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quinta-feira, 31 de julho de 2025

Crash Site (2025)


Crash Site de Jason Sperling (EUA) é uma curta-metragem que levanta a eterna questão se existe vida para além daquilo que nós conhecemos. Max (Steven Yeun) e Ben (Sam Richardson) caminham por uma mata quando um estranho objecto colide com a Terra. Curiosos sobre o que ali poderão encontrar, dirigem-se àquele espaço onde encontram uma pequena caixa negra... Poderá ela responder a algumas das suas questões?
Miles Brandman escreve o argumento desta curta-metragem que, de certa forma, tenta recuperar o género de ficção científica e a já mencionada questão que tantas vezes assola filmes desta temática. Estaremos sós no universo? Existirá algo mais para lá daquilo que conhecemos? Ou mesmo se existirão provas de algo que ultrapasse o "universo" tal como o conhecemos. Neste sentido, Jason Sperling - que já havia colaborado na série The Walking Dead e, como tal, justificando a presença do protagonista - cria esta atmosfera de filme que mescla a ficção científica, o thriller político e em boa medida a exploração psicológica de uma personagem que inicialmente precisa de encontrar algo mais que justifique a sua existência e que finalmente se deixa levar na dinâmica das perguntas sem resposta que tanto o atomentam. Se a tudo isto juntarmos que existe também a intriga militar que procura esconder aquilo que todos pretendem saber limitando a própria existência a um espaço que afinal não é "único" no mundo, esta curta-metragem apresenta todos os elementos para se poder assumir como um filme interessante com a presença da esperada vedeta que o faz brilhar um pouco mais. No entanto, e se tudo aquilo que vemos poderia assumir-se como um prelúdio bem conseguido de uma história porvir, a inexistência de elementos que comprovem que a história não terminou por aqui mais a colocam como uma curta-metragem ensaio com um orçamento mais bem conseguido do que propriamente o filme final que qualquer espectador apreciador do género poderia esperar ver.
Yeun foi, para qualquer fã da mencionada série The Walking Dead, um dos elementos mais fortes da mesma assumindo-se como um dos actores então regulares que todos queriam ver. Nessa sombra, aquilo que aqui temos é um regresso apetecível do actor ao ecrã mas que, no entanto, permanece como um único elemento que não consegue ser suficiente para manter o interesse na história. É certo que o acompanhamos na dinâmica com o amigo - ainda que timidamente explorada - e mais tarde na curiosidade e obsessão que o levam a perder-se na descoberta de um objecto que tráz mais dúvidas do que questões mas, ainda assim, não consegue ser suficiente para que este filme curto seja essencial para o género. Intenso e assumidamente presente na sua escalada para um desespero anunciando, aquilo que aqui vemos do actor é pouco para aquilo que dele - e da história - seria de esperar. Se abre a curiosidade do espectador para saber o que por ali vem, não será menos verdade admitir que o que surge do resultado final não é suficiente para que o consideremos intenso ou uma das interpretações mais marcantes do mesmo ou do género em questão.
Assim Crash Site mais não é do que um filme ensaio. Algo que poderá, a seu tempo e com vontade da equipa que o produziu, ser o prelúdio de um filme maior ou de uma continuação mais cuidada onde se explorem os tais detalhes necessários para que um dia mais tarde olhemos para ele como um filme referência de ficção científica ou pelo menos um daqueles que o espectador pensa em ver e rever para consumir os pequenos detalhes ou referências que o tornam interessante. De filme ensaio com potencial para uma continuação mais profunda, esta curta-metragem tal como é, mais não se afirma do que uma história que (sobre)vive pelo carisma do seu actor protagonista que deixa o espectador com vontade de algo mais.



4 / 10

sábado, 3 de maio de 2025

Claridade (2025)


Claridade de Mariana Santana (Portugal) é uma das curtas-metragens de ficção presentes na Competição Nacional da 22ª edição do IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema Independente a decorrer em vários locais da capital que se centra na enigmática viagem de comboio pelo Douro de duas personagens. Ele, um homem mais velho. Ela, uma jovem silenciosa. Ambos procuram um fenómeno de luz que se diz fazer ver na região. O mesmo fenómeno que se revela no silêncio de uma noite nem sempre pacata e que os faz vibrar depois de um dia de marasmo. Entre aquilo que se escuta e o que de facto se consegue ver, pergunta o espectador onde fica a realidade?!
Mais do que um exercício narrativo onde uma história se desenvolve em torno de um conjunto de premissas que o argumento e as respectivas personagens levantam e equacionam para que o espectador se deixe levar pelo mesmo, esta Claridade pressupõe - e espera do espectador - que se apurem os sentidos e se registem os pequenos detalhes que inundam o ecrã... de forma invisível. O que vemos é um segundo plano nem sempre compreendido sendo que, por sua vez, são os sons mais ou menos próximos, e a sugestão que os momentos proporcionam, que acabam por se revelar como cruciais para o acompanhamento desta história que funciona numa dinâmica essencialmente dessa sugestão quase sempre induzida pelo próprio argumento. Apuram-se todos os demais sentidos que, ironicamente numa sala de cinema, acabam por se sobrepôr em inúmeros momentos à visão que (pensamos) seria o elemento fundamental ao assistir a um filme.
No final permanecem mais dúvidas do que respostas às questões que o espectador coloca nomeadamente ao fundamento e à natureza da relação que une este homem e esta jovem rapariga. Permanece uma resposta, nunca conclusiva, que nos alerta para o secretismo desta viagem àquele local quando "Ele" não revela num breve telefonema estar na companhia de outra pessoa. A dinâmica entre ambos ali naquela casa semi-abandonada é puramente (pensamos) etérea. Delicada sim. Frágil. Talvez não pura mas também não denota algo mais do que dois indivíduos que se cruzaram e partilharam um qualquer traço de comunhão que ali os levou. Compreendemos o vazio - de ambos - e a vontade de partilhar algo - nunca consumado - mas, ao mesmo tempo, abstraímo-nos da real dimensão desta partilha, destes instantes e destes momentos que apenas são interrompidos pelo que poderá estar "lá fora".
Poderia ser interessante uma longa-metragem que explorasse mais esta história nomeadamente as dinâmicas entre este inesperado "casal" que pouco comunica, por vezes se contempla e que tem um propósito em comum - assume o espectador - seja ele o de atingir o que está para lá do fenómeno que pretendem testemunhar ou o simples facto de escapar de um mundo que pode ser - para eles - mais real do que aquilo que estão dispostos a assumir.

6 / 10



segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Cortaderia (2022)

Cortaderia de Óscar Moreno (Espanha) é um dos mais recentes exemplares mockumentary espanhóis que explora uma temática ambiental preocupante na região norte de Espanha onde, junto ao Atlântico, se faz notar a cada vez maior presença de uma espécie florestal invasora... os vulgarmente chamados "limpa-garrafas" ou "erva das pampas" de seu nome oficial cortaderia selloana.
No entanto, como um bom mockumentary, este Cortaderia apresenta o outro lado da "ameaça florestal", ou seja, aqueles que no meio dos receios ambientais observam sim os benefícios da Natureza tal como ela é onde, na qual, inserem a "erva das pampas" como um novo habitante natural do ecossistema... mesmo que este seja de uma proveniência totalmente díspar. Dos protectores ambientais aos fundadores das organizações não governamentais que valorizam as espécies sem esquecer a sua protecção para o futuro reservando-se o direito de recolher sementes para que a dita espécie nunca desapareça face às constantes ameaças, este documentário explora de forma divertida assuntos que até são demasiado sérios e actuais, se o quisermos analisar, sob uma perspectiva dinâmica da sociedade como um todo. São os elementos estranhos (ou estrangeiros) assim tão nocivos para a sociedade como a primeira (e fácil) análise quer fazer parecer? Existirá, na realidade, alguma "espécie" agressora do meio dito natural? Se a mesma resiste, e subsiste, num espaço que lhe é inicialmente considerado como sendo desfavorável, até que ponto poderão os autóctones afirmar que esta "espécie" não pertence àquele meio em concreto?
Da comédia feita à custa de assuntos sérios explorando, ou tentando, a consciencialização para a realidade de certos assuntos actuais, esta curta-metragem apenas peca por um certo distanciamento que o mesmo humor pode provocar no espectador levando-o apenas a olhá-lo como "mais um" filme cómico do que propriamente um com uma temática importante e actual que transcende a ideia de uma simples planta tida como uma "espécie invasora".
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6 / 10
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sábado, 1 de julho de 2023

Como Matar uma Boneca (2022)

