quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A Monster Calls (2016)

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Sete Minutos Depois da Meia-Noite de Juan Antonio Bayona é uma longa-metragem espanhola e a mais recente do realizador de El Orfanato (2007) e Lo Imposible (2012).
Connor (Lewis MacDougall) é um jovem emocionalmente perturbado que vive com a doença da mãe (Felicity Jones) e ainda vítima de bullying às mãos de alguns dos outros alunos da escola que frequenta.
Incapaz de enfrentar ambas as realidades, Connor desperta a atenção de um Monstro (Liam Neeson) que o visita para dele retirar a verdade que não quer assumir. Conseguirá Connor sobreviver às visitas deste Monstro ou irá permanecer num impasse emocional que desconhece?
Patrick Ness escreve o argumento de A Monster Calls adaptando a sua obra homónima naquele que é um filme que une fantasia e realidade numa história de contornos dramáticos e assumidamente de descoberta e crescimento. Desde os instantes iniciais desta obra, o espectador conhece o jovem "Connor" que vive inconscientemente dois importantes dilemas; o primeiro com a sua situação doméstica onde cuida de uma mãe vítima de um cancro. Sem pai ou com um distanciamento de uma avó que é - para ele - autoritária e controladora, "Connor" assume que a responsabilidade de todas as lides é apenas sua. Incapaz de aceitar que a sua mãe está fisicamente mal, "Connor" trata-a como um seu dever esquecendo que ele próprio ainda nem dele sabe cuidar. O segundo dilema, também ele relacionado com a temática da "aceitação" prende-se com a sua situação escolar e com o bullying de que é vítima e que sofre em silêncio deixando-se permanecer num anonimato social que perpetuam a sua condição. Se por um lado "Connor" sente-se incapaz de falar sobre o que o preocupa, por outro vive numa instabilidade emocional que o impedem de um crescimento livre e saudável.
É então que, inconscientemente, "Connor" encontra o seu único refúgio no conto imaginado de um monstro que habita nas traseiras da sua casa por debaixo de uma enorme árvore que contempla como receptáculo de algo por desvendar. Para ele o monstro que o visita é inicialmente um medo que o inquieta e deixa receoso quanto às suas intenções numa vida que é, desde o primeiro instante, já atormentada pela situação que vive tanto dentro como fora de portas. Assim, este novo elemento que percebemos ser só visível aos seus olhos poderá, de uma ou outra forma, constituir-se também ele, como mais um problema que "Connor" não sabe como resolver. Mas, este monstro vem com uma missão muito própria...
O "Monstro" - porque lhe desconhecemos uma identidade apenas revelada num detalhe muito particular - tem três histórias por contar. Três histórias de sobrevivência, de aprendizagem mas, sobretudo, três contos que não são tão simples como aparentam quando contados e carregam todo um conjunto de ensinamentos que se destinam a "tornar um pouco mais adulto" este jovem que já se assumiu como tal pela força das condições em que vive. O primeiro relata a história de um Rei que habitou aquelas terras muitos anos antes deles ali se encontrarem... Rei esse que, estando viúvo, volta a casar com uma mulher frívola e que, segundo rezava a lenda, o envenenou para usurpar o trono e expulsando o filho do Rei. A segunda história é a deste Príncipe que foge do reino com a sua amada para viver uma história de amor mas que, depois de adormecer debaixo de uma árvore - a mesma do "Monstro" - acorda com a sua amada morta às suas mãos. Finalmente, o terceiro conto, é a história de um homem rico que recusa cortar uma árvore para fornecer as suas raízes a um curandeiro até que estas são necessárias para cuidar da saúde das suas filhas moribundas. Entre verdadeiro amor (primeira história), a usurpação do poder (segunda história) e finalmente a vivência de um dilema moral (terceira história), todos estes relatos contados pelo "Monstro" têm um fundamento que obriga "Connor" a olhar para lá das supostas evidências que os contos lhe revelam obrigando-o não só a observar as acções para lá das impressões como também as palavras ditas em contraposição àquelas que foram relatadas pelo chamado senso comum. Será a nova Raínha assim tão má? Será o Príncipe assim tão bom? O homem rico assim tão altruísta? Existirão realidades mais profundas que desconhece(mos) ou tudo quanto é inicialmente apresentado pode ser discutido e percebido como uma realidade aparentemente mais fiável? Será tudo como inicialmente o percebemos... ou todas as histórias têm um lado (in)voluntariamente oculto que preferimos não ver?!
Mas o mais importante destas visitas deste "Monstro" não são as histórias que ele conta mas sim o anúncio daquilo que espera para a quarta noite. A esperança de que "Connor" conte, finalmente, a sua própria história... Aquilo que o preocupa, que ele não assumiu e que define - de forma geral - toda a sua breve existência num mundo que (lhe) parece distante, despreocupado e desinteressante. Quais são, afinal, os pensamentos que tem... os medos que sente... as esperanças que esconde? No fundo, quem é "Connor" para lá do jovem rapaz que vive num clima de medo desconhecido por todos aqueles com quem convive de uma ou outra forma?
Patrick Ness usa habilmente no seu argumento diversos elementos escondidos na mente de uma criança e que podem justificar muitos dos comportamentos tidos em situação de crise. Por outras palavras, existirá mesmo um monstro que só as crianças vêem? Quem são, ou o que pensam, quando deparadas com uma situação limite que não conseguem compreender ou justificar? Ou mais... Será que não conseguem de facto compreender que todo o seu mundo está a ruir e que são apenas os "mais velhos" que compreendem a real dimensão de um drama prestes a acontecer?!
