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sábado, 29 de maio de 2021

Legacy (2021)

Legacy de Igor Ferreira e André Renato (Portugal) é uma das curtas-metragens presentes na secção Filme de Leiria da oitava edição do Leiria Film Fest a decorrer na cidade.
Uma reflexão sobre o tempo ou, melhor, sobre a crueldade do tempo e dos seus efeitos no espaço, na memória, nos actos, nas pessoas e sobretudo no tal "legado" que este deixa para a posteridade.
Conscientes da passagem do tempo, ainda que tantas vezes está o público abstraído na sala de cinema para que ele, "lá fora", continua a passar sem ser "contado", esta curta-metragem exibe através de uma animação semi-rudimentar, também ela, é um legado dos idos tempos de uma computorização mais "amadora", traços de um passado inconstante e violento cujas marcas perduram até ao momento que atravessamos. De Impérios caídos a batalhas sangrentas, da queima da memória impressa como tentativa de apagar um passado sombrio e do qual não se pretendiam nem provas nem marcas da diferença que se tentaram obliterar, este breve filme curto apresenta um conjunto de premissas interessantes sobre o dito tempo mas que, no entanto, permanecem nessa tentativa de expor o passado sem que dele se denote uma real vontade de o caracterizar. Percebemos que existe uma vontade de condenação e que nada dos ditos radicalismos sobrevive, afinal... tudo e todos regressa ao pó de onde veio, mas não se compreende a execução do que vemos com aquilo que nos chega em voz-off como uma locução primária desse tempo que tudo destrói. Ou talvez não...
Pertinente pela sua vontade de revelar o tempo como a maior máquina de destruição de todos os tempos, ainda mais cruel do que a própria acção do Homem e quiçá da própria Natureza, mas não chega a ser aquele filme que poderia ser se a sua execução tivesse sido mais cuidada, elaborada ou mesmo melhor enquadrada deixando argumento e imagem numa nem sempre coerente junção.
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4 / 10

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sexta-feira, 29 de maio de 2020

The Light Side (2020)

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The Light Side de Ryan Ebner (EUA) é uma das curtas-metragens de ficção exibidas neste dia no decorrer no WAO:GFF - We Are One: A Global Film Festival e que revela a história de Sith (Joseph Ragno) um homem solitário e marginal que esconde uma vida e um passado intrigante à procura de um novo rumo e começo.
Ryan Ebner apresenta uma história cativante que se revela aos poucos. Aqui, desde o começo, deixamo-nos levar por um conto sobre a vida de um homem que, como tantos outros, se encontra num impasse sobre aquilo que teve e foi em comparação ao que tem ou poderá vir a ser. Uma história sobre redenção com um passado ou até, melhor dito, um relato sobre o que se deixou ou perdeu e a forma como esse legado nos atormenta num chamado presente que em tudo se alterou. Vários são os momentos em que acompanhamos "Sith" e compreendemos que existe uma certa amargura para esse passado vivido ao ponto do mesmo sentir saudades do que teve.
Toda a vida deste homem aparente ser um reflexo da marginalidade e da inadaptação a uma vida diferente. Não necessariamente melhor do que havia tido, pelo menos nenhum dos seus comportamentos o revela (antes pelo contrário), mas aqui observamos a sua vida como sendo um regresso a uma "normalidade" à qual se custa adaptar. Lentamente compreendemos que esse passado foi ilustre (dentro da sua área) e, aos poucos, o espectador começa a ter breves indícios - talvez só compreendidos no final desta curta-metragem - que nos indicam sobre aquilo que foi a sua vida passada. Encontra um trabalho e, no geral, a sua vida não difere muito daquilo que um homem da sua idade pode(rá) fazer até entendermos qual a sua verdadeira idade. Ele não é um homem qualquer. Nem tão pouco a sua vida o foi. Mas compreendemos que reconhece que o seu passado está repleto de actos maldosos que prejudicaram não só os que o rodeavam como sobretudo a sua capacidade (no hoje) de ser um homem dito "normal".
A inteligência desta curta-metragem e da abordagem que é dada à personagem interpretada por Joseph Ragno é apenas interrompida pela breve duração de um filme que poderia ter ido muito mais além entregando - ao espectador e a toda uma rede de fãs -, o conhecimento da vida do mesmo e a equação do "e o que seria se?..." aqui possível. Quão possível seria a alguém com um passado onde tudo foi feito e visto, adaptar-se a uma vida dita normal, com um trabalho mais ou menos comum e uma vida onde todas as suas experiências são idênticas às de outros homens que, como ele, agora cruzam as ruas de uma qualquer cidade perdida no planeta? O que o distingue de todos os outros? O que o faz diferente e especial numa sociedade onde todos se normalizam? Irá ele alguma vez adaptar-se a esta sua nova realidade? Talvez não. O passado e aquilo que fez, viu e experimentou são impactantes demais para se limitar (agora) ao banal. É quando o espectador realmente compreende quem é aquele homem misterioso que se abrem todas as possibilidades que a imaginação permite e que o mesmo deseja que tivessem dado origem a um filme bem mais extenso para compreender o outro lado da realidade desta história imaginada. E aqui... só os verdadeiros fãs irão compreender.
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7 / 10
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domingo, 15 de março de 2020

Loop (2019)

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Loop de Ricardo M. Leite (Portugal) é uma das curtas-metragens candidatas ao Prémio Sophia Estudante na categoria da Ficção transportando o espectador para um cenário futurista.
No ano 2113, a Humanidade está no limiar da extinção devido ao avanço da tecnologia. Raquel (Joana Africano) procura uma solução recorrendo à inteligência artificial.
Esta curta-metragem concentra nos seus breves minutos todo um imaginário e um universo que, ainda que aparentemente distante ou mesmo distópico, centra alguns dos temores da sociedade actual tal como a conhecemos. Da crise económica e o seu consequente desemprego e a forma como afecta todo um estilo de vida de um dado momento no tempo ao conhecimento como uma propriedade privada de entidades cujo único propósito terreno é a manutenção da diferenciação de classes e, como tal, de um estatuto que não querer perder. No entanto, é toda uma questão sobre a preservação humana, da sua existência física à marca de uma inteligência individual que marcam o ponto mais fascinante desta curta-metragem já de si esteticamente muito interessante mantendo um constante apelativo lado visual que a colocam numa atmosfera futurista - mesmo que já anunciada - e que cativam pela descoberta do "como será?!".
Num mundo em que a existência física não é tão segura ou garantida como o conhecimento que cada um pode adquirir durante a mesma, a grande questão levantada por este "big brother" que todos observa e que é, no fundo, presente a qualquer era ou momento prende-se com o eterno dilema de que o poder, o verdadeiro poder, existe para aqueles que têm na mão... esse mesmo conhecimento. Conhecer é poder... pensamento que nunca terá deixado de ser presente... e real.
Com um dinâmico olhar que a direcção de fotografia de Dulce Ribeiro capta na excelência transformando toda a atmosfera num dos elementos mais apelativos desta curta-metragem e um dos mais reconhecíveis da obra que facilmente capta a atenção e interesse do espectador, Loop deixa todo um mundo de perspectivas e questões em aberto ao ponto de ser questionável se esta obra não se poderia desenvolver para um trabalho mais longo mantendo, ao mesmo tempo, toda esta dinâmica "futurista" (e não só...).
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6 / 10
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Lázaro (2019)

Lázaro de David Cruces, Alba Dominguez e Concha Silveira (Portugal) é uma curta-metragem experimental que centra o espectador no imaginário de um espaço onde todo um conjunto de múltiplas funções convergem. A morte, a vida e o tempo são noções e momentos que ali se concentram como se de um arquivo se tratasse.
Ainda que tentada uma certa mensagem filosófica que una a figura bíblica à noção devida e morte aqui representada pelos animais (embalsamados) que deambulam pelos instantes desta curta-metragem, a realidade é que este Lázaro se perde com a própria "experimentação" a que a própria obra se propôs.
Com uma mensagem subliminar sobre a representação que todos os seres vivos têm (para o futuro), num presente onde podem em boa medida ser apenas "mais um", todos se perdem quando a morte - destino certo para todos os seres vivos - "bate à porta" mantendo-se esta como o eterno tabu, de e sobre o qual, todos se esquivam sobre a sua presença e realidade anulando assim a sua desmistificação perpetuando num ciclo vicioso o mistério que lhe está associado. Como uma dica ao conto bíblico, uma vez mais, este filme termina com uma despedida do espírito que nunca morre... ressuscita e renova-se a cada nova etapa permanecendo alegoricamente como uma eternidade para um futuro que é, a cada etapa, incerto e, também ele, experimental.
Perdido num certo misticismo e na alegoria bíblica, este Lázaro acaba por ser mais uma experimentação fílmica de técnicas, de luzes e de enquadramentos do que propriamente uma obra com um propósito narrativo coerente libertando-se da sua auto-avaliação e deixando para o espectador todo um julgamento livre e incerto. Enquanto objecto de estudo (para quem o construiu) poderá ser uma obra relevante e de aprendizagem... para o público, será provavelmente uma obra que se esgota nos seus primeiros instantes e que certamente terá uma dificuldade em permanecer e tornar-se duradoura.
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2 / 10
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sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Lo Dejo Cuando Quiera (2019)

