, portanto, por demonstrar todo um registo docu-ficcionado das referidas comunidades indígenas que aprendem forçadamente a conviver com as inovações de um mundo ocidental que entra (entrou) pelos seus territórios sem pedir licença, apoderando-se de muitos modos e estilos de vida ou, pelo menos, alterando-os através da incerteza e da "possibilidade" de outra via. Alterando-os sem, no entanto, esquecer os já referidos rituais de passagem - legais ou não face aos olhos da lei dita ocidental - e da importância que estes têm face à preservação de um património quer histórico quer imaterial dos hábitos, costumes e tradições de comunidades que vão lentamente desaparecendo e tornando-se, também elas, parte de um mundo global que não consegue controlar - ou por vezes até registar - tudo aquilo que nele "acontece".
Mas, acima de todo o legado proto-filosófico que o espectador possa encontrar nas entrelinhas, Antes o Tempo Não Acabava transforma-se sobretudo no registo pessoal de um dos membros dessa mesma comunidade que ousou reclamar e aceitar o seu património histórico - o "nós" no "eu" - abraçando, por sua vez, todas as possibilidades de um "outro" mundo à sua porta onde se permitia expressar e manifestar a sua individualidade - sentimental, afectiva, sexual e não só - livre de amarras e julgamentos alheios que, independentemente de lhe poderem facultar diversas outras oportunidades no seu futuro conseguiam, pelo menos, mostrar-lhe que as mesmas existem dando-lhe o poder de uma escolha que anteriormente parecia sentir não as ter.
Com um sempre presente elemento natural, Antes o Tempo Não Acabava transmite ainda toda uma mancha cultural diversificada que caracteriza o Brasil contemporâneo, que o enriquece pela amálgama de cor e de sabor que as suas centenas de tribos, imigrações europeias e asiáticas ali fizeram chegar e que tantas vezes fica esquecido no cinema brasileiro... também ele rico graças a este quase sempre tímido registo - mas presente -, que relata que o país é muito mais do que as paradisíacas praias do Rio de Janeiro, e que deixa o espectador pensar sobre a sua aceitação num Brasil que aparenta, por momentos, querer ser mais "igual" e não único num século XXI cheio de pequenas grandes transformações.
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7 / 10
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European Film Awards - European Discovery: Prix FIPRESCI 2016: os nomeados

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A partir do Festival Internacional de Cinema de Oldenburg, na Alemanha, a Academia Europeia de Cinema divulgou os cinco nomeados deste ano ao European Film Award - European Discovery: Prix FIPRESCI, prémio que se destina a reconhecer um jovem realizador europeu naquela que é a sua primeira longa-metragem.
São nomeados:
  • Caini, de Bogdan Mirica (Roménia/França/Bulgária/Qatar)
  • Hymyilevä Mies, de Juho Kuosmanen (Finlândia/Alemanha/Suécia)
  • Liebmann, de Jules Herrmann (Alemanha)
  • Sufat Chol, de Elite Zexer (Israel/França)
  • Thirst, de Svetla Tsotsorkova (Bulgária)
O vencedor desta e demais categorias será conhecido numa cerimónia a realizar em Wroclaw - Capital Europeia da Cultura -, na Polónia a 10 de Dezembro próximo.
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sábado, 17 de setembro de 2016

Charmian Carr

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1942 - 2016
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Absolutely Fabulous: The Movie (2016)

