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quarta-feira, 21 de maio de 2025

A Mestra (2024)


A Mestra de Silvana Torricella (Portugal) é uma das curtas-metragens presentes na competição oficial de documentários do Leiria Film Fest e que revela a história de Eudosia Lorenzo Diz, uma jovem professora espanhola que durante a Guerra Civil se refugiou na região de Castro Laboreiro, em Portugal. A sua história, aqui contada pelos filhos Paul e Yvonne Feron, revela cicatrizes ainda sentidas, uma vida vivida longe do seu espaço que, na realidade, se encontrava apenas a poucos quilómetros de distância e uma fuga que atravessou pontes, lugares e dita fronteira que não era apenas geográfica.
O mais curioso desta curta-metragem - a qual senti francamente próxima por parte desta história parecer muitas daquelas que me foram passadas ao longo dos anos por familiares mais a sul no Alentejo - centra-se precisamente no facto desta fuga e desta vida ter sido escondida "às claras" bem próxima da dita população autóctone agindo e comportando-se como um dos demais mantendo assim suspeitas e desconfianças à margem. No fundo esta história deu corpo àquele velho ditado do "escondido à vista de todos" ou "quanto mais à vista melhor escondido está". Foi esta a realidade de muitos refugiados vindos de Espanha naqueles duros anos da Guerra Civil que tentaram encontrar em Portugal, um país que vivia também a sua própria ditadura fascista, mas que aqui viram a sua luz ao fundo do túnel tentando fugir de um regime repressivo e que mantinha uma conflito civil entre espanhóis num conjunto de feridas que ainda hoje abalam a própria sociedade de nuestros hermanos e que aqui mostra um lugar de proximidade entre os dois povos desmistificando igualmente os velhos fantasmas de que "de Espanha nem bom vento nem bom casamento". Muitos são aqueles que partiram em busca de paragens mais tranquilas que não as nossas - as ditaduras em Portugal e em Espanha acabaram em 1974 e 1975 respectivamente -, mas muitas foram também as marcas pessoais e históricas que tanto os países como os seus habitantes sentiram mantendo-se até hoje. Marcas essas que se fazem notar, por exemplo, na presença de Eudosia enquanto professora que ensinou muitas das pessoas da terra a ler e a escrever levando a que ainda hoje se recordem dela e até à sua partida (pensada) para Casablanca tendo, no entanto, partido para França depois das guerras de independência no norte de África.
Este documentário para lá da importância da história pessoal da vida de Eudosia é, na minha opinião,  francamente importante na medida em que se direcciona para uma época específica na História dos dois países e que, período esse, ainda se encontra muito pouco estudado, filmado e documentado sendo de extrema relevância que estas histórias da História seja documentadas enquanto ainda permanecem registos vivos que possam transmitir a documentação oral da mesma. Inovador e actual - quando não o é a História e as histórias de refugiados - A Mestra trouxe ao festival, e a mim muito particularmente, a satisfação de ver algo pouco comum (no cinema principalmente) contado e ao dispôr de todos os espectadores.

8 / 10



quinta-feira, 23 de novembro de 2023

O Misterioso Caso de Lázaro Lafourcade (2023)

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O Misterioso Caso de Lázaro Lafourcade de Tiago Durão (Portugal) é a mais recente obra do realizador de Eunice ou Carta a Uma Jovem Actriz (2021), curta-metragem de documentário vencedora do Sophia na respectiva categoria.
A família Lafourcade reúne-se depois de serem convocados pelo patriarca Lázaro (Ruy de Carvalho) para discutir o seu testamento. No momento em que todos se preparam para saber quem é o herdeiro de todo o património, Lázaro morre envolto em mistério deixando todos suspeitos do acto. Aurora (Maria José Pascoal) a irmã, Laura (Dalila Carmo), Amélia (Lídia Muñoz) e Raúl (Isac Graça) os filhos e Oscar (Pedro Lamares) o seu genro são agora suspeitos (e suspeitam) de tudo e todos sedentos de saber o que os espera e deixando a descoberto todo um conjunto de segredos que a família tão bem soube esconder.
Assim que este filme começou rápidas foram as memórias que me transportaram para um dos maiores êxitos televisivos dos idos anos 80 como o fora Gente Fina é Outra Coisa, de Luís Andrade. Para lá do evidente elo de ligação entre ambos ao ter o actor Ruy de Carvalho como um dos seus protagonistas foi o facto de toda uma atmosfera de enviar para dentro das paredes da referida série e encontrar-me perante uma história que tem como premissa principal as dinâmicas entre os vários elementos da mesma família.
Se em Gente Fina é Outra Coisa encontrávamos a família "Penha Laredo" que co-habitava no mesmo espaço agudizando dessa forma todas as dinâmicas (boas e menos boas) entre os seus vários elementos, em O Misterioso Caso de Lázaro Lafourcade é a lenta revelação de todo um conjunto de pensamentos e de sentimentos ocultados pelo tempo que, agora enclausurados entre quatro paredes, cedo começam a surgir e fazer notar os ressentimentos que a todos os "Lafourcade" abalam. Dos desejos reprimidos a segredos escondidos pelo tempo, de traições a amores perdidos, do potencial elo familiar que os deveria unir a um conjunto de ódios que os anos alimentaram sem esquecer o desdém que se foi alimentando e que apenas os faz tolerar a breve presença de uns perto dos outros porque o "social" assim obriga. Ninguém entre eles escapa ileso desta reunião que tudo tem menos de familiar e da qual nenhum dos "Lafourcade" irá sair ileso. Mas tudo com muito humor.
Muito une os "Lafourcade" aos já mencionados "Penha Laredo". O viver das aparências, os esquemas milagrosos que se espera possam fazer render algum dinheiro, um conjunto de empregados que está cansado de viver (ou ir vivendo) com a "promessa" de que têm casa, cama e roupa lavada sem que sejam devidamente recompensados por uma vida de trabalho que, uma vez mais, apenas serve para manter as aparências de um certo nível de vida que já não existe mas que o (mais ou menos) bom nome de família ainda lhes confere. Assim todos se suportam - pela possibilidade do bem viver - atacando-se sem limites tentando fazer com que o outro seja tão ou mais infeliz do que a sua própria realidade assim lho tem permitido. Já nenhum dos "Lafourcade" vive uma qualquer alegria que em tempos poderá ter sentido mas sim pela e na esperança de que possa fazer do seu outro membro da família alguém que se sente tão mal quanto o próprio sente. Para lá de ressentimentos mútuos é a ideia de que o "outro" é a razão pela qual a sua felicidade deixou de existir que comanda as acções e sobretudo as palavras que aqui são proferidas entre eles.
Mas que não se deixe enganar o espectador se pensa que esta breve descrição pode fazer pensar que está perante um filme que retrata os dramas familiares de uma forma séria e quase de uma vingança adormecida entre os "Lafourcade". Pelo contrário, aquilo que aqui temos é uma ligeira comédia com um conjunto de momentos bem humorados onde se exploram as dinâmicas de uma família desavinda que procura nos dramas alheios a sua própria redenção ou, por outras palavras, que a desgraça alheia lhes traga algum conforto. Nada melhor do que alguém que se encontra num fim de linha - e com uma acusação de homicídio sobre a sua cabeça - como poder dar vida (e muita cor) a todos os seus pensamentos mais sombrios com e sobre aqueles com quem partilha laços familiares mas também uma mútua aversão e desdém que não são trágicos mas sim cómicos caindo, todos eles, numa espiral que não lhes irá trazer nada de positivo excepto a compreensão de que aquele reduto familiar, por mais agreste que pareça, é o seu único porto seguro onde ninguém precisa fingir ou teatralizar mais do que aquilo que eles próprios são e que todos eles, sem excepção, conhece.
Com uma atmosfera muito própria e que me faz uma vez mais recuar a Gente Fina é Outra Coisa onde a mansão senhorial é, também ela, uma silenciosa personagem desta obra conferindo portanto a todas as demais o seu próprio universo particular dentro das suas paredes destacam-se claro características e traços comportamentais de cada um dos "Lafourcade", há que destacar logo de imediato a figura do patriarca "Lázaro" de Ruy de Carvalho que, ainda que com uma participação mais breve, nos deixa rendidos enquanto espectadores por, uma vez mais, o poder ver no grande ecrã. Intenso e a recordar a matriarca "Matilde de Penha Laredo" tão hábil e mordazmente interpretada pela Sra. D. Amélia Rey Colaço, Ruy de Carvalho é aqui alguém sábio e que conhece melhor do que ninguém aqueles que o rodeiam e especialmente as suas motivações quase sempre duvidosas. À sua volta a irmã "Aurora" (Maria José Pascoal), uma vedeta internacional caída em desgraça que vive às custas dos rendimentos do irmão e que sabe todos os pequenos segredos da família não tendo pudores para os expôr. As filhas "Laura" (Dalila Carmo), "Amélia" (Lídia Muñoz) e o filho "Raúl" (Isac Graça) presos no seu próprio universo e desligados da família que sentem ser pessoas estranhas e distantes com as quais têm de conviver apenas e só por breves momentos e finalmente "Oscar" (Pedro Lamares), marido de "Laura" com a qual mantém uma relação de pouco amor e muito desdém e com a qual mantém apenas as aparências para uma sociedade que... não quer saber deles. Entre esquemas e poucos cuidados restam os empregados da mansão interpretados por Érica Rodrigues e Guilherme Barroso com os seus próprios planos e também eles conhecedores dos meandros desta casa que presa por tudo menos por ser um lar e que, uma vez mais, fazem lembrar aqueles que outrora haviam sido interpretados pelos saudosos Nicolau Breyner e Mariana Rey Monteiro que com parcos recursos e muito savoir faire faziam movimentar uma casa que em muito parecia ter deixado de viver.
Inteligente e simpático pelos seus discursos mordazes e agrestes fruto do apimentado argumento de Tiago Durão e Ana Ramos, O Misterioso Caso de Lázaro Lafourcade recupera um género de comédia há tanto esquecido tanto no cinema como na televisão, que não vive de pequenos momentos cómicos de situação/comédia grotesca assumidamente gratuitos, mas sim de uma história pensada - mesmo que nos momentos mais impossíveis de acreditar - capaz de fazer o espectador rir ou sorrir com gosto por encontrar em todas aquelas personagens pequenos traços e características com as quais se pode rever ou identificar saindo dessa forma da sala de cinema a pensar que o seu tempo passou rápido demais e, tal como eu, recordando outros momentos de épocas que agora já parecem longínquas onde as produções deste género específico eram feitos com gosto e qualidade e onde os actores eram enaltecidos pelo seu potencial e pela construção das suas personagens que davam cor e vida às histórias que ali se propunham contar. Que esteja viva a comédia. Esta comédia.
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7 / 10
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terça-feira, 12 de setembro de 2023

