sexta-feira, 24 de julho de 2015

Doce Lar (2014)

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Doce Lar de Nuno Baltazar - também argumentista - é uma curta-metragem portuguesa de ficção que remete o espectador para um complexo prisional abandonado onde um Homem (Adriano Carvalho) vive.
Sem qualquer tipo de condições mínimas de habitabilidade, este Homem sobrevive como um animal selvagem recorrendo à protecção daquelas paredes para se manter afastado do frio e da chuva que fazem na rua. Mas é quando a sua tranquilidade e segurança são afectadas que o verdadeiro animal dentro dele sente ter de defender o seu espaço.
Sem grandes artifícios, Nuno Baltazar recria um ambiente físico e psicológico que prima pela rudeza dos mesmos para delinear aquilo que esperamos a nível comportamental da personagem principal, ou seja, torna-se evidente para o espectador que aquele homem - Adriano Carvalho - é alguém que se encontra ausente dos parâmetros ditos normais da sociedade há muito tempo e que é naquele espaço esquecido e abandonado - de certa forma tal como ele - que encontra o seu lugar por onde o tempo e principalmente a presença humana não passam.
Os seus comportamentos tornam-se - pensamos nós - cada vez mais básicos e primários, movimentando-se apenas com a premissa de que aquilo que faz é unicamente com o intuito de sobrevivência e auto-preservação; protege-se da chuva e do frio para não ficar doente, alimenta-se e nutre-se o suficiente para resistir e os seus cuidados de higiene são, também eles, os mais elementares para garantir a sua preservação.
O espaço à sua volta está, tal como ele, abandonado e esquecido. Aos poucos tudo se degrada e aquela prisão mais não é do que uma representação edificada dele próprio. Paredes altas que o isolam do exterior, este Homem é, também ele, alguém afastado das influências externas e que está invisível para o mundo. Dia após dia ele não aparenta ter grandes propósitos ou missões... resiste, sobrevive e avança no tempo como uma memória apagada daquilo que em tempos poderá ter sido mas são aquelas paredes e muros que formam o seu espaço, a sua segurança e, de certa forma, aquilo que qualquer um poderá imaginar como o seu "lar". Cada parede é uma segurança e cada porta um caminho para circular no seu castelo... a grande questão chega quando o mesmo se sente ameaçado por influências externas que agora parecem não querer dali sair.
O que faz um animal quando se sente encurralado? Como reage quando sente o seu espaço invadido por um potencial agressor mais forte ou melhor preparado? O que acontece quando a forma de comunicar entre ambos parece ser tão diferente mas, ao mesmo tempo, tão distinta? E finalmente, o que acontece quando o "eu" parece tão diferente do "outro" estando nessa diferença o segredo para a "minha" sobrevivência?
Nuno Baltazar cria com a direcção e argumento de Doce Lar uma história e um ambiente que levam o espectador a pensar não só sobre questões relativas à comunicação como principalmente o que acontece quando o "Homem" está privado da interacção com o seu semelhante. No fundo, o que aconteceria se qualquer um de nós estivesse sem o contacto com o seu semelhante tendo única e exclusivamente acesso aos seus pensamentos e a uma linha condutora cujo fim primeiro e último fosse a sua própria subsistência. O que aconteceria quando elementos externos viessem abalar esse princípio e até o colocassem em causa ameaçando essa tal existência - por mais primária que se apresentasse - e até que ponto estaria qualquer um disposto a ir para a defender e manter!
Com uma intensa interpretação de Adriano Carvalho que escapa à expressão sentimental dando lugar ao lado irracional de qualquer animal sob uma ameaça latente, Doce Lar é ainda um portento nas suas componentes técnica que transformam aquela prisão não só no já mencionado lar como também num labirinto de emoções aprisionadas que contém para lá das memórias de um homem esquecido, as suas frustrações, desejos e seguranças derivadas do medo, do aprisionamento e principalmente da loucura.
Executada na perfeição está ainda a caracterização a cargo de Rute Alves que literalmente transforma Adriano Carvalho num farrapo humano e a direcção artística de Rui Pina que confere às quatro paredes daquela prisão o conforto e segurança de um lar fortaleza que tudo providencia como também, os corredores da loucura por onde se perde uma mente humana.
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8 / 10
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