quinta-feira, 4 de maio de 2017

Colo (2017)

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Colo de Teresa Villaverde é a longa-metragem portuguesa escolhida para a Sessão de Abertura da mais recente edição do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema Independente que decorre na capital até ao próximo dia 14 de Maio.
Portugal, actualidade. Um pai (João Pedro Vaz), a mãe (Beatriz Batarda) e a filha Marta (Alice Albergaria Borges) vêem as suas vidas alteradas com os efeitos de uma crise económica que abalou o país. Mas, e quando os efeitos estão para lá da situação económica?
O mais recente filme da realizadora de Três Irmãos (1994), Os Mutantes (1998), Transe (2006) e Cisne (2011), cuja história também assina, insere-se numa corrente que é agora tendencialmente explorada no cinema português e que leva o espectador às entranhas - literalmente falando - dos negros dias da crise económica que abalou o país nos inícios desta segunda década do século XXI. Os primeiros instantes de Colo são o reflexo imediato da história que o espectador vai testemunhar. De uma despedida isolada numa qualquer mata que confere um desejado anonimato a um presente sentimento que o desaparecimento de alguém lá de casa é algo que se espera confirmado e não explicado. A crise, percebe então o espectador, será agora testemunhado por uma versão daquilo que os olhos e o pensamento de uma jovem "Marta" vai depreender. Um pai desempregado e relativamente apático da realidade que o rodeia não só no imediato, e uma mãe que faz horários alargados para garantir um mínimo sustento para uma casa que aparenta estar cada vez mais desertificada de bens... e de vida; não é só a família que se distancia mas também o único animal que têm em casa que parece não querer voar sentindo (talvez) a apatia social dos temos que correm.
No café - o único divertimento comum que ainda lhes é permitido - mantêm-se os sinais dessa crise cada vez menos anónima... alguém que vai buscar os restos do restaurante para levar para casa num espaço que, noutros tempos, se constituía como o símbolo máximo do convívio entre amigos lá do bairro. A vida social agora inexistente, dá lugar aos silêncios que são apenas interrompidos pelos noticiários que falam da crise económica e pelo potencial vislumbre de mais um estabelecimento que poderá (agora) ser encerrado - fica para o espectador a noção de que caso encerre... mais famílias irão entrar nessa espiral de decadência financeira deixando de ali poder recorrer para se alimentarem.
Tanto a mãe como o pai distanciam-se. Não pela falta de amor ou cumplicidade mas sim pela percepção de que estão impotentes para resolver os problemas comuns de uma família que, noutros tempos, vivia de forma mais desafogada. Habitam nos silêncios. Nas ideias e pensamentos que ficam por dizer. Nos sentimentos que são abandonados. Habitam numa distância que se prolonga e num mundo onde apenas se lhes é permitido pensar no "eu" que insiste em não se afogar. Ela, uma mãe ausente, trabalha até não conseguir. Evita a sua casa. Evita a família. Ele, mantendo-se desempregado pela falta de oportunidades, por um orgulho ferido e por uma (auto)humilhação sentida, passeia-se pelo telhado do prédio e alimenta-se dos restos lá deixados por uma qualquer festa anónima que lá decorreu numa noite passada.
A inércia versus apatia e esta última versus a incapacidade de agir apenas são interrompidos para o "pai", através da presença da amiga de "Marta" que, ainda adolescente, confessa estar grávida. A sua gravidez, sentida por "Mário" (o pai) como sendo uma sua responsabilidade, aparenta ser o seu único motor e dá-lhe uma estranha motivação para viver uma vida que, na prática, não é sua. Enquanto a relação entre o casal se degrada de forma proporcional, também a "mãe" se degrada fisicamente enquanto no "pai" esta degradação é a nível psicológico. Entra em contacto com um ex-colega e amigo... rapta-o... perde-se... leva-o a uma praia... é humilhado... vagueia pelas ruas e depende da boa vontade de estranhos que se intrigam com a sua situação.
