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quinta-feira, 11 de abril de 2024

Revolução Sem Sangue (2024)


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Revolução Sem Sangue de Rui Pedro Sousa (Portugal/Espanha) é a primeira longa-metragem do realizador de Tsintty (2013), Limbo: A Small Measure of Peace (2016) e Insanium (2018) inspirada em acontecimentos reais da Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974, mais concretamente sobre as últimas horas daqueles que foram mortos às mãos da PIDE/DGS, a polícia política da ditadura.
João Arruda (Rafael Paes) é um estudante de Filosofia vindo dos Açores da Lisboa e cuja grande aspiração é a liberdade que o regime não permite. Fernando Giesteira (Lucas Dutra) é um jovem de 17 anos que trabalha num clube nocturno na capital. Fernando Reis (Diogo Fernandes) é um soldado de férias em Lisboa. António Lage (Manuel Nabais) é um dos secretários da PIDE. José Barneto (Miguel Monteiro) um activista de 38 anos e pai de quatro filhos. Todos estariam ligados pelos acontecimentos inicialmente vividos em alegria e euforia e tragicamente desaparecidos pelos últimos sinais de vitalidade daquela que foi uma terrível polícia política cuja intervenção em Portugal durante quase cinco décadas. A história da "revolução sem sangue" tráz, afinal, factos que muitos de nós desconhecemos.
No ano em que o 25 de Abril - a Revolução dos Cravos - cumpre os seus cinquenta anos, o realizador Rui Pedro Sousa estreia esta que é a sua primeira longa-metragem e o tema não poderia ser mais pertinente. Primeiro porque celebramos um dos - senão o - mais importantes factos da História Contemporânea de Portugal que terminou com uma das mais longas ditaduras fascistas da Europa nos últimos cem anos. Em segundo lugar porque conferiu ao seu povo não só a Liberdade - não fosse ela por si motivo suficientemente maior para ser celebrado - como também impôs um fim a uma guerra civil (e colonial) que durou treze anos nas então Colónia Portuguesas em África onde toda uma geração foi destruída através da sua morte física e psicológica. E finalmente pois, com o finalizar desta ditadura, Portugal encontrou o seu caminho e rumo face à Europa e à modernidade terminando portanto um isolamento que durou 48 anos.
Enquadramento histórico à parte, não obstante a sua elevada importância para o nosso conhecimento de forma geral como sobretudo para nos inserirmos enquanto espectadores na realidade que esta longa-metragem nos propõe retratar, aqui encontramos um conjunto de personagens reais ficcionadas que, desta forma, têm finalmente a sua voz escutada e a sua história contada para um público que, de forma geral, desconhece quem eram e foram. As personagens - e vou aqui referir-me a "personagens" num sentido lato pois tenho presente e bem consciente em todos os momentos que nos encontramos perante uma ficção que, no entanto, se baseia em factos verídicos - são aliciantes e envolventes desde o primeiro instante. Em cada momento em que não se cruzando conseguem preencher o ecrã dando-se assim a conhecer ao espectador, faz com que este se envolva nos seus enredos, nas suas histórias, nos seus sonhos e ambições e sobretudo na sua Humanidade para "um dia melhor" que tarda em chegar. Todos eles, sem o saber, testemunhavam os últimos instantes de um regime que findava impossibilitando-lhes a concretização de pequenos grandes desejos que esperavam ao virar de uma qualquer esquina. É, nesta medida, que o espectador se apaixona por estas pequenas histórias (cada uma delas capaz de suportar a sua própria longa-metragem) e querer saber mais e mais sobre cada um deles... independentemente de compreender que o (seu) fim estará para breve. Começando pelos mártires (que o foram) do 25 de Abril. O primeiro de todos, e que acaba por ser como um não assumido protagonista desta longa-metragem, é "João Arruda" (Rafael Paes), um jovem idealista com sonhos e ideais da tal libertas que tão intensamente descreveu como um bem maior e que por entre os sustos da ditadura e da sua polícia política e os anseios de um dia vivido em liberdade revela a sua humanidade e aspirações de um jovem de vinte anos. Com um ainda muito recente percurso em cinema, Paes demonstra com o seu "Arruda" uma sensibilidade extrema ao conseguir dar corpo e vida a este jovem idealista representando os seus desejos de liberdade através de pequenos traços e expressões corporais aos quais o seu olhar dá uma intensa vida e finalmente, quando a liberdade está à porta, deixa transparecer pela vivacidade da sua voz e da afirmação que impõe no seu percurso por uma Lisboa em transformação. Rafael Paes, jovem de idade e enquanto actor, afirma-se tranquilamente como um silencioso protagonista cujos gestos e dinamismo em Revolução Sem Sangue o transformam num rosto que (espero) veremos em muitas mais produções de destaque e dignas do seu talento.
Outra das personagens de Revolução Sem Sangue é o "Fernando Giesteira", de Lucas Dutra. O mais jovem dos mártires do 25 de Abril ao dar corpo a um jovem de 17 anos que trabalhava num clube nocturno e que, apesar da sua muito jovem idade, revelava todo um sentido de preocupação com uma eventual relação sentimental com uma colega como também para com a sua irmã grávida de um pai mais ou menos ausente a quem ele exigia a responsabilidade que não sentia do mesmo. Dutra dá corpo a um tipo de idealista diferente daquele interpretado por Paes fazendo do seu "Giesteira" um rapaz pacato com anseios de vida não diferentes dos outros mas que os manifestava de uma forma mais tranquila que preponderante. Dutra consegue captar toda a atenção para si, e para a sua personagem, no instante em que se encontra com a sua irmã "Ana" (Catarina Siqueira) no restaurante e falam sobre relacionamentos, sobre a vida, sobre a família e sobre a maternidade não sabendo, no entanto, que aquela haveria de ser a última conversa que iriam ter. Nós, espectadores, ao presenciarmos este seu instante - e que acaba também por ser nosso -, assistimos a todo um comovente momento de uma não compreendida despedida que simboliza uma forte união que nem a morte poderá separar.
Passando já ao terceiro protagonista foi o "Fernando Reis" de Diogo Fernandes que me deixou a marca mais forte de todo o filme. Qualquer um de nós facilmente associa o 25 de Abril aos militares, â Guerra Colonial, aos tanques que a cidade de Lisboa viu cruzar as suas ruas e, nesta medida, sedo a sua personagem a única que era, de facto, militar, a atenção está imediatamente virada para si. Fernandes que chega aqui à sua primeira longa-metragem cativa de imediato pela ambiguidade que a sua personagem acarreta. É militar acabado de chegar a Lisboa e cruza-se com uma mulher - "Inês" (Teresa Vieira) numa soberba interpretação de uma mulher posteriormente torturada pela PIDE - que acaba por ignorar aquando da abordagem dos inspectores da PIDE à mesma num Terreiro do Paço deserto. De militar despreocupado e com pouca vontade de ter problemas seguimo-lo para a sua casa onde vive com a mãe desavinda ou "separada" (não oficialmente pois não era permitido) de um pai pouco preocupado e descobrimos que o próprio não está junto com a mulher (ou mãe dos filhos?!) deixando-lhes apenas uma gravação da sua voz quando chega de uma noite de bebedeira com os amigos. Aos olhares da época facilmente seria apelidado como o eterno bon vivant sem responsabilidades ou preocupações de maior... aos parâmetros de hoje podemos analisar que o seu "Fernando" era um jovem homem (não esquecer que ainda estava nos 20 e poucos anos de idade), já pai e militar de carreira num período em que a qualquer momento poderia ser enviado para África onde a taxa de sobrevivência era mínima. O trauma que potencialmente poderemos atribuir à sua personagem existe, está presente e manifesta-se nestes pequenos momentos apenas deles despertando quando encontra um amigo regressado da guerra - e do qual falarei dentro de momentos -, assimilando todas as palavras que dele escuta e finalmente quando compreende que o seu destino está prestes a mudar ao presenciar em plena pessoa que a Revolução chegou e que a sua vida acabara de mudar. Diogo Fernandes tem, entre estes três protagonistas, aquele que considero ser o desempenho mais transformador, mais subtilmente marcado pelas "curvas" da vida, pela junção de um passado e um presente e até mesmo aquele em que os momentos históricos vividos, ou porvir, ganham uma mais sentida notoriedade fazendo dele um mártir silencioso. Alguém que compreende de facto que a sua vida não tem sido boa, que testemunha o momento em que tudo vai mudar e pode ser para melhor mas que, pela fatalidade dos acontecimentos, vê o seu destino interrompido em nome da Liberdade. Dele destaco dois momentos; o primeiro quando fala "para a posteridade" - os seus filhos - com uma emotiva esperança de que ele possa "estar lá" sempre que eles precisarem. O espectador sente também aqui uma trágica despedida entre ele e os seus filhos... entre ele e o futuro... entre ele e esse tal "porvir" que ninguém saberia o que seria. Emotividade essa, vivida por ele em silêncio quando reencontra "Tomás", o "camarada" acabado de chegar de África e que tanto física como sobretudo emocionalmente revela os traumas de uma guerra desumana - não o serão todas?! - que lhe deixou as suas marcas. É através da forte interpretação do "Tomás" de João Bettencourt que Fernandes revela um segundo grande momento na sua composição enquanto todo um silencioso desespero se apodera das suas expressões conferindo-lhe de imediato um desejo de viver, de sentir e de experimentar o que os seus "últimos" momentos de liberdade lhe pudessem facultar na companhia dos amigos. Dutra, Fernandes e Paes compõem assim um trio forte e dinâmico que apesar de não se cruzar muito (ou não nos momentos do seu desenvolvimento enquanto personagem) ao longo da acção desta longa-metragem, conseguem complementar e centralizar o drama e a emotividade desta história e, com uma notória harmonia, estabelecem todo o centro dinâmico e dramático de Revolução Sem Sangue. Existem, claro, outras personagens de relevo nesta longa-metragem. A já mencionada "Inês" (Teresa Vieira) como uma mulher brutalmente torturada pela PIDE e que assume também um destaque nos fatídicos acontecimentos não sem antes de testemunharmos alguns duros instantes do que acontecera por detrás das paredes do edifício da António Maria Cardoso, o idealista e revolucionário "Nelson" (João Arrais) melhor amigo de "Arruda" que assiste tanto â sua morte como ao despertar da liberdade que não foi permitido a todos, o ideologicamente conflituoso "Lage" (Manuel Nabais) como secretário da PIDE que revela aos poucos estar incapaz de continuar aquele trabalho e assistir a tudo o que decorre nas salas escondidas daquele edifício desejando, nos instantes finais, que tudo termine perante um regime que acaba de desabar e finalmente a brutalmente intensa torturadora "Leninha" (São José Correia) que tanto inicialmente parece esconder um ar maternal e característico da época mas que rapidamente se revela como uma brutal e insana mulher capaz das mais atrozes humilhações físicas e psicológicas e incapaz de sentir qualquer tipo de empatia perante os demais que, para ela, nem humanos eram. Brutalmente honesto nas emoções que pretende passar ao espectador, Revolução Sem Sangue capta alguns dos melhores momentos do sentimento que penso - enquanto curioso da História Contemporânea de Portugal - serem os experienciados por aqueles que viveram esse tal "antigamente", conferindo-nos não só esse tal olhar de época como principalmente um que é visto por um jovem realizador filho dessa liberdade de Abril, incapaz de esquecer os que foram esquecidos pelo despertar da Liberdade e agora recuperados no exacto momento em que a mesma cumpre cinquenta anos. Abril cumpre-se. Lentamente por vezes, mas cumpre-se. É cumprido não esquecendo a História. Não esquecendo factos. Não esquecendo lugares mas, sobretudo, nunca esquecendo os nomes. Os nomes dos que viveram mas também os nomes daqueles que morreram vítimas da ditadura mas com a certeza de que assistiram ao nascimento da Liberdade. Símbolo máximo dessa Liberdade é a capacidade que então a todos foi conferida de poder dizer NÃO. Não à ditadura. Não à tortura. Não à guerra. Não ao fascismo. Um NÃO sem justificações... sem motivos... sem porquês. Um NÃO que existe simplesmente porque todos conseguiram e puderam passar a existir. "Eles não sabem nem sonham... Que o sonho comanda a vida...", assim ditava o final desta longa-metragem pela letra da Pedra Filosofal cantada por Manuel Freire e agora pela voz de Paloma del Pillar (também actriz na longa-metragem) enquanto assistimos aos familiares dos que a longa retrata aqui representados uma última vez pelos actores que lhes deram vida... Não souberam, mas imaginaram. Que a imaginação também comandou o sonho e este a vida. A vida do tal porvir. Do desejado. Da capacidade de decidir. De fazer. De negar. De impôr. De saber. De poder fazer esta longa-metragem tão importante, tão importante, especialmente nos dias que hoje perigosamente vivemos e onde assistimos novamente à privação dessa mesma Liberdade e Direitos por tantos cantos do mundo. Mas sobretudo, e sobretudo, de poder Viver.
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8 / 10
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sexta-feira, 8 de setembro de 2023

