segunda-feira, 29 de abril de 2019

Eran Otros Tiempos (2018)

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Eran Otros Tiempos de Alejandro Talaverón (Espanha) é um dos filmes curtos presentes na secção competitiva LGBT da décima edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos que decorre na Cantábria, em Espanha até ao próximo dia 4 de Maio.
No presente, todos temos liberdade sexual e as minorias levantam a sua voz podendo, dessa forma, orgulhosamente sair à rua e expressar aquilo que e por quem sentem. Mas nem sempre foi assim...
Este belíssimo documentário curto tem como principal interveniente a avó do realizador que começa por ser apresentada ao espectador como uma mulher idosa, viúva e por quem se espera ter um inesperado interesse por aquilo que ela potencialmente tem para nos contar. No entanto, não é tanto pela história que nunca chega a ser devidamente desenvolvida que nos interessamos, mas sim pela candura e honestidade com que a mesma fala e se expõe a um espectador surpreendido pela sua genuinidade e coração aberto para falar não sobre as dinâmicas de uma mulher na terceira idade mas sim daquilo que sempre a fez mover um pouco mais além... o amor.
Talaverón com uma câmara firme e o gosto por descobrir - ou fazer descobrir - a sua avó, apresenta-nos uma mulher que aparenta levar a vida de forma ligeira e despreocupada. Certa dos seus sentimentos e segura daquilo que sentiu no passado, lentamente revela-se para uma câmara que a quer descobrir confessando assim a paixão que sentiu pela noiva do seu irmão. Paixão essa que nunca confessou pelo medo das represálias, da família e mesmo da rejeição. A única coisa da qual ela revela não sentir qualquer lamento é do próprio sentimento... Um sentimento que a fez sentir viva, que a faz sorrir pelas memórias que lhe trazem e que, mesmo não tendo sido um amor cumprido, foi sentido com a intensidade de uma jovem que ainda hoje é.. em pensamento.
Com uma vida construída para lá do sentimento da paixão - e que deu, obviamente, origem ao seu neto e realizador -, esta mulher sempre sentiu uma forte atracção pela cunhada com quem pouco conviveu para lá dos eventuais encontros familiares que se proporcionariam ao longo dos anos e por quem nunca perdeu um especial carinho que, no fundo, sempre definiu o seu ser e os seus sentimentos.
Inteligente, emotiva e dotada de uma grande sensibilidade que levam o espectador a simpatizar desde o primeiro instante com esta mulher de força emocional extrema, Eran Otros Tiempos define não só os sinais do tempo e da sua mudança onde tudo aparenta estar mais fácil para a aceitação pessoal dos sentimentos individuais mas que, ao mesmo tempo, não deixa grande margem de manobra para essa mesma aceitação àqueles que, vindos de outros tempos, ainda se deixam definir pelos parâmetros e valores de outras épocas libertando-os (talvez) de culpas sentidas mas condicionando-os no tempo e no espaço que já não lhes permite viver a vida com a mesma intensidade. Se o espectador se deixar levar pela genuinidade de uma mulher desses "outros tempos"... aqui encontrará a sua musa.
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8 / 10
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