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domingo, 24 de novembro de 2019

Alien: Night Shift (2019)

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Alien: Night Shift de Aiden Brezonick (EUA) é mais uma das curtas-metragens que celebra o quadragésimo aniversário da obra de Ridley Scott levando o espectador a cenários que lhe são de certa forma familiares e aqui continuados graças à imaginação e dedicação de novos realizadores.
Encontramo-nos na Colónia Mineira de High Lonesome em LV-422. Welles (Terrance Keith Richardson) chama por Harper (Tanner Rittenhouse), um colega de trabalho estranhamente isolado dos demais e adormecido numa pequena viela. Mas o que Welles não sabe é que Harper esteve na presença de uma inesperada companhia...
Desenvolvendo de forma cativante e inspirada o imaginário da saga Alien (ainda que com alguns aceitáveis lugares comuns típicos de quem pretende a devida homenagem), esta curta-metragem - a semelhança das demais já aqui apresentadas -, recria um pouco da atmosfera apresentada já há algumas décadas, a premissa de que estas personagens estão na presença de uma estranha companhia que não só não sabem identificar como tão pouco estão preparados para lidar com os efeitos destruidores da sua passagem.
Todos os elementos são inicialmente entregues ao espectador mais atento que compreende que os dois amigos mais não são do que o embrião inicial de toda uma história que está por ser desenvolvida. E é aqui que esta curta-metragem não só apresenta o seu maior trunfo como, ao mesmo tempo, peca pela curta (extremamente curta) duração que interrompe o espectador em tudo aquilo que o mesmo queria ver. No fundo, e por outras palavras, tudo aquilo que observamos neste Alien: Night Shift mais não é do que o óbvio e esperado de uma história centrada neste universo... dois amigos que vão a um bar depois de um deles ter sido encontrado em estranhas circunstâncias... reúnem-se com um outro grupo de colonos do já mencionado planeta para aí darem início a todo um jogo de gato e rato sendo, também este, interrompido pelos verdadeiros acontecimentos "lá fora" que começam a ocorrer um pouco por todo o colonato. O invasor está às portas... e ninguém deu pela sua chegada. Que comece a caçada...
O potencial desta curta-metragem, que no seu argumento base limita-se a uma breve (mas sentida) homenagem ao género e à saga em concreto, reside naquilo que o espectador acaba por não ver... o que ocorre no centro daquele bar já o vimos na obra original de Scott ou até mesmo nas demais sequelas aquando das primeiras manifestações do Xenomorfo. No entanto, e para lá dessa manifestação ou breve jogo de gato versus rato, é aquela confirmação de tumulto fora de portas que o espectador acaba por considerar interessante... a possibilidade de observar o derrube do colonato e a confirmação de que este "Alien" é, afinal, o verdadeiro senhor de um território para o qual nenhum humano estava preparado seduz por todas as possibilidades que são aqui equacionadas não propriamente em Alien: Night Shift mas sim nas portas que este abre para a potencial obra maior que poderia ser construída a partir daqui revelando quão depressa caiu um dos eventuais primeiros colonatos.
Caprichos de um espectador - eu - à parte, esta curta-metragem assume-se facilmente como mais uma digna representante do universo Alien deixando o comum mortal - novamente tal como eu - expectante para uma potencial nova entrega desta saga que tarda em chegar. A grande opus está porvir - assim o desejo -, e todos estes filmes curtos que abrem portas para esse futuro - ainda que aqui pareçam ser claros testemunhos do passado -, são magníficos exemplares de todo um imaginário colectivo inter-geracional e fiéis testemunhos de uma das maiores sagas de ficção científica das últimas décadas.
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6 / 10
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sábado, 23 de novembro de 2019

Alien: Alone (2019)

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Alien: Alone de Noah Miller (EUA) é uma das curtas-metragens que celebram os quarenta anos de Alien (1979), de Ridley Scott numa história que nos apresenta Hope (Taylor Lyons), o único membro sobrevivente da nave Otranto, que ao longo de um ano mantém a estrutura e funcionamento da mesma com vista à chega a uma fronteira espacial onde possa ser salva. Solitária nesta sua expedição, Hope encontra e forma uma estranha amizade que poderá redefinir todos os seus objectivos de voltar a encontrar vida humana.
Com uma clara influência na obra que deu origem a toda esta saga Alien - a de Scott em 1979 -, este Alien: Alone de Noah Miller - seu argumentista e realizador - exibe desde cedo diversos elementos que remontam o espectador para essa memória. Da foto polaroid da tripulação aos pequenos comunicadores que nos levam a esses claustrofóbicos corredores da Nostromo, esta curta-metragem mais do que o espírito da saga tenta sim celebrar a memória e, de certa forma, as origens de todo o "movimento" Alien.
Se são os pequenos detalhes visuais que dão o mote para este revivalismo, não deixa também de ser um facto aqui verificado que é o sentimento de solidão que ganha forma quando a protagonista "Hope" manifesta todo um desesperado sentimento de abandono e perda - não sabemos em que condições - de uma tripulação agora ausente e de uma nave cujos sinais de degradação são por demais evidentes... um pouco como a sua alma. Esta ausência de vida e de alguém com quem compartilhar tão intensa e longa viagem cujo fim é incerto não só pelo distanciamento da tal fronteira do espaço profundo versus "territórios habitados" mas também pelo facto de não saber identificar qual será o ponto de ruptura absoluta da nave em que viaja, será colmatada com aquilo que se encontra por detrás de uma misteriosa porta e que poderá dar origem a uma amizade com "Hope".
O dilema aqui levantado em que Humano e Xenomorfo estabelecem essa improvável relação de cumplicidade é, no fundo, o elemento de maior destaque nesta curta-metragem sendo que, no entanto, já fora observado em Alien Ressurection (1997), de Jean-Pierre Jeunet. Relação essa estabelecida através de uma forma primária de maternidade que a obra do realizador francês decidiu explorar e que aqui é formada a partir de um desespero de isolamento sentido pela protagonista que decide "sobreviver" para chegar a território humano na companhia do xenomorfo e não tanto pela sua necessidade de lá chegar impedindo a propagação daquilo que será, no fundo, a contaminação desse mesmo espaço. Mas terá "Hope" os seus próprios planos para essa Humanidade à qual se dirige que podem, na realidade, estabelecer uma ideia daquilo que terá acontecido à sua tripulação?! Estará ela a esconder algo mais do que a sua própria sobrevivência?
Se Noah Miller cria esta curta-metragem com o recurso a diversos elementos de obras passadas - o espírito de isolamento, elementos de decoração de cenário e guarda-roupa ou mesmo a já mencionada relação entre a protagonista e o xenomorfo -, a realidade é que a esta curta-metragem falta, no entanto, toda a força e dinamismo recriadas até nas obras mais recentes - Prometheus (2012) e Covenant (2017) - consideradas as mais frágeis da saga, mas que conseguem enquadrar todo um sentimento claustrofóbico, labiríntico e de verdadeiro terror no espaço do qual ninguém poderá escapar ileso que aqui se limita a uma abordagem quase empática ou mesmo "espiritual" que colocam Homem e Xenoformo em patamares semelhantes de sobrevivência face ao mundo exterior (ainda que este seja inexistente)... até descobrirmos quem é, na realidade, esta sobrevivente "Hope".
Fiel ao género - ainda que francamente frágil na sua construção - Alien: Alone explora essa vertente do isolamento e da solidão pervertendo ambos e conferindo-lhes "alma" pela forma como esta - mesmo que inexistente - quando corrompida pode realmente enveredar por aquele lugar escuro e sinistro apenas comparável com a imensidão desse tal universo por onde a Otranto, a Nostromo, a Prometheus ou a Covenant viajaram e da qual trouxeram as suas próprias "memórias".
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6 / 10
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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Alien: Specimen (2019)