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É Só Querer de Carlos Therón (Espanha) é o remake de Smetto Quando Voglio (2014), de Sydney Sibilia naquela que parece transformar-se numa tendência espanhola de adaptar ao seu cinema alguns dos mais recentes êxitos de comédia transalpinos como o já verificado com Perfectos Desconocidos (2017), de Álex de la Iglésia.
Pedro (David Verdaguer), Arturo (Ernesto Sevilla) e Eligio (Carlos Santos) eram um exemplo enquanto estudantes. Dez anos passados, todos eles vivem na primeira pessoa os problemas da dita "vida adulta"... Da solidão à separação, da incapacidade de ter um trabalho aos quarenta anos que estão cada vez mais perto, todos eles esperam algo mais da vida... Algo mais que tarda... até ao dia em que Pedro faz uma descoberta que irá revolucionar a vida de todos.
Existe toda uma geração que poderá, em certa medida, identificar-se com as personagens retratadas em Lo Dejo Cuando Quiera... toda aquela geração que já passou os trinta e que dedicou uma vida ao saber e àquilo que as promessa de uma vida "universitária" lhe garantiram encontram nesta longa-metragem um certo irónico paralelismo que os faz recordar "aquilo fui e sou eu". A garantia de uma vida melhor, a certeza de um futuro profissional mais risonho e que poderia conferir um nível de vida diferente daquele que os pais haviam proporcionado encontra nas rápidas e constantes transformações deste já não tão novo século uma paródia ao estilo de vida que, talvez, agora tenham. Nem tudo foram rosas ou tão pouco promessas garantidas... Nem todos os trabalhos e percursos profissionais corresponderam àquilo que se desejou e, de certa forma, as esperadas vidas familiares com os "amores de sempre" também encontram um rápido término quando a tal "promessa! não foi cumprida. As férias, os bens materiais e até mesmo a casa de sonho não cumprido deram lugar à certeza de que "isto" (seja lá o que fôr) não poderá ser melhor... por muito mau que seja.
Mas, nem tudo poderia terminar neste desencanto alucinante. As esperanças, ou melhor, as oportunidades iriam, afinal, aparecer... mas não sob a forma esperada ou mais lícita. O estudo, as invenções e o conhecimento de "Pedro" iriam, afinal, possibilitar-lhe a tal "oportunidade"... ainda que no seu todo esteja a jogar bem longe da sua área de conforto. Mas, a pergunta final, que interessa essa área de conforto se, até ao momento, não lhes possibilitou a concretização de sonhos, de vontades ou, afinal, da tal vida de sonho pela qual tanto lutaram enquanto estudantes exemplares? Do sonho à realidade perderam a vida ou, pelo menos, aquilo que de melhor ela parecia querer entregar-lhes...
Lo Dejo Cuando Quiera é uma comédia simpática e divertida que constrói um conjunto de personagens que se enquadram de forma perfeita no género... o trio protagonista que se conhece desde muito jovens, os conflitos existenciais que todos vivem, as sedutoras fatais e os criminosos com dotes para a comédia e boa disposição transformando os seus noventa minutos numa experiência agradável mas, ao mesmo tempo, vive no assombro de ser uma fórmula já conhecida e tacitamente replicada quando o espectador se recorda da original italiana que, na realidade, não tem tantos anos que a fizesse ser esquecida, e ainda que o trio Verdaguer, Sevilla e Santos desenvolva uma dinâmica comum interessante e se "construa" para lá do trio por si, não deixa de ser verdadeiro que são alguns dos secundários aqueles que melhor conseguem criar empatia com a câmara e, dessa forma, com o público. Exemplo disso está a magnética interpretação de Ernesto Alterio que com o seu "Tacho" não só se estabelece com um dos mais dinâmicos elementos de comédia desta história como sobretudo aquele pelo qual o espectador espera ver mais tempo na câmara. Cómico, transgressor, provocador e ao mesmo tempo a dose perfeita enquanto vilão de serviço, Alterio é, sem margem para dúvidas, a personagem que permanece mais tempo na memória e com a simpatia do espectador.
Para uma sessão ligeira de cinema, Lo Dejo Cuando Quiera cumpre a sua missão. Ainda que com um fundo com o qual muitos de nós se possam identificar - tráfico de droga à parte -, é a esperada (mas previsível) comédia que se destaca através de alguns momentos musicais mais "alternativos". No geral os actores não brilham nem constroem personagens memoráveis (excepção de Alterio já confirmada), a história no seu todo não é original e a comédia espanhola já deu provas de mais e muito melhor mas, ainda assim, esta longa-metragem de Therón consegue cumprir a sua missão de fazer o espectador libertar a sua mente de grandes preocupações e não ir à sala de cinema pensar mas sim descontrair com uma história centrada em grandes problemas mas que se permite não se deixar focar neles. Afinal, há que aproveitar a vida... ou pelo menos algumas das oportunidades que esta nos concede.
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6 / 10
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quarta-feira, 1 de maio de 2019

LGTBI... H (2019)

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LGTBI... H de Francisco Javier Gutiérrez (Espanha) é uma das curtas-metragens presentes na secção One Sequence Shot da décima edição do FICPI - Festival Internacional de Cine de Piélagos que decorre na Cantábria, em Espanha desde o passado dia 26 de Abril.
Carlos decidiu dar um grande passo na sua vida e, na companhia de Juan, espera pelos seus pais para dar a grande novidade. Conseguirão eles aceitar tudo aquilo que Carlos tem para lhes contar?!
Num mundo em que tudo e todos estamos sujeitos a normalização da sigla que tudo define, a curta-metragem de Francisco Javier Gutiérrez começa por apresentar todo um conjunto de pressupostos já conhecidos do espectador mas que, ao mesmo tempo, entra por um caminho perigosamente irónico que nos tempos do dito "politicamente correcto" pode apresentar uma vertente pouco apropriada daquela que é a realidade das minorias que tanto (ainda) batalham pelo seu devido respeito e dignidade.
Esta curta-metragem apresenta o par de amigos como um potencial casal que tarde se desmistifica como apenas... dois amigos. Mas se "Juan" é o amigo homossexual, é "Carlos" que de repente se subentende como o heterossexual aqui algo descriminado numa realidade familiar que o coloca como filho... de dois homens. Num LGTBI... H onde o "h" é agora compreendido como representativo de uma sigla que todos tenta englobar, o espectador questiona-se então sobre a legitimidade desta singela letra num universo onde não é conhecida a (sua) descriminação.
Num lado inovador, e até mesmo interessante pela normalização daquelas que são questionadas como as minorias, LGTBI... H revela dois pais homossexuais que lidam com um filho jovem adulto e com a sua sexualidade "diferente". Se por um lado o espectador recebe esta nova realidade com alguma normalidade não deixa, ao mesmo tempo, de ser preocupante a forma como estes pais encaram a sexualidade do filho - livre de qualquer descriminação na sociedade em que vivemos - como algo preocupante para o mesmo como se em alguma época da História esta tivesse sido alvo de perseguição. Assim, e num mundo - seja ele qual fôr - em que as figuras parentais se preocupam com a felicidade da prole, esta curta-metragem parece querer normalizar a perseguição e o factor "minoria" àqueles que... nunca o foram... conferindo a toda a dinâmica desta curta-metragem uma realidade desconhecida como se quem nunca sofreu descriminação pudesse encarar a sua realidade com a daqueles que... sempre o foram.
Assim, e ainda que tentada a normalização pela igualdade... as realidades são francamente bem distintas colocando toda esta obra num limbo não só preocupante como até relativamente perigoso pela mensagem que pode - em diversos momentos - não ser bem compreendida, mesmo com as interpretações descontraídas dos seus actores ou (eventualmente) pelo objectivo do realizador (?) em tranquilizar o seu público afirmando que todos somos iguais independentemente do género ou sexualidade... mas, conhecendo bem o espectador a sociedade em que vive... será que essa mensagem passa tranquilamente... ou o "h" num universo que passou pelas amarguras da descriminação não estará... "a mais"?
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4 / 10
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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Letters from Childhood (2018)