El Ruido de Mi Silencio (2022)

El Ruido de Mi Silencio de Aureli Vallez (Espanha) é um filme curto que reflexiona sobre as memórias que consideramos intemporais e que transformam as experiências de um dado protagonista num conjunto de sentimentos que vivem em permanente dualidade originando um conflito interior. Passado e presente. Vida e morte. Luz e escuridão. Um conflito de momentos com o objectivo de alcançar uma harmonia - sobretudo interior -, que parece nunca chegar.
Ainda que as intenções desta curta-metragem possam parecer nobres e devidamente justificadas considerando as incertezas que qualquer um de nós pode sentir em momentos específicos da sua vida (ou até ao longo da mesma), El Ruido de Mi Silencio acaba por ser um filme curto que cansa o espectador não lhe conferindo nada de novo repetindo, por sua vez, todo um conjunto de lugares comuns que já foram explorados e filmados com muito mais qualidade e rigor do que aquilo que aqui presenciamos. Entre sombras e danças coreografadas com um suposto último e intenso bailado que acabou de "descobrir a pólvora", esta curta-metragem entendo-a como um trabalho de um certo rigor profissional apenas para a sua realizadora que, para o público em geral, mais não é do que um filme que tenta ser de uma reflexão interior que não consegue chegar ao seu destino.
Prepotente, não fosse perfeitamente olvidável, El Ruido de Mi Silencio é pouco mais do que um trabalho académico com potenciais boas intenções que prometem e não cumprem levando o espectador a um estado de aborrecimento apenas compensado com um fim mais do que esperado. O silêncio tem, de facto, ruído... e aqui sentimo-lo do primeiro até ao último instante e não pelos melhores motivos.
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2 / 10
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segunda-feira, 29 de maio de 2023

La Respuesta (2022)

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La Respuesta, de Júlio César Hoz (Espanha) conta-nos a história de Carlos que insiste que precisa de ir a uma vidente para receber uma tão esperada resposta... Mas o que acontece quando a resposta não é aquilo que se deseja?!
Ainda que esta curta-metragem surja com um argumento onde se pretende criar mistério, algum suspense e muita curiosidade sobre qual será a resposta que tanto o espera e pela qual ele aguarda como se a sua vida dependesse disso, La Respuesta perde-se nos inuendos que oscilam entre o cómico, o cómico de situação e o trágico esquecendo de dar resposta (quase parece uma repetição de palavras...) ao tema principal desta trama. Entre debates mais ou menos amigáveis entre o protagonista e a sua melhor amiga e o incentivo desta última para com a ideia dele visitar uma vidente para colocar um termo à sua demanda, "Carlos" decide finalmente consultar uma muito reputada e aguardar por tão esperado fim.
No entanto, é quando o argumento parece dirigir o espectador para um conto de suspense que o mesmo é surpreendido por uma vidente que aparenta ter saído do último blockbuster de comédia ao assemelhar-se mais a uma hippie dos anos '70 do que propriamente a uma mulher capaz de desvendar os mais tenebrosos mistérios. Tudo se adensa (ou talvez não) quando a tão esperada "resposta" surge num envelope adornado com estampas e brilhantes e cuja única mensagem - descobre ele e nós mais tarde - apenas consiste num não tão tenebroso número "42". Do inesperado encontro com a vidente "Rosa" ao quase esquecimento do propósito inicial desta história, o espectador delira com a incredulidade de certos elementos que surgem inesperadamente à frente do protagonista que, por uma qualquer razão que nos é desconhecida, resolve ignorá-los como se... "afinal nada fosse".
Em vez de se centrar num único género... drama... mistério... comédia... pois acaba por conter elementos um pouco de todos eles, La Respuesta perde-se na sua mescla sem que se encontre um fio condutor entre nenhum deles que lhe dê coerência e não faça com que o espectador se perca inicialmente a pensar que vai assistir a um mistério para depois espantar-se com o recurso à comédia e finalmente perder-se na ideia de que afinal afinal... está perante um thriller dramático que se revelou instantes antes do seu final. A premissa está lá e poderia ter sido explorada com maior ânimo e coerência mas a meio gás deixa-se levar pelo estudo académico de vários géneros que se cruzam perdendo inclusivé o clímax quando o espectador finalmente compreende o que está por detrás de tão esperada e inesperada resposta.
De um potencial interessante à perda de dinâmica (in)voluntária, La Respuesta caminha por muitos rumos sem que nunca se tenha realmente preocupado em seguir um que fosse fixo e certo e que lhe conferisse assim a consistência que necessitava para ser o thriller que não chegou a ser.
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5 / 10
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quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Relic (2020)