 
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Como Matar uma Boneca de Alek Lean (Brasil) é uma das curtas-metragens em competição na edição, ainda a decorrer no Cinema São Jorge, do FESTin - Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa. Aqui conhecemos "Senhora", uma fotógrafa numa mata fechada que ao encontrar uma boneca a devolve na casa mais próxima desconhecendo que a mesma ali pertence. Nessa casa, outra mulher, exibe um conjunto de estranhos comportamentos para com este brinquedo revelando, ao mesmo tempo, um conjunto de sinais de uma inesperada loucura e eventualmente traumas que o espectador desconhece.
Numa talvez ingénua primeira reflexão sobre Como Matar uma Boneca temos aqui um filme curto que nos deixa num misto se o havemos de esquecer pela incompreensão de certos elementos se parar para pensar que por detrás dos mesmos existe mais do que uma aparente história "inofensiva". Este filme fora inicialmente descrito como sendo de "poucos diálogos" e onde a "simbologia assumia a sua própria mensagem" facto que, agora depois de o ter visionado, compreendo pela pausa e separação que lhe fiz desde o primeiro instante, começo a percepcionar como a (sua) própria realidade. Dito isto... o que aqui temos?!
Esta curta-metragem onde uma fotógrafa explora uma mata ou floresta sem um fim próprio aborda, nesta aparentemente inocente viagem, temáticas que se revelam com o passar do tempo. A fotógrafa encontra a seu tempo uma boneca. Um brinquedo perdi, esquecido talvez, num improvável local e que rapidamente decide entregar numa casa perto de onde se encontra. Mas, o porquê desta "devolução" sem certeza de onde a iria deixar? O porquê de estar ali no seu caminho sem que se questionasse o tão improvável local... ou, mais ainda, o porquê de ter decidido entregar aquele brinquedo quando seria tão mais simples esquecê-lo no mesmo lugar em que o encontrou... Estas questões, mais ou menos respondidas ao longo da curta-metragem beneficiam também da compreensão do espectador que assume alguma da História do Brasil e revê nestes símbolos alguma conexão com a realidade nem sempre falada do país. Primeiro com o passado histórico do mesmo onde uma minoria privilegiada assumiu o comando do país desde a sua origem tendo a grande maioria filhos de escravos levados de África assumido uma posição forçosamente submissa que os relegou para uma "segunda categoria" sendo eles, no entanto, a maioria ainda silenciosa do país. Depois, podemos ainda encontrar nos comportamentos da segunda personagem desta curta-metragem, uma mulher solitária mas subtilmente vil e algo violenta, uma postura de dominação face a um objecto. Uma posse assumida como única e totalitária conquistando pela força aquilo que reclama como seu independentemente de muito haver sob o qual não se possa reclamar essa dita "posse". Finalmente, e talvez o elemento mais transformador - da curta-metragem e para nós enquanto público - o momento em que a boneca negra assume uma forma humana revelando que os comportamentos daquela bizarra mulher estão para lá de uma posse sob um brinquedo mas sim para com um ser humano que ela assume como um seu "súbdito" que controla, testa, humilha, violenta e maltrata pelo simples motivo de que pode... e como pode... faz!
Se todos os momentos desta curta-metragem de Alek Lean são, de certa forma, uma oscilação entre o curioso e o enigmático lançando o espectador num misto da mencionada curiosidade mas, ao mesmo tempo, de uma quase bizarria que inicialmente nos faz pensar que esta última mulher é alguém perdido nos pensamentos fruto de uma qualquer violência ou evento traumático vivido no passado, é o final que revela a veracidade dos acontecimentos que nos leva a questionar que afinal não é uma qualquer mulher marcada pelo passado mas sim alguém que perpetrou essa violência sob os demais porque por um acaso da vida se encontrou no seio dessa minoria privilegiada e detentora do poder... que tudo e todos pode corromper.
Como Matar uma Boneca, para lá de um revelador título que, compreendida a sua mensagem, anuncia ao espectador mil formas de matar a inocência e perpetrar um mal que nunca finda, assume também um conjunto de mensagens com conteúdo étnico e histórico do presente e do passado de um país ainda a tentar consolidar a sua existência com as diferentes cores e origens do seu povo fragilizando-se - esta curta-metragem - apenas num elemento. Não sendo este detrator de todo o seu conteúdo, é a excessiva teatralização dos já mencionados elementos e das interpretações das duas actrizes que se querem simbólicas e isentas que, no entanto, dispersam a atenção para a tentativa da descoberta antecipada da mensagem que apenas chega mais conclusiva já no final de toda a trama surpreendendo, em boa medida, um público que calculo esperaria outro desfecho mais "sobrenatural".
Não sendo um marco no género, Como Matar uma Boneca é importante pela forma como aborda a violência - Histórica, étnica, social, de género, do passado e do presente - e, não mostrando resultados sobre como poder efectuar uma transformação deixa em aberto a possibilidade de quem a ela assiste poder denunciar e reclamar para si a ideia de que outro rumo é possível.
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7 / 10
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terça-feira, 30 de maio de 2023

Compañeiros (2022)

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Compañeiros de Fernando Tato (Espanha) centra-nos no reencontro de dois colegas de escola depois de trinta de anos sem se verem. Fraga (Adrián Castiñeiras) é surpreendido pela presença de Fran (Pedro Brandariz) que rapidamente se apresenta como o antigo colega de liceu. Mas, um reencontro que se esperava breve, pelo menos assim o queria Fraga, cedo se transforma num momento estranho e desconfortável do qual se quer ver livre. Mas... será que Fran o deixa seguir o seu caminho ou espera dele algo que Fraga não lhe quer dar?
O realizador Fernando Tato assina o argumento desta curta-metragem em parceria com José Prieto conferindo-lhe contornos de uma história de ódio, vingança e desdém. Compañeiros, que facilmente poderíamos traduzir enquanto "amigos" ou até mesmo "companheiros" aqui assume-se como a tal história de "colegas" de escola que anos depois se reencontram tendo um já esquecido o outro... e este último nunca ultrapassando os traumas de liceu que lhe ficaram desde os primórdios da sua adolescência. Pretende-se um reconhecimento... um pedido de desculpas que ficou por dar... a constatação de que aqueles tempos não foram fáceis e que muitos lhe conseguiram sobreviver literalmente à custa de sangue, suor e muitas lágrimas que por vezes se deixaram escapar em silêncio escondidos dos olhares públicos. E é aqui que a mente e compreensão do espectador começam a trabalhar assumindo, logo de imediato, a empatia para com uma das personagens. "Fran", o tipo que ainda se revela como o "chato" de serviço, que não se cala e pretende toda a atenção do ex-colega que mantém os mesmos traços de "popular" do liceu que o primeiro nunca havia conseguido. Mas, o porquê desta insistência anos e anos depois?! "Fran" muito rapidamente o irá revelar...
A animosidade de "Fraga" para com "Fran" manifesta-se praticamente desde o primeiro instante. Primeiro porque não se recorda de quem é aquele homem inconveniente que o aborda e não larga anos depois tendo apenas como referência a possibilidade de terem frequentado a mesma escola e partilhar com ele um conjunto de conhecimentos que o próprio "Fraga" já não se recorda na perfeição mas que pela veracidade de alguns nomes envolvidos... devem ser verdade. Mas é quando as palavras se tornam cada mais mais insistentes e até mesmo agressivas que "Fraga" pretende que o momento termine rapidamente... há mais que fazer e toda uma realidade presente que se impõe e que "Fran" parece não reconhecer como aquela que agora vivem. É ao dirigirem-se para um edifício abandonado que recordam então como a escola por onde passaram que os papéis se assumem realmente como são e que os dois homens voltam a estar perante a realidade tal como ela havia ficado há três décadas.
A história, ainda que não seja propriamente original na medida em que tantos são já os filmes que abordam a temática do bullying e da violência entre pares nas escolas e na adolescência, ganha contornos interessantes na medida em que coloca o espectador numa inicial dinâmica entre duas personagens que se assumem (para o espectador não esquecer) como algo que facilmente a nossa consciência assume como sendo a verdade e nunca perante a possibilidade de uma qualquer outra variável estar aqui em evidência... porque na realidade... não está! E se, perguntamo-nos a determinado momento, não fôr "Fraga" o agressor mas sim "Fran", o aparentemente inofensivo homem que encontra, anos depois, forma de perpetuar a perseguição à sua vítima de eleição? E se os papéis sociais que o espectador assume mais não sejam do que reflexo dos seus próprios padrões e pré-conceitos estabelecidos e que, afinal, se assumem sob outra perspectiva ou realidade? E se "Fran" fôr afinal o não tão inocente agressor que tudo planeou para que no exacto momento da sua vida voltasse para pôr um fim a tudo... e todos?! É este o principal elemento positivo desta curta-metragem... a nova perspectiva que dá a uma história que se deixa levar não pelo habitual e pelo banal mas sim pela inversão de papéis das suas personagens que transforma os renegados e os excluídos (supomos) como aqueles que afinal martirizaram os seus pares no tempo em que pensavam que dominavam o mundo.
Se passarmos deste argumento para a execução da história e do ambiente em que tudo se desenrola, estamos perante uma curta-metragem que compreendemos ser de orçamento mais reduzido e que deixou a perfeição de grande parte dos seus elementos à boa vontade com que todos os intervenientes entraram em produção contribuindo, cada um deles, com aquilo que de melhor tinha para que esta história fosse contada. Resumindo... Do trabalho de personagens expressa no argumento - com o seu twist tão esperado - ao trabalho de "palco" ficou a falta muito para que a execução da história na prática correspondesse aos alicerces que para ela haviam sido criados conferindo-lhe dessa forma uma maior credibilidade aos instrumentos, ao espaço e à narrativa que, entretanto, se perde um pouco pelo caminho e não de forma permanente porque o espectador ainda se concentra na tal nova perspectiva dada às já mencionadas personagens.
Destaque para as interpretações quase exclusivas de Brandariz e Castiñeiras que assumem o controle e o comando não só dos próprios destinos das suas personagens como sobretudo da curta-metragem Compañeiros deixando-se levar por uma comunhão que oscila entre o interesse e o desprezo que assumem mútua e silenciosamente mas que, ao mesmo tempo, não consegue suportar toda a obra que, com um orçamento mais robusto, seria certamente um filme que poderia não revolucionar o género mas lhe iria conferir muito mais coerência no tempo e no espaço em que toda a acção se desenrola.
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5 / 10
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segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