Les Meutes (2023)

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As Matilhas de Kamal Lazraq (Marrocos/França/Bélgica/Qatar/Arábia Saudita) foi a longa-metragem que hoje serviu de abertura não-oficial da 17ª edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que decorre no Cinema São Jorge até ao próximo dia 18 de Setembro.
Hassan (Abdellatif Masstouri) e Issan (Ayoub Elaid), pai e filhos nas ruas de Casablanca sobrevivem de pequenos crimes muitos dos quais associados à luta de cães em que participam contra bandos marginais rivais. É quando o chefe de Hassan o manda raptar um dos seus opositores que a vida deste homem, e do seu filho que o auxilia, muda radicalmente enfrentando muito mais do que os perigos de uma vida que a lei já abandonou há muito.
Não só filme de abertura desta edição do festival como também na secção Serviço de Quarto, Les Meutes apresenta uma abordagem algo diferente aos filmes de género. Longe de ser um conto de terror, pelo menos um dos ditos "tradicionais" onde este surge sob uma qualquer forma sobrenatural, a obra de Lazraq apresenta-nos um conto de terror urbano (se assim lhe podermos chamar) onde as sombras da noite escondem não um qualquer monstro fastasmagórico mas sim aquele que a marginalidade esconde. As lutas de gangues, a violência animal, a morte, o tráfico de favores e influências e o poder do mais forte mesclam-se num conto do qual, compreendemos a certo ponto, nenhuma das suas personagens irá sair ilesa.
As matilhas - numa clara e inteligente abordagem aos diferentes grupos que tentam e testam o poder no "outro lado" das ruas -, disputam a sua influência e o poder conquistado pela supremacia que deduzem ter sobre os demais graças a pequenos actos marginais e marginalizados que fazem vibrar as suas noites. E o primeiro de cair... é o primeiro conquistado. As lutas de cães - animal considerado impuro e até mesmo demoníaco para o Islão -, assumem aqui a forma de purificação que um acto marginal utiliza não só para se glorificar junto dos seus opositores como, ao mesmo tempo, funciona como a forma que os seus "mestres" encontram para purificar as ruas "infestadas" como estes animais desprezados na respectiva sociedade. Não é ao acaso que os cães logo de início são revelados como seres grotescos, utilizados para a matança do inimigo indesejado e, já no final, representados como seres moribundos que vagueiam pelas ruas mais sujas de uma cidade que os abandonou algures à sua sorte... e à sorte dos restos que, também eles, ficaram esquecidos.
Não existe aqui nenhum desfecho considerado melhor... a pobreza é latente na representação de "Hassan" e "Issan" bem como a matriarca da filha já envelhecida e desgastada pelo tempo mas com um elevado sentido de espiritualidade que não perde. Boa parte dos marginais tidos como imbatíveis acabam por ser alvo da sua própria arrogância revelando-se frágeis e perdidos no suposto reino que criaram e perderam. Os perdedores até então assumem a vitória sob um império destruído que, a seu tempo, irão também eles degladiar-se para poderem proclamar-se como vitoriosos sobre algo irreal e os mortos, esses partidos, acabam por ser espelho de um triste e ignóbil fim e "prato" daqueles que procuram subsistir mais um dia.
Les Meutes é, a partir de dado momento, a compreensão de que se assiste a uma história de perdedores, de derrotas e de falhanços que, associados a um inexplicável misticismo, conferem "aos pobres" aquilo que os faz aguentar mais um dia... a esperança de que na "outra vida" possa existir algo que renda os seus poucos actos de misericórdia em vida conferindo-lhes a salvação no além... Todos são perdedores e o dia de amanhã não irá ser melhor. Ainda que não o saibam. Todos lutam por resistir mais um dia... e isso compreendem reflectindo-se nos breves momentos em que se encaram olhos nos olhos.
Atípico filme de terror - se é que o poderemos considerar enquanto tal -, Les Meutes é sobretudo um filme de resistência e de sobrevivência sobre aqueles que compreenderam e aceitam no silêncio não ir ver nada de bom, ou pelo menos diferente, na sua vida mas que ainda assim resistem à esperança de ver mais um dia.
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7 / 10
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sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Muy Fuerte (2022)

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Muy Fuerte de César Rios (Espanha) é um filme curto que aborda a temática das primeiras impressões. Aquelas que se tem face àquilo que não conhecendo faz com que se equacione sempre o lado negativo de uma acção tida pelos outros.
Uma mulher passa a frequentar um ginásio. As colegas, surpreendidas com esta sua nova actividade, tecem todo um conjunto de comentário sobre as suas supostas segundas intenções que estão (para elas) relacionadas com uma relação extra-conjugal da colega. Mas aquilo que desconhecem revela-se como uma trágica realidade que aquela mulher vive num silêncio desarmante.
A curta-metragem de César Rios recupera nesta história algo tão humano como a desconfiança, as segundas intenções e sobretudo a capacidade (e vontade) de falar mal do "outro" para que ninguém olhe "para mim". Assim, o boato, o rumor e o falso testemunho levantado por terceiros ganha um lugar de destaque nesta curta-metragem centrando-se em boa parte da trama ao mesmo tempo que esconde, em boa medida, o que está por detrás da acção desta mulher que só intriga o espectador por ser sistematicamente mencionado por uma das demais personagens que não treme quando decide "apontar-lhe o dedo" pelo seu novo estilo de vida até então desconhecido para as mencionadas "amigas".
Os "porquês" das suas acções são apenas revelados bem perto do final, quando todos nós espectadores poderemos (ou não) ter julgado esta personagem não pelo seu novo estilo de vida mas sim por aquilo que as demais personagens equacionam e, até mesmo, por potenciais preconceitos que nós próprios possamos ter quando encontramos "alguém" que repentinamente exibe comportamentos distintos daqueles tidos até um determinado momento. Incapazes de enfrentar a mudança - dos outros - julgando-os pelos nossos próprios parâmetros, quase somos forçados a exigir daquela personagem uma justificação que, ainda que sendo dada como elemento redentor da mesma, não nos pertence... não nos assiste perceber os seus porquês para podermos ter nos nossos ideias a compreensão dos seus actos mas, ainda assim, contentamo-nos quando o mesmo sucede.
Interessante sob o ponto de vista da perspectiva humana entre o "eu" e o "outro" comprovando que todos nós somos sofisticadas "máquinas de vigilância" daqueles que por nós se cruzam, Muy Fuerte falha apenas na execução da acção nem sempre polida acabando por cair no lugar comum que a certo momento quase se que assume (e exige) como um "justificativo" necessário para revelar o desfecho desta narrativa. Mordaz sobre a perspectiva da hipocrisia humana que (auto-)censura o que acontece ao nosso redor, esta curta-metragem pedia uma execução mais nobre e de facto "mais forte" para que pudesse finalizar com mais dignidade sobretudo para a sua protagonista que por vezes desfila sem que tenha o merecido brilho.
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4 / 10
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domingo, 3 de setembro de 2023

Meteor Moon (2020)

