sexta-feira, 7 de abril de 2017

Veloce come il Vento (2016)

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Veloce come il Vento de Matteo Rovere é uma longa-metragem italiana vencedora de seis David di Donatello atribuídos anualmente pela Academia Italiana de Cinema entre os quais o de Melhor Actor e Melhor Montagem, de um total de quinze nomeações, e que foi exibido no âmbito da décima edição da Festa de Cinema Italiano que decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa até ao próximo dia 13 de Abril.
Giulia (Matilda De Angelis) é, aos dezassete anos, uma jovem promessa do circuito GT. No entanto, com a súbita e inesperada morte do seu pai, Giulia vê-se dependente de Loris (Stefano Accorsi), um irmão toxicodependente e ex-campeão da mesma competição em que ela agora participa, mas que mal conhece.
Entre cedências e compromissos, os dois irmãos iniciam um caminho de auto-descoberta de forma a poderem manter a casa de família e esperarem pela oportunidade de um potencial melhor futuro.
Tido como um dos grandes sucessos comerciais do cinema italiano do último ano, Veloce come il Vento apresenta uma história baseada em factos reais mas que, pelo seu fundo "desportivo" é um pouco atípica do cinema transalpino. No entanto, reduzir esta longa-metragem à "etiqueta" de filme sobre desporto seria demasiadamente injusta e pouco correcta na medida em que ela é, acima de tudo, uma história sobre a descoberta de uma família que, como tantas outras, funciona na sua disfuncionalidade. Por outras palavras, Veloce come il Vento apresenta como palco de uma acção o tal fundo desportivo que funciona, no entanto, como o elo de ligação entre personagens com pouco que os una para lá do desporto em si. No entanto, aquilo que é apresentado nesta longa-metragem é a história de sobrevivência dos seus intervenientes... Primeiro de "Giulia" como alguém que quer preservar o pouco património que ainda detém - juntamente com "Nico" o irmão mais novo - enquanto que para "Loris" esta poderá ser (a seu tempo), a única e última oportunidade que tem para poder reivindicar o estatuto desportivo que anteriormente detivera e com isso algum respeito.
A dinâmica entre os dois irmãos não poderia começar da pior forma. De estranhos a indiferentes consideram-se mutuamente como entraves a uma vida tranquila. Se ela pretende que ele incomode o menos possível dentro da casa que então partilham, "Loris" deseja que ela cumpra um conjunto de regras que estão inerentes à sua condição enquanto "chefe de família". Esta relação, que começa da pior forma possível, vai lentamente sendo adulterado pela compreensão de que estão todos numa situação precária... ela e o irmão mais novo podem ser enviados para uma casa de acolhimento enquanto que todos, "Loris" incluído, podem perder a casa de família e, como tal, todos os laços que possam ainda marcar esta inesperada família.
Com a pouca sorte sempre por perto e habituados à perda e à derrota, esta jovem família parece ter o seu destino traçado e marcado pela separação. Pouco podem fazer contra a derrocada de maus momentos que se abate sobre eles e se para "Loris" a droga parece ser então a sua última oportunidade, para "Giulia" e "Nico" é a institucionalização que os aguarda mas é nesta espiral de maus momentos e onde nada têm a perder que finalmente surge uma luz ao fundo do túnel.
Independentemente de Veloce come il Vento conseguir ser uma história dinâmica - e comercial quanto baste - não será menos correcto afirmar que é a tal vertente familiar (ainda que, na minha opinião, merecesse ser mais explorada) poderia e deveria ter sido explorada não como um pano de fundo para o evento desportivo que decorre de forma paralela. Pergunto-me, enquanto espectador, se não existissem os momentos de competição automobilística, se a trama dramática de Veloce come il Vento conseguiria resistir e apresentar a longa-metragem coerente que aqui é apresentada por Rovere... Ou seja, até que ponto esta tensão dramática familiar aqui encorpada com as interpretações de Accorsi e De Angelis resistiria se os dois irmãos fossem "simples" pessoas sem um passado ligado a um acontecimento desportivo que aqui se assume como que de uma personagem de carne e osso se tratasse. Conseguiria esta história resistir se se desenrolasse apenas no interior daquelas quatro paredes ou num ambiente potencialmente degradado do submundo da droga sem que tivesse a substância da competição por detrás?! Será que a dinâmica de "acção encontra competição" não contribui para deixar esta longa-metragem sobreviver à tona da água?
Com três dos seus desempenhos nomeados ao David di Donatello - Accorsi enquanto Actor Protagonista, De Angelis como Actriz Protagonista e ainda Roberta Mattei como Actriz Secundária -, o de Melhor Actor foi justamente entregue (pela segunda vez) a Accorsi que aqui tem não só uma transformação física latente como a capacidade de encarnar a alma destruída de um homem que tivera - outrora - desejos, ambições e sonhos que foram (não sabemos como ou quando) destruídos... Tenha sido pelo seu incumprimento, desistência ou até mesmo como uma consequência da sua dependência de drogas pesadas, Accorsi cria uma estranha empatia com o espectador que o mantém por perto e a desejar que finalmente tenha chegado a sua vez de manter um espírito livre e recuperado da prisão a céu aberto que é a sua dependência.
Com dois fortes elementos técnicos no seu Som - também vencedor do David - e na Música da autoria de Andrea Farri que captam um certo dinamismo da acção e da história mantendo o espectador preso ao ecrã, Veloce come il Vento vive sobretudo da apurada interpretação de Accorsi e da proximidade que mantém com o seu público pela vertente de história real aqui levada ao ecrã com um estruturado e competente argumento escrito pelas mãos de Rovere, Filippo Gravino e Francesca Manieri que nem apela ao sentimentalismo nem tão pouco vitimiza nenhuma das suas personagens mantendo-as tão detestáveis ou adoráveis conforme os momentos em que a vida os vai surpreendendo.
Longe de um estereótipo de cinema italiano de autor ou mesmo da premissa de grande drama urbano. Veloce come il Vento conquista o seu público pela forma como aproxima as dificuldades das suas personagens àquelas tidas por tantas outras pessoas que (des)esperam pelo dia que lhes traga algum tipo de oportunidade.
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