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Relic de Natalie Erika James (Austrália/EUA) é uma das longas-metragens em exibição no MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa a decorrer no Cinema São Jorge cuja história se centra no misterioso desaparecimento de Edna (Robyn Nevin), uma mulher a entrar na terceira idade e no regresso a casa da sua filha Kay (Emily Mortimer) e da neta Sam (Bella Heathcote) que se deparam com um cenário decadente ao encontrarem a casa de família para lá de perdida no meio da floresta mas com evidentes sinais de degradação provocados pelo passar dos anos e pelo esquecimento a que havia sido vetada.
Mas um dia... Edna regressa... e com ela a confirmação de que nem ela nem a casa estão realmente sozinhas.
A veia - ou pelo menos a matriz principal... - paranormal em Relic é uma constante desde os primeiros instantes. Existe todo um simbolismo que não só classifica esta longa-metragem junto daquelas que se centram no âmbito das casas assombradas como, ao mesmo tempo, também lhe confere o misticismo próprio de uma dualidade de conflitos entre o sagrado e o profano que lentamente se exibem para o espectador. Como é tradição nestas histórias, existe toda a componente de isolamento social - tão apropriado para este ano que agora se vive -, ao sermos levados para uma casa perdida no tempo, no espaço e sobretudo na memória das personagens que ou a habitam ou habitaram no passado. É com o desaparecimento da matriarca e com o regresso da prole que o espectador percebe que são os pequenos detalhes que parecem "novos" que se revelam como indícios de uma "presença" que se manifesta pelos mesmos e para com aqueles que pretende seduzir para este espaço que, uma vez esquecido, se assume como o potencial berço de uma nova ordem prestes a nascer.
Casa essa que parece um labirinto onde todos os corredores parecem não só intermináveis como também assumir corpo e forma mediante aqueles que os atravessam proporcionando aos mesmos, e a nós, uma experiência única a cada instante mas que, ao mesmo tempo, se transformam lentamente na sua própria prisão. Afinal, quando o espaço se revela como não tendo um fim, poderá alguma destas mulheres escapar dali?! E se os sinais de algo sagrado ainda se poderiam fazer notar no início, cedo são ofuscados pela confirmação de que ali tudo se transforma... especialmente o bem. Da simbologia purificadora da água que cedo se desvanece aos infindáveis sinais de bolor que ocupam a casa. Das pancadas misteriosas que ninguém consegue compreender - até ao momento certo - à eliminação "voluntária" de registos do passado que "Edna" tão misteriosamente pretende realizar sem esquecer, claro, as manifestações de violência que a mesma exerce sobre a sua família ou os sonhos/pesadelos que irrompem o pensamento da personagem de Mortimer, é claro para o espectador que mesmo que só assistamos a três personagens - curiosamente todas femininas e, como tal, susceptíveis de fazer "nascer" novas formas de vida -, compreendemos que existe algo mais por detrás das sombras e das paredes daquela casa que a Natureza, tão habilmente em sua defesa, pretendem fazer esconder.
A solidão, a velhice, a transformação para uma nova etapa da vida agudizadas pelo já mencionada distanciamento social que nesta nossa nova realidade é o tal "novo normal", fazem notar o medo para com o desconhecido... nada é garantido em dias de incerteza ou em momentos em que tudo se apresenta como essa dita realidade desconhecida. O que poderá trazer? Como se irá realmente manifestar? Sentir-se-ão as suas diferenças? Irá de facto conferir uma nova forma de vida? Alastrar-se-à para lá do agora "conhecido" ou será para todos uma confirmada incógnita?
Exímio na construção do espaço e da música que confere a esta história aquela dinâmica de suspense e incerteza que prendem pela potencialidade do que virá a seguir - visível ou não -, é a criação deste novo mundo dentro daquele que já é conhecido e real que o transformam numa obra de género ainda que na sua essência pretenda mais abordar essa dita "transformação" ou "passagem" aqui manifestada como algo sobrenatural (talvez demoníaco) mas que o espectador mais atento facilmente poderá abordar como um relato das três fases da vida de uma mulher - aqui representada por três - onde a juventude, a idade adulta e a velhice convergem como momentos específicos da vida de alguém que pode, de facto, criar e dar nova vida à vida. Se o elemento sobrenatural se assume... é apenas um mero detalhe de uma história que se quer manter pela ideia de "passagem" mas que a ele recorre como uma tentativa de confirmação desse elemento de terror que nem sempre funciona como poderia oscilando as duas realidades como parte de um todo que nunca se assume ou revela. Sabemos que tudo está no ponto... mas até que ponto pretende a realizadora assumir as suas intenções? É esta uma história do sobrenatural ou será apenas um conto sobre as três etapas de uma mulher em constante transformação... do vigor da jovem adulta à perda de memória de uma mulher que, na prática, já pouco ou nada tem a perder sem esquecer a mulher independente e segura que ali confirma que o seu futuro está, de uma ou outra forma, mais do que confirmado...
De certa forma inteligente na sua abordagem e na vontade que tem em firmar uma história de terror pela confirmação da transformação etária da Mulher, Relic perde-se pela exploração de diversos mundos e conceitos já pré-fabricados do género de terror nunca apostando num único. O terror, esse que tanto assusta, nem sempre é pela presença de algo desconhecido e sobrenatural mas sim pela verdade do futuro que todos tememos e que, na sua essência, se prende como a etapa última aquela em que compreendemos que tudo o que poderemos ser ou ter e que iremos, a certa altura, perder... quer em vida... quer pela certeza desse mais que certo fim.
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6 / 10
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sábado, 11 de julho de 2020

Reonghee (2019)

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Reonghee de Jegwang Yeon (Coreia do Sul) é uma das curtas-metragens presentes na categoria de Ficção da sétima edição do Leiria Film Fest que relata uma história de emigração dos tempos modernos.
Duas trabalhadoras numa fábrica. Uma nacional... a outra uma emigrante ilegal. Quando o seu local de trabalho é alvo de uma inspecção da polícia de emigração, uma delas morre. O que resta quando a outra se sente ilegal no seu próprio país?
Jegwang Yeon capta não só o silencioso drama da emigração ilegal, que aqui apesar de motor central desta história acaba por ser, em última análise, aquilo que despoleta todo o restante conto, mas também a história daqueles que ficam no "depois" da tragédia e que desconhecem todo um trajecto tido por quem neste seu "agora" desapareceu.
Esta é assim a história de duas mulheres. Duas mulheres que em qualquer outra circunstância estão em circunstâncias semelhantes. As duas tentam trabalhar e ganhar a sua subsistência e, longe de luxos, sobrevivem num mundo onde compreendem existir quem provavelmente não tenhas as mesmas oportunidades que elas têm em poder ter um local de trabalho para o qual se dirigem todos os dias. Com despesas inerentes a uma vida dita normal e um ou outro sonho de pequenos luxos que tardam em chegar, a sua situação apenas se torna diferente quando analisamos e compreendemos que uma delas está num território que não é o seu. Desconhecemos qual a sua situação familiar, financeira e até emocional para lá de que está ilegal num país onde tenta sobreviver. É então que aquele fatídico dia revela, não para ela mas sim para a sua colega e amiga, a realidade de um mundo que espreita ali ao lado sem que ela alguma vez tivesse dado conta.
Da realidade da perseguição institucional ao distanciamento de uma entidade patronal que se quer descartar de problemas e compensações, é a jovem coreana agora sobrevivente de uma tragédia que nunca pensou sobreviver que compreende que ali ao seu lado na sua agora desaparecida amiga, existe toda uma situação frágil e potencialmente perigosa para centenas - talvez milhares - de pessoas que tentam a possibilidade de um dia melhor que poderá não chegar. Reonghee é assim, muito rapidamente, uma história que se revela não sobre a vítima mas sim sobre aquela que lhe sobrevive e que conhece toda uma nova e desconhecida realidade tão ou mais sombria do que aquilo que alguma vez imaginou... se é que alguma vez o fez.
Distante dos tradicionais rituais moralistas que tantas vezes algumas destas histórias nos entregam, Reonghee obriga o espectador a questionar-se não sobre a situação de fatalidade em si, mas sim uma inesperada questão que lentamente se constrói na mente do espectador... quem é afinal o verdadeiro ilegal nesta história? Será aquela que procurou uma vida melhor numa realidade diferente da sua ou a sobrevivente que sendo natural do país em que se encontra desconhece as realidades escondidas nas sombras de vidas anónimas e que a colocam (agora) frente a uma realidade social, económica e humanitária que desconhecia e que a assombra como um pesadelo que vive repetidamente e a cada momento do seu dia? Ou, por sua vez, a questão utópica que deveria ser realmente posta em cima da mesa... existe, de facto, alguém que seja "ilegal"... esteja e seja onde fôr?
De uma frescura revigorante - apesar do seu pesado e angustiante tema e desfecho -, Reonghee é o inesperado filme sobre a emigração que todos nós sabemos existir mas que se assume como uma realidade para a qual não estamos preparados ou tantas vezes preferimos não abrir os olhos! Intenso, provocador e assumidamente obriga a uma inesperada reflexão, esta curta-metragem é um assombroso conto de um terror moderno que assusta não pela sua imaginação mas pela sua trágica e sensível realidade.
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8 / 10
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R.A.S. (2019)