The Conjuring: The Devil Made Me Do It (2021)


The Conjuring 3 - A Obra do Diabo de Michael Chaves (Portugal) é a mais recente longa-metragem da franquia The Conjuring que relata a história de Arne Cheyenne Johnson acusado de assassinar o senhorio da casa em que vivia e cujo caso foi acompanhado pelos Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga) que tentaram provar a sua inocência através de interferência demoníaca nas suas acções.
Seguindo alguns dos casos mais mediáticos, ou pelo menos os mais marcantes, da dupla "Ed" e "Lorraine", esta última entrega não revela a maior originalidade no que diz respeito à saga como um todo - afinal não nos podemos esquecer do primeiro caso que revolucionou um género "adormecido" e o segundo título que insere toda uma nova dinâmica dando origem a histórias paralelas como a The Nun (2018) de Corin Hardy - revelando-se apenas como possivelmente aquele caso que mais mediatismo gerou para com as actividades do casal de investigadores do paranormal (ou da actividade demoníaca) lançando-os para um ainda maior escrutínio dos olhares públicos na medida em que este foi o primeiro caso que chegou às salas de um tribunal e cuja defesa utilizou claramente os estudos investigações feitos pelo mesmo.
Senão vejamos... ainda que esta como as demais histórias se inserem na temática do paranormal/actividade demoníaca recuperando mais uma das diversas entidades que percorrem sob forma humana a terra, não deixa de ser verdade que ao contrário das anteriores, aqui se apresenta uma invocação de uma entidade em vez da sua existência no espaço procurando alguém para atormentar. Se este pequeno elemento parece irrelevante à primeira vista é, na minha opinião, o elemento que o transforma diferenciador dos demais na medida em que aqui o que é explorado é a intervenção humana no campo sobrenatural trazendo para si aquilo que se esconde nas ditas sombras e não estas presenças que se assumem como cientes de que pretendem ocupar o espaço que nós conhecemos. Eventualmente tão ou mais perigoso que essas entidades que assombram e infestam nas sombras será então a mão do Homem que as procura e pretende manipular para seu próprio benefício ou interesse. Dito isto, e evidenciando aquele que para mim será o elemento mais evidente ou talvez inovador da longa-metragem resta-me então avaliar a restante obra e equacionar se isso se traduz no demais enredo. As personagens que, à excepção dos protagonistas, tinham potencial para ir mais além acabam por se resumir a pontuais presenças na obra. Nem o jovem involuntariamente "habituado" ganha qualquer protagonismo ao longo da obra nem "Arne" (Ruairi O'Connor) ganha dimensão interpretativa resumindo-se apenas ao epíteto do "bom rapaz" que se vê numa situação complicada consegue ser "explorado" nesta obra conferindo-lhe mais humanismo ou credibilidade revelando mais sobre o seu drama pessoal - apenas temos alguns apontamentos do mesmo - perdendo-se, desta forma, na enorme amálgama de personagens que, ainda que sendo necessárias, fazem desviar a atenção de onde o espectador deveria estar centrado. Se já conhecemos os "Warren" (Wilson e Farmiga) e sabemos qual o seu enquadramento nesta saga, seria mais interessante explorar as vítimas e, neste caso concreto, os humanos agressores deixando um pouco de lado as dinâmicas que aumentam a duração da longa-metragem sem que, por vezes, sejam abonatórios para a sua boa execução. No entanto é também digno de referir que foi francamente interessante ver um dos protagonistas directamente influenciado pelo vilão de serviço desta história que sobre ele exerce todo um poder de manipulação que era, até agora, desconhecido não estando presente em nenhuma das outras longas-metragens precursoras e que quase os colocava num patamar de isentos da acção maligna que, compreendemos, persegui-los em boa parte destas histórias.
No que diz respeito ao aspecto mais técnico e visual de The Conjuring: The Devil Made Me Do It é justo dizer que se mantém fiel à tradição da saga (e do género como um todo) e que recria na perfeição toda uma atmosfera de terror onde o perigo é iminente fazendo valer-se dos efeitos sonoros e música para os momentos de tensão e do jogo de luzes e sombras da direcção de fotografia que recria o lado mais negro do que se espera numa história deste género. Se o medo existe e está presente então que se faça sentir e manifeste através destes elementos que são, em muitas histórias e esta não é excepção, tão importantes quanto as personagens que as compõem e dão vida. A atmosfera não é secundária é, aliás, boa parte daquilo que se espera de uma história de terror e esta longa-metragem volta a ser exemplar nessa componente.
Intrigante, tanto quanto aquela sala na qual os "Warren" escondem e guardam todos os objectos "infestados" com os quais se cruzaram e que poderiam certamente entregar todo um novo conjunto de histórias curiosamente maléficas, este The Conjuring: The Devil Made Me Do It parece querer assumir-se como um novo capítulo dentro da franquia na medida em que parece querer anunciar que o mal sim pode ter uma directa influência nos protagonistas deixando-lhes uma marca tão grande ou maior que aquela que deixa nas suas vítimas escolhidas. Serão estas ou os "Warren" os verdadeiros alvos?!



7 / 10

terça-feira, 2 de junho de 2020

Çîroka Bajarên Wêranbûyî: Singal (2020)

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Histórias de Cidades Destruídas de Sêro Hindê (Síria) é uma das curtas-metragens exibidas na plataforma digital do We Are One: A Global Film Festival que centra a sua narrativa nas ruínas de uma cidade devastada por um conflito armado estando o espectador a observar não só as mesmas como principalmente os sons que fazem agora parte da memória auditiva da mesma.
Ainda que esta curta-metragem documental seja de origem síria, a mesma poderia ser num qualquer outro local flagelado por conflitos armados e cuja vida - histórica, humana, social, económica, etc. - desapareceu. O início é revelador daquilo que foi... uma pequena cidade onde a vida florescia até o deflagrar de conflitos armados que destruíram toda a existência como até então era conhecida. Percorremos, na companhia de narradores ausentes, as ruas desertas onde observamos lojas destruídas, mercadorias abandonadas e escutamos também, como um barulho de fundo que marca a alma da cidade em questão, os sons daqueles que as habitavam... das profissões que exerciam... dos vizinhos com quem conviviam e das crianças que faziam ecoar à distância o som das suas vozes e dos seus sorrisos. O passado invade o presente fazendo revelar que a vida humana pode ter desaparecido dali mas que os fantasmas das mesmas continuam a percorrer espaços e memórias (isoladas ou não) de pessoas e actividades.
Barbeiros ou lojas de roupa são miragens do que outrora foram. Agora apenas assistimos as espaços sombrios e destruídos pelos conflitos que a acção do Homem fez eclodir fazendo-nos reflectir sobre aquilo que foi e já não é. Sobre a perda, sobre a morte, sobre a desolação e, como fim último, sobre como tudo pode mudar nos mais pacato e longínquo dos espaços que cede a uma acção bruta e desumana pelo poder de simplesmente "ter". Pouco resiste desse passado que lentamente desvanece transformando-se no pó que é (e vai sendo) invadido pelo deserto deixando apenas o eco da vida que outrora foi. Nunca nada se observa de vida... apenas das estruturas que se equiparam aos esqueletos daquilo que foi uma cidade.
Subtilmente transformadora pela forma como consegue transmitir ao espectador o assombro dos horrores de um conflito armado, esta curta-metragem consegue sobretudo pelo registo sonoro do passado impôr o medo e o horror àqueles que a observam no seu próprio silêncio.

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7 / 10

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domingo, 17 de maio de 2020

Cucharita Triple (2020)


Cucharita Triple de Roberto Pérez Toledo (Espanha) é uma das mais recentes curtas-metragens do realizador espanhol que aqui revela uma história de (tri)amor em tempos de pandemia.
Quando a situação de emergência sanitária provocada pela pandemia da COVID-19 a todos assolou, um trisal fica separado. Dois dos elementos de um lado. O outro isolado. Poderá uma relação sobreviver à distância?
Não escondo que cada vez que surge um filme de Pérez Toledo que não é sempre alvo da minha curiosidade principalmente pela forma como constrói as suas histórias sobre as relações (sentimentais) humanas e como lhes confere sensibilidade e credibilidade para as transformar em contos românticos com "alma". No entanto algo ficou esquecido nesta história em concreto que apenas se resume a um conto quase banal e esperado desta época muito particular em que o contacto e os afectos estão esquecidos ou, pelo menos, colocados em pausa.
Compreendendo as limitações que qualquer produção cinematográfica pode sentir neste momento em que por muito reduzidas que sejam as equipas têm, ainda assim, o contacto obrigatoriamente reduzido, não é fácil perceber também que esta história fica muito aquém daquilo que o realizador já nos entregou tantas e tantas vezes. Se o argumento se resume a um conjunto de momentos quase esperados - senão banais - de uma relação, aqui ainda temos de a equacionar como uma em que os elementos que a compõem (três) se encontram separados e de forma pouco justa para pelo menos um deles. Não que seja um mal que não se resolve pois os próprios dão conta disso mas, ainda assim, assistimos a uma quase banalização daquilo que se pode esperar de uma relação onde a mesma se constrói com o empenho e esforço de todos. Aqui não... aqui percebemos que um dos elementos para lá de só tenta esforçar-se para agradar os demais enquanto que estes se assumem como construindo algo... à sombra do primeiro. Das interpretações banais à história que parece que não se quer fazer valer de nada em concreto... sobra muito pouco.
Se Pérez Toledo é, como disse, brilhante nas histórias sentimentais dão visibilidade e valorando todas de forma a que se normalize o amor sobre todas as formas, aqui esta Cucharita Triple não conseguiu chegar ao espectador com o mesmo impacto de dezenas de outros filmes curtos da sua autoria conseguiram. Tudo pode ser resumido a uma banalidade, ao sentimento de isolamento como consequência da pandemia e aos lugares comuns que tanto se espera sejam evitados nestas histórias. Quando se fala de amor não precisa de ser eloquente (provavelmente nunca o é) mas, ainda assim, espera-se que o pouco que é dito ultrapasse barreiras ou fronteiras e que não decida permanecer no banal.