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Letters from Childhood de José Magro (Portugal) é a primeira das curtas-metragens da selecção oficial da XXIVª edição dos Caminhos do Cinema Português a decorrer no Teatro Académico Gil Vicente, em Cimbra dedicada à temática LGBT.
Esta é a história de duas amigas, Kate (Ana Príncipe) e Sarah (Erica Chapim), contada através de algumas das cartas que trocaram ao longo dos anos... Cartas que expõem a cumplicidade de um grande amor.
A beleza, mas também a imediata frustração, que esta brevíssima curta-metragem apresenta - ronda os três minutos de duração -, é o facto de conseguir agarrar o espectador às dinâmicas imagens que apresenta da relação de amizade, de cumplicidade e de amor entre as duas jovens e, ao mesmo tempo, terminar toda esta dramatização antes que o espectador esteja preparado para tal. Não... não é justo. Imaginemos La Vie d'Adèle - Chapitres 1 et 2, de Abdellatif Kechiche não em três horas... mas nesses referidos três minutos! Impossível.
As imagens e os momentos expostos, normalmente numa sequência que apenas versa os recantos escondidos da memória, levam o espectador a essa breve viagem a ocasionais partilhas de cumplicidades e actividades em que ambas estiveram. No fundo, assistimos à construção da sua memória, do que foi feito e principalmente do que ficou por dizer. Cúmplices, apaixonadas, umas vezes confessas e outras vividas no silêncio de um olhar, o espectador conhece não só a amizade como momentos de uma paixão tórrida típica de adolescentes e jovens adultas e, quando se deixa levar por aquela que pode ser uma moderna história de amor... as imagens terminam subitamente não nos permitindo obter nada mais da relação, passada e futura, destas jovens que agora entendemos como distantes no espaço.
Com a brevidade de uma carta que nunca foi escrita... ou daquelas que se escreveram tantas e tantas vezes e cuja mensagem foi mil vezes sabida, Letters from Childhood é seguramente um daqueles filmes curtos que não o deveriam ser tendo todo um mundo de possibilidades e portas abertas que facilmente o fariam cumprir-se como um dos grandes filmes portugueses do momento.
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5 / 10
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quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Lovers on Borders (2018)

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Lovers on Borders de Atsushi Funahashi (Portugal/Japão) é uma das longas-metragens oficiais em competição no Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra no Teatro Académico Gil Vicente.
Lisboa 1757. Dois anos após o terramoto que devastou a cidade, Gaspar de Carvalho (António Durães) regressa da Ásia para recuperar a casa de família. Consigo trás os escravos japoneses e africanos que havia trocado por pólvora. Na sua propriedade, Mariana (Ana Moreira) é uma nova empregada por quem se apaixona. Mas, no coração de Mariana palpita um sentimento por Shiro (Yûta Nakano), um desses escravos.
Em 2021, dez anos depois do acidente de Fukushima a história repete-se mas, desta vez, Mariana vive uma arrebatadora história de amor que apenas a tragédia da crise poderá impedir de se concretizar.
Portugal e Japão com uma história que os une ao longo dos séculos é o ponto de partida para um argumento escrito pelo próprio realizador e dividido em dois segmentos, que remete o espectador primeiro para um Portugal destruído pela crise - geológica, cultural, económica e social - como consequência do maior evento natural da sua História e, de seguida, para uma semelhança histórica que faz também do Japão um país numa semelhante crise económica incapaz de recuperar onde uma improvável história de amor tenta resistir às agruras de um fim (ou início) anunciado. Como todas as tragédias, também estas são o motor não só para a recuperação e transformação de um todo como principalmente das pequenas experiências pessoais que surgem e brotam no meio de toda uma tragédia.
Se no primeiro momento é a relação de um amor improvável que surge entre uma humilde criada portuguesa (Moreira) e um escravo japonês (Nakano), a mesma surge num Japão do século XXI que se tenta afirmar e recuperar de um desastre sismológico, onde as transformações económicas do mesmo decorrentes tentam adiar, lançando na incerteza vidas que com sonhos e esperanças tentam a diferença e um qualquer sucesso enraízado nos costumes e nas tradições que caracterizam países distantes geograficamente mas próximas pela História e pelas circunstâncias que a desgraça os marcou.
Mas, se o amor é a marca que tenta afirmar-se nos dois referidos momentos, é também a violência do poder económico - física e social - sobre os mais desprotegidos que ganha contornos protagonistas ao lançar não só as referidas personagens como as suas histórias num ambíguo fim que os impede de uma progressão emocional firme entre si e para com o meio em que se inserem, transformando-os em pequenos redutos de incerteza principalmente a propósito dos seus próprios sentimentos (ou da construção dos mesmos) e finalmente na sua proximidade que surge como resultado de relações adversas que primeiro se instalam pelo ódio e, finalmente, pela compreensão de que a sua própria sobrevivência surge pelo afecto criado e originário dessa manifestação de repulsa mútua. Na sua essência, a grande questão que é aqui levantada prende-se com a compreensão de que no fim, as relações que surgem são, na sua maioria, resultado de ódios, solidões e perdas que se manifestaram em cada uma das personagens. Nenhuma delas, independentemente de como se encontram no momento "presente", foi fruto de um sentimento espontâneo e natural mas sim de um conjunto de acções negativas que, no final, despoletou um entendimento de que a mesma seria a última oportunidade para todos eles.
E, como todas as histórias de amor, também em Lovers on Borders surge a morte como uma das suas protagonistas. Primeiro decorrente dos eventos naturais que assolaram os dois países e que os marcaram de forma determinante transformando-os não só em termos populacionais como mantendo reféns de políticas económicas centradas na rigidez e na pressão entre entidades patronais e força de trabalho... se no caso português este deu origem à presença de escravatura - ilegal - no país/metrópole, no exemplo japonês originou toda uma política de contenção de custos como forma de fazer sobreviver as empresas imersas numa crise económica da qual o país parece não conseguir sair. Morte essa que se manifesta depois nos sonhos, esperanças e expectativas de progressão pessoal e profissional daqueles que tentam sobreviver... num contexto a um nível pessoal onde um amor considerado proibido dá os primeiros passos entre os dois protagonistas... no último na forma como o sonho é eliminado pela força dessa dita crise e da contenção económica que todos impossibilita de olhar para o "dia de amanhã" com a esperança que lhe seria natural.
Mas não são só as crises que Lovers on Borders aborda. Pelo menos não só aquelas de conteúdo económico e podemos observá-lo nos dois momentos em que se divide esta história quando num Portugal do século XVIII existe a consciencialização de raça e classe deixando para as camadas mais desprotegidas e desfavorecidas não só aqueles que chegam dos vários pontos do Império, de um estrangeiro desconhecido - o Japão - mas também de dentro do país de onde surgem as vítimas do pós-terramoto e, num Japão do século XXI onde os ditos "mestiços" fruto das relações nipo-brasileiras são aqueles que mais facilmente encontram não só a xenofobia como a ostracização de todas as relações, principalmente as laborais, mas também sociais e até afectivas mantendo-se no limbo da dita "vida normal". No seio de todo um universo onde reina a crise, a questão que permanece é sobre os seus limites - se é que alguns - e principalmente sobre como esta afecta aqueles que dela sobrevivem... em última instância.
Num ambiente centrado nas relações amorosas, nos eventos naturais e na forma como os indivíduos se aproximam independentemente das suas origens ou classes, Lovers on Borders acaba por fazer justiça a um título que remete o espectador para a consciencialização de que o amor (este pelo menos) se encontra num inesperado limbo que parece nunca querer ser concretizado mantendo os seus protagonistas num compasso de espera, compreendendo a sua situação mas nunca se querendo comprometer com a inevitabilidade de um distanciamento... ali mesmo ao lado.
Original pela forma como se expõe uma mesma história em contextos semelhantes mas distanciados pelas culturas e pelos séculos, Lovers on Borders destaca-se pela interessante execução principalmente da realidade histórica portuguesa ao recriar todo um elaborado cenário de época - arte, guarda-roupa e caracterização no seu melhor -, e que poderia por si só ter feito surgir um brilhante filme de época com a particularidade de ser escrito e filmado por alguém "distante" da realidade e do contexto histórico português de então, mas que transforma todo o ambiente e atmosfera da sua história num peculiar e cativante momento de cinema do qual o espectador fica com a vontade de ver - e ter - mais. Curioso ainda pela forma como faz, séculos depois, chegar a alma portuguesa ao outro lado do mundo, num já não tão vibrante Japão afectado por uma crise de uma década mas, ainda assim, manter vivo um espírito saudosista e nostálgico muito característico da realidade e do universo português fazendo destacar a dupla de actores japoneses aqui presentes, um vibrante António Durães como o mal amado nobre português e os dois distintos, embora semelhantes, registos de Ana Moreira sempre capaz de afirmar como o centro de uma história que é, no fundo, intemporal... tal como o amor.
Assim, Lovers on Borders é capaz de se afirmar além fronteiras... longe de quaisquer barreiras ou linhas geográficas imaginadas... tal como o amor no qual se baseia todo o relato de um conto histórico... e sobre a História.
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7 / 10
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quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Leviano (2017)