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Absolutely Fabulous: The Movie de Mandie Fletcher é uma longa-metragem britânica e o filme escolhido para a cerimónia de abertura da vigésima edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa até ao próximo dia 24 de Setembro.
Edina (Jennifer Saunders) e Patsy (Joanna Lumley) estão de volta. Com a mesma vontade de viver a vida ao seu máximo cruzando toda uma vida de glamour e sedução, a dupla de amigas vê-se inesperadamente envolvida num escândalo internacional quando tentavam dar a volta às suas vidas.
Com a percepção de que os "amigos" são - infelizmente - raros e de que estão dependentes unicamente do seu próprio sucesso, Edina e Patsy embarcam numa viagem para um dos locais mais mediáticos do mundo - a Riviera Francesa - onde esperam escapar à polícia e manter o nível de vida a que sempre estiveram habituadas.
Com argumento da própria Jennifer Saunders, Absolutely Fabulous: The Movie recupera muito daquilo que a dupla de bonnes vivantes britânicas nos havia apresentado com a série que as eternizou já ida na década de 90. Droga, muito alcoól e a premissa de que, à mistura, existe (ou existiu) muito sexo, "Edina" e "Patsy" são duas mulher que se preocupam pouco - muito pouco - com as coisas pequenas da vida. Champagne, dinheiro de plástico e a confirmação de que tudo se resolve sem que elas (na prática) percebam como, é a receita ideal para que estas duas mulheres desfrutem dos bons dias que as suas vidas têm para lhes oferecer. No entanto, o que acontece quando essa realidade supostamente paralela é ameaçada com os problemas reais de uma vida... real?! O que acontece quando a crise económica, o tal "viver acima das possibilidades" e a confirmação de que o tempo e os anos realmente passaram pelos seus rostos lhes batem, finalmente, à porta e que agora têm de confirmar os seus dotes ou, pior ainda, a sua ausência, como forma de sobreviver num mundo que está longe de lhes ser contemplativo, brando ou até empático?!
A resposta - como seria de esperar - está longe de ser amarga mesmo que, pelo caminho, sejam tecidas algumas considerações sobre essa realidade à qual esta dupla sempre esteve alheia - e à qual assim se quer manter -... No fundo, o que é a realidade senão um estado pouco sóbrio e, como tal, longe do estado de espírito em que ambas vivem? "Edina" e "Patsy" poderiam ser - e são - o fruto de uma geração de 70, livre, despreocupada e com anseios de uma realidade perfeita onde todos no mundo desfrutassem das ditas "coisas mundanas"... o que é pagar contas... ter um trabalho... responsabilidades ou até mesmo obrigações quando tudo no mundo poderia ser resolvido com uma enorme, gigantesca e permanente festa que, sem constrangimentos ou carga negativa corresponde, no fundo, àquilo que elas próprias já vivem? A realidade, a mesma a que elas se vêem obrigadas a defrontar quando tudo parece começar a correr mal, atinge-as de frente numa sucessiva e instantânea confirmação de eventos e à parte da amizade que as une há décadas, tudo o demais parece concentrado em ameaçar a sua existência perfeita... mas, não é assim que se descobre realmente o que é o poder da amizade e o tal "mundo real"?
Numa sucessão de estrelas bem conhecidas da comédia britânica como a eterna e martirizada Julia Sawalha - "Saffy", a filha de "Edina" - Jane Horrocks, Kathy Burke, Celia Imrie ou Dawn French numa breve participação, à qual se juntam rostos como Chris Colfer, Jon Hamm, Jerry Hall, Emma Bunton, a lenda da canção ligeira britânica Lulu, a (aqui) mais ou menos martirizada Kate Moss e até mesmo Joan Collins, Absolutely Fabulous: The Movie é uma assumida sucessão de momentos hilariantes que, com o mesmo espírito da série à qual dá continuidade - e que suspeito será o primeiro de mais alguns títulos -, seduzem o espectador para o tal lado "brilhante" e despreocupado da vida, comprova que um dos laços mais fortes da mesma são as amizades que se criam e formam ao longo de anos e que tudo, por mais perdido que possa parecer, terá a seu tempo uma "fácil" - ainda que desastrada - resolução.
Com um conjunto de barreiras quebradas, um humor sempre acutilante e deveras corrosivo, muita verve nas palavras e nas acções, Absolutely Fabulous: The Movie é uma comédia inspirada, divertida, sem limites na vontade de auto-parodiar sem, no entanto, entrar na estrada da auto-destruição e com um espírito maior que a vida... ou pelo menos tão mordaz quanto se espera que ela seja e uma francamente boa aposta para iniciar este que é o festival de cinema mais antigo da capital.
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7 / 10
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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

W.P. Kinsella

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1935 - 2016
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Edward Albee

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1928 - 2016
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Academia Brasileira de Cinema 2016: os nomeados

