segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Operação Outono (2012)

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Operação Outono de Bruno de Almeida este em antestreia nacional no último dia do Lisbon & Estoril Film Festival no Cinema São Jorge em Lisboa e no Centro de Congressos do Estoril.
Este filme remete-nos para a orquestração da Operação Outono pela PIDE e que tinha como único intuito a eliminação do General Humberto Delgado (John Ventimiglia) e qualquer pretensão sua para um potencial golpe de Estado que derrubasse o regime fascista em Portugal.
Até ao seu assassinato em Espanha vamos acompanhando todo o processo de planificação da PIDE a cargo de Rosa Casaco (Carlos Santos), Ernesto Lopes (Nuno Lopes), Agostinho Tienza (Marcello Urgeghe) e Casimiro Monteiro (Pedro Efe), mandatados por Barbieri Cardoso (José Nascimento) e Silva Pais (Júlio Cardoso) os cabecilhas da polícia política, bem como a rede montada para que o General pudesse acreditar que em Portugal existiam (há altura) muitos que o queriam acompanhar na sua luta contra o regime.
Este filme, mais um sobre um acontecimento recente da História de Portugal que ainda não está devidamente "resolvido" e menos ainda debatido, já vem tarde. Humberto Delgado representa uma figura política e de resistência portuguesa que está, a meu ver, quase esquecido da mente nacional. Sim, todos nós sabemos quem foi o "General Sem Medo" mas, por outro lado, pouco é discutida a forma como ele foi morto e menos ainda sobre o processo judicial que tinha ocorrido anos depois deste assassinato. Pouco habituados que estamos a filmes históricos (este é um deles e disso não haja dúvida), é agradável perceber que aos poucos alguns dos heróis da nossa História mais recente começam a ser "recuperados" e mediatizados para o maior conhecimento do público em geral.
O argumento escrito também por Bruno de Almeida em parceria com John Frey e Frederico Delgado Rosa apresenta dois importantes aspectos que caracterizam uma certa linha condutora do filme. Por um lado temos uma abordagem aos momentos precedentes e que conduziram ao brutal assassinato do General e da sua secretária bem como o que sucede anos após a Revolução de Abril e ao julgamento destes intervenientes mais de dez anos depois da sua ocorrência. No entanto, por outro lado com o julgamento de alguns dos intervenientes (alguns porque outros nunca compareceram), resta-nos a ideia através de um flashback finald e Casimiro Monteiro, que afinal foi este o único interveniente no assassinato das vítimas deixando uma certa abertura para aquele traiçoeiro pensamento que "afinal os PIDES per si não cometeram acto nenhum além de serem os mandantes".
O estilo documental utilizado por Bruno de Almeida numa boa parte do filme, através da recuperação de imagens da época e das várias cidades em que a história tomou lugar bem como do próprio 25 de Abril, é muito feliz e bem conseguida. Não só nos situamos nos lugares e na importância que há altura tiveram para o desenrolar de todos os acontecimentos como, o mais importante de tudo, é colocarmo-nos na própria época e sentirmos a pressão e o isolamento que os intervenientes de certa forma sentiriam por se encontram a centenas ou milhares de quilómetros do seu país natal. Por momentos recordei outro magnífico filme que recorreu ao mesmo estilo documental e de enquadramento do espectador na história, como é o caso de Vincere de Marco Bellocchio, um dos mais conseguidos do género. No entanto, ao contrário deste, Operação Outono falha num importante aspecto que é a dramatização dos acontecimentos. Se por um lado o enquadramento é bom por outro não podemos esquecer que na reconstituição dos factos é importante que a dramatização efectuada pelos actores seja suficientemente forte para criar uma empatia dos esepctadores para com os acontecimentos. Um dos poucos em que isso é conseguido, arrancando mesmo reacção do público, deve-se ao momento em que Maria Humberta Delgado (Cleia Almeida) parodia com o velório a Salazar, e este não deveria ser o momento com maior impacto desta mesma dramatização.
Absolutamente positivo é o elenco reunido neste filme que é do melhor que poderia ter sido conseguido. Aos já referidos actores há que acrescentar Ana Padrão, Diogo Dória, Adriano Carvalho, Carlos Paulo, Camané (numa surpreendente interpretação), Carla Chambel, João d'Ávila, João Cabral, Rui Luís Brás e Filipe Vargas. Com interpretações mais ou menos secundárias mas todos a estrategicamente encarnar as suas personagens. Impossível é não referir o actor escolhido para dar vida a Humberto Delgado... John Ventimiglia tem não só uma boa interpretação como a nível de caracterização é assombrosamente fiel, fazendo do trabalho de Miguel Dias Esteves e Alda Matos um dos melhores recentemente vistos no cinema nacional.
E tecnicamente falando este filme consegue também ser de excelência. Desde a reconstutição do guarda-roupa através de Lucha d'Orey, da fotografia de Edmundo Díaz que enquadra a própria acção num ambiente muito documental como referi anteriormente ou mesmo a excelente banda-sonora (uma das melhores dos últimos tempos) a cargo dos Dead Combo.
Interessante do ponto de vista histórico bem como pela sua execução técnica e interpretativa, este Operação Outono é assim uma das estreias mais importantes do cinema português que as salas irão ter e que espero não seja esquecido pelo seu próprio público, numa altura em que ele próprio precisa de referências positivas existentes na sua História.
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8 / 10
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