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R.A.S. de Lucas Durkheim (França) é uma das curtas-metragens de animação presentes na sétima edição do Leiria Film Fest que este ano apenas decorreu numa versão online devido à actual situação de emergência sanitária provocada pelo COVID-19.
Há vários meses que cinco jovens soldados se encontram numa missão nas montanhas afegãs. Aborrecidos e sem nada para fazer, a sua rotina é subitamente interrompida quando o inesperado acontece.
Num misto que oscila entre o drama e o tradicional filme de guerra, esta animação acaba por primar pela excelência no pensamento filosófico que coloca este conjunto de jovens num cenário atípico para a sua jovem idade, lançando-os nas incertezas de um cenário de conflito a reflectir sobre um passado recente onde, nos seus ambientes naturais normalmente nas grandes urbes ditas ocidentais, viviam e experimentavam as "agruras" de um despertar onde as realidades eram assumidamente diferentes. Do pensamento sobre os estudos, um trabalho ou a eventual constituição de família para a incerteza que a guerra lhes pode conferir e mesmo a possibilidade de uma auto-extinção - por vezes física por vezes psicológica - que lhes garante apenas que nada é garantido.
O deserto que os rodeia... a aridez que lhe é inerente... e até mesmo o meio desprovido de vida são tão certos como a sua realidade. Nada existe - para eles e para o espectador - que possa ser equiparado a uma tão grande incerteza sobre o dia de amanhã. Aliás, é apenas este sentimento de isolamento que a grande dimensão territorial lhes confere que lhes permite pensar que, sozinhos no mundo, nada lhes poderá acontecer... até que todas as certezas, pensamentos e convicções são finalmente abaladas por aquilo que é inevitável no cenário em que se encontram.
No final, e para o espectador, apenas persiste uma única certeza... Nada acontece até acontecer algo trágico. É aqui que se instala o medo, a incerteza e a compreensão de que o mundo que outrora conheceram jamais poderá ser retomado. Não nas mesmas condições. Aqueles que sobreviverão a este trágico e desconhecido local encontrarão uma "casa" diferente daquela que conheceram. Diferente não por uma realidade diferente do espaço mas sim pela forma como eles agora regressam tendo testemunhado toda uma nova realidade e encaram aquilo que fora, noutras tempos, seu. O mundo mudou... mas da forma como pessoalmente cada um agora o encara.
R.A.S. denota todo um certo alinhamento com o existencialismo questionando - personagens e espectadores - sobre o lugar que ocupam no mundo e como a mesma pessoa sob um diferente espaço e contexto pode transformar-se num indivíduo completamente diferente daquele que reconhece em si, para si e para com o mundo que o rodeia. Intenso enquanto filme que aborda um pensamento filosófico, a trágica realidade de um mundo actual e o já mencionado existencialismo, Durkheim apresenta uma das mais intensas e pertinentes (para a actualidade) curtas-metragens que, primeiro pelo seu género e depois pela sua mensagem, cativam o espectador e o seu pensamento para qual o (seu) lugar no mundo colocando-o sob diferentes perspectivas e realidades.
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8 / 10
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segunda-feira, 18 de maio de 2020

The Return (2020)

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The Return de Ryan Stopera (EUA) é mais uma das curtas-metragens do Trapped Film Festival que, numa abordagem futurista, tenta retratar uma sociedade onde a música é marginalizada e proibida. Com toques de ficção científica, algum kung fu e muito hip hop, o espectador é levado numa viagem extra-sensorial onde tudo é escutado e perseguido.
Stopera tenta com este The Return levar o espectador a uma eterna e velha questão - pelo menos para uma sociedade que se assume ultra-conservadora como a dos Estados Unidos - sobre os limites (ou falta dos mesmos) daquilo que é socialmente aceite enquanto modelo cultural para uma comunidade que não tenta ultrapassar fronteiras e viver ordenadamente num ritmo imposto e muito ocasionalmente questionado.
Num futuro já não tão distante quanto o que poderíamos pensar, somos levados até aos finais de 2040 onde artistas revolucionários tentam combater as grandes corporações que definem o "novo normal". Uma sociedade onde a independência do espírito é questionada e os livres (assim se assumem) são perseguidos sem perdão por indivíduos (ou entidades) sem rosto que os tentam silenciar e definir o que é a arte... as suas fronteiras e limites... os seus pressupostos... e sobretudo o que pode ser feito subvertendo em absoluto a realidade e a premissa principal da criatividade.
Pertinente e quanto baste interessante sob a perspectiva dos limites que a sociedade a cada momento em que diferentes regimes se instalam, instaura ou influência a arte sob a suas mais diversas formas impondo-lhe regras, "boas maneiras", formas de se fazer representar que são "socialmente aceites" ou até mesmo as já mencionadas fronteiras e limites, The Return deixa, no entanto, um imaginário muito fora do esperado quando se deixa levar por uma qualquer fantasia distópica que parece querer viver do enfeite e não da arte em si. Se a liberdade criativa em directo paralelo com o argumento desta curta-metragem, é potencializado para a transformar numa obra artística diferente do esperado, a realidade é que a sua execução se perde na "forma" deixando o espectador num inesperado impasse incerto sobre a mensagem que Stopera tenta transmitir o mesmo se aquela que "passou" corresponde a uma qualquer realidade e não apenas à fantasia sobre o que pode ser, na realidade, a arte enquanto uma obra formal. Que toca numa ferida... toca... se a mesma se mantém aberta ou se se limita apenas a ser apenas algo provocatório sem deixar obter respostas... é uma questão que cada um de nós individualmente terá de compreender a resposta que (a si lhe...) é possível.
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3 / 10
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domingo, 15 de março de 2020

A Rua é uma Selva (2019)

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A Rua é uma Selva de Ricardo Mussa (Portugal) é um dos documentários curtos que esteve em competição na última edição dos Prémios Sophia Estudante entregues anualmente pela Academia Portuguesa de Cinema e que nos apresenta a história de Nelinho, um sem-abrigo que revela os perigos e a sobrevivência diária de alguém na sua condição.
Nascido em Bordéus, em 1974, Nelinho foi levado pela mãe vítima de abusos por parte do pai, tendo depois vivido um período de conflitos com ela da qual escapou tendo de imediato abraçado uma vida na rua. Desta vida de sem-abrigo ao rápido consumo de heroína foi um passo muito rápido. Também ele pai de um filho com o qual nada convive, Nelinho deixa ainda para o espectador a ideia de que a violência foi sempre uma constante na sua vida. Primeiro com o pai, depois com a mãe e finalmente na rua às mãos da droga e também da polícia. A violência foi (é!) possivelmente o único elemento familiar que consegue encontrar em toda a sua história de vida.
No entanto, este documentário revela-nos, através das palavras do próprio protagonista, que este ainda mantém um ténue esperança na Humanidade, nos actos de bem praticados pelo próximo e como estes podem influenciar qualquer um dos demais e principalmente ele que parece esperar uma oportunidade para finalmente poder entregar um rumo à sua vida. Sem planos ou perspectivas para um futuro que não sabe quando poderá terminar, a sua única esperança é ter um lugar próprio para viver e onde poderá eventualmente estabelecer uma relação com um filho que mal conhece e sobretudo mantém uma questão sempre presente... quando tudo aquilo pelo qual passou lhe apontou para a porta de um fim anunciado... qual será o seu propósito para ainda se manter no mundo dos vivos?
Breve, talvez breve demais, este documentário curto consegue captar uma mensagem de alento e esperança que nunca é condescendente. Aqui testemunhamos a breves palavras de um homem que apesar de não o confessar deixa transparecer a sua vontade de manter um sonho... um objectivo... mesmo que ténue e que possivelmente nunca será concretizado. Mas é seu... e muito provavelmente o último reduto que lhe confere essa vontade de continuar a viver quando tudo à sua volta parece estar contra ele ou, pelo menos, indiferente à sua existência. Humano - o filme - e eficaz na transmissão desta imagem e ideal de esperança, A Rua é uma Selva consegue cativar sobretudo por essa mensagem de simplicidade e de um futuro melhor que se assume, para cada um de nós, sob as mais diferentes formas.
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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Reverso (2019)

