segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Morrer no Mar (2015)

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Morrer no Mar de Sérgio Galvão Roxo é uma curta-metragem portuguesa de ficção presente na competição In My Shorts da vigésima edição do QueerLisboa - Festival Internacional de Cinema Queer que decorreu no Cinema São Jorge, em Lisboa entre os passados dias 16 e 24 de Outubro.
Uma mulher (Isa Viegas) e um homem (Pedro Velho) encontram-se. Em breves minutos de viagem falam sobre alguém que já não têm. Ambos o amaram. A distância parece ser o único destino.
Sérgio Galvão Roxo e Pedro Velho escrevem o argumento desta curta-metragem que reflecte sobre a existência de um presente fortemente marcado por um passado que é - ao espectador - desconhecido. A relação tida entre estas duas almas que numa breve viagem de automóvel parecem despedir-se sem retorno das vidas que então tiveram não chega - para eles e para nós - para firmar uma redenção desse passado tido e distante. Pelas suas palavras apenas transparece que ambos amaram um mesmo homem... Um pai? Uma paixão em comum? A distância temporal aqui exercida parece funcionar (na perspectiva do espectador) como o resultado de uma memória longínqua que ambos percebem ter vivenciado mas que é agora algo praticamente esquecido e que já não possuem.
"Ela" (Viegas) mostra-se amargurada - brilhante registo da actriz que se note -, procura-o mas a comunicação entre os dois é praticamente inexistente. Vive na sombra desse amor tido e já não concretizado e na (vã) esperança de poder manter com "Ele" (Velho) algo que já está perdido. Já "Ele", por sua vez apresenta-se como alguém que mantém inúmeras relações de ocasião... com mulheres que encontra pelo seu caminho e com homens com os quais se envolve sexualmente e de forma violenta como uma penitência que cumpre sem qualquer percepção de prazer ou sentimento. Sem qualquer tipo de ligação aparente e uma relação que mais não é do que uma memória escondida no passado, ambos fazem esta viagem de automóvel a última linha que os separa de duas vidas diferentes, distantes e sem qualquer possível intimidade (familiar, sentimental, (...)). Enquanto a viagem dela continua... e segue outro caminho. Quase sem palavras parecem imóveis no seu trágico e diferente destino.
Com uma linha narrativa que deixa o espectador imaginar os porquês desta aparente separação (?), e um conjunto de silêncio que parecem querer gritar por algo que ficou por dizer, Sérgio Galvão Roxo dirige aquele que é o seu mais emblemático filme curto - à data - e um que me deixa enquanto crítico e espectador ansioso pelo seu próximo. O registo de um passado que se percebe sentido e doloroso sem que, no entanto, este seja discutido ou alvo de uma reflexão e expiação deixa o espectador num impasse sobre duas personagens que não sendo propriamente afáveis ou de empatia com o mesmo registam, no entanto, a elevada curiosidade que suscitam. Estas vidas não (nos) são indiferentes e percebemos que os seus olhares escondem mais do que a apatia que inicialmente transparecem.
Intenso e capaz de fazer transparecer toda uma dor (ela) e indiferença (ele), Morrer no Mar chega com uma turbulência maior que não só não nos deixa indiferentes como também expectantes e curiosos sobre aquilo que os separa mas insistentemente os faz cruzar os seus caminhos.
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8 / 10
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