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Alien: Specimen de Kelsey Taylor (EUA) é uma das curtas-metragens que celebram o quadragésimo aniversário do início da saga Alien (1979), de Ridley Scott aqui no universo do LV-492, um planeta com um património botânico diverso e onde, numa estufa, Julie (Jolene Andersen) se vê encerrada depois de detectado pela sua cadela alguns resíduos estranhos. Mas, como seria de esperar, Julie não está sozinha...
Existe sempre alguma suspeita por parte do espectador quando um novo título surge na saga iniciada no final da década de '70. No entanto, é a curiosidade que fala mais alto e a esperança de que esse mesmo universo seja respeitado faz com que qualquer um de nós se deixe levar pela esperança de que "este" - independentemente de qual seja -, volte a deixar-nos colados ao ecrã em mais uma história onde a luta pela sobrevivência impera e comanda os destinos dos menos afortunados que se deparam com os resistentes xenoformos.
Cedo, ainda que com apenas uns curtos dez minutos de duração, percebe o espectador que Alien: Specimen tem merecidamente o seu lugar neste universo. O argumento de Federico Fracchia não só consegue ser fiel ao esperado espírito do género mantendo sempre o suspense e a incerteza a cada esquina como também surpreende com os inesperados twists que espreitam em pequenos e subtis detalhes nomeadamente no destino entre vítimas e predadores que "trocam de lugar" à medida que o tempo avança sem que o espectador nunca suspeite de quem é quem.
É neste ambiente de suspeita tensão que tudo acontece e a relação entre Humano, Animal e Xenoformo desenvolve-se numa dependência mútua transformando cada um destes protagonistas numa peça fundamental de uma história que, compreendemos no final, não acontece com os contornos que esperamos principalmente pela diferente dinâmica das mesmas em relação às longas-metragens que conhecemos e que foram brilhantemente protagonizadas por uma personificação de heroína que foi (É!!!) Sigourney Weaver. Estes três protagonistas têm assim uma relação diferente, ainda que cúmplice e mesmo dependente, mas nem tudo ocorre como tradicionalmente seria de esperar. Para tal inicial ilusão do espectador contribuem de forma determinante em primeiro lugar a perfeita direcção de fotografia de Adam Lee que o confunde fazendo ignorar pequenos elementos que apenas um segundo visionamento esclarecem e transformando todo aquele recinto num grande labirinto onde gato e rato se observam, avaliam e escondem esperando pelo momento certo para finalmente revelarem a sua presença. Interessante como a não tão subtil biodiversidade aqui ganha, também ela, o seu próprio lugar quase como que uma personagem silenciosa que contribui para uma camuflagem sempre necessária quando se (tenta) escapa de um perigo desconhecido ou, por sua vez, como este o utiliza para a construção da sua própria teia. A isto acresce todo um particular ambiente que os efeitos sonoros criam deixando toda a dinâmica num tempo suspenso e incerto que deixam o espectador desconhecedor do decorrer dos segundos.
Ainda que Jolene Andersen não seja a "Ripley" de Sigourney Weaver - nunca ninguém o será -, a actriz consegue firmar-se num daqueles desempenhos de heroína improvável que, já bem perto do final, se revela também ela como um inesperado predador que utiliza os meios ao seu redor para uma sobrevivência num espaço que, afinal, também não é seu. Perguntamos neste momento... quem será o verdadeiro predador... Humano ou Xenomorfo?! Ainda que, na realidade, todos nós tenhamos a nossa clara preferência que será sempre anti-xenomorfo... ou, pelo menos, compreender que todo o invasor, assuma ele que forma assumir, não passa disso... um invasor em território desconhecido e onde as suas vantagens são claramente menores.
Inteligentemente criado e digno emissor de uma homenagem a uma das maiores e mais intensas sagas do cinema de ficção científica, este Alien: Specimen é um dos mais bem estruturados e elaborados filmes curtos do género e um daqueles que irá, com toda a certeza, figurar nas mais sentidas homenagens à mesma deixando o espectador e, muito particularmente aquele que segue esta saga desde 1979 com a eterna questão... quando é que regressa a nova entrega... e quando é que a "Tenente Ripley" marca finalmente o seu regresso?!
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8 / 10
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sábado, 16 de novembro de 2019

Astray (2019)

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Astray de Kyle Sharpe (Canadá) é uma das curtas-metragens de animação presentes na selecção oficial da décima edição do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta.
A curiosidade de uma mulher sobre uma casa abandonada leva-a a embarcar numa viagem pela desconhecido e pelos horrores que se escondem por detrás das sombras. Irá ela descobrir o que habita naquele espaço?
Numa perspectiva de terror gótico e considerando que esta curta-metragem tinha todo um potencial por explorar sobre os verdadeiros horrores de uma casa que esconde uma versão perfeita do "mal" enquanto uma entidade, Astray é uma potente curta-metragem de género que tem tudo para se assumir como uma referência do género. Nada do que aqui temos é colocado ao acaso. Tão pouco está sub-explorada deixando, no entanto, uma porta aberta - sem ironia para com o próprio começo desta história - para que a mesma se possa (ou deva) explorar enquanto um conto mais longo onde se conhecem os verdadeiros detalhes do que todos os recantos daquela casa dos horrores escondem.
Se é um facto que acompanhamos as tímidas investidas desta jovem que se deixa embrenhar pelos corredores obscuras daquela velha mansão, não deixa de ser uma realidade que, para o espectador, interessam mais os pequenos detalhes e inuendos apresentados (pensamos) pela mesma para que a jovem se deixe levar, num misto de curiosidade e incapacidade de fugir, por aqueles corredores que parecem colocá-la face a um labirinto onde o único caminho possível é seguir em frente e deparar-se com aquilo que, deduzimos, a espera. Da borboleta que invade a casa como o símbolo da pureza que deve seguir às portas que se abrem para dar rosto a um novo caminho, Astray faz sempre ressaltar a sua componente mórbida e gótica que põem em evidência um destino que poderá ser tão ou mais escuro quanto os recantos por onde a jovem passa. E é quando pensamos que se a tal pureza escapa, também ela - a jovem - pode encontrar o seu final feliz, que deparamos com o inesperado e compreendemos que ela mais não é do que uma boneca nas mãos de um poder maior que a controla, aos seus passos e sobretudo ao seu final revelando-a como, não mais, do que uma peça de um jogo maior.
Executada com rigor e precisão, a curta-metragem Astray é o símbolo de um filme maior em construção - ou pelo menos um que se poderia criar -, e a revelação de que o horror e a animação podem andar de mãos dadas e ser tão ou mais eficazes do que muitas obras de ficção habituadas ao mesmo estereótipo que (re)cria sucessivas obras com o mesmo final. Aqui o realizador Kyle Sharpe cria a atmosfera perfeita... para que o terror reine e para que o espectador se deixe cativar e mantenha toda a sua atenção aos pequenos detalhes que parecem, também eles, ganhar a sua própria vida e "alma".
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7 / 10
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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Alien: Harvest (2019)

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Alien: Harvest de Benjamin Howdeshell (EUA) é uma das diversas curtas-metragens elaboradas no quadragésimo aniversário da saga Alien iniciada por Ridley Scott aqui de volta ao claustro de uma nave perdida no espaço quando uma ameaça maior espreita no escuro.
Os quatro sobreviventes de uma nave perdida no espaço têm poucos minutos para chegar à cápsula de evacuação. No sensor de movimentos sabem que estão acompanhados e que o perigo espreita a todas as esquinas mas... não estarão eles na companhia de um perigo totalmente desconhecido?
Ainda que distante do ambiente claustrofóbico de Alien (1979) ou da enérgica acção de Aliens (1986) de James Cameron, este Alien: Harvest consegue nos seus escassos minutos despertar a atenção do espectador e, muito particularmente, recuperar com os seus meios que serão (certamente) mais modestos, todo um ambiente de terror que o género propõe e consegue cumprir.
Em pouco mais de nove minutos de duração, Alien: Harvest oferece ao espectador o vilão que se esconde à espera das suas presas, todo o clima de uma nave perdida e em rota de auto-destruição onde circula e reina o medo daquilo que não se revela a cada esquina e, sobretudo, todo um twist que apenas se sentira na obra de Ridley Scott nos finais dos anos '70 onde nem todos aqueles nos quais se deposita confiança a mercem de facto.
Alien: Harvest, isenta de interpretações de primeiro nível como aquela que Sigourney Weaver revelou ao grande público com a sua "Ellen Ripley" que a transformou num dos símbolos femininos de acção mais importantes da Sétima Arte consegue, no entanto, criar quatro personagens típicas do género e que marcam a curta-metragem pela sua relevância na sua dinâmica e, no fundo, no que é esperado dos actores que dão corpo e alma aos protagonistas da mesma. Da inocência à esperança num novo futuro, da desinteressada sobrevivência ao lucro fácil por detrás de cada manobra, todas estas personagens parecem ter o fim marcado de acordo com os últimos instantes da sua vivência naquela nave que, com já sabemos, não parece deixar ninguém sem que primeiro revele a sua verdadeira essência. Porque nem todas as vítimas o são e nem todos os alien são predadores injustificados, uns actuam por impulso de caçador enquanto outros pelos benefícios decorrentes das acções que determinaram o seu carácter e Alien: Harvest expõe, em título de homenagem, todos os pequenos elementos que em 1979 fizeram de Alien uma obra de culto e referência máxima por entre os filmes de ficção científica, de acção, de suspense e mesmo de terror... onde gritar não garantirá qualquer tipo de salvação possível.
De forma apaixonada e competente, com tudo aquilo que se espera do género - visualmente falando e especialmente por ser uma celebração do quadragésimo aniversário -, bem como pelo próprio ambiente de terror claustrofóbico do qual esta saga foi (é!) expoente máximo, Alien: Harvest garante ao espectador uns breves minutos que o fazem desejar que a nova entrega (longa) da saga chegue o quanto antes e que, quem sabe, Weaver regresse tão em forma como a sua "Ripley" o pede... porque não há grandes vilões sem heroínas a sério, e estes quarenta anos pedem um desfecho que o seja de verdade.
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8 / 10
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sábado, 29 de junho de 2019

Alien Convergence (2017)