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Leviano de Justin Amorim (Portugal) é a longa-metragem que encerrou o dia dos Caminhos do Cinema Português que terminam já no próximo Sábado no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra.
Chegou a entrevista mais esperada do ano em que Anita Paixão (Anabela Teixeira) e as suas filhas Adelaide (Diana Marquês Guerra), Carolina (Alba Baptista) e Júlia (Mikaela Lupu) terão finalmente de revelar os acontecimentos por detrás dos crimes cometidos tempos antes.
A primeira longa-metragem do realizador luso-canadiano não poderia estar repleta de mais brilho; uma família da classe média alta - as "Paixão" - num mundo pleno de dias de Verão, colégios privados, aulas de ténis, festas e onde tudo acontece, tudo é permitido e, no fundo, onde tudo é possível no Algarve de Vilamoura. Mas, como por detrás de todo o brilho em excesso, existe uma origem negra, não tão perfeita e onde segredos inconfessáveis se escondem com a máscara dessa beleza, em Leviano estas personagens também não são tão puras como querem aparentar ser.
O argumento de Justin Amorim parece claro desde os primeiros instantes quando apresenta uma tumultuosa relação entre mãe e filhas, umas a quererem seguir um exemplo de moral e bons costumes que, no entanto, é subitamente interrompido pelo comportamento de outras das jovens irmãs que cedo também se revelam como levianas - outra palavra seria injusta -, mimadas e habituadas a um estilo de vida longe de uma qualquer normalidade familiar... existe sim um certo desdém para com tudo aquilo que, na verdade, todas elas querem... mas não conseguem ser... uma família. Nesta medida aquilo que aqui encontramos é uma imediata ruptura no clã atirando para a incerteza não só as jovens como a mãe que, percebemos desde cedo, está mais preocupada em celebrar os últimos cartuchos da sua já não existente juventude, a qual vive como se fosse... umas das reais jovens. Por outro lado encontramos as irmãs "Paixão" perdidas num abandono não anunciado por uma mãe que quer curtir a vida com o seu namorado - também ele mais jovem -, e que cruzam esse Algarve mais ou menos desconhecido onde reina a praia, a diversão e as noitadas de futebol, sexo, passagens de modelos e uma erotização precoce que... faz parte da dita "normalidade" transformando-as num certo mito de juventude perdida pois terão de encontrar o mundo real mais cedo do que o esperado e revelando um prenúncio de decadência por todo o lado em que passam.
Se esta problemática até poderia ser interessante na medida em que surge como uma análise de muitos comportamentos familiares actuais - não o vamos esconder -, a realidade é que Leviano exibe uma certa aura de Xavier Dolan mas com menos inovação ou dramatização pop que tanto caracterização a obra do realizador canadiano. As influências em Leviano são claras... a constante e sempre intensa música adaptada a momentos tidos como ícones da longa-metragem, a roupa como uma característica de "marca" e sempre algo que acaba por esvoaçar ao vento como que uma libertação do passado, as personagens que se desejam mas que não podem, conseguem ou querem terminar juntas e, finalmente, a eterna personagem LGBT que surge como um comparsa de peso numa história que não se compreende se quer de facto ser original ou se pretende ser uma inovação de luxo no panorama nacional mas seguindo exemplos já garantidos de um cinema de sucesso que também aqui poderia funcionar... se se assumisse desde o primeiro instante como algo que é... de facto... original!
Assim, longe de ser portador de uma total originalidade - é certo que existe a conflituosa relação das mais jovens da família com o mundo ao seu redor que usam e dele abusam para seu imediato prazer - ou mesmo o elemento crime que aqui surge como algo diferente da referida obra do realizador canadiano, Leviano não se destaca por uma total inovação no género não deixando, no entanto, de ser uma simpática obra ligeira, estival até, capaz de atrair um público mais jovem ao cinema muito também graças a toda uma nova geração de actores e actrizes conhecidas dos mesmos e capta alguns momentos e sequências bem passadas onde se recupera também algum do imaginário dos '80's nacional que tanta nostalgia provoca a uma geração parental... eventualmente mais perdida ou saudosista desses seus idos anos mais jovens.
Para além do óbvio destaque de uma sempre inspirada Anabela Teixeira como a mãe fútil que quer viver e gozar a sua vida, é a presença de Diana Marquês Guerra e Alba Baptista que se destacam nesta longa-metragem... A primeira como o rosto protagonista de uma história na qual se encaixa na perfeição e a segunda como a confirmação absoluta de uma jovem grande actriz que certamente nos irá garantir (mais) intensos desempenhos num futuro próximo. E se encontramos aqui secundários de peso como o são José Fidalgo - também concentrado em seduzir alguém mais novo como garante da sua eterna juventude... um pouco ao estilo de Dorian Gray - ou Pedro Barroso numa breve mas intensa interpretação, são pequenos apontamentos técnicos como a direcção artística ou a inspirada direcção de fotografia de Edward Herrera que capta as cores de um Algarve estival que transformam Leviano numa longa-metragem a observar com atenção e que deixam a compreensão de que o seu conteúdo poderia ter ido um pouco mais longe do que aquilo que acabou por ser.
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6 / 10
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sábado, 28 de julho de 2018

The Last of Us: Firefly Chronicles (2013)

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The Last of Us: Firefly Chronicles de Eric Dubois (Canadá) é uma breve curta-metragem inspirada em várias das grandes produções do momento... da The Hunger Games a qualquer obra de zombies, vírus e sobrevivência, aqui o espectador encontra um pouco de tudo.
Num universo futurista e onde a existência já não é como a conhecemos, Charlie (Stephen Baxter) sobrevive como pode até se cruzar com Ezra (Eem Nyamadi), outro jovem em busca de uma companheira de viagem, com quem estabelece uma imediata relação em prol da sua sobrevivência. Num mundo devastado... até onde se justifica a solidão?
Sem um final planeado para lá daquele esperado numa curta-metragem que prevê a sua auto-sobrevivência através do imediatismo das suas sequelas, The Last of Us: Firefly Chronicles assume-se sobretudo como uma homenagem do seu realizador fiel fã do género de história onde o "e depois?" é a pergunta presente na mente do espectador. E depois do fim? E depois da solidão? E depois da morte do próprio mundo? E depois da civilização?
As perguntas que se amontoam - para a história e para o espectador -, ganham aqui uma dimensão exponencial na medida em que tudo é possível para a continuação de uma história que apenas prevê o mútuo respeito entre duas personagens que devem ao acaso o seu encontro, e que no potencial término da vida de um deles se equaciona o quanto ainda existia por ver e viver num mundo onde a palavra vida tem a sua própria e limitada conotação. Quem serão eles (personagens) quando a esperança surge onde tudo o demais parece ter encontrado o seu fim?!
Num registo que se compreende de inspiração e homenagem ao género, The Last of Us: Firefly Chronicles potencializa toda as eventuais sequelas que se lhe esperam mas, ao mesmo tempo, deixa o espectador com a compreensão de que esta história poderia ter encontrado um "final" (ainda que limitado) ou a garantia de que estas personagens tentariam encontrar um potencial destino juntos... e não conferindo a uma delas um fim esperado e marcado pela tragédia.
Simpático nas suas intenções e algo deficitário na sua execução, The Last of Us: Firefly Chronicles não deixa, no entanto, de ser um bom trabalho de preparação para uma futura obra mais abrangente e cuidada onde não sejam deixadas pontas soltas, personagens por equilibrar ou destinos por consumar... no fundo, tal como muitos insectos, é uma obra em eventual metamorfose e transformação.
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quarta-feira, 13 de junho de 2018

Lupo (2018)

