sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Bitter Moon (1992)

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Lua de Mel, Lua de Fel de Roman Polanski é uma longa-metragem de co-produção francesa, inglesa e norte-americana que juntou enquanto seus actores Hugh Grant, Peter Coyote, Kristin Scott-Thomas e Emmanuelle Seigner.
Quando Nigel (Grant) e Fiona (Scott-Thomas) embarcam numa viagem pelo Mediterrâneo rumo a Istambul viviam um casamento perfeito mas apático. Ao conhecerem Mimi (Seigner) e Oscar (Coyote), as suas pacatas existências adulteram-se quando o casal interfere nos desejos reprimidos de Nigel exultando neste uma sexualidade que julgava perdida.
Roman Polanski, Gérard Brach, John Brownjohn e Jeff Gross assinam o argumento de Bitter Moon baseado no romance de Pascal Bruckner naquele que é um conto de duas vertentes... A primeira relacionada com a relação adormecida de um casal britânico que se prende com a fidelidade física renegando o prazer sexual naquele que pode ser um acordo de conveniência entre ambos. Por sua vez, o casal franco-norte-americano representantes de uma obsessão desmedida e sem limites que aprisiona o espírito - de "Oscar" - e o corpo - de "Mimi" - levando-os a uma espiral de decadência e auto-destruição.
Se a relação entre "Nigel" e "Fiona" é apenas revelada bem perto do final como que uma consequência das histórias e devaneios físicos e intelectuais do casal que ali encontram é, no entanto, a relação dos outros dois que se apodera de todo este relato mórbido de duas almas aprisionadas pela dependência criada mutuamente.
A relação entre "Oscar" e "Mimi" fruto de um acaso em Paris, cedo se transforma numa empatia cativante. Se "Oscar" um escritor sem sucesso tenta encontrar a sua musa e conseguir, dessa forma, dar rumo a uma carreira perdida, já "Mimi" espera dele obter um amor nunca antes sentido. A relação que desde os primeiros momentos se mostra reveladora de uma dependência agonizante por parte de "Mimi" que não consegue conceber a sua vida sem a presença dele é, no entanto, indesejada por um "Oscar" que exige ter uma vida de boémia enquanto experimenta a dedicação de uma então vulnerável parceira. Das infidelidades às humilhações públicas, o par entra numa relação de violência psicológica que se apodera do seu quotidiano. Nada do que fazem ou do que dizem está imune e todos os momentos servem para repudiar a atenção que (então) "Mimi" dedica a "Oscar".
Mas para todas as estradas existe um caminho de retorno e "Mimi", entretanto "repatriada" pelo escritor regressa quando sabe que este, depois de uma vida de intensa decadência física, foi abandonado à sua sorte após sofrer um acidente que o tornou paralisado. A sua vida, outrora escrava psicológica do escritor, é agora de alguém que regressa para o atormentar. O Amor antes sentido encontrou agora um ódio por explorar e ao qual está preparada para da corpo e voz submetendo-o a uma humilhação tão grande (ou superior) àquela que a própria sentiu. Se anteriormente o seu amor foi alvo do riso e do gozo de um homem demasiadamente preocupado com o seu próprio ego, agora a sua condição limitada é alvo de todos os ataques por parte de uma "Mimi" que (já) não é nem física nem psicologicamente dependente dele. Tudo em "Oscar" é alvo de repúdio, inclusive a sua existência. Mas, se a sua história serve de mote para espicaçar a sexualidade reprimida de "Nigel" que é um apático em relação a "Fiona", aquilo que escapa ao espectador é que esta serviu essencialmente para dele retirar um certo prazer por estimulação o qual, na prática, será feito disponível não para ele mas sim para a sua mulher - Scott-Thomas - que é (para o espectador) uma marginal em todo este relato.
Entre inuendos e submissões cujo único propósito - quer para quem relata quer para aquele que escuta - é um estimular sexual naqueles que querem mas não podem e naqueles que podem mas parecem não querer, Bitter Moon acaba por se revelar como uma história de desencantos e arrependimentos que marcam as experiências desta quatro pessoas e das relações que, entre si, estabelecem como potenciais vínculos para que o seu subconsciente pense - e sinta - que ainda se encontram vivos, destacando a "Mimi" de Emmanuele Seigner como a não tão silenciosa protagonista que de inocente a vítima física e psicológica de "Oscar" - qual cobaia - passa à sua torturadora que vibra com a sua incapacidade para o provocar e revelar aquilo que já não pode ter.
Não será certamente a mais carismática das obras de Polanski mas, no entanto, é uma estimulante composição de personagens que ele, como sempre, dirige com mão de mestre e lhes entrega carisma, personalidade e sobretudo a tal alma que os faz ser como qualquer um de "nós" com os seus próprios problemas de um mundo dito "real" mas inserindo-as (e a nós) numa realidade paralela onde todos exageram um desespero sentido de uma emotividade, expressividade e sexualidade que não ousam cumprir.
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3 / 10
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