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Convergência Alien de Rob Pallatina (EUA) apresenta um conjunto de personagens com incapacidades físicas originadas pelos mais diversos motivos incluindo ferimentos em combate e que testam métodos revolucionários de controlar, através da mente, um avião para missões em cenários de guerra evitando, dessa forma, a perda de vidas humanas. No entanto, é durante estes ensaios que a Terra se vê na rota do que parece ser um cometa mas que, afinal, são meteoritos que transportam vida alienígena que poderá ameaçar a existência da Humanidade tal como a conhecemos.
Há qualquer coisa de mórbido em todos nós que nos leva a ter um interesse quase doentio em todas e quaisquer histórias que se assemelhem àquilo que poderá ser o fim do planeta ou da sua vida - humana e não só - e que, por mais ou menos intensas, mais ou menos bem construídas ou mais ou menos credíveis nos faz querer assistir a todos os instantes que estas histórias e obras cinematográficas - estou a ser simpático - nos proporcionam. Mas, fosse esse o mal maior desta longa-metragem ou do argumento de Marc Gottlieb...
Alien Convergence inicia com todas as pequenas arrogâncias de um conjunto de profissionais que julgam conseguir obter nomeações aos Oscars à custa de uma obra que nem perfil tem para se aproximar dos Razzies. Das incoerências de narrativa que se apresentam desde os primeiros instantes e que não conferem qualquer tipo de credibilidade a qualquer uma das personagens ou que, na pior e quase sempre comum das hipóteses as transformam em pequenas versões snobs centradas no seu pequeno grande ego passando pela óbvia vontade (ou necessidade?!) em contar uma história repleta de um pequeno - muito pequeno - conteúdo que não consegue dignificar qualquer um dos géneros em que se pretende inserir... nem terror... nem ficção científica... nem drama. Nem tão pouco comédia "corredor" onde, rapidamente, o espectador se observa a caminhar mas ao qual não consegue encontrar a mais ínfima referência apesar de compreender que algo deste género só mesmo... com muito humor e engenho (não no melhor dos sentidos).
Se desta constante apatia, à qual estas personagens conseguem com tanto empenho inserir o espectador pouco se retira, não será menos correcto afirmar que as potenciais boas intenções que residem nas fragilidades físicas das personagens incutidas pelo argumento, cedo se transformam em grandes elementos de distracção que colocam o espectador a pensar que afinal... isto parece um qualquer "vale dos desesperados" e não necessariamente pessoas que tentam encontrar a sua validade quando tudo no mundo poderia querer colocá-los naquelas temidas "margens" onde a sua importância passou à História. Mas, se os seus contributos para os aperfeiçoamentos militares são no mínimo dúbias pela sua falta de coerência, é quando essa presença extra-terrestre se aproxima que finalmente compreendemos que todos, na Terra, são de facto incapazes mentalmente... o tal elemento que tentavam trabalhar para salvar vidas humanas e que, na realidade... a todos parece faltar. Dito isto, se o planeta parece finalmente cair face à ameaça exterior... o espectador compreende que antes já caíra às mãos de tantas incoerência... ligares comuns e sobretudo uma enorme arrogância que apenas os menos inteligentes parecem ter, convencidos de que descobriram o último engenho tecnológico.
Sobre a invasão alienígena... que importa ela na realidade? Absolutamente nada. Temos meteoritos que afinal não o são... vida extra-terrestre sob a forma de insectos gigantescos com os seus próprios planos de "world domination" - e que, na realidade, revelam ter mais QI do que qualquer humano por ali "espalhado" - e um conjunto de humanos que sobrevivem graças ao acaso... apenas faltaram os lugares comuns das "condições climatéricas adversas" para justificar a salvação da espécie... e tudo isto sem nunca esquecer os tão elaborados efeitos especiais que em mais do que uma ocasião deixam escapar o helicóptero telecomandado como um real no qual os "nossos" sobreviventes voam pelas paisagens semi-destruídas de uns Estados Unidos ocupados. Resultado final... a desgraça absoluta em algo que se anunciava ruinoso desde o primeiro instante.
Pobre, absurdo e mal executado em todas as frentes, Alien Convergence pode ser o tal exemplar daquilo que "nunca se deve fazer" quando se tenta criar algo diferente... Menos pode ser mais... aqui, essa regra não se confirmou... tudo é menos, e realmente tudo esteve a mais.
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1 / 10
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domingo, 25 de novembro de 2018

Anteu (2018)

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Anteu de João Vladimiro (Portugal/França) presente na competição oficial da XXIVª edição dos Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 1 de Dezembro revela a história de Anteu, nascido numa aldeia isolada e o único jovem adulto existente nas redondezas. Depois da morte da mãe e do sucessivo falecimento do pai, Anteu fica sózinho. Quem é Anteu?!
Dividido em dois segmentos específicos o argumento de Anteu inicia o seu primeiro momento intitulado O Berço e a Cova no qual se explora - tal como está implicitamente retratado no título - o nascimento e a morte das principais personagens... da mãe... do pai... transformando-o no único homem presente na sua aldeia. Num meio aparentemente humilde e onde reinam os silêncios resultantes do desconhecimento do mundo exterior, a excelência deste segmento chega não só através do seu argumento mas principalmente pela qualidade técnica com que se expõe o filme lançando diversos segmentos num aparente tromp d'oeil que fazem transitar de um momento para outro criando ilusões sobre a profundidade e o espaço per si que resultam numa dinâmica de intensidade e imensidão que confundem e atraem o espectador. Como principal mensagem deste segmento permanece a ideia da morte presente... o sentido de fim próximo que paira sobre a existência destas personagens que silenciosamente atravessam a vida sem que nunca ambicionem mais um dia.
É neste marasmo de fim anunciado que surge o segundo momento intitulado A Máquina. Aquele em que Homem e Mecanismo não se confrontem mas se complementam existindo um para satisfazer a necessidade última do outro deixando, no entanto, o espectador incerto sobre como os seus propósitos e fins se irão, de facto, complementar. "Anteu" parece carregar o peso do mundo às suas costas e a sua sentida solidão agudiza-se quando tudo à sua volta parece perdido. O espaço é por ele contemplado como que fazendo o espectador observar uma última despedida apenas interrompida pela execução de uma tarefa que irá determinar tanto o espaço como a sua própria existência no mesmo. "Anteu", jovem homem de poucas palavras irá agora determinar o fim... de tudo. É com o tempo que compreendemos que a sua construção com o auxílio da máquina é a concretização última da sua despedida de um mundo do qual nada mais - se é que alguma vez - pode esperar. Intensamente dramático pela força dos seus silêncios, "Anteu" perde-se e rendeu-se ao único espaço que alguma vez conheceu... possivelmente melhor do que a ele próprio pela ausência de influências externas.
João Vladimiro cria uma curta-metragem que presta homenagem ao silêncio dos espaços perdidos por um país - qualquer um - que se rendeu à urbanização. A desertificação do espaço e do meio levam ao esgotamento dos mesmos e daqueles que neles vivem, rendidos a uma força laboral cujos frutos pouco ou nada serão conhecidos e satisfatórios e levando-os a um desespero que - vivido nesse mesmo silêncio -, terá um fim rápido e compreendido. Pela força das suas imagens e pelo desfecho tragicamente tão silencioso como a vida do protagonista, Anteu prima pela capacidade avassaladora com que (se) entrega e rende a uma desgraça humana tão potente como devastadora. Porque a emoção chega mesmo que, tal como o seu protagonista, o faça em silêncio.
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8 / 10
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sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Alma Clandestina (2018)