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Reverso de Victor Santos (Portugal) é uma das curtas-metragens em competição ao Prémio MOTELx - Curta Portuguesa de Terror desta décima-terceira edição e que nos leva numa viagem temporal ao dia 26 de Abril de 1974 quando um homem (José Eduardo Silva) entra num quarto de hotel transportando apenas uma mala. Pouco depois adormece sendo apenas interrompido pelo tocar de um telefone e pelos inesperados acontecimentos que ocorrem no espelho mesmo à sua frente.
Cedo é revelado pelo próprio argumento - também da autoria do realizador -, que este homem que agora ali se encontra é um agente da PIDE fugido das transformações de regime que Portugal testemunhara no dia anterior. Mas, a grande questão que aqui se impõe é se as transformações são apenas em Portugal ou também em si (ou no seu subconsciente) que agora trabalha no sentido da admissão de culpa daquilo que havia feito enquanto membro (activo) da polícia política.
Quando aquele telefone toca não é apenas uma chamada de alguém que procura ameaçá-lo ou vê-lo tremer face a um qualquer destino menos positivo que agora o espera. Quem lhe liga é sim o outro "ele" que, também fugido do mesmo passado e, num acto de mútuo confronto, ambos (des)conhecidos compreendem que o seu escape poderá apenas ser um. Desprovidos de uma esperada fuga ou de uma redenção com a nova realidade nacional, este(s) homem(ns) encontram no interior daquelas quatro paredes o possível futuro - ou destino? - que os espera.
Victor Santos - realizador, argumentista e director de fotografia - assina aqui uma história interessante sob o ponto de vista do "terror" ou sobrenatural que espera(va) as principais figuras de um regime então terminado. As incertezas, a noção de segurança que então equacionavam ou o escape para um futuro melhor são os principais motores destas personagens e das realidades em que se inseriam e, explorados na dinâmica do sobrenatural, permitem a criação de uma história que se (nos) questiona não só sobre a sanidade dos mesmos como principalmente até de um destino que a própria "História" lhes poderia ter reservado mas... sob uma perspectiva assumidamente sobrenatural muito ao estilo daquelas que Tarantino reserva aos seus contos onde os referidos acontecimentos históricos são alterados a favor de uma versão mais "agradável" da mesma.
No entanto, sai o espectador totalmente convencido deste conto? Não a 100%. Ainda que o destino entregue aquele agente da PIDE que, tão orgulhoso e convencido dos seus actos no agora passado permanece incólume naquele quarto de hotel, o verdadeiro Reverso que esperamos para esta sua personagem seria que a História - ou pelo menos a tal não convencional - o castigasse de uma forma mais pérfida. Compreendido que está o sentido pelo qual o realizador quis apresentar esta história (não totalmente original pois esta realidade do "eu" em dois espaços temporais distintos já nos é conhecida), aquilo que mais se destaca em toda a curta-metragem é sim uma exemplar direcção de fotografia que transforma aquele quarto num espaço perdido nos idos anos '70 e, ao mesmo tempo, numa ambiência muito característica daquilo que o espectador espera como um limbo onde a incerteza e até mesmo a incoerência parecem espreitar a todas as esquinas. É, na verdade, este jogo de luzes e sombras que dinamiza a curta-metragem e que lhe confere o esperado "estilo" do género em questão deixando o argumento um pouco ao sabor daquilo que a fotografia lhe proporciona na medida em que o espectador conhece a história mas não necessariamente o ambiente em que o realizador e director de fotografia a resolveram inserir.
Interessante sob esse ponto de vista estético e pela curiosidade que desperta em se poder observar uma história centrada num período de transição tantas vezes esquecido pelo cinema português, Reverso tem aquele potencial (adormecido) de ser uma história que se permite ir muito mais além do que os quinze minutos da competição em que se insere lhe proporcionam.
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quarta-feira, 20 de março de 2019

Rodar (2018)

Rodar de Moisés Rodrigues (Portugal) é uma curta-metragem de animação experimental na qual toda a (breve) acção se centra na construção da forma num espaço desprovido da mesma.
Nos escassos instantes desta curta-metragem o espectador é brindado com um conjunto de pequenos elementos que, lentamente, se unem numa esperada perfeita junção que cria a forma. Numa comparação entre universos distintos, aquilo que aqui observamos acaba por ser a representação de uma galáxia que, desprovida de qualquer forma e dando corpo ao vazio, nasce - e cresce - pela junção de corpos - pontos e linhas dispersas - que pela sua união e tridimensionalidade dão vida à "forma".
Interessante pela sua premissa de construção e formação de vida (numa certa perspectiva), Rodar perde dinâmica sua apresentação experimental onde a imaginação do espectador se assume como um dos principais elementos ao ter de criar um imaginário específico para chegar a essa mesma percepção. Assim a totalidade do crédito permanece na premissa mas não tanto na execução de uma história que aqui pouco parece navegar para lá da limitação do início da própria criação.
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domingo, 17 de março de 2019

Ramiro (2017)

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Ramiro de Manuel Mozos (Portugal) é a mais recente longa-metragem do realizador de ...Quando Troveja (1999) e 4 Copas (2008) e revela a história de Ramiro (António Nortágua), dono de uma livraria alfarrabista que sofre de um bloqueio artístico que o impede de terminar um novo livro. Conformado com uma existência onde reina a frustração, Ramiro vive acompanhado pelo seu cão, por um conjunto de vizinhos e amigos que vêem nele um porto seguro mas que, lentamente, também esperam - dele e para si - uma nova vida ao virar da esquina.
Existe algo nas personagens dos contos de Manuel Mozos que transcende aquela que poderia ser uma vida normal. Das já referidas longas-metragens à mais recente curta Cinzas e Brasas (2015) que obriga o espectador a observar existências mundanas, por vezes até mesmo perdidas, que deambulam por um mundo que ou não correspondeu às expectativas que dele tinham ou que, por sua vez, granjeou oportunidades a todos os demais. "Ramiro" não é disso excepção... Fiel amigo de "José" (América Silva), figura sentimental e amorosa para "Isabel" (Cristina Carvalhal) e "Patrícia" (Sofia Marques) e paternal para "Daniela" (Madalena Almeida) ou mesmo um filho substituto para "Amélia" (Fernanda Neves), o alfarrabista parece cuidar involuntariamente da vida de todos menos da sua. Por vezes saturado e quase sempre desencantado, são pequenos prazeres aos quais pouca "vida" dá que parecem fazê-lo viver dia após dia sem que, no entanto, nenhum deles pareça conferir-lhe grande motivo de felicidade enquanto outros, seguramente menos dotados que ele, aparentam viver vidas mais preenchidas ou até mesmo desafogadas.
A vida de "Ramiro" complica-se aos poucos, tais as "regalias" que a mesma lhe confere quando decide preocupar-se não apenas consigo mas com aquilo que o rodeia, e por entre a tutela de uma jovem que não passa de sua vizinha à descoberta de que o amor pode residir bem mais perto do que imaginaria ou mesmo que a confiança e amizade que nele depositam deveria ser motivo suficiente para pensar na vida com alguma maior alegria, a personagem à qual António Mortágua confere uma vida e pulsante vida (mesmo com toda a sua calma e tranquilidade) acaba por descobrir involuntariamente, e sem se dar conta, aquilo que tanto ambiciona... ter uma razão para a sua existência.
Sempre perdido nos seus pensamentos, nos problemas dos outros, na compreensão de que aquilo que desejaria não está a um fácil alcance ou mesmo na possibilidade de manifestar sentimentos ou emoções que compreende mas não deseja, "Ramiro" é um homem que não querendo envolver-se na vida que o rodeia, faz dela parte movimentando silenciosamente tudo e todos os que o rodeiam... Da necessidade da sua atenção aos sentimentos amorosos, da amizade à cumplicidade, da aceitação de que ele é aquilo que todos os demais precisam - pai, amigo, vizinho, amante, confidente (...) - "Ramiro" é no fundo uma parte integrante e fundamental do desenvolvimento dos demais e, dessa forma, também de si... compreendendo e aceitando que os demais só existem com uma qualquer ordem social porque ele lá está... preparado para os amparar mesmo com a sua marcada insatisfação.
As vidas banais de um bairro são aqui retratadas com uma desarmante nostalgia que levam o espectador primeiro a olhar para esta história com uma certa saturação identificando-se, talvez sem perceber, com "Ramiro" para depois compreender que aquelas ligações estabelecidas exibem tanto de melodramático como de cómico, de irreal como também de humano percebendo que, por vezes, alguns sonhos não se concretizam mas que, no entanto, existe toda uma vida para lá daquilo que em tempos imaginámos e que, por esse motivo, não deixámos de viver. Tal como "Ramiro", o amargo cinismo com que tantas vezes olhamos para o exterior é repentinamente desarmado dando lugar a uma certa réstia de esperança que poderá ajudar a ver (melhor) aquilo que o dia de "amanhã" poderá (ou não) nos proporcionar. Nada poderá ser tão amargo... e se fôr... será que isso nos condiciona a olhar para quem nos rodeia? Ou mais... olhar para aquilo que influenciamos esses que nos rodeiam?!
António Mortágua é dono de uma inesperada vitalidade que nem mesmo a sua pausada e aparentemente tranquila personagem ofusca. Exibe um constante silêncio que, no entanto, é capaz de esconder não só todas as mágoas pessoais do mundo como principalmente todos os mais perigosos segredos que apenas uma mente estruturada conseguiria reter acompanhado por todo um conjunto de notáveis secundários entre os quais se destaca, para lá dos anteriormente mencionados, uma igualmente intensa composição de Vítor Correia como "Alfredo" a quem o destino também não sorriu e que, independentemente do crime macabro que possa ter cometido exibe, também ele, toda uma inesperada tranquilidade como reflexo de alguém a quem os sonhos também não sorriram.
Magnífico o argumento de Telmo Churro e Mariana Ricardo capaz de retratar todos os sonhos e desejos de um homem que, por não os cumprir, sente toda a frustração, desilusão e solidão do mundo... mesmo que a seu lado possa encontrar tudo o que necessita para se sentir a pessoa mais feliz do mesmo. Ramiro é assim uma pequena pérola que irá seguramente deixar o espectador com um inesperado sentimento de uma nostalgia... por vezes boa... outras tantas menos positiva... mas que de forma notável nos deixa levar para a compreensão de que mesmo quando tudo não surge como se espera... existe muito mais ao nosso lado para o qual tantas vezes não depositamos a devida importância.
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domingo, 2 de dezembro de 2018

Raiva (2018)

