sábado, 19 de janeiro de 2013

La Fidélité (2000)

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A Fidelidade de Andrzej Zulawski e com a produção de Paulo Branco conta com um trio de actores protagonista que ao mais desatento dos cinéfilos iria de imediato despertar a atenção.
Clélia (Sophie Marceau) sabe ser o fruto de uma relação entre um pai e uma mãe que nunca se amaram para além de uma próxima amizade. Quando sente a frágil condição de saúde da sua mãe faz uma última grande viagem com ela onde descobre que terá, provavelmente, outro pai do que aquele que sempre conhecera.
É devido àquilo que conhece da relação dos seus pais que Clélia nunca se comprometera com ninguém. Acha que o amor é apenas algo idílico que ninguém conhece mantendo, por isso, relações ocasionais com homens que a atraem nos momentos mais inesperados e inoportunos. Fotógrafa de profissão conhece um dia Clève (Pascal Greggory), um editor que se apaixona perdidamente pela sua beleza e forma de estar mas que esconde, ele próprio, os seus demónios sentimentais do passado.
A relação, inicialmente meramente sexual, de Clélia e Clève envereda por um caminho que os guia ao casamento. No entanto, Clélia conhece Nemo (Guillaume Canet), fotógrafo que, tal como ela, se deixa seduzir por mulheres com quem mantém relações físicas mas pouco sentimentais e que nela encontra alguém capaz de o deixar "preso".
É este trio físico e sentimental que irá determinar todas as relações e destinos dos que com eles convivem mais proximamente, num conjunto de momentos que se mostram mais auto-destrutivos do que propriamente sentimentais.
Esta co-produção luso-francesa (que de lusitana pouco tem além do produtor que se note), cujo argumento também da autoria de Zulawski inspirado na obra A Princesa de Clèves de Madame de La Fayette, reflete sobre a capacidade (ou falta dela) de um indivíduo criar laços sentimentais que o unam a outro(s) seres, acaba por encontrar com este filme um estranho conjunto de relacionamentos que quase nos transporta para um mundo imaginário de personagens que parecem retiradas de um universo surreal.
É perfeitamente válido que existam indivíduos que tenham sérias reservas à sua ligação a um outro mas, no entanto, aquilo que me parece mais estranho nem é este facto mas sim a constante neurose em que vivem como se essa união fosse, à partida, prejudicial. Vou mais longe ainda quando afirmo que quase parecem "viver" para mostrar que as ligações entre duas pessoas são, em si, impossíveis e fruto de uma qualquer imaginação mais frágil, limitando-se assim (como confirmamos pela personagem interpretada por Marceau) a encontrar constantes "provas" de que a qualquer momento poderia trair o seu marido mas que, para sorte dele, opta por não o fazer, e com isto mostrar-lhe que o "amor" é menos certo que a própria falta dele.
Mais longe ainda do que isto é o facto de "Clélia" ser uma mestre do erotismo e da sexualidade sempre preparada para a próxima relação carnal que lhe é proporcionada, não com isso tirando qualquer satisfação sexual mas sim prazer por demonstrar que é capaz de o fazer, agonizando depois no seu íntimo sobre a impossibilidade de ser feliz ao lado de alguém que ame, e que a ame, tal como acontecera pela auto-privação da sua mãe em viver junto do homem a quem sempre amou em segredo e que era, na realidade, o seu pai biológico (mais tarde patrão).
Mais enigmática ainda é "Clèves", onde temos um Pascal Greggory estranhamente infantil e quase sempre alucinado como se tivesse sido retirado de uma dose bem pesada de ecstasy nos cinco minutos anteriores a ter entrado em cena e que, com isso, nem consegue ser convincente nos aparentes ciúmes que parec sentir da relação extra-matrimonial platónica que a sua mulher mantém com "Nemo" que a persegue incansavelmente por todo o lado mesmo quando "Clélia" e "Clèves" estão nas posições mais íntimas que poderemos imaginar na privacidade do seu quarto.
Como se a dinâmica entre estes três não fosse já por si digna de um filme à parte, seria impossível não referenciar brevemente todas as dinâmicas que surgem para lá do trio. Desde as problemáticas insinuações à mafia chinesa e de leste que faz tráfico de orgãos humanos (olhos), passando pelos dissabores profissionais, pela mutilação genital, prostituição, luta ilegal de cães, bissexualidade e escândalos religiosos, convivemos ainda com um conjunto perfeitamente disforme de personagens que parecem retiradas de um hospicio que passam pela chefe de redacção alcoolatra e que sobe profissionalmente à custa de uns "favorzitos", a mulher do patrão que vive com o cérebro cozinhado em alcoól e estupefacientes, um conjunto de mulheres que vive num convento e adoram cantar e dançar (não, não são freiras) e todo um diferente e muito "exótico" conjunto de personagens que, em última análise, têm tanto de presente como de decorativo.No fundo, estamos perante uma selva onde metade dos seus habitantes não sabe bem o que lá está a fazer.
O potencial desta história é, na minha opinião, enorme. A dificuldade em encontrar "o" ou "a" tal que poderá ser ou não a dita cara-metade com quem se irá passar o resto de uma vida é tema suficiente para que um filme tenha uma extensa e intensa história. A incapacidade de um indivíduo se ligar a outro não perdendo a sua individualidade mas encontrando nesse outro o seu complemento é também por si argumento suficiente para construir um filme desafiante, tal como o medo que se sente em poder cometer os mesmos erros que outros no passado cometeram e que não os permitiram viver a felicidade plena tal como a mereciam. No entanto aqui, não só estes elementos funcionam a favor do filme como toda a demais almálgama de temas secundários e as personagens paranóicas e delirantes deitam tudo a perder naquilo que é mais semelhante a alguém que está numa trip de crack do que propriamente a tentarem encontrar o seu lugar no mundo e aquele alguém com quem o compartilhar.
Vale pelo olhar frio que a fotografia fria de Patrick Blossier entrega não só às personagens como a todo o meio onde elas co-habitam, como também pela potencial reflexão passado-presente-futuro que poderia ter sido feita numa perspectiva reconciliadora para com o "eu" mas que resulta apenas num sem fim de momentos não muito interessantes com o único propósito de, no futuro, poder servir de mais um lamento sobre o "isto já aconteceu".
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4 / 10
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