sábado, 6 de outubro de 2012

Le Fils de l'Autre (2012)

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Le Fils de l'Autre de Lorraine Levy foi o primeiro filme que vi na edição deste ano da Festa do Cinema Francês que se realiza em Lisboa pelo 13º ano, e que contou com a presença da realizadora, produtora e dos actores Jules Sitruk e Pascal Elbé.
Quando Joseph Silberg (Sitruk) está prestes a completar 18 anos e a começar a sua carreira militar em Israel, os seus exames médicos mostram uma irregularidade que os pais Orith (Emmanuelle Devos) e Alon (Elbé) receiam ir transformar todas as suas vidas.
O tipo sanguíneo de Joseph revela não poder ser filho de Orith e Alon e cedo descobrem que durante a primeira Guerra do Golfo o seu verdadeiro filho fora trocado. Aquilo que iria transformar ainda mais as suas vidas era descobrir que Joseph é filho de um casal palestiniano e que o seu filho biológico havia sido criado e educado por estes.
À partida ao lermos esta pequena sinopse podemos esperar um filme que vai abordar os inúmeros problemas israelo-palestinianos e todo o conflito que há décadas tem vindo a assolar o Médio Oriente com os inúmeros ataques terroristas e opressão do povo palestiniano. Não podemos estar mais enganados.
É certo que as referências a esta divisão entre os dois povos está presente. Temos os constantes controlos fronteiriços que os cidadãos palestinianos têm de efectuar cada vez que pretendem entrar em Israel, as ocasionais conversas de como uns sofrem pelos atentados dos outros e de como estes são obrigados a viver num guetto ou mesmo as inúmeras referências ao muro que separa um território, no entanto todas estas abordagens servem apenas para um único propósito que é o de sermos enquadrados num espaço onde algo maior acontece... as experiências e vivências humanas. À parte de todos os temas políticos que poderíamos debater e que de facto se encontram neste filme, aquilo que é essencialmente fundamental são as transformações que duas famílias têm apenas com um único momento nas suas vidas. Momento esse de que não foram responsáveis mas que iria modificar todas as suas vidas e principalmente aquilo para que estão, à partida, "formatados" para acreditar que é a realidade... ou a sua realidade.
Estará realmente do outro lado do "muro" alguém que "me" odeia... será que me fazem acreditar que realmente esse "alguém" me odeia... Ou será que ali está simplesmente alguém que, tal como "eu", pode amar, cantar, sorrir, viver e ter os problemas e alegrias normais de qualquer outro cidadão em qualquer outra parte do mundo? Este é fundamentalmente o assunto que este filme aborda através de um argumento diferente daquilo que os filmes que decorrem nesta parte do globo, nos aborda. Não é procurada a política da região, nem tão pouco a religião da mesma e que separa os povos. Estamos simplesmente a assistir a uma história, trágica é um facto, de uma família que, pelas circunstâncias da vida, conseguiu alargar-se para além do imaginável. Para além da religião, da política ou mesmo dos preconceitos que ambos poderiam ter, esta família cresceu para além de qualquer tipo de laço consanguíneo para uma união de afectos, de amizade e principalmente de amor.
Pascal Elbé, um dos actores presentes ontem na apresentação do filme foca exactamente este aspecto. Citando-o, não precisamente, disse que é possível num local onde estavam cristãos, judeus e palestinianos estarem todos a trabalhar e dar as mãos sem que a sua proveniência fosse um problema. Logo a questão que levanto é, será mesmo um problema real a sua origem, ou será que o problema "real" é levantado por aqueles que politicamente fazem da sua permanência no poder estas mesmas questões?
Política à parte, a essência deste filme reside nos afectos e no amor dado àqueles que connosco vivem e se cruzam independentemente das suas origens mas sim concentrando-nos naquilo que eles para nós representam... filhos, marido ou mulher, amigos e novos amigos. Aqueles que cuidam de nós como se de parte deles nos tratassemos. No fundo tudo passa pelo amor (ou falta dele). Apenas e só.
Quanto ao conjunto de actores só posso dizer que parecem ter uma química natural. Todos eles. Desde a dinâmica das duas famílias entre si... Devos, Elbé e Sitruk por um lado, e por outro Areen Omaru (a mãe), Mahmud Shalaby (o pai), Khalifa Natour (o filho mais velho) e Mehdi Dehbi (o filho que a todos une), bem como depois nas relações que as duas estabelecem que inicialmente é apreensiva mas que depois começa a estabelecer-se. Primeiro através da relação entre as duas mulheres, depois com a natural relação entre os filhos ainda algo "isentos" dos preconceitos que à partida poderiam existir e finalmente, com o tempo, através da relação que os dois pais de família, um do exército israelita e o outro impedido de exercer a sua verdadeira profissão, estabelecem. Todos, sem reserva, parecem ser de facto família. Parecem conhecer-se, saber o que os preocupa, o que lhes provoca medo mas especialmente percebemos que estão dispostos a abrir o seu coração à mais improvável das uniões.
Finalmente, e em especial para a Lorraine Levy... que não se preocupe, o silêncio não era a reprovar o seu filme... pelo contrário, a prova está mais do que superada.
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8 / 10
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