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Alma Clandestina de José Barahona (Brasil) é um dos documentários presentes na secção Da Terra à Lua da décima-sexta edição do DocLisboa - Festival Internacional de Cinema a decorrer na capital até ao próximo Domingo.
Maria Auxiliadora Lara Barcellos. Activista política que lutou contra a ditadura no Brasil na década de '60 e que se viu forçada a viver no exílio na América Latina e na Europa depois de períodos de detenção e tortura. Dorinha, como era conhecida pelos que lhe eram mais próximos, suicidou-se em 1976 em Berlim deixando, no entanto, um legado de vida que deve ser novamente analisado.
Depois de Estive em Lisboa e Lembrei de Você (2015) essa obra (não tão) ficcionada sobre a emigração brasileira para a capital portuguesa, o realizador José Barahona regressa com esta obra documental que versa sobre um importante e não tão distante período da História recente do Brasil que não só é pertinente pela sua contextualização histórica como principalmente pelos tempos que hoje o país vive onde a política regride voluntariamente a estes idos anos.
Se em Estive em Lisboa e Lembrei de Você Barahona explora a dinâmica de um cidadão brasileiro em busca de melhores dias para a sua vida, encontrando em Lisboa o tal "eldorado" sob a forma de uma solidão que pode, no entanto, proporcionar-lhe um novo começo - não necessariamente melhor -, em Alma Clandestina o realizador propõe um olhar pertinente, perturbador, não distante e actual sobre a vida de uma activista política que, como tantos outros, incluindo o "Sérgio" interpretado por Paulo Azevedo na já mencionada obra, mais não procura do que uma vida justa e igualitária com todas as oportunidades que são sentidas como merecidas. Mas, bem distante da ficção, aquilo que Alma Clandestina proporciona ao espectador é, para lá de uma história, um relato sobre a crueldade de um regime que (se) impõe eliminando sem qualquer pudor todos os que lhe façam frente.
Foi neste período de ditadura militar iniciado em 1964 e que apenas viria a terminar em 1985 que o Brasil viu não só o seu retrocesso nas liberdades individuais como também culturais o que levou a Maria Auxiliadora Barcellos a uma vida de exílio que a fez passar pelo Chile, México, Bélgica, França e Alemanha. Neste período, distante da sua família e do país onde nascera, a activista viria a estabelecer um conjunto de comunicações com a sua família no Brasil e que Alma Clandestina aborda como uma forma de conhecer não só a política (contemporânea de Dilma Rousseff), como também - e principalmente - a mulher por detrás de toda esta militância.
"Dorinha" é caracterizada por todos como uma mulher forma de aparência frágil. Alguém capaz de discutir assertivamente assuntos sociais e políticos deixando aqueles que a escutavam interessados e conscientes mas, ao mesmo tempo, é o distanciamento desta mulher do seu ambiente natural que a caracterizam como uma mulher de certa forma atormentada com a impossibilidade de uma liberdade vivida nesse seu Brasil cada vez mais distante. Maria Auxiliadora Barcellos viria a morrer - por suicídio - em Berlim em 1976 com 31 anos de idade. Longe da Democracia que tanto ambicionara para o seu país, seriam os tormentos de uma vida "em fuga" que viriam a caracterizar o seu pensamento, o seu comportamento e principalmente a sua queda física e emocional longe desse país que se deixou mergulhar numa ditadura que perseguia, torturava e eliminava aqueles que se lhe opunham. É esta dinâmica, para lá dessa contextualização histórica que é aqui tão bem enquadrada pelo realizador, que se explora dando assim forma à mente e ao pensamento de uma mulher atormentada, fisicamente distante mas mentalmente comprometida com um desejo de liberdade e Democracia que o país não vivia. Num momento é inclusive equiparado ao sentimento de "Dorinha" aquele tido pelos escravos africanos que compreendiam nunca mais pisar a sua terra levados pelos barcos negreiros para as terras de Vera Cruz... banzu... uma profunda nostalgia e saudade que a levaram a querer representar toda uma nova vida nessa clandestinidade que era, também ela, opressora e limitadora na medida em que não lhe conferiam qualquer possibilidade de viver a sua vida nesse Brasil que sempre sonhara e imaginara... o tal no qual "olhava para o céu que a alimenta", revelador da sua extrema esperança nesse lugar comum a que todos nós em liberdade apelidamos de "dias melhores".
Os seus pensamentos inundam os testemunhos daqueles que com ela conviveram assim como as cartas que deixara para trás como desabafos de uma vida... vivida mas saturada... desencantada até. O desencanto pela ideia de um Brasil "caridoso" no qual afirma existir apenas pela inferioridade do ."outro" e que denuncia toda a sua fragilidade emocional e revolta psicológica pela perpetuação de um regime que insistia na diminuição dos que com ele não concordam e até mesmo por uma incerteza que a colocava e aos demais militantes numa condição oscilante entre "exilados" e "banidos" impossibilitando-os de qualquer reconhecimento internacional independentemente do local em que se encontrassem.
Mas, são as memórias desse período de torturas e dos seus torturadores que tudo utilizavam da agressão física e emocional sem esquecer a sexual que, em boa medida, Alma Clandestina apresenta ao espectador. Contrariamente a tantos outros documentários do género, aqui José Barahona centra a dinâmica de uma acção não nos infindáveis relatos sobre o que se passava para lá das paredes de uma qualquer prisão para onde eram levados os opositores políticos mas sim nos testemunhos na primeira pessoa sobre o que por lá acontecia. Não escutamos momentos sobre tortura ou pressão física e psicológica que qualquer um de nós mais atento ou interessado nestes documentos históricos já não conheça de tantas outras obras. Aqui, por sua vez, escutamos os desabafos de uma dessas intervenientes e compreendemos principalmente a sua degradação emocional enquadrando as suas palavras - bem como o que elas escondem - no período histórico em questão e a sua involuntária perda para com esses pensamentos questionando-se o espectador por diversas vezes sobre o trauma que a memória guarda dividindo Maria Auxiliadora em três momentos específicos... um certo ideal de felicidade junto dos seus... a dor e a revolta de um presente de tortura e fuga... e finalmente a compreensão de um futuro que (in)conscientemente reconhecia ser incerto. Para lá de qualquer registo sobre a ditadura - a noção pressupõe (ou deveria) per si toda uma conotação negativa - Alma Clandestina é sim o registo da força de vida de uma mulher mas também das suas ânsias e fragilidades que lentamente a consumiram e se transformaram num desespero crescente e imparável.
Baseado em testemunhos daqueles que com ela conviveram, em diversas das suas cartas e em textos como Continuo Sonhado e Buti, Alma Clandestina é o documentário necessário e pertinente não só enquanto um documento histórico como também enquanto um espelho dos dias que agora estão novamente a ser vividos no Brasil, onde o discurso político ultra-radicalizado ganha toda uma nova dinâmica e no qual parece novamente querer perseguir aqueles que se lhe opõem ou são considerados "inimigos", criando divisões, grupos e segmentos de exclusão e sobretudo uma certa consciência social da existência de um "eu" e o "outro" residindo na primeira pessoa essa ideia de positividade e iluminação que é imediatamente confiscada a todos aqueles que não partilham o mesmo ideal do "líder" e da silenciosa ditadura que se instala... com o consentimento de um povo nem sempre esclarecido e tantas vezes politicamente ignorante que procura um Messias num suposto rosto de lei carismático e igualmente perigoso.
A alma, mesmo enclausurada, nunca se transforma em capturada. O testemunho da vida de Maria Auxiliadora Barcellos aqui trazido ao grande ecrã por José Barahona comprova sim, que pode ser frágil, que pode tremer ou até mesmo viver nessa clandestinidade que o próprio título do documentário assume... Mas é esse mesmo tormento e até mesmo essa clandestinidade que a tornam livre... Livre de escolher o seu dia e o seu amanhã dentro de todas as incertezas que lhe estão inerentes a uma vida que é, de certa forma, vivida num cativeiro a céu aberto, sem paredes ou grades que o tolhem mas que, ao mesmo tempo, não lhe possibilitam a proximidade aos seus e ao que é seu como a mesma desejaria.
Assim, se Alma Clandestina é importante por esta perspectiva histórica e pessoal da vida de uma mulher que é essencialmente intemporal... mais relevante se transforma a partir do momento em que o espectador consciente compreende os dias pelos quais o Brasil, e até mesmo um pouco do mundo, atravessa.
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"Estar vivo e existir não é respirar... É sentir uma pulsação que te empurra."
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8 / 10
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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Anjo (2018)

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Anjo de Miguel Nunes (Portugal) - também argumentista e intérprete protagonista - é uma das curtas-metragens presentes na secção Panorama da vigésima-segunda edição do Queer Lisboa - Festival Internacional de Cinema Queer a decorrer no Cinema São Jorge e que revela uma Lisboa estival testemunha de uma paixão abruptamente interrompida.
Miguel (Nunes) encontra-se numa entrevista para entrada nos Estados Unidos. Pretende encontrar um amigo. Revela a sua paixão. De seguida encontramos o seu apartamento onde, compreendemos, sucedem-se as festas, as reuniões de amigos e a presença d'Ele (Edgar Morais), com quem vive momentos de entrega, cumplicidade e paixão, faz-se sentir na sua memória e nos seus pensamentos.
Da curta-metragem de Miguel Nunes surgem de imediato não só o seu nome enquanto realizador, argumentista, actor e produtor da mesma como também a presença de Joana de Verona e Edgar Morais como seus actores e rostos de uma nova geração de intérpretes portugueses com um percurso cinematográfico já confirmado para conquistarem um novo público para as salas. Se este elemento não fosse por si já suficiente, eis que o espectador encontra na sinopse aquele que poderá ser uma história de amor numa Lisboa contemporânea onde esta nova geração dos 30's ruma sem um destino certo ou vínculos firmes para lá daqueles que são firmados pela lealdade para com a tribo.
Seja nos palcos de um qualquer festival de cinema, nos telhados vizinhos observando uma Lisboa nocturna ou nas inúmeras festas que, não observadas, ocupam longas madrugadas, Anjo centra-se numa dessas figuras... a de "Miguel". Tudo começa com uma entrevista de entrada nos Estados Unidos onde ficamos a saber que ele pretende passar duas semanas da sua vida à procura de um amigo... de uma paixão. A tal paixão estival que lhe ficou na memória e que, por motivos que o espectador desconhece, terminou repentinamente. "Ele" (Edgar Morais) partiu. Os breves momentos que passam juntos são de paixão intensa, de entrega e de cumplicidade. De olhares e pequenas conversas banais entre quem, compreendemos, já se conhece ao ponto de tudo se poder dizer através do nada. Dos passeios pelas ruas aos pequenos silêncios que se partilham, "Ele" e "Miguel" entregam-se nos braços um do outro. Instala-se então a dúvida no espectador que se questiona sobre os porquês desta separação. Não terá sido nada de tão importante como aparentava? Terá "Miguel" sentido algo mais que na realidade nunca existira? Porque se terá confirmado esta distanciamento? Existe um endereço do outro lado do Atlântico mas... será que ainda permanece a tal cumplicidade?!
Interessante do ponto de vista dos tais "ses" que se instalam e mantêm na mente do espectador, a Anjo falta, no entanto, o tal aproveitamento da intenção narrativa para transformar o tal sofrimento da paixão distante, a dinâmica da proximidade dos amigos e o sentimento de busca pelo que já não lhe (a "Miguel") lhe pertence - ou possui - e transformá-lo num drama moderno sobre a procura do amor nesta geração dos 30's ainda tão pouco explorada em cinema. Habituados que estamos a encontrar filmes mais juvenis que exploram a temática do amor - não de forma condescendente mas sobre a tal geração ainda livre de grandes responsabilidades que estejam para lá de aproveitarem a respectiva juventude -, Anjo (tal como Verão Danado (2017), de Pedro Cabeleira que é, curiosamente, da mesma produtora ou mesmo Uma Rapariga da sua Idade (2015), de Márcio Laranjeira) tem todo o potencial para explorar esta dinâmica de uma geração que ainda procura o seu lugar num mundo que parece ter fechado a porta na altura em que a mesma se preparava para sair "de casa" mas, ao mesmo tempo, privou-se de o fazer deixando o espectador com uma mão cheia de incertezas, questões, dúvidas e pensamentos sobre a (não) concretização dessa busca... terá "Miguel" ido para os Estados Unidos... terá "Ele" (Morais) ainda correspondido à tal paixão? Pergunta que é, aliás, levantada pela entrevistadora (deduzimos que na Embaixada) quando "Miguel" revela que não sabe ao certo onde o amigo vive... Ou será que tudo mais não é do que uma reflexão tardia sobre uma busca e um amor que, não tendo sido correspondido, permanece como algo bonito e inalterado na mente daquele que realmente amou?!
Inteligente e perspicaz pela forma como filma esta (já não tão nova) geração que parece procurar, acima de uma estabilidade financeira, uma que também seja emocional, Anjo é, para lá de uma simpática estreia do actor enquanto realizador, um filme ensaio com potencial suficiente para explorar todas as dinâmicas da vida (apresentada) de "Miguel" - com os amigos, com o amor, com a vida de uma forma geral - sob a forma de ma longa-metragem... talvez com um resultado (sobre essa mesma geração) emocionalmente não tão feliz... mas real, crua e ligeiramente esperançosa sobre o tal "dia de amanhã" que a sua personagem aqui aparenta procurar.
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6 / 10
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segunda-feira, 4 de junho de 2018