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A Academia Brasileira de Cinema divulgou os seus nomeados e entre eles encontramos a presença portuguesa em diversas categorias através de três co-produções entre os dois países, sendo eles A Estrada 47, de Vicente Ferraz que obteve seis nomeações ao Grande Otelo - prémio da Academia -, O Olmo e a Gaivota, de Lea Glob e Petra Costa que foi nomeada apenas numa categoria e ainda a curta-metragem Outubro Acabou, de Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes nomeada na respectiva categoria.
Estão assim nomeados:
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Melhor Longa-Metragem de Ficção
A História da Eternidade, de Camilo Cavalcante. Produção: Camilo Cavalcante por Aurora Cinema e Marcello Ludwig por Republica Pureza FilmesAusência, de Chico Teixeira. Produção: Denise Gomes, Lili Bandeira e Paula Consenza por BossaNovaFilms
Califórnia, de Marina Person. Produção: Carmem Maia, Giulia Setembrino, Gustavo Rosa de Moura e Marina Person por Mira Filmes
Casa Grande, de Fellipe Gamarano Barbosa. Produção: Iafa Britz por Migdal Filmes e Mauro Pizzo por Guiza Produções
Chatô - O Rei do Brasil, de Guilherme Fontes. Produção: Guilherme Fontes por Guilherme Fontes Filmes
Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert. Produção: Caio Gullane, Fabiano Gullane, Debora Ivanov por Gullane e Anna Muylaert por África Filmes
Sangue Azul, de Lírio Ferreira. Produção: Beto Brant, Lírio Ferreira e Renato Ciasca por Drama Filmes
Tudo que Aprendemos Juntos, de Sérgio Machado. Produção: Caio Gullane, Fabiano Gullane, Debora Ivanov e Gabriel Lacerda por Gullane
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Melhor Documentário Longa-Metragem
Betinho, A Esperança Equilibrista, de Victor Lopes. Produção: Angela Zoé por Documenta Filmes
Campo de Jogo, de Eryk Rocha. Produção: Eryk Rocha por Aruac Filmes, Mônica Botelho por Mutuca Filmes e Samantha Capdevile por Filmegraph
Cássia Eller, de Paulo Henrique Fontenelle. Produção: Iafa Britz e Carolina Castro por Migdal Filmes
Chico - Artista Brasileiro, de Miguel Faria Jr. Produção: Migue | Faria Jr. e Jorge Peregrino por 1001 filmes ltda
Últimas Conversas, de Eduardo Coutinho. Produção: João Moreira Salles por Vídeo Filmes
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Melhor Longa-Metragem de Comédia
Infância, de Domingos Oliveira. Produção: Domingos Oliveira por Teatro Ilustre e Renata Paschoal por Forte Filmes
Pequeno Dicionário Amoroso 2, de Sandra Werneck. Produção: Sandra Werneck por Cineluz Produções
S.O.S. Mulheres ao Mar 2, de Cris D’Amato. Produção: Julio Uchôa por Ananã Produções
Sorria, Você Está Sendo Filmado, de Daniel Filho. Produção: Daniel Filho por Lereby Produções
Super Pai, de Pedro Amorim. Produção: David Gerson, Guilherme Keller, João Queiroz e Justine Otondo por Querosene Filmes
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Melhor Longa-Metragem de Animação
Até que a Sbórnia nos Separe, de Otto Guerra. Produção: Marta Machado e Otto Guerra por Otto Desenhos Animados
Ritos de Passagem, de Chico Liberato. Produção: CandidaLuz Liberato por Liberato Produções Culturais Ltda ME
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Melhor Longa-Metragem Estrangeira
Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance), de Alejandro González Iñarritu (EUA)
Leviafan, de Andrey Zvyagintsev (Rússia)
O Olmo e a Gaivota, de Petra Costa e Lea Glob (Portugal/Dinamarca/Brasil)
The Salt of the Earth, de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado (França/Itália)
Whiplash, de Damien Chazelle (EUA)
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Melhor Curta-Metragem de Ficção
História de uma Pena, de Leonardo Mouramateus
Loïe e Lucy, de Isabella Raposo e Thiago Brito
Outubro Acabou, de Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes
Quintal, de Andrés Novais
Rapsódia de um Homem Negro, de Gabriel Martins
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Melhor Curta-Metragem Documentário
A Festa e os Cães, de Leonardo Mouramateus
Cordilheira de Amora II, de Jamille Fortunato
De Profundis, de Isabela Cribari
Entremundo, de Renata Jardim e Thiago B. Mendonça
Retrato de Carmen D., de Isabel Joffily
Uma Família Ilustre, de Beth Formaggini
Praça da Guerra, de Edimilson Gomes
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Melhor Curta-Metragem de Animação
Até a China, de Marão
Égun, de Helder Quiroga
Giz, de Cesar Cabral
O Quebra-Cabeça de Tárik, de Maria Leite
Virando Gente, de Analúcia Godoi
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Melhor Realização
Anna Muylaert, Que Horas Ela Volta?
Camilo Cavalcante, A História da Eternidade
Chico Teixeira, Ausência
Daniel Filho, Sorria, Você Está Sendo Filmado
Eduardo Coutinho, Últimas Conversas
Eryk Rocha, Campo de Jogo
Fellipe Gamarano Barbosa, Casa Grande
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Melhor Actor
Daniel de Oliveira, A Estrada 47
Irandhir Santos, Ausência
João Miguel, A Hora e a Vez de Augusto Matraga
Lázaro Ramos, Tudo que Aprendemos Juntos
Marco Ricca, Chatô - O Rei do Brasil
