sexta-feira, 17 de maio de 2019

Boyfriend (2019)

.
Boyfriend de David Moragas e Jacob Perkins (Espanha/EUA) é mais uma das curtas-metragens que irão passar pelo CinEuphoria neste dia internacional de luta contra a homofobia, e que aresenta a história de David e Jacob, um casal de namorados que numa comum manhã em Crown Heights partilham momentos banais da sua relação até à chegada de um inesperado telefonema que tudo tende a transformar.
Este breve documentário ficcionado cujos dois realizadores são também os actores protagonistas da "sua" própria história, centra-se numa banal manhã de uma convivência assumem  onde as triviais actividades de um casal assumem o argumento de um conto que se revela a cada instante. Da relação e das suas cumplicidades a pequenas actividades que ambos partilham, a sua pacata existência é ameaçada com um inesperado telefonema que afasta um do outro. Por detrás de palavras murmuradas compreende - o espectador - o distanciamento que ocupa posição com a tal personagem invisível que todos atormenta. Se "David" se distancia fisicamente ao atender aquele telefonema, é "Jacob" que se ausenta psicologicamente quando sente que o seu espaço (e a) na relação fora ameaçado por um invasor (sem forma) exterior que agora é parte daquela integrante da mesma.
O espectador, enquanto membro observador da relação e da interacção destas duas personagens, compreende e assiste à dinâmica de ambos de forma cúmplice. Primeiro porque observa os momentos íntimos entre "David" e "Jacob" assumindo-os como uma relação próxima, afectiva, apaixonada e até cúmplice onde os pequenos e banais momentos de um qualquer dia se assumem como o tal "cimento" que vai alicerçar esta convivência a dois. Depois porque este romantismo assume, através dos silêncios e da hipotética mentira ou ocultação, uma forma de espiral silenciosa da desagregação da perfeição (que nunca existe) daquilo que havia sido construído e que em vez de discutido entre ambos pondo assim fim a qualquer dúvida, se transforma no tal "elefante na sala" que todos percebem estar presente mas do qual ninguém fala com medo da transformação (ou até perda) que daí poderá advir. Em instantes, e sem que ninguém o compreenda para lá do espectador, obtemos aquilo que irá potencialmente fomentar o fim... da inocência, do idílico ou até mesmo da relação... pelo menos da forma como, até então, a tínhamos conhecido.
Da manhã onde pequenas intimidades ganham forma a um telefonema que deixa a relação num lugar incerto, Boyfriend - como a representação dos elementos do casal - é o símbolo do que é perfeito mas sobretudo daquilo que não o é... do passado e daquilo que deixaram (deixámos) para trás que nos transformou e largou naquele preciso momento em que pela primeira vez se tenta construir algo sério e distante das noites loucas de uma juventude já ida e entre o quente de uma relação sólida à opacidade de uma incerteza que pode chegar, esta curta-metragem assume-se tal como a relação... imperfeita na sua perfeição (ou perfeita na sua imperfeição) mas sólida o suficiente para que o espectador se recorde dela e compreende que independentemente do género assistiu ao retrato normalizado de uma (entre tantas) relações a dois que tenta sobreviver não só graças ao que o levou àquele instante como sobretudo àquilo que ali mantém vivo.
.
7 / 10
.

Sem comentários:

Publicar um comentário