quarta-feira, 13 de abril de 2016

Le Goût des Autres (2000)

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O Gosto dos Outros de Agnès Jaoui é uma longa-metragem francesa e a vencedora do César da Academia Francesa de Cinema de Melhor Filme do Ano.
Três homens e três mulheres. Castella (Jean-Pierre Bacri) é um industrial algo rude enquanto Bruno (Alain Chabat) e Franck (Gérard Lanvin) são os seus dois guarda-costas agora que pretende estabelecer um negócio com uma empresa iraniana. Clara (Anne Alvaro) é actriz e professora de inglês, Béatrice (Brigitte Catillon) é a mulher de Castella e uma decoradora de interiores algo frustrada, e Manie (Agnès Jaoui) é uma barmaid que vende haxixe.
Num ritmo de encontros e desencontros onde as possibilidades de uma vida diferente se equacionam momentaneamente, poderão estas vidas encontrar o amor nos seus opostos?
Este vencedor do César de Actor e Actriz Secundários e Argumento bem como nomeado ao Oscar de Filme Estrangeiro pretende ser uma comédia com leves toques dramáticos sobre as relações humanas e as suas impossibilidades. O que move os indivíduos a aproximarem-se quando tudo parece poder afastá-las e, numa mais pensada análise, o que realmente leva duas pessoas a encontrarem um ponto comum de entendimento que as leve a trilhar uma vida em comum?
Num ritmo de silêncios e alguns comportamentos adversos, todos eles - homens - procuram algo que elas - mulheres - parecem não estar disponíveis para entregar. A impossibilidade de serem feitas cedências a algumas expectativas deles leva ao seu afastamento progressivo e a alguma necessidade de uma liberdade que parece, até então, perdida. "Castella" é um homem algo rude e que se percebe ter subido a pulso contra as expectativas de quem o rodeava e casado com "Béatrice", uma mulher vinda de um meio diferente do seu mas que nunca fez nada na vida por estar num casamento que a sustenta. Pela necessidade é um eventual trabalhador desde jovem e a sua educação - instintiva e académica - ficaram para um segundo plano. "Castella" encontra em "Clara" uma existência boémia, uma vida sem grandes regras e presente num meio cultural que lhe "faltou" e, como tal, a oportunidade de poder voltar a sentir. No então "Clara" apresenta-se como uma mulher amarga, cheia de si própria e para quem as investidas de um "Castella" encantado mais lhe parecem como desprestigiantes para o seu ser.
No lado oposto desta pirâmide socialmente privilegiado encontramos "Manie", "Bruno" e "Franck". Os dois primeiros cruzam-se num bar onde é confessado que já partilharam a mesma cama. "Bruno" não se recorda vivendo os problemas de uma relação não correspondida. É através dele que "Franck" conhece "Manie" e que com ela estabelece uma relação sexual que aos poucos parece desenvolver para algo mais, percebendo-se que os problemas de um começam a afectar o outro. Mas, no final, a grande questão para todos eles coloca-se... Poderá existir uma vida em comum quando aparentemente apenas uma das partes luta para que tal aconteça? Conseguirão estes homens resistir a um conjunto de mulheres que estão por demais centradas em si próprias e incapazes de criar uma qualquer empatia sentimental com quem já demonstrou ter aberto o seu coração?
Agnès Jaoui - realizadora e intérprete - estabele com Le Goût des Autres uma interessante reflexão sobre as relações; não sobre ela propriamente dita mas sim sobre os mitos de que são os elementos masculinos de uma relação os primeiros a tentar sair ou depositar pouca relação e empenho na mesma demonstrando que num mundo de igualdade de género esta tentativa de "fuga" pode encontrar-se expressa em ambos os sexos. Ao mesmo tempo, Jaoui tece ainda uma interessante reflexão sobre a dependência afectiva masculina que parece subsistir apenas no seio de uma relação sentimental a dois encontrando-se - for dela - perdido sem um rumo aparentemente definido como se de uma criança à procura de um apoio maternal. Mais, Jaoui demonstra também a incapacidade de alguns indivíduos em expressarem os seus sentimentos graças a uma indisponibilidade sentimental ou também por um desdém sócio-económico e até mesmo cultural que os distancia dos demais criando aparentes incompatibilidades ou mesmo aversão como aqui nos é demonstrado na potencial relação - ou falta dela - entre "Castella" e "Clara".
Longe de ser um filme memorável e até um "improvável" receptáculo do título de "melhor do ano", Le Goût des Autres consegue ter algumas interessantes interpretações que pela sua proximidade ou distância do real cativam o espectador pela sua exuberância e caracterização de tantos de "nós" e por serem, de forma geral, inadaptados num mundo dito sentimental que, para o bem ou para o mal, ainda não os encontrou. Assim, e no seio de um conjunto de incompatibilidades e mundos opostos, Le Goût des Autres versa sobre as falhas nas e das relações, aquelas que nunca se iniciam e aquelas que - um dia - encontram o seu final quer seja através de um distanciamento, aversão ou a compreensão de que os caminhos que antes eram partilhados encontraram, algures pelo seu percorrer, novos desvios que teriam de ser experimentados.
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5 / 10
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