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Melhor Actriz
Alice Braga, Muitos Homens num Só
Andréa Beltrão, Chatô - O Rei do Brasil
Dira Paes, Órfãos do Eldorado
Fernanda Montenegro, Infância
Marcélia Cartaxo, A História da Eternidade
Regina Casé, Que Horas Ela Volta?
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Melhor Actor Secundário
Ângelo Antônio, A Floresta que se Move
Chico Anysio, A Hora e a Vez de Augusto Matraga
Claudio Jaborandy, A História da Eternidade
Lourenço Mutarelli, Que Horas Ela Volta?
Marcello Novaes, Casa Grande
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Melhor Actriz Secundária
Camila Márdila, Que Horas Ela Volta?
Fabiula Nascimento, Operações Especiais
Georgiana Goes, Casa Grande
Karine Teles, Que Horas Ela Volta?
Leandra Leal, Chatô - O Rei do Brasil
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Melhor Argumento Original
Adirley Queirós, Branco Sai, Preto Fica
Anna Muylaert, Que Horas Ela Volta?
Camilo Cavalcante, A História da Eternidade
Fellipe Gamarano Barbosa e Karen Sztajnberg, Casa Grande
Vicente Ferraz, A Estrada 47
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Melhor Argumento Adaptado
Domingos Oliveira, Infância
Guilherme Coelho, Órfãos do Eldorado
Guilherme Fontes, João Emanuel Carneiro e Matthew Robbins, Chatô - O Rei do Brasil
Lusa Silvestre e Marcelo Rubens Paiva, Depois de Tudo
Manuela Dias e Vinícius Coimbra, A Hora e a Vez de Augusto Matraga
Marcos Jorge, O Duelo
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Melhor Montagem - Ficção
Alexandre Boechat, A Hora e a Vez de Augusto Matraga
Felipe Lacerda e Umberto Martins, Chatô - O Rei do Brasil
Karen Harley, Órfãos do Eldorado
Karen Harley, Que Horas Ela Volta?
Mair Tavares, A Estrada 47
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Melhor Montagem - Documentário
Carlos Nader e André Braz, Homem Comum
Diana Vasconcellos, Chico - Artista Brasileiro
Paulo Henrique Fontenelle, Cássia Eller
Pedro Asbeg, EDT e Victor Lopes, Betinho, A Esperança Equilibrista
Rodrigo Pastore, Cauby - Começaria Tudo Outra Vez
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Melhor Fotografia
Adrian Teijido, Órfãos do Eldorado
Bárbara Alvarez, Que Horas Ela Volta?
José Roberto Eliezer, Chatô - O Rei do Brasil
Lula Carvalho, A Hora e a Vez de Augusto Matraga
Mauro Pinheiro Jr., Sangue Azul
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Melhor Música Original
Alexandre Guerra e Felipe de Souza, Tudo que Aprendemos JuntosAlexandre Kassin, Ausência
Fábio Trummer e Vitor Araújo, Que Horas Ela Volta?
Patrick Laplan e Victor Camelo, Casa Grande
Zbgniew Preisner, A História da Eternidade
Zeca Baleiro, Oração do Amor Selvagem
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Melhor Banda-Sonora
Los Hermanos, Los Hermanos - Esse é só o Começo do Fim das Nossas Vidas
Luis Claudio Ramos (a partir da obra de Chico Buarque), Chico - Artista Brasileiro
Luiz Avellar, A Estrada 47
Nelson Hoineff (a partir da obra de Cauby Peixoto), Cauby - Começaria Tudo Outra Vez
Paulo Henrique Fontenelle (a partir da obra de Cássia Eller), Cássia Eller
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Melhor Direcção Artística
Ana Mara Abreu, Califórnia
Ana Paula Cardoso, Casa Grande
Gualter Pupo, Chatô - O Rei do Brasil
Julia Tiemann, A História da Eternidade
Juliana Carapeba, Sangue Azul
Marcos Pedroso e Thales Junqueira, Que Horas Ela Volta?
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Melhor Guarda-Roupa
André Simonetti e Claudia Kopke, Que Horas Ela Volta?
Beth Filipecki e Renaldo Machado, A Hora e a Vez de Augusto Matraga
Elisabeta Antico, A Estrada 47
Gabriela Campos, Casa Grande
Letícia Barbieri, Califórnia
Rita Murtinho, Chatô - O Rei do Brasil
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Melhor Caracterização
Anna Van Steen, Califórnia
Auri Mota, Casa Grande
Federico Carrette e Vicenzo Mastrantonio, A Estrada 47
Maria Lucia Mattos e Martín Macias Trujillo, Chatô - O Rei do Brasil
Tayce Vale e Vavá Torres, A Hora e a Vez de Augusto Matraga
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Melhores Efeitos Visuais
Guilherme Ramalho, Que Horas Ela Volta?
Marcelo Siqueira, Entrando numa Roubada
Marcelo Siqueira, Linda de Morrer
Marcus Cidreira, Chatô - O Rei do Brasil
Robson Sartori, A Estrada 47
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Melhor Som
Acácio Campos, Bruno Armelim, Gabriela Cunha, Júlio César, Eric Ribeiro Christani e Caetano Cotrim, Cássia Eller
Bruno Fernandes e Rodrigo Noronha, Chico - Artista Brasileiro
Evandro Lima, Waldir Xavier e Damião Lopes, Casa Grande
Gabriela Cunha, Miriam Biderman, Ricardo Reis e Paulo Gama, Que Horas Ela Volta?
José Moreau Louzeiro e Aurélio Dias, A Hora e a Vez de Augusto Matraga
Mark van der Willigen, Marcelo Cyro, Pedro Lima e Sérgio Fouad, Chatô - O Rei do Brasil
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Todos os vencedores serão conhecidos numa cerimónia a realizar no próximo dia 4 de Outubro no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
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As Mil e Uma Noites pré-seleccionado aos David di Donatello