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Lupo de Pedro Lino (Portugal) é um documentário presente na competição pelo Lince de Ouro no FEST - New Directors New Films Festival a decorrer em Espinho a partir da próxima semana.
Quem foi Rino Lupo? Para onde foi? Qual a sua obra e o seu percurso cinematográfico? Numa obra que se estende por aproximadamente noventa minutos, Lupo centra-se num ensaio de factos verídicos e algumas suposições que permitem ao realizador, e para o espectador, tecer algumas considerações sobre o destino do realizador luso-italiano que deixou obra não só em Portugal como também em diversos países europeus como Itália, Rússia, Dinamarca, Polónia, Alemanha, França e Espanha.
Iniciando a sua dramatização em Fevereiro de 1884 aquando do nascimento de Cesare Augusto Lupo em Roma, sabemos que iniciou um breve percurso cinematográfico no seu país de nascimento antes de partir rumo à Alemanha onde desenvolveu a sua primeira longa-metragem baseada na amizade de dois soldados - um francês e um alemão - durante a Primeira Guerra Mundial. Com o eclodir da guerra parte para a Dinamarca e daqui para Moscovo onde permanece até aos primeiros instantes da Revolução Russa tendo abandonado o país devido à extrema pobreza sentida, facto que constatou também na Polónia para onde se dirigira onde escuta pela primeira vez comentários sobre os primeiros passos do cinema em Portugal.
Chegado ao Porto - cidade percursora do cinema no país - onde funda a Invicta Filmes, empresa capaz de competir com as suas congéneres europeias e a maior da Península Ibérica e com a qual produz Mulheres da Beira (1923), a história de "Ana" (Brunilde Júdice), uma mulher que se apaixona fora da sua condição social e que por um amor não correspondido acaba por se suicidar.
No mesmo ano, e agora produzido pela Iberia Film, chegam Os Lobos, a primeira obra conhecida do cinema português que pode ser considerada etnográfica tendo, no entanto, sido um desastre financeiro e público fazendo com que Lupo se dirija a Madrid onde realiza Carmiña, Flor de Galicia em 1926 que surge como uma réplica de Mulheres da Beira mas com um final feliz onde o amor vence.
Para sentir os efeitos dos "loucos anos 20", Lupo regressa a uma Lisboa povoada por uma faixa etária mais jovem boémia que "almoços tardios e espectáculos de travestis no Trindade, danças exóticas no Teatro Variedades no Parque Mayer e chá com cocaína no Bristol", na qual prepara a sua longa-metragem seguinte, O Diabo em Lisboa (1928) que lança uma então desconhecida Beatriz Costa.
Deste primeiro segmento em que conhecemos um pouco do percurso do realizador, Lupo lança-se numa inesperada odisseia ao retratar e revelar algumas das salas de cinema desaparecidas ou "recicladas" do norte do país bem como uma ainda mais surpreendente visita ao interior do Cinema Odeon, em Lisboa - do mesmo oferecida uma panorâmica como último segmento do documentário partindo depois para um exterior geral da capital -, onde o espectador conhece o trágico destino de algumas das salas esquecidas do país e que tanta luz, cor e vida tiveram noutros tempos. Eventualmente o segmento mais trágico - pela sua condição - como nostálgico de todo este documentário, Lupo oscila entre estes dois momentos em que primeiramente se expõe um dos impulsionadores dos primeiros momentos do cinema português e que realizou obras emblemáticas do mesmo como os já referidos Mulheres da Beira, Os Lobos, Fátima Milagrosa ou até mesmo José do Telhado (1929) a sua obra mais controversa amada pela público e injuriada pela crítica pouco receptiva à mesma, e finalmente este relato das salas agora abandonadas à sua sorte (essa sim francamente trágica) algumas por onde estas obras passaram e que agora se limitam a um silêncio ensurdecedor ou realização de eventos que nada dignificam as paredes das mesmas.
E enquanto se celebra a obra e a sua importância no panorama artístico nacional, fora esquecido o homem. Rino Lupo desaparecera misteriosamente do país - facto que leva a que um dos comentários iniciais aproxime o espectador de um documentário baseado em suposições e conjunturas -, para finalmente ser revelado que no início da década de '30 este já se encontrava na sua Roma natal onde conhecera a sua filha de um primeiro casamento, seguindo depois em 1932 para a UFA em Berlim e finalmente regressando a Roma - em data incerta - onde viria a falecer em Janeiro de '36.
Com alguma dessa suposição (da equipa do documentário), ilustrado com comentários e também descobertas de alguns dos seus netos e documentação dos locais por onde passou dos filmes que realizou e das suas breves interpretações cinematográficas, Lupo expõe o homem realizador como uma figura incontornável sim, mas ao mesmo tempo como um homem misterioso, de paixões mas secreto, contido e esquivo deixando uma marca por onde passa mas não um grande número de factos que o coloquem durante muito tempo no mesmo espaço. Inquieto e com uma enorme vontade de criar mas reticente na sua presença - de facto - pelos locais e até mesmo pelas pessoas. Rino Lupo era um homem de um tempo "mais à frente", que cativava e sabia lidar com um mundo em completa transformação mas que, infelizmente, desapareceu cedo demais.
Cativante, francamente instintivo e a funcionar como um objecto de homenagem ao cinema e ao homem no cinema, Lupo é um documentário fascinante pela perspectiva história - mais ou menos verídica... com momentos ficcionados para os quais o espectador é devidamente alertado -, e capaz de despertar o interesse para com a obra do realizador assim como para os inúmeros espaços de cinema que revelam o interesse do povo por uma cultura cinematográfica que pode(rá) estar adormecida mas com uma intensa vontade de despertar.
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7 / 10
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quarta-feira, 6 de junho de 2018

The Looking Planet (2014)

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The Looking Planet de Eric Law Anderson (EUA) é uma brilhante curta-metragem de animação sobre, no fundo, a criação do planeta Terra - e do Universo - tal como o conhecemos.
Lufo (voz de Samuel Hery), é um jovem idealista membro do Congresso Cósmico de Engenheiros. Os seus sonhos de auto-expressão artística dão-lhe o impulso e a iniciativa para se exprimir num Universo ainda por se definir. Poderá o seu amor pela criação fazer nascer um novo e admirável planeta?
O realizador e argumentista Eric Law Anderson cria uma das mais surpreendentes, apaixonadas e premiadas curtas-metragens dos últimos anos ao sintetizar nos seus quinze minutos todo um conto de iniciativa, paixão, independência, liberdade e expressão individual expectável naquele que o espectador pode considerar e achar de e sobre um bom filme. E é aqui que reside a tal magia que se espera de uma história onde a criação e a expressão de uma individualidade se querem fazer sentir. Desde cedo que o espectador se deixa levar pelos encantos do jovem "Lufo", um simpático e afável extra-terrestre (quando ainda nem existia esta designação pela ausência de noção de Terra) que deseja com todas as suas energias encontrar uma forma especial de fazer nascer o sonho da sua expressão... algo que o represente e, de certa forma, aquele que será o seu legado para um futuro ainda distante. "Lufo", sem conhecimento de causa daquilo que a sua criação poderia trazer ao mundo, é essencialmente o inesperado pai de todo um planeta que cria através da deslocação pontual e pertinente de outra planeta... a Lua. A influência que a sua expressão artística exerce sobre as potenciais formas de vida que aqui existiam - à altura - foi fundamental para toda uma manifestação de evolução para todos os séculos de mudança que estavam porvir. No entanto, não é esta evolução que está aqui em destaque mas sim a forma apaixonada com que o jovem "Lufo" se deixa levar quando tudo à sua volta - os seus superiores - parecem estar contra a sua vontade.
"Lufo" é a expressão animada de todos os grandes criadores que se deixam levar pelos seus sonhos e por uma extrema paixão para com a sua arte e que criam verdadeiras obras capazes de manifestar, após a sua concretização, todo um conjunto de pensamentos, correntes ou expressões artísticas que marcam os tempos futuros. Aqui, "Lufo" cria com a sua obra artística, o exemplo maior de manifestação de um tempo... Ao deslocar a Lua e com o exercício da influência desta sobre a Terra - como criador de um objecto de arte cujas consequências desconhecia -, este jovem deu forma à única forma de evolução que, a vida tal como a conhecemos, alguma vez conheceria. Enquanto criador de arte, não só manifesta com a sua obra toda a sua paixão como principalmente dá corpo a uma expressão individual e criativa que desafiou os seus limites ou, pelo menos, aqueles que lhe haviam sido impostos enquanto "jovem" criador.
Inesperadamente dramática e surpreendentemente emotiva pela forma como entrega ao espectador a paixão de um grande artista no corpo de "Lufo", The Looking Planet é uma das mais agradáveis e imaginativas curtas-metragens, reflexo de uma animação contemporânea onde os limites da informatização e dos efeitos especiais são inexistentes... tal como a obra de um grande criador.
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9 / 10
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domingo, 3 de junho de 2018

Love, Simon (2018)