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Lua Meteoro de Brian Nowak (EUA) é uma daquelas longas-metragens que anuncia desastre desde o primeiro instante e não... não a propósito do seu argumento.
Após um meteorito colidir com a Lua levando-a a entrar em rota de colisão com o planeta Terra, um grupo de cientistas liderado pelos irmãos Lawson têm de descobrir como travar a aparentemente inevitável extinção.
Como referi logo nas primeiras duas linhas deste comentário, Meteor Moon anuncia a desgraça. A sua própria desgraça. Sem qualquer aviso prévio o espectador recebe de imediato imagens reais de manifestações, conflitos e convulsões do mundo moderno que aqui são associadas a esta catástrofe interplanetária que prenuncia o fim da vida na Terra tal como a conhecemos. "Tudo bem", pensamos, e não fosse a descoordenação constante que a narrativa desta longa-metragem apresenta e até pensaríamos que algo poderia fazer sentido no seio de uma obra que pretende recrear o mais antigo dos medos dos gauleses... que o céu caia em cima da cabeça. Mas não, pelo contrário, toda a vontade de mostrar um conjunto de momentos e de personagens que são, na sua maioria, perfeitamente desnecessárias ou, na melhor das hipóteses, completamente ridículas que vão do comum cidadão sem qualquer coerência para lá da vontade de os retratar enquanto pobres marginais - alcoolizados e afins - sobre quem ninguém irá chorar a sua morte ou, por outro lado, revelar um conjunto de militares que parecem ter saído da escola de moda e beleza no dia anterior, Meteor Moon destaca-se (se assim o poderemos dizer) por respeitar as quotas de género ao apresentar todas as personagens militares, da mais alta patente à mais baixa, como personagens femininas. Este aspecto não seria sequer uma questão se a representação das actrizes fosse consistente e coerente - incluindo uma Dominique Swain num registo bem desgastado do brilho de outros tempos -, afinal noutros tempos seriam todos homens, mas aqui o espectador compreende totalmente que o objectivo foi o preenchimento de uma cópia... de unhas compridas a blush... de baton a penteados que nenhum militar usaria... as evidências estão lá... observa-as quem quer...
De (falta de) coerência em (falta de) coerência... o reino da estupidificação não pára. Personagens que surgem dos matos com a solução para a falha global das telecomunicações sem esquecer os adeptos das teorias da conspiração altamente armados e com a sabedoria que se lê nas instruções das caixas de cartão não podemos, claro está, esquecer os cientistas caídos em desgraça salvos por um irmão mais novo e com mais sede de poder que caminham rumo à redenção... as histórias de famílias destruídas fruto da ruína profissional e claro... a salvação que se encontra no último instante graças a um qualquer truque macgyveriano que se engendrou dentro de um Mustang descapotável no espaço rumo à drive que irá comandar o GPS para o lado mais escuro da Lua e, como tal, salvar o planeta graças a um buraco negro. Tal... nem um verdadeiro cientista alguma vez iria sequer conceber.
Os terramotos são intensos - felizmente nunca observamos nenhum tsunami apesar de um gigantesco ser anunciado -, as mortes são aos milhares mas... não se sabe bem onde... os vulcões entram em erupção e os esconderijos no interior das montanhas resistem a temperaturas elevadas no subsolo ao ponto de tudo ser resolvido... e ninguém morre queimado ou asfixiado ou sequer larga um pingo de transpiração (truques da escola de moda...) e no espaço, os dois cientistas salvadores do mundo têm tantos recursos - não os suficientes para terem um foguetão - e a sorte de principiante para encontrarem uma cápsula perdida que os pode fazer regressar a Terra... e as maravilhas não páram de surgir.
"Isto é tão mau que até se torna bom" é uma daquelas velhas frases que em tantos momentos do passado viram nascer filmes que hoje consideramos clássicos - e que todos nós podemos recordar uns quantos -, mas aqui não. Em Meteor Moon a única coisa da qual temos total certeza, para lá do facto desta história nos aborrecer quase desde os primeiros trinta segundos, é que estamos perante um filme que é simplesmente mau. Não existe coerência ou sentido em absolutamente nada... no argumento, nos actores e respectivas interpretações... nos cenários escolhidos a dedo porque eram simplesmente os de menor gasto... nas expressões... nos lugares comuns... nos cenários extra planeta... nas dinâmicas entre personagens... nos dramas familiares... nos excessos... nas loucuras... no exagero... Absolutamente nada é digno de registo positivo ou permitir ao espectador pensar que "afinal aquilo até está bem feito..."... Nada!
Meteor Moon é o perfeito filme nulidade. Sabemos que existe... Eventualmente percebemos que até o queremos ver compreendendo que não será nada de bom mas... uma vez lá... desejamos ardentemente sair deste inferno que não é tido como o desastre do planeta Terra mas sim aquele que irá corromper a nossa paciência e sanidade mental. No final apenas uma constatação ou certeza... a compreensão de que perdemos perto de noventa minutos da nossa vida em algo que, na realidade, nunca deveria ter visto a luz do dia... apesar de nos quererem vender que tudo está bem quando acaba bem... a não ser que o espectador deseje que, nesta ficção, a Lua colida de facto com a Terra e ponha fim a estas personagens que na sua realidade desejamos que não consigam reproduzir-se.
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1 / 10
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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Malasaña 32 (2020)

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O 3º Andar: Terror na Rua Malaseña de Albert Pintó (Espanha/França) é uma das mais recente longas-metragens espanholas de terror e aquela que serve de abertura à edição deste ano do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa que hoje se inicia no Cinema São Jorge.
Ainda no período da Transição para a Democracia, os Olmedo chegam a uma Madrid efervescente fugidos das dificuldades económicas da sua aldeia natal. Manolo (Iván Marcos), a sua ex-cunhada e agora esposa Candela (Bea Segura), os filhos mais velhos desta Pepe (Sergio Castellanos) e Amparo (Begoña Vargas), Rafael (Iván Renedo), o filho único do casal e ainda Fermín (José Luís de Madariaga), o pai de Candela com alguns problemas de memória.
Agora na grande cidade onde tudo se afirma com a incerteza natural da vida nova num tempo novo, os Olmedo redescobrem uma casa com uma história muito própria onde tudo ficou adormecido durante alguns anos... incluindo a presença do antigo inquilino.
Tradicional exemplar do novo cinema espanhol de terror destacando toda a influência que o realizador Albert Pintó possui nomeadamente no domínio da curta-metragem, este Malaseña 32 anunciava ser o crescendo de uma obra assinalável. No entanto, as surpresas ainda que presentes, deixam esta obra com algum amargo de boca na medida em que promete e promete... mas falha na sua concretização. Se os instantes iniciais desta longa-metragem apresentam um cenário macabro - muito também fruto do contexto histórico e político que levam o espectador à Espanha pré-Democracia -, e que em boa medida nos transportam para o universo [REC], de Jaume Balagueró, é quando nos encontramos já no período "livre" de 1976 que tudo parece querer confirmar-se como a tal história de terror que nos havia sido prometida.
Lentamente o espectador descobre uma família cujo núcleo oscila entre a esperança de um futuro novo onde os sonhos e as promessas sejam alcançadas como também ainda muita da mágoa de um passado vivido num meio rural e onde os rumores e os insultos são, compreendemos, uma realidade para esta família. Não podendo o espectador esquecer-se de que o casal central desta história tem uma relação assumidamente dúbia - cunhados que se transformam em marido e mulher com um filho em comum -, compreende-se então que existe um "pecado" que não seria de perdoar na terra de onde chegam mas que ali, numa Madrid em ebulição, tudo passaria despercebido e ignorado aos olhares daqueles que querem (agora) uma vida diferente e livre de uma qualquer culpa. E é quando essa vida parece ganhar um novo rumo que, afinal, algo se começa a manifestar nas suas vidas lançando o caos junto daqueles que mais temem os fantasmas de um passado que parece não perdoar.
Se Malaseña 32 parece querer fazer uma reflexão sobre os pecados de uma família - assim se pretende que o espectador os reconheça -, na realidade estes (pecados) assumem-se mais como manifestações de um passado conservador e convencional que lentamente o país vizinho conseguiu não só desmistificar como sobretudo ultrapassar. A vergonha da diferença e dos papéis sociais atribuídos religiosamente à nascença são questionados primeiro pelos detalhes óbvios que a história faculta e, de seguida, pela comparação das vivências das personagens que, para lá dos paralelismos, são primeiramente observados pelas (im)possibilidades da sua concretização... de um lado observamos uma família que, para sobreviver às inevitabilidades de uma vida na pobreza, se uniu ainda que de forma pouco convencional (para os olhares da época e mesmo por vezes à luz dos nossos dias), e onde todos assumiram um papel social que lhe corresponderia. Do outro, temos um vislumbre do passado onde pela força dos valores morais do regime e da religião se vetou ao abandono alguém que sentiu e compreendeu ser diferente e que, em nome dessa diferença, foi esquecido por todos e pelo tempo forçado a viver na clausura, na vergonha e num silêncio que apenas as ditas "forças paranormais" (existiram ou seremos "nós" (sociedade enquanto um todo)) podem voltar a dar voz. Se estes dois mundos colidem pela vontade, comum a ambos, de voltar a viver num papel social que lhe corresponde e que espera neste novo mundo poder começar a fazê-lo, a realidade é que apenas um destes dois manifestos "lados" poderá ver concretizadas as suas vontades.
Num registo de terror imediato que sobrevive principalmente pela compreensão (do espectador) de todo um ambiente "de palco" que constrói um pequeno labirinto por detrás das paredes de um prédio que parece pouca ou nenhuma vida possuir - estando, no entanto, possuído por ela -, Malaseña 32 não resiste a esse imediatismo do pânico e do susto que as sombras e a direcção de fotografia conferem a uma história que, a partir de um dado instante, perde a sua credibilidade pela abordagem à la século XXI de temas que ainda que intemporais pouco parecem conjugar-se com o género cinematográfico que aqui se pretende abordar. Afinal, quantos de nós não reviraram os olhos quando compreendemos as necessidades de um "fantasma" que não só quer voltar a viver como também perpetuar a sua existência... desta forma?!
Com interpretações regulares que não primam pela coerência das suas personagens ou tão pouco fazem jus às capacidades dramáticas de um conjunto de actores firmados no cinema espanhol e outros tantos de uma promissora nova geração, são apenas pontuais elementos técnicos - a já mencionada direcção artística ou a direcção de fotografia e guarda-roupa -, que podem marcar a diferença numa história já de certa forma vista e filmada com olhares mais precisos e coerentes do que aquele aqui apresentado por Pintó. Afinal, basta recorrermos à filmografia anterior do realizador e observar a longa-metragem Matar a Dios (2017) ou as curtas-metragens Nada S.A. (2014) ou RIP (2017) para compreender todo o potencial de um realizador que aqui apenas se limitou a "cumprir" uma obra a mais.
Competente a nível técnico e na atmosfera que inicialmente consegue criar, Malaseña 32 perde-se à medida que se pede coerência nos pequenos detalhes que deveriam "construir" o terror, limitando-se a um conjunto de lugares comuns já observados noutras longas-metragens do género e que aqui mais não são do que "mais do mesmo". Pouco subtil no que respeita à "mensagem" a que se propõe, esta longa-metragem parece apenas querer deixar a ideia de que afinal... o passado por muito mau que se tenha manifestado será possivelmente um pouco melhor do que as vontades que o futuro parece querer revelar.
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4 / 10
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quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Moço (2020)