Desta forma, em A Monster Calls ganham corpo todos estes elementos transformados em pequenas histórias de sobrevivências, de luta, de conquista e sobretudo de queda de barreiras psicológicas que (o) impedem de ver o mundo "mais ou menos" como ele é. Desde o sofrimento, tantas vezes ignorado ou incapaz de ser posto por palavras, de uma criança que percebe e sente - nunca o admitindo - a perda de um progenitor, ao distanciamento de outro que já tem uma nova família (e vida) com que se preocupar a uma difícil expressão do amor de uma avó que - não perceptível para ele mas sim para o espectador - não tem força para amar um neto quando se encontra a braços com a perda da sua única filha. A este distanciamento físico - do pai - e psicológico - da avó - para com as únicas duas pessoas que lhe restam no mundo após a partida de uma mãe que o tenta preparar - saberemos como apenas no final de A Monster Calls - juntam-se os seus próprios sentimentos de compreensão e aceitação da perda, ao silêncio de uma dor sentida mas não partilhada - afinal quem se preocupa com uma jovem criança quando os adultos também não sabem ou compreendem como lutar com a sua própria dor e a sensação de uma incapacidade de amar aqueles que dele estão ausentes - deixando-o entregue ao mundo imaginado (ou talvez não) que o próprio cria para se proteger de uma realidade que se aproxima.
Juan Antonio Bayona que conquistou todos e mais uns quantos como o seu El Orfanato e que voltou a bisar com Lo Imposible, recupera a temática da perda presente nestas duas obras mas principalmente muito da mística envolta na obra protagonizada por Belén Rueda. Ao contrário de Lo Imposible que sabemos ser o retrato de uma das muitas histórias verídicas que o trágico tsunami no Índico provocou, A Monster Calls é a junção de uma história que sim... pode ser real - a tal perda -, mas vista da perspectiva de uma criança que tenta desesperadamente perceber como lhe sobreviver, ou seja, a forma como "Connor" cria o seu próprio mundo para colmatar a sensibilidade afectiva que lhe falta para sobreviver àquilo que (secretamente) sabe ser uma inevitabilidade. Bayona recupera ainda a sua tradição em colocar uma jovem personagem no centro de toda uma trma... tivemo-lo em El Orfanato ainda que aqui apenas como o mote para que outra personagem tivesse um "rumo" para a sua história, mas segue sim o protagonismo tido em Lo Imposible onde um jovem adolescente encontra um evento traumático para se transformar num adulto... antes do seu tempo.
A capacidade de crescer e "envelhecer" antes do seu próprio tempo e a necessidade de encarar o mundo tal como ele é - momentos positivos à parte... os elementos negativos são aqueles que geram mais dificuldade em com eles lidar e conseguir ultrapassar - são o tema central desta obra de Ness e que Bayona dirige de forma irrepreensível através de uma abordagem que, para os adultos, possa fazer chegar um vislumbre de como os mais novos encontram forma de superar a dor, a perda ou até mesmo a incapacidade de adaptação face ao seu mundo.
Com alguns dos melhores técnicos do cinema de nuestros hermanos por detrás da execução de A Monster Calls - Óscar Faura na fotografia, Bernat Vilaplana e Jaume Martí na edição, David Martí e Montsé Ribé na caracterização, Oriol Tarragó e Marc Orts no som, Félix Bergés e Pau Costa nos efeitos visuais ou Fernando Velázquez na música -, Juan Antonio Bayona volta a entregar um sucesso imediato na bilheteira, e no cinema espanhol, ao qual junta nomes bem conhecidos do grande público como Felicity Jones e Toby Kebbell - os apaixonados da segunda história que é contada a "Connor" - como os pais distantes do jovem protagonista, Sigourney Weaver como sua aparentemente frívola avó - a Raínha (não tão) má do primeiro conto que lhe é revelado - e ainda Liam Neeson como o "Monstro" (e não só) - como o irascível curandeiro do terceiro e último conto - que o atormenta e faz crescer. Mas a grande revelação é sem dúvida Lewis MacDougall que oscila entre o inicialmente perturbado mas reservado jovem que aos poucos começa não só a verbalizar como também a transparecer nos seus comportamentos, toda a instabilidade emocional que sente pela aparente, e próxima, transformação de toda uma vida que fora, até então, vivida apenas na companhia de uma mãe que sentia e sabia, amá-lo incondicionalmente. MacDougall, e muito possivelmente Weaver, poderão ser nomeados ao Goya da Academia Espanhola de Cinema - e muito merecidamente - com estas duas interpretações que aparentam encontrar-se em lugares muitos distantes de um desenvolvimento emocional mas que, na realidade, são apenas o espelho - em gerações distintas - de uma mesma dor sentida, sofrida mas nunca confirmada.
Do conto sobre a realidade a uma história imaginada para retratar a mesma, A Monster Calls é a confirmação - mais uma - de que Bayona sabe contar e dirigir uma história... mesmo que tenhamos de passar anos à sua espera... que se apega à imaginação para filmar a tal realidade e que é nos pequenos detalhes, muitas vezes esquecidos no decurso de uma dramatização acentuada, que residem as respostas que não só ansiamos como explicam a origem de uma segurança que apenas tarde se confirma.
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"The Monster: This is the story of a boy to young to be a man... but too old to be a boy."
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10 / 10
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