3 / 10

La Cuarta Cita (2020)

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La Cuarta Cita de Roberto Pérez Toledo (Espanha) é uma das curtas-metragens "espelho" dos dias que correm centrando a sua realidade na distância e nas novas tecnologias.
Como viver um amor à distância? Ele (Rubén Bernal) e Ele (David Mora) vivem os tempos da pandemia do COVID-19. Distantes da concretização da sua relação ainda recente, privam via webcam e recordam alguns momentos desse passado recente vivido com a proximidade e intimidade que, agora, são impossíveis.
Com algum humor e um notório flirt entre os dois protagonistas que brincam e parodiam sobre os momentos que já passaram juntos, este La Cuarta Cita - o quarto encontro - acaba por tecer uma interessante tese não propriamente sobre as relações ou a facilidade de comunicabilidade entre duas pessoas mas sim sobre como pode sobreviver uma relação em tempos de pandemia onde se pedem os distanciamentos sociais e uma paciência extrema que diminui à medida que os dias passam sem uma solução (esperada) à vista.
Numa clara manifestação destes novos dias pelo qual todo o planeta (sobre)vive, o cinema pela mão de Pérez Toledo ganha uma nova perspectiva entregando a concretização de novas histórias às tecnologias que inicialmente se assumiam como veículos inovadores de comunicação, que depois se transformam em peças mais ou menos banais do nosso dia-a-dia e que, finalmente, se revelam como eficazes instrumentos para que a Sétima Arte consiga, de melhor ou menos boa forma, contar as histórias que surgem por contar e que possam transformar estes dias incertos em momentos um pouco menos cinzentos. Distantes do encontro entre os dois protagonistas cuja intimidade e cumplicidade são notórias, independentemente de testemunharmos um primeiro ou um quarto encontro, La Cuarta Cita é sim a confirmação de que esta (ou outra) relação - ou amor - pode sobreviver mesmo que os dias se manifestem com as inesperadas complicações que agora se vivem. Esperando, para tão breve quanto possível, que o afecto, o desejo e o sexo se possam uma vez mais assumir pela confirmação de um toque, as duas personagens deixam ao espectador o poder da palavra que traduz os actos e a destreza dos olhares que confirmam o desejo.
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7 / 10
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sábado, 14 de setembro de 2019

Canção de Embalar (2019)

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Canção de Embalar de João Pedro Frazão (Portugal) é uma das dez curtas-metragens portuguesas nomeadas ao Prémio MOTELx nesta décima-terceira edição do festival que amanhã termina no Cinema São Jorge, em Lisboa.
Madalena (Beatriz Frazão) é odiada pela madrasta (Ana Mafalda). Madalena sempre sentiu a culpa do incêndio que matou o pai e que a madrasta não a deixa esquecer. Poderá ela continuar a resistir a uma vida onde a culpa a dominou?!
Visualmente rica e capaz de recriar tanto graças aos seus interiores como exteriores não só a atmosfera de um filme de terror como também um que centra a sua acção numa época passada, Canção de Embalar replica o esperado ambiente de um filme de terror tradicional... um acto de amor, o ciúme e a traição, um ambiente agreste e gótico onde as energias e os sentimentos desenvolvem um demónio interior que apenas espera o momento indicado para dar corpo às suas manifestações.
Uma vez confirmado este ambiente, que poderia ser romântico em boa parte graças ao espaço em que é filmado é em Sintra mas que mais se assume como medieval e gótico, Canção de Embalar reside essencialmente nas duas interpretações protagonistas a cargo de Beatriz Frazão e Ana Mafalda. Se da jovem Frazão predomina a linguagem corporal que a apresentam como uma jovem vítima dos caprichos de uma mulher mais velha a quem serve, já Ana Mafalda apresenta-se como aquela que é mais física e psicologicamente violenta fazendo do espaço e da jovem enteada aquilo que o seu sentimento de traição matrimonial a impele.
Ainda que praticamente centrada em pequenos espaços não aproveitando muito do potencial e um todo que havia sido inicialmente apresentado - a Serra de Sintra e as suas sombrias propriedades para muito poderiam contribuir -, esta curta-metragem é assim dominada pela carga emotiva apresentada pelas duas actrizes e por uma enigmática direcção de fotografia que fecha todo o ambiente numa claustrofobia quase angustiante e que não permite o espectador experimentar ou "viver" todos os pequenos recantos que são assim revelados pelo realizador. Sabemos que os espaços estão lá mas apenas a sensação da sua presença permite imaginar o que estará para "lá" daquilo que a câmara mostra.
Beatriz Frazão, inicialmente terna e uma assumida vítima nas garras de um mal maior, releva-se lentamente a um espectador curioso sobre o seu destino, uma vez que o passado acaba por ser revelado pela própria condição em que se encontra, enquanto que Ana Mafalda é a esperada vilã de um todo o mal poderá surgir a qualquer instante. No entanto, a grande surpresa desta curta-metragem reside no facto de que nem todas as vilãs o serão para sempre ou todas as vítimas tão inocentes como inicialmente se apresentam.
Curiosa pela sua dinâmica de filme gótico num claro e positivo apontamento do realizador que consegue transmitir ao espectador essa atmosfera em tão pouco tempo de duração, Canção de Embalar não consegue, no entanto, transformar-se naquele filme memorável (ou referência) do género capaz de abrir portas para uma maior exploração do mesmo ou até apresentar uma "madrasta" intensa mas mais sombria que a interpretação de Ana Mafalda pedia... sabemos que todo o potencial está lá... mas é pouco tempo para todo o seu esperado esplendor.
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5 / 10
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sexta-feira, 17 de maio de 2019

Contact (2018)

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Contact de Léa Bancelin (França) é uma curta-metragem de animação centrada na história de Marie, uma jovem mulher que, sem intenção, digita o número de Anne, uma amiga de infância, despertando em si recordações que achava esquecidas.
Numa oscilação entre o passado e o presente onde as memórias se cruzam com a potencialidade do "e se..." , a animação Contact centra-se na relação sentimentalmente próxima que as duas personalidades femininas desenvolveram em tempos mas que, na realidade, nunca ficara resolvida no imaginário de "Marie". Anos depois do que fora a sua relação sentimental, "Marie" vive uma vida aparentemente despreocupada mas que guarda um vazio experimentado depois daquilo que nunca se confirmou para com "Anne". Esta relação, talvez um primeiro amor de "Marie" ou, pelo menos, aquela que a fez despertar para a sua afectividade e sexualidade, transformou-se no "tal capítulo" que nunca revelou um verdadeiro desfecho levando-a não só ao termo de comparação para aquilo que, desde então, desenvolvera como, principalmente, a mantém suspensa nesta incerteza do que foi, do que pode ser e até do que poderá surgir sem nunca, no entanto, ter confirmado os porquês da sua presente solidão.
O espectador recebe "Marie" como uma jovem mulher do presente... Moderna, decidida e feminista cede, no entanto, perante a tal afectividade de juventude que a marcou. Ainda que as memórias possam não ser as mais positivas ou conciliadoras do seu "eu", é essa memória - ou a prisão que tem para com ela -, que a coloca num limbo sentimental que a impede, por exemplo, de cortar todos os laços com esse passado indefinido. "Marie" vive portanto, entre o que poderia ter sido, o que a levou a esse despertar e, sobretudo, à incerteza não necessariamente da sua sexualidade mais ou menos experimentada, mas principalmente à memória daquilo que no seu presente, não consegue confirmar.
Interessante do ponto de vista da importância das memórias e pela forma como estas conseguem colocar em suspenso toda uma vida que teima em não observar o futuro, Contact é, no entanto, uma curta-metragem de difícil acesso pela constante incerteza - ou falta de confirmação - daquilo que as memórias registadas permitem desconstruir não só do passado de "Marie" como também de um aparente estado de espírito pouco evolutivo face a esse passado tendo, no entanto, como positivo na sua narrativa o facto de conseguir manter uma edição coerente dos diversos momentos não deixando o espectador preso nessa mesma incerteza - de empatia - com que a sua personagem parece querer insistir em manter-se.
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5 / 10
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sábado, 24 de novembro de 2018