Ascension (2013)

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Ascension de Thomas Bourdis, Martin de Coudenhove, Caroline Domergue, Colin Laubry e Florian Vecchione (França) é uma curta-metragem de animação que relata, em tom de comédia, as peripécias de uma dupla de alpinistas durante uma escalada a uma montanha enquanto transportam a estátua da Virgem Maria que pretendem colocar no topo como agradecimento (julga o espectador) pela protecção da sua vida.
Os cinco realizadores e argumentistas criam portanto uma história que assume nos instantes iniciais ser uma história de conquista dos próprios desafios e capacidade de ultrapassar os obstáculos (naturais) que são impostos aos protagonistas mas rapidamente se revela como um conto de comédia sobre a árdua batalha rumo ao topo da montanha no momento em que tudo o que é improvável acontece realmente.
Capaz de criar todo um conjunto de exuberantes cenários naturais com uma enorme qualidade, Ascension catapulta o espectador para breves minutos de grande humor, de assumidos desastres humanos num cenário que não perdoa (e não perdoou pelo que o espectador observa junto de uma das personagens protagonistas) sem esquecer que os desafios mais intensos e perigosos são aqueles que ficarão guardados na memória dos mesmos... custe o que custar.
Capaz de um bom entretenimento, de criar heróis e vilões (naturais) e uma imagem imaculada de uma Virgem Maria que também não escapa às agruras de uma impiedosa montanha, Ascension termina tal como deve... com humor, boa disposição, a esperada moral e uma homenagem àqueles que se sacrificam no mais adversos dos meios naturais, sem esquecer que como pano de fundo o espectador encontra toda uma recriação de cenário natural ecologicamente preservado... mesmo com a desastrosa intervenção do Homem sempre pronto para se afirmar no mais inesperado dos locais. No entanto, tudo na vida deixa as suas marcas...
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7 / 10
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Arch (2017)

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Arch de Preston Yarger (EUA) é uma curta-metragem cujo argumento da autoria do próprio realizador, centra a sua dinâmica num futuro pós-apocalíptico onde a sobrevivência da Humanidade está comprometida por todos os comportamentos desviantes que resultaram das suas gerações sem valores. Uma história onde a jovem Lilly (Lainee Rhodes) trava uma improvável amizade com M1K3 (Anton Weidner), um guerreiro do deserto com o rosto tapado nascido das areias do escaldante deserto nuclear que tenta atravessar. No entanto, pelo caminho têm de passar pela perdição de uma nova Babilónia...
Num estilo - e sentido moral - muito próximo daquele iniciado por George Miller em 1979 com o clássico Mad Max, Arch é um conto futurista onde o futuro, tal como o poderíamos imaginar hoje, não existe. Desconhecendo se o resultado de uma qualquer guerra nuclear - ainda que todos os indícios estejam lá - ou o fruto de uma total e completa degeneração do planeta e da sua junção com os efeitos de uma radioactividade solar, a única certeza que é imediatamente passada ao espectador é que o mundo (de uma forma geral) morreu... e os poucos abrigos ou "paraísos" na Terra... são escassos, de difícil acesso ou até mesmo improváveis. No entanto, é também nesta dinâmica que reside aquele que é provavelmente a maior fragilidade de Arch.
O interessante e distinto ambiente pós-apocalipse é sempre um atractivo para todos os apreciadores do género que seguem atentamente qualquer obra cinematográfica deste estilo. Dito isto, será expectável que o mesmo cinéfilo já conheça um número significativo de obras para, por um lado reconhecer onde se encontra a qualidade - do argumento, das interpretações ou dos infindáveis elementos técnicos - quer por outro, perceber todos os "piscar de olhos" que o(s) realizador(es) fazem às obras onde foram beber inspiração. Se Arch é um filme interessante na sua dinâmica e extremamente bem executado no que diz respeito à construção de um protagonista/anti-herói que no silêncio dos seus actos vinga os "puros" por entre a Humanidade, o espectador mais atento não esquece todas as referências que esta simpática curta-metragem faz a obras como a já quadrilogia Mad Max onde o pós-"fim", a inocência das crianças, as eternas comunidades de bandidos, o guarda-roupa, a caracterização, o deserto e até mesmo o justiceiro "sem rosto" (ou sem nome) vingam a Humanidade salvando aqueles que poderão construir um futuro melhor. Na prática... tudo já explorado na obra protagonizada por Mel Gibson e, mais recentemente, por Tom Hardy, não deixando Preston Yarger grande espaço para elementos inovadores na sua obra mas, ao mesmo tempo, estando consciente da qualidade das especificidades técnicas que apresenta no seu trabalho final nomeadamente no que diz respeito à direcção de fotografia de Austin Jacobsen que cria uma inesperada e autêntica atmosfera desse "fim" com toda a luminosidade quente de um deserto que esconde o pouco que sobra desse mundo que agora poucos ou nenhuns (re)conhecem.
Com um bom ritmo e interessante enquanto obra do género Arch é, mesmo sem grandes elementos inovadores para lá do misticismo criado em torno de "M1K3", uma bem sucedida curta-metragem do género e um bem pensado ponto de partida para aquilo que poderá (também no futuro) ser o início de uma longa-metragem mais completa e onde tudo - principalmente as personagens - possam adquirir uma maior profundidade.
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6 / 10
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domingo, 3 de junho de 2018

Alone Time (2013)

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Alone Time de Rod Blackhurst (EUA) é uma curta-metragem de ficção baseada em factos verídicos que revela um breve momento na vida de Ann (Rose Hemingway), uma jovem mulher saturada da sua agitada existência em Nova York e que decide retirar uns dias na floresta. Encantada por poder relaxar e tirar algumas horas de prazer junto da natureza, estará Ann assim tão solitária quanto a vida que deixará para trás?
O realizador e David Ebeltoft deixam com esta obra um marco do terror moderno ao qual o espectador está incapaz de fugir pela sua intensa dinâmica de inevitabilidade face aos comportamentos sociais de um mundo moderno que não só não se controlam como podem facilmente ganhar proporções que estão para lá do controlo de cada um de nós. Por outras palavras, quando é que uma vida vivida no meio de toda uma constante agitação diária deixa, realmente, de ser vigiada? E, dentro desta suspeita do controlo alheio sobre os nossos próprios comportamentos... até que momento está cada um de nós livre dos olhares mais ou menos indiscretos dos infindáveis anónimos com quem nos cruzamos diariamente?
Partindo desta premissa encontramos "Ann", uma jovem mulher saturada das rotinas e das obrigatoriedades diárias que a deixam assoberbada e entregue a um incapacidade de fugir à tal rotina que a condiciona em todos os seus desejos... Afinal, alguém havia confirmado que a tal vida "adulta" iria ser assim tão aborrecida? Ao acompanharmos a sua rotina, compreendemos que a sua realidade é banal e desinteressante... comportamentos sociais vividos num perfeito anonimato e uma quase inexistância de amigos condicionam-na a uma vida em que o trabalho é o mais real substituto de qualquer contacto humano - per si -, e os poucos momentos que percebemos - sem nunca os confirmar - em que poderá existir vida para lá das quatro paredes do escritório ou até da sua casa, são rapidamente substituídos pela sua crescente vontade de viver uma aventura... sózinha. No entanto, até que ponto algo ou alguém não a estará a seguir da cidade para a floresta? Sob que realidade estará ela realmente sózinha considerando que as provas de que na cidade é observada por alguém que a persegue incansavelmente e que, também ali, poderá estar a ser silenciosamente perseguida?
Alone Time é assim a lenta constatação de que quer no campo quer na cidade, "Ann" é o rosto de um conjunto de vidas vividas num semi-anonimato apenas interrompido por breves momentos ou situações nas quais poucos - se é que alguns! - a conhecem de facto e que podem testemunhar, com segurança, a sua existência. Assim, e dominando o seu destino (assim o pensa), "Ann" tentará viver uma nova experiência confiante na sua segurança e que apenas será abalada no momento em que percebe que a sua solidão é, afinal, vivida na companhia de alguém que desconhece mas que a conhece melhor do que ela poderia imaginar de alguém que partilhasse todos os seus momentos in loco. "Ann" é então ensombrada com a realidade de que existe mais alguém na sua vida... mas alguém que conscientemente nunca viu... alguém que conhece os seus hábitos, os seus locais, os seus momentos e instantes e sobretudo que a acompanha a todo o momento. Desta forma, o verdadeiro terror não chega sob uma qualquer forma sobrenatural mas sim pela imediata percepção de que existe (mais) alguém a seu lado para lá dos inúmeros anónimos - ainda que não deixe de o ser - que a capta na sua mais intensa vulnerabilidade sem nunca se fazer anunciar.
Ainda que Rose Hemingway tenha uma sólida interpretação enquanto uma jovem mulher "perdida" na grande cidade, é o argumento da dupla Blackhurst e Ebeltoft que prende o espectador a um imaginário de mundo globalizado - que é pequeno - e à compreensão daqueles pequenos grandes indícios que revelam que existe mais para lá do óbvio mas ao qual, na realidade, poucos de nós prestam atenção e principalmente que neste mundo moderno onde a solidão é o modus vivendi das grandes cidades, o perigo espreita do mais inesperado local pelo momento certo para se fazer notar destruindo todas as convicções que qualquer um de nós tem sobre o seu ideal de segurança.
Centrado no seu próprio passo mas intenso pela dinâmica em que revela o seu lado mais negro, Alone Time é sem sombra de dúvida um daqueles filmes curtos que o espectador não irá esquecer pela sua assustadora realidade e intimidante presença.
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7 / 10
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terça-feira, 22 de maio de 2018