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Raiva de Sérgio Tréfaut (Portugal/França/Brasil) é a mais recente longa-metragem do realizador de Viagem a Portugal (2011) e Treblinka (2016) adaptando aqui a obra Seara de Vento de Manuel da Fonseca numa viagem ao Portugal de 1950 mais concretamente a um empobrecido interior alentejano.
Palma (Hugo Bentes) assassina Elias (Diogo Dória) e Diogo Sobral (Dinis Gomes) a sangue-frio. Planícies alentejanas fora, Palma ruma à sua isolada casa onde é encurralado pela Guarda numa noite que, como tantas outras, se anuncia fria e desolada.
Nunca é demais a revisitação aos tempos anteriores à Revolução dos Cravos para conhecer um pouco dessa realidade que ainda hoje, quarenta e quatro anos depois se mantém silenciosamente incómoda e esquecida mesmo que os ecos desses tempos os tenham revelado como sombrios, miseráveis e assustadores persecutórios. Com esta perspectiva sempre em mente, a mais recente obra de Tréfaut ganha relevância na medida em que o espectador é levado a um cenário atípico desses idos tempos tão normalmente concentrados nos factos históricos que envolvem acontecimentos mais destacados e não aqueles que ocorriam com a população - dito povo - mais comum. Aqui, com base na obra de Manuel da Fonseca, o realizador dá corpo a alguns desses rostos anónimos revelando uma realidade bem distante daquela que sempre fora vendida do "celeiro de Portugal".
Neste Alentejo dos anos '50, encontramos uma população desgastada pelo tempo, pelas amarras da ditadura em plena força pós-Segunda Guerra Mundial onde a luta de classes ganha forma opondo a opulência de uma rica burguesia que dominavas as terras explorando sistematicamente aqueles que nada tinham e, estes últimos, esfomeados, pobres e sem escolaridade à espera de uma qualquer réstia de dignidade que nunca chegaria e que tenta sobreviver graças à ilegalidade e ao contrabando feito na raia.
Com estas duas dinâmicas exploradas no seu âmago, Raiva subdivide-se em dois momentos concretos cronologicamente opostos. O espectador passa os primeiros minutos desta obra a assistir ao seu final deixando para toda a demais narrativa a análise dos acontecimentos que levaram todas as suas personagens a chegarem àquele momento que havia assistido minutos antes. Sem revelar o fim - que para o espectador é o início -, aquilo que encontramos é o exacto reflexo desse Portugal economicamente pobre e isolado dando jus à teoria do "orgulhosamente sós", encerrando o país dentro de si próprio e colocando uma cerrada fronteira que tudo impedia de entrar... ou sair. Da clandestinidade ao contrabando ao qual muitos se viam forçados a recorrer tentando, dessa forma, ganhar mais algum dinheiro que os salvasse da miséria absoluta, Raiva expõe então esta família, literalmente perdida num monte alentejano, cuja casa mais não é do que um conjunto de paredes erguidas sem qualquer designação possível de "casa" tal como a conhecemos. Dos bens inexistentes a um conjunto de deambulações que permite ao espectador identificá-los como "vivos", observa este último que alguns - nomeadamente "Mariana" (Rita Cabaço) filha de "Palma" - sobrevivem não pela força de um qualquer conforto alimentar - essencial e escasso ou também ele inexistente -, mas sim pela possibilidade dessa reivindicação de direitos que lhes fora retirada ou mesmo pela liberdade de pensamento ou a dignidade humana que anseiam, mas sim (ou também) pelo conforto psicológico que a ideia de "somos todos iguais" lhes poderia conferir... Garantia essa que surgiria mais de vinte anos depois quando o país se libertou dessas amarras mas que, até à sua confirmação, muitos colheu e "tratou" para que a sua voz jamais fosse escutada.
É neste Alentejo, tido como o celeiro que alimentava o país, onde a fome mais se sentia, onde a miséria era mais crua e, como seu contraste, também a riqueza se fazia sentir deixando claro que uns podem... e outros não. Um local onde a justiça existe apenas como um rosto manchado actuando apenas para o uso próprio de um conjunto restrito de endinheirados que queria silenciar aqueles que se lhes opunham e onde todos, conscientes do seu papel social se moldam de acordo com aquilo que deles se espera. Todos os demais têm (devem) ser castrados, amedrontados, forçados a uma condição inferior ao estilo de castas, e principalmente baixar a cabeça ao "senhor" que passa frequentemente para controlar a sua "propriedade" (não necessariamente terras...). Aqui, nem o Alentejo alimenta o país como tão pouco se alimenta. Poucos ultrapassam esse limiar de pobreza absoluta mantendo-se, a maioria, no patamar de pobreza... e apenas o vislumbre do contrabando além fronteiras poderia garantir alguma breve esperança àqueles que se afogavam na miséria.
Se a obra de Tréfaut tem todo um potencial a ser explorado passando pelas amarras do regime à dinâmica da luta de classes sem esquecer a clandestinidade ou o já referido contrabando como pesos pesados das histórias da nossa História, torna-se em certa medida incompreensível como os mesmos não foram explorados num conto mais abrangente sobre as dinâmicas entre as diversas personagens para além dos lugares comuns esperados de um filme sobre o antigo regime... por exemplo, a detenção de "Júlia" (Leonor Silveira) - mulher de "Palma" - ainda que esclarecida como uma evidente represália daqueles "que podem" sobre os demais, peca pela forma como impede um maior desenvolvimento desta personagem que parece, antes da referida detenção, esquecida num monte onde nada chega... quem era esta mulher? O que a levou a uma tão apática confrontação para com o mundo - aquilo que resta dele - ou mesmo no seio da sua família onde todos parecem sofrer de um qualquer ressentimento nunca explorado, ou sequer revelado, mas que poderia ser um interessante contributo para a compreensão das suas realidades ou, pelo menos, do seu posicionamento numa história que tem tudo para fazer de Raiva uma grande longa-metragem, referência até do ano como também dos tempos Históricos vividos, e também dos presentes, justificando muito dos comportamentos daqueles que ainda resistem desse regime e conferindo uma maior compreensão da nossa História durante o século XX.
Se a direcção de fotografia de um mestre como o é Acácio de Almeida contribui, e muito, para a dinamização desta história revelando todo um ambiente negro característico do "fim" que esses tempos anunciavam - quem, afinal, teria esperança em qualquer dia desses quarenta e oito anos -, valorizando as sombras e transformando-as nos lugares escuros e pouco revelados dessa ida ditadura, e se as interpretações de um (já não) anónimo Hugo Bentes cujo "Palma" é o retrato do homem endurecido pela força bruta dos tempos e das injustiças ou de uma força da natureza como o é Isabel Ruth como a matriarca dura e aparentemente sem qualquer tipo de sentimentos mais maternais ou familiares, há algo que fica a faltar em Raiva - que faz jus ao seu título pela força contida nas expressões de todos os actores e das suas personagens - quer seja no prolongamento possível de uma história sobre a ditadura que aqui se limita a uma história de vingança construída no desespero da esperança que nunca chega... na forma como consegue ter pesos pesados e mediáticos como os de Sergi López ou Herman José com personagens meramente decorativas e cujo contributo se mantém apenas na concretização dos seus nomes nos créditos... ou mesmo no esperado desenvolvimento das personagens existentes que, para lá de "Palma", da "Amanda" de Ruth ou da "Júlia" de Silveira de quem, no entanto, tanto ficou por contar, se remetem a um desencantado "apêndice" de uma história que facilmente poderia durar o dobro do tempo... quem são eles... o que os levou ali... quem é a taberneira que organiza o contrabando - magnífica Lia Gama que tanta falta faz ao nosso cinema - ou mesmo firmar a concretização da viagem dos contrabandistas que, por si só, poderia ser um filme independente e de igual interesse... Raiva existe... mas poderia ter sido "aquele" filme sobre a raia e sobre a sua vida que não chegou a ser comprovando que o "celeiro" mais não era do que um mito publicitário desse ido regime que pretendia firmar a ideia de que o país poderia, de facto, viver nesse "orgulhosamente só"...
Importante sob uma perspectiva histórica, todas as obras de género o são na medida em que facultam ao espectador um olhar crítico e mais informado sobre os tempos, e mesmo pela adaptação de uma obra possivelmente pouco conhecida do público, Raiva aguça e cativa o interesse do espectador mas deixa, no final, a sensação de que esta poderia ser apenas a primeira parte de uma história com maior e mais elaborado desenvolvimento.
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"Palma: Nas terras mortas não há pão, os pobres nascem pobres, os ricos nascem ricos, os pobres morrem pobres, os ricos morrem ricos."
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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Razão Entre Dois Volumes (2018)