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Com Amor, Simon de Greg Berlanti (EUA) é uma longa-metragem e possivelmente uma das primeiras comédias românticas de Verão a estrear, apresentando a história de Simon (Nick Robinson), um jovem adolescente que vê a sua homossexualidade exposta perante todos os seus colegas e amigos depois de uma breve relação online com outro colega da escola que desconhece.
Num momento determinante do seu desenvolvimento, Simon terá não só de se assumir perante a sua família e amigos como principalmente perante si próprio. Irá ele encontrar o amor verdadeiro?
Baseado no romance de Becky Albertalli, Elizabeth Berger e Isaac Aptaker escrevem o argumento de Love, Simon, uma comédia romântica que tem tudo de tradicional... menos o par protagonista. Ao contrário de todas as comédias adolescentes que estreiam nas salas de cinema onde os protagonistas são um casal do sexo oposto, esta longa-metragem não só prima pela diferença em apresentar no seu centro um jovem adolescente homossexual como principalmente privá-lo de um par... "Simon" é assim, o protagonista de uma história onde tudo o que o espectador vê se centra nos seus sentimentos, na sua descoberta, nos seus momentos e principalmente na sua evolução sentimental onde primeiro se compreende, depois se aceita e finalmente se assume ao mundo ao seu redor enquanto, pelo caminho, espera encontrar aquilo que possivelmente todos procuram... um verdadeiro amor (seja lá isso o que fôr em tão jovem idade).
Num mundo em constante mutação e no qual a aldeia global tudo e todos aproxima, a relação (ou potencial) que aqui se desenvolve inicia-se através de tantas nestes dias... online. Apenas chega um computador com ligação à "rede", para que tudo seja possível e aconteça. Mas, ao mesmo tempo que se esperam os efeitos positivos, é também uma realidade que tudo o que é de mau pode entrar pela porta... Mas, afastando os riscos da "rede" neste momento, concentre-se o espectador no potencial desta história que prima, de facto, pela diferença.
Longe de qualquer gratuitidade dos contos românticos e adolescentes de Verão, Love, Simon apresenta a história de um jovem que sente ter vivido tempo demais longe da sua própria felicidade onde, por medo ou por desconhecimento de outra pessoa como ele, escondeu os seus verdadeiros sentimentos e sexualidade, respondendo apenas aos lugares comuns de todos os demais que, contrariamente a ele, encontram a "naturalidade" dos afectos no sexo oposto. Num momento em que o mundo atravessa todas estas pequenas convulsões sociais onde os afectos e o direito à sexualidade são também um Direito Humano, Love, Simon surge então como a normal resposta às evidências... o amor, independentemente do género, é natural e acima de tudo... um Direito. Ainda que alguns momentos em que esta longa-metragem pareça querer exibir uma certa missão de ensinamento versus aprendizagem, Love, Simon consegue ao mesmo tempo criar o clima romântico esperado para uma história do género e ainda mostrar às mentes mais centradas num qualquer passado que independentemente da sexualidade, esta história contém o principal... todos têm o direito de amar.
Missão de aprendizagem à parte o que resta a Love, Simon? Uma história de amor, de descoberta, de aceitação, de ultrapassagem de obstáculos, de compreensão e sobretudo do poder da amizade e da união numa família que apenas deseja viver numa harmonia que sentida fragilizada apenas a quer ver reforçada pela compreensão de que naquele espaço tudo o que revela a positividade e garantia de amor é respeitado e bem-vindo. Love, Simon concentra-se ainda na história de amizade entre aqueles que sempre o foram (amigos), bem como na reacção em que estes reagem à descoberta de um segredo - até então - inconfessado. Poderão aqueles com quem partilhámos todos os momentos da vida aceitar e perceber que "Simon" é o mesmo de sempre apenas com um aspecto da sua vida agora assumido ou ver nele uma pessoa totalmente diferente, que desconhecem e com quem não querem voltar a conviver?
Expostos todos os argumentos narrativos desta história, Love, Simon é então a típica história sobre os últimos momentos da vida de um adolescente que encontra a sua vida dita "normal" (até então) ameaçada pelo bullying de um dos seus pares mas que, ao mesmo tempo, revela ter todo um potencial para continuar a acreditar na possibilidade do amor, em esperá-lo até, e manter não só o seu lugar junto dos seus amigos bem como - e principalmente - de uma família que ama... e que o ama.
Nick Robinson é extremamente convincente como o protagonista desta história assumindo-se capaz de espelhar todo um conjunto de emoções, surpresas, receios e alegrias típicas de um jovem da sua idade sem nunca perder o sonho, a ilusão, o desejo e a vontade de experimentar a sua sexualidade como algo normal - como o é - livre de preconceitos e medos que apenas fazem parte de um momento negro de um passado que, embora não distante, está ultrapassado. Com um elenco secundário coeso que passa não só pelos jovens actores que interpretam os seus amigos (e até o chantageador) sem esquecer aqueles que compõem a sua família - brilhantes e simples interpretações de Josh Duhamel (pai) e Jennifer Garner (mãe) capazes de criar todo um conjunto de emotividade e sofrimento por um filho que querem ver bem (mantenho a minha opinião sobre todo o potencial dramático de uma emotiva e belíssima Garner) -, Love, Simon é, tal como o seu nome indica, uma belíssima, pertinente e actual história de auto-descoberta e amor essencial para o grande ecrã e para o grande público capaz de se deixar prender por uma dos mais nobres sentimentos de sempre... o amor... onde residem as primeiras paixões, as primeiras expressões do mesmo e a compreensão de que o mundo pode ser vivido a dois... e livre de preconceitos.
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"Simon: I deserve a great love story."
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terça-feira, 1 de maio de 2018

La Llamada (2017)

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La Llamada de Javier Ambrossi e Javier Calvo (Espanha) é uma das longa-metragens presentes na secção Puesta de Largo da nona edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cine que decorre na Cantábria até ao próximo dia 4 de Maio.
María (Macarena García) e Susana (Anna Castillo) são duas adolescentes no acampamento católico de Verão "La Brújula". No entanto, as duas sentem uma paixão pelo reggaeton e pelo electro-latino encontrando ali surpreendentes revelações que poderão modificar o seu destino.
O grande sucesso comercial do ano passado do cinema espanhol, vencedor de Goya e de Feroz, La Llamada é um filme que tão depressa encontra no seu público alguns elementos simpáticos que por ele fazem criar alguma empatia mas, ao mesmo tempo, centra-se demasiadamente em pequenos lugares comuns que não só desmotivam à concentração do mesmo como principalmente o levam a transformar-se numa experiência semi-aborrecida que não só não cativa como ridiculariza o género.
A dupla de realizadores que aqui também assinam a autoria do argumento criam aquilo que inicialmente se caracteriza como uma interessante história de comédia sobre uma etapa de transformação na vida de duas jovens habituadas a uma certa educação católica. Aquilo que parecia como uma garantia sobre os destinos das jovens cedo se transforma num conto não sobre a sua confirmação mas sim sobre as escolhas inevitáveis a que cada uma delas está "obrigada" com o tal "despertar" - religioso e não só - e, ao mesmo tempo, a forma como ambas abraçam essas escolhas que agora lhes batem à porta. Assim, se "María" se depara com estranhas e musicais aparições de um improvável Deus (e toda a sua irreverência musical), "Susana" encontra finalmente a coragem para declarar todo o seu amor à "Irmã Milagros" (Belén Cuesta) que a acompanha nas suas escolhas desde jovem. Estão, a partir deste momento, lançados os dados para que as duas jovens encontrem, reconheçam e enfrentem aquilo que o destino (ou Deus) lhes tem reservado.
Dotado de doses exageradas de um humor nem sempre cúmplice com o espectador, repleto de momentos esperados e lugares comuns sobre a vida de duas adolescentes que com todas as suas incertezas tentam encontram o espaço próprio num mundo que nem sempre está receptivo para com as escolhas individuais, La Llamada perde-se numa colagem de segmentos que nem sempre se revelam coerentes ou tão pouco divertidos como haviam sido previamente "desenhados". La Llamada que revela ter sido criado com toda uma boa vontade de criar aquela história sobre a aceitação pessoal, termina como uma longa-metragem cosida com remendos fragilizados tendo, no entanto, um variado e bem coordenado conjunto de momentos musicais que salvam o pouco que resiste deste filme. Se existe de facto uma "chamada"... não... pelo menos não para o espectador que se perde ao assistir a todo um conjunto de interpretações banais e sem qualquer coerência mas que, na sua essência, escondem um determinado potencial ao entregar para as mãos do espectador duas personagens centrais com crises existenciais - uma artista em potência que se entrega nas mãos de Deus e outra que finalmente ganha coragem para aceitar a sua sexualidade - e ainda uma freira com crise de identidade ao revelar que, afinal, toda a sua vida dedicada à Igreja possa ter sido desperdiçada quando o mundo da música poderá ter ganho a próxima estrela... Assim, e se estes momentos musicais são de facto os mais simpáticos e interessantes de toda esta história sobre a descoberta individual, a realidade é que La Llamada, no seu conjunto, não consegue ser um filme interessante ou, pelo menos, não para lá daquele entretenimento estival que todos nós adoramos ter para não perder muito tempo a pensar na história por detrás das imagens que circulam a um ritmo alucinante... na realidade... algum de nós pensa sequer na história ou deixa-se simplesmente levar por esses lugares comuns esperados e descoordenados?
Ainda que com um conjunto de actrizes adoradas pelo público e já premiados com Goya, La Llamada não prima pela excelência nas interpretações que são, também elas, puxadas à força para que tentem aguentar o impossível. Nenhuma delas - talvez exceptuando os breves momentos entre Anna Castillo e Belén Cuesta - consegue cativar o suficiente para que se tornem memoráveis, limitando-se de uma forma geral a serem presenças semi-alucinadas numa história que aos poucos parece encarrilhar para a auto-destruição limitando-se, no final, a um número musical e a uma redenção ao amor e a Cristo (independentemente) que vencem (no filme) mas não convencem (o espectador).
Com uma Macarena García formalmente mal empregue nesta longa-metragem, La Llamada é pontualmente simpático nos momentos musicais mas não consegue (ou parece querer) ser memorável... nem para o futuro nem para o momento imediato.
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4 / 10
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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A Língua (2017)