Caminhos Magnétykos (2018)

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Caminhos Magnétykos de Edgar Pêra (Portugal/Brasil) é a mais recente longa-metragem do realizador de O Barão (2011) e a obra escolhida para a cerimónia de abertuda da XXIVª edição dos Caminhos do Cinema Português que irá decorrer até ao próximo dia 1 de Dezembro no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra.
Raymond Vachs (Dominique Pinon) vive atormentado com o destino da filha Catarina (Alba Baptista) com casamento marcado com Damião (Paulo Pires), um influente junto das altas esferas. Na noite do casamento da filha, Raymond deambula pelas ruas de uma Lisboa distópica que já não reconhece lembrando-se dos tempos em que chegou à cidade da revolução... já ida e distante.
Esta edição dos Caminhos do Cinema Português não poderia começar de forma melhor. A mais recente obra de Edgar Pêra é não só inteligente, mordaz e sarcástica como, aliás, tem vindo a ser marca de toda a obra do realizador como sobretudo recupera uma essência tida no já distante Oito Oito (2002) no qual se exploram os podres meandros de um submundo que todos desconhecemos aqui elevando-o à contra-revolução que lançou o país num assustador marasmo bem distinto dos dias que hoje conhecemos.
Lisboa, como personagem pouco silenciosa desta história, uma vez que o espectador (re)visita muitos dos locais desta capital moderna e vanguardista mas aqui tolhida por um manto de "saudade" do antigo regime, assume um lugar cimeiro quando confronta lugares conhecidos e familiares transformando-os num assustador ermo onde todos os recantos ganham uma vida quase persecutória e acusatória onde a todo o momento poderá surgir uma inesperada denúncia. As sombras ganham um lugar de destaque nesta obra fazendo da "cidade branca" um local onde a liberdade, ainda que ilusoriamente presente -, mais não é do que uma miragem tida de outros tempos. Nesta Lisboa alternativa reina a moral, os bons costumes, a família e a tradição... A Nação, regida pelas velhas "conversas em família" e por um Primeiro-Ministro que come bolo de casamento de forma... a que todos vejam..., é o valor máximo para a consciencialização de todos... Acima dela... apenas Deus e é indispensável criar laços fraternos entre Governo e população que, dominada, caminha de cabeça baixa ou "pró-regime".
É então que a consciência e um certo sentimento de culpa pelo esquecimento dos valores que o trouxeram a esta Lisboa que "Raymond" caminha pela cidade como que embriagado pelo rumo que tudo levou. Encontrando-se em lugares familiares, com amigos do passado e até mesmo perseguido por um novo "pastor" "André Leviatã" (encarnado por um magnífico Ney Matogrosso) que tenta evangelizar para um novo caminho, "Raymond" acorda do seu sonho e deseja - ou espera - que tudo possa voltar a esse antigamente interregno de dois regimes absolutistas onde a força bruta e as prisões políticas dominadas por um assustador "General Spínola" (Albano Jerónimo) ainda controlam os destinos da população... "pouco prendada" e inexistente aos olhos do espectador.
A mecânica destas personagens em muito se assemelha a uma certa realidade nacional recentemente vivida... da solidariedade como fonte de lucro pessoal aos velhos fantasmas do passado que aqui ressurgem com outros nomes e identidades - assustadora a semelhança do Primeiro Ministro interpretado por António Durães com um real e ex-Presidente da República que este país viu com uma moral evangelizadora... mas pouco católica -, Caminhos Magnétykos é, para lá de uma obra alucinada muito ao estilo do realizador, um conto felizmente alternativo sobre os efeitos e consequências de uma certa portugalidade que, felizmente, não resistiu nem tão pouco deu continuidade àquilo que em '74 terminou.
Aqui a democracia é apenas aparente, a liberdade apenas momentânea e puramente ilusória, os valores são de uma pacificação social e adversa a qualquer tipo de manifestação de reivindicação de direitos e as perseguições e prisões políticas ainda existem... por essa Belém com contornos medievais e que esta nova ditadura tão bem disfarça graças a um aparatoso sistema de imagem e comunicação social que esconde a verdadeira essência deste regime que grita "Portugal é Nosso", "Tudo pela Nação" e cuja saudação fica muito próxima... desses idos tempos pré-'74. Por momentos escutamos o "Raymond" de Pinon dizer que o tal país de '74 já não existe... enquanto acompanhamos imagens dos tempos revolucionários que conferiram real liberdade à população enquanto, ao mesmo tempo, observamos anúncios de recolher obrigatório com a Ponte 25 de Novembro ao fundo... sim, 25 de Novembro... e compreendemos que, nesta lógica, segurança é paz... que forma mais "inspirada" para manter a população controlada!
Lisboa assume-se assim como uma cidade nocturna, cinzenta, misteriosa e, ao mesmo tempo, selvagem... escutam-se murmúrios, rugidos... é futurista mas apenas para uma certa camada social que pode percorrer esses espaços estando todos os demais ou ocultos ou de acesso à "plebe" que não pode frequentar ou conhecer espaços mais "sociais" onde poucos convivem de forma irracional, lasciva mas às escondidas podendo negar todos os comportamentos tidos... semelhantes àquilo que condenam para os demais e tudo isto num ambiente cinematográfico que surge como a já reconhecida assinatura de Pêra mas que, ao mesmo tempo, confere às suas obras uma certa dinâmica Lynchiana... sonhadora (ou de pesadelo), sombria, negra e por vezes quanto baste assustadora.
Portugal surge assim como uma nova ditadura pós ditadura... um país de aparências e de brandos costumes onde têm direitos aqueles que têm posses e respeitam os bons ditames do regime, deixando todos os demais condenados a uma existência apenas de deveres e onde o silêncio é bom pagador, limitando-se às suas margens e a um silêncio ensurdecedor no qual reclamam as suas liberdades que nunca irão ver reconhecidas. Afinal Portugal é nosso... mas não de todos!
Com um belíssimo momento ao som de "Rosa de Hiroshima" cantada por Ney Matogrosso e uma interpretação que tem tanto de mágica como alucinada de Dominique Pinon, são também as interpretações secundárias que se destacam em Caminhos Magnétykos como, por exemplo, a do próprio Matogrosso, a de um temível Albano Jerónimo como o rosto de uma nova polícia militar política alinhada com o regime e a de um lascivo e jocoso Paulo Pires que por breves instantes dominam o grande ecrã.
Edgar Pêra fê-lo de novo... Caminhos Magnétykos é uma obra cinematográfica que facilmente será das emblemáticas de todo o seu percurso cinematográfico criando uma personagem masculina central - Pinon - ao estilo de O Barão... numa Lisboa selvagem tal como em Lisboa Verde 3D (2014)... juntando-lhes todos os elementos de ditadura escondida nas franjas da sociedade visíveis no já mencionado Oito Oito. Uma das obras maiores desta edição dos Caminhos? Não tenho a menor das dúvidas...
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"Primeiro-Ministro: A solidariedade só é verdadeira se houver uma compensação egoísta."
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8 / 10
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Como Fernando Pessoa Salvou Portugal (2018)

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Como Fernando Pessoa Salvou Portugal de Eugène Green (Portugal/França/Bélgica) curta-metragem pré-seleccionada aos César da Academia Francesa de Cinema, é uma das presentes na competição oficial da XXIVª edição dos Caminhos do Cinema Português que hoje se iniciaram em Coimbra, no Teatro Académico Gil Vicente.
No Portugal dos anos 20 anuncia-se a chegada da Coca-Louca (!!!), uma bebida demasiadamente diferente e para a qual se necessitava de criar a campanha publicitária perfeita. Num país em que o regime se começava a manifestar como conservador, poderá este modernismo encontrar o seu lugar?
Eugène Green escreve um argumento que insere uma certa passividade nas suas personagens como, ao mesmo tempo, retrata de forma mordaz e por vezes sarcástica esse limbo existencial em que a sociedade portuguesa se encontrava nas primeiras décadas do século passado. Momento esse que, em boa medida, viria a perdurar no país nas próximas décadas e que caracterizava o "bom português"... tranquilo, que não gerasse grandes polémicas e temente a uma ordem social profundamente religiosa e de bons costumes. Nesta medida, encontramos todo um conjunto de personagens nomeadamente o "Fernando Pessoa" de Carloto Cotta ou o "Moutinho de Almeida" interpretado pelo também realizador Manuel Mozos como duas almas desprovidas de grandes manifestações comportamentais e, dessa forma, com o semblante numa perpetuação expressiva difícil de interpretar.
Se a certa altura se depreende que a publicidade tem de "casar" com a poesia dando-lhe assim uma maior componente artística capaz de alcançar o público não só pelo slogan - que na realidade haveria de persistir até à actualidade... afinal quem não conhece o "primeiro estranha-se... depois entranha-se" - como também pela imagem sedutora que apelaria a um imaginário mais físico e sensualizado, a realidade social e cultural do país começaria a, muito rapidamente, dar sinais de que o que iria prevalecer seria um conservadorismo inerente a uma população demasiadamente rural e analfabeta que, para lá de controlada, estaria concentrada a obedecer a essa ordem social que se impunha. Assim, e ignorando o produto em si que facilmente se compreende como o que é, Como Fernando Pessoa Salvou Portugal é mais o estudo da sociedade e das suas inúmeras figuras amorfas, controladas, tementes e sobretudo receosas daquilo que o país e as suas forças lhes poderiam reservar... Tementes ao ponto de compreenderem que para sobreviver é preciso ignorar qualquer tipo de expressão ou emoção para com aquilo que se faz, sente ou representa.
No final... nesse final... compreende-se que Portugal não foi salvo tendo apenas sido adiado... adiado na sua liberdade, na sua manifestação e na sua vontade de viver, ocultado por uma sombra que duraria décadas e da qual dificilmente se poderia fugir para lá das suas margens que nos opunham a, basicamente, tudo o demais.
Da amoralidade à sua real expressão, temos um intenso mas propositadamente contido Carloto Cotta seguro de uma forte interpretação e um manifestado veículo dessa bipolaridade do poeta que tanto, e tão bem, não só o caracterizou como ao Portugal do seu tempo sem com isto esquecer a ainda mais atípica interpretação a cargo de Manuel Mozos como um homem que tenta sobreviver nesse dito Portugal.
Curiosa e cuidadosamente filmado, Como Fernando Pessoa Salvou Portugal é para lá de original uma lufada de ar fresco no cinema português e um interessante, cómico e sarcástico retrato de uma portugalidade ainda não desaparecida... mas felizmente quase extinta.
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7 / 10
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O Coração Revelador (2018)

