segunda-feira, 26 de abril de 2010

Respiro (2002)

Respiro de Emanuele Crialese tem a brilhante Valeria Golino como a sua actriz principal secundado por muitos outros de onde se destaca a breve participação daquele que é hoje um dos novos talentos do cinema italiano Elio Germano.
Este filme centra-se na vida de Grazia (Golino) que é um verdadeiro espírito livre preso em Lampedusa, uma pequena ilha do Mediterrâneo, onde os costumes e as tradições quase mandam que as pessoas, especialmente as mulheres, sejam invisíveis.
Todo o percurso do filme, das suas personagens e principalmente a de Grazie transpiram sentimentos. No caso de Pietro (Vincenzo Amato), o marido de Grazia, temos principalmente a quase obrigação de reprimir qualquer tipo de manifestação de sentimentos. Seja de amor ou carinho, a sua "obrigação" como homem é a de não manifestar preocupação além daquela definida para manter a sua imagem na comunidade. O homem como o chefe da família e a quem todos obedecem.
Quanto aos seus filhos, o mais novo segue já vincadamente a mesma postura do seu pai, o mais velho sente o peso da responsabilidade, enquanto que a filha sente a vontade da descoberta.
Por seu lado Grazia transpira a vontade de respirar, que dá nome ao próprio filme. Respirar a liberdade, a vontade de ser independente e de viver a vida a que se sente destinada. Temos como manifestações disto a sua vontade de sentir o ar e o cheiro vindos do mar que a poderiam transportar para outras paragens ou até mesmo os passeios que dá de motorizada pela vila e sentir o vento a bater no seu rosto. Liberdade dos rituais que se vão banalizando e que a enclausuram cada vez mais na submissão da sua casa.
Esta mesma liberdade é prontamente eliminada numa sequência breve após a libertação dos cães do matadouro. Por breves momentos livres... e rapidamente eliminados na sua passagem pela vila. Este sim, é o momento principal de que nem tudo deve, segundo alguns, ter direito à liberdade, e é também talvez o mais forte momento de todo o filme em que, ao nada se ver, torna tudo ainda mais angustiante.
Com um forte trabalho de fotografia da autoria de Fabio Zamarion que capta na perfeição as cores do Mediterrâneo e da respectiva vila e uma inspirada banda-sonora de Andrea Guerra e John Surman que cria este ambiente que circula entre liberdade e opressão, Emanuele Crialese conseguiu dirigir um magnífico filme não sobre a opressão mas sobre a vontade inerente a cada um de ser livre.

7 / 10

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