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Razão Entre Dois Volumes de Catarina Sobral (Portugal) é uma das animações presentes na competição oficial da XXIVª edição dos Caminhos do Cinema Português que termina já amanhã no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra.
Qual a verdadeira diferença entre cheio e vazio? O que os distingue? O que os faz únicos? Numa animação iremos descobrir aquilo que os opõe e aproxima.
O argumento de Catarina Sobral parece, inicialmente, não querer apontar para um rumo certo que de facto identifique tudo o que surge na premissa sobre a tal "diferença" mas, no entanto, é com a proximidade do final que a mesma não só é revelada como surge como um certo elemento desarmante para o espectador que consegue, facilmente, encontrar semelhanças com a sua própria realidade. Afinal... do que falamos?!
São apresentadas duas personagens fisicamente idênticas... um deles, o "Cheio", é uma personagem que tem a capacidade de nada esquecer ligando de forma indissociável todos os seus pensamentos não conseguindo em instante nenhum encontrar uma tranquilidade. Sente o amor e a solidão com a mesma intensidade ao ponto de poder ter de evitar as pessoas para não encontrar nelas mais motivos para a saturação dos seus pensamentos. O "Cheio" consome-se rapidamente pelo exacerbar de todos os comportamentos aos quais é exposto e tudo, sem excepção, é algo que consome como pessoal e directo. Por sua vez temos o "Vazio", alguém que nada sente, a quem nada afecta sem qualquer manifestação de pessimismo ou negativismo e que, dessa forma, passa pela mundo sem que aquilo que se encontra à sua volta seja realmente importante.
É nestes dois manifestos opostos que, no entanto, sem se cruzarem vivem a exposição de um interessante fenómeno quando os seus comportamentos se alteram passando um a vivenciar aquilo que o outro sente e, por sua vez, aquilo que o próprio não sente. Quando os comportamentos se alteram e se revelam como feitos de uma mesma massa que, afinal, pode estar sujeito a transformações quando a exposição é intensiva... um por tudo experimentar começa a ter medo... o outro, por tudo fazer, não sente nada. Assim, é esta dinâmica de excessos e de opostos que se manifesta em ambos como os motores para a sua transformação pessoal e por consequência, social, revelando que por muito distantes que inicialmente se possam apresentar o "eu" e o "outro" não serão assim tão distintos... basta a influência (ou falta dela) certa para que os comportamentos se revelem... tudo depende, afinal, da exposição.
Interessante e revelador pela forma como expõe as diferenças e os comportamentos sociais do indivíduo em grupo ou na sua ausência bem como pela forma inteligente com que expõe o seu argumento, Razão Entre Dois Volumes mais não é, afinal, do que uma sentida reflexão sobre o indivíduo, sobre aquilo que o motivo ou, por outro lado, sobre os incentivos que lhe faltam e que o transformam num ser que se limita a passar pelo meio sem nele deixar ou receber qualquer influência.
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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Russa (2018)

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Russa de João Salaviza e Ricardo Alves Jr. (Portugal/Brasil) é um dos documentários em formato curto presente na selecção oficial em competição do Caminhos do Cinema Português a decorrer no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra.
Helena "Russa" regressa ao Bairro do Aleixo durante uma precária. De visita à sua irmã e alguns amigos para celebrar o aniversário de um filho distante, "Russa" descobre um bairro diferente naquela que é uma transformação total das suas memórias e da imagem de bairro que tinha.
Salaviza e Alves Jr. constroem um breve mas intenso documentário que não só espelha o retrato de uma comunidade através do conjunto de memórias do mesmo que, nunca reveladas com precisão para o espectador, se centram na expressão de desencanto de "Russa" quando esta (re)visita o bairro do Aleixo.
A viagem inicial de regresso ao bairro parece uma certa meditação sobre o tempo - que passou para ela e para com aqueles que conhecera - e sobretudo sobre aquilo que irá encontrar e talvez não reconhecer. Sem casa - um dos momentos do documentário são os telefonemas de "Russa" para as entidades camarárias que emparedarem o seu lar -, "Russa" permanece na da sua irmã com quem troca palavras escassas e momentos cúmplices mas relativamente distantes. Talvez sem saber o que dizer face às mudanças da sua vida e mesmo estupefacta para com o novo cenário do bairro que sempre conhecera e que agora encontra como todo um "novo" local, "Russa" embarca numa breve viagem pelo espaço como testemunho (para o espectador) daquilo que ainda subsiste. Dos reencontros com os amigos e com a irmã que servem como o principal elo de ligação a um espaço - e, por sua vez, a uma comunidade - que sente cada vez menos sua pela condenação a que o espaço (tal como ela) tem de atravessar, "Russa" permanece num silêncio derrotista sobre como ultrapassar a sua condição (in)definida de uma habitante do bairro do Aleixo e como reorganizar a sua memória na medida em que o seu espaço de outrora resiste agora com uma nova imagem... ainda em transformação.
Intensa obra cinematográfica - nomeada para o Urso de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Berlim - sobre a memória, o espaço, o indivíduo e a identidade, Russa confirma uma obra contínua, pertinente e actual de Salaviza que aqui em parceria com Alves Jr. documenta o tempo e a sua passagem, apagando espaços, transformando memórias e assumindo-as como uma parte supra-importante na afirmação do Homem e da sua identidade.
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sábado, 28 de julho de 2018

Runners (2018)

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Runners da Giggly Dickens Productions (EUA) é uma das mais recentes incursões no domínio pós-apocalipse que chegam sob o formato de curta-metragem. Uma história tradicional - para o género - e que respeita todos aqueles parâmetros necessários para tentar manter a dinâmica necessário sobre um mundo, e um conjunto de sobreviventes, que já não é como o havíamos conhecido.
Ao 23º dia após o "fim", o Sargento Rogen comunica para os esperados sobreviventes que vão proceder a uma evacuação para a costa. Nick, o único sobrevivente de uma pequena localidade interior, responde-lhe. Poderá ele conseguir chegar a um porto de abrigo num mundo infestado e desolado?
Não é segredo para ninguém que estas histórias estão tendencialmente ligadas às mais diversas longas-metragens que já homenagearam o género. Também não será segredo para ninguém que as referências utilizadas para a sua elaboração são claras quanto à admiração ou reverência que estes realizadores e produtoras têm para com as mesmas. Dito isto, Runners é o claro exemplo de que o seu realizador "bebeu" toda a sua inspiração a 28 Days Later... (2002), de Danny Boyle começando pela música utilizada para a criação do ambiente e terminando com a perseguição em ritmo bem acelerado que os infectados fazem a "Nick". Daqui à enchente de infectados que surgem nas ruas atrás dos poucos sobreviventes que ainda resistem... é um breve passo.
Com algum humor, ocasionalmente despropositado e duvidoso para aquilo que se espera construir com esta curta-metragem, Runners acaba por ser mais uma daquelas obras elaboradas com o propósito de homenagear o género, aparecer num esperado universo online que possa - a seu tempo - proporcionar algumas outras oportunidades e, sobretudo, afirmar as competências dos seus criadores como potenciais contadores de histórias.
Assim, e tendo o seu fim um desfecho inconclusivo - se assim o quisermos caracterizar -, Runners oferece, ao seu público, a possibilidade de se reencontrar uma vez mais com este universo sempre fascinante do pós fim do mundo mas, no entanto, priva-se de qualquer elemento inovador ou dinamizador de uma esperada dramatização deixando, "no ar", o eventual fim (ou não) da civilização tal como ela havia sido. Simpático mas com capacidade de ser algo mais caso se eliminassem os evidentes lugares comuns, Runners é apenas "mais uma" de tantas histórias sobre o aparentemente fascinante fim da Humanidade.
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3 / 10
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terça-feira, 22 de maio de 2018

La Revelación (2017)

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La Revelación de Javier Serna Cacho (Espanha) que relata o encontro de Victor e Santi num descampado onde o primeiro se lamenta por não ter feito bem o exame e, como tal, não poder ir de férias de Verão onde poderia ver Marta, a sua paixão. No entanto, os dois jovens têm um plano que poderá mudar o destino das suas férias.
Tido como um tradicional conto sobre o despertar sentimental de dois jovens - um para o amor e o outro para aquilo que o mesmo representa -, esta simpática curta-metragem de Javier Serna Cacho celebra o poder da amizade, a força transformadora das primeiras paixões e também todo um género cinematográfico que explora as vontades reveladoras de uma geração em pleno crescimento e desenvolvimento emocional.
Com o ênfase principal centrado na dinâmica entre os dois jovens estudantes e nos seus dilemas estivais e sentimentais, La Revelación começa por celebrar a proximidade entre ambos e a forma como decidem resolver os problemas de um deles de forma a que o seu futuro imediato possa ser melhor passado. Da rapidez com que discutem os seus destinos à forma como se zangam e facilmente resolvem a sua discórdia, esta curta-metragem dá corpo à forte e vivida imaginação de duas crianças que em nome do amor tudo fazem e a tudo recorrem. Mas, como duas crianças solitárias não resolvem os problemas do mundo, é através da figura do professor que dão corpo aos seus anseios, engendrando todo um esquema de salvação daquilo que poderia ser um tórrido e desinteressante Verão. Do engenho que origina a escapatória à capacidade do adulto em deixar que uma criança sonhe um pouco mais além do que o seu imediato permite, La Revelación prima pela capacidade de saber contar uma história com recursos limitados onde, também a imaginação do espectador se deixa levar pelo poder de um bom conto. No entanto, é o "Verão" do espectador que pode encontrar aqui o seu suplício.
La Revelación tem um argumento sólido na medida em que o espectador (re)conhece a história ali contada e vibra com as memórias de uma infância já ida na qual também teve todos os seus enredos, historietas e momentos nem sempre divertidos que (pela memória) se transformaram em recordações saudadas e saudosas desse passado tido. No entanto, são os próprios parcos recursos com que esta curta-metragem foi feita que limitaram a sua expansão para uma melhor execução da mesma na medida em que se compreende pelo pouco treino dos jovens actores como pelos cortes abruptos de um segmento para o outro que aqui existe muito que poderia ser limado e melhor executado. Não denegrindo todo o sonho e fantasia com que esta curta-metragem foi elaborada e a magia que nela se tentou criar, a realidade é que no final se sentem as suas fragilidades como potencializadoras de um conto que poderia ter tido um resultado final melhor, mais profundo e mais memorável. Não obstante, La Revelación consegue ser um trabalho terno, emotivo e até mesmo capaz de fazer o seu público recordar alguns dos seus momentos de infância com um sentido sorriso no rosto.
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4 / 10
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quarta-feira, 16 de maio de 2018

