segunda-feira, 25 de abril de 2016

Love (2015)

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Love de Gaspar Noé é uma longa-metragem francesa presente na secção A Boca do Inferno do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema Independente a decorrer em Lisboa até ao próximo dia 1 de Maio em várias salas de cinema da capital.
Murphy (Karl Glusman) é um estudante de cinema a viver em Paris que desenvolve uma relação extremamente sexual e emotiva com Electra (Aomi Muyock). Depois de um encontro ocasional com a jovem vizinha Omi (Klara Kristin) e uma noite altamente sexual entre os três, a relação entre Murphy e Electra cai numa espiral de desejo e tensão sexual que os leva ao submundo sexual de Paris.
Tempos depois, na primeira manhã do novo ano, Murphy recebe um telefonema da mãe de Electra a contar-lhe que ela desapareceu...
Gaspar Noé regressa com a sua segunda longa-metragem após Irréversible (2002) - sendo a primeira Enter the Void (2009) - e, uma vez mais, com uma intensa carga sexual explícita e como o principal mote de toda a narrativa e relação entre os seus dois principais protagonistas.
Love tem início com a relação entre "Murphy" e "Electra" sendo que é com "Omi" que são desenvolvidos os primeiros instantes onde o espectador observa aqueles que são os dias mais ou menos monótonos de um casal preso a uma vida e existências banais. Esta existência é apenas interrompida por um enigmático telefonema que desperta em "Murphy" as memórias de um passado e de uma paixão onde amor e dependência eram a constante diária. "Electra"... o nome do seu primeiro amor. Aquela com quem iniciou uma relação empática tanto emocional como sexualmente comprometida mas que, desgastada pelo tempo, se transformou em algo monótono e que necessitava ser ultrapassada. Foi a (in)consciente intromissão de "Omi" que radicalizou os comportamentos tanto de "Murphy" como de "Electra". Foi a inicial "necessidade" de um terceiro elemento que apimentasse os seus dias que os transformou e levou a uma espiral de decadência num submundo sexual - apenas comparável àquele tido com Irréversible - no qual qualquer momento, situação ou espaço servem para saciar, em conjunto ou não, os seus devaneios sexuais.
No entanto, as semelhanças com o já referido Irréversible não ficam por aqui. Vários elementos ao longo de Love fazem lembrar o violento drama com Cassel e Bellucci - aliás, protagonistas desejados para este filme na altura em que o filme que protagonizaram foi realizado - iniciando desde já por uma Paris enquanto o centro de toda uma acção e que é, claramente, um elemento sombra de toda uma narrativa levando o espectador a uma viagem pelas ruas não tradicionais das histórias da cidade luz, mas mantendo-a viva no subconsciente do espectador. De seguida, existem o claro triângulo amoroso. Ainda que em Irréversible este não tenha tomado as proporções de Love onde a personagem interpretada por Klara Kristin acaba por se transformar no elemento assumido de uma relação a dois em contraposição a "Pierre" de Albert Dupontel em Irréversible que acaba por viver desde o primeiro instante um amor platónico mas, em ambas as obras, é sentida a presença de um trio sentimental que acaba por servir de motor para a espiral de decadência sentimental e humana que os protagonistas fazem sentir.
Um outro elemento que é evidente em ambas as obras é a transformação de uma relação aparentemente saudável quer a nível sentimental quer sexual que lentamente se degrada para um estado de dependência e degradação que não parece ter um final em vista. Ainda que a maternidade esteja aqui como um pano de fundo - tanto em Bellucci como em Kristin -, a realidade é que cedo se percebe que nem esta é a salvação para os dias futuros, e se Irréversible é contado do fim para o início como que uma representação da consequência tendo como pano de fundo os actos que o originaram, Love apresenta-se como a consequência vista da consequência, ou seja, o espectador observa o final de uma história conturbada, revisita todos os momentos que os levaram até lá para terminar com um novo olhar ao futuro - não menos conturbado. Se a isto juntarmos uma certa estética como a cor vermelha sempre presente, os clubes de sexo - homo e heterossexual - o exibicionismo e o sexo livre de preconceitos em qualquer lugar ou situação, então poderemos facilmente estabelecer uma relação entre as duas obras.
Quase como um obra - ou universo - paralela, Love tem ainda uma certa conotação auto-biográfica presente na sua narrativa. Em pequenos momentos - ou elementos - o espectador pode reter informação como, por exemplo, o filho de "Murphy" e "Omi" charmar-se "Gaspar" (Noé) ou a galeria em que "Electra" trabalha ser a NIAG - Noe International Art Gallery, sem esquecer as inúmeras referências cinematográficas presentes ao longo desta longa-metragem como, por exemplo, Salò (1975), de Pier Paolo Pasolini ou Flesh for Frankenstein (1973), de Paul Morrissey e Antonio Margheriti que muito contribuem para uma determinada estética sexual e decadente da obra de Gaspar Noé de uma forma geral ou até mesmo a referência de "Murphy" sobre a sua obra - futura - que deverá ser marcada por "sangue, esperma e lágrimas", elementos sempre presentes em qualquer dos filmes de Noé e que fazem desta personagem um certo alter-ego do realizador.
No entanto, aqueles que são para mim os dois elementos mais marcantes de Love passam quase despercebidos ou alvo de uma atenção menor - pela câmara - como que secundários para toda a trama; o primeiro acaba por ser quase involuntário e estabelece-se na relação entre palavras tanto de "Murphy" como de "Electra". Ele, após receber telefonema sobre o seu desaparecimento refere-se à sua casa como que tendo tantas memórias e falta de privacidade... a mesma memória - lembranças - que em flashback "Electra" refere como "mortas após a morte física" e, finalmente, aquele que se une a este pensamento como sendo o principal mote de toda esta história quando observamos que dentro do quarto do casal se encontra um molde de um prédio - o mesmo em que eles vivem (?) - com um inesperado nome... Love. Não só estabelece uma imediata relação com este filme como principalmente estabelece aquele espaço - casa - como o único onde realmente foram felizes... "Murphy" com "Electra" ou "Omi".
Não sendo a obra maior de Gaspar Noé nem a mais violenta - Irréversible ainda não foi destronado - Love é seguramente a sexualmente mais explícita e onde a relação do casal protagonista é levado aos limites de uma decadência quase desumana e instintivamente animalesca que em vez de os satisfazer funciona como uma droga que gera dependência e uma constante decadência física e psicológica dos seus protagonistas que, aos poucos, se tornam igualmente dependentes de estupefacientes. Intensa pelo retrato de "amor" - de uma forma dependente - que filma e que retrata, Love não consegue, no entanto, ser o esperado filme choque que foi Irréversible nos seus dias mantendo-se, no entanto, como uma interessante obra sobre como esse mesmo amor consegue, para além da dependência, criar uma intensa espiral de degradação humana.
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"Murphy: Do you know what my biggest dream in life is? My biggest dream is to make a movie that truly depicts sentimental sexuality."
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7 / 10
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