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A Academia Italiana de Cinema anunciou esta semana os filmes pré-seleccionados aos prémios David di Donatello. Na área referente aos Filmes Europeus, a Academia Italiana de Cinema incluiu a trilogia As Mil e Uma Noites do realizador Miguel Gomes - que teve a sua estreia comercial em Itália durante o ano corrente - estando assim em consideração para um lugar entre os cinco nomeados ao já referido prémio.
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As Mil e Uma Noites - Volume 1, O Inquieto, Volume 2, O Desolado e Volume 3, O Encantado tiveram a sua estreia mundial durante a edição de 2015 do Festival Internacional de Cinema de Cannes, tendo sido aí premiado com o Dog Palm e feito uma carreira internacional pelos mais diversos festivais de cinema tendo ainda O Inquieto obtido uma nomeação aos Sophia da Academia Portuguesa de Cinema e O Desolado três nomeações ao mesmo prémio.
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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Domingos Montagner

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1962 - 2016
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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Jean-Claude Carrière homenageado pela Academia Europeia de Cinema

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A Academia Europeia de Cinema divulgou ontem o nome daquele que será homenageado com o seu troféu Carreira - Lefetime Achievement Award - na cerimónia de 2016.
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O argumentista francês Jean-Claude Carrière nascido em 1931 em Colombières-sur-Orb, será homenageado pelo seu "contributo único e dedicado ao mundo do cinema" que se destaca pela "excelência".
O romancista francês iniciou a sua carreira a escrever pequenas histórias que em 1963 o levaram a conquistar um Oscar de Melhor Curta-Metragem de Ficção juntamente com Pierre Étaix por Heureux Anniversaire, e a uma colaboração de quase vinte anos com Luís Buñuel iniciada em Le Journal d'Une Femme de Chambre (1964) e que inclui títulos como Belle de Jour (1967), La Voie Lactée (1969), Le Charme Discret de la Bourgeoisie (1972), Le Fantôme de la Liberté (1974) e Cet Obscur Objet du Désir (1977).
Já durante a década de 80, Jean-Claude Carrière escreveu o argumento de The Unbearable Lightness of Being (1988) em parceria com o também realizador Philip Kaufman a partir do romance de Milan Kundera e Valmont (1989), de Milos Forman tendo entrado na década de 90 com aquele que será um dos títulos maiores da mais recente cinematografia francesa, ou seja, Cyrano de Bergerac (1990), de Jean-Paul Rappeneau seguido por At Play in the Fields of the Lord (1991), de Hector Babenco e Le Hussard sur le Toit (1995), de Jean-Paul Rappeneau.
Mais recentemente os grandes êxitos de Carrière devem-se aos argumentos de Birth (2004), de Jonathan Glazer, Goya's Ghosts (2006), de Milos Forman, El Artista y la Modelo (2012), de Fernando Trueba, L'Ombre des Femmes (2015), de Philippe Garrel para quem escreveu o argumento do seu último filme L'Amant d'un Jour que irá estrear em 2017.
No palmarés de Jean-Claude Carrière incluem-se um Oscar Honorário recebido em 2015 e ainda três nomeações ao Oscar de Melhor Argumento Adaptado, dois BAFTA's pelos argumentos de Le Charme Discret de la Bourgeoisie e The Unbearable Lightness of Being, o Grande Prémio do Júri do Festival Internacional de Cinema de Cannes pela curta-metragem La Pince à Ongles (1969), o César da Academia Francesa de Cinema pelo argumento de Le Retour de Martin Guerre em 1983 - filme que deu origem ao remake norte-americano Sommersby, de Jon Amiel - tendo ainda sido nomeado ao Goya da Academia Espanhola de Cinema pelo argumento de El Artista y la Modelo, de Fernando Trueba.
Jean-Claude Carrière irá receber o seu troféu na vigésima-nona cerimónia dos European Film Awards que se irá realizar em Wroclaw, na Polónia - Capital Europeia da Cultura - a 10 de Dezembro próximo.
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terça-feira, 13 de setembro de 2016

Cartas da Guerra representa Portugal

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A Academia Portuguesa de Cinema divulgou hoje que os seus membros seleccionaram Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira como o filme português que irá representar Portugal nos Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, e nos Goya enquanto Melhor Filme Ibero-Americano em 2017.
Baseado no livro D'Este Viver Aqui Neste Papel Descripto: Cartas da Guerra, de António Lobo Antunes, o filme de Ivo M. Ferreira, que estreou no passado dia 1 de Setembro, conta com as interpretações de Miguel Nunes, Margarida Vila-Nova, Ricardo Pereira, Tiago Aldeia, Isac Graça, João Pedro Vaz, David Caracol, Welket Bungué, Tiago Manaia, Cândido Ferreira e Maria João Abreu e relata os pensamentos do escritor através das cartas que enviou à sua mulher Maria José, aquando do seu tempo passado em Angola como alferes durante a guerra colonial.
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A 31ª cerimónia dos Goya da Academia Espanhola de Cinema está prevista para o dia 4 de Fevereiro de 2017, em Madrid, enquanto que a 89ª edição dos Oscar está programada para o dia 26 de Fevereiro seguinte, em Los Angeles.
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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Marasmo (2015)

