sexta-feira, 12 de maio de 2017

Lurna (2016)

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Lurna de Nani Matos é uma curta-metragem espanhola de ficção e uma das seis nomeadas na secção Social da oitava edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorre até amanhã dia 13 de Maio na Cantábria, em Espanha.
Lurna (Diaryatou Daff) é uma jovem mulher africana que sonha com uma potencial vida melhor. Poderá ela alguma vez tê-la numa terra que não é a sua?
Numa época em que tanto se questiona a entrada de refugiados nesta opulenta e em crise (de valores) Europa, a curta-metragem de Nani Matos não poderia ter chegado em melhor altura. Em Lurna acompanhamos as recordações de uma mulher que tem toda uma história por detrás da sua existência que comprova a sua luta e a sua viagem até uma Espanha onde agora se encontra. "Lurna" é portanto, mais do que uma simples mulher - que de simples nada tem - mas sim o rosto de todo um conjunto de homens e mulheres que atravessaram meio mundo com a promessa e a ideia de algo melhor do que aquilo que, até então, lhes tinha sido dado a conhecer na sua vida. Mas, no entanto, como todos as promessas de um el dorado inexistente, também agora neste admirável mundo novo, "Lurna" volta a sofrer às mãos de uma mafia que tudo exige e nada tem intenção de fazer cumprir.
Ao ritmo dos anunciados flashback, Lurna revisita toda a sua viagem até Espanha. Das carrinhas repletas de migrantes na mesma situação que ela às detenções pela polícia. Das ameaças de arma apontada aos bares de alterne e destes à consequente separação dos seus filhos tudo é, em breves minutos, apresentado nesta curta-metragem que reflecte este mundo novo - infelizmente não tão ficcionado como se poderia desejar - e uma vida pouco admirável.
A alma desta história é uma intensa Diaryatou Daff que consegue com a sua interpretação levar o espectador a toda uma nova dimensão aproximando-o de uma realidade assumida mas voluntariamente ignorada. Do submundo do crime a todo um sofrimento tido em silêncio, Daff prende o espectador ao ecrã graças a esta não verbalização de todo um passado que acima de tudo a envergonha. O espectador desconhece as origens de "Lurna" mas, no entanto, conhece todo este seu percurso até ao momento em que se encontra e sabe que a história desta personagem mais não é do que o rosto tido de tantas outras que escuta diariamente nos diversos noticiários. "Lurna" é portanto mais do que uma mulhe... um símbolo. Um símbolo de tudo o que se viveu... do que se perdeu... do que se sonhou sem nunca conquistar. É o rosto de uma vida de sonhos apagados, de esperanças perdidas e de momentos que se sentem (e percebem) mais não serem do que memórias idas de uma vida que se esperou. Para lá do desencanto está a perda... a perda daquele pouco que ainda se sentia poder possuir. A perda como a única referência possível de uma vida que se extingue e que lhe retirou todos os seus mais preciosos bens. No olhar de Daff temos tudo... e ela não necessitaria dizer absolutamente nada para que com ela o espectador criasse todas as empatias possíveis... Assim intensa é a sua interpretação.
Ainda que o espectador esteja perante uma história ficcionada, esta poderia ter sido retirada e inspirada nos inúmeros documentários e reportagens que diariamente inundam as nossas televisões. Ali a única coisa que pode, de facto, ser ficção é o nome e a identidade daquela mulher que, no entanto, representam tantas outras cujas histórias ocorreram mais ou menos dentro daquele relato. Desta forma, Nani Matos cria não só uma obra-prima do género pela veracidade dos factos que ali decide contar como sobretudo uma história com a qual aproxima as realidades destas pessoas deslocadas das sociedades onde elas chegaram tão opulentas de bens e por vezes tão cerradas àquilo que mais falta faz... o humanismo e a compaixão que qualquer um de nós desejaria ter quando chegados a outros territórios de onde não são originários.
Comovente... comovedora... intensa... forte... Lurna é uma curta-metragem simplesmente brilhante.
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8 / 10
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