sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Budfoot (2019)

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Budfoot de Tim Reis e James Sizemore (EUA) é mais uma das curtas-metragens presentes na décima edição do Buried Alive Film Festival a decorrer em Atlanta, e a primeira que garante ao espectador uma experiência que se pode afirmar, no mínimo, psicadélica.
Numa sala decorada com as últimas maravilhas do coleccionismo exotérico e do fantástico Jo (Skinner) prepara-se para ver entrar no seu universo o imparável Budfoot, a figura animada de um gorila que tem os seus próprios planos para o destino de Jo.
O argumento de Akom Tidwell prima por, desde o momento inicial, garantir ao espectador que não está perante uma curta-metragem qualquer. De um universo semi-hindu que se cruza com budismo, existencialismo, psico-trópicos e até mesmo receios pessoais, aquilo que o espectador pode observar é, em boa medida, francamente alternativo e original. Dito isto, imagine o espectador um adepto fanático das figuras de acção, de histórias e mundos onde o sobrenatural e o fantástico reinam e que imperam face a uma qualquer realidade (para ele) virtual que está para lá das paredes da sua casa. Com isto, continue o espectador com o seu processo de criação imaginativa para, dentro deste mesmo universo, pensar que o seu principal protagonista mais não é do que alguém que passa o seu tempo - desde há muito tempo -, no consumo de drogas alucinogéneas e que lhe conferem uns instantes mais ou menos prolongados de separação e alienação da realidade tal como pensa conhecer.
Se dentro daquele espaço em que "Jo" vive tudo já parece uma recriação muito pessoal da realidade tal como ela é, o certo é que este homem recebe uma chamada enigmática que acaba por dominar muito do seu tempo. De divindades macabras a conversas mais ou menos inteligentes que parecem não ter fim, tudo ao seu redor parece transformar-se de forma tão maleável como aquela que ele utilizou para criar as figuras que o rodeiam. Qual será a realidade ou, por outras palavras, a percepção que "Jo" tem da realidade... tal como ela, de facto, é?!
É quando "Budfoot" ganha vida, facto ainda mais assustador do que propriamente a falta de percepção de "Jo", que o espectador compreende que nada nesta história irá terminar da melhor forma. A figura animada mais não é do que um ser macabro capaz de tudo para atingir um objectivo - se é que este existe -, inclusive eliminar o seu mentor e criador. As trapaças criadas pelo mesmo para o engano para a rasteira psicológica e sobretudo para o domínio sobre o homem que lhe deu forma vão muito para lá daquelas imaginadas pelo mesmo e se estas parecem surpreender (o espectador) pela forma súbtil e inocentemente macabra com que são planeadas - bisturi à parte -, a realidade é que é já no final que é compreendida toda a dimensão desta história que oscila entre esse mundo sobrenatural e a doença mental deixando o público no seu próprio transe sobre as potencialidades do que é inexplicável!
Com duas personagens carismáticas devendo, uma delas, muito ao poder da sua interpretação vocal que é capaz de criar alguns arrepios ao nível de "Chuckie" em Child's Play - universos do sobrenatural à parte -, é sem margem de dúvidas o elaborado, enigmático mas assumidamente alternativo argumento de Tidwell que, juntamente com uma exemplar fotografia e uma música ambiente da autoria de Christopher Ian Brooker, são capazes de transformar uma banal história de suspense e terror num conto macabro e sobrenatural que, no entanto, não deixa esconder uma certa aproximação à doença mental que o protagonista parece esconder do espectador.
Para o género... uma referência... para o futuro, a possibilidade de uma porta aberta que consiga explorar os destinos do misteriosamente cruel "Budfoot".
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7 / 10
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