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A Língua de Adriana Martins da Silva é uma curta-metragem portuguesa de ficção presente em competição na vigésima-terceira edição do Caminho do Cinema Português, actualmente a decorrer em Coimbra.
Ana (Sara Gonçalves) fala com a psicóloga (Joana Brandão) sobre a sua relação com Filipe e sobre a sua incapacidade de beijá-lo e sentir a sua língua. A sua incapacidade de se sentir intima com alguém que, no fundo, a repulsa. Poderão estas sessões com a sua psicóloga resolver um problema que a impede de sentir e viver a sua sexualidade?
Depois de O Cheiro das Velas (2013), Adriana Martins da Silva regressa com a sua mais recente curta-metragem na qual volta a explorar os meandros de uma sexualidade sentida mas não vivida no seu todo. Dos pequenos entraves psicológicos e sentimentais que opõem os intervenientes a uma vida sexual activa e expressa em liberdade aos pequenos paradigmas de uma regra de "normalidade" imposta pela sociedade como aceite e "correcta", A Língua dá então corpo a uma história de um amor sentido mas que pelo medo da falta de aceitação se deixa condenar mesmo antes de ter o seu início.
A história de "Ana" - interpretada por uma magnífica Sara Gonçalves tão saudosa desde os idos tempos da série Riscos (1997) - começa quando a própria nas suas inúmeras sessões com uma psicóloga, manifesta a sua incapacidade de manter uma vida sentimental e sexual activa com alguém com quem terá (espera) de manter uma relação em que o toque é essencial. O toque dos lábios... o toque da língua... o toque que permitirá a troca de fluídos corporais. Se o espectador se deixa levar nesta história de incapacidade afectiva e afectiva como o ponto fulcral desta curta-metragem, A Língua cedo revela que a principal condicionante de "Ana" não é tanto o contexto mas sim a forma como a sua sexualidade é expressa... Porque nem tudo é tão linear como o simples desdém por essa já referida manifestação afectiva... resta então compreender que "Ana" sente... mas pode não sentir aquilo que o "outro" - personagem ou espectador - "esperam" que ela sinta.
A língua - de "Ana" - é assim o mote para que o espectador de A Língua compreenda que esta não é uma condicionante ou um seu problema mas sim o motor para a realização de uma sexualidade reprimida, recalcada e até mesmo proibida - para ela - fruto dos inúmeros preconceitos de uma sociedade sempre pronta para um julgamento antecipado das realidades ou condicionantes dos demais... porque para a maioria existe uma norma "aceite" e outra "proibida", então esta curta-metragem estabelece desde cedo a directa relação da personagem interpretada por Sara Gonçalves e das suas limitações sentimentais para que o espectador a acompanhe sem julgamento e perceba que o seu desejo não é proibido mas sim uma etapa de uma realidade que poderá (eventualmente) ser diferente da sua mas que, ainda assim, não deve ser julgada mas sim aceite. Recorrendo ao tal ditado já antigo... "se todos gostassem do azul... o que seria feito do verde?!".
Por outro lado, a história de "Ana" não é tida em solidão. A acompanhá-la existe uma psicóloga - Joana Brandão - habituada a escutar os problemas alheios e indicar-lhes pistas ou tarefas para se livrarem dos seus constrangimentos mas que, também ela, fruto de uma vida sexual e sentimental com os seus próprios desafios e barreiras, se vê incapaz de expressar a sua vida afectiva de forma livre de preconceitos e julgamentos. A solidão, o abandono e até mesmo uma certa incapacidade de se manifestar como um "eu" livre e independente, levam-na a limitar-se à vida dos outros dentro de um consultório que se vê ocupado por vários pacientes durante o dia mas que a abandonam ao final da hora de expediente. A sexualidade - e até mesmo a sua sensualidade - manifestam-se apenas no imediato de um momento vivido apenas por si própria deixando escapar a sua concretização e satisfação que, na realidade, nunca partilha com ninguém.
Dois opostos - de um lado uma mulher incapaz de partilhar a sua sexualidade e do outro alguém que deseja mas não encontra quem a complete - que encontram na partilha dos seus momentos e numa certa cumplicidade que nasce e cresce inesperadamente colocando-os frente a frente naquele que poderá ser não só o dilema da sua vida como, ao mesmo tempo, na concretização e compreensão daquilo que as poderá (eventualmente) mostrar o verdadeiro lado da sua felicidade.
A Língua é assim um saudável e esperado regresso da realizadora às duras e intensas histórias que marcam pela dinâmica da dualidade dos sentimentos e da sua incapacidade de expressão aqui com vida e forma transposta ao grande ecrã graças a duas intensas e maiores actrizes como o são Sara Gonçalves e Joana Brandão que partilham uma química efervescente capaz de fazer o espectador esquecer tudo ao seu redor ao mesmo tempo que se concentra numa dupla que torna reais os sentimentos das suas personagens, mostrando-as humanas e tão capazes de sentir e sofrer como sentir e viver tal e qual como qualquer um de nós.
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7 / 10
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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Laranja Amarelo (2017)

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Laranja Amarelo de Pedro Augusto Almeida é uma curta-metragem portuguesa em competição na vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro.
Tiago (Jorge Dias) vagueia pelas ruas ao encontro dos seus amigos numa rotina diária. Mas Tiago procura também Sofia (Daniela Love), a ex-namorada com quem quer conversar. Poderá este ser o seu último encontro?
Com argumento do próprio realizador, Laranja Amarelo segue uma tendência já conhecida e vista na obra do realizador - como por exemplo em Por Aqui Nada de Novo (2014) ou Prefiro Não Dizer (2015) - que explora as pequenas histórias sobre pessoas comuns num momento de impasse. Aqui, o protagonista "Tiago", interpretado por Jorge Dias, procura um momento para se reencontrar com "Sofia" (Love), a namorada que o deixara depois de uma relação que, compreendemos, ter sido de longa data. "Jorge" procura um momento no qual, desconhecemos, poderá dizer-lhe mais algumas palavras que talvez o possam redimir de algo e fazer cumprir a relação que teve até então. Alheado dos amigos com quem passa todo o seu tempo é apenas o reencontro com "Sofia" que o fará ter mais alguma esperança ou, pelo menos, fazer cumprir uma última vontade.
Sem grandes subterfúgios ou momentos que fiquem por contar, Laranja Amarelo centra a sua dinâmica em "Jorge". Do jovem adulto que vagueia pelas ruas com aparente indiferença em busca de uma última oportunidade àquele que, confirmando a mesma, se vê incapaz de revelar tudo o que sente. Aquilo que permanece para o espectador reside apenas na sua vincada certeza de ser "Sofia" e, com esta, a convicção de que algo de grave se passou entre ambos que a levou a afastá-lo. Em ambos reside não só a certeza de que ainda se amam como também a impossibilidade de confirmarem uma contínua relação que (compreendem?) não ser positiva para nenhum. Os ciúmes? A vontade de construir algo (ainda) mais sério? Dar o passo seguinte?... Todas estas questões permanecem sem uma resposta plausível confirmando apenas que existem amores (e momentos) que não podem ser cumpridos... Talvez nunca, talvez apenas não naquele exacto momento. Eles existem, assim como também existe todo um demais mundo que primeiro precisa ser vivido e conhecido e apenas depois poderão existir bases para dar continuidade àquilo que ficou para trás... ou permitir que o mesmo viva livremente.
Ainda que toda uma história reside em tão breves dez minutos, Laranja Amarelo é aquela história que deixa o espectador à espera de um pouco mais. Não pela necessidade de ver algumas das perguntas que formula respondidas mas sim pela vontade de saber e conhecer o "e depois..." destas personagens... Se o seu mundo terminou - para nós - neste instante... existe toda uma vida que sabemos poder existir para estas personagens... e se os seus caminhos aqui se distanciam permanece a dúvida de se alguma vez poderão os mesmos voltar a ser cruzados.
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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Lar Doce Celular (2016)

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Lar Doce Celular de Alek Lean é uma curta-metragem brasileira de ficção cujo tema é não só pertinente como actual na medida em que tenta reflectir sobre as relações humanas neste século XXI no qual todos perdemos mais tempo a olhar para o ecrã de um telemóvel do que propriamente para todo o mundo que passa mesmo ao nosso lado.
Ao estilo do cinema mudo, com direcção de fotografia a preto & branco e acompanhado por música ambiente, Lar Doce Celular apresenta "Luan", um jovem homem que num passeio pela cidade esbarra com um homem que acha atraente e que persegue na esperança de que ele note. O outro, ocupado com o seu telemóvel e distante da realidade ao seu redor, só nota quando "Luan" se torna mais fisicamente presente e o puxa para o seu lado. A relação, que se torna física e aparentemente apaixonada apenas para terminar muito repentinamente não pela continuidade da história mas sim por uma questão de edição.
Aquilo que temos depois é o desenvolvimento de uma nova relação entre "Luan" e o seu novo telemóvel que comprou na rua, o qual o acompanha para todo o lado nas mais diversas actividades, incluindo em casa, esquecendo até o seu felino que passa a ser um "objecto" que ele ignora como tantos outros. Mas o que acontece quando o seu novo melhor amigo lhe é roubado? "Luan", incapaz de identificar o assaltante pois os rostos e as pessoas passaram a ser invisíveis no mundo que criou mas, no entanto, é a ausência deste telemóvel que o leva - a seu tempo - a adquirir novas competências motoras (que na prática nunca havia perdido mas sido desprezado), recordando através de pequenas pistas que afinal, sabe qual a identidade do seu assaltante.
O realizador adapta ao grande ecrã esta história de uma nova realidade social em que cada um de nós está cada vez mais dependente das novas tecnologias - dos telemóveis aos computadores portáteis - esquecendo o contacto humano, a interacção com os demais e até mesmo vermos os espaços mais ou menos interessantes pelos quais atravessamos todos os dias como se tanto espaço como a pessoa mais não fossem do que duas entidades anónimas incapazes de criar uma qualquer ligação. Saberá qualquer um de nós identificar um caminho que percorremos todos os dias ou, por sua vez, a banalidade das rotinas impede-nos de identificar o mais comum dos elementos que se encontra ao nosso lado?
Numa história que condena - a seu tempo - esta nova realidade humana bem como tenta demonstrar que o karma (por vezes) surge mesmo diante do nosso nariz, Lean utiliza alguns aspectos interessantes como conjugar esta nova realidade social mas ao "som" do cinema mudo numa dualidade entre épocas e momentos que se opõem - e opõem o espectador - a dois espaços temporais concretos da História. Interessante pela sua crítica social - ao "eu" no meio de um "nós" que nunca chegamos a observar concretamente -, falta apenas a Lar Doce Celular apenas algum trabalho na edição dos vários momentos temporais - primeiro conhecimento de "Luan" por parte do espectador, a sua relação com o seu novo apaixonado e o reencontro com a sua própria essência - dinamizando assim não só a história do protagonista mas também a sua relação com o mundo à sua volta que tanto insiste em ignorar.
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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Lo que Más Echo de Menos (2016)