Ryoko (2018)

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Ryoko de Emilio Gallego e Jesús Gallego (Espanha) é uma curta-metragem de animação que leva o espectador a uma inesperada, original e surpreendente viagem de comboio na qual, um dos seus passageiros adormece, ignorando todo um conjunto de aventuras pelas quais atravessa.
Aquilo que se inicia como uma viagem pela cidade onde tantos se preparam para começar mais um dia de trabalho revela-se, desde muito cedo, como uma travessia pela floresta onde todo o tipo de animais cruzam os corredores do comboio ou pelo fundo do mar fruto das lágrimas que escorrem pelo rosto de alguém ou até mesmo pelo espaço onde estranhas naves e visitantes de um qualquer outro planeta se pasmam com a existência de "outro tipo de vida" até um inesperado despertar onde nada nem ninguém percebe pelo que passou.
Surpreendentemente fantasiosa e dotada de uma animação inteligentemente delineada, a brevíssima curta-metragem Ryoko da dupla Gallego e Gallego surge como uma clara vencedora quando consegue unir nos seus escassos minutos toda uma viagem por um mundo de fantasia que cruza todos os espaços possíveis e imaginados de um universo, por vezes, desconhecido... da floresta ao fundo do mar sem esquecer o espaço desconhecido, esta história apresenta-nos todo um conjunto de personagens que atravessam os sonhos mais aventureiros dos seus protagonistas lançando-os, inadvertidamente, naquele que será de facto a viagem das suas vidas.
Fortemente ligada a um imaginário de aventura e ficção, Ryoko desperta no espectador um inesperado desejo dessa mesma aventura e o pensamento de que todas as viagens para mais um dia de trabalho pudessem ser tão libertadoras como aquela que estes protagonistas conseguiram aqui ter.
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7 / 10
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segunda-feira, 14 de maio de 2018

Redención (2016)

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Redención de Marcos Sastre (Espanha) é uma curta-metragem onde a passagem do tempo e a vontade de vingança se cruzam deixando para o espectador toda e qualquer noção de justiça para com as atitudes das personagens aqui expostas.
Álex é um polícia atormentado pela memória da mulher Bárbara assassinada três anos antes. O seu único desejo é vingar-se daqueles que a assassinaram. Pelo caminho tenta eliminar das ruas todos os potenciais criminosos que podem eliminar a paz e a segurança das ruas.
A curta-metragem de Marcos Sastre parte de uma premissa que, já estando explorada em demasia no cinema independentemente do seu formato, deixa sempre um espicaçado interesse no espectador para com (mais) uma história que pode centrar-se na verdadeira dramatização de uma realidade que a todos preocupa... o crime (organizado) e o seu extenso braço que tantas vidas desfaz. Desta forma encontramos "Álex", um polícia cuja única missão é eliminar todos aqueles que se opõe ao braço da lei e da justiça retirando-os da "circulação" encontrando na imagem da sua mulher desaparecida às mãos do crime o motivo para todas as suas acções nem sempre respeitadoras da lei. No entanto... nem tudo é perfeito.
Redención cria desde cedo a ilusão de um sentimentalismo que as interpretações e o próprio argumento não se permitem para um normal e funcional decorrer da trama, deixando todos os lugares comuns expostos e revelando uma ligação afectiva e sentimental com um passado que já não existe como o único mote para que tudo aconteça. Resumindo, a ideia e a questão que se levantam a certo momento pelo espectador é simples... estaria este homem tão preocupado com o respeito pela lei se o crime não lhe tivesse batido à porta? A resposta a esta questão seria simples se fosse respondida por qualquer um de nós mas, no entanto, aqui encontramo-nos perante um agente da lei e da autoridade que, noutras circunstâncias... poderia nem estar preocupado com o que acontece na rua ao lado... mas aqui, tudo muda e a noção de sentimentalismo que se pretende criar... nem sempre resulta.
Com um enredo já muito explorado e de certa forma com inúmeros momentos que se poderiam evitar, Redención consegue ainda exibir algum déficit no espaço em que concretiza a sua dinâmica ao recorrer a um ambiente desertificado e abandonado como o "local ideal" para o crime quando, na realidade, bem sabemos que este é tantas vezes praticado em lugares aparentemente insuspeitos.
Recheado de boas intenções na sua tentativa de contar uma história de crime, de vingança, de morte e de memória por um passado feliz e sentimentalmente preenchido, Redención fragiliza-se, no entanto, por um conjunto de momentos banalizados e já suficientemente explorados que não transformam esta curta-metragem num filme inovador ou que traga - ao espectador - algo de novo e apelativo para permanecer na sua memória como "aquele" filme policial.
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4 / 10
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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Rosa (2018)

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Rosa de Zoa Peña e Ana Herrán (Espanha) é uma das curtas-metragens apresentadas na secção paralela UnoCortoyRapidito da nona edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos a decorrer na Cantábria, em Espanha.
Este breve documentário conta ao espectador a história de Rosa, uma mulher que sempre ansiou poder fazer parte do mundo das artes, ao qual sempre dedicou toda a sua paixão mas que, pela passagem do tempo e dos anos viu o seu sonho ser perdido em nome de outras ocupações como o casamento ou a maternidade.
Cansada de esperar e de perder a sua oportunidade em favor de mulheres mais jovens por quem ainda não passaram os sinais do tempo, Rosa decide tentar sempre "uma vez mais", e esperar que a sorte lhe bata finalmente à porta.
Actual e pertinente numa sociedade que cada vez mais exclui na base do género e da idade, Rosa é um breve mas muito importante documentário que expõe as dificuldades de uma mulher em fazer cumprir o seu sonho de sempre e a sua vontade e desejo de não se limitar ao papel social que a comunidade lhe define como o primeiro e principal... o de mãe e esposa. Decidida, ainda que desiludida e desapontada, "Rosa" é uma mulher que, entre tantas outras, não se conforma com aquilo que é esperado dela decidindo lutar pelo desejo de uma vida no mundo artístico mesmo que para isso tenha de ser sucessivas vezes preterida até ao dia em que finalmente irá ver concretizado o que sempre ambicionou. Sem desejos aparentes de uma fama internacional, aquilo que esta mulher pretende é apenas sair do espaço que lhe foi previamente definido pelos demais querendo, portanto, encontrar o espaço próprio que ela sente e quer... que seja o seu.
Ainda que breve, Rosa é um documentário sempre actual, que define a inexistência de fronteiras ou limites para o sonho de alguém que deseja ser algo mais... alguém que deseja ultrapassar os entraves de uma sociedade dita jovem e feminina na aparência e masculinizada nas vontades impondo, livremente, que mais importante do que a concretização é a possibilidade de ver o tal sonho nascer, crescer e fomentar-se.
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7 / 10
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Retrato de una Ilusión (2018)

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Retrato de una Ilusión de Álvaro Oliva (Espanha) é uma das curtas-metragens seleccionadas na secção paralela UnoCortoyRapidito da nona edição do Festival Internacional de Cine de Piélagos que amanhã termina na Cantábria, em Espanha.
Todos os dias uma jovem tira fotografias... Ela observa-a. E todos os dias a jovem lhe tira um retrato diferente.
Numa clara alusão aos sonhos perdidos de um passado que já não regressa, esta curta-metragem de Álvaro Oliva é o retrato breve de uma geração com sonhos grandes que nunca viu cumprir. Aqui a protagonista desta história é uma mulher perdida numa qualquer pequena povoação que observa os seus sonhos, ambições ou até mesmo desejos serem cumpridos por uma jovem nascida anos depois. Independentemente dos seus desejos serem por tirar fotografias ou por ser fotografada, compreende o espectador que observa aquilo que desejou - e que ainda sonha - vendo nas gerações futuras o cumprimento do mesmo. "E porque não eu?" pensara algures durante o seu dia vendo cumprir este sonho quando a jovem a observa e vê nela também um interessante modelo para as suas fotografias ou, até mesmo, para ajudar e ensinar a fotografar aquilo que apenas o olhar de cada um pode descobrir no mundo que a rodeia.
Intenso relato actual dos desejos perdidos de uma geração que não conseguiu cumprir as suas ambições, Retrato de una Ilusión é um breve conto sobre os sonhos nunca cumpridos de uma geração que nasceu na época "errada" num mundo que não estava preparado para que todos ousassem "sonhar".
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6 / 10
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