El Amor (2016)

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El Amor de Álvaro Oliva (Espanha) é um brevíssimo conto sobre o curso (ou ciclo) do amor onde, tal como uma laranja - analogia aqui utilizada -, este é visto como um todo, separado para perceber quando conteúdo (ou sumo) tem e, finalmente, espremido para compreender a sua consistência, o seu sabor e essencialmente se pode saciar uma necessidade afectiva ou sentimental no seu pleno.
Interessante e inteligente pela analogia criada e pela forma como de uma laranja - ácida ou doce nunca saberemos - se transforma toda uma directa relação com o amor ou, pelo menos, com aquilo que dele se espera mas, ao mesmo tempo, a curta-metragem de Álvaro Oliva parece um anúncio publicitário sobre um qualquer produto que se irá comercializar mas do qual nunca se revela a marca. Intencionalmente inocente? Propositadamente pseudo-intelectual? El Amor é uma curta-metragem para lá da analogia coerente que reside apenas num imaginário de publicidade que nunca chegou a ser e, como tal, um igualmente filme curto que deixa o espectador com a dúvida sobre as reais intenções do realizador - ou pelo menos da sua substância e consistência - e que poderia ter explorado a mesma um pouco mais além.
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1 / 10
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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Abuelo (2018)

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Abuelo de Caque Trueba e Juan Trueba (Espanha) é uma das curtas-metragens presentes na secção Cantábria da nona edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos que termina amanhã, na referida região espanhola.
Uma estação de serviço. É noite. Um carro que se aproxima e deixa um homem idoso (Txema Blasco) sem qualquer noção de onde se encontra.
A curta-metragem da dupla Trueba&Trueba é um verdadeiro e positivamente intenso desafio ao espectador que se deixa prender pelas imagens ternas que presencia da soberba interpretação de Txema Blasco para, já bem perto do final, se deixar levar por aquele sentimento de perda e de espanto que o desfecho desta história apresenta.
Inicialmente, esta história assinada por Caque e Juan Trueba apresenta-nos um espaço perfeitamente banal onde, na calada da noite, nada aparenta poder suceder. É calma e lentamente que compreendemos que esta estação de serviço - 24 sobre 24 horas - tem, eventualmente, uma vida mais assustadora de noite do que aquela que presenciará durante as horas em que o sol a banha. Aqui, e sem se fazer anunciar, esta história apresenta as tais "horas mortas" de uma profissão que tem tudo para ser banal, desinteressante e incapaz de proporcionar qualquer tipo de motivação para aqueles pobres perdidos que se deixam tomar conta da mesma... Até que o espectador depara com a presença, inicialmente misteriosa, desde homem mais idoso que nos cativa pela presença dinâmica de um sorriso que é semi-cúmplice para com a sua co-protagonista.
Os momentos em que ambos partilham o ecrã são, declaradamente, mágicos. A cumplicidade e a faísca que partilham no ecrã deixam o espectador primeiramente curioso, depois rendido e finalmente cativado pela potencial relação que ambos - de diferentes gerações - partilham e pela comunicação que estabelecem confirmando que aquilo que os une - neste caso a música - está para lá de qualquer outra forma manifesta de comunicação... verbal incluída. É, no entanto, quando o turno da jovem muda que ela profere a primeira palavra (para o colega que a substitui) que deixa o espectador num inesperado sobressalto que o deixa a questionar(-se) sobre aquilo que verdadeiramente observa naquela suposta química... "outro!" - profere a jovem.
Aquilo que a subsequente história nos apresenta, é uma inesperada e brilhante analogia que caracteriza, acima de tudo o demais, uma pertinente e presente questão social que compara aqueles cidadãos que, na terceira idade e privados de família - voluntariamente ou não -, são considerados meros animais enjaulados e passíveis de ser escolhidos por famílias que, tal como num canil, decidem escolher qual a sua companhia para o próximo Verão.
Independentemente de qualquer indesejada revelação que o espectador mais atento a estas palavras possa sentir, Abuelo é um daqueles filmes maiores que sai vencedor da sua curta duração pela pertinência com que conta - de forma magistral - uma história actual, sentida, sofrida e que é um claro e brutal piscar de olhos a uma sociedade indiferenciada, desinteressada e claramente ocupada com problemas mundanos que opta por esquecer aqueles que, também por ela, já cumpriram a sua penitência e os seus dias para garantir um futuro melhor para os que estão porvir... Intensa e crua, a história que a dupla de realizadores aqui se propôs (e bem) a contar, confere ao espectador uma empatia inicial, uma desconfiança intermédia e uma repulsa final que faz desta história um conto social mas também uma bruta história de terror onde este se esconde não pela criação ou existência de um qualquer monstro mas sim pela compreensão de que esse se esconde por detrás de rostos normais e com os quais todos nós habitualmente nos cruzamos na rua (e por vezes até ao espelho), assumindo não só o seu talento enquanto jovens criadores e contadores de histórias capazes de (nos) deixar pensar o que seria desta história se, em vez de uma curta-metragem, fosse uma longa onde ao fim de noventa minutos de intensa empatia com o magistral Txema Blasco... o desfecho fosse o mesmo?! Se em tão breves minutos o murro no estômago dado ao espectador é assim tão forte... o que aconteceria se esta convivência com tão dócil personagem fosse estendida? Que mais dele conheceríamos? Seria possível criar uma ainda maior empatia?
Intenso, bruto, cru, social, assustador, medonho e até mesmo terno à sua vez, Abuelo é aquela história que certamente irá marcar o percurso cinematográfico desta dupla de realizadores bem como toda uma competição oficial Cantábrica repleta de bons e diversos filmes curtos.
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9 / 10
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quinta-feira, 3 de maio de 2018

Alleycats (2017)

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Alleycats de Alejandro Jiménez e Bernardo González (Espanha) é uma das cinco curtas-metragens presente na respectiva secção da nona edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos a decorrer na Cantábria, em Espanha até ao próximo dia 5 de Maio.
Nail é o último guerreiro do Clã dos Siameses. A sua viagem para território inimigo tem apenas um propósito... vingar a morte do pai.
O realizador Alejandro Jiménez escreve o argumento desta curta-metragem num ambiente que, influências à parte, leva o espectador nascido na década de '80 a recordar o clássico de animação Thundercats (1985) numa atmosfera onde ainda se podem encontrar referências ao cinema japonês e, tudo mesclado, num estilo muito Tarantiniano. Tudo começa como uma história de vingança... salvar a honra da família num mundo (ou sociedade) em que o bom nome foi manchado e onde a morte parece ter encerrado um domínio familiar para dar lugar a outro mais corrupto, desonesto e onde a força faz comandar o espaço.
Numa história que cruza a violência numa dinâmica de justiça com a vontade extrema de uma honra perdida, Alleycats transforma a tradicional história de animação num intenso conto repleto de acção e aventura sem esquecer que tudo aquilo que o passado construiu pode, através dessa vingança, voltar a repetir-se. Porque as dinâmicas se constroem e porque nada é deixado ao acaso, esta curta-metragem de animação da dupla Jiménez e González fascina o espectador desde o primeiro instante não só pela sua história como principalmente pela excelência da animação per si e por todo o mundo alternativo aqui criado onde gatos são donos e senhores das cidades que habitam assumindo as suas posturas - ainda que humanizadas - de senhores todos poderosos de um mundo que está na prática dominado por velhos cartéis do crime.
Intenso, repleto de acção e radicalmente inovador, Alleycats deixa, no final, a sensação de que esta história poderia ter ido muito mais longe na sua dinâmica - que nunca perderia o seu ímpeto aventureiro -, e com a certeza (ou pelo menos esperança) de que esta poderá não ser a última vez que o espectador está perante as aventuras destes tão intensos protagonistas.
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8 / 10
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domingo, 22 de abril de 2018

Another Lisbon Story (2017)