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Marasmo de Gonçalo Loureiro é uma curta-metragem portuguesa de ficção vencedora de uma Menção Especial na última edição do LEFFEST - Lisbon & Estoril Film Festival que agora encontrou a sua estreia comercial no cinema e que relata pequenos fragmentos na vida de uma família na qual pai, mãe e filha se encontram nos antípodas de uma tradicional relação familiar.
O realizador e também argumentista Gonçalo Loureiro apresenta com Marasmo uma história que tem a particularidade de cruzar sob um mesmo tecto, três experiências diferentes interpretadas por aqueles que poderiam - à partida - experienciar uma vivência comum. Pai, mãe e filha vivem momentos de uma indiferença permanente onde a incomunicabilidade transcende as suas limitações, fazendo-os viajar por vidas que são, em certa medida, diferentes. O espectador pouco conhece destas três vidas para lá do que é subtilmente revelado... Um pai camionista e, como tal, relativamente ausente do seio familiar, uma mãe doméstica que não só trata da casa como acompanha a filha aos seus treinos de natação enquanto desespera pela chegada de um marido que a recebe com certa indiferença, e uma jovem metida com os seus pensamentos de quem ainda pouco pensa - passo a expressão - nos problemas de uma vida que a espera... "lá fora".
Estas três vidas que se distanciam com uma naturalidade desarmante parecem apenas completar-se com pequenos momentos que - à sua medida - dão significado à sua própria existência. De um pai insatisfeito e que encontra o significado da sua vida longe do lar e junto de encontros ocasionais com jovens prostitutas ou frequentadoras de uma qualquer discoteca que "usa" para as suas necessidades carnais - com a mulher parece não existir qualquer contacto sexual ou sentimental pois a relação que com ela mantém é exclusivamente uma partilha de casa -, passando por esta mulher que encontra o sentido da sua vida junto de um homem que a presenteia com momentos esporádicos na sua companhia - a felicidade que esta mulher parece fazer denotar numa Feira Popular com a presença de um marido mentalmente ausente é disso o melhor exemplo -, ou uma filha que encontra a sua plenitude numa piscina onde parece viver uma experiência extra-sensorial - e diga-se que o plano final de Marasmo é algo simplesmente divinal de se observar -, a dinâmica entre este projecto de família "moderna" prima pela capacidade de todos parecem partilhar uma casa onde dividem despesas... mas poucas confidências ou um qualquer tipo de sentimentos ou sensações. Flagrante e que o comprova está o momento que mãe e filha passam uma parte do seu dia num aquário, estáticas, incomunicativas e a observar nos outros aquilo que lhes falta... Um marido e um pai...
A desconexão entre esta família - e eventualmente a mensagem mais presente em Marasmo - é uma constante. De uma presença pouco sentida a uma ausência como estado normal de estar "por perto" criam um sentido desconforto no espectador que espera por um momento de uma sentida tensão que, no entanto, nunca chega. Talvez seja esse o marasmo de Marasmo. A concretização de uma apatia ou de uma paralisação sentimental que faz estes três elementos encontrarem-se desconectados daquilo que os rodeia. De uma vida com uma eventual partilha de afectos, de preocupações e de interesse sobre o outros, sobre as suas actividades e principalmente sobre a sua presença estando, todos eles, num estado de ilusão aparente como que a viver um intervalo numa realidade que se "passeia" à sua volta sem que dela queiram saber.
Com uma interpretação praticamente silenciosa mas muito expressiva, os três actores destacam-se pela sua própria ausência de protagonismo que é, portanto, partilhado estando, no entanto, o rosto de um Carlos Sebastião que tanto nos habituou à comédia no centro desta apatia sentimental - mas bem carnal - ao dar corpo a um homem que assume como escolha a sua distância de um lar que não lhe é querido (apesar de uma pontual "preocupação" com a filha) e que encontra o seu único e possível refúgio dentro do seu camião com o qual viaja pelas estradas do país.
Gonçalo Loureiro cria um filme bruto pela forma como expõe uma ideia de apatia sentimental, belo com a intensa e também ela muito expressiva direcção de fotografia da autoria de António Pinheiro que (des)caracteriza todas as suas personagens, espaços e estados de alma (quando esta se manifesta), e tenso pela recriação de uma sentida indiferença, distanciamento e eventual apatia que consegue colocar num mesmo espaço três personagens unidas entre si mas distanciadas pela indiferença (quem sabe repulsa) que cresceu no seu seio... quem sabe na esperança da espera por algo que sentem ter perdido mas que compreendem nunca ir chegar.
Seguramente um dos melhores filmes curtos do último ano, Marasmo é certamente a pequena grande prova de fogo de um realizador que se afirma pela grandeza do seu trabalho e - espero - pelos muitos que o futuro o irá fazer criar.
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9 / 10
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domingo, 11 de setembro de 2016

