quarta-feira, 12 de abril de 2017

Indivisibili (2016)

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Indivisibili de Edoardo De Angelis é uma longa-metragem italiana presente na décima edição da Festa do Cinema Italiano a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa e uma múltipla vencedora da última edição dos David di Donatello - seis troféus incluindo Melhor Actriz Secundária e Melhor Argumento Original - atribuídos anualmente pela Academia Italiana de Cinema.
Viola (Marianna Fontana) e Daisy (Angela Fontana) são duas irmãs gémeas siamesas que cantam em casamentos e demais festas locais contribuindo, desta forma, para o único rendimento de toda a família. Mas no dia em que um médico diz que as pode operar tornando-as independentes uma da outra, as suas vidas transformam-se dando lugar a uma potencial história de descoberta e individualidade.
O realizador Edoardo De Angelis, aqui também em funções de argumentista juntamente com Nicola Guaglianone e Barbara Petronio, dá corpo a uma história que vai muito para lá de um desejo de indepedência e afirmação ou, pelo menos, mescla-as de forma a que todas sejam elementos fundamentais para o desenvolvimento das suas personagens, das suas ambições, aspirações e desejos. Desde o primeiro instante que o espectador assume o contexto geográfico desta longa-metragem como aquele de um local empobrecido e marcado pelas diferentes dificuldades económicas que atravessam a sua população. Por outras palavras, aqui sobrevive quem tem esperteza, alguns meios ou recursos que pode pôr em prática distanciando-se das misérias que esperam "lá fora". Assistimos a praias desertas longe de grandes destinos turísticos mas onde dão à costa homens e mulheres vindos de África e que ali sobrevivem à custa de negócios não tão legais. De prédios abandonados que são residência desses migrantes à aparente prostituição que parece abundar a todas as esquinas, o espectador observa o contraste com as grandes festas das famílias mais ricas mas que, ao que se percebe, são uma ínfima parte de todo aquele espaço.
É neste contexto que nos são apresentadas as duas irmãs gémeas "Viola" e "Daisy". A sua voz e condição física são o atractivo para os demais que lhes confere - e família - a subsistência necessária e, como tal, aquilo que seria de uma imediata transformação passa a factor que prevalece para que este suposto nível de vida se mantenha, ou seja, se a deficiência física é um bónus para a entrada de dinheiro... será que o mesmo deve ser alterado?! De "atracção" a um problema cuja vontade de alterar aumenta a cada instante que passa, as duas gémeas ponderam sobre a possibilidade de uma vida separada. Como poder existir sem a presença da outra, de beber, fumar, namorar, fazer amor sem que tenham uma companhia que, para aquele instante, não é desejada... Mas, ao mesmo tempo, esta vontade - ou necessidade?! - de mudança começa a intrometer-se nos desejos e vontades de um pai (e de toda uma família na verdade) que vêem uma potencial fonte de rendimento e da sua própria subsistência a desaparecer. Num meio onde impera a miséria e a degradação, como poderá esta família lidar com a súbita (ou talvez não) vontade de mudança das filhas que, até então, têm servido como atracção "turística", fonte de rendimento e até mesmo ícones de uma (nova) religião que delas faz mártires?
É então que entra a segunda vertente desta história. Uma história de duas jovens mulheres que partilharam a vida... toda a sua vida... lado a lado sem qualquer noção a propósito de privacidade. Desconhecem o que é ter amizades e, menos ainda, amizades a título individual visto que para onde uma vai... a outra segue. Nunca fizeram uma refeição sem ser na mútua presença, nunca tiveram um comportamento de higiene onde a outra não esteja ou tão pouco uma cama onde possam dormir separadas. Tudo nas suas vidas é feito na constante presença da outra. Será que numa idade onde aparecem as primeiras paixões, os primeiros desejos - os instantes iniciais de Indivisibili revelam muito - e as primeiras necessidades de um afecto que não parental ou fraternal despertam nelas (pelo menos numa), não poderá revelar que algo precisa de ser resolvido a propósito da sua condição física?
Se as duas irmãs são idênticas fisicamente, os seus comportamentos denotam uma notória diferença. Se o espectador presencia uma "Viola" controlada, submissa aos desejos da família e até reticente quanto à separação de uma irmã a quem se habituou ter "por perto", já "Daisy" exala rebeldia, vontade própria, uma necessidade de se afirmar ao mundo, à família e principalmente a ela própria que contrasta em absoluto com a passividade de uma "Viola" que apenas quer estar "bem". Mas, no entanto, num mundo onde o normal é uma vida marginal da sociedade onde reina o dinheiro e os favores, poderá o amor (ou a sua ideia) e a sua individualidade reinar e ter alguma última palavra?! Poderá a vontade de comer um gelado, viajar, dançar, fazer amor ou beber sem ter medo que afecte a outra ter algum voto final? E no fundo, a grande e última questão será... poderão elas continuar a crescer - enquanto indivíduos a solo - se a outra não estiver por perto? Quem são "Viola" e "Daisy" afinal? Poderão elas descobri-lo num mundo onde a sua condição física tem determinado a subsistência económica de tantos?
De toda uma conjuntura sócio-económica que pode ser facilmente detectada por inúmeros pequenos detalhes e que compõem, de certa forma, uma importante parte deste argumento a toda uma reflexão não menos importante sobre a individualidade e o indivíduo enquanto uno, Indivisibili prima por ser uma história francamente original e que permite ao espectador questionar-se sobre o "eu" interior e aquilo que faz dele a pessoa que é... como o seu meio contribuiu para essa formação e, em última análise, em que medida seria diferente se qualquer um desses pequenos detalhes fosse alterado ou, na realidade, nunca tivesse existido enquanto tal.
Indivisibili poderia portanto ser uma história sobre o meio... sobre uma qualquer actualidade que ali parece passear-se pelas fronteiras de um território não conhecido (a tal terra de ninguém talvez...)... sobre a individualidade... sobre aqueles que vivem nas margens.... sobre os que tentam sobreviver... sobre os que se acomodam a uma situação fazendo dela o bode expiatório da sua existência. Indivisibili poderia ser simplesmente uma história sobre como e quando crescer... sobre aquele preciso momento em que cada um de nós decide finalmente tomar uma medida pelas suas próprias mãos - medida essa que "Daisy" comprova ser o acto último de um desespero então compreendido - controlando assim a sua vida e existência... No então Edoardo De Angelis decidiu (e bem) que Indivisibili seria sim um pouco disto tudo.
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8 / 10
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