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Another Lisbon Story de Claudio Carbone é um documentário luso-italiano exibido no âmbito do Festival Política a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Numa Lisboa cada vez mais cosmopolita é impensável a existência de bairros-favela nos arredores da capital. O Bairro da Torre, perto do aeroporto, é disso exemplo. Sessenta e duas famílias resistem num bairro sem quaisquer condições de saneamento básico ou infraestruturas reclamando-as em nome de uma vida melhor e digna.
Num mundo em constante transformação, a centralidade das cidades e da sua área metropolitana deslocou-se em relação ao passado. Aquilo que anteriormente eram bairros periféricos erguidos em locais que se distanciavam do centro são agora os espaços que a cidade reclama em nome de um crescimento frenético que os aproxima desse referido "centro". Assim, e numa análise próxima das realidades de uma comunidade que foi esquecida ao longo dos anos, Another Lisbon Story - num claro piscar de olhos à obra Lisbon Story (1994), de Wim Wenders e da sua Lisboa romântica, histórica e melancólica - primeiro faz com que o espectador conheça esta população perdida num tempo incerto às portas de uma cidade que, finalmente, chegou até às suas portas para, de seguida, revelar todo um conjunto de vontades e iniciativas que visam a recuperação destes bairros e das realidades de quem neles vivem tomando como exemplo outros já bem sucedidos - como é o caso da Quinta do Mocho e, por exemplo, os seus murais artísticos como ponto de referência artística e urbana - tentando exportar para o Bairro da Torre não só esta recuperação e iniciativa como também fazer-lhe chegar todo um conjunto de elementos básicos como, por exemplo, o saneamento básico, a canalização e mesmo a própria limpeza do espaço que parece ausente do mesmo há décadas.
Dos interesses da Faculdade de Arquitectura aos poderes políticos da cidade sem esquecer, claro, as vontades e necessidades da população que começam com a simples comparência da mesma nas diversas reuniões efectuadas onde não só se conhecem rostos como principalmente vontades, Another Lisbon Story termina com um conjunto de sentidas vontades e esperanças que culminam com a "construção" de um pequeno espaço para que as crianças brinquem e se possam fazer cumprir nestas pequenas gerações os sonhos que até então foram perdidos.
Embebido num espírito de registo-denúncia (sem apontar directamente o dedo ao acontecimento mas sim à necessidade de transformação que é notória), e com apontamentos musicais de André David, este documentário luso-italiano expõe ainda de forma francamente interessante a mescla pacífica de etnias numa comunidade onde tudo escasseia - menos a dignidade - como um interessante elemento da vida da própria cidade da Lisboa multicultural e a necessidade da integração de todos os espaços da mesma como centros de realidades diversas que não podem - ou devem - ser esquecidas. Desta forma, e sem esquecer que Lisboa não é apenas a Baixa Pombalina ou os bairros históricos como, por exemplo, Belém ou tão pouco toda uma nova área recuperada no Parque das Nações, Another Lisbon Story insiste na vontade de fazer ver - e principalmente crer - que Lisboa é uma cidade em franco crescimento que tem, no entanto, uma franja populacional em franca necessidade de fazer cumprir o fundamental... a concretização da sua própria dignidade e reconhecimento como uma parte integrante da mesma.
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7 / 10
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sábado, 7 de abril de 2018

A Casa Tutti Bene (2018)

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Cá por Casa Tudo Bem de Gabriele Muccino é uma longa-metragem italiana presente na secção Panorama da décima-primeira edição da Festa do Cinema Italiano a decorrer até ao próximo dia 12 de Abril no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Nas bodas de ouro de Pietro (Ivano Marescotti) e Alba (Stefania Sandrelli), toda a família reúne-se na ilha de Ischia na costa de Nápoles. Num encontro onde predomina a música e as conversas entre família, cedo se descobrem os pequenos grandes assuntos que ensombram as suas relações ao mesmo tempo que uma tempestade se abate sobre a região e faz desvendar todos os segredos que ninguém parece querer revelar.
Como em todas as relações familiares, também nesta existe todo um conjunto de assuntos e momentos que se ocultam nas dinâmicas entre os seus membros. As traições, a falta de amor, a idade adulta que começa a distanciar aqueles que outrora foram próximos ou, até mesmo, as dificuldades financeiras como um prenúncio de um qualquer falhanço naqueles que por ela passam. Gabriele Muccino e Paolo Costella assinam então o argumento de A Casa Tutti Bene transformando-o numa história moderna sobre uma família tradicional na medida em que recupera os velhos valores de união e respeito pela instituição familiar mas, ao mesmo tempo, revelando-a como um espaço de segurança sim... mas que solidifica também a sua inserção num mundo diferente daquele tido no seu núcleo aproximando-o, dessa forma, de toda uma dinâmica deste século XXI onde a paciência e a dedicação àqueles que partilham o mesmo sangue não é tão intensa como a esperada e onde cada um vive os seus próprios problemas.
Do adultério à falta de amor, das aparências às famílias desfeitas, aquilo que acaba por ser revelado em A Casa Tutti Bene é que a própria instituição familiar pode sair abalada de todos aqueles silêncios que se revelam como pequenos mas que com o tempo e com o desgaste se tornam grandes elefantes na sala sobre os quais ninguém quer falar - lugar comum à parte -, e que condicionam não só a dinâmica entre os vários membros da família como principalmente dentro do próprio "eu" individual que assume uma constante representação para com os demais ao ponto de (por vezes) poder ser insuportável. Esta dinâmica revela-se na longa-metragem de Gabriele Muccino quando o espectador observa os comportamentos e as relações familiares - por exemplo - à mesa onde os silêncios se acentuam, onde as revelações se ocultam e sobretudo nas assumidas trocas de olhares que comunicam mais do que qualquer conversa que se possa ter. É então que se compreende que a própria casa que a tanto já assistiu e que, na mesma medida, tanto já ocultou, que se descobrem conversas perdidas, silêncios confirmados, histórias recuperadas e uma constante nostalgia naqueles que partilharam, em tempos, aquele espaço ao qual agora regressam fazendo deslindar toda a alma do próprio espaço que se assume como uma personagem não oculta mas, ao mesmo tempo, não necessariamente confirmada.
É ali, fechados naquele espaço que, numa única noite, se descobrem todas as histórias individuais, todos os lamentos, todas as dores, sofrimentos e preocupações revelando, já bem perto do final, que ao observá-la - à casa - vazia, se compreende a sua verdadeira alma, as suas memórias e sons fundidos em cada um daqueles que por ela passaram e, por esse mesmo motivo, acaba por ser o renascer de uma dor constante ao confirmarem que o seu regresso àquele espaço não é tanto um regresso às origens mas sim às recordações que não poderão voltar a viver.
Sempre com um toque de comédia trágica ou drama cómico, A Casa Tutti Bene vive com as inspiradas interpretações de Pierfrancesco Favino, Stefano Accorsi, Claudia Gerini, Carolina Crescentini ou Valeria Solarino entre tantos outros que se revelam como portadoras de toda uma intensa história pessoal - das suas personagens - e que, no geral, não só contribuem para esta dramatização como, ao mesmo tempo, também se transformam num seu elemento mais frágil na medida em que o espectador espera descobrir mais sobre cada um deles não tendo, no entanto, mais do que aquela pequena revelação sobre a dinâmica entre personagens e não tanto sobre os dramas individuais de cada um deles.
Descontraído de uma forma geral mas com um acentuado toque melancólico, A Casa Tutti Bene leva a que o espectador reflicta sobre a sua própria família, sobre o seu passado e sobre os seus lugares partilhados para a compreensão única que nem tudo é (foi) perfeito mas que cada uma daquelas pessoas e cada um daqueles espaços contribuiu de forma determinante para a realidade que hoje cada um de nós vive e experimenta diariamente.
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6 / 10
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sábado, 17 de março de 2018

Assobializo (2016)

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Assobializo de Natércia Lameiro é um documentário em formato de curta-metragem presente na secção competitiva Leira da quinta edição do Leiria Film Fest que hoje termina no Teatro Miguel Franco na cidade beirã.
Célia trabalha na loja e fábrica de cerâmica de família. Mas Célia tem um sonho que a levou a fazer parte de um curso de música... O primeiro na Europa de assobio.
Tecnicamente interessante pela forma como expõe uma - digamos - "arte" até agora desconhecida, Assobializo é aquele documentário que deixa o espectador incerto sobre o seu propósito fundamental ou tão pouco esclarece sobre os destinos da sua "personagem" principal que é, pelo que a sinopse indica, um dos motores do surgimento deste curso que agora é professado numa escola artística. Por outras palavras, se a perplexidade do tema aqui focado deixa o espectador com algum interesse sobre os meandros do mesmo - ainda que por um misto de mórbida curiosidade ou comédia sobre o mesmo -, não deixa de ser uma igual verdade que essa mesma curiosidade e interesse se dissipam quando Assobializo se dispersa por algum juntar de meras banalidades que apresentam a temática mas que, ao mesmo tempo, nunca os desenvolve de forma a apresentar o antes e depois desta estranha arte.
Assim, e ainda que este documentário consiga cativar o interesse do público graças à sua temática, não deixa de ser um facto que o mesmo se perca quando nada é desenvolvido o suficiente para que o espectador se deixe levar pelos encantos - ou falta deles - de uma estranha e invulgar sensibilidade artística dos seus intervenientes.
Interessante sem passar do levemente morno, Assobializo termina no exacto momento em que o espectador ainda se debate com a estranheza e perplexidade de uma (recente) arte que mais parece apenas preencher os encantos privados de um qualquer dote individual que, na realidade, dificilmente poderá encontrar o seu caminho.
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3 / 10
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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Les Affamés (2017)