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Moço de Bernardo Lopes (Portugal) presente na Competição Nacional de Curtas-Metragens da décima-sétima edição do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema, é o mais recente trabalho deste realizador que já no último ano nos havia surpreendido com o intenso Eva.
João (Tomás Andrade), é um jovem pré-adolescente que vive num lar disfuncional. Com um pai ausente e uma mãe centrada nos prazeres carnais que o companheiro (já não) lhe proporciona João vê-se de braços abertos para um mundo no qual espera encontrar o conforto que não encontra em casa.
Se é certo que existe entre este conjunto de personagens um acentuado distanciamento que as torna únicas no seu próprio universo, é também verdade que muito rapidamente o espectador cria uma imediata empatia com o "João" de Tomás Andrade. Uma empatia ao ponto de esperar poder conferir-lhe o alento necessário para que possa enfrentar os ainda duros anos - para ele como foram para qualquer um de nós - que estão porvir. A indiferença sentida para este jovem é notória desde os momentos iniciais onde um pai - interpretado por Carloto Cotta - pouco empático lhe rapa o cabelo para (talvez) fazer dele o homem antes de tempo que eventualmente também ele fora. Ou mesmo no distanciamento de uma mãe que estando mesmo "ali ao lado" parece pertencer a um qualquer outro domínio temporal que, não o tendo como alguém indesejado, não lhe confirma, em nenhum momento, que ele é o filho que ela sempre desejou ter sendo apenas mais alguém que... "está ali".
No fundo, esta dinâmica entre personagens encontra um imediato paralelismo com o cenário envolvente assim que o espectador repara nessa "vida" entre portas. Das estufas abandonadas fruto de um qualquer investimento que correra mal aos parques aquáticos que são agora uma sombra do que foram em tempos, todo o cenário parece suficientemente desolador para compreender que, provavelmente, não é apenas "João" que se encontra só mas sim todo um ambiente pouco natural que se revela perdido e esquecido no tempo. Um retrato dessa decadência, desse isolamento, dessa solidão onde agora estes jovens procuram algum conforto e divertimento afastando-os das suas vidas provavelmente complicadas demais para serem encaradas com a (falta de) frontalidade que os caracteriza.
Mas, existe uma esperança. Ou pelo menos assim quero pensar quando sou encostado a uma realidade final que deixa, em certa medida, portas abertas para a minha (e do qualquer espectador) imaginação voar. Se por um lado já compreendemos que nada na relação de "João" com o seu pai vai mudar ou que a sua mãe está mais concentrada em, ela própria, ter a atenção que deseja nos braços de um qualquer outro homem que convida para a sua cama sem se preocupar com o filho no quarto do lado, é certo que o jovem interpretado por Tomás Andrade se deixa levar pela sua própria vontade de viver tão simbolicamente representada por uma janela aberta (que ficou aberta) e que o permite explorar o espaço para lá das suas quatro paredes. Suficientemente enigmáticos para qualquer um de nós poder imaginar o que quiser - para o bem e para o mal -, são os instantes seguintes onde o jovem explorar o terreno e se esconde por detrás da vegetação que encontra numa qualquer lagoa que definem, essencialmente, a verdadeira vontade de liberdade e independência a que o mesmo foi forçado a abraçar. Numa altura em que o seu mundo se deveria resumir às pequenas actividades inerentes da sua própria idade, às brincadeiras entre amigos (aqui caracterizadas com alguma violência e desprendimento) ou até mesmo a uma qualquer paixão (ou paixoneta) típica da idade - até se pode vislumbrar uma no decorrer de Moço também reflexo de uma chamada de atenção que surge (in)voluntariamente "pedida" -, "João" parece compreender que o seu mundo, por muito pequeno que lhe possa parecer no seu espaço natural, é maior e repleto de mais oportunidades do que aqueles que estão ali no seu imediato. A janela, a exploração e o espaço conferem-lhe - e a nós espectadores - essa necessidade de no nosso íntimo compreender que existe mais e melhor para lá do visível e desse referido imediato que o esperam e que o irão abraçar... mas existe um outro lado mais negro, menos esperançoso e tantas vezes mais real (ou realista) que não proporcionam tantas oportunidades como aquelas que inicialmente desejaríamos... mas essas ficarão para uma imaginação que está lá mais oculta e pouco revelada... apenas num íntimo que esperamos não reconhecer... desejando apenas que aquilo que o espera seja melhor do que o realizador nos facultou nesta sua abordagem.
Intenso enquanto filme de despertar etário de uma jovem criança que se tem como adulto antes do seu tempo, é não só na interpretação segura e firme do jovem Tomás Andrade que encontramos essa força de que o "amanhã" será melhor, mas também no sábio e equilibrado argumento de Bernardo Lopes, que depois do igualmente tenso Eva volta a entregar uma história não sobre vidas marginais mas sim para lá da margem que habitualmente conhecemos. Sabemos que estas vidas existem, sabemos que não têm ou tantas facilidades ou oportunidades como aquelas que observamos do dito "nosso mundo" mas tão poucas vezes as observamos "daqui" como uma parte de um todo. Existe algo não tão perfeito "do outro lado"... mas é apenas quando um bom filme, filmado com uma mão firme e capaz de mostrar a realidade sem artifícios que o espectador encontra a humanidade tal como ela é... capaz de magoar sem ferir... capaz de emocionar sem fazer chorar.
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9 / 10
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sexta-feira, 10 de julho de 2020

Milénio (2019)

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Milénio de Pedro Caldeira e Paulo Graça (Portugal) é uma das curtas-metragens presentes na secção oficial Região de Leiria da sétima edição do Leiria Film Fest num ano de transformação para o festival visto ser a primeira vez totalmente online devido à actual situação de emergência sanitária.
Uma festa de fim de ano... Mas não é uma festa qualquer. Todos os temores e receios que o ano 2000 faziam adivinhar estão nesta festa vivos e vividos nos comportamentos de um conjunto de estranhos que ali se reuniu para celebrar... o fim do mundo.
São evidentes as marcas do tempo e, hoje, algo engraçados os receios que o tão afamado ano 2000 trazia na sua própria noção... O crash informático... o famoso "bug"... uma incerteza sobre o "a ele chegares e dele não passarás" e, no fundo, a compreensão de que existia uma qualquer mudança - seria cósmica?! - que a mudança de ano, de século e de milénio transportavam por si só. E, de facto, a mudança existiria e manifestar-se-ia anos depois... ou melhor... com o decorrer dos anos que lhe sucederiam... Mas, voltemos ao filme...
Milénio é uma curta-metragem sobre a folia... A esperada folia dos dias que anunciam a mudança ou uma qualquer transformação dando a compreender que nada será como dantes. Os encontros furtuitos e a própria internet - ainda o MIRC - que facilitou o encurtar de distâncias transformando o longe no perto e encerrando constrangimentos de pouca aceitação fazendo do impossível algo possível. Tudo é filmado - por detrás da câmara real e da fictícia onde esta festa é gravada como o filme dentro do filme - como se o fim fosse realmente a certeza final que espera estas personagens. Se para a dupla de realizadores esta festa é retratada com alguma nostalgia pela própria manifestada ingenuidade com que se vivia então, para as personagens às quais dão vida, esta festa de fim de mundo mais não é do que o veículo perfeito para dar cor a todas as frustrações e desejos reprimidos que agora, mais do que nunca, têm de ser vividos ou perdidos para sempre sem nunca esquecer a depressão pré-ano novo sempre vivida por alguém numa sala... mesmo que esta esteja repleta de outras pessoas.
Com um humor quase pós-adolescente, que tanto tem de corrosivo como de inofensivo, esta curta-metragem celebra acima de tudo uma outra era... uma que não estando completamente distante é encarada com algum cinismo por "nós" (que a vivemos na primeira pessoa) e compreendemos que aqueles tempos cheios dessas incertezas, receios, dúvidas e uma nítida vontade de "viver depressa", mais não eram do que dias calmos e tranquilos onde boa parte das nossas "preocupações" não eram mais do que algum tédio vivido de forma repetitiva e que, hoje sim, ainda que o milénio tenha realmente sido ultrapassada já há duas décadas, vivemos dias estranhos e sombrios que não se manifestaram nessa mudança dos mil anos mas sim nos dias que vivemos onde tudo é rápido demais para que lhe demos atenção, incerto demais para que pensemos na aventura e sombrios demais para que nos preocupemos com algumas das (esperadas) alegrias da vida.
Num humor pueril... vive-se o milénio. Num registo do passado compreendemos o que "fomos". Na compreensão do presente percebemos o quão enganados estávamos - nesse passado - em não viver o que se poderia. Na certeza (única que é este filme curto) observamos um bom momento de humor seguro que nos faz esboçar aquele sorriso unicamente possível através dessa vivência de um passado já tido e pela construção quase irreal de personagens que todos podermos identificar no nosso grupo de amigos de então.
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6 / 10
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Mask (2019)