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Lo que Más Echo de Menos de Roberto Pérez Toledo é uma curta-metragem espanhola que nos apresenta Ele (Eduardo Lupo) e Ela (Laura de la Isla). Antigos apaixonados... antigos cúmplices. Encontram-se agora quando a sua relação já terminou... ou não...
Com argumento do realizador, esta curta-metragem sobre a improbabilidade do fim de uma relação que fora, outrora, cúmplice e intensa, revela duas personagens que apesar do distanciamento e da (falta) de vontade de se afastarem, mantêm ainda uma interdependência que os leva sempre ao mesmo local.
"Ela", já com outra vida e um noivo, encontra n'"Ele" uma estabilidade que, no entanto, apenas parece desejar como consolo para um momento. Incapaz de se libertar de uma relação que não a satisfaz ou assumir esta que em tempos abandonou, ali recorre sempre que pretende o consolo, o amor, o sexo ou a confiança que, aparentemente, não conseguiu conquistar na sua nova vida. "Ele", por outro lado, é o eterno apaixonado que nunca avançou mantendo sempre a esperança naquele telefonema que o irá completar e ao qual irá, talvez, dar a continuidade que tanto deseja. Em momentos claros e distintos da vida, nenhum irá conseguir superar o que teve vivendo, no entanto, na incapacidade de assumir aquilo que ainda sentem.
Do medo do compromisso à incapacidade de evoluir ou assumir sentimentos, Lo que Más Echo de Menos é portanto a compreensão de que existem momentos - ou pessoas - na vida que conhecemos ou experimentamos e nos quais nos revemos e reencontramos deixando-se (nos) levar, no entanto, pelo medo da satisfação plena onde a cumplicidade e a entrega representam vínculos impossíveis de se estabelecer pelo medo da insatisfação. O que será dito de "nós" quando se torna mais fácil trair e abandonar uma escolha de momento do que assumir o compromisso e a responsabilidade obtida com o medo de um sofrimento que poderá nunca se confirmar?! Será apenas a presença de uma certeza e de uma realidade que se confirmam quando necessário o valor único que move alguém na dinâmica das relações?
Lo que Más Echo de Menos é assim mais um estudo e uma abordagem à dinâmica - ou falta dela - das relações humanas que o realizador espanhol dirige e que permite ao espectador pensar sobre até que ponto está ele realmente disposto a abdicar ou a comprometer-se quando se depara com o amor real... será mais forte o medo de sair magoado do que a vontade de cumprir uma realidade sentimental completa?
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5 / 10
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quinta-feira, 1 de junho de 2017

La Lunática (2016)

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La Lunática de Eduardo del Olmo é uma curta-metragem espanhola na qual o espectador fica a conhecer Luna (Lara Grube), uma mulher sistematicamente abandonada por todos aqueles que ama e que um dia... enlouquece.
Em seis breves minutos o argumento também da autoria de Eduardo del Olmo que representa ainda um dos ex-noivos de "Luna", reflecte sobre o abandono, a perda e a rejeição sentidos e vividos por esta mulher que num determinado momento tudo tentou para ser feliz mas que se viu a braços com a sua eterna solidão. Solidão essa que lhe chega não só fruto das relações que não resultaram como aquela que, como sua consequência, se abateu sobre ela deixando-a a viver um mundo muito próprio onde mais ninguém consegue penetrar... a loucura.
Numa simpática comédia, o espectador observa não só a necessidade de amar - e ser amado - como principalmente os nefastos efeitos de uma constante rejeição que deixam a nossa protagonista apenas conformada com a ilusão de que a felicidade (sua) reside na potencialidade de uma relação que parece jamais ir existir.
Ao estilo de confessionário que aproxima protagonista e espectador, La Lunática é, no final, um filme curto que nos deixa mais apreensivos sobre os vários caminhos de um amor (im)possível e a aceitação - ou rendição - aos tortuosos caminhos de uma mente que por ele ficou gravemente afectada.
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6 / 10
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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Lurna (2016)

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Lurna de Nani Matos é uma curta-metragem espanhola de ficção e uma das seis nomeadas na secção Social da oitava edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorre até amanhã dia 13 de Maio na Cantábria, em Espanha.
Lurna (Diaryatou Daff) é uma jovem mulher africana que sonha com uma potencial vida melhor. Poderá ela alguma vez tê-la numa terra que não é a sua?
Numa época em que tanto se questiona a entrada de refugiados nesta opulenta e em crise (de valores) Europa, a curta-metragem de Nani Matos não poderia ter chegado em melhor altura. Em Lurna acompanhamos as recordações de uma mulher que tem toda uma história por detrás da sua existência que comprova a sua luta e a sua viagem até uma Espanha onde agora se encontra. "Lurna" é portanto, mais do que uma simples mulher - que de simples nada tem - mas sim o rosto de todo um conjunto de homens e mulheres que atravessaram meio mundo com a promessa e a ideia de algo melhor do que aquilo que, até então, lhes tinha sido dado a conhecer na sua vida. Mas, no entanto, como todos as promessas de um el dorado inexistente, também agora neste admirável mundo novo, "Lurna" volta a sofrer às mãos de uma mafia que tudo exige e nada tem intenção de fazer cumprir.
Ao ritmo dos anunciados flashback, Lurna revisita toda a sua viagem até Espanha. Das carrinhas repletas de migrantes na mesma situação que ela às detenções pela polícia. Das ameaças de arma apontada aos bares de alterne e destes à consequente separação dos seus filhos tudo é, em breves minutos, apresentado nesta curta-metragem que reflecte este mundo novo - infelizmente não tão ficcionado como se poderia desejar - e uma vida pouco admirável.
A alma desta história é uma intensa Diaryatou Daff que consegue com a sua interpretação levar o espectador a toda uma nova dimensão aproximando-o de uma realidade assumida mas voluntariamente ignorada. Do submundo do crime a todo um sofrimento tido em silêncio, Daff prende o espectador ao ecrã graças a esta não verbalização de todo um passado que acima de tudo a envergonha. O espectador desconhece as origens de "Lurna" mas, no entanto, conhece todo este seu percurso até ao momento em que se encontra e sabe que a história desta personagem mais não é do que o rosto tido de tantas outras que escuta diariamente nos diversos noticiários. "Lurna" é portanto mais do que uma mulhe... um símbolo. Um símbolo de tudo o que se viveu... do que se perdeu... do que se sonhou sem nunca conquistar. É o rosto de uma vida de sonhos apagados, de esperanças perdidas e de momentos que se sentem (e percebem) mais não serem do que memórias idas de uma vida que se esperou. Para lá do desencanto está a perda... a perda daquele pouco que ainda se sentia poder possuir. A perda como a única referência possível de uma vida que se extingue e que lhe retirou todos os seus mais preciosos bens. No olhar de Daff temos tudo... e ela não necessitaria dizer absolutamente nada para que com ela o espectador criasse todas as empatias possíveis... Assim intensa é a sua interpretação.
Ainda que o espectador esteja perante uma história ficcionada, esta poderia ter sido retirada e inspirada nos inúmeros documentários e reportagens que diariamente inundam as nossas televisões. Ali a única coisa que pode, de facto, ser ficção é o nome e a identidade daquela mulher que, no entanto, representam tantas outras cujas histórias ocorreram mais ou menos dentro daquele relato. Desta forma, Nani Matos cria não só uma obra-prima do género pela veracidade dos factos que ali decide contar como sobretudo uma história com a qual aproxima as realidades destas pessoas deslocadas das sociedades onde elas chegaram tão opulentas de bens e por vezes tão cerradas àquilo que mais falta faz... o humanismo e a compaixão que qualquer um de nós desejaria ter quando chegados a outros territórios de onde não são originários.
Comovente... comovedora... intensa... forte... Lurna é uma curta-metragem simplesmente brilhante.
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8 / 10
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