quarta-feira, 13 de junho de 2018

Lupo (2018)

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Lupo de Pedro Lino (Portugal) é um documentário presente na competição pelo Lince de Ouro no FEST - New Directors New Films Festival a decorrer em Espinho a partir da próxima semana.
Quem foi Rino Lupo? Para onde foi? Qual a sua obra e o seu percurso cinematográfico? Numa obra que se estende por aproximadamente noventa minutos, Lupo centra-se num ensaio de factos verídicos e algumas suposições que permitem ao realizador, e para o espectador, tecer algumas considerações sobre o destino do realizador luso-italiano que deixou obra não só em Portugal como também em diversos países europeus como Itália, Rússia, Dinamarca, Polónia, Alemanha, França e Espanha.
Iniciando a sua dramatização em Fevereiro de 1884 aquando do nascimento de Cesare Augusto Lupo em Roma, sabemos que iniciou um breve percurso cinematográfico no seu país de nascimento antes de partir rumo à Alemanha onde desenvolveu a sua primeira longa-metragem baseada na amizade de dois soldados - um francês e um alemão - durante a Primeira Guerra Mundial. Com o eclodir da guerra parte para a Dinamarca e daqui para Moscovo onde permanece até aos primeiros instantes da Revolução Russa tendo abandonado o país devido à extrema pobreza sentida, facto que constatou também na Polónia para onde se dirigira onde escuta pela primeira vez comentários sobre os primeiros passos do cinema em Portugal.
Chegado ao Porto - cidade percursora do cinema no país - onde funda a Invicta Filmes, empresa capaz de competir com as suas congéneres europeias e a maior da Península Ibérica e com a qual produz Mulheres da Beira (1923), a história de "Ana" (Brunilde Júdice), uma mulher que se apaixona fora da sua condição social e que por um amor não correspondido acaba por se suicidar.
No mesmo ano, e agora produzido pela Iberia Film, chegam Os Lobos, a primeira obra conhecida do cinema português que pode ser considerada etnográfica tendo, no entanto, sido um desastre financeiro e público fazendo com que Lupo se dirija a Madrid onde realiza Carmiña, Flor de Galicia em 1926 que surge como uma réplica de Mulheres da Beira mas com um final feliz onde o amor vence.
Para sentir os efeitos dos "loucos anos 20", Lupo regressa a uma Lisboa povoada por uma faixa etária mais jovem boémia que "almoços tardios e espectáculos de travestis no Trindade, danças exóticas no Teatro Variedades no Parque Mayer e chá com cocaína no Bristol", na qual prepara a sua longa-metragem seguinte, O Diabo em Lisboa (1928) que lança uma então desconhecida Beatriz Costa.
Deste primeiro segmento em que conhecemos um pouco do percurso do realizador, Lupo lança-se numa inesperada odisseia ao retratar e revelar algumas das salas de cinema desaparecidas ou "recicladas" do norte do país bem como uma ainda mais surpreendente visita ao interior do Cinema Odeon, em Lisboa - do mesmo oferecida uma panorâmica como último segmento do documentário partindo depois para um exterior geral da capital -, onde o espectador conhece o trágico destino de algumas das salas esquecidas do país e que tanta luz, cor e vida tiveram noutros tempos. Eventualmente o segmento mais trágico - pela sua condição - como nostálgico de todo este documentário, Lupo oscila entre estes dois momentos em que primeiramente se expõe um dos impulsionadores dos primeiros momentos do cinema português e que realizou obras emblemáticas do mesmo como os já referidos Mulheres da Beira, Os Lobos, Fátima Milagrosa ou até mesmo José do Telhado (1929) a sua obra mais controversa amada pela público e injuriada pela crítica pouco receptiva à mesma, e finalmente este relato das salas agora abandonadas à sua sorte (essa sim francamente trágica) algumas por onde estas obras passaram e que agora se limitam a um silêncio ensurdecedor ou realização de eventos que nada dignificam as paredes das mesmas.
E enquanto se celebra a obra e a sua importância no panorama artístico nacional, fora esquecido o homem. Rino Lupo desaparecera misteriosamente do país - facto que leva a que um dos comentários iniciais aproxime o espectador de um documentário baseado em suposições e conjunturas -, para finalmente ser revelado que no início da década de '30 este já se encontrava na sua Roma natal onde conhecera a sua filha de um primeiro casamento, seguindo depois em 1932 para a UFA em Berlim e finalmente regressando a Roma - em data incerta - onde viria a falecer em Janeiro de '36.
Com alguma dessa suposição (da equipa do documentário), ilustrado com comentários e também descobertas de alguns dos seus netos e documentação dos locais por onde passou dos filmes que realizou e das suas breves interpretações cinematográficas, Lupo expõe o homem realizador como uma figura incontornável sim, mas ao mesmo tempo como um homem misterioso, de paixões mas secreto, contido e esquivo deixando uma marca por onde passa mas não um grande número de factos que o coloquem durante muito tempo no mesmo espaço. Inquieto e com uma enorme vontade de criar mas reticente na sua presença - de facto - pelos locais e até mesmo pelas pessoas. Rino Lupo era um homem de um tempo "mais à frente", que cativava e sabia lidar com um mundo em completa transformação mas que, infelizmente, desapareceu cedo demais.
Cativante, francamente instintivo e a funcionar como um objecto de homenagem ao cinema e ao homem no cinema, Lupo é um documentário fascinante pela perspectiva história - mais ou menos verídica... com momentos ficcionados para os quais o espectador é devidamente alertado -, e capaz de despertar o interesse para com a obra do realizador assim como para os inúmeros espaços de cinema que revelam o interesse do povo por uma cultura cinematográfica que pode(rá) estar adormecida mas com uma intensa vontade de despertar.
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7 / 10
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