
João Arruda (Rafael Paes) é um estudante de Filosofia vindo dos Açores da Lisboa e cuja grande aspiração é a liberdade que o regime não permite. Fernando Giesteira (Lucas Dutra) é um jovem de 17 anos que trabalha num clube nocturno na capital. Fernando Reis (Diogo Fernandes) é um soldado de férias em Lisboa. António Lage (Manuel Nabais) é um dos secretários da PIDE. José Barneto (Miguel Monteiro) um activista de 38 anos e pai de quatro filhos. Todos estariam ligados pelos acontecimentos inicialmente vividos em alegria e euforia e tragicamente desaparecidos pelos últimos sinais de vitalidade daquela que foi uma terrível polícia política cuja intervenção em Portugal durante quase cinco décadas. A história da "revolução sem sangue" tráz, afinal, factos que muitos de nós desconhecemos.
No ano em que o 25 de Abril - a Revolução dos Cravos - cumpre os seus cinquenta anos, o realizador Rui Pedro Sousa estreia esta que é a sua primeira longa-metragem e o tema não poderia ser mais pertinente. Primeiro porque celebramos um dos - senão o - mais importantes factos da História Contemporânea de Portugal que terminou com uma das mais longas ditaduras fascistas da Europa nos últimos cem anos. Em segundo lugar porque conferiu ao seu povo não só a Liberdade - não fosse ela por si motivo suficientemente maior para ser celebrado - como também impôs um fim a uma guerra civil (e colonial) que durou treze anos nas então Colónia Portuguesas em África onde toda uma geração foi destruída através da sua morte física e psicológica. E finalmente pois, com o finalizar desta ditadura, Portugal encontrou o seu caminho e rumo face à Europa e à modernidade terminando portanto um isolamento que durou 48 anos.
Enquadramento histórico à parte, não obstante a sua elevada importância para o nosso conhecimento de forma geral como sobretudo para nos inserirmos enquanto espectadores na realidade que esta longa-metragem nos propõe retratar, aqui encontramos um conjunto de personagens reais ficcionadas que, desta forma, têm finalmente a sua voz escutada e a sua história contada para um público que, de forma geral, desconhece quem eram e foram. As personagens - e vou aqui referir-me a "personagens" num sentido lato pois tenho presente e bem consciente em todos os momentos que nos encontramos perante uma ficção que, no entanto, se baseia em factos verídicos - são aliciantes e envolventes desde o primeiro instante. Em cada momento em que não se cruzando conseguem preencher o ecrã dando-se assim a conhecer ao espectador, faz com que este se envolva nos seus enredos, nas suas histórias, nos seus sonhos e ambições e sobretudo na sua Humanidade para "um dia melhor" que tarda em chegar. Todos eles, sem o saber, testemunhavam os últimos instantes de um regime que findava impossibilitando-lhes a concretização de pequenos grandes desejos que esperavam ao virar de uma qualquer esquina. É, nesta medida, que o espectador se apaixona por estas pequenas histórias (cada uma delas capaz de suportar a sua própria longa-metragem) e querer saber mais e mais sobre cada um deles... independentemente de compreender que o (seu) fim estará para breve. Começando pelos mártires (que o foram) do 25 de Abril. O primeiro de todos, e que acaba por ser como um não assumido protagonista desta longa-metragem, é "João Arruda" (Rafael Paes), um jovem idealista com sonhos e ideais da tal libertas que tão intensamente descreveu como um bem maior e que por entre os sustos da ditadura e da sua polícia política e os anseios de um dia vivido em liberdade revela a sua humanidade e aspirações de um jovem de vinte anos. Com um ainda muito recente percurso em cinema, Paes demonstra com o seu "Arruda" uma sensibilidade extrema ao conseguir dar corpo e vida a este jovem idealista representando os seus desejos de liberdade através de pequenos traços e expressões corporais aos quais o seu olhar dá uma intensa vida e finalmente, quando a liberdade está à porta, deixa transparecer pela vivacidade da sua voz e da afirmação que impõe no seu percurso por uma Lisboa em transformação. Rafael Paes, jovem de idade e enquanto actor, afirma-se tranquilamente como um silencioso protagonista cujos gestos e dinamismo em Revolução Sem Sangue o transformam num rosto que (espero) veremos em muitas mais produções de destaque e dignas do seu talento.
Outra das personagens de Revolução Sem Sangue é o "Fernando Giesteira", de Lucas Dutra. O mais jovem dos mártires do 25 de Abril ao dar corpo a um jovem de 17 anos que trabalhava num clube nocturno e que, apesar da sua muito jovem idade, revelava todo um sentido de preocupação com uma eventual relação sentimental com uma colega como também para com a sua irmã grávida de um pai mais ou menos ausente a quem ele exigia a responsabilidade que não sentia do mesmo. Dutra dá corpo a um tipo de idealista diferente daquele interpretado por Paes fazendo do seu "Giesteira" um rapaz pacato com anseios de vida não diferentes dos outros mas que os manifestava de uma forma mais tranquila que preponderante. Dutra consegue captar toda a atenção para si, e para a sua personagem, no instante em que se encontra com a sua irmã "Ana" (Catarina Siqueira) no restaurante e falam sobre relacionamentos, sobre a vida, sobre a família e sobre a maternidade não sabendo, no entanto, que aquela haveria de ser a última conversa que iriam ter. Nós, espectadores, ao presenciarmos este seu instante - e que acaba também por ser nosso -, assistimos a todo um comovente momento de uma não compreendida despedida que simboliza uma forte união que nem a morte poderá separar.

