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O Coração Revelador de São José Correia (Portugal) é mais uma das curta-metragens a ser exibidas no Teatro Académico Gil Vicente no âmbito da selecção oficial do Caminhos do Cinema Português.
Dois homens. Um jovem (Rui Neto) e o outro mais velho (Marques d'Arede). O primeiro é paranóico enquanto o último é uma vítima dessa loucura.
Com argumento da própria realizadora baseado num conto de Edgar Allan Poe, O Coração Revelador é um intenso relato sobre a loucura de um homem que aprisiona uma vítima que em tempos amava. Desconhece-se a relação que outrora unira estes dois homens deixando apenas a sugestão de que essa cumplicidade terminou pela permanente convivência de ambos bem como pela perversidade que os pequenos detalhes levaram a uma corrosão do espaço em que ambos viviam.
Ainda que expostos à deterioração da relação de ambos, o conto de Allan Poe consegue manipular de forma mais intensa esse término e expõe os limites - ou a falta deles - de um homem conduzido pela embriaguez da loucura. Da fase do planeamento à execução de um crime de contornos macabros, O Coração Revelador é assim a exposição de uma mente perturbada num ambiente fechado de uma clausura imposta e de uma esquizofrenia que ultrapassou todas as fronteiras e limites.
De ambiente sombrio, esta curta-metragem seduz pelo elemento desconcertante imposto com a interpretação de Rui Neto mas, ao mesmo tempo, satura pela mesma componente na medida em que a quase totalidade desta obra se centra na expressão deteriorada da personagem que sucumbiu face a qualquer directo discernimento racional que o seu pensamento alguma vez tivera. Interessante pela composição da personagem, esta curta-metragem deveria ter explorado de igual forma o ambiente que fora espaço comum entre ambas não se limitando à declamação de um conto que transcreve-se de forma fiel a mente humana - do jovem -, mas sim revelar (tal como o título indica) tudo o que de negativo se foi acentuando na relação bipartida.
Capaz de revelar mais do que a mente, também o coração, esta curta-metragem peca pela escassez de tempo que seria necessário para abrir mais fronteiras entre a dinâmica das duas personagens.
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6 / 10
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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Carga (2018)

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Carga de Bruno Gascon (Portugal) é a primeira longa-metragem do realizador das curtas-metragens Boy (2014) e Vazio (2015) cujo argumento - também da sua autoria - remete o espectador para uma história tragicamente real nos nossos dias... o tráfico e exploração de seres humanos.
Viktoryia (Michalina Olszanska) chega a Portugal no contentor de um camião conduzido por António (Vítor Norte). Esta não é uma viagem qualquer... O primeiro sinal da sua vida chega quando Viktor (Dmitry Bogomolov) revela que todos estes imigrantes são pequenas peças de uma rede de tráfico e exploração sexual que irá, de forma inimaginável, alterar as suas vidas. Viktoryia terá de conseguir sobreviver-lhe.
Foi a inteligente mediatização desta longa-metragem, a sua campanha de divulgação e a anterior obra da dupla realizador Bruno Gascon e produtora Joana Domingues que, aliada a um magnífico elenco onde figuram para além dos já referidos actores outros como Rita Blanco, Ana Cristina Oliveira, Miguel Borges ou Duarte Grilo que fizeram de Carga uma das mais esperadas longas-metragens deste quase final de ano cinematográfico.
O argumento, também assinado pelo realizador, transporta o espectador para um muito silenciado drama moderno fruto de uma abertura fronteiriça que é agora, o inexistente limite para a propagação livre do tráfico de seres humanos às mãos de uma máfia sedenta do mais rápido lucro económico que a mesma lhes proporciona. Neste contexto, assistimos então a uma infindável rede de "profissionais" que exploram não só a miséria alheia com vista ao lucro próprio mas sobretudo os limites invisíveis de uma lei que, na realidade, opta por ignorar aquilo que não "vê". É então que começamos por conhecer "Viktoryia" (Michalina Olszanska), uma jovem mulher que, descendente desse distante leste Europeu, encara no Ocidente a saída para a sua recuperação económica podendo, dessa forma, sustentar toda uma família que (desconhece mas subentende o espectador) espera por dias melhores. Mas, do distante antigo bloco soviético a esta Europa Comunitária ainda encarada como um qualquer eldorado onde as hipóteses e os sonhos são ainda uma possibilidade, existe toda uma distância não só geográfica como principalmente oportunista e cínica que assume a miséria alheia como a fonte de resolução dos seus problemas. Por um lado encontramos todo um conjunto de máfias que assumem as dificuldades dos seus compatriotas como uma hipótese de alcançar o sucesso (financeiro), estabelecendo-se como importantes "homens de negócios" neste Ocidente que voluntariamente os ignora... Por outro, encontramos todo um conjunto de intermediários que encaram nesta "actividade económica" a (sua) mais recente forma de sustento possibilitando um melhor nível de vida que a crise recentemente sentida veio abalar. Pelo meio são estabelecidas todo um conjunto de redes e artimanhas que não só perpetuam esta "negociata" como principalmente estabelecem relações de dependência com as referidas máfias, impossibilitando o mais honesto dos "homens de trabalho" (entretanto já não tão honestos) de saírem destas redes... mesmo que o tentassem.
Estabelecida que está a dinâmica de Carga - e dos seus principais intervenientes - reside então o drama das vítimas, aquele tentado pelos agressores que a meio gás reflectem sobre o dilema moral que violentamente sobre eles se abate, a conivência dos "ricos empresários" deste Ocidente que encontram nestes "encontros" pagos a forma de expiarem os seus desejos mais selváticos e imorais ao mesmo tempo que outros, nos seus limites, vivem na ignorância - como a personagem interpretada por Blanco - e, de certa forma, também as famílias destas jovens mulheres que se mantêm num esquecimento perpétuo desconhecedores dos destinos das suas filhas.
No meio de alguns lugares comuns sobre a acção desta máfia de leste que em vez de explorar economicamente todos os migrantes que fazem chegar à Europa Ocidental optam por eliminar todos aqueles que são do sexo masculino ou mesmo o aspecto terceiro mundista com que chegam a este canto do continente já não tão encantado, Carga deposita mais o seu foco na perspectiva de todos os referidos intermediários do que propriamente na vítima protagonista aqui a cargo de uma inspirada e combativa Olszanska que não se resigna à sua condição de vítima optando por uma luta da qual, em última instância, poderá sair perdedora. Assim, é ao longo da dinâmica estabelecida logo no inicio desta longa-metragem, que o espectador observa em primeiro lugar a perspectiva de "António" (Vítor Norte), o aparentemente pacato homem de família, distante da mulher que ama e um daqueles homens de respeito que se transformou num inesperado pai da própria neta em virtude da emigração da filha vítima, também ela, da crise que o país conheceu. Observamos ainda como a sua própria mulher (Blanco), se transforma no rosto de uma humanidade ainda querida dos Portugueses que insistem em auxiliar - sem questionar - o primeiro desamparado que lhes bate à porta - a seu tempo o momento mais esperado desta longa-metragem que resulta naquela ode à ironia - mas, sobretudo, ao desencanto tardio dos intermediários a soldo "empregados" por essa máfia como a "Sveta" de Ana Cristina Oliveira - gélido e convincente o seu desdém para com  "Anna" de Sara Sampaio - onde se compreende que também ela fora em tempos uma vítima daquilo ao qual hoje dá continuidade ou o "Mário" de Miguel Borges que depois de ter entregue centenas ou milhares de mulheres a um cruel destino se deixa encantar pela beleza de "Viktoryia" compreendendo que tem de a salvar... custe o que custar.
Mas, é neste deambular de consciências mais ou menos pesadas em choque com um humanismo e vontade de fugir e sobreviver apresentados pela vítima que surge também o tal esperado rosto do mal encarnado por um sinistro "Viktor" (belíssima composição de Dmitry Bogomolov). De sorriso fácil mas nunca quente ou tão pouco convidativo, Bogomolov encanta pela forma como seduz forçadamente pelo poder das suas palavras, pela certeza das suas convicções e mais ainda pela garantia que o seu olhar confere de que nada do que de ma se espera é tão mau quanto aquilo que o próprio pode provocar. O seu "Viktor" garante... podias - nunca se saberá - nunca ter entrado no "negócio"... mas jamais conseguirás sair dele sem que sejas real e definitivamente eliminado... Seguramente uma das mais fortes interpretações às quais deu corpo e alma, Bogomolov surge aqui com um dos mais intensos desempenhos desta história capaz de deixar o espectador na dúvida sobre se não irá encontrar uma qualquer explosão da sua personagem... e encontra - spoilers aside - mas, ainda assim, conseguir que o espectador não se distancie da mesma.
A temática do tráfico de seres humanos não é novidade no cinema português... já o tivemos com Transe (2006), de Teresa Villaverde, Yulya (2015), de André Marques ou na curta-metragem deste  ano Yellow Country, de Dinis M. Costa explorando todas as vertentes do crime organizado... das pressões e ameaças às chantagens e à política do medo sem esquecer os efeitos colaterais que todas as inesperadas vítimas e intervenientes exibem aquilo que todas estas obras tentam filmar (e consciencializar).. No entanto, Carga surge possivelmente num momento em que o público se encontra mais receptivo - e eventualmente mais consciencializado - de que este "negócio" do tráfico de seres humanos existe e talvez não tão longe das suas fronteiras e das suas portas... não é apenas uma realidade de um qualquer destino que dificilmente identifica e que desconhece pela sua distância. Esta exploração económica e sexual existe e, tal como o título da longa-metragem indica, para muitos que a praticam mais não é do que uma forma de "carga" que se transporta de destino a destino e que faculta mais algum dinheiro ao final do mês... indiferenciada que está a "mercadoria", porque não começar finalmente a perceber que também dentro das nossas fronteiras - e a tal ideia de que pode acontecer mesmo na "casa do lado" - existe a ocorrência sistemática de um crime que possivelmente não se quer encarar e admitir... Assim, e talvez de forma diferente das obras anteriormente mencionadas, a longa-metragem de Bruno Gascon consegue juntar o útil ao agradável - estranha mas indicada escolha de palavras - conseguindo filmar um drama real de forma séria mas comercial capaz de chegar a um público maior e mais receptivo e cujo próprio leque de actores, também pela sua mediatização, poderá conseguir "recrutar" público às salas e criar a tal consciência de que o que vemos não é apenas um filme unindo de forma inteligente as várias "funções" de um filme... entreter e ensinar ou dar a conhecer.
Consciente de uma importante mensagem a transmitir, fruto de um argumento bem estruturado, mesmo tipificando por vezes em demasia o "protótipo" do emigrante de leste e do português bom samaritano, Carga tem ainda uma imponente música original - parabéns a Filipe Goulart e Milton Núñez - que, no entanto, nem sempre funciona para a melhor dramatização de todos os momentos onde, por vezes se pressupõe que vai existir um qualquer clímax quando, na realidade, nem sempre o mesmo se encontra "no momento", assim como uma sumptuosa direcção de fotografia de JP Caldeano que capta, com a mesma segurança, tanto as cores naturais desse país real rude mas quase sempre sobre-humano, como também essa assumida desumanização dos calabouços onde todas as vítimas (sobre)vivem à espera de uma libertação que tarda ou nunca chegará... a escuridão envolve-(n)os e aquelas prisões de porta destrancada tornam-se sombrias e verdadeiros labirintos assumindo que qualquer um, quando preso nestas malhas do crime, é seu refém.
Inteligente, pertinente, actual e consistente do início ao final, Bruno Gascon triunfa com esta Carga... uma primeira longa-metragem onde se expõem não só vítimas e mandantes do crime como principalmente todos aqueles que pelos mais variados motivos subsistem com a perpetuação do mesmo. Sobre estes últimos permanece o dito popular... Em terra de cego, quem tem olho é rei... pelo menos... até um dia!
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sábado, 15 de setembro de 2018

