quinta-feira, 28 de abril de 2016

Estive em Lisboa e Lembrei de Você (2015)

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Estive em Lisboa e Lembrei de Você de José Barahona é uma longa-metragem luso-brasileira presente na competição nacional do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema Independente a decorrer em várias salas da capital até ao próximo dia 1 de Maio.
Sérgio (Paulo Azevedo) vive em Cataguases, uma pacata cidade do interior brasileiro. Uma cidade tão pacata como a sua própria vida que se resume a trabalho, casa e algumas saídas com o seu grupo de amigos.
Após conhecer Noémi (Amanda Fontoura) por quem se apaixona, casa e tem um filho, Sérgio depara-se com uma vida de "pai solteiro" e com a extrema necessidade de ter algo mais na sua vida. Quando Lisboa surge como um destino de eleição, Sérgio ruma à capital portuguesa onde esperar lucro e uma vida não só mais fácil com mais agitada. Estará ele capaz de se aguentar a toda uma nova e transformadora experiência?
Tendo como base a obra homónima da autoria de Luiz Ruffato, Estive em Lisboa e Lembrei de Você é para além de um relato sobre a emigração, uma história sobre um homem - igual a tantos outros - que esperou e tentou algo mais da vida. Esta história que se desenvolve em torno de "Sérgio", um homem encantado com as possibilidades sentimentais e profissionais que sente poderem ser suas numa "outra vida", divide-se em dois momentos muito particulares.
O primeiro desses referidos momentos o espectador poderia apelidar simplesmente de "Brasil"... Ou, por outras palavras, aquele em que "Sérgio" desperta para um mundo para lá de si. É nesta primeira metade de Estive em Lisboa e Lembrei de Você que o espectador conhece este homem inicialmente metido para com os seus próprios pensamentos, fumador compulsivo que vê o seu estado de saúde deteriorar-se lentamente e que se deixa levar por um lado romântico da vida oferecendo simpáticas flores de papel às mulheres por quem platonicamente se apaixona. De uma vida que oscila entre casa e trabalho com os ocasionais momentos entre amigos onde se queixam das oportunidades que têm e das banalidades da vida, o espectador sente que "Sérgio" tem - terá? - uma vida para além daqueles breves momentos que partilha. Com um mundo inteiro por descobrir... quem será ele se não o fizer?
No entanto, é também neste segmento que a sua vida dá o primeiro grande salto. O casamento, a paternidade, a depressão maternal de "Noémi" e os encargos que são grandes demais para as suas possibilidades levam-no numa odisseia para um imaginado el-dorado... Lisboa.
É com a viagem para Portugal que o espectador encontra o segundo segmento desta longa-metragem, agora com todo um novo conjunto de personagens, de espaços, de situações e, principalmente, com toda uma vida nova que parece reclamá-lo ainda que não assumindo que "Sérgio" é, agora, um dos seus.
Em Lisboa a vida é assumidamente diferente. As pessoas são mais secas e distantes, e os momentos de comunhão parecem ser difíceis de encontrar. Ao contrário da "tribo" que tinha no Brasil, em Lisboa a sua vida resume-se a tentar encontrar um trabalho que lhe garanta algumas economias, bem como é complicado ter papéis de residência, amigos, alguém em quem confiar e, no fundo, um espaço que seja o seu para lá daquele quarto de pensão que, também ele, representa um pouco do mundo ali centrado. De el-dorado repleto de oportunidades, Lisboa vai lentamente simbolizando um calvário difícil de suportar com alguma xenofobia a impedi-lo que prosseguir a sua vida, e o desencanto assume o lugar que outrora fora ocupado pela esperança.
No entanto é com a emergência de um novo amor que "Sérgio" volta a ganhar encanto e gosto pela expressão dos seus sentimentos e a ideia de que finalmente uma nova vida espera por ele. Com a entrada num mundo mais escuro das noites Lisboetas, este homem passa a viver num limbo entre aquilo que esperava e aquilo que tem desta sua nova vida.
Estes dois distintos segmentos da vida de "Sérgio" são narrados pelo próprio numa dimensão futura dos acontecimentos aos quais o espectador assiste. Logo de início o espectador conhece um "Sérgio" num registo de confessionário onde (se) apresenta a sua história. Quem ele era... o que esperava da sua pacata vida e os desejos que tinha para um futuro melhor expressos não só pelos seus actos como através de um olhar melancólico. No entanto, aquele "Sérgio" que fala para a câmara como que para um amigo próximo, é diferente. Física e psicologicamente diferente. Mais magro, novamente fumador e residente num qualquer subúrbio de Lisboa, ele divaga sobre toda uma experiência confessando, ao mesmo tempo, que a sua vida mudou não só em Portugal como para com aquilo que deixou num Brasil cada vez mais distante. Sem saber da sua mãe, do seu filho ou da sua mulher, ele agora parece não manter qualquer tipo de desejos para si que vão além do imediato e de uma vida dia-a-dia. Assistimos a esta transformação silenciosamente... São pequenos gestos como o guardar a foto de família que marcam a sua viragem para um novo - não necessariamente melhor - homem que agora prefere evoluir libertando-se de amarras tidas com o seu passado.