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Mask de Catarina Santos (Portugal) é uma das curtas-metragens presentes na secção Região de Leiria do Leiria Film Fest que este ano decorre unicamente numa versão online e que, sob uma perspectiva de animação retrata um dos temas do momento... a igualdade de género.
Ela coloca uma máscara para poder sair de casa. Todas aquelas que têm o mesmo ritual o fazem. Questiona-se a diferença e o conhecimento individual. Catalogam-se as mulheres.
Numa sempre pertinente, e agora mais que nunca, abordagem à igualdade de género, a curta-metragem de Catarina Santos é não só assustadora pela realidade a que aqui dá corpo como principalmente por recorrer a esta arte "animada" para representar um dos flagelos da sociedade moderna que até muito recentemente se pretendeu ignorar.
(Re)vemos um conjunto de mulheres que exibem todo um conjunto de comportamentos que indiciam que a realidade (a sua) não é como todos nós pensamos. Cobrem o seu rosto para poder sair de casa mantendo-se assim pelos transportes públicos como que se fosse necessário a exaltação de uma individualidade de grupo que um qualquer ente supremo ordenasse. Pesadas e medidas, testadas e avaliadas, estas mulheres mais não são do que objectos de laboratório "essenciais" para a manutenção da ordem social imposta e, como tal, desprovidas de quaisquer direitos e regalias como seres iguais perante todos os demais, executando sucessivas tarefas previamente estabelecidas e... mantendo-se no seu pouco natural silêncio que as afasta de qualquer actividade de raciocínio. Mas... poderá esta "ordem" subsistir?!
Tudo aponta para o surgimento da "rebelde"... aquela que deriva da "ideal". Aquela que pensa... aquela que raciocina e sobretudo aquela que questiona a ordem que lhe foi imposta sem o seu aval ou permissão. A sociedade - aquela - pouco preparada para a aceitação da diferença e da igualdade perante seres pensantes independentemente do seu género, tenta o seu silêncio mas cede perante o óbvio... O óbvio ao ser incapaz de manter a diferenciação numa altura em que não só a informação como a imposição pessoal se afirmam como direitos e necessidades de cada um e especialmente das intituladas "minorias" assim apelidadas por aqueles que, detentores do poder, consideram ser a forma mais correcta de perpetuar o silêncio das mesmas mantendo, dessa forma, um espectro social imaculado onde nada - especialmente a ordem - são questionados tal e qual são apresentados.
Pertinente, actual e sobretudo importante, a obra de Catarina Santos não só emana um certo poder revelador como sobretudo tenta, e bem, educar através de um conjunto de imagens que de animadas pouco têm para lá da própria representação do género cinematográfica em que se inserem transformando-se assim num dos mais interessantes e fortes filmes curtos desta competição.
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7 / 10
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quinta-feira, 9 de julho de 2020

A Menor Resistência (2019)

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A Menor Resistência de Rafael Marques e Francisco Moreira (Portugal) é uma das curtas-metragens presentes na secção oficial da Região de Leiria da sétima edição do Leiria Film Fest.
Estrada Nacional 2 - Norte para Sul de Chaves para Faro. São 738 quilómetros de montes, vales e planícies onde tudo se atravessa e o abandono ganha forma. O tempo tem outra forma de se afirmar e avança a um ritmo muito próprio e é esta documentada viagem entre dois amigos que, acompanhada de várias conversas, regista a imagem desse país perdido no tempo.
Sob uma interessante perspectiva de como existe um país para lá daquele que conhecemos e que nos é próximo pela inovação e modernização das redes rodoviárias, A Menor Resistência revela a ideia de um Portugal esquecido na memória do próprio tempo quase irreal para aqueles que nasceram nesta pós-modernidade. Mas... é aqui que permanece a inovação desta curta-metragem que se apresenta com toda uma inovadora abordagem de filmar aquilo do qual já ninguém se lembra do tal dito "Portugal profundo" mas que, no final, se mantém como um aglomerado de imagens não aprofundadas de todo um itinerário nacional. Existe uma premissa inicial, existe um projecto mas não existe o plano que documente per si a viagem que foi feita. Essa, a existir, ficou junto dos intervenientes que a percorreram de Norte a Sul sem que o espectador participe, de facto, na mesma.
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5 / 10
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Motomiya (2019)

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Motomiya de Alexandra Debricon (França/EUA/Espanha/Japão) é uma curta-metragem presente na secção oficial de Documentários da sétima edição do Leiria Film Fest, este ano a decorrer online.
Motomiya, um homem de certa idade da Tóquio actual, narra a sua vida com Raquel, uma estudante universitária de Espanha que é várias décadas mais nova do que o próprio. Motomiya celebra a vida passada... Raquel tudo o que tem pela frente. A relação de ambos que se complementa encontra uma harmonia naquilo que ambos partilham como um valor principal... a celebração da vida.
Para lá da intensa vida de uma cidade que, também ela, nunca dorme, o elemento fundamental desta curta-metragem é a assumida cumplicidade que estas duas pessoas aqui retratadas nutrem uma com a outra. Cumplicidade essa que se manifesta sobretudo por uma ingénua infantilidade como que se Motomiya e Raquel fossem duas crianças acabas de se conhecerem e que naquele primeiro instante sabiam que tinham encontrado as suas almas gémeas.
De Motomiya, mais velho... potencialmente mais experiente mas, sobretudo mais sábio, existe uma certa tranquilidade de quem sabe que viveu uma vida plena mas que ainda tem toda uma vontade de ir um pouco mais além do aquilo que eventualmente os seus anos já lhe permitem. No entanto, é manifesto o golpe de energia que a presença de Raquel lhe proporciona e que o fazem olhar para a vida - a ida e a que está porvir - com um olhar de esperança de quem percebe que nada está terminado... até o estar. Já Raquel, por sua vez, ainda curiosa com tudo o que a vida lhe pode ainda proporcionar, encontra em Motomiya toda uma fonte de inspiração e recursos de conhecimento que lhe podem preencher a vida com uma vivência e com experiências quer sentimentais quer, eventualmente, espirituais. Aquilo que é evidente é, claro está, a cumplicidade sentida entre ambos... nas frases que se completam, numa forma de estar e viver que ambos partilham e também nos sorrisos esboçados quando se sente e compreende a presença do "outro" ali ao lado. Distantes do mundo a partilhar uma qualquer vida alternativa muito própria, o espectador compreende também a sua partilha distanciando-se, ele próprio, de uma qualquer noção sobre o que é uma vida dita "normal".
Interessante e inspiradora sob o ponto de vista de que existem várias formas de compreender e percepcionar a vida para lá da velocidade a que vive uma cidade como, por exemplo, Tóquio, o espectador aqui delicia-se com uma forma de amizade e romance diferente daquela que o cinema normalmente filma e exibe mas, sobretudo, pela perspectiva da possibilidade de uma vida que deve ser vivida e apreciada pelas pequenas coisas que todos os dias cruzam o nosso caminho e às quais, tantas vezes, tão pouca atenção lhes prestamos libertando-nos assim da monotonia dessa rotina diária.
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7 / 10
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sexta-feira, 29 de maio de 2020

Motorcycle Drive By (2020)

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Motorcycle Drive By de David Wexler (EUA) é um dos documentários presentes no WAO:GFF - We Are One: A Global Film Festival a decorrer online como resultado da crise de emergência sanitária da COVID-19.
Stephan Jenkins, vocalista da banda norte-americana Third Blind Eye, fala sobre o percurso da mesma e a dificuldade em terminar um novo álbum num momento em que se preparam para uma digressão e tentam não desiludir os fás que esperam pelo seu novo trabalho.
Numa reflexão que tem como ponto central a letra da canção que dá título a esta curta-metragem documental, a mesma explora o peso e a importância de memórias de tragédias passadas que influenciam não só o seu trabalho enquanto vocalista e autor da banda mas sobretudo o seu percurso e evolução pessoal ao longo dos tempos. Sempre com um pendor nostálgico e melancólico onde as memórias, os espaços e as pessoas ganham importância primordial em tudo o que se faz principalmente àquelas que o vocalista associa directamente ao pai e à mãe este tema (de 1997) tem uma dimensão intemporal na medida em que pode ser escutada anos depois sem que a sua mensagem se perca no tempo ou fique condicionada a uma época específica.
Ainda que um documentário mais próximo ou de relevância, também ela sentimental, para os fãs dos Third Blind Eye, Motorcycle Drive By consegue revelar uma dimensão transversal a todos os espectadores que se proponham ao visionamento da mesma na medida em que se foca não tanto nas vivências da banda enquanto tal - concertos, viagens e fãs -, mas sim no processo criativo de um tema que para lá de pessoal (principalmente para o vocalista que é, inclusive, levado ao local onde compôs o tema) pode revelar características afectivas e sentimentais presentes em qualquer um de nós pela identificação com a sua mensagem de memória familiar.
Breve, concisa e envolvente na dinâmica da memória (pessoal e afectiva), esta curta-metragem prende o espectador pela sua componente de relacionamento entre ambos - filme e espectador - mas, ainda assim e talvez pela sua brevidade, não o reter totalmente na medida em que se esperava (eu esperava) que fosse mais longe a exploração da interferência do "eu" no processo criativo e na influência da memória no mesmo.
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6 / 10
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Marooned (2019)