Cartas para um Ladrão de Livros (2017)

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Cartas para um Ladrão de Livros de Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini (Brasil) é um dos documentário em competição na vigésima-segunda edição do Queer Lisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorre no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema até ao próximo dia 22 de Setembro.
Laéssio Rodrigues de Oliveira é considerado pelas autoridades brasileiras como o maior ladrão de livros raros no país. Do balcão de uma padaria onde começou a trabalhar à sua paixão por objectos evocativos da memória de Carmen Miranda, Laéssio começou a frequentar - enquanto apaixonado - diversos arquivos históricos do país onde a segurança era mínima e deles retirar todos os documentos históricos que satisfaziam a sua paixão. De uma vida simples à alta roda dos "comerciantes" de arte, Laéssio tornou-se uma figura de destaque na casa da sociedade brasileira ao mesmo tempo que crescia o registo do seu nome nos arquivos das próprias autoridades.
Tradicionalmente habituado que está o espectador a ver filmes em que as histórias de "ladrões" se centram em vulgares criminosos que roubam tudo o que está ao seu alcance, privados de qualquer tipo de cultura ou de bem-estar em sociedade, Cartas para um Ladrão de Livros surpreende na medida em que todos são apanhados de surpresa ao observar um conto real sobre alguém que se focou não em meros assaltos de dinheiro mas sim em alguém que utilizou os seus conhecimentos auto-adquiridos e a cultura que possuía para engendrar aqueles que seriam alguns dos maiores assaltos no país a obras de arte... livros.
Laéssio é assim a figura central deste documentário que se centra na sua detenção, no seu percurso enquanto homem livre e nos inúmeros meandros de uma vida intimamente ligada a furtos de obras de arte que o levaram uma e outra vez a novas detenções e ao conhecimento - do espectador - da sua ligação com figuras de primeira linha social que pactuavam com os seus assaltos mas que nunca são identificados. Laéssio é portanto a "personagem" principal da sua própria história... o espectador fica a conhecê-lo não só pelos relatos dos seus crimes mas também pelas suas próprias palavras e comportamentos que o denunciam enquanto um homem simples, modesto e de origens humildes, casado com outro homem que o espectador nunca compreende na realidade se actuou como seu parceiro ou mais não foi do que culpado por associação - esta última sendo a versão apresentada pelo próprio Laéssio -, e verificar, ao mesmo tempo, como todo o sistema de segurança de museus e bibliotecas no país acabou por ser alterado graças às consequências dos seus próprios actos.
Inteligente, culto e com um sentido de humor apurado, Laéssio acaba por ser o rosto de um certo Brasil desprivilegiado que tudo faz para poder vencer na vida mas que, neste caso em concreto, o tentou por via do crime e de elaborados esquemas indetectáveis para todos os demais. Com um sentido de humor apurado e sempre dotado de uma contextualização histórica que revela as suas origens, os seus amigos e mesmo a sua vida, este documentário revela o homem para lá do crime, para lá das suas origens e principalmente ele enquanto um homem interessado no contexto histórico do seu país... ainda que para este âmbito cultural nunca tenha optado pelas melhores vias.
Contextualmente pertinente e socialmente cativante, Cartas para um Ladrão de Livros é sobretudo o rosto de um Brasil empobrecido e onde as oportunidades não se encontram ao alcance directo de todos, onde muitos tentam vencer - independentemente do crime - e estabelecer uma identidade própria - para o indivíduo e para o país - através do seu legado histórico tantas vezes deixado ao abandono ou à indiferença mas capaz de, com os próprios erros, obter alguma noção da importância do passado com vista a almejar um futuro onde essas oportunidades possam ser concretizadas... pessoalmente com um maior enriquecimento do indivíduo e nacional com um reconhecimento do património histórico de um passado ainda pouco estudado ou preservado mas, até então, desprotegido e à mercê dos carrascos que o tentam delapidar para uso próprio... Afinal, o que este documentário tenta lançar para o conhecimento do espectador é o facto de que o criminoso nesta "história"... não é só Laéssio.
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7 / 10
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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Cachorro (2017)