Quem será ele esquecendo o que foi? Quem será sem novas perspectivas? Sem novos sonhos... desejos... ambições? "Sérgio" o brasileiro... o emigrante... o rosto anónimo... o vulto que trabalha a servir os demais sem que ninguém - nem ele - saiba quem é?
Perdido num limbo entre o Brasil e Portugal, "Sérgio" vive e sente o desencanto de uma vida que não lhe sorriu. Por um lado pensa na vida despreocupada que tinha no Brasil onde, mesmo com as responsabilidades que a paternidade lhe trouxe, se sentia como alguém capaz de levar uma vida tranquila e preenchida. No entanto, como voltar a esse Brasil onde todos esperam que ele chegue com sucesso, com dinheiro, com uma vida abastada e com perspectivas de ser o novo "rei do bairro"? Como voltar para junto daqueles que conhece revelando que todas as suas perspectivas e expectativas falharam? Como voltar pensando - ou fazendo pensar - que mais não é do que um falhado com sonhos grandes demais dentro da sua cabeça? É o cortar de laços - com amigos e família - do seu Brasil natal que fazem com que ele consiga, à sua maneira, dar o passo em frente num Portugal que, no fundo, nada de bom lhe trouxe a não ser desencanto, desilusão e um confronto com a banalidade que são os sonhos sonhados.
Com um registo semi-documental - afinal "Sérgio" fala na primeira pessoa para a câmara - Estive em Lisboa e Lembrei de Você pode ser a história de tantas pessoas independentemente da sua nacionalidade, que nesta ou em qualquer outra cidade tentaram um dia vencer. Talvez não enriquecer mas simplesmente vencer. Conhecer outra parte do mundo, poder ter uma vida um pouco melhor... Poder providenciar e satisfazer os seus sonhos e os daqueles que tem consigo. No entanto, como nem todos os contos terminam num romance ou na perspectiva do final feliz, aqui encontramos uma entre tantas histórias que não o são... Por outras palavras... encontramos histórias que são as realidades silenciadas de muitos. Encontramos perguntas não respondidas, desejos nunca satisfeitos, momentos nunca vividos e histórias que poderão nunca encontrar um final - feliz ou não - enquanto deparamos também com alguns sinais de uma sociedade que não queremos ver... a crise, a imoralidade, o crime, a prostituição e finalmente o desamor.
Nenhuma boa história sobrevive se não tiver um rosto, e Paulo Azevedo confere a Estive em Lisboa e Lembrei de Você e à temática da emigração a expressão necessária para uma imediata empatia com a sua personagem. Nesta interpretação marcada pela excelência, Paulo Azevedo cria uma imediata ligação com o espectador que sente e vive os seus dramas. A expectativa de uma vida melhor, a procura silenciosamente incessante de um amor, a paternidade, a partida da sua terra natal, a chegada a um novo espaço que tendo a mesma língua parece ser numa outra dimensão, a solidão, a falta de oportunidades, de amigos, de família e finalmente o desencanto - este que parece persegui-lo como sendo a sua cruz. Com uma expressão quase sempre marcada por uma tristeza avassaladora, Azevedo consegue fazer-nos "distrair" do mundo à sua volta para obrigar o espectador a estar ali sentado com ele a recordar todos os seus momentos. Dono de uma intensidade dramática marcante, sentimos que por diversos momentos todos aqueles desgostos... são os seus.
Para os portugueses - Lisboetas como eu - é também curioso assistir a Estive em Lisboa e Lembrei de Você na perspectiva de um emigrante, na medida em que observamos a nossa cidade que todos temos como acolhedora, com olhos de quem se sente nela perdido e desamparado. Uma cidade que se tem fria, distante, pouco receptiva e como qualquer outra grande cidade, prestes a engolir aqueles que não conseguem resistir.
Uma das surpresas maiores do IndieLisboa, Estive em Lisboa e Lembrei de Você é uma interessante e rica aposta do novo cinema nacional - não esquecer que estamos perante uma co-produção luso-brasileira de José Barahona, um realizador português - que espero não ficar esquecida na gaveta sem encontrar a sua estreia comercial no nosso país (o quanto antes).
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"Rodolfo: O que são eles em Portugal? Nada... são os brasileiros. E no Brasil? Nada... são os estrangeiros."
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