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Marooned de Andrew Erekson (EUA) é uma das curtas-metragens de animação que compõem a programação oficial desta primeira (e online) edição do We Are One - A Global Film Festival que reúne algumas das obras mais emblemáticas dos mais diversos festivais de cinema que, este ano, encontram uma inesperada estagnação graças à situação de emergência sanitária provocada pelo COVID-19.
Esquecido numa base lunar, o pequeno C-0R13 tem como única missão poder construir uma nave que o leve de volta à Terra. Mas, é quando conhece A-L1C1A que a sua personalidade e verdadeira essência são testadas ao limite.
Há um sentimento de imediata saudade que brota no espectador nos primeiros instantes de Marooned quando observa, pelos olhos do pequeno robot "C-0R13", a Terra lá distante. Perdido, esquecido e abandonado num espaço que não é o seu mas no qual encontra um inesperado e pouco desejado lar, o pequeno robot tenta, com os detritos deixados pelos humanos que também se esqueceram dele, construir um qualquer veículo que o possa transportar de volta a casa e àquilo que sempre conheceu. A saudade estampada no seu "rosto" - interessante definição esta uma vez que o próprio não o tem mas são os pequenos movimentos animados que lhe são conferidos que transportam todas as expressões faciais possíveis - é fruto desse tal isolamento (e distanciamento social que agora tão familiar nos é) que caracterizam a mais básica da sensações do Homem... a solidão. É por esta, e como forma de a transformar e perder, que qualquer um deseja o contacto e interacção física que acabam por ser características do Homem aqui retratadas nos actos, e no desejo, desta "máquina" que consegue ser tão humana (talvez mais) do que o próprio criador. Aliás, é fácil durante mas especialmente depois de observarmos esta obra, identificar tantas expressões e comportamentos humanos através primeiro desse isolamento, depois da constante necessidade de atingir um objectivo, também revelar a extrema capacidade de pensar no "eu" como forma de chegar ao outro lado e, finalmente, expôr perante esse referido "eu" que existe um bem maior pelo qual lutar e pelo qual abdicar de todo um trabalho porque existe "alguém" que precisa de "lá" chegar primeiro do que o próprio. O Homem, tão distante que se quer manter da máquina, depositou nela uma qualquer consciência que o humaniza para lá do esperado... para lá da própria Humanidade que por vezes tão pouca revela.
A saudade e a emergência de estar no Planeta Azul estão de tal forma presentes que o pequeno "C-0R13" guarda consigo pequenos pertences dessa terra idolatrada como uma divindade... da foto da Torre Eiffel à vontade de, à distância, conseguir ter por entre os seus dedos o planeta revela para um espectador mais atento, um desejo extremo que parece estar apenas à distância de um pequeno toque. No entanto, é no contacto com a sua nova parceira, também ela mecanizada, que despoleta a existência de um novo e desconhecido sentimento... Poderemos teorizar sobre amizade ou amor ou sobre como ambos são os braços de um único sentimento, mas é na abnegação para com o "outro" tido por "C-0R13" que descobrimos e conhecemos a sua verdadeira dimensão afectiva e sentimental. A abnegação para com esse "outro", ainda relativamente desconhecido, mas que é a personificação - palavra bem escolhida quando encontramos a manifestação de um sentimento tão humano - da vontade de estar perto... de sentir... transforma este pequeno robot esquecido num destino distante naquilo que, talvez, qualquer um de nós gostaria de ser ou sentir para com outro num universo que nos aproxima... mas principalmente distancia pela incapacidade de expressar pelo "outro" o mais nobre dos sentimentos. Sacrificando a sua existência... que sobrará dele para um mundo que... não conhece?!
Num olhar romântico sobre o amor e a sobrevivência do "eu" num mundo onde a individualidade e a solidão ganham contornos tristemente presentes e reais face às adversidades do momento - ainda que esta curta-metragem já esteja datada de há um ano -, este Marooned cativa pela sua inocência, por uma mensagem de esperança trazida pela abnegação derivada de um inesperado amor mas sobretudo pela simplicidade emocionante com que primeiro se vive o sonho e depois dele se abdica pelo bem maior do "outro" tantas vezes difícil de encontrar no cinema... quanto mais na dita "vida real".

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8 / 10

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segunda-feira, 18 de maio de 2020

Mirrors | srorriM (2019)

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Mirrors | srorriM de Aaron Hunt (EUA) é uma das curtas-metragens de terror presentes na competição oficial do Trapped Film Festival que este ano teve uma sessão online onde apresentou todos os seus filmes.
A história começa quando um homem desgostoso tenta comunicar com um amor perdido. Ao bater na parede em frente recebe uma resposta que tenta decifrar.
Ainda que seja de notar a sua atmosfera magnética do ponto de vista de cinema de terror e de suspense, este Mirrors | srorriM perde-se numa mensagem que é, logo à partida, por demais óbvia. Compreendemos o desgosto de um homem que perdeu, pelo que entendemos, o amor da sua vida. Ao perdê-lo sente a necessidade máxima de voltar a ter uma resposta... um sinal. E é com este sinal que se desenvolve uma ligação (in)esperada com alguém "do outro lado".
Mas, e funcionando talvez como o único elemento surpresa desta curta-metragem, é a resposta que chega (tardia) que desvenda o mistério que o espectador poderia (porventura) ainda encontra nesta história. Como todos os espelhos, existem dois lados que se desvendam... o real que se encontra do lado em que nos encontramos... e o outro lado... onde o reflexo revela uma imagem por vezes distorcida da realidade ou, pelo menos, o reflexo que queremos ver no mesmo. Eis que compreendemos, já no final, qual é na realidade o verdadeiro reflexo.
Ainda que esta surpresa não chegue para justificar toda uma mensagem que o espectador já conhece de inúmeras outras histórias na mesma linha, este Mirrors | srorriM prima unicamente por uma atmosfera de "mundo incerto" onde não se percebe imediatamente onde se encontra o nosso protagonista e, em imediata relação, a direcção de fotografia que tudo mantém num suspenso em realidade e reflexo com um interessante e bem estruturado jogo de luzes. Dito isto... este Mirrors | srorriM já "foi visto". Estruturalmente bem construída mas... that's it...

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4 / 10

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domingo, 17 de novembro de 2019

Meat Wagon (2019)

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Meat Wagon de Josh Gould (EUA) é uma das estreias da décima edição do Buried Alive Film Festival em Atlanta e um dos mais curiosos filmes curtos da selecção na medida em que o seu potencial - por explorar - poderá criar um interessante conto de terror moderno.
Um homem que não consegue respirar. Dois paramédicos chamados para assistência. Uma casa e todo um conjunto de crenças religiosas que se misturam numa história onde o terror está porvir.
Num estilo muito próprio da série Z, esta magnífica curta-metragem de Josh Gould prima desde os seus primeiros instantes pela direcção de fotografia de Sidarth Kantamneni que confere a esta história a atmosfera assustadora dos filmes zombie que George Romero entregou há mais de trinta anos e que deixaram o grande público num suspenso sobre o que era mito ou realidade no espaço e no tempo da história a que assistiam. Mais, Meat Wagon consegue com os seus vários elementos escondidos por entre palavras enigmáticas e que deixam muito à sugestão do espectador, criar um conto que mescla essa incerteza do espaço com crenças religiosas, voodoo e ainda desavenças familiares que expõem o público a uma espécie de transe na medida em que este se concentra em todo um conjunto de subtis detalhes que chegam a um ritmo alucinante sem que, no entanto, nada na dinâmica desta história revele muito mais do que o início de "algo" que está por acontecer.
O espaço é, pensamos, familiar. Um sul profundo dos Estados Unidos... uma região ligada à crenças voodoo onde os feitiços e as conjuras são frequentes para que uma parte aparentemente vítima de uma comunidade possa garantir o (seu) controlo sobre a mesma. O espectador desconhece quais os seus fins. Nada, nesse aspecto, consegue ser suficientemente claro para que se delimite as acções daqueles que "nos" circulam mas, ainda assim, percebe que todos os acontecimentos que ali testemunhamos mais não são do que o início de uma qualquer revolução social que está por chegar... Serão zombies... será um qualquer feitiço de histeria colectiva... será uma simples dominação pelo subconsciente? Nada é certo. A única certeza conferida por esta história é que os acontecimentos, tal como se espera que eles se desenvolvam, ainda estão por chegar.
Ver a dinâmica desta história faz o espectador recordar um qualquer filme de Romero ou até mesmo destas recentes histórias de The Walking Dead. O espaço - físico - é familiar. Locais perdidos e voluntariamente isolados que são a génese de tudo o que está por acontecer... no fundo, o centro de uma qualquer "epidemia" que, por razões desconhecidas, irá tomar conta dos destinos da Humanidade - pelo menos daquele espaço em concreto -, e que a todos irá mudar sem qualquer piedade. Até mesmo os diálogos entre as diversas personagens fazem adivinhar essa mudança... Primeiro o paramédico que inicia esta dinâmica pela observação da sua tranquilidade por acabar, depois pela vítima que (talvez) não o será... O acusado que poderá ser o detentor de uma qualquer futura redenção mas agora injustamente acusado e finalmente as conversas teológicas e filosóficas que inundam os minutos finais desta curta-metragem... Algo está "presente" mesmo que, para o espectador, seja ainda incerto sobre que forma irá assumir.
Meat Wagon é a esperada introdução a uma história maior e que aqui ganha forma... Possivelmente essa forma acabará por ser a mesma que se espera do tal "perigo" que espreita sem se assumir como uma realidade (por enquanto), e que o realizador certamente irá desenvolver num próximo trabalho. Meat Wagon não se apresenta como um filme terminado mas sim como aqueles que lança os primeiros elementos de uma história maior... uma história onde as suas personagens não só nos lancem mais factos sobre as suas realidades mas também sobre aquela que (então) vivem. Um conto sobre um mundo em transformação onde as crenças antigas se misturam com novas realidades convivendo como num limbo e onde se conquistam seguidores que encontram nas mesmas as formas da sua própria sobrevivência.
Formalmente ambíguo - mesmo o seu título não se expõe àquilo que aparenta mas sim a uma forma multifacetada de ler o que nos pretende transmitir - pois não só não se assume como um tradicional filme de terror onde se expõem as realidades das personagens e do mundo tal como os conhecemos conseguindo, dessa forma, ser uma história sedutora e capaz de atrair o espectador para algo que se adivinha ter uma continuidade mas que, ao mesmo tempo, é capaz de estabelecer regras e limites sobre aquilo que pretende transmitir ao espectador. Aqui não existem inocentes mas sim personagens capazes de delinear o mundo à sua própria maneira... E para o espectador mantém-se a certeza de que assiste a um filme capaz de deixá-lo a pensar para lá da sua duração temporal.
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8 / 10
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Marighella (2019)