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Les Affamés de Robin Aubert é uma longa-metragem canadiana que recupere o género zombie dando-lhe todo um simbolismo facilmente aplicado aos dias que hoje vivemos.
No Quebèc rural encontramos um grupo de sobreviventes entre os quais se destaca Bonin (Marc-André Grondin), que percorre caminhos e florestas em busca daqueles que se escondem dos que ficaram afectados por uma inexplicável epidemia que os condenara a uma sobrevivência graças ao consumo de carne humana.
Num misto de filme de sobrevivência pós-apocalíptica, renascer dos mortos-vivos e drama existencial, Les Affamés é uma invulgar história de fim de mundo onde talvez nem os que sobrevivem estejam isentos de uma forma de existência diferente daquela que habitualmente conhecemos no género.
Aubert cria com o argumento de Les Affamés a tradicional história de mundo pós o seu fim sem que, no entanto, forneça qualquer indício sobre as origens de uma qualquer epidemia que lançasse os sobreviventes nesta difícil luta pela existência. Aquilo que é fornecido ao espectador são breves indícios de que esta mesma epidemia lança aqueles que são afectados num estado de voraz apetite por carne humana sem que, no entanto, os prive de uma total consciência do estado em que se encontram. Prova disso... os momentos iniciais do primeiro ataque na floresta onde uma estranha mulher parece sorrir a uma das suas vítimas antes mesmo de a atacar. Estaremos perante alguma consciencialização post-mortem? Ou simplesmente um estado de aniquilação do Homem por si próprio como uma vontade extrema de pôr um fim à destruição do planeta pelo mesmo? Não esqueçamos como factor que o possa comprovar, o facto de que estamos uma vez mais numa região interior mas... isolada do mundo exterior por um vasto manto florestal que tudo distancia e esconde a existência de "algo mais" para lá dos seus limites.
Mas regressando um pouco atrás, Les Affamés deixa no ar uma certa incerteza - para o espectador - que se confronta com uma história com larga inspiração em clássicos como Night of the Living Dead (1968), de George Romero ou 28 Days Later... (2002), de Danny Boyle onde os infectados estão, de facto, numa patamar existencial diferente da sanidade mas que, ao mesmo tempo, se perdem numa certa acção concertada de sobrevivência dessa nova existência ao atacar aqueles que ainda não fazem parte do grupo mas que, ao mesmo tempo, não parecem deixar vestígios dos seus actos... por outras palavras, não mordem os não-infectados para comer mas sim para os transformar na realidade a que (agora) pertencem. Afinal, ao longo de toda esta história... encontramos vestígios dos humanos já... devorados?! Ou, mesmo no primeiro atacado concertado na floresta, estariam todas aquelas crianças dominadas e a agir como agente sensibilizador de quem por elas passe ao refugiarem-se nas árvores como vítimas de um qualquer mal?! Nesta perspectiva, e dando credibilidade à mesma, qual o papel de uma jovem "Zoé" (Charlotte St- Martin) que surge ao grupo após este ataque na floresta, como uma jovem indefesa mas que, afinal, poderá ser algo mais do que isso dando credibilidade à possível nova existência... "humana"? A dar crédito a esta teoria e de que existe uma nova consciencialização zombie estão ainda, por exemplo, momentos como aquele em que ela é quase atacada por um zombie num túnel em que é deixada ou quando o jovem desportista já bem perto do final a socorre levando-a para novos territórios... ainda por "explorar"... perante o seu ar totalmente tranquilo face a toda uma desgraça que dizimara aqueles que a acompanhavam... Poderá ser esta a forma de se propagar um novo vírus que, afinal, sabe como preservar a sua existência?!
Existe ainda uma prova desta consciencialização quando observamos estes "infectados" a venerar objectos da sua vida "anterior"... se os electrodomésticos servem como fonte de veneração para uns e as cadeiras como símbolo de um poder para outros, esta teoria ganha forma quando a jovem "Zoé", já solitária no mundo, passa por uma outra coluna apenas composta por brinquedos provando que os seus autores serão eventualmente as inúmeras crianças daquelas terras agora perdidas.
Entre a questão de uma nova forma de consciencialização fruto da epidemia, da libertação da Humanidade dos seus bens e posses materiais à forma como o vírus de propaga ou mesmo a uma certa questão ambiental que deriva da elimação do vírus "Homem", Les Affamés constrói uma certa dinâmica de filme que consegue ser fiel ao inerente princípio do final dos tempos mantendo o nível de suspense sempre alto no que à intensidade e à tensão diz respeito constituindo-se, no final, como um dos mais recentes e notáveis filmes de género. Pausado mas intenso, contemplativo até sem nunca descaracterizar a narrativa em si, Les Affamés pode apenas "perder" por não ser uma grande super-produção de Hollywood... porque quanto a todos os demais elementos sai como um claro vencedor.
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7 / 10
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segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Aus dem Nichts (2017)

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Uma Mulher não Chora de Fatih Akin é uma longa-metragem alemã com a interpretação protagonista de Diane Kruger que dá corpo a Katja, uma mulher que perde o marido e o filho num atentado e que, pela falência da justiça decide procurar vingança pelas próprias mãos.
Akin e Hark Bohm criam o argumento desta história numa altura em que a Europa vive uma certa crise de identidade e renascimento de movimentos de extrema-direita que defendem uma "limpeza étnica" do continente. Pertinente desde o seu momento inicial, Aus dem Nichts divide-se em três momentos chave tendo iniciado a sua dramatização no repentino mas fulgurante casamento de "Katja" com "Nuri" (Numan Acar), um curdo emigrado na Alemanha que, percebemos mais tarde, não só vive(u) uma vida rebelde que o levara à prisão como também não reúne a aprovação da família alemã da sua mulher. Assim, o primeiro segmento A Família, tem início no momento imediato à explosão que vítima marido e filho de "Katja" e em que surgem as primeiras suspeitas sobre a vida de "Nuri" e as práticas criminais a que poderia estar ligado bem como os elos familiares que lentamente se começam a desfazer.
O segundo segmento apelidado de Justiça está directamente ligado como as práticas judiciais de construção da acusação aos dois suspeitos do acto terrorista - e implicações com movimentos de extrema-direita -, assim como a compreensão de que apesar do caso ter contornos que o tornam claro sobre a culpabilidade dos mesmos, estes são ilibados por meras questões técnicas. Finalmente, o terceiro e último segmento O Mar, no qual se explora a viagem de "Katja" à Grécia, onde se encontram os homicidas da sua família, e onde planeia a sua vingança pessoal longe dos artifícios de uma sociedade democrática e justa mas que se perde ou deixa levar pelas questões técnicas da mesma que nem sempre possibilitam a execução rápida e eficaz da justiça.
Fragmentação do argumento à parte, Fatih Akin e Hark Bohm criam portanto uma história pertinente e actual na medida em que a mesma explora uma dinâmica de insegurança e atrofio da sociedade europeia moderna. Sociedade essa onde os movimentos extremistas de direita exploram e pervertem um dos pilares do continente - a multiculturalidade das sociedades - tentando impôr uma visão muito própria da eugenização e arianização da mesma, expondo e eliminando as famílias mistas, a miscigenação cultural e, finalmente, uma ordem já tentada mas felizmente extinta no continente. Pertinente ainda sobre a abordagem da ineficácia e incapacidade da justiça em responder a estes crimes, e atentados contra a liberdade individual dos seus cidadãos, que proliferam em algumas das sociedades do leste europeu e que levantam questões sobre, em que medida, existe de facto uma capacidade de viver em liberdade quando tantos atentam contra a mesma mas... recorrendo ao seu princípio e ideal.
No entanto, é por detrás de um bom argumento que vive um rosto capaz de expressar todo esse tormento emocional sobre a (in)segurança de um cidadão mas, sobretudo e porque aqui Aus dem Nichts se prende com essa dinâmica, sobre o sofrimento, a dor e a perda de uma mãe que é explorada e central através da fabulosa interpretação de Diane Kruger vencedora do prémio de interpretação no Festival Internacional de Cinema de Cannes. O espectador acompanha-a em três dinâmicas distintas desde a felicidade enquanto matriarca de uma família que espelha (inconscientemente) os valores dessa nova Europa multicultural até à perda e à expressa sensação de que todo o mundo à sua volta terminou e, finalmente, reconhecendo-lhe a perspectiva de uma mulher que compreendeu e se rendeu à sua evidente nova realidade... de que ela é a única capaz não só de fazer vingar a morte da sua família como principalmente fazer aquilo que legalmente ninguém faz... justiça... nem que para tal tenha de sacrificar a sua própria liberdade... e a sua própria vida.
Com um passo muito próprio típico das obras de Fatih Akin que explora em boa medida as margens dessa sociedade europeia já não tão homogénea como alguns ainda tendem a crer, Aus dem Nichts é a homenagem última ao desejo dessa nova realidade onde existe a compreensão de que os tempos finalmente mudaram, em que as sociedades, as famílias, os espaços e até as próprias culturas não estão ameaçadas pela diversidade mas sim enriquecidas pela mesma sendo que, no entanto, é necessário um total e constante estado de alerta - e agilização da justiça - para que esta liberdade, nova realidade e segurança não sejam ameaçadas por aqueles que (vindos de onde vierem) a consideração como a "verdadeira" ameaça a um estado (ou modo) de vida que apenas existe nas suas mentes presas ao passado.
Intenso e dramático Aus dem Nichts é, para lá de uma das mais intensas histórias do realizador Fatih Akim, uma forte revelação do cinema alemão e ainda uma dinâmica história sobre a força e o poder do verdadeiro amor capaz de sobreviver a todas as formas de provação e a prova de que num breve instante... tudo pode mudar perante os nossos olhos.
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8 / 10
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