Before I Wake (2016)

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Before I Wake de Mike Flanagan é uma longa-metragem norte-americana presente na secção Serviço de Quarto do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que hoje termina no Cinema São Jorge.
Depois da perda do seu filho num trágico acidente doméstico, Jessie (Kate Bosworth) e Mark (Thomas Jane) adoptam o jovem Cody (Jacob Tremblay), que demonstra um enorme pânico em adormecer.
Tido com um medo irracional de uma criança inadaptada fruto da sua permanência em diversos lares, Jessie e Mark assistem na mesma noite à materialização dos profundos sonhos de Cody... e se inicialmente estes se demonstram tranquilos e pacíficos, cedo o casal percebe que os seus pesadelos também irão surgir e perturbar as suas vidas.
Jeff Howard e Mike Flanagan escrevem o argumento desta longa-metragem que inserida num género fantástico cria um conjunto de momentos de suspense presos ao domínio dos sonhos e desejos reprimidos. No fundo a questão essencial que este argumento coloca é a possibilidade de visitarmos - em consciência - pessoas, momentos e lugares que a nossa imaginação e recordação gravaram como os ideias de uma vida perfeita. No entanto, e como tudo tem o seu reverso, a questão também se coloca sobre a possibilidade dos momentos menos positivos e até mesmo assustadores visitarem - nesse mesmo estado de consciência - aqueles que os esconderam evitando dessa forma, a mágoa que lhes provocaram.
Num universo que questiona a possibilidade dos sonhos, e dos pesadelos, ganharem "vida", Before I Wake floresce no seio de uma história dita "principal", ou seja, a (re)construção afectiva de uma família que perdeu um dos seus mais importantes membros. Um filho, símbolo da continuidade, do nascimento, do legado e da transformação aqui todos perdidos numa tragédia dentro da própria casa, é factor suficiente para provocar a esta família o maior dos pesadelos... O que aconteceria, compreendendo a materialização de desejos sentidos, se aquilo que mais se deseja e perdeu pudesse - nem que por breves instantes - voltar a estar numa presença física conferindo alguns breves momentos de afecto, toque e sensação mesmo que relativamente ilusórios por não serem - de facto - reais? Nesta perspectiva, o espectador questiona-se sobre uma nova noção de pesadelo na medida em que se por um lado o casal volta a estar na presença do filho... por outro este "filho" mais não é do que uma memória fotográfica sonhada e não real daquele que em tempos tiveram. Será maior pesadelo a sua perda... ou a não confirmada compreensão de que aquele momento mais não é do que um momento efémero que os faz sucessivamente reviver a perda?!
Com o elemento fantasia sempre por perto, Before I Wake é essencialmente um filme de suspense ligeiro - no qual o espectador se concentra - e que "esquece" esse pesadelo real da perda, da recuperação nunca real ou confirmada, e no reviver de um momento trágico que, esse sim, tem as devidas proporções enquanto o terror vivo e verdadeiro, difícil de esquecer e que deixa, emocionalmente, as marcas para um lento renascer daquilo que se poderá considerar como "sentir".... Voltará alguém a sentir depois de uma perda?!
Com desempenhos ligeiros e típicos do género em questão, por parte de Kate Bosworth e Thomas Jane, é um sempre emocional Jacob Tremblay que, mais uma vez, conquista o espectador, primeiro pelo seu lado frágil e emotivo e depois pela confiança no desejo expresso de que alguém possa vir a gostar dele e lhe confira aquilo que perdeu... uma família.
Com um ou outro segmento mais tenso sem que, no entanto, seja um verdadeiro filme de terror mas sim um suspense "fantasioso", Before I Wake capta o essencial de uma interessante e pouco explorada premissa - esquecendo o assumido terror dos sonhos que foi "Freddy Kruger" - sobre algo que todos registam mas poucos recordam... no fundo, o tal lado "obscuro" da mente onde todos os pensamentos, desejos, emoções, alegrias e principalmente os medos ganham forma... mais ou menos atormentando-nos no sono... e nunca garantindo que uma vez a dormir... alguma vez desse sono se consiga acordar.
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7 / 10
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MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa 2016: os vencedores

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Terminou hoje a décima edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que decorreu desde o passado dia 6 de Setembro no Cinema São Jorge, no Teatro Tivoli BBVA e na Cinemateca Júnior onde decorreram sete intensos dias de cinema do género tendo ainda duas competições oficiais a decorrer.
Na competição de Melhor Longa-Metragem Europeia o vencedor ganharia o Méliès d'Argent e o acesso à competição oficial ao Méliès d'Or que decorrerá em Lund, na Suécia, no final de Outubro próximo.
Os vencedores são:
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Mélies d'Argent - Melhor Longa-Metragem Europeia
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Polednice, de Jirí Sádek (República Checa)
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Prémio Yorn de Melhor Curta-Metragem Portuguesa de Terror
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Post-Mortem, de Belmiro Ribeiro
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Menção Especial
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Palhaços, de Pedro Crispim
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Bølgen (2015)