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Marighella de Wagner Moura (Brasil) presente numa das Sessões Especiais desta décima-terceira edição do LEFFEST - Lisbon & Sintra Film Festival a decorrer até ao próximo dia 25 de Novembro e assumindo-se como um dos grandes filmes do ano e, seguramente, uma forte aposta do novo cinema brasileiro.
Finais da década de '60. O Brasil vive sob uma ditadura militar que depôs em 1964 o Presidente eleito João Goulart. A violenta ditadura militar instalada com grande apoio populacional mas com a oposição de Carlos Marighella classificado pelo regime - que duraria até 1985 - como o inimigo público número um do Brasil.
Oscilando entre dois momentos específicos na vida do revolucionário Carlos Marighella (1964 com o início do golpe e 1968 em que a luta dos revolucionários era já uma certeza), a longa-metragem de Wagner Moura assume-se desde os instantes iniciais como uma poderosa história de resistência, de resiliência, de perda mas sobretudo de uma forte componente humanista que expõe os homens e mulheres que se opuseram à brutalidade do regime, os seus sonhos de uma vida em liberdade e, sobretudo o seu desencanto por uma sociedade na qual a repressão e a perseguição se solidificava com o apoio de uma maioria que se mantinha silenciosa ou pactuante.
Com mais de duas horas e meia de duração, não há um instante em Marighella que seja ao acaso. Tudo tem uma continuidade lógica e cada momento é vividamente absorvido pelo espectador que ora se deixa encantar pelo homem por detrás do nome ora se emociona com a realidade dos acontecimentos que sabe de antemão. Marighella começa como, de certa forma, põe o fim a todo um relato da vida de quatro anos deste homem... uma história e um legado para o seu filho. Na beira da mudança de regime, "Carlos Marighella" (Seu Jorge) é um homem que vive na clandestinidade e num constante receio da perseguição dos agentes do novo governo vivendo, ainda assim, com uma certa exposição pública que o leva a visitar aquilo que tem de mais precioso... o seu filho.
Os sinais do regime são evidentes... os constantes desfiles militares pela cidade, o receio de falar mais do que o devido num sítio público onde poderá ser escutado por qualquer um e até mesmo a sentida necessidade de se esconder naqueles espaços que sempre foram seus mas que agora são do domínio de um poder autoritário. A oposição ao comunismo, ou àquela que era encarada como a sua ameaça, levava às prisões aleatórias a todos os recantos onde se pensasse que a sua doutrina estava a ser ensinada... do mais simples cidadão às universidades passando mesmo pela Igreja tantas vezes associada a um maior conservadorismo. Este é todo um contexto em que Marighella se enquadra. Mas será este filme apenas e só sobre essa realidade? Não... longe disso.
Wagner Moura concentrou-se, e bem considerando os tempos conturbados que cinquenta anos depois o Brasil volta a viver, em enquadrar o espectador no tempo no espaço e nos agentes nos quais esta parte da História se centra mas, ao mesmo tempo, tem o cuidado de respeitar o Homem para lá da sua militância e resistência ao regime. Marighella vê a luz através da próxima relação que o protagonista tem com o seu filho. Filho esse a quem dedica uma "carta" explicando a sua ausência. Mais... uma carta na qual lhe endereça o seu legado. Independentemente de o fim último ser ou não conseguido - não o seria uma vez que a ditadura militar só viria a terminar vinte e um anos depois em 1985 -, aquilo que ele enquanto homem desejava é que o filho pudesse viver num país melhor. Aliás, não só o seu filho mas os de todos... como um testamento anunciado para que o país saísse de um obscurantismo ultra-conservador que reprimia e assassinava todos aqueles que lhe fizessem frente. É esse legado, ou até mesmo essa opus maior que acaba por ser o denominador centrar de toda esta longa-metragem que não tem um único momento "morto". Moura, de câmara segura e fixa, obriga (mas de forma voluntária) o espectador a abraçar "Marighella" enquanto um lutador pela liberdade... Um lutador que depois do desencanto de ver o seu povo de costas voltadas para a sua causa - e que no fundo seria a de todos -, e também de um Partido Comunista tímido e reticente à luta, recorreu às armas e também a um outro tipo de violência paa se (a)firmar no terreno assumindo, dessa forma, que apenas pela força se pode combater a própria.
O legado de "Marighella" para o filho não foi, no entanto, esquecido. Para qualquer um dos resistentes aqui retratados - ou para tantos outros aos quais é dado também um rosto -, existe um drama associado... o distanciamento das famílias, o sofrimento causado pelo mesmo, as gerações perdidas e as pressões diárias que vivem quer pela ostracização social quer também pela constante vigilância que poderia resultar na prisão de mais um dos resistentes. Da vilanização dos resistentes como forma de destruição da sua moral e oposição da população de uma forma geral, existia uma necessidade por parte dos emissários deste novo regime para que "Marighella" e os seus apoiantes fossem condenados pela sociedade antes de serem detidos - ou eliminados - pelo mesmo numa clara alusão de que a "maçã" deve apodrecer primeiro por dentro para depois ser fortemente retirada da circulação. Mas se internamente "Marighella" sofria a perseguição do regime intimamente apoiado pelos Estados Unidos, era de França e de demais regimes de esquerda que surgia a sua rendição enquanto um homem que lutava pelos direitos da população. Mas a sua mensagem, ou legado, mantinha-se intacto... liberdade para o seu povo e generosidade, lealdade e honestidade para um filho em pleno desenvolvimento num momento em que todas estas características parecem dispensáveis quando o medo se apodera dos sentidos mais básicos de cada um.
Independentemente de conhecermos o final trágico deste momento da História, Wagner Moura prepara o espectador para aquilo que o mesmo sabe ser inevitável... o fim. O fim de "Marighella" enquanto um resistente... a sua compreensão de que o fim se aproximava a passos largos mas, ainda assim, a completa noção de que a obra iria, no futuro, resistir (tal como ele) e persistir para que a liberdade fosse, de facto, uma confirmação. É impossível assistir a esta longa-metragem e, concordando ou não com os actos de violência tomados por parte destes resistentes, ser incapaz de nos identificarmos com a sua extrema e justa necessidade de obter a liberdade que tanto desejam. A vontade de serem representados livremente e poderem manifestar-se ou conhecer o que quisessem sem que a mão conservadora do regime proibisse ou regulasse aquilo ao qual todos pudessem ter acesso. Sentir a liberdade da interferência estrangeira no país e a forma como esta delimitava os limites e as fronteiras daquilo que era "permitido" ter ou ser. "Marighella" - o homem - deixou sim um legado pago com a sua vida mas fortemente transcrito nas suas palavras que resistiram - resistem - ao tempo e a qualquer revanchismo absolutista que teime em se afirmar. A vontade de liberdade do Homem é maior do que a sua forçada prisão e ainda que esta se possa confirmar fisicamente, o pensamento irá perdurar para lá de qualquer grade que lhe seja imposta.
"Marighella" teve assim a sua justa adaptação cinematográfica tendo ganho corpo através de uma magistral interpretação de Seu Jorge que capta de forma distinta mas firme, não só a sua componente revolucionária como também uma perspectiva pessoal e mais emocional do homem para lá da luta. Dinâmico na sua intensa luta de resistência mas afectivo para com os amigos e com a família, Seu Jorge não receia a sua exposição e a sua perspectiva do "homem" para lá daquilo que a História dele reserva. Intenso, carismático e próximo da câmara - logo, do espectador -, Seu Jorge tem seguramente uma das interpretações mais marcantes deste último ano cinematográfico transformando o "Homem" como um seu expressivo alter ego difícil de ultrapassar. Mas como todos os heróis precisam do seu vilão de serviço, é Bruno Gagliasso com o seu "Inspector Lúcio" que se afirma como o lado negro da História. Corrosivo, agressivo e implacável, Gagliasso confere à sua personagem um conjunto de características que provocam o repúdio do espectador pela brutalidade das suas acções bem como pelos métodos utilizados para que a sua vontade "patriótica" vingasse num país que, para infortúnio dos demais, compreendia e sabia como fazer mover. Dois homens que funcionam como mútua antítese mas cujos actores que lhes dão corpo e alma conseguem dinamizar a sua energia para criar um pólo de atracção perfeito para que esta longa-metragem não tenha um único momento que seja considerado superficial.
Polémicas políticas à parte - aquelas que levam este filme a ser "proibido" aos olhares brasileiros -, Wagner Moura cria uma obra maior do cinema de terras de Vera Cruz. Um testemunho histórico do tempo, da sociedade, do Homem e dos homens... dos regimes, das vontades, dos sonhos e das suas privações que "apenas" tem um único propósito final... o desejo intenso de uma liberdade que tarda... que por vezes parece perdida... mas que um dia chega e se firma pedindo que nunca se deixe de por ela lutar... e resistir.
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"Memória de um tempo que lutar pelo seu direito é um defeito que mata."
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10 / 10
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Mark of the Beast: The Legacy of the Universal Werewolf (2019)