Enquanto a família se degrada - e "Marta" compreende-o -, distanciam-se também pais da filha. Enquanto ele vê uma nova oportunidade numa jovem adolescente que assume perante a sogra (Simone de Oliveira) como a filha e neta da família, a mãe embarca numa nova aventura distante de ambos e junto de uma amiga com quem agora partilha casa. O "eu" impõe-se perante todos eles que se distanciam, tornam indiferentes e assumem de forma silenciosa que tentam construir uma nova vida... cada um no seu novo mundo. Ninguém se lembra de "Marta" que, também ela, vagueia perdida, distante e indiferente ao mundo que parece ter esquecido a sua presença e quebrado um vínculo que se esperava primário.
Ainda que desenvolvendo as suas histórias pessoais praticamente de forma independente e não como um cúmulo entre os três, Colo acaba por ser em boa medida o testemunho silencioso de uma família que lentamente se desfaz. A incapacidade de se olharem e compreenderem os problemas em comum... ou mesmo até a saturação que os mesmos lhes provocaram, leva cada um deles a procurar um novo lugar num mundo que se alterou. Uma nova família, um novo rumo profissional ou até mesmo a compreensão de que aquilo que antes foi o seu porto de abrigo se tornou num espaço de indiferença pessoal, intelectual e até mesmo carnal, leva cada um deles a decidir que aquele espaço - casa e família - já não são o que um dia esperaram de cada um deles.
De uma Beatriz Batarda perdida num esgotamento físico e mental que a levam a querer libertar-se da rotina e da vida tal como a conhece - e grande interpretação como sempre -, a um João Pedro Vaz que consegue finalmente afirmar-se como protagonista de uma história que dá a conhecer toda a sua componente dramática e, também ele, num momento de plena ruptura - com a mulher e com a filha encontrando (talvez) para ambas uma perfeita substituta - é, no entanto, a jovem Alice Albergaria Borges e a sua intensa interpretação como "Marta", a jovem testemunha da crise, da dissolução da sua família e da própria concepção de um seu novo "eu" capaz de se adaptar à sua nova realidade, que se destacam nesta longa-metragem de Teresa Villaverde e naquela que é a mais recente obra pós-crise. Intensa pela forma como capitaliza os silêncios e dinâmica nos momentos em que tem de conter toda a sua expressividade e emotividade, Albergaria Borges consegue manter o espectador num constante suspenso desejando saber qual o momento seguinte desta jovem. Lentamente despede-se de um pai e de uma mãe que parecem não ter tempo, capacidade ou vontade de perceberem o que ela sente ao ter de se afastar do seu mundo, de um namorado com quem vive as suas primeiras experiências e até mesmo de uma amiga que parece querer encontrar no seu espaço, o dela. "Marta" transforma-se, de forma lenta mas acutilante, uma personagem anónima... para pais, para amigos e namorado... até mesmo para uma avó que não sabe se está ou não na sua presença. "Marta" apenas encontra refúgio - ainda que temporário - junto de um dos muitos anónimos que vagueiam pelas ruas, metidos com a sua própria vida e que compreendem não só a transformação como também a necessidade de escape de uma vida que aparenta já não os querer.
Complementado com uma irrepreensível direcção de Acácio de Almeida - genial como sempre - que transforma a sempre luminosa cidade de Lisboa num espaço opaco, por vezes negro e quase sempre desprovido de vida, Colo recupera a já tradicional narrativa da obra de Teresa Villaverde, exímia em contar as histórias - imaginadas e não - daqueles que vivem nas margens... na margem da sociedade, da crise, de um caminho, aqueles que se tentam adaptar, viver, resistir mas sobretudo sobreviver. Sobreviver ao inesperado, ao indesejado, ao inevitável e principalmente sobreviver a si próprios... até mesmo à ideia que de cada um deles foi criada. Resistindo ao julgamento... à condenação e principalmente àquilo ao qual ninguém escapa... sobreviver a um novo dia.
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8 / 10
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