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Alerta Tsunami de Roar Uthaug é uma longa-metragem norueguesa - e seleccionado pelo país para representar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro nos Oscars em 2016 - presente na secção Serviço de Quarto desta décima edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, que hoje termina no Cinema São Jorge.
Kristian (Kristoffer Joner) está prestes a abandonar o seu trabalho na pequena cidade de Geiranger quando detecta pequenas alterações geológicas no subsolo da região. Quando o impensável acontece colocando em risco toda a população da região, Kristian tem apenas dez minutos para salvar todos incluindo a sua própria família.
Tendo como premissa o deslizamento de terras que deu origem a um tsunami numa aldeia norueguesa na década de 30, Roar Uthaug cria aquele que poderá ser o primeiro filme catástrofe do cinema nórdico colocando o argumento de John Kare Raake e Harald Rosenlow-Eeg nos limites de uma intensa história de sobrevivência que fará invejar muitos dos filmes do género que a cinematografia norte-americana tão hábil e frequentemente apresenta.
Com uma introdução fundamentada em imagens de arquivo que apresentam o rasto de destruição anteriormente sentido na região onde o deslizamento de terras nos fjords criou verdadeiros tsunamis que arrasaram a paisagem tal como fora conhecida, Bølgen teoriza, à luz dos dias modernos, o que aconteceria se uma nova catástrofe ocorresse numa pequena localidade do país como aquela que o espectador conhece onde a agitação diária apenas se prende com as vagas de turistas que se deslocam para dar vida ao pequeno recanto na montanha.
De um primeiro segmento no qual ficamos a conhecer a relação familiar entre "Kristian" e "Idun" (Ane Dahl Torp), e destes para com os dois filhos de onde se depreende que o casal vida os seus normais problemas conjugais que são, de uma ou outra forma, sentidos pelos filhos, Bølgen concentra todo este momento naquilo que culmina com um espantoso e bem encenado tsunami - um viva aos elaborados efeitos especiais - eventualmente pouco visto no cinema europeu (se nos esquecermos de Lo Imposible de Juan Antonio Bayona) que não só deixa o esperado rasto de destruição como também o igualmente esperado conflito onde, família separada... que passo dar em seguida?
Num registo bem mais activo do que aquele sentido em Lo Imposible, Bølgen cruza os limites de um filme de acção onde o terror sentido não se prende com um qualquer registo sobrenatural ou extraterrestre mas sim com aquele provocado pelas próprias condições geográficas sentidas num planeta em constante mutação. Com um sentido apurado de alerta sobre as já há muito sentidas alterações climáticas - talvez aquela que seja a mensagem principal de Bølgen -, esta longa-metragem norueguesa - invulgar para o seu cinema bem como para o europeu - apresenta os habituais problemas reflectidos no mesmo - a dimensão do "eu", do "nós" e dos problemas sociais inerentes ao abandono de um lar geográfico que caracteriza as vivências e o "ser" enquanto parte do mesmo - enquanto que, ao mesmo tempo, se preocupa por entreter o espectador com um filme de acção bem construído (mesmo com alguns lugares comuns como aquele em que o descrente superior se sacrifica para, mais tarde, não dar a cara face à sua inércia), com segmentos de uma intensidade cortante onde o espectador desespera por assistir aos efeitos devastadores de uma catástrofe natural e também às suas igualmente mortíferas consequências - pois nem todo o "terror" termina quando o susto passa... - e o esperado clímax final onde depois de uma luta intensa... conseguirão todos os improváveis heróis sobreviver?...
Bølgen é, enquanto o chamado "filme catástrofe", uma agradável surpresa (qual de nós o esperava vindo de uma cinematografia improvável?!), que não é menor face aos seus "congéneres" norte-americanos e que "aplica" ao mesmo uma realidade geográfica do país sem que para manifestar toda uma acção ou evento necessite de recorrer a fenómenos improváveis. Aqui o terror é uma potencial realidade - já manifestada no passado - tendo portanto a necessidade de ser controlado - como se alguém controlasse a natureza "questionam" os argumentistas - deixando, no entanto, como única possível resposta que após o evento registado resta àqueles que o testemunham a sua resposta rápida... preferencialmente eficaz... e que no seio de um rasto de destruição e numa morte que parece bater sistematicamente à porta, apenas a união (esperada ou não) define o carácter e principalmente a sobrevivência de todos aqueles que testemunham "a onda".
Equilibrado desde o primeiro instante sabendo habilmente dividir os momentos reflexivos daqueles de maior intensidade - quer de acção quer dramática - Bølgen cativa pela beleza natural de uma relativamente desconhecida Noruega bem como pela forma como apresenta aquele que é, no fundo, o verdadeiro terror e o qual ninguém consegue conter... ou seja, o que pode ser provocado por um planeta que está efectivamente saturado.
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7 / 10
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