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Mark of the Beast: The Legacy of the Universal Werewolf de Daniel Griffith (EUA) é uma das longas-metragens presentes na décima edição do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta.
O lobisomem. O primeiro dos "monstros" do cinema e as suas influências na Sétima Arte ao longo das décadas. Das origens no cinema aos títulos mais reconhecidos dos últimos anos, Mark of the Beast: The Legacy of the Universal Werewolf é um relato da lenda que se cruza com a história do cinema fantástico através do comentário de alguns dos seus principais intervenientes.
Através de uma introdução histórico-mitológica entregue por alguns nomes reconhecidos da Sétima Arte como John Landis, Peter Atkins ou Joe Dante, o realizador Daniel Griffith entrega ao espectador uma abordagem dos primórdios da marca, da simbologia e do folclore tradicionalmente ligados à imagem do lobo que remontam à mitologia grega na qual se assumem como capazes da transformação ou metamorfose de animal para homem. Da antiguidade grega - pela mutação animal evidenciada pela divindade Zeus - à Idade Média, o imaginário do lobo - e do homem-lobo -, povoou as mentes humanas como um perigo latente que espreitava nas sombras. Intimamente associado àqueles que sendo humanos evidenciavam comportamentos animalescos ou desviantes, é estabelecida uma teoria à evidente superstição que a sustenta, e registados inúmeros casos em França onde, à época, o imaginário colectivo condenou e torturou muitos cidadãos por serem associados a uma desumanidade (pela sua força e robustez) e, logo, padecentes ou vítimas da licantropia.
A licantropia passou assim a estar associada também à literatura que explorava o imaginário do lobo e da transformação deste na sua figura humana. A mais evidente referência literária é a de Drácula de Bram Stoker - adaptada ao cinema nos anos '90 por Francis Ford Coppola -, onde o cosmopolitanismo e sofisticação do vampiro contrasta com a robustez física do lobo que ataca e se manifesta nas noites de lua cheia dando relevo à figura do lobisomem agora na Sétima Arte. Mas as origens deste estaria já marcada no cinema décadas antes.
Foi no início dos anos '30 que se registou pelas mãos da Universal o cinema de género através de um terror assumidamente gótico e negro, o preferido de Carl Laemmle, fundador da companhia. De Boris Karloff a Bela Lugosi sem esquecer Lon Chaney Jr. que marcou de forma definitiva a personagem do lobisomem servindo, inclusive, de referência para todas as interpretações que se lhe seguiriam, com a sua interpretação em The Wolf Man (1941), de George Waggner. Da obra que estabeleceu as linhas condutoras para o cinema de género e como a caracterização assumia aqui um papel protagonista na forma como o homem lobo era visto pelo grande público, não só pela sobreposição de imagem com que se conseguiria criar toda uma imagem de referência da transformação - do homem em lobo - propriamente dita e à sua directa relação com a passagem do adolescente a adulto (ou criança a homem pelo corpo que se transforma e anuncia a puberdade do "ser"), à importância da direcção de fotografia para conseguir criar uma atmosfera de terror claustrofóbico que induzia o espectador a temer mais aquilo que não via do que aquilo que os seus olhos testemunhavam no grande ecrã.
Um dos elementos interessantes deste documentário é a forma como apresenta a figura do lobisomem. Se os demais monstros da Universal - Frankenstein... Drácula... Múmia... - são sobre a forma como todos tentam voltar à vida depois de uma morte confirmada, o Lobisomem enquanto figura com uma elevada carga maléfica, estabelece-se e afirma-se no cinema como uma cujo fim último é a morte. O Lobisomem não procura o seu lugar no mundo dos vivos mas sim terminar com o seu sofrimento e castigo "em vida" directamente relacionado com a morte dos demais, procurando a morte e cancelando assim esse suplício. Ao contrário dos demais o Lobisomem procura não o início de uma nova vida mas sim o auto-extermínio e, como tal, o fim que não se anuncia. A este imaginário foi a interpretação de Chaney Jr. que se lhe juntou e muito contribuiu para a estabelecer e contrariamente a todos os demais "monstros", foi o actor que se conseguiu manter sempre associado a esta marca interpretando-o em todas as demais entregas ao longo de décadas.
Interessante e importante documentário - e documento - não só sobre a História (mitológica) bem como sobre aquela da imagem em movimento e do cinema, Mark of the Beast: The Legacy of the Universal Werewolf é uma obra de referência que analisa a mitologia, a História, o cinema e os seus intervenientes e algumas das histórias caricatas que caracterizaram o género estabelecendo este "lobisomem" como um dos seus principais fundadores e um dos mais resistentes conseguindo entregar múltiplas entregas capazes de se afirmar no terreno dos "monstros cinematográficos" numa arte que, tal como o próprio, está sempre em perfeita e constante mutação.
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8 / 10
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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Mom's Clothes (2018)

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Mom's Clothes de Jordan Wong (EUA) é uma das curtas-metragens na Competição Oficial da vigésima-terceira edição do Queer Lisboa a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa que reflecte sobre o que será estar "fora do armário" numa perspectiva apresentada na primeira pessoa sendo aqui o realizador o principal interveniente da história não-ficcionada que pretende ralatar.
À medida que o espectador observa todo um conjunto de padrões que, pela própria pista dada pelo título, se deduz serem de um roupeiro mais ou menos elaborado e exuberante da sua mãe, compreende as palavras do narrador que assume a sua diferença e individualidade e o facto destas terem sido não só de difícil descoberta como, sobretudo, tão importantes para a definição do seu próprio "eu" escondido, tal como elas, no fundo de um armário que insistia em ter as suas portas cerradas para o mundo exterior. Num sem fim de imagens que rodopiam e circulam no grande ecrã, o espectador escuta então o relato confessional do realizador e da sua auto-descoberta que se impõe ao mundo mais do que uma afirmação mas sim como uma forma de dizer que finalmente estava apto para reclamar a sua dignidade e auto-estima como uma parte integrante do seu ser e da sua personalidade.
Ainda que original pela forma como relaciona a definição de "armário" ou de roupa como camuflagem para a realidade que tanto tempo levou a aceitar e assumir, Mom's Clothes é, sobretudo, uma curta-metragem que demora tanto como a escritura de uma carta na qual se assume uma confissão... para si... talvez para o mundo mas onde principalmente se reclama a auto-valorização do "eu" e a esperança - não tácita - de que um "amanhã" pode ser mais bem vivido sendo que é esperado pelo espectador o que, ou como será, esse dia depois do qual nada se chegará a saber.
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4 / 10
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domingo, 25 de novembro de 2018

Madness (2018)

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Madness de João Viana (Portugal/Moçambique/França/Guiné-Bissau/Qatar) curta-metragem da selecção oficial da XXIVª edição do Caminhos do Cinema Português e um dos filmes nomeado ao Urso de Ouro da última edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim.
Lucy (Ernania Raínha) está internada num hospital psiquiátrico de Moçambique mas não desiste de saber do seu filho. Quando pergunta por ele um enfermeiro diz que não vê ninguém. Lucy revolta-se...
A curta-metragem de João Viana é, até ao momento, uma das obras maiores desta edição do Caminhos. Cedo, compreende o espectador, encontramos um ambiente pouco acolhedor dentro daqueles quatro paredes de um hospital onde os seus pacientes definham. A sua condição pouco normalizada e ameaçada com uma potencial incompreensão dos seus porquês, leva-nos a crer que o que ali encontramos ser um espaço onde as almas - sejam elas de que tempo forem - aguardam uma passagem para outro lado que parece não chegar. "Lucy", enquanto uma das pessoas ali internadas, sente uma necessidade extrema, quase tanta quanto aquela que tem para respirar, de saber de um filho que não vê... não sabemos há quanto tempo, e é a ausência de uma informação verídica que a leva a despoletar uma tentativa de fuga. Fuga daquele hospital, daquela prisão que a condena a uma sentença que desconhece - que desconhecemos - e que a impossibilita de concretizar o seu sonho.
No entanto, e voltando ao interior daquele hospital psiquiátrico, existe uma permanente sensação de que aquilo que o espectador observa não é necessariamente um hospital mas sim uma sala de espera - ou melhor, um purgatório - onde aguenta por uma passagem para algo (espera) mais tranquilo e definitivo. A sua residência naquele espaço limita-se pela impossibilidade de avançar no (seu) tempo ao mesmo tempo que dele tenta escapar e encontrar solução para o seu sufoco noutro local. "Lucy" quer evadir-se... e tudo fará para o alcançar.
Se este seu momento dentro do referido hospital se assemelha a uma "passagem", é todo o seguinte segmento na qual finalmente se evade daquele espaço que parecem conferir a esta curta-metragem uma dimensão mais "sobrenatural" (ou fantástica), quando a nossa protagonista parece enfrentar uma viagem impossível repleta de inimagináveis momentos que a transportam sim para os braços de quem deseja mas que, ao mesmo tempo, parecem irreais demais para qualquer um de nós equacionar serem verídicos. Assim, e se por um lado o espectador imagina este filme como um conto dramático sobre a impossibilidade de uma mulher em ver o seu filho, fruto de um internamento que a própria não compreende, é o que esta incompreensão despoleta e origina que o leva a imaginar que todos os comportamentos sucessivos são fruto de uma história de contornos sobrenaturais que a colocam num patamar espiritual diferente daquele que a própria reconhece.
Com uma magnífica interpretação de Ernania Raínha - seguramente uma das melhores do ano - sentida no desconhecimento da sua real situação mas convicta da sua necessidade em encontrar o seu elo mais forte no mundo, o espectador viaja do real ao imaginado e sem esquecer as eventuais marcas de um passado pouco explicado, fazendo de Madness o resultado de uma vida sofrida? De uma loucura não assumida ou, por sua vez, de um qualquer patamar existencial que nem personagem nem espectador reconhecem?!
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8 / 10
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