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Cachorro de Jesús Rivera Soriano (Espanha) é um daqueles filmes curtos que deixa todo um universo de imaginação sobre os destinos das suas personagens. Diz-se que as leoas obrigam as suas crias a abandonar o grupo aos dois anos. Destas só as mais fortes se tornam adultos. Mas a grande pergunta é... o que acontece quando uma leoa não desiste de defender a sua prole?
"Marta" (Cristina Alcázar) vai buscar o filho "Daniel" (Pedro Tamames) à escola. A relação entre mãe e filho parece tensa e são escondidos alguns ressentimentos que compreendemos advirem de um passado traumático que ambos conhecem mas que nenhum ousa mencionar (para o espectador) mantendo toda a dinâmica das suas acções futuras num suspenso temporal que se acumula e que dá forma a um clímax porvir.
Mãe e filho falam por entrelinhas, de uma sua relação que oscila entre o desdém (pensa o filho) e a não compreensão (de uma mãe) sobre aquilo que o jovem passara. Aos poucos, e sem nunca revelar muito de concreto sobre esse passado, percebemos que procuram "Raúl", ou pelo menos procura-o ela, numa tentativa de obter respostas e justificações sobre um evento que, pela ausência da sua confirmação se assume como algo transformador e que modificou toda uma vida ainda jovem. Para o espectador mantêm-se pequenos elementos que o remetem para o mais trágico... um agressor físico ou sexual que retirou a inocência e a juventude de um jovem que vive uma silenciosa revolta com os seus grupos primários... uma escola onde não quer estar... uma mãe com a qual não quer dialogar... até mesmo um mundo onde parece não querer estar. A relação entre mãe e filho parece deteriorada ao ponto de o jovem achar que a mãe o despreza... que tem por ele uma relação de indiferença e desdém impróprios na relação parental que com ele deve - e tem - de estabelecer mas, no entanto, são as heróicas relações que esta mãe estabelece ao procurar um homem que na realidade não deveria querer encontrar, que o espectador compreende que para lá da relação dupla que se estabelece entre eles, existe uma outra estabelecida com o espectador que inicialmente ignora o que está para lá dos diálogos mas que rapidamente intui que decorre enquanto o tempo passa nesta busca incessante.
Como qualquer redenção - aqui entre mãe e filho - também esta chega com a celebração de um pequeno ritual que noutras circunstâncias não chegaria e poderia até ser impensável. Aqui mãe e filho, para lá da buscar de um qualquer agressor, procuram sim um novo alento para a sua própria relação para que ambos consigam, eventualmente, sobreviver enquanto aquilo que são... a primeira e última relação que nenhuma ameaça poderá destruir. Desta forma, não é tanto o que aconteceu no passado - mais ou menos recente - aquilo com o qual o espectador se deve preocupar. Aquilo que está de facto presente nesta curta-metragem é a relação de sobrevivência de duas pessoas cujo orgulho e dignidade foram quebrados, danificados e molestados. Sobrevivência essa que se chega, talvez não da melhor forma mas através daquela que é possível, para amos, como o garante de que o dia de amanhã irá chegar... Sensação essa - que a passam - graças a duas sólidas e dominantes interpretações que se impõe inicialmente pelo seu desespero e, finalmente, pela magnitude da sua redenção com um futuro que há-de vir e com a confirmação de que ambos estarão lado a lado para testemunhar esse que se espera grandioso.
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8 / 10
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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Calipso (2018)

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Calipso de Paulo A. M. Oliveira e Pedro Martins (Portugal) é uma das curtas-metragens candidatas ao Prémio MOTELx de Melhor Curta-Metragem de Terror Portuguesa no decorrer desta que é a décima-segunda edição do MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa a decorrer no Cinema São Jorge até ao próximo dia 9 de Setembro.
Lisboa num tempo incerto. Um epidemia que transforma as pessoas em zombies caiu sobre a cidade obrigando-as a ficarem isoladas em casa num período de quarentena. Bruno (Pedro Laginha) e Sandra (Adriana Moniz) são duas delas. Um casal abatido com a pressão do momento e sobretudo pelo isolamento em conjunto numa altura em que a tensão se faz sentir também dentro do próprio casal.
O argumento de Pedro Martins não poderia ser mais fiel ao género proposto. Temos um vírus... duas personagens a viverem em isolamento do mundo exterior e claro, a consequente degradação da sua relação. Mas, é esta degradação marital que se expõe aqui com maior dinâmica. Imaginemos por instantes um casal que, no fundo, já não se suporta. Imaginemos como consequência que tudo estava preparado para que cada um seguisse a sua vida. Com este imaginário em mente, imaginemos então que um deles não estava assim tão certo ou seguro do que pretendia da sua vida e, como tal, do desfecho desta relação. Agora, coloquemos toda esta dinâmica marital num momento em que o mundo colapsa, em que a ordem desaparece e onde ambos não possam abandonar o mesmo espaço e seguir com aquilo que a vida lhes reservava. Nesta perspectiva... são capazes de imaginar o terror?!
Se o mundo como o imaginamos se desfaz quando uma relação que em tempos julgámos sólida já não o é... o que resta quando o próprio mundo nos obriga a viver diariamente sem qualquer fuga possível, junto do ambiente que tínhamos como degradado? Os pequenos gestos transformam-se em expoentes de um ódio não manifestado e todos os pequenos actos, acções e até mesmo reacções do "outro" são, para esta nova concepção do "eu", uma ameaça à própria segurança. Assim, aquilo que "Bruno" e "Sandra" revelam para o espectador é um conjunto de dinâmicas que oscilam entre a suspeita, o medo, o desdém e a breve memória de que em tempos foi, tudo aquilo, o que sempre haviam desejado.
O mundo, aquele que conhecemos como social e agora aquele que nos foi pessoal, já não é o que em tempos se apresentara. Agora, tudo é uma questão de sobrevivência... mesmo dentro de quatro paredes. É com esta dinâmica que Calipso se apresenta como uma curta-metragem inteligentemente elaborada expondo a dinâmica do (ex-)casal quando num cativeiro forçado e onde o vírus (a real ameaça...) se encontra lá fora prestes a manifestar-se... ou já se terá manifestado? Assim, aquilo que esta curta-metragem apresenta sobre a dinâmica do casal é o que se impõe numa história que leva o espectador a ignorar esse "lá fora", expondo o casal como o último reduto de uma civilização perdida... desta forma, como poderão eles ser os exemplares da nova sociedade quando... ali dentro... a própria pode já não existir?
Com voz-off de Adolfo Luxúria Caníbal e algumas surpresas que podem desmistificar as noções já conhecidas sobre o género, Calipso levanta a fasquia para com as curtas-metragens apresentadas nesta edição do MOTELx e os seus instantes finais conseguem superar, em boa medida, toda a dinâmica que a restante obra consegue apresentar. Surpresas surpresas... só mesmo no final.
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7 / 10
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domingo, 5 de agosto de 2018

The Colony (2014)

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The Colony de Jack Larkin (EUA) é mais uma curta-metragem a recuperar o género "mundo invadido por zombies" mas concentrado numa vertente de comédia de absurdo que, afastado da inteligência e do bom gosto, cai no eterno erro de ser apenas mais um "filme de amigos".
Uma área residencial próxima de uma floresta... um grupo de jovens sobreviventes. A falta de atenção e de rigor numa época de crise podem lançar a comunidade numa rota de colisão com a sua própria sobrevivência.
Com argumento de Jacob Ayres, The Colony cedo se assume como um filme amador e de amigos com o único propósito de divertimento que se deixa levar pela mútua paixão do género de cinema de terror que este grupo tem não adiantando, no entanto, nada não só para o género como principalmente para a esperada dinâmica que o mesmo pressupõe. Sempre num registo de humor encoberto onde o acaso e a ironia premeditam todo um conjunto de situações anómalas típicas de uma sociedade desfeita e de uma comunidade que pretende sobreviver às adversidades de um tempo de "fim", The Colony não adianta nada para lá do objecto de estudo que realizador e demais técnicos tentam retirar desta história.
Enquanto objecto experimental pode o espectador encontrar em The Colony um elemento prático de conhecimentos teóricos pré-estabelecidos e expectáveis não só género como de uma obra de cinema em potência. No entanto, analisada enquanto obra cinematográfica, The Colony é uma curta-metragem banal, tendencialmente desinteressante e pouco inspirada não conseguindo em momento algum ser dinâmica ou causar o sobressalto esperado que o género pede.
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1 / 10
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domingo, 10 de junho de 2018

Cropped (2015)

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Cropped de Chris Thomas (Reino Unido) e com argumento de Allan MacLeod revela a história de um grupo de entusiastas pela actividade extra-terrestre na Terra aquando de uma visita turística pelos misteriosos campos de cultivo no interior das ilhas britânicas. Conduzidos na visita por uma descrente Barbera (Annie Walker), o grupo vai ter mais do que esperava com esta visita relâmpago...
Dinâmica deste o primeiro instante graças a um conjunto de personagens que oscilam entre o cómico e o bizarro, Cropped afirma-se através de um sentido de humor muito particular no qual, aqueles que vivem dos passatempos ou crenças dos demais são os primeiros a ridicularizá-los de forma a transformá-los em indivíduos com falta de personalidade e até mesmo... inteligência. No entanto, a grande questão que cedo se levanta é... e se os avistamentos são, de facto, reais? Como proceder no caso de encontrar alguma dessa vida extra-terrestre que tanto se afirma visitar o planeta na penumbra?!
A breve história desta curta-metragem que não ultrapassa os cinco minutos desenvolve-se e conclui-se - curiosamente - no espaço de uma carrinha onde estranhos convivem com um propósito comum... é no seio dessa carrinha que o único confronto se desenrola e no qual as personagens ganham uma inesperada vida transformando-os de breves passageiros em protagonistas de uma história que inicia e que encerra mas que, ao mesmo tempo, permite ao espectador imaginar que mais existirá para lá daquilo que o mesmo vê... Afinal, é no exacto momento em que tudo termina que toda uma nova viagem poderá estar por acontecer...
Com uma vivida interpretação de Annie Walker como a turbulenta guia turística farta desta vida profissional que parece abominar e detestar mas na qual se afirma mais não fosse pelo poder descontrolador dos seus pulmões, Cropped é o típico filme curto que presta homenagem não só ao género - ficção científica e comédia - como também se assume como uma história de tal forma bem estruturada que tudo revela... nos seus escassos minutos. Intenso - principalmente no factor de comédia - Cropped é, assumidamente, a curta-metragem de eleição para os apreciadores de histórias que permitem ao espectador deixar-se levar pela sua imaginação.
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7 / 10
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